sábado, 26 de novembro de 2011

CANTO E MÚSICA NA LITURGIA - Sobre a Música Sacra

Aos músicos compositores e dirigentes do Ministério de Música Sacra e Litúrgica e a todos os fiéis católicos, músicos e cantores, descrevo aqui as decisões e normas do Sacrossanctum Concílium e disposições gerais sobre a reforma da música sacra e seu emprego na Liturgia da Igreja. Suas normas e orientações para a verdadeira prática da Pastoral da música sacra segundo as decisões do Santo Concílio e do Santo Padre o Papa para seu verdadeiro emprego afim de instruir todo povo de Deus.  


IMPORTÂNCIA PARA  A LITURGIA

112. A tradição musical na Igreja é um tesouro de inestimável valor, que excede todas as outras expressões de arte, sobretudo porque o canto sagrado, intimamente unido ao texto, constitui parte necessária ou integrante da Liturgia solene. Não cessam de enaltecer, quer a Sagrada Escritura, quer os santos Padres e os Romanos Pontífices, que ainda recentemente a começar em S. Pio X, vincaram com mais insistência a função ministerial da música sacra no culto divino.

A música sacra terá por isso, tanto quanto mais intimamente unida  estiver a ação litúrgica, quer como expressão delicada da oração, quer como fator de comunhão, quer como elemento de maior solenidade nas funções sagradas. A Igreja aprova e aceita no culto divino todas as formas autênticas de arte, desde que dotadas das qualidades requeridas. O Sagrado Concílio, fiel às normas e determinações da tradição e disciplina da Igreja, e não perdendo de vista o fim da música sacra, que é a glória de Deus e a santificação dos fiéis, estabelece o seguinte:

113. A ação litúrgica reveste-se de maior nobreza quando é celebrada de modo solene com canto, com a presença de ministros sagrados e a participação ativa do povo. Observe-se, quanto à língua a usar, o art. 36; quanto à Missa, o art. 54; quanto aos sacramentos, art. 63; e quanto ao Ofício Divino, o art. 101.

PROMOÇÃO DA MÚSICA SACRA

114. Guarde-se e desenvolva com diligência o patrimônio da música sacra. Promovam-se com empenho, sobretudo nas igrejas catedrais, as "Scholae cantorum", (escola de canto). Procurem os Bispos e demais pastores de almas que os fiéis participem ativamente das funções sagradas que se celebram com o canto, na medida que lhes competem, segundo os arts. 28 e 30.

115. Dê-se grande importância nos seminários, noviciados e casas de estudo de religiosos de ambos os sexos, bem como noutros institutos e escolas católicas, à formação e prática musical. Para o conseguir, procure-se preparar também e com muito cuidado os professores que terão a missão de ensinar a música sacra. Recomenda-se a fundação, segundo as circunstâncias, de institutos superiores de música sacra. Os compositores e os cantores, principalmente as crianças, devem receber também uma verdadeira educação litúrgica.

116. A Igreja reconhece como canto próprio da Liturgia romana o canto gregoriano; terá este, por isso, na ação litúrgica, em igualdade de circunstâncias, o primeiro lugar. Não se excluem todos os outros gêneros de música sacra, normalmente a polifonia, na celebração dos Ofícios divinos, desde que estejam em harmonia com o espírito de ação litúrgica, segundo o orientação do art. 30.

117. Procure-se terminar a edição típica dos livros de canto gregoriano; prepare-se uma edição mais crítica dos livros já editados depois da reforma de S. Pio X. Convirá preparar um edição com melodias mais simples para uso das igrejas menores.

118. Promova-se muito o canto popular religioso, para que os fiéis possam cantar tanto nos exercícios piedosos e sagrados, como nas próprias ações litúrgicas, segundo o que as rúbricas determinam.

