quinta-feira, 22 de outubro de 2015

OS EVANGELHOS QUE NÃO ESTÃO NA BÍBLIA - OS APÓCRIFOS DO NOVO TESTAMENTO - PARTE 1


EVANGELHOS APÓCRIFOS


O PROTO-EVANGELHO DE TIAGO
O EVANGELHO DE TOMÉ
O EVANGELHO DE FILIPE
EVANGELHO GNÓSTICO DE JOÃO
O EVANGELHO DE MARIA MADALENA
EVANGELHO DE TOMÉ O ISRAELITA - A INFÂNCIA DE JESUS
EVANGELHO DE JUDAS ISCARIOTES
EVANGELHO DE NICODEMOS SUMO SACERDOTE E DISCÍPULO DE JESUS - Sobre a descida do 
Salvador ao Inferno. 
A GLORIOSA ASSUNÇÃO DE MARIA, SEGUNDO O APÓSTOLO JOÃO; "SUA PASSAGEM"

INTRODUÇÃO

Os evangelhos apócrifos um dia pertenceram a Bíblia Sagrada e foram um dia retirados porque os santos padres achavam que eles não eram inspirados, ou que continham informações controversas que precisavam ser explicadas. Mas, encontramos neles muitas informações. Muitos desses escritos deixaram de ser estudados caíram no esquecimento, por conter uma linguagem ora muito explícita, ora cheia de incógnitas que precisam ser respondidas. 

Mas isso não significa que eles não tenham importância inclusive histórica, porque, por muitos séculos a Igreja se utilizou deles para construir uma ideia da pessoa humana e divina de Jesus Cristo, e, à partir deles pôde-se ter referências por exemplo, do nome dos avós de Jesus, Joaquim e Ana que não aparece nos Evangelhos inspirados.

Eles ajudam a esclarecer algumas questões teológicas como a Imaculada Conceição e a pureza virginal de Maria de Nazaré, onde somente nesses evangelhos encontra-se uma referência muito forte à respeito que não se encontra nos outros evangelhos tidos como inspirados. Também a questão dos irmãos, irmãos bastardos, filho de José. Em lugar algum dos evangelhos inspirados encontramos explicações sobre esses meios-irmãos de Jesus senão nos apócrifos. 

Por uma decisão da Igreja muitos escritos se perderam no tempo, ou foram esquecidos e guardados nas cavernas porque estavam proibidos de serem divulgados. Uns constituem cópias autênticas ou outras não. É o caso do Evangelho de Judas Iscariotes, que embora atribuído a ele, não se pode afirmar se de fato foi ele mesmo que o escreveu. Pois, muitos escritos, e obras daquele tempo, eram comuns dos autores atribuírem o título à obra de uma outra pessoa famosa, como é o caso de Judas Iscariotes. Muitos desses escritos são mais velhos que os evangelhos inspirados. 

Mas também existem muitos desses escritos que possuem certa veracidade e muita informação que para aqueles primórdios do cristianismo traziam muito fanatismo, e muita confusão teológica. Foi o que levou São Jerônimo a reescrever a Bíblia, retirando dela certas traduções que nada tinham a ver com os originais do Hebraico e do Grego. 
Mas, não significa que os evangelhos apócrifos são livros malditos que não podem ser apreciados, lidos ou são proibidos de consulta. A palavra apócrifo embora pareça uma palavra que soa estranho, significa "à parte" então, os evangelhos apócrifos são os que estão à parte da Bíblia.
Existem algumas denominações cristãs que ainda utilizam esses evangelhos. E nada tem de contrário se os mesmos  forem utilizados com cuidado e sem fanatismo.
Como também ninguém é obrigado a crer nos evangelhos apócrifos, assim como os quatro: Mateus, Marcos, Lucas e João.                     

Este "Proto-Evangelho de Tiago", também conhecido como "Livro de Tiago" ou, Ainda, "A Natividade de Maria", tem sua autoria atualmente tida como desconhecida, embora o autor se identifique como Tiago, provavelmente para oferecer um certo grau de credibilidade ao seu escrito. Trata-se de um texto chamado de apócrifo, não incluído pela Igreja no Cânon das Escrituras autênticas e divinamente, que até hoje não foi explicado adequadamente. Se inspirados ou não, são relatos dos primeiros tempos do Cristianismo, importantes para quem deseja conhecer a fundo essa religião. Os críticos, porém, não concordam que esta obra tenha como autor um judeu em virtude do desconhecimento que o autor parece ter da religião judaica.

A data de composição é tão discutida quanto a sua autoria, variando de 60 d.C até o fins do séc. II. Boa parte dos estudiosos crê que a obra tenha surgido antes mesmo dos Evangelhos canônicos de Mateus, Marcos, Lucas e João inspirados (servindo, em muitos aspectos, como base para estes), motivo pelo qual, a partir do séc. XVI passaram a chamar a obra de "Proto-Evangelho", isto é, "primeiro Evangelho". Seja como for, o fato é que teve grande estima entre os primeiros cristãos, incluindo grandes figuras eclesiásticas como Clemente de Alexandria, Orígenes, São Justino e Santo Epifânio. Também notável foi sua contribuição para a Mariologia e a liturgia da Igreja.

A obra se inicia com o nascimento de Maria Santíssima, sua consagração noTemplo, o casamento com José, a concepção de Jesus, a visita dos Reis Magos e a perseguição e matança das crianças inocentes.

Alguns pontos chamam a atenção: · os nomes dos pais de Maria: Joaquim e Ana; esta é estéril; · Maria é consagrada ao Templo aos 3 anos de idade e lá fica até completar os 12 anos; José é então escolhido para ser o esposo de Maria, por ser viúvo, embora fosse velho e tivesse seis filhos: Judas, Josetos, Tiago, Simão, Lígia e Lídia (cf. Mc 6,3 e paralelos); a anunciação feita por Gabriel é extremamente semelhante ao que lemos em Mateus e Lucas, embora possua maior riqueza de detalhes; o mesmo se pode dizer do episódio em que Maria visita sua parente Isabel; · em virtude de sua gravidez inesperada, é interpelada, juntamente com José, pelos representantes do Templo; indo para Belém, terra de José, por ocasião do censo, Maria vem dar à luz ao seu Filho em uma caverna e uma parteira é chamada para os serviços de parto; para espanto da parteira, Maria permanece virgem mesmo após o parto de Jesus; · a visita dos Magos também segue próxima ao Evangelho de Mateus; · por fim, quando Herodes manda matar as crianças, Zacarias, pai de João Batista, é assassinado no Templo, acusado de ter escondido seu filho, que também contava com poucos meses de idade.

Estes textos retratam os acontecimentos que precederam o nascimento de
Cristo, contando a história de Maria e da natividade.

O PROTO-EVANGELHO DE TIAGO

Segundo narram as memórias das doze tribos de Israel, havia um homem muito rico, de nome Joaquim, que fazia suas oferendas em quantidade dobrada, dizendo:
- O que sobra, ofereça-o para todo o povoado e o devido na expiação de meus pecados será para o Senhor, a fim de ganhar-lhe as boas graças. Chegou a grande festa do Senhor, na qual os filhos de Israel devem oferecer seus donativos. Rubem se pôs à frente de Joaquim, dizendo-lhe:

- Não te é lícito oferecer tuas dádivas, enquanto não tiveres gerado um rebento Em Israel. Joaquim mortificou-se tanto que se dirigiu aos arquivos de Israel, com intenção de consultar o censo genealógico e verificar se, porventura, teria sido ele o único que não havia tido prosperidade em seu povoado. Examinando os pergaminhos, constatou que todos os justos haviam gerado descendentes. Lembrou-se, por exemplo, de como o Senhor deu Isaac ao patriarca Abraão, em seus derradeiros anos de vida.

Joaquim ficou muito atormentado, não procurou sua mulher e se retirou para o deserto. Ali armou sua tenda e jejuou por quarenta dias e quarenta noites, dizendo: - Não sairei daqui nem sequer para comer ou beber, até que não me visite o Senhor meu Deus. Que minhas preces me sirvam de comida e de bebida. Ana lamentava-se e gemia dolorosamente, dizendo: - Chorarei minha viuvez e minha esterilidade. Chegou, porém, a grande festa do Senhor e disse-lhe Judite, sua criada: - Até quando vais humilhar tua alma? Já é chegada a festa maior e não te é lícito entristecer-te. Toma este lenço de cabeça, que me foi dado pela dona da tecelagem, já que não posso cingir-me com ele por ser eu de condição servil e levar ele ao selo real.

Disse Ana: - Afasta-te de mim, pois que não fiz tal coisa e, além do mais, o Senhor já me humilhou em demasia para que eu o use. A não ser que algum malfeitor o haja dado e tenhas vindo para fazer-me também cúmplice do pecado.

Replicou Judite: - Que motivo tenho eu para maldizer-te, se o Senhor já te amaldiçoou não te dando fruto de Israel?
Ana, ainda que profundamente triste, despiu suas vestes de luto, cingiu-se com um toucado, vestiu suas roupas de bodas e desceu, na hora nona, ao jardim para passear. Ali viu um loureiro, assentou-se à sua sombra e orou ao Senhor, dizendo:
- Ó Deus de nossos pais! Ouve-me e bendize-me da maneira que abençoaste o ventre de Sara, dando-lhe como filho Isaac!

Tendo elevado seus olhos aos céus, viu um ninho de passarinhos no loureiro e novamente se lamentou dizendo:
- Ai de mim! Por que nasci e em que hora fui concebida? Vim ao mundo para ser como terra maldita entre os filhos de Israel. Estes me cumularam de injúrias e me escorraçaram do templo de Deus. Ai de mim! A quem me assemelho eu? Não às aves do céu, pois, elas são fecundas em tua presença Senhor.

Ai de mim! A quem me pareço eu? Não às bestas da terra, pois que até esses animais irracionais são prolíficos ante teus olhos, Senhor.
Ai de mim! A quem me posso comparar? Nem sequer a estas águas, porque até elas são férteis diante de ti, Senhor. Ai de mim!

A quem me igualo eu? Nem sequer a esta terra, porque ela também é fecundada, dando seus frutos na ocasião própria e te bendiz Senhor.
Eis que se lhe apresentou o anjo de Deus, dizendo-lhe:
- Ana, Ana, o Senhor escutou teus rogos! Conceberás e darás à luz e de tua prole se falará em todo o mundo.

Ana respondeu:

- Viva o Senhor meu Deus, que, se chegar a ter algum fruto de bênção, seja menino ou menina, levá-lo-ei como oferenda ao Senhor e estará a seu serviço todos os dias de sua vida.
Então vieram a ela dois mensageiros com este recado:
- Joaquim, teu marido, está de volta com seus rebanhos, pois que um anjo de Deus desceu até ele e lhe disse que o Senhor escutou seus rogos e que Ana, sua mulher, vai conceber em seu ventre.
Tendo saído Joaquim, mandou que seus pastores lhe trouxessem dez ovelhas sem mancha.

Disse ele:
- Estas serão para o Senhor.
Mandou então separar doze novilhas de leite, dizendo:
- Estas serão para os sacerdotes e para o Sinédrio.
Finalmente, mandou apartar cem cabritos para todo o povoado.
Ao chegar Joaquim com seus rebanhos, estava Ana à porta e, ao vê-lo chegar, pôs-se a correr e atirou-se ao seu pescoço dizendo:

- Agora vejo que Deus me bendisse copiosamente, pois, sendo viúva, deixo de sê-lo e, sendo estéril, vou conceber em meu ventre.
Então Joaquim repousou naquele dia em sua casa.
No dia seguinte, ao ir oferecer sua dádivas ao Senhor, dizia para consigo mesmo:
- Saberei se Deus me vai ser favorável se eu chegar a ver o éfode do sacerdote.
Ao oferecer o sacrifício, observou o éfode do sacerdote, quando este se acercava do altar de Deus, e, não encontrando pecado algum em sua consciência, disse:
- Agora vejo que o Senhor houve por bem perdoar todos os meus pecados.
Desceu Joaquim justificado do templo e foi para casa. O tempo de Ana cumpriu-se e no nono mês deu à luz.

Perguntou à parteira:
- A quem dei à luz?
- Uma menina.
Então Ana exclamou:
- Minha alma foi enaltecida - e reclinou a menina no berço.
Ao fim do tempo marcado pela lei, Ana purificou-se, deu o peito à menina e pôs-lhe o nome de Maria.

Dia a dia a menina ia robustecendo-se. Ao chegar aos seis meses, sua mãe deixou-a só no chão, para ver se sustentava de pé. Ela, depois de andar sete passos, voltou ao regaço de sua mãe. Esta se levantou, dizendo:
- Salve o Senhor! Não andarás mais por este solo, até que te leve ao templo do
Senhor.

Fez-lhe um oratório em sua casa e não consentiu que nenhuma coisa vulgar ou impura passasse por suas mãos. Chamou, além disso, umas donzelas hebréias, todas virgens, para que a entretivessem.
Quando a menina completou um ano, Joaquim deu um grande banquete, para o qual convidou os sacerdotes, os escribas, o Sinédrio e todo o povo de Israel. Apresentou a menina aos sacerdotes, que a abençoaram assim:

- Ó Deus de nossos pais, bendiz esta menina e dá-lhe um nome glorioso e eterno por todas as gerações.
Ao que todo o povo respondeu:

- Assim seja! Assim seja! Amém!
Apresentou-a também Joaquim aos príncipes e aos sacerdotes e estes a abençoaram assim:
- Ó Deus Altíssimo, põe teus olhos nesta menina e outorga-lhe uma bênção perfeita, dessas que excluem as ulteriores.

Sua mãe levou-a ao oratório de sua casa e deu-lhe o peito. Compôs, então, um hino ao Senhor Deus, dizendo:

- Entoarei um cântico ao Senhor meu Deus, porque me visitaste, afastou de mim o opróbrio de meus inimigos e me deste um fruto santo, que é único e múltiplo aos seus olhos. Quem dará aos filhos de Rubem a notícia de que Ana está amamentando? Ouvi, ouvi, ó Doze Tribos de Israel: Ana está amamentando!
Tendo deixado a menina para que repousasse na câmara onde havia o oratório, saiu e pôs-se a servir os comensais. Estes, uma vez terminada a ceia, saíram regozijando-se e louvando ao Deus de Israel.
Entretanto, os meses iam-se passando para a menina. Ao fazer dois anos, disse Joaquim a Ana:
- Levemo-la ao templo do Senhor para cumprir a promessa que fizemos, para que Senhor não a reclame e nossa oferenda se torne inaceitável aos seus olhos.

Ana respondeu:
- Esperamos, todavia, até que complete três anos, para que a menina não tenha saudades de nós.

- Esperaremos.
Ao chegar aos três anos, disse Joaquim:
- Chama as donzelas hebreias que não têm mancha e que tomem, duas a duas, uma candeia acesa e a acompanhem, para que a menina não olhe para trás e seu coração seja cativado por alguma coisa fora do templo de Deus.
Assim fizeram enquanto iam subindo ao templo de Deus. Lá a recebeu o sacerdote, o qual, depois de tê-la beijado, abençoou-a e exclamou:

- O Senhor engrandeceu teu nome diante de todas as gerações, pois que, no final dos tempos, manifestará em ti sua redenção aos filhos de Israel.
Fez-la sentar-se no terceiro degrau do altar. O Senhor derramou graças sobre a menina, que dançou cativando toda a casa de Israel.
Saíram, então, seus pais, cheios de admiração, louvando ao Senhor Deus porque a menina não havia olhado para trás. Maria permaneceu no templo como uma pombinha, recebendo alimento pelas mãos de um anjo.
Ao completar doze anos, os sacerdotes reuniram-se para deliberar, dizendo:
- Eis que Maria cumpriu doze anos no templo do Senhor. Que faremos para que ela não chegue a manchar o santuário?

Disseram ao sumo sacerdote:
- Tu que tens o altar ao teu cargo, entra e ora por ela. O que o Senhor te disser, isso será o que haveremos de fazer.
O sumo sacerdote, cingindo-se com o manto das doze sinetas, entrou no Santo dos Santos e orou por ela. Eis que um anjo do Senhor apareceu, dizendo-lhe:
- Zacarias, Zacarias, sai e reúne a todos os viúvos do povoado. Que cada um venha com um bastão e o daquele em que o Senhor fizer um sinal singular, deste será ela a esposa.
Saíram os arautos por toda a região da Judeia e, ao soar a trombeta do Senhor, todos acudiram.
José, deixando de lado sua acha, uniu-se a eles. Uma vez que se juntaram todos, cada qual tomou seu bastão e puseram-se a caminho, à procura do sumo sacerdote. Este tomou todos os bastões, entrou no templo e pôs-se a orar. Terminadas as suas preces, tomou de novo os bastões e os entregou, mas em nenhum deles apareceu sinal algum. Porém, ao pegar José o último, eis que uma pomba saiu dele e se pôs a voar sobre sua cabeça. Então o sacerdote disse:
- A ti coube a sorte de receber sob tua custódia a Virgem do Senhor.
José replicou:
- Tenho filhos e sou velho, enquanto que ela é uma menina. Não gostaria de ser objeto de zombaria por parte dos filhos de Israel.

Então tornou o sacerdote:

- Teme ao Senhor teu Deus e tem presente o que fez Ele com Datan, Abiron e Corê, de como se abriu a terra e foram sepultados por sua rebelião. Teme agora tu também, José, para que não aconteça o mesmo a tua casa.

Ele, cheio de temor, recebeu-a sob proteção. Depois, disse-lhe:
- Tomei-te do templo. Deixo-te agora em minha casa e vou continuar minhas construções. Logo voltarei. O Senhor te guardará.
Os sacerdotes, então, reuniram-se e concordaram em fazer um véu para o templo do Senhor. O sumo sacerdote disse:

- Chama algumas donzelas sem mancha, da tribo de Davi.
Os ministros se foram e, depois de terem procurado, encontraram sete virgens.
Então o sacerdote lembrou-se de Maria, a jovenzinha que, sendo de estirpe davídica, se conservava imaculada aos olhos de Deus. Os emissários foram buscá-la.
Depois de as terem introduzido no templo, disse o sacerdote:
- Vejamos qual há de bordar o ouro, o amianto, o linho, a seda, o zircão, o escarlate e a verdadeira púrpura.
O escarlate e a verdadeira púrpura couberam a Maria que, tomando-as, foi para casa.
Naquela época, Zacarias ficou mudo, sendo substituído por Samuel, até quando pôde falar novamente. Maria tomou em suas mãos o escarlate e pôs-se a tecê-lo.
Certo dia,pegou Maria um cântaro e foi enchê-lo de água. Eis que ouviu uma voz que lhe dizia:
- Deus te salve, cheia de graça! O Senhor está contigo, bendita és entre as mulheres!
Ela olhou a sua volta, à direita, à esquerda, para ver de onde vinha aquela voz.
Tremendo, voltou para casa, deixou a ânfora, pegou a púrpura, sentou-se no divã e pôs-se a tecê-la. Logo um anjo do Senhor apresentou-se diante dela, dizendo:
- Não temas, Maria, pois alcançaste graça ante o Senhor onipotente e vais conceber por Sua palavra!
Ela, ao ouví-lo, ficou perplexa e disse consigo mesma:

- Deverei eu conceber por virtude de Deus vivo e haverei de dar à luz como as demais mulheres?
Ao que lhe respondeu o anjo:

- Não será assim, Maria, pois que a virtude do Senhor te cobrirá com sua sombra. Depois, o fruto santo que deverá nascer de ti será chamado de Filho do Altíssimo.
Chamar-lhe-ás Jesus, pois Ele salvará seu povo de suas iniquidades. Então, disse Maria:
- Eis aqui a escrava do Senhor em Sua presença. Que isto aconteça a mim conforme Sua palavra.
Concluído seu trabalho com a púrpura e o escarlate, levou-o ao sacerdote. Este a abençoou dizendo:
- Maria, o Senhor enaltecer seu nome e serás bendita entre todas as gerações
da terra. Cheia de alegria, Maria foi à casa de sua parenta, Isabel. Chamou-a da porta e, ao ouví-la, Isabel largou o escarlate, correu para a porta, abriu-a e, vendo Maria, louvou-a dizendo:

- Que fiz eu para que a mãe do meu Senhor venha a minha casa? Pois saiba que o fruto que carrego em meu ventre se pôs a pular dentro de mim, como que para bendizer-se.

Maria havia se esquecido dos mistérios que o anjo Gabriel lhe comunicara, elevou os olhos aos céus e disse:

- Quem sou eu, Senhor, para que todas as gerações me bendigam?
Passou três meses em casa de Isabel. Dia a dia seu ventre aumentava e, cheia de temor, pôs-se a caminho de casa e escondia-se dos filhos de Israel. Quando sucederam essas coisas, ela contava dezesseis anos.
Ao chegar Maria ao sexto mês de gravidez, voltou José de suas construções e, ao entrar em casa, deu-se conta de que ela estava grávida. Então, feriu seu próprio rosto, jogou-se no chão sobre uma manta e chorou amargamente, dizendo:
- Como é que me vou apresentar agora diante do meu Senhor? E que oração direi eu agora por esta donzela, pois que a recebi virgem do templo do Senhor e não a soube guardar? Será que a história de Adão se repetiu comigo? Assim como no instante em que ela estava glorificando a Deus veio a serpente e, ao encontrar Eva sozinha, a enganou, o mesmo me aconteceu.

Levantando-se, José chamou Maria e disse-lhe:

- Predileta como eras de Deus, como foste capaz de fazer isso? Acaso te esqueceste do Senhor teu Deus? Com pudeste vilipendiar tua alma, tu que te criaste no Santo dos Santos e recebeste alimento das mãos de um anjo?
Ela chorou amargamente dizendo:

- Sou pura e não conheço varão algum.

Replicou José:

- De onde, pois, provém o que carregas no seio?
Ao que Maria respondeu:

- Pelo Senhor, meu Deus, eu juro que não sei como aconteceu.
José encheu-se de temor, retirou-se da presença de Maria e pôs-se a pensar sobre o que faria com ela. Dizia consigo próprio:
- Se escondo seu erro, contrario a lei do Senhor. Se a denuncio ao povo de
Israel, temo que o que acontecer a ela se deva a uma intervenção dos anjos e tenha a entregar à morte uma inocente. Como deverei proceder, pois? Mandá-la embora às escondidas.
Enquanto isso caiu a noite. Eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos, dizendo-lhe:
- Não temas por esta donzela, pois o que ela carrega em suas entranhas é fruto do Espírito Santo. Dará à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus, pois que ele há de salvar.
Ao despertar, José levantou-se, glorificou a Deus de Israel por haver-lhe concedido tal graça e continuou guardando Maria.
Por essa ocasião, veio à casa de José um escriba chamado Anás, que lhe disse:
- Por que não compareceste à nossa reunião?
Respondeu-lhe José:

- Estava cansado da caminhada e decidi repousar este primeiro dia.
Ao voltar-se, Anás deu-se conta da gravidez de Maria.
Então, correu ao sacerdote, dizendo-lhe:
- Esse José, por quem respondes, cometeu uma falta grave.
- Que queres dizer com isso? - perguntou o sacerdote. Ao que respondeu Anás:
- Pois violou aquela virgem que recebeu do templo de Deus, com fraude de seu casamento e sem manifestá-lo ao povo de Israel.

Disse o sacerdote:
- Estás certo de que foi José que fez tal coisa?
Replicou Anás:
- Envia uma comissão e te certificarás de que a donzela está realmente grávida.
Saíram o emissário e encontrou-na tal qual havia dito Anás. Por isso levaram-na, juntamente com José, ante o tribunal.

O sacerdote iniciou, dizendo:
- Maria por que fizeste tal coisa?
Que te levou a vilipendiar tua alma e esqueceste-se do Senhor teu Deus? Tu que te criaste no Santo dos Santos, que recebias alimento das mãos de um anjo, que escutaste os hinos e que dançavas na presença de Deus? Como fizeste isso?
Ela se pôs a chorar amargamente, dizendo:

- Juro pelo Senhor meu Deus que estou pura em sua presença e que não conheci varão.
Então o sacerdote dirigiu-se a José, perguntando-lhe:
- Por que fizeste isso?
Replicou José:
- Juro pelo Senhor meu Deus, que me encontro puro com relação a ela.
Acrescentou o sacerdote:
- Não jures em falso! Dize a verdade! Usaste fraudulentamente o matrimônio e não o deste a conhecer ao povo de Israel. Não abaixaste tua cabeça sob a mão poderosa de Deus, por quem sua descendência havia sido bendita.
José guardou silêncio. - Devolve, pois - continuou o sacerdote, - a virgem que recebeste do templo do Senhor.
José ficou com os olhos marejados em lágrimas. Acrescentou ainda o sacerdote:
- Farei com que bebais da água da prova do Senhor e ela vos mostrará, diante de vossos próprios olhos, vossos pecados.
Tomando da água, fez José bebê-la, enviando-o em seguida à montanha, de onde voltou são e salvo. Fez o mesmo com Maria, enviando-a também à montanha, mas ela voltou sã e salva.
Toda a cidade encheu-se de admiração ao ver que não havia pecado neles.
Disse o sacerdote:
- Posto que o Senhor não declarasse vosso pecado, tampouco irei condenar-vos.
Então os despediu. Tomando Maria, José voltou para casa cheio de alegria e louvado ao Deus de Israel.
Veio uma ordem do imperador Augusto para que se fizesse o censo de todos os habitantes de Belém da Judeia.

Disse José:
- Aos meus filhos posso recensear, mas que farei desta donzela? Como vou incluí-la no censo? Como minha esposa? Envergonhou-me. Como minha filha? Mas já sabem todos os filhos de Israel que não é! Este é o dia do Senhor, que se faça a sua vontade.

Selando sua asna, fez com que Maria se acomodasse sobre ela. Enquanto um
de seus filhos ia à frente, puxando o animal pelo cabresto, José os acompanhava. Quando estavam a três milhas de distância de Belém, José virou-se para Maria e viu que ela estava triste.

Disse consigo mesmo:

- Deve ser a gravidez que lhe causa incômodo.
Ao voltar-se novamente, encontrou-a sorrindo e indagou-lhe:
- Maria, que acontece, pois que algumas vezes te vejo sorridente e outras triste?

Ela lhe disse:

- É que se apresentam dois povos diante de meus olhos: um que chora e se aflige e outro que se alegra e se regozija.

Ao chegar à metade do caminho, disse Maria a José:

- Desça-me, porque o fruto de minhas entranhas luta por vir à luz.
Ele a ajudou a apear da asna, dizendo-lhe:

- Aonde poderia eu levar-te para resguardar teu pudor, já que estamos em campo aberto?

Encontrando uma caverna, levou-a para dentro e, havendo deixado seus filhos com ela, foi buscar uma parteira na região de Belém.
Eis que José encontrou-se andando, mas não podia avançar. Ao levantar seus
Olhos para o espaço pareceu lhe ver como se o ar estivesse estremecido de assombro.

Quando fixou vista no firmamento, encontrou-o estático e os pássaros do céu, imóveis. Ao dirigir seu olhar a terra, viu um recipiente no solo e uns trabalhadores sentados em atitude de comer, com suas mãos na vasilha. Os que pareciam comer, na realidade não mastigavam, e os que estavam em atitude de pegar a comida, tampouco a tiravam do prato. Finalmente, os que pareciam levar os manjares à boca, não o faziam, ao contrário, tinham seus rostos voltados para cima.
Também havia umas ovelhas que estavam sendo tangidas, mas não davam um passo. Estavam paradas. O pastor levantou sua destra para bater-lhes com um cajado, mas parou sua mão no ar.
Ao dirigir seu olhar à corrente do rio, viu como uns cabritinhos punham nela seus focinhos, mas não bebiam. Em uma palavra, todas as coisas estavam afastadas, por uns instantes, de seu curso normal.

Então uma mulher que descia da montanha disse-lhe:
- Aonde vais?
Ao que ele respondeu:
- Ando procurando uma parteira hebreia.
Ela replicou:
- Mas és de Israel?
Ele respondeu:
- Sim.
- E quem é a que está dando à luz na caverna?
- É minha esposa.
- Então, não é tua mulher?
Ele respondeu:
- É Maria, a que se criou no templo do Senhor, e ainda que me tivesse sido dada por mulher, não o é, pois que concebeu por virtude do Espírito Santo.
Insistiu a parteira:
- Isso é verdade?
José respondeu:

- Vem e verás.
Então a parteira se pôs a caminho junto com ele. Ao chegar à gruta, pararam, e eis que esta estava sombreada por uma nuvem luminosa.
Exclamou a parteira:

- Minha alma foi engrandecida, porque meus olhos viram coisas incríveis, pois que nasceu a salvação para Israel. De repente, a nuvem começou a sair da gruta e dentro brilhou uma luz tão grande que seus olhos não podiam resistir. Esta, por um momento, começou a diminuir tanto que deu para ver o menino que estava tomando o peito da mãe, Maria. A parteira então deu um grito, dizendo:

- Grande é para mim o dia de hoje, já que pude ver com meus próprios olhos um novo milagre.
Ao sair a parteira da gruta, veio ao seu encontro Salomé.
- Salomé, Salomé! - exclamou. - Tenho de te contar uma maravilha nunca vista.

Uma virgem deu à luz; coisa que, como sabes, não permite a natureza humana.

Salomé replicou:
- Pelo Senhor, meus Deus, não acreditarei em tal coisa, se não me for dado tocar com os dedos e examinar sua natureza.
Havendo entrado a parteira, disse a Maria:
- Prepara-te, porque há entre nós uma grande querela em relação a ti.
Salomé, pois, introduziu seu dedo em sua natureza, mas, de repente, deu um grito, dizendo:
- Ai de mim! Minha maldade e minha incredulidade é que têm a culpa! Por descrer do Deus vivo, desprende-se de meu corpo minha mão carbonizada.

Dobrou os joelhos diante do Senhor, dizendo:

- Ó Deus de nossos pais! Lembra-te de mim, porque sou descendente de
Abraão, Isaac e Jacó! Não faças de mim um exemplo para os filhos de Israel! Devolve-me curada, porém, aos pobres, pois que tu sabes Senhor, que em teu nome exercia minhas curas, recebendo de ti meu salário!
Apareceu um anjo do céu, dizendo-lhe:
- Salomé, Salomé, Deus escutou-te. Aproxima tua mão do menino, toma-o e haverá para ti alegria e prazer.
Acercou-se Salomé e o tomou, dizendo: - Adorar-te-ei, porque nasceste para ser o grande Rei de Israel.
De repente, sentiu-se curada e saiu em paz da gruta. Nisso ouviu uma voz que dizia: - Salomé, Salomé, não contes as maravilhas que viste até estar o menino em Jerusalém.

José dispôs-se a partir para Judeia. Por essa ocasião, sobreveio um grande tumulto em Belém, pois vieram uns magos dizendo:

 - Onde está o recém-nascido Rei dos Judeus? Pois, vimos sua estrela no Oriente e viemos para adorá-lo.
Herodes, ao ouvir isso, perturbou-se. Enviou seus emissários aos magos e convocou os príncipes e os sacerdotes, fazendo-lhes esta pergunta: - Que está escrito em relação ao Messias? Aonde ele vai nascer?

Eles responderam:
- Em Belém da Judeia, segundo rezam as escrituras. Com isso, despachou-os e interrogou os magos com estas palavras:
- Qual é o sinal que vistes em relação ao nascimento desse rei?
Responderam-lhes os magos:

- Vimos um astro muito grande, que brilhava entre as demais estrelas e as eclipsava, fazendo-as desaparecer. Nisso soubemos que a Israel havia nascido um rei e viemos com a intenção de adorá-lo.

Replicou Herodes:
- Ide e buscai-o, para que também possa eu ir adorá-lo!

Naquele instante, a estrela que haviam visto no Oriente voltou novamente a guiá-los, até que chegaram à caverna e pousou sobre a entrada dela. Vieram, então, os magos a ter com o Menino e Sua mãe, Maria, e tiraram oferendas de seus cofres: ouro, incenso e mirra.
Depois, avisados por um anjo para que não entrassem na Judeia, voltaram a suas terras por outro caminho. Ao dar-se conta Herodes de que havia sido enganado, encolerizou-se e enviou seus sicários, dando-lhes a missão de assassinar todos os meninos de menos de dois anos. Quando chegou até Maria a notícia da matança das crianças, encheu-se de temor e, envolvendo seu filho em fraldas, colocou-o numa manjedoura.
Quando Isabel inteirou-se de que também buscavam o seu filho João, pegou-o e levou-o a uma montanha. Pôs-se a ver onde haveria de escondê-lo, mas não havia um lugar bom para isso. Entre soluços, exclamou em voz alta:

- Ó Montanha de Deus, recebe em teu seio a mãe com seu filho, pois que não posso subir mais alto.
Nesse instante, abriram a montanha suas entranhas para recebê-los.
Acompanhou-os uma grande luz, pois estava com ele um anjo de Deus para guardá-los.
Herodes prosseguia na busca de João e enviou seus emissários a Zacarias para que lhe dissessem:

- Aonde escondeste teu filho?
Ele respondeu desta maneira:
- Eu me ocupo do serviço de Deus e me encontro sempre no templo. Não sei onde está meu filho.  
Os emissários informaram a Herodes tudo o que se passara. E ele encolerizou-se muito, dizendo consigo mesmo:

- Deve ser seu filho que vai reinar em Israel.
Enviou, então, outro recado, dizendo-lhe:

- Diga-nos a verdade sobre onde está teu filho, porque do contrário bem sabes que teu sangue está sob minhas mãos.

Zacarias respondeu:

- Serei mártir do Senhor, se te atreveres a derramar meu sangue, porque minha alma será recolhida pelo Senhor, ao ser segada uma vida inocente no vestíbulo do santuário.
Ao romper da aurora, foi assassinado Zacarias, sem que os filhos de Israel se dessem conta desse crime.
Os sacerdotes se reuniram à hora da saudação, mas Zacarias não saiu a seu encontro, como de costume, para abençoá-los. Puseram-se a esperá-lo para saudá-lo na oração e para glorificar o Altíssimo.

Ante sua demora, começaram a ter medo. Tomando ânimo, um deles entrou, viu ao lado do altar sangue coagulado e ouviu uma voz que dizia:

- Zacarias foi morto e não se limpará o seu sangue até que chegue o vingador.
Ao ouvir a voz, encheu-se de temor e saiu para informar os sacerdotes que tomando coragem, entraram e testemunharam o ocorrido. Então, os frisos do templo rangeram e eles rasgaram suas vestes de alto a baixo.
Não encontraram o corpo.  Somente a poça de sangue coagulado. Cheios de temor, saíram para informar a todo o povo que Zacarias havia sido assassinado. A notícia correu em todas as tribos de Israel, que o choraram e guardaram luto por três dias e três noites.
Concluído esse tempo, reuniram-se os sacerdotes para deliberar sobre quem iriam pôr em seu lugar. Recaiu a sorte sobre Simeão, pois, pelo Espírito Santo, havia sido assegurado de que não veria a morte até que lhe fosse dado contemplar o Messias Encarnado.

Eu, Tiago, escrevi esta história. Ao levantar-se um grande tumulto em Jerusalém, por ocasião da morte de Herodes, retirei-me ao deserto até que cessasse o motim, glorificando ao Senhor meu Deus, que me concedeu a graça e a sabedoria necessárias para compor esta narração.

Que a graça esteja com todos aqueles que temem a Nosso Senhor Jesus

Cristo, para quem deve ser a glória.


O EVANGELHO DE TOMÉ

O Evangelho de Tomé é um dos 52 textos da Biblioteca de Nag Hammadi, encontrada numa caverna no Egito em 1947. Este Evangelho, escrito em copto, a língua do Alto Egito no início de nossa era, é uma tradução de um original grego, provavelmente escrito em meados do primeiro século. Portanto, ele é um dos documentos mais antigos de nossa tradição cristã, já que os quatro Evangelhos incluídos na Bíblia foram escritos provavelmente entre os anos 80 e 120 de nossa era.
O Evangelho de Tomé é uma coleção de ditados de Jesus, que guarda certas semelhanças com o assim chamado Evangelho de "Q" (inicial de Quelle, alemão para 'fonte'), que os eruditos bíblicos acreditam teria sido a fonte de parte dos ditados incluídos em Mateus e Lucas. Os estudiosos acreditam que as versões dos ditados de Jesus encontradas em Tomé seriam, em geral, versões mais originais do que a dos evangelhos canônicos, que teriam sofrido modificações e editorações ao longo dos séculos.
Sua autoria é atribuída a Tomé, que é chamado logo no início do texto de "irmão gêmeo" de Jesus, já que Jesus não tinha irmãos de sangue e sim irmãos bastardos, filhos do primeiro casamento de seu pai José. Este parentesco deve ser entendido no seu sentido esotérico. Tomé seria um discípulo que havia alcançado um estado de realização interior que o tornava um gêmeo espiritual do Salvador. O caráter esotérico do Evangelho é reiterado no primeiro versículo, em que é dito que quem descobrir o significado dos ensinamentos de Jesus ali contidos, não provará a morte. Essa era a postura gnóstica daquele tempo e que continua válida em nossos dias. Como os ensinamentos de Jesus eram velados em linguagem simbólica, para descobrir a sua interpretação o discípulo teria que alcançar um elevado estado de consciência, no qual recebia a “gnosis”, ou seja, o conhecimento direto da verdade, uma verdadeira revelação espiritual, que conferia um estado de unidade com o Todo e a experiência da verdadeira natureza do ser, que é a alma. Como a alma é imortal, quem se identifica com a alma não experimenta a morte, ainda que inevitavelmente seu corpo físico, a vestimenta de carne da alma, venha a perecer.

O estudo meditativo dos ensinamentos internos de Jesus contido no Evangelho de Tomé, usando as quatro chaves conhecidas para a interpretação da simbologia, pode ser altamente revelador para todo cristão desejoso de conhecer os ensinamentos do Mestre.
Estes são os ensinamentos (logia) ocultos expostos por Jesus, o vivo, que Judas Tomé, o gêmeo, escreveu. Ao todos são 114 tratados:

(1) E ele disse: "Quem descobrir o significado interior destes ensinamentos não provará a morte."

(2) Jesus disse: "Aquele que busca continue buscando até encontrar. Quando encontrar, ele se perturbará. Ao se perturbar, ficará maravilhado e reinará sobre o Todo."

(3) Jesus disse: "Se aqueles que vos guiam disserem, 'Olhem, o reino está no céu,' então, os pássaros do céu vos precederão, se vos disserem que está no mar, então, os peixes vos precederão. Pois bem, o reino está dentro de vós, e também está em vosso exterior. Quando conseguirdes conhecer a vós mesmos, então, sereis conhecidos e compreendereis que são filhos do Pai vivo. Mas, se não vos conhecerdes, vivereis na pobreza e sereis essa pobreza."

(4) Jesus disse: "O homem idoso não hesitará em perguntar a uma criancinha de sete dias sobre o lugar da vida, e ele viverá. Pois, muitos dos primeiros serão os últimos, e se tornarão um só."

(5) Jesus disse: "Reconheça o que está diante de teus olhos, e o que está oculto a ti será desvelado. Pois, não há nada oculto que não venha ser manifestado."
(6) Seus discípulos o interrogaram dizendo: "Queres que jejuemos? Como devemos orar? Devemos dar esmolas? Que dieta devemos observar?"

(127) Jesus disse: "Não mintais e não façais aquilo que detestais, pois todas as
coisas são desveladas aos olhos do céu. “Pois, não há nada escondido que não se torne manifesto, e nada oculto que não seja desvelado.”

(7) Jesus disse: "Bem-aventurado o leão que se torna homem quando consumido pelo homem; maldito o homem que o leão consome, e o leão torna-se homem."

(8) E ele disse: "O homem é como pescador sábio que lança sua rede ao mar e
a retira cheia de peixinhos. O pescador sábio encontra entre eles um peixe grande e excelente. Joga todos os peixinhos de volta ao mar e escolhe o peixe grande sem dificuldade. “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.”

(9) Jesus disse: "Eis que o semeador saiu, encheu sua mão e semeou. Algumas sementes caíram na estrada; os pássaros vieram e as recolheram. Algumas caíram sobre rochas, não criaram raízes no solo e não produziram espigas. Outras caíram em meio a um espinheiro, que sufocou as sementes e os vermes as comeram. E outras caíram em solo fértil e produziram bons frutos; renderam sessenta por uma e cento e vinte por uma."

(10) Jesus disse: "Eu lancei fogo sobre o mundo, e eis que estou cuidando dele até que queime."

(11) Jesus disse: "Este céu passará, e aquele acima dele passará. Os mortos não estão vivos e os vivos não morrerão. Nos dias em que consumistes o que estava morto, vós o tornastes vivo. Quando estiverdes morando na luz, o que fareis? No dia em que éreis um vos tornastes dois. Mas quando vos tornardes dois, o que fareis?"

(12) Os discípulos disseram a Jesus: "Sabemos que tu nos deixarás. Quem será nosso líder?"
Jesus disse-lhes: "Não importa onde estiverdes, devereis dirigir-vos a Tiago, o justo, para quem o céu e a terra foram feitos."

(13) Jesus disse a seus discípulos: "Comparai-me com alguém e dizei-me com quem me assemelho."
Simão Pedro disse-lhe: "Tu és semelhante a um anjo justo."
Mateus lhe disse: "Tu te assemelhas a um filósofo sábio."
Tomé lhe disse: "Mestre, minha boca é inteiramente incapaz de dizer com quem te assemelhas."

Jesus disse: "Não sou teu Mestre. Porque bebeste na fonte borbulhante que fiz brotar, tornaste-te ébrio. (128) E, pegando-o, retirou-se e disse-lhe três coisas. Quando Tomé retornou a seus companheiros, eles lhe perguntaram: "O que te disse Jesus?"
Tomé respondeu: "Se eu vos disser uma só das coisas que ele me disse, apanhareis pedras e as atirareis em mim, e um fogo brotará das pedras e vos queimará."

(14) Jesus disse-lhes: "Se jejuardes, gerareis pecado para vós; se orardes,
sereis condenados; se derdes esmolas, fareis mal a vossos espíritos. Quando entrardes em
qualquer país e caminhardes por qualquer lugar, se fordes recebidos, comei o que vos for oferecido e curai os enfermos entre eles. “Pois, o que entrar em vossa boca não os maculará, mas o que sair de vossa boca é isso que vos maculará.”

(15) Jesus disse: "Quando virdes aquele que não foi nascido de uma mulher prostre-vos com a face no chão e adorai-o: é ele o vosso Pai."

(16) Jesus disse: "Talvez os homens pensem que vim lançar a paz sobre o  mundo. Não sabem que é a discórdia que vim espalhar sobre a Terra: fogo, espada e disputa.

Com efeito, havendo cinco numa casa, três estarão contra dois e dois contra três: o pai contra o filho e o filho contra o pai. E eles permanecerão solitários.

 (17) Jesus disse: "Eu vos darei o que os olhos não viram, o que os ouvidos não ouviram, o que as mão não tocaram e o que nunca ocorreu à mente do homem."

(18) Os discípulos disseram a Jesus: "Dize-nos como será o nosso fim."
Jesus disse: "Haveis, então, discernido o princípio, para que estejais procurando o fim? Pois onde estiver o princípio ali estará o fim. Feliz daquele que tomar seu lugar no princípio: ele conhecerá o fim e não provará a morte."

(19) Jesus disse: "Feliz o que já era antes de surgir. Se vos tornardes meus discípulos e ouvirdes minhas palavras, estas pedras estarão ao vosso serviço. Com efeito, há cinco árvores para vós no Paraíso que permanecem inalteradas inverno e verão, e cujas folhas não caem. Aquele que as conhecer não provará a morte."

(20) Os discípulos disseram a Jesus: "Dize-nos a que se assemelha o reino do céu."
Ele lhes disse: "Ele se assemelha a uma semente de mostarda, a menor de todas as sementes. Mas, quando cai em terra cultivada, produz uma grande planta e torna-se um refúgio para as aves do céu."

(21) Maria disse a Jesus: "A quem se assemelham teus discípulos?"
Ele disse: "Eles se parecem com crianças que se instalaram num campo que não lhes pertence. Quando os donos do campo vierem, dirão: 'Entregai nosso campo.' Elas se despirão diante deles para que eles possam receber o campo de volta e para entregá-lo a eles. Por isso digo: se o dono da casa souber que virá um ladrão, velará antes que ele chegue e não deixará que ele penetre na casa de seu domínio para levar seus bens. Vós, portanto, permanecei atentos contra o mundo. Armai-vos com todo poder para que os ladrões não consigam encontrar um caminho para chegar a vós, pois a dificuldade que temeis certamente ocorrerá. Que possa haver entre vós um homem prudente. Quando a safra estiver madura, ele virá rapidamente com sua foice em mãos para colhe-la. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça."

(22) Jesus viu crianças sendo amamentadas. Ele disse a seus discípulos:
"Esses pequeninos que mamam são como aqueles que entram no Reino." Eles lhe disseram:
Nós também, como crianças, entraremos no Reino?" Jesus lhes disse: "Quando fizerdes do dois um e quando fizerdes o interior como o exterior, o exterior como o interior, o acima como o embaixo e quando fizerdes do macho e da fêmea uma só coisa, de forma que o macho não seja mais macho nem a fêmea seja mais fêmea, e quando formardes olhos em lugar de um olho, uma mão em lugar de uma mão, um pé em lugar de um pé e uma imagem em lugar de uma imagem, então, entrareis (no Reino).

(23) Jesus disse: Escolherei dentre vós, um entre mil e dois entre dez mil, e eles permanecerão como um só.”

(24) Seus discípulos disseram-lhe: "Mostra-nos o lugar onde estás, pois precisamos procurá-lo."
Ele disse-lhes: "Aquele que tem ouvidos, ouça! Há luz no interior do homem de
luz e ele ilumina o mundo inteiro. “Se ele não brilha, ele é escuridão.”

(25) Jesus disse: "Ama teu irmão como à tua alma, protege-o como a pupila de teus olhos."

(26) Jesus disse: "Tu vês o cisco no olho de teu irmão, mas não vês a trave em teu próprio olho. “Quando retirares a trave de teu olho, então verás claramente e poderás retirar o cisco do olho de teu irmão.”

(27) (Jesus disse:) "Se não jejuardes com relação ao mundo, não encontrareis
o Reino. Se não observardes o sábado, como um sábado, não vereis o Pai."

(28) Jesus disse: "Assumi meu lugar no mundo e revelei-me a eles na carne. Encontrei todos embriagados. Não encontrei nenhum sedento, e minha alma ficou aflita pelos filhos dos homens, porque estão cegos em seus corações e não têm visão. Pois vazios vieram ao mundo e vazios procuram deixar o mundo. Mas no momento eles estão embriagados. Quando superarem a embriaguez, então, mudarão sua maneira de pensar."

(29) Jesus disse: "Seria uma maravilha se a carne tivesse surgido por causa do espírito. Mas seria a maior das maravilhas se o espírito tivesse surgido por causa do corpo. Estou realmente surpreso pela forma como essa grande riqueza fez morada nessa pobreza."

(30) Jesus disse: "Onde há três deuses, eles são deuses. Onde há dois ou um, estou com ele."
(31) Jesus disse: "Nenhum profeta é aceito em sua cidade; nenhum médico cura aqueles que o conhecem."
(32) Jesus disse: "Uma cidade construída e fortificada sobre uma montanha elevada não pode cair nem pode ser escondida."
(33) Jesus disse: "Proclamai sobre os telhados aquilo que ouvirdes com vosso próprio ouvido. Pois ninguém acende uma lâmpada e coloca-a debaixo de um cesto, tampouco coloca-a num lugar escondido, mas num candelabro, para que todos que venham a entrar e sair vejam sua luz."

(34) Jesus disse: "Se um cego guia outro cego, ambos cairão numa vala."

(35) Jesus disse: "Não é possível que alguém entre na casa de um homem forte e tome-a à força, a menos que lhe ate as mãos; então será capaz de saquear sua casa."

(36) Jesus disse: "Não vos preocupeis de manhã até a noite e de noite até a manhã com o que vestireis."

(37) Seus discípulos disseram: "Quando tu te revelarás a nós e quando te veremos?"
Jesus disse: "Quando vos despirdes sem vos envergonhardes e tomardes vossas vestes e, colocando-as sobre vossos pés, pisardes sobre elas como criancinhas, então (vereis) o filho daquele que vive e não tereis medo."

(38) Jesus disse: "Muitas vezes haveis desejado ouvir essas palavras que vos digo, e não tende outro de quem ouvi-las. Pois, virão dias em que me procurareis e não me encontrareis."
(39) Jesus disse: "Os fariseus e os escribas tomaram as chaves da gnoses.

(131) Eles não entraram nem deixaram entrar aqueles que queriam entrar. “Vós, no entanto, sede sábios como as serpentes e mansos como as pombas.”

(40) Jesus disse: "Uma parreira foi plantada fora do Pai, porém, não sendo saudável, ela será arrancada pela raiz e destruída."

(41) Jesus disse: "Quem tiver algo em sua mão receberá mais, e quem não tiver nada perderá até mesmo o pouco que tem."
(42) Jesus disse: "Tornai-vos passantes."
(43) Seus discípulos disseram-lhe: "Quem és tu para dizer-nos tais coisas?"
[Jesus disse-lhes:] "Não percebeis quem sou eu pelo que vos digo, mas vos tornastes como os judeus! Com efeito, eles amam a árvore e odeiam seus frutos ou amam os frutos, mas odeiam a árvore."

(44) Jesus disse: "Quem blasfemar contra o Pai será perdoado e quem
blasfemar contra o Filho será perdoado, mas quem blasfemar contra o Espírito Santo será perdoado nem na terra nem no céu."

(45) Jesus disse: "Não se colhe uvas dos espinheiros nem figos dos cardos, pois eles não dão frutos. O homem bom retira o bem do seu tesouro; o malvado retira o mal de seu tesouro malévolo, que está em seu coração, e diz maldade. Pois da abundância do coração ele retira coisas más."

(46) Jesus disse: "Dentre os que nasceram da mulher, desde Adão até João, o Batista, não há ninguém superior a João, para que não abaixe os olhos [diante dele. Mas eu digo, aquele dentre vós que se tornar uma criança conhecerá o Reino e se tornará superior a João."

(47) Jesus disse: "É impossível para um homem montar dois cavalos ou retesar
dois arcos. E é impossível que um servo sirva a dois senhores, pois ele honra um e ofende o outro. Ninguém bebe vinho velho e logo em seguida deseja beber vinho novo. E não se coloca vinho novo em odres velhos, para que não arrebentem; nem se coloca vinho velho em odres novos, para que não o estraguem. “E não se cose pano velho em veste nova, porque ela está arriscada a rasgar.”

(48) Jesus disse: "Se os dois fizerem as pazes nesta casa, eles dirão a montanha: 'Move-te!' e ela se moverá."
(132) (49) Jesus disse: "Bem aventurados os solitários e os eleitos, pois, encontrareis o Reino. Pois, viestes dele e para ele retornareis."

(50) Jesus disse: "Se vos perguntarem: 'De onde vindes? ' respondei: 'Viemos da luz, do lugar onde a luz nasceu dela mesma, estabeleceu-se e tornou-se manifesta por
meio de suas imagens'. Se vos perguntarem: 'Vós sois isto?' digam: 'Nós somos seus filhos e somos os eleitos do Pai vivo'. Se vos perguntarem: 'Qual é o sinal de vosso Pai em vós?', digam a eles: 'É movimento e repouso'."

(51) Seus discípulos disseram-lhe: "Quando ocorrerá o repouso dos mortos e quando virá o novo mundo?"
Ele disse-lhes: "Aquilo que esperais já chegou, mas não o reconheceis."