ADAPTAÇÃO ÀS DIFERENTES CULTURAS

119. Em certas regiões, sobretudo nas Missões, há povos com tradição musical própria, a qual tem excepcional importância na sua vida religiosa e social. Estime-se como deve e dê-se-lhe o lugar que lhe compete, tanto na educação do sentido religioso desses povos como na adaptação do culto à sua índole, segundo os arts. 39 e 40. Por isso procure-se cuidadosamente que, na sua formação musical, os missionários fiquem aptos, na medida do possível, a promover a música tradicional desses povos nas escolas e nas ações sagradas.

INSTRUMENTOS MUSICAIS SAGRADOS

120. Tenha-se um grande apreço na Igreja Latina o órgão de tubos, instrumento musical tradicional e cujo som é capaz de dar às cerimônias do culto o esplendor extraordinárioe elevar poderosamente o espírito para Deus.

Podem utilizar no culto divino outros instrumentos, segundo o parecer e com o consentimento da autoridade territorial compete, conforme o estabelecido nos arts. 2, 37e 40. Contanto que esses instrumentos estejam adaptados ou sejam adaptáveis ao uso sacro, não desdigam da dignidade do templo e favoreçam realmente a edificação dos fiéis.

NORMAS PARA OS COMPOSITORES

121. Os compositores possuídos do espírito cristão compreendam que são chamados a cultivar a música sacra e aumentar-lhe o patrimônio. Que as suas composições se apresentem com as características da verdadeira música sacra, possam ser cantadas não só pelos grandes coros, mas se adaptem também aos pequenos e favoreçam uma ativa participação de toda assembléia dos fiéis.
Os textos destinados ao canto sacro devem estar de acordo com a doutrina católica e inspirar-se sobretudo na Sagrada Escrituras e nas fontes litúrgicas.   




VAMOS APRENDER? 


Todos músicos e cantores sacros devem estar atentos que: 





A música sacra não foi feita para outro fim senão nos elevar até Deus, é forma de Oração que enaltece o culto sagrado mas não pode ser descaracterizada de seu objetivo principal. O Sacrossantum Concilium  vem nos mostrar que a música é sem dúvida uma das formas mais poderosas de nos colocar na presença de Deus e desfrutar de sua glória. Porém os cuidados que o músico e o cantor sacro deve observar é para não querer pesar demais as melodias, e as letras com coisas que não tem nada a ver com a liturgia. Por isso há que se respeitar o seguinte:

  1. Não fazer da Igreja um palco. A santa Missa, o culto ou qualquer forma de celebração não é um teatro nem um show. Por isso, é recomendável que  os músicos fiquem atentos para não querer aparecer de mais, nem usar roupas extravagantes, nem provocar muita euforia na assembléia, de modo que, pareça que estão em um salão de baile. Tomar cuidado com os ritmos mais contagiantes de modo a não fazer da igreja (casa de oração) um salão de baile. Também observar os momentos em que as palmas de aclamação podem ser propícias ou não. Por exemplo: é errado bater palmas durante ou após a consagração, ou mesmo durante a exposição do Santíssimo Sacramento, momento  solene, em que se deve adquirir respeito pela presença real de Jesus Eucarístico. Pode-se bater palmas após aclamação do Evangelho, durante a apresentação da Palavra de Deus, quando a Missa for festiva e não solene. Os músicos e cantores devem usar roupas discretas, sem muita extravagância, evitar vestidos com decotes indecentes e os rapazes com roupas decentes para o ambiente, respeitando o lugar sagrado.      
  2. Evitar impor sempre o gosto pessoal, tem dirigente que quer cantar só o que lhe agrada. Se esquecendo das orientações da Igreja.
  3. Cantar só por cantar. Quem assim age não pode nunca ser um bom cantor, porque faltará sempre bom gosto e boa vontade. Cantar sem compromisso, de qualquer maneira, sem afinação de voz e de instrumentos, cantar e tocar sem antes ter ensaiado, além de empobrecer o músico e o cantor(a), também empobrece muito a Liturgia.  
  4. Só toco se for do meu jeito. A música possui letras, partituras próprias e muitas vezes pode sofrer alterações para melhorar a harmonia. Cabe ao dirigente ou o maestro saber o que fazer mas se deve esforçar para não distorcer o sentido da harmonia. Eu não posso querer simplesmente tocar do meu jeito. Devo esforçar-me para seguir se possível o que foi escrito pelo autor. Respeitando o que está escrito na partitura. Devo ter espírito de cooperação para ser subordinado às orientações do meu coordenador ou do maestro da equipe. 
  5. Ir sempre contra a idéia da equipe de celebração e do padre. Antes de sermos críticos com a equipe de celebração e com o padre devemos ajudar a implementar  a liturgia tornando-a mais rica.  
  6. Escolher sempre as mesmas músicas. A Igreja possui um livro de Orientações Musicais para os cantos litúrgicos de acordo com o tempo litúrgico estabelecido. É o HINÁRIO LITÚRGICO NACIONAL da CNBB.  A equipe do Canto Pastoral Litúrgico deve estar atenta que fica cansativo sempre cantar as mesmas músicas, não querer ensaiar outras novas. Deixa a Igreja mais pobre liturgicamente. 
  7. Procurar sorrir e usar instrumentos bem afinados. O cristão deve ser alegre. A alegria no Senhor Jesus Ressuscitado, a celebração não é um velório. Devemos sorrir estar alegres, nos sentirmos em casa e como irmãos. O sorriso expressa que você se sente feliz por participar da Comunidade de Jesus. Por outro lado o músico deve tomar o cuidado de afinar seu instrumento. Não há coisa pior do que ouvir um instrumento desafinado. Ouvidos devem estar atentos. O bom músico chega mais cedo na Igreja para corrigir estes problemas. Lembre-se que uma boa educação musical passa pela afinação correta do instrumento. O mesmo se aplica aos cantores. É importante corrigir a voz, se esforçar por cantar afinado e no tom correto, principalmente as partes de solo e os salmos.
  8. Não se deve tocar e cantar músicas de novelas, filmes e adaptações de músicas populares em cerimônias religiosas. Principalmente nos casamentos e aniversários. Existe músicas próprias dentro da Igreja para esse fim. Quando cantamos uma letra religiosa adaptada em música popular, quem as ouve se lembra diretamente da música profana e não da letra religiosa. Quem faz isso mostra que possui pouca cultura musical. O mesmo orienta a não colocar músicas religiosas em músicas "da parada".  
  9. Não se deve afinar instrumentos durante a missa. Se acontecer de desafinar um instrumento, retire-se discretamente vá a outro local e afine. Se for o caso tenha sempre um afinador (ou diapasão) com você para auxiliá-lo.  
  10. Estudar Liturgia. É dever do dirigente ou do maestro procurar estudar a liturgia. Saber o que se passa, como as leituras, o salmo o Evangelho do dia, etc.  Procurar passar uma boa mensagem através da música mas sem esquecer do foco principal que é evangelizar.