(52) Seus discípulos disseram-lhe: "Vinte e quatro profetas falaram em Israel e todos falaram de ti." Ele disse-lhes: "Omitistes aquele que vive em vossa presença e falastes dos mortos."

(53) Seus discípulos disseram-lhe: "A circuncisão é benéfica ou não?"

Ele disse-lhes: "Se ela fosse benéfica, os pais gerariam filhos já circuncisos de sua mãe. Mas a verdadeira circuncisão, a espiritual, tornou-se inteiramente proveitosa."

(54) Jesus disse: "Bem-aventurados os pobres, pois vosso é o Reino do céu."

(55) Jesus disse: "Aquele que não odiar*2 seu pai e sua mãe não poderá se tornar meu discípulo. E quem não odiar seus irmãos e irmãs e tomar sua cruz, como eu, não será digno de mim."

(56) Jesus disse: "Aquele que conseguiu compreender o mundo encontrou (somente) um cadáver, e quem encontrou um cadáver é superior ao mundo."

(57) Jesus disse: "O Reino do Pai é semelhante ao homem que tem [boa] semente. Seu inimigo veio durante a noite e semeou joio por cima da boa semente. O homem não deixou que arrancassem o joio, dizendo: 'temo que acabeis arrancando o joio e também o trigo junto com ele. No dia da colheita as ervas daninhas estarão bem visíveis e serão, então, arrancadas e queimadas."
(58) Jesus disse: "Bem-aventurado o homem que sofreu e encontrou a vida."

(59) Jesus disse: "Prestai atenção àquele que vive enquanto estais vivos, para que, ao morrerdes, não fiqueis procurando vê-lo sem conseguir."

(60) [Eles viram] um samaritano carregando um cordeiro a caminho da Judeia. Ele disse a seus discípulos: "Por que o homem está carregando o cordeiro?" Eles disseram-lhe: "Para matá-lo e comê-lo."
Ele disse-lhes: "Enquanto o cordeiro estiver vivo, ele não o comerá, mas somente depois que o tiver matado e que o cordeiro se tornar um cadáver." Eles disseram-lhe: "Ele não poderia fazer de outro modo."
Ele disse-lhes: "Vós, também, buscai um lugar para vós no repouso, a fim de que não vos torneis um cadáver e sejais devorados."

(61) Jesus disse: "Dois repousarão sobre um leito: um morrerá, o outro viverá."
Salomé disse: "Quem és tu homem, que ... te acomodaste em meu divã e comeste à minha mesa?"
Jesus disse-lhe: "Eu sou aquele que existe a partir do indivisível. Recebi algumas das coisas de meu pai." [ ... ] "Eu sou seu discípulo." [ ... ] "Por isso digo que, se for destruído, ele estará pleno de luz, mas, se ele estiver dividido, estará pleno de trevas."

(62) Jesus disse: "Eu digo meus mistérios aos [que são dignos de meus] mistérios. Que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita."

(63) Jesus disse: "Havia um rico que tinha muito dinheiro.
Ele disse: 'Empregarei meu dinheiro para semear, colher, plantar e encher meu celeiro com o fruto da colheita, para que não me venha a faltar nada'. Essas eram suas intenções, mas naquela mesma noite ele morreu. “Aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça.”

(64) Jesus disse: "Um homem tinha convidados. E quando a ceia estava pronta, mandou seu servo chamar os convidados. O servo foi ao primeiro e disse-lhe: 'Meu mestre te convida'. O outro respondeu: 'Tenho dinheiro aplicado com alguns comerciantes. Eles virão me procurar esta noite para que eu lhes dê minhas instruções. Apresento minhas desculpas por não ir à ceia. O servo foi até outro e disse: 'Meu senhor está te convidando'. Este disse: 'Acabo de comprar uma casa e precisam de mim hoje. Não terei tempo'. O servo foi ao outro e disse-lhe: 'Meu senhor está te convidando'. Este disse-lhe: 'Um amigo vai se casar e coube-me preparar o banquete. Não poderei ir à ceia, peço ser desculpado. O servo foi a outro ainda e disse-lhe: 'Meu senhor está te convidando'. Este disse-lhe: 'Acabo de comprar uma fazenda e estou saindo para buscar o rendimento. Não poderei ir, por isso me desculpo'.
O servo retornou e disse a seu senhor: 'Os que tu convidaste para a ceia mandam pedir desculpas. 'O senhor disse ao servo: 'Vai lá fora pelos caminhos e traze os que encontrarem para que possam cear. “Os homens de negócios e mercadores não entrarão no recinto de meu Pai’.”

(65) Ele disse: "Um homem de bem tinha uma vinha. Ele a alugou a camponeses para que cuidassem dela e pagassem-lhe com uma parte da produção. Ele enviou seu servo para que os arrendatários entregassem-lhe o fruto da vinha. Eles pegaram seu servo e o espancaram, deixando-o à beira da morte. O servo voltou e contou a seu senhor
o ocorrido. O senhor disse: 'Talvez não o tenham reconhecido'. Ele enviou outro servo. Os camponeses também o espancaram. Então o proprietário enviou seu filho e disse: 'Talvez eles tenham respeito por meu filho'. Como os camponeses sabiam que aquele era o herdeiro da vinha, pegaram-no e mataram-no. “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.”

(66) Jesus disse: "Mostrai-me a pedra que os construtores rejeitaram; ela é a pedra angular."
(67) Jesus disse: "Se alguém que conhece o todo ainda sente uma deficiência pessoal, ele é completamente deficiente."

(68) Jesus disse: "Bem-aventurados os que são odiados e perseguidos. Mas os que vos perseguirem não encontrarão lugar."

(69) Jesus disse: "Bem-aventurados aqueles que foram perseguidos em seu interior. São eles que realmente conheceram o pai. “Bem-aventurados os famintos, porque se encherá o ventre de quem tem desejo.”

(70) Jesus disse: "Aquilo que tendes vos salvará se o manifestardes. Aquilo que não tendes em vosso interior vos matará se não o tiverdes dentro de vós."

(71) Jesus disse: "Destruirei esta casa e ninguém será capaz de reconstruí-la [...]"

(72) [Um homem disse-lhe]: "Dize a meus irmãos para que partilhem os bens de meu pai comigo."

Ele lhe disse: "Ó, homem, quem me institui partilhador?" Voltando-se para seus discípulos, disse-lhes: "Eu não sou um partilhador, sou?"

(73) Jesus disse: "A colheita é grande mas os operários são poucos. Portanto, implorai ao senhor para que envie operários para a colheita."

(74) Ele disse: "Ó senhor, há muitas pessoas ao redor do bebedouro, mas não há nada na cisterna."

(75) Jesus disse: "Muitos estão aguardando à porta, mas são os solitários que entrarão na câmara nupcial."

(76) O Reino do pai é semelhante ao comerciante que tinha uma consignação de mercadorias e nelas descobriu uma pérola. Esse comerciante era astuto. Ele vendeu as mercadorias e adquiriu a pérola maravilhosa para si. “Vós, também deveis buscar esse tesouro indestrutível e duradouro, que nenhuma traça pode devorar nem o verme destruir.”

(77) Jesus disse: "Eu sou a luz que está sobre todos eles. Eu sou o todo. De mim surgiu o todo e de mim o todo se estendeu. Rachai um pedaço de madeira, e eu estou lá. Levantai a pedra e me encontrareis lá."

(78) Jesus disse: "Por que viestes ao deserto? Para ver um caniço agitado pelo
vento? E para ver um homem vestido com roupas finas como vosso rei e vossos homens importantes? “Esses usam roupas finas, mas são incapazes de discernir a verdade.”

(79) Uma mulher na multidão disse-lhe: "Bem-aventurado o ventre que te portou e os seios que te nutriram."

Ele disse-lhe: "Bem-aventurados os que ouviram a palavra do Pai e que realmente a guardaram. Pois virão dias em que direis: "Bem-aventurado o ventre que não concebeu, e os seios que não amamentaram."

(80) Jesus disse: "Aquele que reconheceu o mundo encontrou o corpo, mas aquele que encontrou o corpo é superior ao mundo."

(81) Quem enriqueceu, torne-se rei, mas quem tem poder que possa renunciar
a ele."

(82) Jesus disse: "Aquele que está perto de mim está perto do fogo, e aquele que está longe de mim está longe do Reino."

(83) Jesus disse: "As imagens manifestam-se ao homem, mas a luz que está nelas permanece oculta na imagem da luz do Pai. Ele tornar-se-á manifesto, mas sua imagem permanecerá velada por sua luz."

(84) Jesus disse: "Quando vedes vossa semelhança, vós vos rejubilais. Mas, quando virdes vossas imagens que surgiram antes de vós, e que não morrem nem se manifestam, quanto tereis de suportar!"

(85) Jesus disse: "Adão surgiu de um grande poder e de uma grande riqueza, mas ele não se tornou digno de vós. Pois, se tivesse sido digno, não teria experimentado a morte."

(86) Jesus disse: "[As raposas têm suas tocas] e as aves têm seus ninhos, mas o filho do homem não tem nenhum lugar para pousar sua cabeça e descansar."

(87) Jesus disse: "Miserável do corpo que depende de um corpo e da alma que depende desses dois."

(88) Jesus disse: "Os anjos e os profetas virão a vós e darão aquelas coisas que já tendes. E dai vós também a eles as coisas que tendes e dizei a vós mesmos: “Quando virão tomar o que é deles?”

(89) Jesus disse: "Por que lavais o exterior da taça? Não compreendeis que aquele que fez o interior é o mesmo que fez o exterior?"

(90) Jesus disse: "Vinde a mim, pois meu jugo é fácil e meu domínio é suave, e encontrareis repouso para vós."

(91) Eles disseram-lhe: "Dize-nos quem tu és, para que possamos crer em ti." Ele disse-lhes: "Vós decifrastes a face to céu e da terra, mas não reconhecestes aquele que está diante de vós e não soubestes perceber este momento."

(92) Jesus disse: "Buscai e encontrareis. No entanto, aquilo que me perguntastes anteriormente e que não vos respondi então, agora desejo vos dizer, mas, vós não me perguntais sobre aquilo."

(93) [Jesus disse]: "Não deis aos cães o que é sagrado, para que eles não o joguem no lixo. Não atireis pérolas aos porcos, para que eles..."

(94) Jesus disse: "Quem busca, encontrará, e [quem bate] terá permissão para entrar."

(95) [Jesus disse]: "Se tendes dinheiro, não o empresteis a juro, mas dai-o àquele de quem não o recebereis de volta."

(96) Jesus disse: "O Reino do Pai é como [uma certa] mulher. Ela tomou um pouco de fermento, [escondeu-o] na massa, e fez com ela grandes pães. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!"

(97) Jesus disse: "O Reino do Pai é como certa mulher que estava carregando um cântaro cheio de farinha. Enquanto estava caminhando pela estrada, ainda distante de casa, a alça do cântaro partiu-se e a farinha foi caindo pelo caminho atrás dela.
Ela não se deu conta, pois não tinha percebido o acidente. Quando chegou em casa, colocou o cântaro no chão e percebeu que ele estava vazio."

(98) Jesus disse: "O Reino do Pai é como certo homem que queria matar homem poderoso. Em sua própria casa ele desembainhou a espada e enfiou-a na parede para saber se sua mão poderia realizar a tarefa. Então ele matou o homem poderoso."

(99) Os discípulos disseram-lhe: "Teus *irmãos e tua mãe estão aguardando lá fora."
Ele disse-lhes: "Estes que estão aqui que fazem a vontade de meu Pai são meus irmãos e minha mãe.  “São eles que entrarão no Reino de meu Pai."

[Nota: Quem são irmãos os irmãos de Jesus? Ora, Maria não teve filhos carnais com José, que já era velho. Os irmãos de Jesus tanto podem ser parentes próximos, quanto seus meios irmãos, os filhos de José, cujo antes de conhecer Maria era viúvo e teve filhos do seu primeiro casamento. A relação marital de José com Maria foi exclusivamente a missão de cuidar de Jesus Cristo. José tinha plena convicção da santidade de Maria e não ousava tocá-la, era um pai zeloso e cuidava dos dois com muito amor e dedicação.]

(100) Eles mostraram uma moeda de ouro a Jesus e disseram-lhe: "Os homens de César exigem-nos tributos."
Ele disse-lhes: "Dai a César o que é de César, dai a Deus o que é de Deus, e dai a mim o que é meu."

(101) [Jesus disse]: "Quem não *odeia (*deixa) seu [pai] e sua mãe como eu não pode se tornar meu [discípulo]. E quem não ama seu [pai e] sua mãe como eu não pode se tornar meu [discípulo]. Porque minha mãe [ ... ], mas [minha] verdadeira [mãe] deu-me a vida."

(102) Jesus disse: "Ai dos fariseus, porque eles são como um cachorro dormindo na manjedoura dos bois, pois eles não comem nem permitem que os bois comam."
(103) Jesus disse: "Feliz do homem que sabe por onde os ladrões vão entrar, porque dessa forma [ele] pode se levantar, passar em revista seu domínio e armar-se antes deles invadirem."

(104) Eles disseram a Jesus: "Vem, oremos e jejuemos hoje."
Jesus disse: "Qual foi o pecado que cometi ou em que fui vencido? Porém, quando o noivo deixar a câmara nupcial, então que eles jejuem e orem."
(105) Jesus disse: "Quem conhece o pai e a mãe será chamado filho de prostituta."

(106) Jesus disse: "Quando fizerdes de dois, um, vos tornareis filhos do homem, e quando disserdes: 'Montanha, move-te!', ela se moverá."

(107) Jesus disse: "O Reino é como um pastor que tinha cem ovelhas. Uma delas, a maior de todas, extraviou-se. Ele deixou as noventa e nove e foi procurá-la, até encontrá-la. Depois de ter passado por todo esse incômodo, ele disse à ovelha: “Eu me interesso por ti mais do que pelas noventa e nove”.

(108) Jesus disse: "Quem beber de minha boca tornar-se-á como eu. Eu mesmo me tornarei ele, e as coisas que estão ocultas ser-lhe-ão reveladas."
(109) Jesus disse: "O Reino é como o homem que tinha um tesouro [escondido] em seu campo sem saber. Após sua morte, deixou o campo para seu [filho]. O filho não sabia [a respeito do tesouro]. Ele herdou o campo e o vendeu. O comprador ao arar o campo encontrou o tesouro.                “Começou então a emprestar dinheiro a juros a quem queria."
(110) Jesus disse: "Quem encontrou o mundo e tornou-se rico, que renuncie ao mundo."
(111) Jesus disse: "Os céus e a terra se dobrarão diante de vós. E aquele que vive do Vivo não conhecerá a morte. Jesus não disse: 'Quem se encontra é superior ao mundo?''

(112) Jesus disse: "Ai da carne que depende da alma; ai da alma que depende da carne."

(113) Seus [Jesus disse]: "Ele não virá porque é esperado. Não é uma questão de dizer: 'eis que ele está aqui' ou 'eis que está ali'. Na verdade, o Reino do Pai está espalhado pela terra e os homens não o vêem."

(114) Simão Pedro disse-lhes: "Que Maria saia de nosso meio, pois as mulheres não são dignas da vida."
Jesus disse: "Eu mesmo vou guiá-la para torná-la macho, para que ela também possa tornar-se um espírito vivo, semelhante a vós, machos. Porque toda mulher que se tornar macho entrará no Reino do Céu."

______________________________________________________________________


INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE FELIPE

O Evangelho de Filipe provavelmente foi escrito originalmente em grego, ainda que não seja possível precisar se no primeiro, segundo ou terceiro século. O exemplar encontrado entre os textos da biblioteca de Nag Hammadi é uma tradução para o copto, a língua do alto Egito no início de nossa era, provavelmente efetuada no quarto século.

Ao contrário dos evangelhos canônicos, o Evangelho de Filipe não contém uma narrativa sistemática da vida e ministério de Jesus em ordem cronológica. Ele segue a linha da tradição oral de relatar, independente do contexto histórico, ensinamentos atribuídos a Jesus e interpretações de aforismos e práticas espirituais, presente em outros textos apócrifos, como o Evangelho de Tomé e o assim chamado Evangelho "Q" (inicial de Quelle, alemão para 'Fonte', que é tido como a fonte das (logia) do Senhor apresentadas nos evangelhos segundo Mateus e Lucas).
Dentre os ditados de Jesus em Filipe, nove são encontrados também, com algumas variações, nos evangelhos canônicos e oito são originais. A linguagem destes ditados é geralmente breve e enigmática. Sua interpretação requer o conhecimento da simbologia usada pelos grupos gnósticos daquela época.
O que torna o Evangelho de Filipe especialmente importante são as inúmeras passagens sobre os sacramentos que teriam sido instituídos por Jesus em sua forma original, antes de terem sido adaptados e ampliados pela Igreja para uso geral dos fiéis.
Segundo a tradição esotérica, aqueles sacramentos eram ministrados somente aos discípulos do círculo interno, "os poucos", em circunstâncias que lembram os rituais dos Mistérios Maiores da antigüidade. Assim, as referências aos cinco sacramentos: o batismo, a crisma, a eucaristia, a redenção e a câmara nupcial, são feitas numa linguagem ainda mais velada do que a utilizada em outras partes do texto. Apesar do caráter oculto dessas passagens, elas oferecem ao estudioso uma clara indicação dos paralelos que existem entre as cinco grandes iniciações, as etapas da vida dos místicos e os sacramentos.

O EVANGELHO DE FILIPE

Um hebreu faz outro hebreu, e tal pessoa chama-se prosélito. Mas, um prosélito não faz outro prosélito ( ... ) assim como eles ( ... ) e fazem outros como a si mesmos, enquanto (outros) simplesmente existem.
O escravo só quer ser livre e não ambiciona adquirir os bens de seu senhor.
Porém o filho não é somente um filho, pois reclama a herança do pai. Os que herdam dos mortos estão eles mesmos mortos e herdam os mortos. Os herdeiros do que é vivo estão vivos e são herdeiros tanto do que está vivo como do morto. Os mortos não são herdeiros de nada. Pois como pode aquele que está morto herdar? Se aquele que está morto herda o que é vivo ele não morrerá, mas o que está morto viverá ainda mais.
O pagão não morre, pois ele nunca viveu para que possa morrer.
Aquele que acreditou na verdade encontrou a vida e corre o perigo de morrer, pois está vivo. A partir da vinda de Cristo, o mundo foi criado, as cidades embelezadas e os mortos levados embora. Quando éramos hebreus, éramos órfãos e só tínhamos a nossa mãe, mas, quando nos tornamos cristãos, tivemos tanto pai como mãe.
Os que semeiam no inverno colhem no verão. O inverno é o mundo, o verão é o outro reino eterno (eon). Semeemos no mundo para que possamos colher no verão. Por esta razão é apropriado que não oremos no inverno. O verão sucede o inverno. Porém, se algum homem colher no inverno ele, na verdade, não estará colhendo mas simplesmente arrancando, pois o inverno não oferecerá uma colheita para tal pessoa. Não só ( ... ) que não (... ) aparecerá, mas também no Sábado ( ... ) é estéril.
Cristo veio para resgatar alguns, salvar outros para redimir ainda outros. Ele resgatou os forasteiros e fê-los seus. E colocou os seus separados, aqueles que havia dado como garantia segundo seu plano. Não foi só quando apareceu que Cristo ofereceu voluntariamente sua vida, mas ofereceu-a voluntariamente desde o dia em que o mundo surgiu. Então, ele veio primeiro para tomá-la, pois ela havia sido dada como garantia. Ela havia caído em mãos de ladrões e foi feita prisioneira. Mas Ele a libertou, resgatando as pessoas boas do mundo assim como as más.
Luz e treva, vida e morte, direita e esquerda são irmãos entre si. São inseparáveis. Por isto, nem os bons são bons, nem os maus são maus, nem a vida é vida, nem a morte é morte. Assim é que cada um se dissolverá em sua origem primordial. Mas os que estão exaltados acima do mundo são indissolúveis, eternos.
Os nomes dados às coisas do mundo são muito enganadores, pois desviam nossos pensamentos do que é correto para o incorreto. Assim, quem ouve a palavra "Deus" não percebe o que é correto, mas sim o incorreto. O mesmo ocorre com "Pai", "Filho" e "Espírito Santo", "Vida", "Luz", "Ressurreição", "Igreja" e tudo o mais. As pessoas não percebem o que é correto mas sim o incorreto, (a menos) que tenham aprendido o que é correto. Os (nomes que se ouvem) estão no mundo ( ... enganam. Se) estivessem no reino eterno (eon), não seriam jamais usados como nomes no mundo. Tampouco foram colocados
entre as coisas do mundo. Eles têm um propósito no reino eterno.

Só há um nome que não se pronuncia no mundo, o nome que o Pai deu ao Filho, e que está acima de todas as coisas: o nome do Pai. Pois o Filho não se tornaria Pai, a não ser que usasse o nome do Pai. Aqueles que têm este nome conhecem-no, mas não o pronunciam. Mas, aqueles que não têm este nome não o conhecem.
A verdade fez com que os nomes surgissem no mundo por nossa causa, pois, não é possível aprendê-la sem estes nomes. A verdade é uma única coisa; é muitas coisas por nossa causa, para nos ensinar com amor sobre esta coisa una por meio de muitas coisas.
Os regentes (arcontes) queriam enganar o homem, porque viram que ele tinha parentesco com aqueles que são verdadeiramente bons. Eles tomaram o nome daqueles que são bons e deram-no aos que não são bons, para que, por meio dos nomes, pudessem enganá-los e vinculá-lo aos que não são bons. E, depois, que favor os nomes lhes prestam! Fazem com que sejam tirados daqueles que não são bons e colocados entre os que são bons. Eles sabiam estas coisas, porque queriam apoderar-se do homem livre e torná-lo seu escravo para sempre.

Há poderes que ( ... ) o homem, não querendo que ele seja (salvo), para que eles possam ( ... ). Porque se o homem for (salvo, não haverá) nenhum sacrifício ( ... ) e não serão oferecidos animais aos poderes. Na verdade, eram aos animais que eles ofereciam sacrifícios. Eles eram realmente oferecidos vivos, mas quando os ofertavam eles morriam.
Quanto ao homem, ofereceram-no morto a Deus, e ele viveu.
Antes da vinda do Cristo não havia pão no mundo. Também no Paraíso, o lugar
onde estava Adão, havia muitas árvores para alimentar os animais, mas não havia trigo para sustentar o homem. O homem costumava alimentar-se como os animais, mas quando veio Cristo, o homem perfeito, ele trouxe pão dos céus para que o homem pudesse ser nutrido com o alimento de homem. Os regentes pensavam que era por seu próprio poder e vontade que faziam o que estavam fazendo. Mas o Espírito Santo, em segredo, estava realizando tudo através deles, segundo sua vontade. A Verdade, que existia desde o princípio, está semeada por toda parte. E muitos vêem-na sendo semeada, mas são poucos os que a vêem sendo colhida.
Alguns dizem que Maria concebeu por obra do Espírito Santo. Mas eles estão enganados. Não sabem o que dizem. Quando uma mulher alguma vez concebeu por obra de outra mulher? Maria é a virgem que nenhum poder conspurcou.

Ela é uma grande *anátema (oferenda) para os hebreus, que são os apóstolos e (os) seus seguidores. Esta virgem que nenhum poder violou ( ... ) os poderes violaram a si mesmos. O Senhor não (teria) dito "Meu (Pai que está nos) céus" (Mt 16:17) se não tivesse outro pai. Neste caso, teria dito simplesmente "(Meu Pai)".
O Senhor disse aos discípulos, ( ... ) de cada casa. Tragam para a casa do Pai. Mas não tomem nem carreguem (nada) da casa do Pai. "Jesus" é um nome oculto, "Cristo" é um nome revelado. Por esta razão, "Jesus" não está particularmente ligado a nenhuma língua; seu nome é sempre "Jesus".

NOTA: A palavra anátema em grego: (ΑνÜθεμα), significa  Oferenda. Mais tarde esta mesma palavra, "anátema" ganhará de certa forma outro significado;  uma sentença pronunciada e mediante a qual se expulsava alguém considerado um “herege” do seio da sociedade religiosa; Como nós vamos encontrar esta mesma palavra em seu segundo significado, nas cartas apostólicas do N.T.  Esta expulsão era considerada uma pena mais grave que a ex-comunião. Hoje os teólogos aceitam estes dois significados de acordo com o sentido que lhe é proposto. 
No evangelho de Felipe, o narrador aplica a palavra anátema no seu sentido original, ou seja, Maria se tornou uma "Oferenda" perfeita, pura e inviolável que Deus escolheu e aceitou para ser a mãe do Salvador. Os (...) significam partes que foram perdidas, apagadas pelo tempo dos manuscritos e que não se puderam traduzir.  

"Cristo", porém, em siríaco é "Messias" e em grego, "Cristo". Certamente todas as outras línguas referem-se a ele com suas próprias palavras. "O nazareno" é aquele que revela o que está oculto. Cristo tem tudo em si mesmo, seja homem, anjo ou mistério, e no Pai.
Os que dizem que o Senhor morreu primeiro e (então) se levantou estão enganados, pois ele primeiro se levantou e (então) morreu. Se alguém não alcança primeiro a ressurreição ele não morrerá. Assim como Deus vive, ele iria ...
Ninguém esconde um grande objeto de valor num lugar de destaque, mas muitas vezes se atiram milhares de tais objetos em algo que não vale um centavo. Vejam a alma: ela é uma coisa preciosa que se encontra num corpo desprezível.
Há os que têm medo de ressurgir nus. Por isto querem ressurgir na carne. Não
sabem que são aqueles que vestem a (carne) que estão nus. (São) aqueles que ( ... ) despir se que não estão nus. "Nem a carne (nem o sangue) herdarão o Reino de (Deus)." (1 Co15:50). O que é que não herdará? Aquilo que usamos. Mas também o que é isto que herdará?

É aquilo que pertence a Jesus e a seu sangue. Por isto Ele disse: "Aquele que não come a minha carne e bebe o meu sangue não tem vida em si" (Jo 6:53). O que quer dizer isto? Sua carne é a Palavra (o Verbo), e seu sangue é o Espírito Santo. Quem recebe tais coisas tem alimento, bebida e vestimenta. Recrimino os outros que dizem que (a carne) não ressuscitará, pois uns e outros estão errados. Tu dizes que a carne não ressurgirá. Dize-me, então, o que ressuscitará para que possamos te aplaudir. Falas do Espírito na carne, que é também esta luz na carne. (Porém) isto também é matéria que se encontra na carne, pois tudo o que disseres, não estará fora da carne. É preciso ressurgir nesta carne, já que tudo existe nela. Neste mundo, aqueles que usam roupas valem mais do que as vestes. No Reino dos Céus, as vestes valem mais do que os que as usam.
É por meio da água e do fogo que tudo é purificado -- o visível pelo visível, o oculto pelo oculto. Existem algumas coisas ocultas por meio das visíveis. Existe água na água e fogo na crisma.
Jesus pegou-os todos de surpresa, porque Ele não apareceu como era, mas da maneira como (seriam) capazes de vê-lo. Apareceu aos grandes como grande, aos pequenos como pequeno, aos anjos como anjo, e aos homens como homem. Por isto sua palavra ocultou-se de todos. Alguns realmente o viram, pensando que estavam vendo a si mesmos. Mas quando apareceu gloriosamente aos discípulos sobre a montanha não era pequenino. Ele se tornou grande, mas fez com que os discípulos ficassem grandes, para que pudessem percebê-lo em sua grandeza.

Disse naquele dia na ação de graças, "Vós que unistes a luz perfeita com o Espírito Santo, incorporai os anjos também a nós, como sendo as imagens". Não desprezeis o cordeiro, pois sem ele não é possível ver o Rei. Ninguém será capaz de ir ao Rei se estiver nu.
O homem celestial tem muito mais filhos do que o homem terreno. Se os filhos de Adão são muitos, apesar de morrerem, quanto mais os filhos do homem perfeito que não morrem e são continuamente gerados. O pai faz um filho, mas o filho não tem poder para fazer um filho. Pois aquele que foi gerado não tem o poder para gerar; o filho obtém irmãos para si, e não filhos. Todos os que são gerados no mundo, são gerados de maneira natural, enquanto os outros (são nutridos) do (lugar) do qual nasceram. Por ter sido destinado ao lugar celestial o homem (recebe) nutrição. ( ... ) dele da boca. (E se) a palavra tivesse saído daquele lugar, ela receberia a nutrição da boca e se tornaria perfeita. Por isto a palavra perfeita concebe e dá nascimento por meio de um beijo. Por esta razão nós também nos beijamos uns aos outros. Somos concebidos da graça que nos é comum.

Havia três que sempre caminhavam com o Senhor: sua mãe, Maria, sua irmã e Madalena, que era chamada sua companheira. Sua irmã, sua mãe e sua companheira todas chamavam-se Maria.
"O Pai" e "o Filho" são nomes simples; "Espírito Santo" é um nome composto.
Eles estão em toda parte: acima e abaixo, no oculto e no revelado. O Espírito Santo está no revelado: está abaixo, e está no oculto: está acima.
Os santos são servidos por poderes malignos, pois estes ficam cegos, por obra do Espírito Santo, pensando que estão servindo um homem (comum), todas vezes que o fazem aos santos. Por isto um discípulo pediu um dia algo deste mundo ao Senhor. Ele lhe respondeu: "Pede a tua mãe, e ela te dará as coisas que pertencem a outrem".

Os apóstolos disseram aos discípulos: "Que toda nossa oferenda adquira sal". Eles chamavam (Sophia) de "sal". Sem sal nenhuma oferenda (é) aceitável.
Mas Sophia é estéril, (sem) filhos. Por esta razão é chamada de "um traço de sal". Sempre que eles quiserem ( ... ) do seu jeito, o Espírito Santo ( ... ) seus filhos são muitos.
O que o Pai possui pertence ao filho. Enquanto este é pequeno, não se lhe confia o que é seu. Mas quando se faz homem, seu pai lhe dá tudo o que possui.
Aqueles que se desencaminharam, os que o próprio Espírito engendrou, geralmente se desencaminham também por causa do Espírito. Assim, com o mesmo sopro o fogo é atiçado e apagado.

Echamoth é uma coisa e Echmoth outra. Echamoth é simplesmente Sabedoria, enquanto Echmoth é a Sabedoria da morte, aquela que conhece a morte, sendo chamada "a pequena Sabedoria".
Existem animais domésticos, como o boi, o burro e outros deste tipo. Outros são selvagens e vivem isolados nas regiões ermas. O homem ara o campo com animais domésticos e, com isto, sustenta-se e alimenta os animais, sejam mansos ou selvagens.

Compare com o homem perfeito. Ele cultiva por meio de poderes que lhe são submissos, preparando o surgimento de todas as coisas. É por causa disto que todo o mundo se mantém, seja bom ou mal, da direita ou da esquerda. O Espírito Santo apascenta a todos e governa (todos) os poderes, os "mansos" e os "selvagens", bem como os que são únicos. Pois, na verdade ele ( ... ) os mantêm presos, para que (se ... ) desejarem, eles não possam (escapar).

(Aquele que) foi criado é (lindo, mas) tu (não) acharias que os filhos dele são criações nobres. Se ele não fosse criado mas engendrado, tua acharias que os descendentes dele são nobres. Agora, porém, ele foi criado e gerou. O que há de nobre nisto?
Primeiramente surgiu o adultério, em seguida assassinatos. E ele foi gerado no adultério, pois era o filho da serpente. Assim, tornou-se um assassino, como seu pai, e matou seu irmão. Na verdade, todo ato sexual que ocorra entre seres que não são semelhantes entre si é adultério.
Deus é um tintureiro. Assim como os bons corantes chamados de "autênticos" dissolvem-se nas coisas que são tingidas por eles, também o mesmo ocorre com aqueles a quem Deus tingiu. Como seus corantes são imortais, eles tornam-se imortais por meio de suas cores. Pois bem, Deus mergulha o que Ele mergulha na água.
Ninguém pode ver algo das coisas que realmente existem a menos que se torne como elas. Não é assim que se passa com o homem no mundo: ele vê o sol sem ser o sol; vê o céu, a terra e todas as outras coisas, mas ele não é estas coisas. Isto está de acordo com a verdade. Mas, tu viste algo daquele lugar e te converteste naquelas coisas. Viste o Espírito e te tornaste Espírito. Viste o Cristo e te tornaste Cristo. Viste o Pai e te tornarás o Pai.
Assim, (neste lugar) vês todas as coisas e não (vês) a ti próprio, mas (naquele lugar) realmente vês a ti mesmo, e te tornarás o que vires.
A fé recebe, o amor dá. (Ninguém poderá receber) se não tiver fé. Ninguém será capaz de dar sem amor. Por esta razão, para que realmente possamos receber, cremos, e para que possamos amar, damos, pois se alguém dá sem amor não recebe benefício pelo que deu. Aquele que recebeu alguma outra coisa que não seja o Senhor ainda é um hebreu.
Os apóstolos que nos precederam chamavam-no assim: "Jesus, o Nazareno, Messias", isto é, "Jesus, o Nazareno, o Cristo". O último nome é "Cristo", o primeiro é "Jesus", o do meio é "o Nazareno". "Messias" tem dois significados, "o Cristo" e "o medido". "Jesus" em hebraico é "a redenção". "Nazara" é "a verdade". "O Nazareno", então, é "a verdade".
              
"Cristo" ... foi medido. Foram "o Nazareno" e "Jesus" que foram medidos. Quando a pérola é atirada na lama ela (não) passa a ser desprezada; tampouco se for banhada em óleo de bálsamo se tornará mais preciosa. Ela sempre manterá o seu valor aos olhos de seu dono. O mesmo ocorre com os filhos de Deus onde quer que estejam. Eles sempre têm valor aos olhos de seu pai.
Se disseres, "sou judeu", ninguém se inquietará; se disseres, "sou romano", ninguém se perturbará. Se disseres, "sou grego, bárbaro, escravo ou livre", ninguém se incomodará. Se disseres, "sou cristão", os ( ... ) tremerão. Quisera que eu pudesse ( ... ) desta forma, a pessoa cujo nome ( ... ) não será capaz de resistir (ouvindo).

Deus é antropófago. Por isto os homens são sacrificados a ele. Antes dos homens serem sacrificados, sacrificavam-se animais, pois aqueles a quem eram sacrificados não eram deuses.
Tanto as vasilhas de vidro como as de argila são feitas com o uso do fogo. Mas, se as de vidro quebram, elas são refeitas, pois surgiram por meio de um sopro. As de argila, no entanto, são destruídas, pois foram feitas sem sopro.
Um burro, girando uma pedra de moinho, caminhou cem milhas. Quando ele foi solto percebeu que ainda estava no mesmo lugar. Existem homens que fazem muitas jornadas, mas sem fazer nenhum progresso em qualquer direção. Quando o crepúsculo os surpreende, não encontraram nenhuma cidade nem vilarejo, nenhum produto humano nem fenômeno natural, poder nem anjo. Labutaram em vão, os coitados!

A eucaristia é Jesus, pois ele se chama "Pharisatha" em siríaco, que é "aquele que está estendido", pois Jesus veio para crucificar o mundo.
O Senhor entrou na loja de corantes de Levi, tomou setenta e duas cores diferentes e jogou-as na tina. Ao retirá-las estavam todas brancas. E ele disse: "Da mesma forma, o filho do homem veio (como) tintureiro". 

A Sophia, que é chamada de "a estéril," é a mão (dos) anjos. E a companheira do ( ... ) Maria Madalena. ( ... amava-a) mais do que (todos) os discípulos (e costumava) beijála (frequentemente) em seus ( ... ). Os demais (discípulos ... ). Eles lhe disseram: "Por que a amas mais do que a todos nós?" O Salvador respondeu dizendo: "Por que não os amo como a ela? Quando um cego e uma pessoa normal estão juntos na escuridão, não são diferentes um do outro. Quando chega a luz, então, aquele que vê verá a luz, e o cego permanecerá na escuridão".

O Senhor disse: "Bem aventurado aquele que é antes de chegar a existir. Pois, aquele que é foi e será."
A superioridade do homem não é óbvia à visão, mas encontra-se no que está escondido da vista. Por isto ele domina os animais que são mais fortes do que ele, grandes em termos do óbvio e do oculto. Isto os capacita a sobreviver. Mas quando o homem se separa deles, mordem e matam uns aos outros. Devoram-se porque não encontram nenhum alimento. Porém, agora encontraram comida porque o homem preparou o solo.

Se alguém entra na água e sai dela sem nada haver recebido e diz, "sou cristão," simplesmente tomou o nome emprestado a juros. Porém, se recebeu o Espírito Santo, recebe o nome de presente. Aquele que recebe um presente não precisa devolvê-lo. Mas, daquele que tomou emprestado a juros, o pagamento é exigido. É assim que (acontece com) quem experimenta um mistério.
Grande é o mistério do casamento! Pois (sem) ele o mundo (não existiria).
Agora a existência do (mundo ... ), e a existência ( ... casamento). Pense sobre o ( ... relacionamento), pois ele possui ( ... ) poder. Sua imagem consiste numa (corrupção).

As formas dos espíritos malévolos abrangem machos e fêmeas. Os machos são os que se unem com as almas que habitam uma forma feminina, enquanto as fêmeas são as  que se misturam com os que se encontram em forma masculina, porém que são desobedientes.
E não se consegue escapar deles, pois detêm a pessoa se ela não receber um poder masculino ou feminino, o noivo e a noiva. Eles são recebidos na câmara nupcial espelhada. Quando as mulheres devassas vêem um homem sozinho, lançam-se sobre ele, entretendo-o e maculando-o. Igualmente, os homens voluptuosos, quando vêm uma mulher bonita sozinha, procuram persuadi-la e possuí-la, desejando corrompê-la. Porém, se vêem um homem com sua esposa juntos, a fêmea não pode se aproximar do homem, nem o macho da mulher. Assim, se a imagem e o anjo estão unidos um ao outro, não pode haver nenhum risco ao homem ou à mulher. Aquele que sai do mundo e portanto não pode mais ser detido pelo fato de ter estado no mundo, evidentemente, está acima do desejo do ( ... ) e medo. Ele domina ( ... ). É superior à inveja. Se ( ... ) vem, eles o apanham e sufocam-no. E como (este) será capaz de escapar dos (grandes ... ) poderes? Como será capaz de ( ... ). Alguns (dizem), "Temos fé", para que ( ... os espíritos imundos) e os demônios. Pois, se tivessem o Espírito Santo, nenhum espírito imundo teria se agarrado a eles. Não tenha medo da carne nem a ame. Se a temeres, ela te dominará. Se a amares, ela te devorará e paralizará.

Ou se está neste mundo, na ressurreição ou no local intermediário. Deus me livre de encontrar-me lá! Neste mundo existe o bem e o mal. As coisas boas do mundo não são boas, e as coisas más não são más. Porém, depois deste mundo, existe mal que realmente é mal - o que é chamado de "o meio," o lugar intermediário. É a morte. Enquanto se está neste mundo é apropriado buscar-se a ressurreição, para que, quando venhamos a despir-nos da carne possamos encontrar o descanso e não caminhar no meio. Porque muitos se perdem no caminho. É melhor sair do mundo antes de pecar.    

Alguns nem querem nem podem; outros não tiram proveito mesmo querendo: pois, eles não agiram de acordo, (eles acreditam,) ( ... ) torna-os pecadores. E se não querem, a justiça vai se esquivar deles em ambos os casos: e será sempre uma questão da vontade e não da ação.

Um apostólico, numa visão, percebeu algumas pessoas fechadas numa casa em fogo, presos com ( ... ) flamejantes, deitados ( ... ) em chamas ( ... ) eles em ( ... ) fé ( ... ). E eles disseram, "( ... ) poderão ser salvos?" ( ... ) "Eles não desejam isto. Receberam ( ... ) castigo, que é chamado "a escuridão ( ... ), porque ( ... )" A alma e o espírito vieram à existência a partir da água e do fogo. É da água, do fogo e da luz que o filho da câmara nupcial (veio a existir). O fogo é a crisma, a luz é o fogo. Não estou me referindo ao fogo que não tem forma, mas ao outro fogo cuja forma é branca, que é brilhante e belo e que irradia beleza.
                
A verdade não veio nua ao mundo, mas veio em modelos e imagens. O mundo
não receberá a verdade de qualquer outra forma. Há um renascimento e uma imagem do renascimento. Certamente é necessário nascer outra vez por meio da imagem. Qual delas? A ressurreição. A imagem deve levantar-se outra vez por meio da imagem. A câmara nupcial e a imagem devem entrar na verdade através da imagem: isto é a restauração. Não só aqueles que produzem o nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo devem fazê-lo, mas (aqueles) que os produziram para ti. Se a pessoa não os adquire, o nome (cristão) também lhe será retirado.

Porém a pessoa recebe a unção do ( ... ) do poder da cruz. Este poder os apóstolos chamaram "a direita e a esquerda". Pois esta pessoa não é mais um cristão, mas Cristo.
O Senhor fez tudo num mistério, um batismo, uma crisma, uma eucaristia, uma redenção e uma câmara nupcial.
( ... ) Ele disse, "Vim fazer (as coisas abaixo) como as coisas (acima, e as coisas) fora como aquelas (dentro. Vim para uni-las) no lugar". ( ... ) aqui por meio de (modelos ... ). Aqueles que dizem, "(Existe um homem celestial e) existe outro acima (dele"), estão enganados. Porque é o primeiro destes dois (homens) celestiais, aquele que se manifesta, que é chamado "aquele que está abaixo"; e aquele a quem pertence o oculto é (supostamente) o que está acima dele. Portanto, seria melhor dizerem, "O interior e o exterior, e o que está fora de exterior".
Por causa disto o Senhor chamou a destruição “a” “escuridão exterior"; não existe nada além dela. Ele disse: "Meu Pai que está em segredo". Ele disse, "Entra em teu aposento, fecha a porta e ora a teu Pai que está em segredo" (Mt 6:6), aquele que está no interior de tudo. Mas o que está no interior de tudo é a plenitude. Mais interior do que ela não existe nada. É sobre isto que dizem, "O que está acima deles". Antes do Cristo alguns saíram de um lugar no qual não conseguiam mais entrar e foram para onde não mais conseguiam sair. Então veio o Cristo. Ele retirou aqueles que entraram e pôs para dentro os que saíram.
Quando Eva ainda estava em Adão a morte não existia. Quando ela se separou dele a morte passou a existir. Se ele entrar outra vez e alcançar o seu ser primordial, a morte deixará de existir.
"Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste, ó Senhor?" (Mc 15:34 e outras). Foi na cruz que ele disse estas palavras, porque havia deixado aquele lugar. ( ... ) que foi gerado através dele que ( ... ) de Deus. O ( ... ) dos mortos. ( ... ) para ser, mas agora ( ... ) perfeito. ( ... ) carne, mas isto ( ... ) é a verdadeira carne. ( ... ) não é verdade, mas ( ... ) só uma imagem do verdadeiro.

Uma câmara nupcial não é para os animais, nem para os escravos, nem para as mulheres violadas; mas é para os homens livres e virgens.
Somos realmente engendrados outra vez pelo Espírito Santo, mas somos engendrados pelo Cristo nos dois. Somos ungidos por meio do Espírito. Quando somos engendrados somos unidos. Ninguém pode ver-se na água ou num espelho sem luz.
Tampouco podes ver-te na luz sem água ou espelho. Por esta razão, é apropriado batizar nos dois, na luz e na água. Pois bem, a luz é a crisma.

Havia três lugares específicos para sacrifício em Jerusalém. O que estava voltado para o poente era chamado de "o sagrado." Outro, voltado para o sul, era chamado de "o santo do santo." O terceiro, voltado para o nascente, era chamado "o santo dos santos," o lugar onde só o Sumo Sacerdote podia entrar. O Batismo é o edifício "sagrado." A Redenção é "o santo do santo," e a Câmara Nupcial "o santo dos santos." O Batismo inclui a Ressurreição (e a) Redenção; a Redenção (ocorre) na câmara nupcial. Mas a Câmara Nupcial ocorre naquele lugar que é superior ao ( ... ) tu não encontrarás ( ... ) são aqueles que oram ( ... ) Jerusalém. ( ... ) Jerusalém, ( ... ) aqueles chamados "o santo dos santos" ( ... o) véu foi rasgado ( ... ) câmara nupcial exceto a imagem ( ... ) acima. Por esta razão seu véu rasgou-se de alto a baixo. Pois era apropriado que alguns de baixo fossem para cima.

Os poderes não vêem aqueles que estão vestidos com a luz perfeita e, por isto,
não podem detê-los.
A pessoa pode vestir-se sacramentalmente com esta luz na união.
Se a mulher não tivesse se separado do homem, ela não morreria com o homem. Sua separação tornou-se o começo da morte. Por isto o Cristo veio, para reparar a separação que houve no princípio e unir os dois outra vez e para dar vida àqueles que morreram devido à separação, unindo-os de novo. Mas a mulher uni-se a seu marido na câmara nupcial. Na verdade, aqueles que foram unidos na câmara nupcial não mais serão separados. Portanto, Eva separou-se de Adão porque não foi na câmara nupcial que ela se uniu a ele.
A alma de Adão chegou à existência por meio de um sopro. O companheiro de
sua alma é o Espírito. Sua mãe é a coisa que lhe foi dada. Sua alma foi-lhe tomada e substituída por um (espírito). Quando ele estava unido (ao Espírito), (pronunciou) palavras incompreensíveis aos poderes. Eles o invejaram ( ... ) parceiro espiritual ( ... ) escondido ( ... ) oportunidade ( ... ) somente para eles ( ... ) câmara nupcial para que ( ...) Jesus apareceu ( ... ) Jordão, a (plenitude do reino) dos céus. Ele que (foi engendrado) antes de todas as coisas foi engendrado novamente. Ele (que foi ungido) outrora foi ungido novamente. Ele que tinha sido redimido, redimiu (outros) por sua vez.

Realmente, um mistério deve ser dito. O pai de todas as coisas uniu-se com a virgem que havia descido, e o fogo brilhou para ele naquele dia. Ele apareceu na grande câmara nupcial. Portanto, seu corpo passou a existir naquele dia. Deixou a câmara nupcial como alguém que veio à existência por meio do noivo e da noiva. Desta forma, Jesus estabeleceu todas as coisas nela por meio deles. É conveniente que cada um dos discípulos entre em seu repouso.

Adão veio a ser por meio de duas virgens, do Espírito e da Terra virgem. O Cristo, portanto, nasceu de uma virgem para retificar a queda que houve no princípio. Existem duas árvores crescendo no Paraíso. Uma sustenta (animais) e a outra sustenta homens. Adão (comeu) da árvore que nutria animais. (Ele) tornou-se um animal e produziu animais. Por esta razão os filhos de Adão adoram (animais). A árvore ( ... ) fruto é ( ... ) aumentado. ( ... ) comeu o ( ... ) fruto da ( ... ) nutre homens, ( ... ) homem. ( ... ) Deus criou o homem. ( ... os homens) criaram Deus. É desta maneira que são as coisas no mundo, os homens criam deuses e adoram a sua criação. Seria apropriado que os deuses adorassem os homens!
Certamente a realização de um homem depende de sua habilidade. Por isto
referimo-nos as suas realizações como suas "habilidades." Entre suas realizações encontram-se seus filhos. Eles têm sua origem num momento de repouso. Portanto, suas habilidades determinam o que ele pode realizar, mas este repouso mostra-se evidente nos filhos. Isto se aplica diretamente à imagem. Aqui está o homem feito de acordo com a imagem realizando coisas com sua força física, mas produzindo seus filhos com facilidade.

Neste mundo, os escravos servem os livres. No Reino dos Céus, os livres vão  cuidar dos escravos: os filhos da câmara nupcial vão cuidar dos filhos do casamento.

Os filhos da câmara nupcial têm (um só) nome: repouso. (De modo geral) eles não precisam tomar (nenhuma) outra forma (porque têm) a contemplação, ( ... ). São numerosos ( ... ) nas coisas ( ... ) as glórias ( ... ). Aqueles ( ... ) descem à água. ( ... ) saem (da água), vão consagrar ( ... ) aqueles que têm ( ... ) em seu nome. Pois ele disse, "(Assim) devemos cumprir toda a justiça" (Mt 3:15).

Aqueles que dizem que devem morrer primeiro para depois ressuscitar estão
enganados. Se eles não receberem primeiro a ressurreição enquanto estiverem vivos, quando morrerem não receberão nada. Assim também, quando falam sobre o batismo dizem, "O batismo é uma grande coisa," pois se as pessoas o receberem viverão.

Felipe, o apóstolo, disse: "José, o carpinteiro, plantou um jardim porque precisava de madeira para seu ofício. Foi ele que fez a cruz das árvores que plantou. Sua
Própria descendência ficou pendurada naquilo que ele plantou. “Sua descendência foi Jesus, e o plantio foi a cruz.”

Mas a árvore da vida está no meio do jardim. Porém é da oliveira que recebemos a crisma, e da crisma a ressurreição.
Este mundo é um devorador de cadáveres. Todas as coisas que se comem nele também morrem. A verdade alimenta-se da vida. Portanto, ninguém nutrido pela (verdade) morrerá. Foi daquele lugar que Jesus veio e trouxe alimento. Aos que desejavam ele deu (vida para que) eles não morressem.
Deus ( ... ) um jardim. O homem ( ... ) jardim. Existem ( ... ) e ( ... ) de Deus.
( ...) As coisas que estão no ( ... ) eu desejo. Este jardim (é o lugar em que) me dirão, "( ... coma) isto ou não coma (aquilo, da maneira que) desejares." No lugar em que comerei todas as coisas está a árvore do conhecimento. Aquela matou Adão, mas aqui a árvore do conhecimento faz com que o homem viva. A lei era a árvore. Ela tem o poder para outorgar o conhecimento do bem e do mal. Ela nem o removeu do mal, nem o colocou no bem, mas criou a morte para aqueles que comiam dela. Pois quando ele disse, "Come isto, não coma aquilo," isto foi o começo da morte. A crisma é superior ao batismo, pois foi a partir da palavra "crisma" que fomos chamados de "cristãos," e certamente não por causa da palavra "batismo." E é por causa da crisma que "o Cristo" recebeu seu nome. Porque o Pai ungiu o Filho, o Filho ungiu os apóstolos, e os apóstolos nos ungiram. Aquele que foi ungido tem tudo. Ele tem a ressurreição, a luz, a cruz e o Espírito Santo. O Pai deu-lhe isto na câmara nupcial; ele  meramente aceitou (a dádiva). O Pai estava no Filho e o Filho no Pai. Isto é o Reino dos Céus.
O Senhor falou bem: "Alguns entraram no reino dos céus rindo, e sairam ( ... ) porque ( ... ) um cristão, ( ... ). E logo que ( ... desceu) à água ele veio ( ... ) tudo (deste mundo), ( ... ) porque ( ... ) um pouco, mas ( ... cheio de) menosprezo por este ( ... ) reino dos (céus ... ). Se ele despreza ( ... ) e o desdenha um pouco ( ... ) sairá rindo. Assim é também com o pão e o cálice de óleo, apesar de haver outro superior a estes.
O mundo foi criado por engano. Porque aquele que o criou queria fazê-lo imperecível e imortal. Ele não conseguiu realizar o seu desejo, pois o mundo nunca foi imperecível, e tampouco aquele que fez o mundo. Porque as coisas não são eternas, mas os filhos são. Nada será capaz de tornar-se eterno se não se tornar primeiramente um filho. Mas, ele que não tem a habilidade de receber, não será muito mais incapaz de dar?

O cálice da oração contém vinho e água, já que foi indicado para o tipo de
sangue com o qual se realiza a ação de graça. Ele está pleno do Espírito Santo e pertence ao homem inteiramente perfeito. Quando bebermos deste cálice, receberemos o homem perfeito. A água viva é um corpo. Precisamos vestir-nos com o homem vivo. Portanto, quando ele está prestes a descer à água, despe-se para vestir-se com o homem vivo.