  11. Prestar atenção na letra do canto. É importante prestar atenção, ler a a letra do canto, não cantar de cor. Pois corre-se o risco de a letra dizer uma coisa e você cantar outra, desfocando a mensagem própria da música. Também é muito importante que se adquira o hábito de soletrar bem as últimas palavras da frase da música de modo a complementar a melodia e apurar mais o idioma.
  12. Ler previamente o Evangelho antes de escolher as músicas. A liturgia requer que se faça uma leitura prévia para que se possa combinar as músicas que serão cantadas com a mensagem passada pelo Evangelho. O músico ou o dirigente do coro deve estar atento.
  13. Evitar cantar muito forte no microfone, ou seja o seu deve ser mais alto. Na música existem momentos próprios onde se exige, mais forte, mais suave, suave, suavíssimo. Não pode o músico cantar toda a música sem a disciplina de voz, tampouco não dar oportunidade ao(s) outro(s) e querer que sua voz seja sempre a primeira. Além de esgoísmo e falta de educação musical é falta de caridade, porque agride os ouvidos de quem está ouvindo.
  14. Evitar colocar o volume dos instrumentos mais alto do que as vozes dos microfones.
  15. Evitar cantar tudo sozinho, ou querer que o coro cante tudo sozinho. As igrejas devem possuir os grupos de sustentação do canto. Isto é um grupo de ajuda a sustentar os cantos na celebração, mas quem canta é toda assembléia. Não separadamente. Por isso recomenda-se que se cante músicas que o povo conhece desde que seja aplicável à liturgia do dia. 
  16. Evitar o exibicionismo. Igreja não é palco, não é show. A liturgia é Oração. Vivida e participativa. O ministério de música é um serviço pastoral.
  17. Evitar distrair a assembléia com conversas paralelas.
  18. Procurar avisar o celebrante as horas que serão cantadas.
  19. Um bom ensaio e uma boa escolha das músicas é muito importante. Principalmente o ensaio dos instrumentos musicais que exige afinação; o coro deve sempre zelar pela conservação dos ensaios, evitar o improviso. Não querer ensaiar tudo antes da missa.  
  20. Evitar cantar músicas desconhecidas. Cantar músicas desconhecidas é um hábito que a maioria dos grupos de canto possui. Isto deve ser evitado porque tira a oportunidade da assembléia participar.  
  21. Evitar tocar instrumentos de percussão e contrabaixo muito alto dentro da igreja.
  22. Evitar usar roupas extravagantes, que chame muita atenção, decotes, camisetas, saias curtas. Zelar pela decência.
  23. Evitar fazer de conta que está mum show de rock.
  24. Evitar perder o contato com assembléia. Isto é, distanciar-se da participação com a assembléia tomando pelo rumo do individualismo. A Liturgia exige a participação de todos.
  25. Evitar tocar e cantar músicas fora do Tempo Litúrgico.
  26. Evitar fazer muito barulho.
  27. Respeitar o silêncio sagrado. Isto é, respeitar espaço de silêncio após a comunhão. Salvo se a missa for transmitida.
  28. Procurar ter espaços para a Oração dentro do grupo.
  29. Procurar a simplicidade e a humildade evitando  elogiados. Aceitar as críticas a fazer o possível para o bom desempenho do mesmo. Nunca dizer: "eu sou bom, somos o máximo etc."
  30. Procurar estar atentos aos horários dos ensaios,  chegar pelo menos meia hora antes da celebração.  
  31. PROCURAR TER ASSEIO E CUIDADO COM OS INSTRUMENTOS MUSICAIS E EQUIPAMENTOS DE SOM, DE MODO A MANTÊ-LOS SEMPRE LIMPOS E REGULADOS.
  32. Evitar tocar muito forte os instrumentos de percussão para não desconcentrar a assembléia e atrapalhar o clima de oração. O mesmo vale para instrumentos como contra-baixos elétricos. Um bom conjunto deve dar a oportunidade de aparecer todos os instrumentos utilizados na música de modo que cada um tenha sua utilidade durante a execução da música, estabelecendo o respeito pela escrita da partitura, ou ainda pela composição da harmonia em que se pede. O bom músico e o bom cantor (a), sabe que deve ter ouvidos atentos para escutar o colega  ao lado sem desligar de sua parte a ser executada, tendo respeito para que seu instrumento ou a sua voz não sobressaia a dos outros. Existe na música momentos de solo, de coro, de solo instrumental etc. No coro cada um deve respeitar e valorizar o estado de execução da música como uma casa que se edifica colocando cada material no seu lugar, cada qual com sua importância se faz necessário para a construção, na medida certa e na hora certa. Assim o cantor e o músico deve edificar a espiritualidade musical e os valores da música durante a execução.                                        
LEMBRE-SE SEMPRE QUE: TOCAR BEM E COM GOSTO É FAZER UMA CARIDADE AOS NOSSOS OUVIDOS E AOS OUVIDOS DOS QUE TE ESCUTAM. 