Um cavalo procria um cavalo, um homem gera um homem, um deus faz surgir
um deus. Compare (o) noivo e a (noiva). Eles vieram do ( ... ). Nenhum judeu ( ... ) ( ... ) existiu. E ( ... ) dos judeus. ( ... ) cristãos, ( ... ) estes ( ... ) são referidos como "o povo escolhido de ( ... )), "o verdadeiro homem," "o filho do homem" e "a semente do filho do homem." Esta raça verdadeira é renomada no mundo ... em que os filhos da câmara nupcial moram.

Enquanto neste mundo a união é entre marido e mulher, um exemplo de força complementada pela fraqueza (?), no reino (eon) eterno, a forma de união é diferente, apesar de nos referirmos as duas pelo mesmo nome. Porém, existem outros nomes. Eles são superiores a todos os nomes indicados e são mais fortes do que o forte. Pois, quando ocorre uma demonstração de força, aparecem aqueles que se distinguem pela força. Estas coisas não são separadas, sendo ambas esta única coisa.
Isto é aquilo que não será capaz de se elevar acima do coração de carne.

Não é preciso que aqueles que têm tudo conheçam a si mesmos?
Alguns, de fato, que não conhecem a si mesmos, não serão capazes de gozar do que possuem.
Não só serão incapazes de deter o homem perfeito, mas não serão capazes de vê-lo, pois, se o virem, irão detê-lo. Não há outro meio para uma pessoa adquirir esta qualidade, exceto vestindo a luz perfeita (e) tornando-se também luz perfeita. Aquele que (a tiver vestido) entrará (... ). Quem recebe tudo ( ... ) deste lado ( ... ) será capaz ( ... ) aquele lugar, mas vai ( ... o meio) como imperfeito. Somente Jesus sabe o fim desta pessoa.
O sacerdote é inteiramente santo, até mesmo o seu corpo. Pois, se tomar o pão, o consagrará. Ele consagrará o cálice e tudo o mais que receber. Assim, como não vai consagrar o corpo também?
Ao aperfeiçoar a água do batismo, Jesus a esvaziou da morte. Assim descemos à água, mas não baixamos à morte para que não sejamos vertidos no espírito do mundo.
Quando aquele espírito sopra, ele traz o inverno. Quando o Espírito Santo sopra, chega o verão.
Aquele que tem o conhecimento da verdade é um homem livre, porém o homem livre não peca, pois "aquele que peca é escravo do pecado" (Jo 8:34). A verdade é a mãe, o conhecimento o pai. Aqueles que pensam que o pecado não se aplica a eles são chamados de "livres" pelo mundo. "Conhecimento" da verdade "torna estas pessoas meramente arrogantes," que é o que as palavras "os tornam livres" significam. Isto lhes dá um sentimento de superioridade sobre todo o mundo. Mas "o amor constrói" (1 Co 8:1). Na verdade, aquele que, por meio do conhecimento, é realmente livre, torna-se um escravo, devido ao amor por aqueles que não foram ainda capazes de alcançar a liberdade do conhecimento. O conhecimento torna-os capazes de serem-se livres. O amor (nunca chama) algo de seu, ( ... ) ele ( ... ) possui ( ... ). Ele nunca (diz, "Isto é seu") ou "Isto é meu," (mas, "Tudo isto) é seu." O amor espiritual é vinho e fragrância. Todos que com ele se ungem se deleitam nisto.
Enquanto aqueles que foram ungidos estiverem presentes, os que estão por perto também se aproveitam (da fragrância). Porém, quando os que foram ungidos com o unguento se retirarem, deixando-os, então aqueles que não foram ungidos, mas estavam meramente por perto, permanecerão em meio a seu mau odor. O samaritano não deu ao homem ferido nada mais do que vinho e óleo. Isto nada mais é do que o unguento, que cura as feridas, pois "o amor cobre inúmeros pecados" (1 Pe 4:8).

As crianças que uma mulher dá a luz se parecem com o homem que a ama. Se o seu marido a ama, então eles se parecem com seu marido. Se este for um adúltero, então elas se parecerão com o adúltero. Com freqüência, se uma mulher (adúltera) se deita com seu marido por conveniência, enquanto seu coração está com o amante, com quem ela geralmente tem relações, a criança que ela terá nascerá parecendo-se com o adúltero.
Portanto, vós que viveis com o Filho de Deus, não ameis o mundo, mas sim o Senhor, para que os filhos que vierdes a engendrar não se parecem com o mundo, mas com o Senhor.

O ser humano tem relação sexual com um ser humano. O cavalo com um cavalo, um jumento com um jumento. Membros de uma raça geralmente se associam (com) pessoas da mesma raça. Assim o Espírito se mistura com o Espírito, o pensamento se relaciona com o pensamento, e a (luz) compartilha (com a luz. Se) nasceres como um ser humano, será (um ser humano) que te amará. Se te tornares (um espírito), será o Espírito que se unirá a ti. Se te tornares pensamento, será o pensamento que se associará contigo. Se te tornares luz, é a luz que compartilhará contigo. Se te tornares um daqueles que pertencem ao alto, são aqueles que pertencem ao alto que repousarão em ti. Se te tornares um cavalo, um jumento, um touro, um cão, uma ovelha ou qualquer outro animal que estão fora ou embaixo, então, nenhum ser humano, espírito, pensamento ou luz será capaz de amar-te. Nem os que pertencem ao alto nem os que pertencem ao interior serão capazes de repousar em ti, e não terás parte deles.

Aquele que é escravo contra o seu desejo será capaz de tornar-se livre. Aquele que se tornou livre devido ao favor de seu mestre, e depois vendeu-se como escravo novamente, não será mais capaz de ser livre.
A agricultura no mundo requer a cooperação de quatro elementos essenciais. A
colheita será reunida no celeiro somente se houver a ação natural da água, da terra, do vento e da luz. A agricultura de Deus, da mesma forma, é baseada em quatro elementos: fé, esperança, amor e conhecimento. A fé é a terra em que fincamos raiz. A esperança é a água por meio da qual somos nutridos. Amor é o vento por meio do qual crescemos. O conhecimento, então, é a luz, por meio da qual (amadurecemos). A graça existe de (quatro maneiras: ela é) nascida da terra, é (celestial, ... ) do mais alto céu, ( ... ) no ( ... ).

Bem aventurado é aquele que em nenhuma ocasião causou a uma alma ( ... ). Esta pessoa é Jesus Cristo. Ele foi a toda parte e não prejudicou ninguém. Portanto, bem aventurado é aquele que age desta forma, porque é um homem perfeito. Pois a palavra nos diz que este tipo de homem é difícil de encontrar. Como seremos capazes de realizar uma coisa tão nobre? Como esta pessoa dará consolo a todos? Acima de tudo, não é apropriado causar tristeza a ninguém - seja importante ou modesto, crente ou sem crença - dando, então, consolo somente àqueles que se comprazem em boas ações. Alguns acham vantajoso proporcionar auxílio aos que fazem o bem. Aquele que faz boas ações não pode auxiliar tais pessoas, pois não se apega ao que gosta. Porém, é incapaz de causar tristeza, já que não aflige a ninguém. Na verdade, aquele que faz o bem, às vezes, causa tristeza aos outros -- não que seja sua intenção fazer isto -- ao contrário, é a própria maldade dos outros que é responsável pela tristeza que sentem. Aquele que tem as qualidades (do homem perfeito) confere alegria aos bons. Algumas pessoas, no entanto, sentem-se terrivelmente aflitas com tudo isto.

Havia um chefe de família que tinha todas as coisas imagináveis: filhos, escravos, gado, cachorros, porcos, milho, cevada, palha, pastagens, ( ... ), carne e bolotas.
(Ele era, porém,) uma pessoa sensata e conhecia o alimento de cada um. Servia pão às crianças ( ... ). Servia farinha aos escravos ( e ... ). Lançava cevada, palha e capim ao gado.
Dispensava ossos aos cachorros e bolotas e lavagem aos porcos. O mesmo ocorre com o discípulo de Deus: se ele for uma pessoa sensata compreende as necessidades do discipulado. As formas corporais não o enganarão, e ele examinará a condição da alma de cada um falando de acordo. Existem muitos animais no mundo que se apresentam de forma humana. Quando o discípulo os identifica, lança bolotas aos porcos, cevada, palha e capim
ao gado, ossos aos cães. Aos escravos proporcionará somente as lições elementares, às crianças oferecerá a instrução completa.
Existe o Filho do Homem e o filho do Filho do Homem. O Senhor é o Filho do Homem, e o filho do Filho do Homem é aquele que cria por meio do Filho do Homem.
O Filho do Homem recebe de Deus a capacidade para criar. Ele também tem a capacidade para gerar. Aquele que recebeu a habilidade para criar é uma criatura. Aquele que recebeu a habilidade para gerar é um descendente. Aquele que cria não pode gerar. Aquele que gera não tem o poder de criar. É dito, no entanto, "Aquele que cria gera." Mas, a sua denominada "prole" é meramente uma criatura. Por causa da ( ... ) do nascimento, eles não são seus descendentes mas ( ... ). Aquele que cria trabalha abertamente e é visível. Aquele que gera o faz (em privacidade), ficando escondido, já (pg 158) que ( ... ) imagem. Da mesma forma, aquele que cria (o faz) abertamente. Mas, o que gera (engendra) os filhos em privacidade.

Ninguém (pode) saber quando (o marido) e a esposa tem relações sexuais, a não serem os dois.
Realmente, o casamento no mundo é um mistério para os que assumiram uma esposa. Se existe uma qualidade oculta no casamento da corrupção, maior ainda será o verdadeiro mistério do matrimônio não profanado! Ele não é carnal mas puro. Não pertence ao desejo, mas, à vontade. Não pertence à escuridão nem à noite, mas ao dia e à luz. Quando um casamento está aberto ao público, tornou-se prostituição, e a noiva faz o papel de prostituta não só quando é inseminada por outro homem, mas ainda quando sai de seu quarto e é vista.
Ela só deve mostrar-se a seu pai, sua mãe, ao amigo do noivo e aos filhos do noivo. A estes é permitido entrar todos os dias na câmara nupcial. Aos outros resta simplesmente ansiar por ouvir a voz da noiva e deleitar-se com seu bálsamo. Eles que se alimentem das migalhas que caem da mesa, como os cães.
O noivo e a noiva pertencem à câmara nupcial. Ninguém poderá ver o noivo e a noiva, a menos que (torne-se) um com eles.
Quando Abraão ( ... ) que ele veria o que devia ver, (ele cortou) a carne do prepúcio, ensinando-nos que é apropriado destruir a carne.
(A maior parte das coisas) no mundo, enquanto suas (partes internas) estão ocultas, ficam de pé e vivem. (Se são reveladas), morrem, como é ilustrado pelo homem visível: (enquanto) os intestinos do homem estão escondidos, o homem está vivo; quando
seus intestinos são expostos e saem de dentro dele, o homem morre. O mesmo ocorre com a árvore: enquanto a raiz está escondida ela brota e cresce. Se suas raízes são expostas, a
árvore seca. Assim ocorre com todo nascimento no mundo, não só com o revelado, mas (também) com o oculto. Porque enquanto a raiz da maldade está escondida, esta permanece forte. Mas quando é reconhecida ela se dissolve. Quando é revelada ela morre. É por isto que a palavra disse: "O machado já está posto à raiz das árvores" (Mt 3:10). Ele não só cortará – o que é cortado brota outra vez -- mas o machado penetra profundamente até trazer a raiz para
fora.

Jesus arrancou inteiramente a raiz de todas as coisas, enquanto outros só o fizeram parcialmente. Quanto a nós, que cada um cave em busca da raiz do mal que está dentro de si, e que ela seja arrancada do coração de cada um pela raiz. Ela será arrancada se nós a reconhecermos. Mas se a ignorarmos, o mal se enraizará em nós e produzirá seus frutos em nosso coração. Ele nos dominará. Seremos seus escravos. Ele nos mantém cativos, para que façamos o que não queremos e não façamos o que queremos. Ele é poderoso porque nós não o reconhecemos. Enquanto (existe) permanece ativo. (A ignorância é a mãe de (todos) males). A ignorância resultará na (morte, porque) aqueles que vivem na ignorância não foram não (são) nem serão. ( ... ) será perfeito quando toda a verdade for revelada. Porque a verdade é como a ignorância: enquanto está escondida repousa em si mesma, mas quando é revelada e reconhecida, passa a ser louvada porque é mais forte do que a ignorância e o erro. Ela dá liberdade. A Palavra disse, "Se conhecerdes a verdade, a verdade vos libertará" (Jo 8:32). A ignorância é uma escrava. Conhecimento é liberdade. Se conhecermos a verdade, encontraremos os frutos da verdade dentro de nós. Se nos unirmos com ela, nos trará a plenitude.

No momento temos as coisas manifestadas da criação. Dizemos: "Os fortes
que são tidos em alta estima são grandes indivíduos. “E os fracos que são desprezados são os obscuros.” Contraste esta situação com as coisas manifestas da verdade: elas são fracas e desprezadas, enquanto as coisas ocultas são fortes e tidas em alta estima. Os mistérios da verdade são revelados, ainda que por meio de modelos e imagens. A câmara nupcial, no entanto, permanece oculta. É o santo do santo. O véu inicialmente ocultava (a forma) como Deus controla a criação, mas quando o véu é rasgado e as coisas interiores são reveladas, esta casa ficará desolada, ou melhor, será (destruída). E toda a deidade (inferior) fugirá daqui, mas não para os santos (dos) santos, porque não será capaz de se misturar com a (luz) pura e com a plenitude (perfeita), mas para baixo das asas da cruz (e debaixo) de seus braços.
Esta arca será (sua) salvação quando a enchente das águas surgir sobre eles. Se alguns pertencem a ordem sacerdotal, serão capazes de retirar-se para dentro do véu com o sumo sacerdote. Por esta razão o véu não se rasgou somente no alto, pois neste caso estaria aberto somente para os do alto; nem foi rasgado somente em baixo, pois neste caso teria sido revelado somente para os de baixo. Mas foi rasgado de alto a baixo. Aqueles acima abriram para nós as coisas abaixo, para que pudéssemos penetrar o segredo da verdade. Isto realmente é o que é tido em alta consideração (e) que é forte! E iremos lá por meio de modelos inferiores e formas de fraqueza. Eles são realmente inferiores quando comparados com a glória perfeita. Há uma glória que ultrapassa a glória e um poder que ultrapassa o poder. Portanto, as coisas perfeitas se abriram para nós, juntamente com as coisas ocultas da verdade. O santo dos santos foi revelado, e a câmara nupcial nos convida a entrar.

Enquanto ela estiver escondida, a fraqueza é realmente ineficaz, pois ela não foi removida do âmago da semente do Espírito Santo. Eles são escravos do mal. Mas, quando ela for revelada, então, a luz perfeita vai brilhar sobre todos. E todos os que estiverem em seu bojo (receberão a crisma). Então, os escravos serão libertados, (e) os cativos serão resgatados. "(Toda) planta (que) meu pai que está nos céus (não tiver) plantado será arrancada" (Mt 15:13). Aqueles que estiverem separados se unirão ( ... ) e serão preenchidos. Quem (entrar) na câmara nupcial vai acender a (luz), porque ( ... ) assim como nos casamentos que são ( ... ) acontece a noite. Aquele fogo ( ... ) só de noite é apagado. Mas, por outro lado, os mistérios daquele casamento são aperfeiçoados de dia e sob a luz. Nem aquele dia nem sua luz jamais terminam. Se alguém tornar-se um filho da câmara nupcial, este receberá a luz. Se alguém não recebê-la enquanto estiver aqui, não será capaz de recebê-la no outro lugar. Quem receber aquela luz não será visto, nem poderá ser detido. E ninguém será capaz de atormentar uma pessoa como aquela, mesmo quando ela estiver vivendo no mundo. E também, quando se retirar do mundo, ela já terá recebido a verdade em imagens. O mundo tornou-se o reino (eon) eterno, porque o reino eterno é a plenitude para ela. E isto ocorre desta forma: é revelado a ela sozinho, não escondido na escuridão e à noite, mas escondido num dia perfeito e sob a luz sagrada.

Atos de João - Complemento de Mateus 26, versículos 29A até 30

Antes que fosse preso pelo julgamento dos judeus, o Mestre nos reuniu a todos e disse:
"Antes que eu seja entregues a eles, cantaremos um hino ao Pai e, em seguida, iremos ao encontro daquilo que nos espera Ele pediu que nos déssemos as mãos em roda e colocando-se no meio, disse:"Respondei-me Amém."

Começou , então a cantar um hino que dizia: "Gloria ao Pai". E nós ao redor lhe respondíamos:"Amém". "Glória á Graça; glória ao Espírito; glória ao Santo; glória a sua glória." - Amém.
"Nós o louvamos, ó Pai; nós lhe damos graças, ó Luz em que não habita as trevas." -
Amém.
"Agora direi por que damos graças:"
"Devo ser salvo e salvarei." - Amém.
"Devo ser liberto e libertarei."-Amém.
"Devo ser gerado e gerarei."-Amém.
"Devo ouvir e serei ouvido."-Amém.
"Devo ser lembrado e sempre lembrarei."-Amém.
"Devo ser lavado e lavarei."-Amém.
"A Graça dança em conjunto, eu devo tocar a flauta, dançai todos."-Amém.
"O reino dos anjos cantam louvores conosco."-Amém
"Ao universo pertence àquele que participa da dança."-Amém.
"Quem participa da dança, não sabe o que vai acontecer."-Amém.
"Devo ir mas vou ficar."-Amém.
"Devo honrar e devo ser honrado."-Amém.
"Não tenho morada mas estou em todas os lugares."-Amém.
"Não tenho templo mas estou em todos os templos."-Amém.
"Sou um espelho para aquele que me contempla."-Amém.
"Sou uma porta para aquele que bate."Amém.
"Sou um caminho para ti que passa."Amém.
"Se seguires minha dança, compreendes o que falo, guarda silêncio sobre meus
mistérios."
"Tu, que participa da dança, compreende o que faço, pois a ti pertence esse sofrimento.!
"Tu não poderia de maneira alguma compreender o que sofre, se Eu não  tivesse sido
enviado como Logos do Pai."
"Viste o que sofro, me viste sofrendo, e não ficaste incessível, mas sim profundamente
perturbado."
"Tu, que pela perturbação alcançaste a sabedoria, tens em mim um leito: repousa em
mim."

EVANGELHO GNÓSTICO DE JOÃO

"Saberás quem sou quando Eu tiver partido. O que pareço ser agora, não sou. Tu verás quando vieres."
"Se soubesse como sofrer, seria capaz de não sofrer mais. Aprende a sofrer e tornar-te-ás capaz de não mais sofrer."
"O que não sabes, eu mesmo vou ensinar. Sou teu Deus. Quero andar no mesmo ritmo das almas santas. Aprende comigo a palavra da sabedoria."
"Dize-me de novo: Glória ao Pai; glória ao Logo; glória ao Espírito Santo.
"Tu queres saber o que sou? Com a palavra revelei tudo, e não fui de modo algum revelado."
"Compreende bem: Eu estarei aqui. Quando tiveres compreendido, diz: Glória ao Pai !"-
Amém.

EVANGELHO CRISTÃO, MATEUS 26 versículo 30

30 Depois do Canto dos Salmos saíram para o monte as Oliveiras O Salvador disse: " Todas as espécies, todas as formações, todas as criaturas estão unidas, elas dependem umas das outras, e se separarão novamente em sua própria origem. Pois a essência da matéria somente se separará de novo em sua própria essência. Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça."

Pedro lhe disse: “Já que nos explicaste tudo, dize-nos isso também: o que é o pecado do mundo?"
Jesus disse: "Não há pecado; sois vós que os criais, quando fazeis coisas da mesma espécie que o adultério, que é chamado 'pecado'. Por isso Deus Pai veio para o meio de vós, para a essência de cada espécie, para conduzi-la a sua origem."

Em seguida disse: "Por isso adoeceis e morreis [...]. Aquele que compreende minhas palavras, que as coloque-as em prática. A matéria produziu uma paixão sem igual, que se originou de algo contrário à Natureza Divina. A partir daí, todo o corpo se desequilibra. Essa é a razão por que vos digo: tende coragem, e se estiverdes desanimados, procurais força das diferentes manifestações da natureza. Quem tem ouvidos para ouvir que ouça."

Quando o Filho de Deus assim falou, saudou a todos dizendo: "A Paz esteja convosco. Recebei minha paz. Tomai cuidado para ninguém vos afaste do caminho, dizendo: 'Por aqui' ou 'Por lá', Pois o Filho do Homem está dentro de vós. Segui-o. Quem o procurar, o encontrará. Prossegui agora, então, pregai o Evangelho do Reino. Não estabeleçais outras regras, além das que vos mostrei, e não instituais como legislador, senão sereis Mas eles estavam profundamente tristes. E falavam:"Como vamos pregar aos gentios o Evangelho ao Reino do Filho do Homem? Se eles não o procuraram, vão poupar a nós?" Maria Madalena se levantou, cumprimentou a todos e disse a seus irmãos: "Não vos lamentais nem sofrais, nem hesiteis, pois sua graça estará inteiramente convosco e vos protegerá. “Antes, louvemos sua grandeza, pois Ele nos preparou e nos fez homens”. Após Maria ter dito isso, eles entregaram seus corações a Deus e começaram a conversar sobre as palavras do Salvador.

Pedro disse a Maria:
"Irmã, sabemos que o Salvador te amava mais do que qualquer outra mulher. Conta-nos as palavras do Salvador, as de que te lembras, aquelas que só tu sabes e nós nem ouvimos."
Maria Madalena respondeu dizendo: " Esclarecerei a vós o que está oculto".
E ela começou a falar essas palavras: "Eu", disse ela, "eu tive uma visão do Senhor e contei a Ele: 'Mestre, apareceste-me hoje numa visão'. Ele respondeu e me disse: 'Bem aventurada sejas, por não teres fraquejado ao me ver. Pois, onde está a mente há um tesouro'. Eu lhe disse: 'Mestre, aquele que tem uma visão vê com a alma ou como espírito?' Jesus respondeu e disse: "Não vê nem com a alma nem com o espírito, mas com a consciência, que está entre ambos - assim é que tem a visão [...]".

E o desejo disse à alma: 'Não te vi descer, mas agora te vejo subir. Por que falas mentira, já que pertences a mim?' A alma respondeu e disse: 'Eu te vi. Não me viste, nem me reconheceste. Usaste-me como acessório e não me reconheceste. ' Depois de dizer isso, a alma foi embora, exultante de alegria.
"De novo alcançou a terceira potência , chamada ignorância. A potência, inquiriu a alma dizendo: 'Onde vais? Estás aprisionada à maldade. Estás aprisionada, não julgues!' E a alma disse: ' Por que me julgaste apesar de eu não haver julgado? Eu estava aprisionada; no entanto, não aprisionei. Não fui reconhecida que o Todo se está tanto as coisas terrenas quanto as celestiais

O EVANGELHO DE MARIA MADALENA

"Quando a alma venceu a terceira potência, subiu e viu a quarta potência,
que assumiu sete formas. A primeira forma, trevas; a segunda, desejo; a terceira, ignorância,; a quarta, é a comoção da morte; a quinta, é o reino da carne; a sexta, é a vã sabedoria da carne; a sétima, a sabedoria irada. Essas são as sete potências da ira. Elas perguntaram à alma: ´De onde vens, devoradoras de homens, ou onde vais, conquistadora do espaço?' A alma respondeu dizendo: ' O que me subjugava foi eliminado e o que me fazia voltar foi derrotado..., e meu desejo foi consumido e a ignorância morreu.

Num mundo fui libertada de outro mundo; num tipo fui libertada de um tipo celestial e também dos grilhões do esquecimento, que são transitórios. “Daqui em diante, alcançarei em silêncio o final do tempo propício, do reino eterno’.”
Depois de ter dito isso, Maria Madalena se calou, pois até aqui o Salvador lhe tinha falado. Mas André respondeu e disse aos irmãos: "Dizei o que tendes para dizer sobre o que ela falou. Eu, de minha parte, não acredito que o Salvador tenha dito isso.
Pois, esses ensinamentos carregam idéias estranhas". Pedro respondeu e falou sobre as mesmas coisas. Ele os inquiriu sobre o Salvador:"Será que ele realmente conversou em particular com uma mulher e não abertamente conosco? Devemos mudar de opinião e ouvirmos ela? Ele a preferiu a nós?" Então Maria Madalena se lamentou e disse a Pedro:

"Pedro, meu irmão, o que estás pensando? Achas que inventei tudo isso no mau coração ou que estou mentindo sobre o Salvador?" Levi respondeu a Pedro: "Pedro, sempre fostes exaltado. Agora te vejo competindo com uma mulher como adversário. Mas, se o Salvador a fez merecedora, quem és tu para rejeitá-la? Certamente o Salvador a conhece bem. Daí a ter amado mais do que a nós. É antes, o caso de nos envergonharmos e assumirmos o homem perfeito e nos separaremos, como Ele nos mandou, e pregarmos o Evangelho, não criando nenhuma regra ou lei, além das que o Salvador nos legou."


Depois que Levi disse essas palavras, eles começaram a sair para anunciar e pregar.

NARRAÇÕES DE TOMÉ O ISRAELITA - A respeito da Infância do Salvador Jesus.

A INFÂNCIA DE JESUS CRISTO

 “Eu Tomé, o Israelita julguei necessário levar ao conhecimento de todos os irmãos, descendentes dos gentios, dos não judeus a infância do Nosso Senhor, Yeshua, Ha-mashiach, Jesus o Messias e tantas quantas maravilhas ele realizou depois de nascer em nossa terra”.
Esse menino Yeshua, Jesus que na época tinha cinco anos, encontrava-se um dia brincado no leito de um riacho depois de haver chovido, represando a correnteza em pequenas poças tornava-as instantaneamente cristalinas dominando-as somente com as suas palavras.