REZAR OU CANTAR A LITURGIA?

Da Revista de Aparecida. Ed. 08/11
Texto de Pe. José Ulysses, CssR.

Atualmente nossas celebrações são cheias de cânticos. Não se percebe a diferença entre um dia comum, um dia de festa ou uma grande solenidade.

Cantam-se o cântico de entrada, o Ato penitencial, o Glória, o Salmo de meditação, a Aclamação ao Evangelho, o canto das Oferendas, o Santo, o cântico de comunhão e o cântico final, além de alguns cantos a mais, inseridos aqui e ali. Ainda bem que, em boa parte das comunidades, a comunidade consegue cantar junto com o coral.

Mas, é lamentávelquando os cânticos são desconhecidosou são executados apenas pelo coral ou até por um solista. Ou ainda, quando os cânticos, mesmo conhecidos por todos, nada tem a ver com a liturgia, ou a celebração do dia.

Vale apena fazer uma boa revisão dessa tradição, criada apenas nas últimas décadas. A Celebração litúrgica não deve ser uma rotina nem um show de cantoria. Em primeiro lugar, seria muito importante alternar entre cantar e rezar os textos litúrgicos. Quando se canta o Ato Penitencial, poder-se-ia deixar que o Glória fosse rezado e vice-versa. O Salmo de meditação pode ser recitado nos dias comuns ou cante-se apenas o responsório.

O Cântico das Oferendas deve ser omitido de vez em quando, para permitir que a comunidade ouça as Orações que são feitas na apresentaçãoda hóstia e do vinho e aprenda as respostas a cada oração. Mesmo o "Santo" pode ser, às vezes, apenas rezado. E seria muito bom que as aclamações à Oração Eucarística fossem cantadas de vez em quando. Enquanto possível, o Cântico da Comunhão seja realmente de comum-união sacramental cantos e letras intimistas, que não expressam a dimensão da Comunhão eclesial fraterna entre os participantes da celebração. Sem dúvida, deve cantar-se muito mais, quando se trata de uma solenidade importante, e um pouco menos, quando se trata de um domingo comum. Afinal, o canto jamais deve cansar a comunidade, mas ser, de fato, uma Oração comunitária  com melodia. Só assim, quem canta, reza duas vezes.


DO PONTO DE VISTA TEOLÓGICO


  1. A Música Litúrgica brota da vida da comunidade de fé. É na contemplação da passagem do Eterno no devir da Natureza e no correr da História... é na intuição do Mistério de Cristo no cotidiano das pessoas e grupos humanos, que o autor, o compositor litúrgico encontra sua fonte de primeira inspiração.
  2. A música litúrgica reflete necessariamente o Mistério da Encarnação do Verbo e, por isso mesmo, assume as características culturais da música de cada povo, nação ou região.
  3. A Música Litúrgica se enraíza na longa tradição bíblico-litúrgica judaica e cristã. Desta tradição recebe a seiva que lhe garante a identidade, bem como o incentivo a beber na rica fonte dos salmos e demais cânticos bíblicos do Antigo e do Novo Testamento. As melhores composições produzidas ao longo da experiência celebrativa das Igrejas, todas elas de todas as inspiração bíblica, são também nossas melhores referências.
  4. A música litúrgica se insere na dinâmica do memorial, própria e original da tradição judaico-cristã: é canto, são palavras, melodias, ritmos, harmonias, gestos, danças... a serviço da recordação dos fatos salvíficos, um passado significativo que aflora acontecimentos, no hoje, no aqui-agora da comunidade cristã,a qual prolonga a experiência da Mãe do Senhor, de quem se diz que guardava todas estas coisas, meditando-as em seu coração (Lc2, 19; cf. 51b).
  5. A Música Litúrgica tem o papel pedagógico de levar a comunidade celebrante a penetrar sempre mais o Mistério de Cristo. Por sua força e suavidade, capacita-a, com singular eficácia, a experimentar e entender, com todos os santos, qual a largura, o comprimento, a altura, a profundidade... (...) O amor de Cristo, que ultrapassa todo conhecimento (Ef 3, 18-19).
  6. A Música Litúrgica brota da Ação do Espírito Santo, que suscita na assembléia celebrante o fervor e alegria pascais, provocando em quem canta uma atitude de esperança e amor, diante da realidade em que vive. Sua tônica principal é e será sempre alegria escatológica: mesmo vivendo em meio as rupturas dolorosas de todo tipo de opressão, exclusão e morte, a Música Litúrgica expressa e esperança de um novo céu e uma nova terra (Ap 21, 1; cf. Is 65, 17)
  7. A Música Litúrgica, ao seu modo e por sua vez, expressa, finalmente, a natureza e sacramentalidade da Igreja, Povo de Deus, Corpo de Cristo, na diversidade de seus membros e mistérios, já que há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. Há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. Há diferentes atividades, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos. A cada um é dada a manifestação do Espírito, em vista do bem de todos. (1Cr 12, 4-7)                       

DO PONTO DE VISTA ESTÉTICO

A Música Litúrgica, ao mesmo tempo, brota da cultura musical do povo, de onde provêm os participantes da assembléia celebrante. Nesta cultura, então, é que, prioritariamente, busca e encontra gêneros musicais que melhor se encaixem na variedade dos Tempos Litúrgicos, das festas e dos vários momentos ou elementos e rituais de cada celebração: toda linguagem musical é bem vinda, desde que seja expressão autêntica e genuína da assembléia.

A Música Litúrgica privilegia a linguagem poética. Toda autêntica experiência de oração é antes de tudo uma experiência poética, e a linguagem poética, portanto, é a que mais se ajusta no caráter simbólico da Liturgia. Evitem-se portanto, textos de cunho explicativo ou didático, textos doutrinários, catequéticos, moralizantes ou ideologizantes, estranhos à experiência propriamente celebrativa.

A Música Litúrgica prioriza o texto, a letra, colocando tudo mais a serviço da plena expressão da palavra, de acordo com os momentos e elementos de cada rito. Uma coisa é musicar um texto para um canto de abertura, outra coisa é musicar o texto como salmo responsorial; uma coisa é musicar uma aclamação ao Evangelho, outra, musicar um texto para procissão das oferendas ou da comunhão; outra é musicar a aclamação angélica do 'Santo', uma coisa é musicar prece eucarística, outra, bênção da água batismal. Outra, ainda, no invitatório do Ofício Divino; uma coisa é musicar um repertório para o tempo da Quaresma; outra musicar um repertório para a festa do Natal... Muito vai depender da própria experiência litúrgico-espiritual de quem compõe ou da assembléia para a qual se compõe.

A Música Litúrgica é chamada a realizar perfeita simbiose (combinação vital) entre a palavra (texto, letra) e a música que a interpreta. Essa simbiose implica, inclusive, em que o texto seja composto de tal maneira que a métrica e a cadência dos versos, bem como os acentos das palavras sejam convenientemente levados em conta pela música, evitando os descompassos, desencontros e dissonâncias entre o embalo da música e a cadência dos versos ou os acentos de cada palavra.

A Música Litúrgica prescinde de tensões harmônicas exageradas. A riqueza de expressão do sistema modal do canto gregoriano e a grandiosidade da polifonia sacra continuam sendo referenciais inspiradores para quem se dedica a fazer litúrgico-musical.

A Música Litúrgica, ao ser executada, embora se destine a ser expressão autêntica de tal ou qual assembléia, prima manter-se fiel à concepção original do(a) autor(a), conforme está expressa na partitura, sob pena de perder as riquezas originais da sua inspiração e, consequentemente, empobrecer-lhe a qualidade estética e densidade espiritual.

Exultai, justos, no Senhor, que merece o louvor dos que são bons. Louvai o Senhor com a cítara, a harpa de dez cordas  cantai-lhe. Cantai-lhe um canto novo, tocai a cítara com a arte, bradai (Sl 33, 1-3).                 


DO PONTO DE VISTA PASTORAL

A Música Litúrgica, por um lado encama as finezas e o cuidado do Bom Pastor para com seu rebanho. Quem exerce algum tipo de ministério litúrgico musical prima, então, por adequar-se à diversidade dos ambientes sociais e culturais, às vivências e contingências do cotidiano, às possibilidades e limitações da assembléia. Cabe-lhe portanto, com sensibilidade e sensatez, não só ajudar na escolha, no aprendizado e na utilização do repertório mais conveniente, mas também cuidar oportunamente da formação litúrgico-musical da assembléia.