Fez depois uma massa mole com barro e com ela formou uma dúzia de passarinhos. (Cf. Gên2, 7) Era um sábado e havia outros meninos brincando com ele. Certo homem judeu vendo o que Jesus acabava de fazer em dia de festa foi correndo até seu pai e contou-lhe tudo:
- “Olha teu filho que está no riacho e juntando um pouco de barro fez uma dúzia de passarinhos profanando com isso o dia de sábado”.
José foi até o local e viu e ao vê-lo ralhou-lhe chamando atenção dizendo: - “Porque fazes no sábado o que não é permitido?” Jesus batendo palmas dirigiu-se às figurinhas ordenando-lhes voassem e naquele momento aquelas aves feitos de barro se transformaram em aves de carne e osso e voaram. E os passarinhos foram todos embora gorjeando.

Os judeus ao verem isto se encheram de admiração e foram contar aos superiores o que haviam visto Jesus fazer. Encontrava-se ali presente o filho de Anás, o escriba e teve a ideia de fazer escoar as águas represadas por Jesus usando uma planta de vine. A esta atitude Jesus indignou-se e disse: - “Malvado, ímpio e insensato, será que as poças e as águas te estorvavam, elas te atrapalhavam em alguma coisa? Ficarás agora seco como uma árvore sem que possa dar folhas, nem raízes, nem frutos”. Imediatamente o rapaz tornou-se complemente seco. Os pais pegaram o menino chorando em sua tenra idade e levaram-no ante ao pai de Jesus, José, maldizendo-o por ter um filho que fazia tal coisa.
De outra feita Yeshua, Jesus, estava em meio ao povo e um rapaz que vinha correndo esbarrou em suas costas, irritado Jesus lhes disse: - “Não prosseguirás teu caminho!” – imediatamente o rapaz caiu morto. Algumas pessoas que viam o acontecido disseram: - “De onde teria vindo este rapaz, pois todas suas palavras se tornam fatos consumados?”
Os pais o defunto chegaram a José, o interpelaram dizendo:
- “Como um filho como esse que você tem? De duas uma: Ou não podes viver com o povo ou tendes acostumá-lo a abençoar e não amaldiçoar, pois causa morte aos nossos filhos”. José chamou Jesus à parte e o repreendeu da seguinte maneira:
- “Porque fazes tais coisas, se elas se tornam a causa de nos odiarem e nos perseguirem?”
E Jesus replicou:
- “Eu bem sei que estas palavras não vêm de ti, mas, calarei com respeito à tua pessoa. Esses outros ao contrário receberão o seu castigo”. No mesmo instante aqueles que haviam falado mal dele ficaram cegos.
As testemunhas desta cena encheram-se de pavor e ficaram perplexas confessando que qualquer palavra de sua boca fosse boa ou má tornava-se um fato e convertia-se numa maravilha. E quando José percebeu o que Jesus havia feito, agarrou sua orelha e a puxou fortemente. Yeshua, Jesus o rapaz indignou-se e disse:
- “A ti é suficiente que me vejas sem me tocares. Tu nem sabes quem eu sou, pois se soubesses não me magoarias. Ainda que neste instante eu esteja contigo, eu fui criado antes de você”.
Naquela época encontrava-se naquele local certo rabino de nome Zaqueu o qual ouvindo Jesus falar daquela maneira com seu pai encheu-se de admiração ao ver que sendo menino dizia tais coisas. Passado alguns dias aproximou-se de José e disse-lhe:
- “Vejo que tens um filho sensato e inteligente, confia-o a mim para que aprenda as letras, aprenda a ler e a escrever, eu da minha parte juntamente com elas ensinar-lhe-ei toda espécie de sabedoria e arte de saudar os mais velhos, de respeitá-los como superiores, e pais, e de amar seus semelhantes. Disse todas as letras com todo esmero e clareza, desde o alfa até o ômega, desde a primeira letra do alfabeto, Alef até a última letra do alfabeto, Beta”.
 Jesus, porém fixou seu olhar no rabino Zaqueu e perguntou-lhe: 
- “Como te atreves a explicar beta aos outros se tu mesmo ignoras a natureza da primeira letra do alfabeto o Alfa? Hipócrita, explica primeiro a letra, A, se é que sabes depois acreditaremos em tudo o que disseres em relação à segunda letra do alfabeto”. Começou a interrogar o professor sobre a primeira letra e este não pode responder. Jesus disse então a Zaqueu na presença de todos:
- “Aprenda professor: A constituição da primeira letra e repara como tem linhas e traços médios, aqueles que vês unidos transversalmente conjuntos elevados, divergentes”. “Os traços contidos na letra A, são de três sinais: homogêneos, equilibrados e proporcionados.”
 O professor Zaqueu quando ouviu a exposição feita pelo menino sobre tantas e tais alegorias acerca da primeira letra do alfabeto ficou desconcertado, ficou abismado diante da resposta e da erudição e da intelectualidade que ele manifestava. Então disse aos presentes na sala de aula:

- “Pobre de mim. Não sei o que fazer. Pois eu mesmo procurei a conclusão ao trazer este jovem perto de mim, leva-o então ao irmão José eu te rogo! Não posso suportar a severidade do olhar deste menino, não consigo fazer com que seu discurso seja inteligível pra mim. Não consigo entender nada do que ele diz. Este jovem não nasceu na terra, é capaz de dominar até mesmo o fogo! Talvez tenha nascido antes mesmo da criação do mundo como ele mesmo diz. Não sei qual entre o pode ter carregado e qual seio pode tê-lo alimentado. Ai de mim meu amigo! Estou atordoado. Não posso seguir o vôo de sua inteligência. Não posso seguir o nível de sua inteligência, eu me enganei. Queria muito ter um aluno e me deparei com um mestre. Percebo perfeitamente amigos a minha confusão, pois, velho e tudo ou mais me deixei vencer por uma criança. É de se ficar arrasado e morrer por causa deste menino, pois neste momento sou incapaz de olhá-lo fixamente. Que vou responder quando todos me disserem que me deixei vencer por um rapazote? Que vou explicar a respeito que ele me disse a respeito das linhas da primeira letra? Não sei amigos, o que ignoro a origem e o destino desta criatura. Por isso te rogo, oh irmão José pai de Jesus que o leve para sua casa é algo extraordinário; ou ele é um Deus ou um anjo. Eu já não sei o que dizer”.

Enquanto os judeus se entretiam em dar conselhos a Zaqueu, o menino Jesus começou a rir com muita vontade e disse: - “Fortificai agora vossas coisas e abri os vossos olhos à luz, ó cegos de coração. Vim de cima para amaldiçoar-vos e depois chamar-vos para o alto. Pois esta é a ordem daquele que me enviou por vossa causa”.
Quando o menino terminou de falar sentiram imediatamente curados todos aqueles que haviam caído sob maldição. Desde então ninguém ousava irritá-lo para que ele não os amaldiçoasse ou viessem a ficarem cegos.
Dias depois se encontrava Jesus brincando no terraço, um dos meninos que se achava brincando com ele caiu do alto e aquele menino então morreu. E os outros meninos foram-se embora e somente Jesus ficou. Pouco depois, o pai do morto chegou e pôs a culpa nele. E disse a Jesus. Jesus disse: Não! E eles o maltrataram. Então naquele momento Jesus deu um salto de cima do terraço vindo a cair lá em baixo junto ao cadáver. Então ele pôs-se a gritar bem alto. Então Jesus gritou o nome do menino Zenon bem alto. Zenon era o nome do menino. Ele disse: “Zenon levanta-te e responde se fui eu que te empurrei?”
Então o menino Zenon que havia caído do terraço morto levantou-se rapidamente e disse: “Não Senhor, tu não me jogaste, mas me ressuscitastes!”
Ao ver isto todos ficaram consternados e perplexos, os pais do menino glorificaram a Deus por aquele maravilhoso feito e adorou o menino Yeshua, Jesus.
Poucos dias depois estava um jovem cortando lenha nas redondezas e aconteceu que o machado escapou e cortou a planta do seu pé. Porém, o infeliz estava morrendo rapidamente por causa da hemorragia que havia dado. Sobreveio, pois, um grande alvoroço e juntou muita gente, também Jesus veio ver o que estava acontecendo. Depois de abrir espaço à força por entre a multidão chegou junto ao ferido e com suas mãos apertou o pé injuriado e ferido do jovem que num instante ficou totalmente curado.
Então Jesus disse ao rapaz: -“Levanta-te! Levanta-te agora e continua cortando a lenha e lembra-te de mim”.
A multidão quando se deu conta do que tinha acontecido reverenciou o menino Jesus dizendo: “Verdadeiramente o Espírito de Deus habita esse rapaz!”
Então quando ele já tinha seis anos sua mãe deu-lhe um cântaro para que ele enchesse de água e trouxesse para a sua casa. No caminho Jesus tropeçou nas pessoas e escorregou e a vasilha quebrou-se. Ele então estendeu o manto com que lhe cobria encheu-o de água e o levou para sua mãe. Seu manto era de linho e esta ao ver tal maravilha pôs-se a beijar a Jesus e foi guardando em seu íntimo todos os mistérios que  via-o realizar.
Certa vez sendo tempo de semeadura saiu Jesus com seu pai José para semear trigo em uma propriedade. Enquanto José espalhava as sementes o menino Jesus teve a vontade de semear um grãozinho de trigo, após ceifar e debulhar sua colheita somou cem coros, equivalente a quarenta mil litros. Convocou em sua propriedade todos os pobres da região e repartiu com eles os grãos. José depois levou para si o restante. Então Jesus tinha oito anos quando operou esse milagre.
Seu pai que era carpinteiro fazia arado e cangas. Certa vez recebeu uma encomenda para fazer uma cama para uma pessoa de boa posição e rica. Aconteceu que uma das tábuas era mais curta que a outra e por isso José não sabia como fazer e proceder naquela situação. Então Jesus disse ao seu pai: -“Põe no chão as tábuas e iguala-as pela metade.” Assim fez José. Jesus foi a outra extremidade, pegou a tábua mais curta e esticou-a deixando tão comprida quanto a outra. José encheu-se de admiração ao ver o prodígio e cobriu o menino de abraços e beijos dizendo. –“Feliz de mim porque Deus me deu esse menino.” José percebendo que a inteligência do menino  ia amadurecendo ao mesmo tempo que a idade dele quis novamente impedir que ele permanecesse analfabeto, por isso, levou-o a um outro professor e colocou-o à sua disposição. Então ele disse ao professor: -“Ensina!” – Então o professor disse: -“Ensinar-te-ei em primeiro lugar as letras gregas, depois as hebraicas. Era evidente que o professor conhecia bem a capacidade do rapaz e sentia medo dele. Depois de escrever o alfabeto entretia-se com ele por um longo tempo sem obter nenhuma resposta de seus lábios. Finalmente disse-lhe Jesus: - “Se você é mestre de verdade e conhece perfeitamente as letras dize-me: Qual é o valor da primeira letra do alfabeto, então eu te direi qual é o valor da segunda letra do alfabeto”. Irritado o professor bateu-lhe na cabeça, quando o menino Jesus sentiu a dor amaldiçoou e imediatamente o professor desmaiou e caiu de bruços no chão.
O jovem voltou para a casa de José e este cheio de pesar disse à Maria que não o deixasse sair de casa porque todos aqueles que o aborreciam vinham a morrer.
Passado algum tempo outro professor que era amigo de José disse: - “Leva teu filho à escola, talvez com delicadeza eu possa ensinar-lhe as letras”. Então José disse: - “Se te atreves pode levá-lo consigo.” O professor o aceitou com muito receio e preocupação, porém o menino demonstrou boa vontade e progredia a olhos vistos.
Certo dia ele entrou na sala de aula e encontrou um livro colocado sobre a carteira e sem parar de ler a letras que estavam escritas abriu sua boca e começou a falar levado pelo Espírito Santo. Ensinando a Lei aos circunstantes que ali estavam. Uma grande multidão que havia se juntado o ouvia e cheios de admiração pela maravilha de sua doutrina e pela clareza de suas colocações, considerando que era uma criança que assim lhes falava a todos.
José quando soube disso encheu-se de medo e correu imediatamente até a escola julgando que aquele professor pudesse ter sido maltratado. Este, porém disse-lhe:
- “Saiba irmão que recebi este menino como se fosse um aluno comum e acontece que está sobrando graça e sabedoria, leva-o, por favor, pra tua casa!”
Ao ouvir estas palavras o menino sorriu e disse:
- “Agradeço a ti por terdes falado com retidão e teres dado um testemunho justo. Será curado aquele que anteriormente foi castigado.” Imediatamente o outro professor que o havia amaldiçoado e tinha caído no chão por ter batido na cabeça dele sentiu-se bem. José pegou o menino e foi para casa.
Outra vez José mandou seu filho Tiago juntar lenha e voltar para casa. O menino Jesus o acompanhou, mas aconteceu que enquanto Tiago recolhia os gravetos uma cobra picou-lhe a mão.  Tendo caído no chão ficou completamente largado e estando já para morrer quando Jesus aproximou-se e assoprou a mordida e imediatamente desapareceu a dor a cobra explodiu e Tiago recobrou imediatamente a sua saúde.
Aconteceu depois nas vizinhanças de José tinha um menino que vivia doente veio a falecer. Sua mãe chorava inconsolavelmente. Jesus ao tomar conhecimento da dor daquela mãe e do tumulto que se formava, acudiu rapidamente ela, encontrando o menino já morto Jesus tocou-lhe no peito e disse: - “Pequenino menino, falo contigo agora, não morras, mas vive feliz e fica com tua mãe”. No mesmo instante o menino abriu os olhos e sorriu. Então disse Jesus à mulher: - “Anda, pegai-o, dá-lhe leite e lembra-te de mim!”
Ao presenciar o acontecido os presentes encheram de admiração e exclamaram: - “Na verdade esse menino ou é um Deus ou um anjo de Deus, pois, tudo que sai de sua boca torna-se um fato consumado”
Jesus saiu dali e pôs-se a brincar com os outros jovens.
Dias depois sobreveio um grande tumulto onde construíam uma casa. Jesus levantou e dirigiu-se até o local vendo ali um cadáver estendido no chão e dirigiu a ele nos seguintes termos: - “Levanta-te e termina o trabalho de construção desta casa!”
 Ele levantou e em seguida o reverenciou.
A multidão que viu esta cena encheu-se de admiração e disse: - “Esse rapaz deve ter vindo do céu, pois tem livrado muitas almas da morte e ainda seguirá livrando mais ainda durante sua vida”.
Quando Jesus tinha doze anos de idade, seus pais, como de costume foram de caravana até Jerusalém para assistir a festa da Páscoa. Quando as festas terminaram voltaram para casa. No instante de partir o menino Jesus retornou à Jerusalém, enquanto seus pais achavam que o encontrava junto com a comitiva de pessoas que estava voltando de Jerusalém para casa. Depois do primeiro dia de marcha puseram a buscá-lo entre seus parentes na multidão que voltava para casa. Não o encontrando preocuparam-se muito e voltaram à Jerusalém para procurá-lo. E finalmente depois do terceiro dia encontraram-no no Templo de Jerusalém sentado entre os doutores escutando-os e também fazia muitas perguntas.
Todos estavam atentos a ele e admirando-se de ver o menino como era deixando os anciãos, os velhos e os mestres do povo sem palavras averiguando os principais pontos da Lei e as parábolas dos profetas.
Aproximando Maria sua mãe disse-lhe:
- “Meu filho, porque agiste assim conosco?” 
- “Veja com que preocupação tem estado a te procurar por todo esse tempo”.
Jesus, porém respondeu:
- “Porque me procuráveis, não sabias acaso que devo ocupar-me das coisas que se refere ao meu pai?”
Os escribas e fariseus indagaram a ela:
- “És tu acaso a mãe deste menino?”
 Ela respondeu: - “Sim eu sou.”
 Então eles retrucaram: - “Pois feliz de ti entre as mulheres, já que o Senhor teve por bem bendizer o fruto do teu ventre, porque, semelhante glória, virtude e sabedoria não ouvimos, nem vimos jamais”.
Jesus levantando-se seguiu sua mãe. Era obediente aos seus pais. Sua mãe guardava todos esses fatos no seu coração. Enquanto isso Jesus ia crescendo em idade, sabedoria e graça. (= Cf. Lc2, 41-52)
Graças sejam dadas a ele por todos os séculos dos séculos amém. 


EVANGELHO DE JUDAS ISCARIOTES

Uma das maiores descobertas da arqueologia judaico-cristã, foi encontrado no final da década de 1970, depois de ficar oculto por 1600 anos, em cavernas às margens do rio Nilo. Camponeses rurais não sabiam decifrar aquele texto antigo (estava escrito em copta – antiga escrita egípcia), mas sabiam que devia valer um bom preço nos mercados de antiguidade do Cairo. O clima seco do deserto ajudou a conservar as páginas de papiro do Evangelho de Judas durante 1600 anos. A atmosfera úmida da capital do Egito contrasta com o clima árido do deserto, o que contribuiu muito para a deterioração dos manuscritos. Estas páginas ficaram guardadas, posteriormente, 16 anos dentro de um cofre de um banco nos Estados Unidos, a espera de um comprador que pagasse um bom preço. A deterioração se acentuou mais ainda. Esse códice (não era um rolo, mas sim um livro encadernado, feito de papiro, usado como papel no antigo Egito), só chegou nas mãos dos restauradores somente em 2001, e já estava em péssimas condições de conservação. O Evangelho estava escrito em 13 folhas de papiro, frente e verso – 26 páginas numeradas de 33 a 58 no códice. O manuscrito estava guardado em um caixa e as suas folhas estavam desfeitas em numerosos pedacinhos. Se um fragmento se encaixa de um lado, precisa se encaixar no seu verso. Foi um dos quebra-cabeças mais complexos jamais criados pela história. Seria o mesmo que pegar um documento datilografado e rasgá-lo em diversos pedaços, jogar fora uma parte, e tentar reconstruí-lo. Imagine o processo de restauração deste Evangelho! Foram 5 anos de exaustivos trabalhos para a sua restauração e tradução. Mas mesmo em seu estado de deterioração, uma linha chamava a atenção. Era o título dos papiros, até então desconhecido: Peuaggelion Nioudas, ou seja, em copta, “O Evangelho de Judas”. Os especialistas ficaram assombrados, pois poucos acreditavam na existência desse texto, até então conhecido apenas nos primeiros tempos do Cristianismo. O Evangelho de Judas era conhecido por ter sido mencionado pelo bispo Irineu, em seu tratado “Contra a Heresia”, em torno do ano 180. Estes evangelhos gnósticos sofreram uma furiosa perseguição da Igreja. O Evangelho Segundo Judas Iscariotes 8 A tradução do Evangelho de Judas só foi levada a público somente em 2006 pela National Geographic, depois de uma cuidadosa pesquisa científica para confirmar sua autenticidade. É uma das maiores descobertas do século 20, pois de suas páginas surge um novo Judas, não aquele condenado ao inferno pela Igreja. Estes textos trazem uma nova interpretação deste apóstolo.

 O Evangelho de Judas Logo na abertura do Evangelho recém descoberto, encontramos o seguinte texto: “O relato secreto da revelação feita por Jesus em conversa com Judas Iscariotes durante uma semana, três dias antes de celebrar a Páscoa” É informado de que se trata de um relato “secreto”, ou seja, não é para todo mundo, mas apenas para aqueles que possuem o conhecimento, quer dizer, para os “gnósticos”. Este Evangelho é considerado gnóstico, pois trata de um ensinamento reservado, não público. O Evangelho de Judas é diferente de qualquer coisa que já tenhamos lido. Nestas páginas, Judas não é o traidor de Jesus, mas sim seu mais fiel amigo e discípulo. É Judas a pessoa a quem foi pedido o maior de todos os sacrifícios – entregar Jesus para seus inimigos. E esse pedido foi feito pelo próprio Jesus: - “Mas tu suplantarás a todos eles. Pois sacrificarás o homem que me veste”. Judas, de fato, conhecia a verdadeira identidade de Jesus. Judas lhe disse: “Eu sei quem és e de onde vieste. És do reino imortal de Barbelo. E eu não dou digno de proferir o nome daquele que te enviou.” Nos textos gnósticos Barbelo é um dos seres divinos primários no domínio perfeito de Deus. Em 26 páginas, o documento narra episódios ocorridos durante a semana que antecede a Páscoa judaica no ano de 33 d.C.(os dias anteriores à prisão de Jesus) e mostra uma versão completamente diferente da que tínhamos acesso até hoje. 


No relato, Judas é descrito como o discípulo mais próximo de Jesus, o único capaz de compreender a essência dos seus ensinamentos. “A estrela que indica o caminho é a tua estrela”, diz Jesus ao seu fiel seguidor. E promete: “A tua estrela, a estrela de Judas, brilhará no céu”. Não é sabida a autoria destes textos. Supõe-se que seja algum seguidor de Judas quem os tenha escrito. E Jesus fala a Judas em particular: “Afasta-se dos outros e eu te contarei os mistérios do reino. É possível que tu o alcances, mas vais afligir-se muito. Porque outra pessoa vai te substituir, para que os doze [discípulos] mais uma vez possam completar-se com o deus deles”. O Evangelho Segundo Judas Iscariotes 10 Essa é uma referência ao que é narrado no livro dos Atos, do Novo Testamento, em que, depois da morte de Judas, os 11(onze) discípulos o substituem por Matias para que possam continuar sendo 12 (Atos 1:16-26). Esse tema volta a ser abordado mais adiante no texto, quando Judas relata a Jesus uma “visão suprema” que teve e o deixou inquieto. Judas disse: “Mestre, assim como ouviste a todos eles, ouve também a mim. Porque tive uma visão suprema”. Ao ouvir isso, Jesus riu e lhe disse: “Tu, décimo terceiro espírito, por que te esforças tanto? Mas fala, e talvez eu seja paciente contigo”. Judas lhe disse: “Na visão, eu me enxerguei enquanto os doze discípulos me apedrejavam e me perseguiam com inclemência.


Também fui ao local [...] atrás de ti. Vi [uma casa...], e meus olhos não foram capazes de compreender o seu tamanho. Pessoas supremas a rodeavam (...)”. Jesus respondeu e disse: “Judas, a tua estrela te desviou do caminho. Ninguém de nascimento mortal é digno de entrar na casa que tu viste, porque aquele local está reservado para os sagrados”. (...) Judas pergunta acerca de seu próprio destino. Judas disse: “Mestre, será que a minha semente está sob o controle dos governantes?” Jesus respondeu e lhe disse: “Vem, que eu lhe contarei esses segredos, (...) mas que tu te afligirás muito quando vir o reino e todas as suas gerações.” Ao ouvir isso, Judas lhe disse: “De que adianta eu ter recebido isto? Por que tu me isolaste daquela geração?” Jesus respondeu e disse: “Tu te transformarás no décimo terceiro, e serás amaldiçoado pelas outras gerações – e chegarás a governá- las. Nos últimos dias condenarão tua ascensão à geração sagrada”. Ou seja, Jesus afirma que Judas vai se transformar no “décimo terceiro”, quer dizer, vai estar fora dos 12 discípulos e vai transcender seu número, porque ele será muito superior a tudo neste mundo material quando atingir a sua salvação. 




Jesus dialoga com seus discípulos: 
A oração de ação de graças ou eucaristia 

Um dia Ele estava com seus discípulos na Judéia, e ele os encontrou reunidos e sentados em piedosa prática. Quando ele [se aproximou] seus discípulos, [34] reunidos e sentados, fizeram uma oração de ação de graças sobre o pão, [ele] riu. 

Os discípulos disseram-[lhe], “Mestre, por que estás rindo de [nossa] oração de ação de graças? Nós fizemos o que é certo.” 

Ele respondeu e lhes disse, “Eu não estou rindo de vocês. [Vocês] não estão fazendo isto devido às suas próprias vontades, mas sim porque é através disto que seu Deus [será] louvado.” 

Eles disseram, “Mestre, tu és […] o Filho de nosso Deus.” 

Jesus lhes disse, “Como vocês me conhecem? Verdadeiramente [eu] digo a vocês, nenhum membro da geração das pessoas que estão entre vocês, me conhecerá.” 


OS DISCÍPULOS SE ENCOLERIZAM 

Quando seus discípulos ouviram isto, começaram a ficar bravos e enfurecidos, e começaram a blasfemar contra Jesus em seus corações. 

Quando Jesus observou a falta de [entendimento deles, disse] a eles, “Por que isso os encolerizou? Seu Deus, que está dentro de vocês, e […], [35] provocou a cólera [dentro] de suas almas. [Deixe] qualquer um de vocês, que seja [forte o bastante] entre os seres humanos, manifestar o humano perfeito, e se levante ante minha face.” 

Todos eles disseram, “Nós temos a força”. 

Mas seus espíritos não ousaram ficar de pé ante [Jesus], exceto Judas Iscariotes. Ele foi capaz de levantar-se ante Jesus, mas não pôde olhá-lo nos olhos, e Judas virou sua face. 

Judas lhe [disse], “Eu sei quem tu és e de onde vieste. Tu és do reino imortal de Barbelo. E não sou digno de mencionar o nome daquele que te enviou.” 


JESUS FALA COM JUDAS PARTICULARMENTE 

Sabendo que Judas estava refletindo sobre algo que era exaltado, Jesus lhe disse, “Afaste-se dos outros e eu poderei te falar sobre os Mistérios do Reino. É possível você alcançá-lo, mas você sofrerá muito. [36] Pois outra pessoa o substituirá, para que os doze [discípulos] possam vir novamente a se realizar com seu Deus.” 

Judas lhe disse, “Quando tu me contarás estas coisas e [quando] virá o grande dia da luz do amanhecer para a geração?” 

Mas quando ele falou isso, Jesus o deixou. 


CENA 2: Jesus aparece novamente a seus discípulos 

Na manhã seguinte, depois do que aconteceu, Jesus [apareceu] novamente a seus discípulos. 

Eles lhe disseram, “Mestre, para onde foste e o que fizeste quando tu nos deixaste?” 