A Música Litúrgica, por outro lado, reflete quela solidariedade que caracteriza os discípulos de Cristo na sua relação com toda humanidade,pois "as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também  as alegrias e esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo. Não se encontra nada de verdadeiramente humano que não lhes ressoe no coração. (...) Portanto a comunidade Cristã se sente verdadeiramente solidária com o gênero humano e com sua história.

A Música Litúrgica, enfim, é fruto da inspiração de quem vive inserido(a) no meio do povo e no seio da comunidade eclesial, em profunda sintonia com o Mistério de Cristo, contemplado à luz das Escrituras, no dia-a-dia da  vida.
Uma música assim produzida leva a assembléia a celebrar, como Maria na casa de Isabel,  a ação transformadora e libertadora do Deus-Pastor. O Cântico de Maria, port sinal, cantado nas tardes no Ofício de Vésperas e no momento da comunhão nas festas marianas, é a grande referência do canto da Igreja, onde cada autor e compositor, deveria se espelhar.        
                  
INTRODUÇÃO GERAL DO MISSAL ROMANO


IMPORTÂNCIA DO CANTO


39. O apóstolo exorta os fiéis, que se reúnem à espera da vinda do Senhor, a que unam suas vozes para cantar hinos, salmos e cânticos espirituais (cf. Cl 3, 16). O canto é o sinal de alegria do coração (Cf. At 2, 46). Bem dizia Santo Agostinho: "Cantar é próprio de quem ama" [1]. E vem já de tempos antigos o provérbio: "Quem bem canta, duas vezes reza". 


40. Deve ter-se, pois, em grande apreço o canto da celebração da Missa, de acordo com a índole dos povos e as possibilidades de cada assembléia litúrgica. Embora não seja necessário necessário cantar sempre, por exemplo nas Missas feriais, , todos os textos que, por si mesmos, se destinam a ser cantados, deve no entanto procurar-se com todo cuidado que não falte o canto dos ministros e do povo nas celebrações que se realizam nos domingos e festas de preceito.


 NA ESCOLHA DAS PARTES QUE EFETIVAMENTE SE CANTAM, DÊ-SE PREFERÊNCIA ÀS MAIS IMPORTANTES, SOBRETUDO ÀS QUE DEVEM SER CANTADAS PELO SACERDOTE OU PELO DIÁCONO OU PELO LEITOR, COM RESPOSTA DO POVO. BE COMO ÀS QUE PERTENCE AO SACERDOTE AO PROFERIR CONJUNTAMENTE [2].


41. Em igualdade circunstâncias, dê-se primazia ao canto gregoriano, como canto próprio da Liturgia romana. De modo nenhum deve excluir outros gêneros de música sacra, principalmente a polifonia, desde que correspondam ao espírito de ação litúrgica e favoreçam a participação de todos os fiéis [3].


Dado que hoje é cada vez mias frequente o encontro de fiéis de diferentes nacionalidades, convém que eles saibam cantar em latim pelo menos algumas partes do Ordinário da Missa, sobretudo o símbolo da fé e a oração dominical, nas suas melodias mais fáceis. [4]


[1] Santo Agostinho de Hipona, Sermão 336: PL 38, 1472.


[2] Cf. S. Congregação dos Ritos, Instr. Musicam sacram, 5 de março de 1967, 7 , 16:AAS 59 (1967) 302, 305.


[3] Cf. II Conc. Do Vaticano. sobre a Sagrada Liturgia, Sacrossanctum Concilium, 116; Cf. também Ibidem, 30.


[4] Cf. II Coc. Vaticano, Const. sobre a Sagrada Liturgia, Sacrossanctum Concilium, 54; S. Cogregação dos Ritos, Instr. Inter Oecumenici, 26 de setembro de 1964, n. 90: AAS 56 (1964)  897; Instr. Musicam sacram, 5 de março de 1967, 47: AAS 59 (1967) 314.         

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