Jesus lhes disse, “Eu fui para uma outra grande e sagrada geração.” 

Seus discípulos lhe perguntaram, “Senhor, o que é a grande geração, que é superior a nós e mais santa que nós, que não está agora nestes reinos?” 

Quando Jesus ouviu isto, riu e lhes disse, “Por que vocês estão pensando, em seus corações, na forte e sagrada geração? [37] Verdadeiramente [eu] digo a vocês que ninguém nascido [deste] eon verá essa [geração], e nenhuma hoste de anjos das estrelas regerá aquela geração, e nenhuma pessoa de nascimento mortal pode se associar com ela, porque aquela geração não vem de […] que se tornou […]. A geração das pessoas dentre [vocês] é proveniente da geração da humanidade […] poder, o qual [… os] outros poderes […] pelo [qual] vocês regem.” 

Quando [seus] discípulos ouviram isto, ficaram turbados de espírito. Não puderam dizer uma só palavra. 

Num outro dia Jesus apareceu [a eles]. Eles disseram [a ele], “Mestre, nós o vimos em uma [visão], porque tivemos grandes [sonhos…] noite […].” 

[Ele disse], “Por que têm [vocês… quando] [ vocês ] foram se esconder?” [38] 


OS DISCÍPULOS VÊEM O TEMPLO E DISCUTEM O OCORRIDO 

Eles [disseram, “Nós vimos] uma grande [casa com um grande] altar [em seu interior, e] doze homens — eles são os sacerdotes, diríamos — e um nome; e uma multidão de pessoas está esperando naquele altar, [até] os sacerdotes [… e recebem] as oferendas. [Mas] nós ficamos esperando.” 

[Jesus disse], “Como são [os sacerdotes]? 

Eles [disseram, “Alguns…] duas semanas; [alguns] sacrificam seus próprios filhos, outros suas esposas, em louvor [e] humildade entre si; alguns dormem com homens; alguns estão envolvidos em [massacres]; alguns cometem uma infinidade de pecados e de ações ilegais. E os homens que estão de pé [diante] do altar invocam teu [nome], [39] e em todas as suas ações deficientes, os sacrifícios são concluídos […].” 

Depois que disseram isto, ficaram quietos, porque estavam preocupados. 


JESUS OFERECE UMA INTERPRETAÇÃO 
ALEGÓRICA DA VISÃO DO TEMPLO 

Jesus lhes disse, “Por que vocês estão preocupados? Verdadeiramente eu digo a vocês, todos os sacerdotes que estavam de pé ante aquele altar invocavam meu nome. Novamente eu lhes digo, meu nome foi escrito nisto […] das gerações das estrelas através das gerações humanas. [E eles] plantaram árvores sem frutos, em meu nome, de uma maneira vergonhosa.” 

Jesus lhes disse, “Aqueles que vocês viram recebendo as oferendas no altar —aqueles são vocês. Esse é o Deus que vocês servem, e vocês são aqueles doze homens que vocês viram. O gado que vocês viram sendo trazido para o sacrifício são as várias pessoas que vocês extraviaram [40] diante daquele altar. […] estarão de pé e farão uso de meu nome deste modo, e gerações de piedosos permanecerão leais a ele. Depois disto um outro homem estará lá de pé [pelos fornicadores], e outro [irá] se levantará lá pelos assassinos de crianças, e outro pelos que dormem com homens, e pelos que se abstêm, e pelo resto das pessoas de corrupção, e ilegalidade e erro, e os que dizem, ‘Nós somos como os anjos’; eles são as estrelas que trazem tudo à sua conclusão. Pois foi dito às gerações humanas, “Vejam, Deus recebeu vosso sacrifício das mãos de um sacerdote — isso é, de um ministro do erro. Porém é o Senhor, o Senhor do universo que comanda ‘No último dia eles serão envergonhados’”. [41] 

Jesus [lhes]disse, “Parem de sacr[ificar…] o que vocês têm […] sobre o altar, desde que eles estão sobre suas estrelas e seus anjos e já lá chegaram às suas conclusões. Assim, deixem ser [enlaçados] antes de vocês, e os deixem ir [— aproximadamente 15 linhas se perderam—] gerações […]. Um padeiro não pode alimentar toda a criação [42] sob o [céu]. E […] para eles […] e […] para nós e […]. 

Jesus disse-lhes, “Parem de discutir comigo. Cada um de vocês tem sua própria estrela, e tod[os —aproximadamente 17 linhas se perderam—] [43] em […] quem veio [… fonte] para a árvore […] deste eon […] durante um tempo […] mas ele veio para banhar o Paraíso de Deus, e a [geração] que perdurará, porque [ele] não manchará o [caminho de vida da]quela geração, mas […] por toda a eternidade.” 


JUDAS PERGUNTA A JESUS SOBRE AQUELA GERAÇÃO
E SOBRE AS GERAÇÕES HUMANAS 

Judas perguntou a [ele, “Rabb]i, que tipo de fruto esta geração produz?” 

Disse-lhe Jesus, “As almas de todas as gerações humanas morrerão. Porém, quando estas pessoas completarem o tempo do reino e o espírito as deixar, seus corpos morrerão, mas suas almas estarão vivas, e eles serão levados.” 

Judas disse, “E o que fará o restante das gerações humanas?” 

Jesus disse, “É impossível [44] plantar sementes nas [pedras] e colher seus frutos. [Esta] também é a maneira […] a geração [maculada] […] e a Sophia corruptível […] a mão que criou as pessoas mortais, de forma que suas almas vão até os reinos eternos do alto. [Verdadeiramente] eu te digo, […] anjo […] poder poderá ver que […] estes para quem […] gerações santas […].” 

Depois, que Jesus disse isto, partiu. 


 Judas narra uma visão e Jesus responde 

Judas falou, “Mestre, como tu escutaste a todos eles, agora também escuta-me, pois eu tive uma grande visão”. 

Quando Jesus ouviu isto, ele riu e disse-lhe, “Você décimo terceiro espírito, por que tenta tão esforçadamente? Mas fala, e eu serei tolerante contigo.” 

Judas lhe disse, “Na visão eu me vi sendo apedrejado pelos doze discípulos, e [45]que estavam perseguindo- [me severamente]. E eu também vim para o lugar onde […] depois de ti. Eu vi [uma casa…], e meus olhos não puderam [entender] seu tamanho. Grandes pessoas estavam cercando-a, e aquela casa [tinha] uma cobertura de folhagem, e no meio da casa havia [uma multidão — faltam duas linhas —], dizendo, ‘Mestre, leva-me juntamente com estas pessoas’”. 

[Jesus] respondeu e disse, “Judas, tua estrela te extraviou.” Ele continuou, “Nenhuma pessoa de nascimento mortal é merecedora de entrar na casa que você viu, pois aquele lugar está reservado para o sagrado. Nem o sol nem a lua regerão lá, nem o dia, mas o sagrado habitará lá sempre, no reino eterno com os anjos santos. Olhe, eu te expliquei os mistérios do reino [46] e eu te ensinei a respeito do erro das estrelas; e […] envie-o […] nos doze eons.” 


JUDAS PERGUNTA SOBRE SEU PRÓPRIO DESTINO 

Judas disse, “Mestre, poderia ser que minha semente estivesse sob o controle dos regentes?” 

Jesus respondeu-lhe dizendo, “Vem, que eu [—duas linhas que se perderam—], mas isso você sofrerá muito quando você ver o reino e toda sua geração.” 

Quando Judas ouviu isto, disse, “Qual foi o bem que eu recebi? Pois tu me separaste para aquela geração.” 

Jesus, respondendo, disse-lhe, “Você se tornará o décimo terceiro, e será amaldiçoado pelas outras gerações—e você regerá sobre elas. Nos últimos dias eles amaldiçoarão sua ascensão [47] para a [geração] santa.” 


JESUS ENSINA COSMOLOGIA A JUDAS SOBRE: 
O ESPÍRITO E O AUTOGERADO 

Jesus disse, “[Venha], para que eu possa te ensinar acerca dos [segredos] que nenhuma pessoa [jamais] viu. Pois lá existe um grande e ilimitado reino cuja extensão nenhuma geração de anjos jamais viu, [no qual] há [um] grande [Espírito] invisível, o qual nenhum olho, de qualquer anjo, jamais viu, nenhum pensamento do coração jamais compreendeu, e nunca foi chamado por qualquer nome. 

“E uma nuvem luminosa lá apareceu. Ele disse, ‘Permita que um anjo nasça para ser meu criado.’ 

“Um grande anjo, o divino iluminado Auto-gerado, emergiu da nuvem. Por causa dele, quatro outros anjos nasceram de uma outra nuvem, e eles se tornaram criados para o angélico Auto-gerado. O Auto-gerado disse, [48] ‘Permite […] nasça […]’, e nasceu […]. E ele [criou] a primeira luminária para reinar sobre ele. Ele disse, ‘Permita que os anjos nasçam para servi-[lo]’, e miríades, um sem número, nasceram. Ele disse, ‘[Deixe] um eon iluminado nascer,’ e ele nasceu. Ele criou a segunda luminária [para] reinar sobre ele, juntamente, com miríades de anjos para servi-lo. Isso é como ele criou o restante dos eons iluminados. Ele os fez reinar sobre eles, e criou para eles inumeráveis anjos, para assisti-los. 


ADAMAS E AS LUMINÁRIAS 

“Adamas estava na primeira nuvem luminosa, que nenhum anjo jamais viu entre tudo aquilo chamado ‘Deus’. Ele [49] […] que […] a imagem […] e pela semelhança d[este] anjo. Ele fez a incorruptível [geração] de Seth aparecer […] os doze […] os vinte e quatro […]. Ele fez setenta e duas luminárias aparecerem na geração incorruptível, conforme a vontade do Espírito. As setenta e duas luminárias mesmas fizeram aparecer trezentas e sessenta luminárias na geração incorruptível, de acordo com a vontade do Espírito, de maneira que o número delas deveria ser de cinco para cada uma. 

“Os doze eons das doze luminárias constituem o pai delas, com seis céus para cada eon, de maneira que há setenta e dois céus para as setenta e duas luminárias, e para cada uma [50] [delas, cinco] firmamentos, [para um total de] trezentos e sessenta [firmamentos…]. A elas foi dada autoridade e uma [grande] hoste [inumerável] de anjos, para glória e adoração, [e depois disso também] espíritos virgens, para glória e [adoração] de todos os eons e dos céus e dos firmamentos deles. 


O COSMOS, O CAOS E O MUNDO INFERIOR 

“A multidão desses imortais é chamada de cosmos—isto é, perdição—pelo Pai e pelas setenta e duas luminárias, que estão com o Autogerado e seus setenta e dois éons. Nele o primeiro humano apareceu com seus poderes incorruptíveis. E o eon que apareceu com sua geração, o eon no qual estão a nuvem do conhecimento e o anjo, é chamado [51] El. […] éon […] depois disso […] dito, ‘Permita que os doze anjos nasçam [para] governar o Kaos e o [mundo inferior]’. E veja, da nuvem apareceu um [anjo], cuja face relampejava com fogo e cuja aparência foi manchada com sangue. O nome dele era Nebro, que quer dizer ‘rebelde’; outros o chamam Yaldabaoth. Outro anjo, Saklas, também veio da nuvem. Assim Nebro criou seis anjos—assim como também Saklas—para serem assistentes, e estes produziram doze anjos nos céus, com cada um recebendo uma porção nos céus. 


OS GOVERNANTES E OS ANJOS 

“Os doze governantes falaram com os doze anjos: ‘Permite, cada um de vocês, [52] […] e os deixaram […] geração [—uma linha se perdeu—] anjos’: 

O primeiro é [S]eth que é chamado Cristo. 
O [segundo] é Harmathoth que é […]. 
O [terceiro] é Galila.
O quarto é Yobel.
O quinto [é] Adonaios. 

Estes são os cinco que regem o mundo inferior e, preponderantemente, o caos. 


A CRIAÇÃO DA HUMANIDADE 

“Então Saklas disse aos seus anjos, ‘Vamos criar um ser humano segundo a semelhança e a imagem’. Eles moldaram Adão e sua esposa Eva, que é chamada, na nuvem, de Zoe. Pois por este nome todas as gerações buscam o homem, e cada uma delas chama a mulher por estes nomes. Agora, Sakla não [53] con [trolou…] exceto […] as gera[ções…] isto […]. E o [governante] disse a Adão, ‘Você viverá muito tempo, com seus filhos’”. 


JUDAS PERGUNTA SOBRE O DESTINO DE ADÃO 
E DA HUMANIDADE 

Judas disse a Jesus, “[O que] é uma longa duração de tempo, a qual o ser humano viverá?” 

Jesus disse, “Por que você está desejando saber isto? Aquele Adão, com a geração dele, viveu seu tempo de vida no local onde ele recebeu seu reino, com longevidade junto com seu regente?” 

Judas perguntou a Jesus, “O espírito humano morre?” 

Jesus disse, “Foi por isso que Deus ordenou a Miguel que desse os espíritos das pessoas a elas como um empréstimo, de maneira que elas poderiam oferecer serviço, mas o Altíssimo ordenou a Gabriel que concedesse espíritos à grande geração sem regente sobre ela—isto é, sobre o espírito e a alma. Então, o [resto] das almas [54] [—uma linha se perdeu—]. 


JESUS DISCUTE A DESTRUIÇÃO DO MAL 
COM JUDAS E OS OUTROS 

“[…] luz [—quase duas linhas se perderam—] ao redor […] deixe […] espírito [isso é] dentro de você mora nesta [carne] entre as gerações de anjos. Mas Deus fez com que o conhecimento fosse [dado] para Adão e aqueles que estavam com ele, de forma que os reis do Kaos e do mundo inferior não poderiam controlar o conhecimento deles.” 

Judas perguntou a Jesus, “Assim o que farão essas gerações?” 

Jesus disse, “Verdadeiramente eu te digo, para todos eles as estrelas trazem a conclusão dos assuntos. Quando Saklas completar o período de tempo designado para ele, a primeira estrela deles aparecerá com as gerações, e eles terminarão o que disseram que fariam. Então eles fornicarão em meu nome, e matarão as suas crianças [55] e eles irão […] e [—aproximadamente seis linhas e meia se perderam—] meu nome, e ele irá […] sua estrela sobre o [décimo]terceiro eon.” 

Depois disso Jesus [riu]. 

[Judas perguntou], “Mestre, [por que estás rindo de nós]?” 

[Jesus] respondeu [e disse], “eu não estou rindo [de vocês] mas sim do erro das estrelas, porque estas seis estrelas vagam, aproximadamente, com estes cinco combatentes, e todos eles serão destruídos junto com suas criaturas.” 

JESUS FALA DOS QUE SÃO BATIZADOS 
E DA TRAIÇÃO DE JUDAS 

Judas perguntou a Jesus, “Olha, o que farão os que foram batizados em teu nome?” 

Jesus disse, “Verdadeiramente eu digo [a você], este batismo [56] […] meu nome [—aproximadamente nove linhas se perderam—] para mim. Verdadeiramente [eu] digo a você, Judas, [aqueles que] ofereçam sacrifícios a Saklas […] Deus [— três linhas se perderam—] tudo que é mau. 

“Mas você excederá a todos eles. Pois você sacrificará o homem que me reveste. 

Seu chifre já foi elevado, sua ira foi acendida, sua estrela mostrou-se brilhantemente, e seu coração tem […]. [57] 

“Verdadeiramente […] seu último […] torna-se [—aproximadamente duas linhas e meia se perderam—], aflija [—aproximadamente duas linhas se perderam—] o regente, desde que ele será destruído. E então a imagem da grande geração de Adão será exaltada, previamente para o céu, a Terra, e os anjos, aquela geração, que é dos reinos eternos, existe. Olhe, tudo foi dito a você. Erga teus olhos para cima e olhe para a nuvem e para a luz dentro dela e para as estrelas que a cercam. A estrela que conduz o caminho é a tua estrela.” 

Judas ergueu os olhos e viu a nuvem luminosa, e entrou nela. Os que estavam em pé no chão ouviram uma voz que vinha da nuvem, dizendo, [58] […] grande geração […] … imagem […] [—aproximadamente cinco linhas se perderam—]. 


CONCLUSÃO: JUDAS TRAI JESUS 

[…] Seus Altos Sacerdotes murmuraram porque [ele] havia entrado no quarto de hóspedes para fazer sua oração. Mas alguns escribas estavam lá observando cuidadosamente para prendê-lo durante sua oração, porque eles tinham medo das pessoas, desde que foi considerado por todos como um Profeta. 

Eles aproximaram-se de Judas e lhe perguntaram, “O que você está fazendo aqui? Você é um discípulo de Jesus”. 

Judas lhes respondeu como eles desejavam. E ele recebeu algum dinheiro e ele o entregou para eles. 

Nota: O que podemos aprender deste Evangelho? Dentre muitas coisas é entender o por que Judas Iscariotes traiu Jesus; tido como maldito em parte do mundo, na História da Salvação, na verdade ele nunca foi. Ele foi usado com um propósito, que segundo Jesus o seu martírio nesse mundo serviria para seu sacrifício na Cruz. Judas Iscariotes foi um instrumento de Deus. Ele aceitou trocar sua vida neste com um propósito muito maior. Segundo ele próprio, Jesus havia lhe prometido muito mais no Céu. Então não podemos acreditar de forma nenhuma que Judas Iscariotes se perdeu e se condenou. Ele sim, bem sabia de sua missão mas encarou com firmeza o que ia fazer. Os outros Apóstolos a principio não entenderam e o tiveram depois disso como amaldiçoado. Talvez sem culpa, pois, eles não tiveram acesso à conversa que Jesus teve com ele antes mesmo de celebrar a última ceia. O suicídio segundo a Igreja é uma ato imperdoável, mas no caso de Judas Iscariotes ele foi aceito como um martírio e não como objeto de condenação, sabendo Jesus que era preciso que tudo acontecesse com as coisas deviam ser. Com certeza ele alcançou a santidade da mesma forma que os outros, pois, era preciso que ele traísse o Salvador segundo seus próprios desígnios.     

IMPORTANTE:

Tem gente que confunde os Apóstolos Judas Tadeu e Judas Iscariotes, são duas pessoas totalmente diferentes: 

A Bíblia fala de dois Apóstolos de Jesus: Judas Iscariotes e Judas Tadeu:

Judas Iscariotes era irmão do sumo sacerdote Caifás. Foi o que segundo a história traiu Jesus. Vejamos então:

JUDAS  ISCARIOTES:
São várias as explicações etimológicas que, ao longo dos tempos, foram surgindo para o mome "Iscariotes". Uma delas tem uma conotação política, ligando-o ao grupo dos sicários, uma ramificação do grupo dos zelotes que perpetrava violentos ataques – geralmente com punhais, e daí o seu nome latino de sicarii – contra as forças romanas na Palestina. Por isso, se argumenta que Judas Iscariotes, alegadamente, teria sido um membro deste grupo e que o seu nome seria a transliteração de homem do punhal, em hebraico ish sicari. Outros derivam o seu nome do aramaico saqar, palavra que significava alguém "mentiroso", que é "falso".

Outra possibilidade é que Iscariotes fosse usado como apelido, em hebraico ish Qeryoth, que significa homem de Queriote. (João 6:7113 26:). Também, podia ser designado "filho" ou "descendente" ou "natural" de Queriote. "Queriote" – de acordo com a interpretação inicialmente veiculada por São Jerónimo – seria o nome simplificado da aldeia, ou mais provavelmente um conjunto de aldeias, de Queriote-Ezron (Josué 15:21) – nome que significa "cidades de Ezron" – localizada na província romana da Judeia (no território da Tribo de Judá) e que é comummente identificada com a moderna Qirbet el-Qaryatein, situada a cerca de 20 km a sul de Hebron.
Judas Isacariotes em hebraico יהודה איש־קריות, Yehudhah ish Qeryoth; em grego bíblico Iouda Iskariôth] ou Iouda Iskariotes ) foi um dos doze apóstolosde Jesus Cristo, que, de acordo com os evangelhos canônicos, veio a ser o traidor que entregou Jesus aos seus captores por trinta moedas de prata.Judas, em grego Ioudas, é uma helenização do nome hebraico Judá (יהודה, Yehûdâh, palavra que significa "abençoado" ou "louvado"), sendo, por sinal, o nome de apóstolo que mais vezes aparece nos Evangelhos (vinte vezes) depois do de Simão Pedro.
JUDAS TADEU:
São Judas Tadeu, Era Primo de Jesusnascido em Caná de Galiléia, na Palestina, era filho de Alfeu (ou Cleofas) e Maria Cleofas. O pai, Alfeu, era irmão de São José e a mãe, prima-irmã de Maria Santíssima. Portanto, Judas Tadeu era primo-irmão de Jesus, tanto pela parte do pai como da mãe.
Um de seus irmãos, Tiago, também foi chamado por Jesus para ser apóstolo. Era chamado de Tiago Menor para diferenciar do outro apóstolo Tiago que, por ser mais velho que o primeiro, era chamado de Maior.
Judas Tadeu tinha quatro irmãos: Tiago, José, Simão e Maria Salomé. O relacionamento da família de Judas Tadeu com o próprio Jesus Cristo, pelo que se consegue perceber na Bíblia é o seguinte: Alfeu (Cleofas) era um dos discípulos a quem Jesus apareceu no caminho de Emaús, no dia da ressurreição. Maria Cleofas, uma das piedosas mulheres que tinham seguido a Jesus desde a Galiléia e permaneceram ao pé da cruz, no Calvário, junto com Maria Santíssima .
Dos irmãos dele, Tiago foi um dos doze apóstolos, que se tomou o primeiro bispo de Jerusalém. José, apenas conhecido como o Justo. Simão foi o segundo bispo de Jerusalém, após Tiago. E Maria Salomé, a única irmã, foi mãe dos apóstolos Tiago Maior e João evangelista.
É de se supor que houve muita convivência de Judas Tadeu com o primo e os tios. Essa fraterna convivência, além do parentesco, pode ter levado são Marcos a citar Judas e os irmãos como irmãos de Jesus (Mc 6,3). 

Citações na Bíblia
A Bíblia trata pouco de Judas Tadeu. Mas, aponta o importante: Judas Tadeu foi escolhido a dedo, por Jesus, para apóstolo. Quando os evangelhos nomeiam os doze escolhidos, consta sempre Judas ou Tadeu entre a relação. O livro dos Atos dos Apóstolos também se refere a ele (At 1,13). Além dessas vezes em que Judas Tadeu aparece entre os colegas do colégio apostólico, apenas uma vez é citado especialmente nas Escrituras. Foi no episódio da santa Ceia, na quinta-feira santa, narrado por seu sobrinho João evangelista (Jo 14,22). Nesta oportunidade, quando Jesus confidenciava aos apóstolos as maravilhas do amor do Pai e lhes garantia especial manifestação de si próprio, Judas Tadeu não se conteve e perguntou: "Mestre, por que razão hás de manifestar-te só a nós e não ao mundo?" Jesus lhe respondeu afirmando que teriam manifestação dele todos os que guardassem sua palavra e permaneces- sem fiéis a seu amor. Sem dúvida, nesse fato, Judas Tadeu demonstra sua generosa compaixão por todos os homens, para que se salvem todos. A fidelidade, coragem e perseverança dos Doze Grandes Homens do Evangelho, contribuíram para que o nome de Jesus viesse ser o mais admirado, citado e respeitado dos nomes.

Fontes:
http://www.angelfire.com/ar2/jcarthur/page2.htm 
https://pt.wikipedia.org/wiki/Judas_Iscariotes




A SOPHIA DE JESUS CRISTO OU SABEDORIA DE CRISTO

Após ele ressurgir de entre os mortos, seus doze discípulos e sete mulheres(1) continuaram a ser seus seguidores e foram para a Galileia, até a montanha chamada 'Presságio e Alegria' (2). Quando se reuniram, estavam perplexos, confusos sobre a realidade subjacente do universo, o plano, a sagrada(3) providência e os poderes das autoridades (4) e sobre tudo que o Salvador estava fazendo com eles no segredo (5) do plano sagrado. Então, o Salvador apareceu, não em sua forma anterior, mas como um espírito invisível. E sua aparência assemelhava-se a um grande anjo de luz. Mas não devo descrever a sua aparência. Nenhum corpo mortal poderia suportá-la (6), somente um corpo físico puro e perfeito, como aquele sobre o qual ele nos ensinou na Galileia, no monte chamado 'das Oliveiras' (7). E ele disse: "A paz esteja com vocês! Minha paz eu lhes dou!" E todos eles ficaram maravilhados e apreensivos. O Salvador riu e disse a eles: "O que vocês estão pensando? Porque estão perplexos? O que estão procurando (entender)?" Filipe respondeu: "A respeito da realidade subjacente do universo e do plano". O Salvador disse a eles: "Quero que saibam que todos os homens nascidos na terra, desde a fundação do mundo até agora, sendo pó, apesar de terem inquirido sobre Deus, quem ele é e como é ele, não o encontraram. Ora, os mais sábios entre eles especularam sobre o ordenamento (8) do mundo e seus movimentos. Mas sua especulação não alcançou a verdade. Pois, é dito por todos filósofos que o ordenamento é direcionado de três maneiras e por isso não há concordância entre eles. Alguns deles dizem que o mundo é dirigido por si mesmo. Outros que é a providência (que o dirige). E outros, que é o destino. Mas não é nenhum desses. Novamente, das três explanações que há pouco mencionei, nenhuma está próxima da verdade e elas são dos homens. Mas eu, que vim da Luz Infinita. Estou aqui - por conhecê-la - para que possa (9) falar-lhes a respeito da natureza precisa da verdade. Tudo quanto seja de si mesmo é uma vida contaminada, pois é auto-gerado. A providência não possui sabedoria nela. E o destino não discerne. [Pois tudo quanto seja de si mesmo é vazio de vida, é auto-gerado. A providência é tola. E o destino é algo sem discernimento.] Mas a vocês é dado conhecer. E quem quer que seja merecedor do conhecimento, (o) receberá, aquele que não tenha sido gerado pelo relacionamento impuro (10), mas pelo Primeiro Que Foi Enviado, pois ele é imortal em meio aos homens mortais." [Então, quem quer que seja capaz de se libertar destas três opiniões que há pouco mencionei e vir, por meio de outra explanação, a reconhecer o Deus da verdade e concordar em tudo concernente a ele, esse é imortal, habitando em meio aos homens mortais.] Mateus disse-lhe: "Senhor, ninguém pode encontrar a verdade exceto através do senhor. Portanto, ensina-nos a verdade". O Salvador falou: "Aquele QUE É é inefável. Nenhum princípio o conhece, nenhuma autoridade, nem dependência, nem qualquer criatura desde a fundação do mundo até agora, com exceção (11) dele mesmo e daqueles a quem ele queira revelar-se, através daquele que é da Primeira Luz. De agora em diante eu sou o Grande Salvador. Pois ele é imortal e eterno. Ora, ele é eterno, não tendo nascido, pois todo aquele que nasce, perecerá. Ele não foi gerado, não tendo princípio, pois tudo que tem um princípio, tem um fim. Já que (12) ninguém o governa, ele não tem nome, pois quem quer que tenha um nome é a criação de um outro (13). Ele é inominável, não tem forma humana, pois todo aquele que tem forma humana é a criação de um outro. Ele tem a aparência de si mesmo (14) - não como aquela que vocês viram e receberam, mas uma aparência estranha que supera todas as coisas e é superior ao universo. Ele olha para todos os lados e vê a si próprio a partir de si mesmo. Como é infinito, é eternamente incompreensível. É imperecível e não tem semelhança (a qualquer coisa). Ele é o imutável bem. É sem falhas. Eterno. Abençoado. Apesar de ser incognoscível, sempre conhece a si mesmo. Ele é imensurável. Insondável. É perfeito, não tendo defeito. Ele é imperecivelmente abençoado. É chamado 'Pai do Universo'." Filipe disse: "Senhor, como, então, ele apareceu aos perfeitos?" O Salvador perfeito respondeu-lhe: "Antes que qualquer coisa seja visível, dentre aquelas que são visíveis, a majestade e a autoridade estão nele, visto que ele abarca inteiramente as totalidades, enquanto que nada o abarca. Pois ele é todo mente. E é pensamento, consideração, reflexão, racionalidade e poder. Todos são poderes iguais. São a fonte das totalidades. E todas as raças, desde a primeira até a última, estavam em sua previsão, aquela do Pai Não-gerado e infinito." [E todas as raças (desde a primeira) até a última, estão previstas pelo Não-gerado, pois (15) ele ainda não surgiu à visibilidade.] Tomé falou-lhe: "Porque esses surgiram e porque foram revelados?" O perfeito Salvador respondeu: "Eu vim do Infinito, para que eu possa dizer-lhes todas as coisas. O Espírito QUE É foi o progenitor, que tem o poder (de) um progenitor e a natureza de (dar) forma, para que a grande fartura que estava oculta nele pudesse ser revelada. Por causa de sua compaixão e de seu amor ele desejava dar fruto por si mesmo, para que ele não (gozasse) sua benevolência sozinho, mas (que) outros espíritos da Geração Resoluta pudessem dar corpo e fruto, glória e honra na imperecibilidade e em sua graça infinita; para que seu tesouro pudesse ser revelado pelo Deus Auto-Gerado, o pai de toda imperecibilidade e daqueles que apareceram mais tarde. Mas eles não haviam alcançado ainda a visibilidade. Porém existe uma grande diferença entre os imperecíveis." Porém existia uma diferença entre os eons imperecíveis. Vamos, então, refletir (sobre isto) desta forma. Ele exclamou dizendo: "Quem tem ouvidos para ouvir a respeito das infinidades, que ouça", e "Dirigi-me àqueles que estão despertos." E ele continuou ainda, dizendo: "Tudo que veio do perecível, perecerá, já que veio do perecível. Mas tudo o que veio da imperecibilidade, não perecerá, mas se tornará imperecível (BG 89, 16-17 acrescenta: pois se origina da imperecibilidade). Portanto, muitos homens se perderam porque eles não conheciam esta diferença e morreram." Maria disse a ele: "Senhor, como vamos então conhecer isto?" O Salvador perfeito disse: Porém isto é suficiente, pois é impossível para alguém disputar a natureza das palavras que acabei de falar sobre Deus verdadeiro, bem-aventurado e imperecível. Mas, se alguém quiser acreditar nas palavras (aqui) determinadas, que ele vá do que está oculto até o fim do que está visível, e este Pensamento lhe instruirá sobre como a fé nas coisas que não são visíveis foi encontrada no que é visível. Este é um princípio de conhecimento. "Venham das coisas invisíveis até o fim das que são visíveis, e a própria emanação do Pensamento lhe revelará como a fé nas coisas que não são visíveis foi encontrada naquelas que são visíveis, aquelas que pertencem ao Pai Não-Gerado. Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça. O Senhor do Universo não é chamado 'Pai', mas 'Antepassado'. (Porque o Pai é) o início (ou princípio) daqueles que vão aparecer, mas ele (o Senhor) é (o) Antepassado sem início. Olhando-se dentro de si mesmo num espelho, ele se parece com sua própria semelhança, porém sua aparência parecia como seu Próprio-Pai Divino e (como) Confrontador 'daqueles confrontados', o Primeiro Pai Existente Não-Gerado. Ele na verdade tem a mesma idade da Luz que veio antes dele, mas não é igual a ela em poder. "E a seguir foi revelada uma grande multidão de seres auto-gerados confrontadores, iguais em idade e poder, estando na glória (e) sem número, cuja raça é chamada 'A Geração sobre a Qual Não Há Reino' 'daquele em quem vocês mesmos apareceram destes homens.' E toda esta multidão sobre a qual não há reino é chamada 'Filhos do Pai Não-Gerado, Deus, Salvador, Filho de Deus,' cuja semelhança está consigo. Porém, ele é o Incognoscível, que está sempre pleno de glória imperecível e de alegria inefável. Eles todos descansam nele, sempre se regozijam em alegria inefável na sua glória imutável e sua jubilação imensurável. Isto nunca foi ouvido ou conhecido entre todos os eons e seus mundos até agora." Mateus disse a ele: "Senhor, Salvador, como o Homem foi revelado?" O Salvador perfeito disse: "Quero que vocês saibam que aquele que apareceu antes do universo no infinito, o Pai construído e desenvolvido por Si Mesmo, sendo pleno de luz brilhante e inefável, no princípio, quando ele decidiu que sua semelhança (deveria) se tornar um grande poder, imediatamente o princípio (ou início) daquela Luz apareceu como Homem Andrógino e Imortal. Isto, para que por meio daquele Homem Imortal eles pudessem alcançar a sua salvação e despertar do esquecimento por meio do intérprete que foi enviado, que estará com vocês até o fim da pobreza dos ladrões. Seu nome masculino é "Mente Perfeita Gerada". E seu nome feminino (é) "Toda-sábia Sophia Geradora." Também é dito que ela se parece com seu irmão e consorte. Ela é a verdade incontestada; porque abaixo daqui o erro, que existe com a verdade, a contesta. "E seu consorte é a Grande Sophia, que deste o princípio lhe foi destinada para união pelo Pai Auto-Gerado, do Homem Imortal 'que apareceu como Primeiro, divindade e reino,' pois o Pai, que é chamado 'Homem, Pai-Próprio,' revelou isto. E ele criou um grande eon, cujo nome é Ogdoad, para sua própria majestade. "Ele recebeu grande autoridade, e governou sobre a criação da pobreza. e governou sobre todas as criações. Ele criou deuses, anjos (e) arcanjos, miríades sem número para o acompanhamento daquela Luz e do Espírito masculino-tríplice, que é o de Sophia, seu consorte. Pois deste Deus por meio deste Homem originou-se a divindade e o reino. Portanto, ele foi chamado 'Deus dos deuses,' 'Rei dos reis.' "O Primeiro Homem tem sua mente singular, interior, e o pensamento - assim como ele é isto (pensamento) - (e) a consideração, a reflexão, a racionalidade, o poder. Todos os atributos que existem são perfeitos e imortais. Com relação a imperecibilidade, eles são na verdade iguais. (Porém) com respeito ao poder, eles são diferentes, como a diferença entre pai e filho, (e filho) e pensamento, e o pensamento e o resto. "Como eu disse antes, entre as coisas que foram criadas, a mônada é a primeira. A díada segue-a, e a tríada, até as décimas. As décimas, porém, governam as centésimas; as centésimas governam as milésimas; as milésimas governam as décima-milésimas. Esta é a seqüência (entre os) imortais. O Primeiro Homem é desta forma: Sua Mônada. (As páginas 79 e 80 estão faltando. Elas foram substituidas pela seção correspondente de Eugnostos - Código V, cujo começo é algo diferente da frase parcial final de III 78.) Mais uma vez, esta é a seqüência (que) existe entre os imortais: a mônada e o pensamento são as coisas que pertencem ao Homem Imortal. Os pensamentos (são) as dezenas, e as centenas são (os ensinamentos), (e os milhares) são os conselheiros, (e) os dez mils (são) os poderes. Porém aqueles que vêm do ... existem com seus ( ... ) (em) cada eon ( ... ) ( ... No princípio, o pensamento) e os pensamentos (apareceram da) mente, (então) os ensinamentos dos pensamentos, os conselhos (dos ensinamentos), (e) o poder (dos ) (conselhos). E depois de tudo isto, tudo o que foi revelado apareceu de seu poder. E do que foi criado, tudo o que foi moldado apareceu. Do que foi moldado apareceu o que foi formado. Do que foi formado, o que recebeu nome. Assim surgiu a diferença entre os não-gerados do começo ao fim." O que recebeu nome apareceu do que foi formado, enquanto a diferença entre as coisas geradas apareceu do que recebeu (nome), do começo ao fim, pelo poder de todos os eons. Porém o Homem Imortal está pleno de toda glória imperecível e de todo contentamento inefável. Todo seu reino se regozija em júbilo eterno, aqueles que nunca foram ouvidos ou conhecidos em qualquer eon que (vieram) depois (deles e de seus) mundos. Então Bartolomeu disse a ele: "Como (é que ele) foi designado no Evangelho 'Homem' e 'Filho do Homem'? A qual deles, então, é este Filho relacionado?" O Ser Divino disse a ele: "Quero que vocês saibam que o Primeiro Homem é chamado 'Gerador, Mente Autoaperfeiçoada'. Ele refletiu com a Grande Sophia, sua consorte, e revelou seu unigênito, o filho andrógino. Seu nome masculino é designado 'Primeiro Gerador Filho de Deus; seu nome feminino, 'Primeira Geradora Sophia, Mãe do Universo.' Alguns a chamam 'Amor'. Porém, o Unigênito é chamado 'Cristo'. Como ele tem autoridade de seu pai, ele criou uma multidão infindável de anjos como comitiva do Espírito e da Luz." Em seguida (outro) (princípio) veio do (Homem) Imortal, que é (chamado) (Gerador) "Autoaperfeiçoado". (Quando ele recebeu o consentimento) de seu (consorte), (a Grande Sophia, ele) revelou (que o andrógino unigênito), (é chamado) "(Filho) Unigênito (de Deus)." Seu aspecto feminino (é) Sophia (a Primeira)-gerada, (Mãe do Universo)", que alguns chamam "Amor". Ora, o Unigênito, como ele deriva (sua) autoridade de seu (pai), Ele criou anjos, infindáveis miríades, como comitiva. Toda esta multidão de anjos é chamada "Assembléia dos Divinos, as Luzes Sem Sombra". Quando estes se cumprimentam, seus abraços tornam-se anjos como eles. Seus discípulos disseram a ele: "Senhor, revela-nos a respeito daquele chamado 'Homem' para que nós também possamos conhecer exatamente a sua glória." O Salvador perfeito disse: "Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça. O Primeiro Pai Gerador é chamado 'Adão, Olho da Luz,' porque ele veio da Luz brilhante, (e) seus anjos sagrados, que são inefáveis (e) sem sombras, sempre se regozijam com júbilo em suas reflexões, que eles receberam de seu Pai. Todo o reino do Filho do Homem, que é chamado 'Filho de Deus,' está cheio de alegria inefável e sem sombra, um imutável júbilo, (com eles) se regozijando a propósito de sua glória imperecível, que nunca foi ouvida até agora, nem foi revelada nos eons que vieram depois com seus mundos. Eu vim do Auto-Gerado e da Primeira Luz Infinita para que eu possa revelar tudo a vocês." Mais uma vez seus discípulos disseram: "Diga-nos claramente como (aconteceu) que eles desceram das invisibilidades, do (reino) imortal para o mundo que morre?" O Salvador perfeito disse: "O Filho do Homem consentiu com Sophia, sua consorte, e revelou uma grande luz andrógina. Seu nome masculino é designado como 'Salvador, Gerador de Todas as Coisas.' Seu nome feminino é designado como "Sophia a Geradora de Tudo.' Alguns chamam-na de 'Pistis'. Então o Salvador consentiu com sua consorte, Pistis Sophia, e revelou seis seres espirituais andróginos que são do tipo daqueles que os precederam. Seus nomes masculinos são estes: primeiro, "Não-gerado"; segundo, "Auto-Gerado"; terceiro, "Gerador"; quarto, "Primeiro Gerador"; quinto, "Gerador de Tudo"; sexto, "Arqui-Gerador". Os nomes femininos também são estes: primeiro, "Sophia Totalmente Sábia"; segundo, "Sophia Mãe de Tudo"; terceiro, "Sophia Geradora de Tudo"; quarto, "Sophia, a Primeira Geradora"; quinto, "Sophia Amor"; sexto, "Pistis Sophia". (A partir) do consentimento daqueles que acabei de mencionar, apareceram pensamentos nos eons que existem. Dos pensamentos, reflexões; das reflexões, considerações; das considerações, racionalizações; das racionalizações, vontades; das vontades, palavras. Então os doze poderes que acabo de discutir, consentiram uns com os outros. (Seis) machos (de cada um) (e) (seis) fêmeas (de cada uma) foram reveladas, de tal forma que existem setenta e dois poderes. Cada um dos setenta e dois revelou cinco (poderes) espirituais que (juntos) são os trezentos e sessenta poderes. A união de todos eles é a vontade. Portanto, nosso eon surgiu como a espécie de Homem Imortal. O tempo surgiu como a classe de Primeiro Gerador, seu filho. (O ano) surgiu como o exemplo de (Salvador. Os) doze meses surgiram como o símbolo dos doze poderes. Os trezentos e sessenta dias do ano surgiram como a classe dos trezentos e sessenta poderes que apareceram do Salvador. Suas horas e momentos surgiram como os tipos de anjos que deles vieram (os trezentos e sessenta poderes) (e) que são inumeráveis. Todos os que vieram ao mundo, como uma gota da Luz, são enviados por ele ao mundo do Todo-Poderoso, para que possam ser protegidos por ele. E o vínculo de seu esquecimento o atou à vontade de Sophia, para que a matéria pudesse ser (revelada) por meio dele a todo o mundo em pobreza com relação à sua arrogância e cegueira (do Todo-Poderoso) e a ignorância com que foi designado. Porém eu vim das localidades acima, pela vontade da grande Luz, que escapou daquele vínculo. Eu interrompi o trabalho dos ladrões. Despertei aquela gota que foi enviada de Sophia, para que ela possa dar muitos frutos por meu intermédio e ser aperfeiçoada e não mais ser defeituosa. E para que possa (se juntar) por meu intermédio, o Grande Salvador, para que sua glória possa ser revelada e que assim Sophia possa ser justificada também com relação àquele defeito, para que seus filhos não se tornem outra vez defeituosos, mas que possam alcançar a honra e a glória, subir a seu Pai e conhecer as palavras da Luz masculina. E vocês foram enviados pelo Filho, que foi enviado para que vocês pudessem receber a Luz e se removerem do esquecimento das autoridades, e para que isto não possa mais ocorrer por sua causa, ou seja, o relacionamento impuro que vem do fogo terrível que se origina de sua parte carnal. Pise sobre a sua intenção maliciosa. Então Tomas disse a (ele): "Senhor Salvador, quantos são os eons que ultrapassam os céus?" O Salvador perfeito disse: "Louvo vocês porque perguntam a respeito dos grandes eons, pois suas raízes estão nos infinitos. Ora, quando aqueles sobre os quais eu discuti anteriormente foram revelados, ele (ofereceu) (As páginas 109 e 110 estão faltando. Elas foram substituidas neste texto com a seção correspondente do Código Gnóstico de Berlim (nº 8502), cujo início é um pouco diferente da frase parcial final de III 108.) Ora, quando aqueles sobre os quais eu discuti anteriormente foram revelados, o Pai AutoGerado muito em breve criou doze eons como comitiva para os doze anjos. E em cada eon haviam seis (céus), e assim haviam setenta e dois céus dos setenta e dois poderes que surgiram dele. E em cada um dos céus haviam cinco firmamentos, portanto existem (ao todo) trezentos e sessenta (firmamentos) dos trezentos e sessenta poderes que surgiram deles. Quando os firmamentos estavam completos, foram chamados "Os Trezentos e Sessenta Céus", de acordo com o nome dos céus que estavam diante deles. E todos estes eram perfeitos e bons. E desta forma o defeito da feminilidade apareceu. E (Tomas) disse a ele: "Quantos são os eons dos imortais, começando das infinidades?" O Salvador perfeito disse: "Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça. O primeiro eon é o do Filho do Homem, que é chamado de 'Primeiro Gerador', que é chamado 'Salvador', que apareceu. O segundo eon (é) o do Homem, que é chamado 'Adão, Olho da Luz'. O terceiro é o do filho do Filho do Homem, que é chamado de 'Salvador'. Aquilo que abraça estes é o eon sobre o qual não há reino, (o eon) do Deus Infinito Eterno, o Auto-Gerado eon dos eons que estão nele, (os eons) dos imortais, que eu descrevi anteriormente, (os eons) acima do Sétimo, que apareceu de Sophia, que é o primeiro eon. Ora, o Homem Imortal revelou eons, poderes e reinos, e deu autoridade a todos que aparecem nele para que possam exercitar seus desejos até as últimas coisas que estão acima do caos. Pois estes consentiram uns com os outros e revelaram toda a magnificência, até mesmo do espírito, luzes numerosas que são gloriosas e sem número. Estas foram chamadas no princípio, isto é, o primeiro eon, (o) segundo e (o terceiro). O primeiro (é) chamado Unidade e Descanso.' Cada um tem seu (próprio) nome. O (terceiro) eon foi designado 'Assembléia' devido ao grande número que apareceu: como um, uma multidão se revelou. Ora, como as multidões se reúnem e chegam a unidade, (BG 111, 2-5 acrescenta aqui: portanto, (eles) são chamados 'Assembléia', devido àquela Assembléia que ultrapassa o céu) chamamos a elas de 'Assembléia' do Oitavo.' Apareceu como andrógina e foi chamada parcialmente como macho e parcialmente como fêmea. O macho é chamado 'Assembléia', enquanto que a fêmea é chamada 'Vida', para que possa ser demonstrado que de uma fêmea veio a vida para todos os eons. E cada nome foi recebido, começando do princípio. "Pois desta concordância com seu pensamento, em breve apareceram os poderes que eram chamados 'deuses'. E (os) deuses dos deuses, por sua sabedoria revelaram deuses. (E os deuses) por sua sabedoria revelaram senhores. E os senhores dos senhores, por seu pensamento revelaram senhores. E os senhores, por seu poder revelaram arcanjos. Os arcanjos, por suas palavras revelaram anjos; destes, apareceram semelhanças com estrutura, forma e nome para todos os eons e seus mundos. "E os imortais, que acabo de descrever, todos eles têm autoridade do Homem Imortal, 'que é chamado 'Silêncio', porque ao refletir sem falar toda sua majestade foi aperfeiçoada.' Pois desde o momento que os imperecíveis tiveram autoridade, cada qual criou um grande reino no Oitavo bem como tronos, templos (e) firmamentos para sua própria majestade. Pois todos estes surgiram pela vontade da Mãe do Universo. Então os Santos Apóstolos disseram a ele: "Senhor, Salvador, fale-nos a respeito daqueles que estão nos eons, pois é necessário que perguntemos a respeito deles." O Salvador perfeito disse: "Se vocês perguntarem a respeito de qualquer coisa, Eu lhes direi. Eles criaram hostes de anjos, números infindáveis para seu acompanhamento e sua glória. Eles criaram espíritos virgens, as luzes inefáveis e imutáveis. Pois elas não têm nenhuma doença nem fraqueza, mas simplesmente vontade. (BG 115,14 acrescenta aqui: E elas apareceram num instante.) "Desta forma os eons foram completados rapidamente com os céus e os firmamentos na glória do Homem Imortal e de Sophia, sua consorte: (que são) a área da qual cada eon, o mundo e aqueles que vieram após, tiraram (seu) modelo para sua criação de semelhança nos céus do caos e de seus mundos. E todas as naturezas, começando da revelação do caos, estão na Luz que brilha sem sombra, no contentamento que não pode ser descrito e no júbilo impronunciável. Eles se deleitam para sempre em virtude de sua glória imutável e do descanso imensurável, que não pode ser descrito, entre todos os eons que apareceram depois e todos seus poderes. Ora, tudo o que acabo de dizer a vocês, disse para que vocês possam brilhar mais do que eles na Luz." Mas isto é suficiente. Tudo o que acabo de dizer a vocês, disse de uma forma que vocês possam aceitar, até que aquele que não precisa ser ensinado apareça entre vocês. Ele falará todas estas coisas a vocês com alegria e no conhecimento puro. Maria disse a ele: "Santo Senhor, de onde vieram seus discípulos, para onde vão e (o que) eles deveriam fazer aqui?" O Salvador perfeito disse a eles: "Quero que vocês saibam que Sophia, a Mãe do Universo e o consorte, desejou por si só trazer todos estes à existência sem seu (consorte) macho. Mas, pela vontade do Pai do Universo, para que sua bondade inimaginável possa ser revelada, ele criou aquela cortina entre os imortais e aqueles que vieram depois, para que a consequência pudesse acompanhar (As páginas 115 e 116 estão faltando. Elas foram substituidas aqui pela seção correspondente do Código Gnóstico de Berlim , nº 8502.) cada eon e o caos, e assim o defeito da fêmea pudesse (aparecer), e o Erro viesse a lutar com ela. E esta tornou-se a cortina do espírito. Dos eons acima das emanações da Luz, como já disse, uma gota da Luz e do Espírito desceram às regiões inferiores do Todo Poderoso no caos, para que suas formas moldadas pudessem aparecer daquela gota, pois isto é um julgamento sobre o Arqui-Gerador, que é chamado Yaldabaoth.' Aquela gota revelou suas formas moldadas por meio do alento (sopro), como uma alma viva. Ela definhou e dormiu na ignorância da alma. Quando ela se tornou quente com o alento (sopro) da Grande Luz do Macho, e tomou pensamento, (então) nomes foram recebidos por todos os que estão no mundo do caos e por todas as coisas que estão nele por meio daquele Ser Imortal, quando o alento soprou dentro dele. Mas quando isto ocorreu, pela vontade da Mãe Sophia para que o Homem Imortal pudesse ajuntar ali as vestes para um julgamento a respeito dos ladrões (ele) então recebeu com agrado o sopro daquele alento. Mas como ele era semelhante à alma, não foi capaz de tomar aquele poder para si mesmo até que o número do caos estivesse completo, (isto é,) quando o tempo determinado pelo grande anjo estiver completo. Ora, lhes ensinei a respeito do Homem Imortal e soltei as amarras dos ladrões dele. Quebrei os portões dos impiedosos na presença deles. Humilhei a intenção maliciosa deles, e eles foram todos envergonhados e se elevaram de sua ignorância. Por causa disto, então, vim aqui para que eles possam ser unidos com aquele Espírito e Alento, aquele ( ..... ) e Alento, e que possam tornar-se de dois um, da mesma forma como do primeiro, para que vocês possam dar muito fruto e subir a Ele Que É desde o Princípio, em alegria e glória inefável, e (honra e) graça do (Pai do Universo). "Quem conhece, (então), (o Pai em pura) gnosis (partirá) para o Pai (e repousará no) (Pai) Não-Gerado. Mas (quem o conhece) (de forma defeituosa) partirá (para o defeito e para o resto (do Oitavo. Ora,) quem conhece o (Espírito) Imortal de Luz no silêncio, por meio da reflexão e do consentimento na verdade, que me traga sinais do Ser Invisível, e ele se tornará uma luz no Espírito do Silêncio. Quem conhece o Filho do Homem na gnosis e no amor, que me traga um sinal do Filho do Homem, para que ele possa partir para os lugares de moradia com aqueles no Oitavo. "Vejam, eu revelei a vocês o nome do Ser Perfeito, toda a vontade da Mãe dos Anjos Sagrados, para que a (multidão) masculina possa ser completada aqui, para que (possa aparecer nos eons,) (as infinidades e) aqueles que (surgiram na) insondável (riqueza do Grande Espírito) Invisível, (para que) todos (possam receber de sua bondade), mesmo a riqueza (de seu descanso) que não tem (reino sobre ele). Eu vim (do Primeiro) Que Foi Enviado, para que eu pudesse revelar a vocês Aquele Que É desde o Princípio, por causa da arrogância do Arqui-Gerador e de seus anjos, já que eles que são deuses. E eu vim para removê-los de sua cegueira para que possam dizer a todos a respeito do Deus que está acima do universo. Portanto, pisem sobre seus túmulos, humilhem sua intenção maliciosa, e destruam o seu jugo e assumam o meu. Dei autoridade a vocês sobre todas as coisas como Filhos da Luz, para que vocês possam pisar sobre o poder deles com (seus) pés." Estas são as coisas (que o) bem aventurado Salvador (disse), (e ele desapareceu) do meio deles. Então, (todos os discípulos) ficaram numa (grande alegria inefável) no (espírito) daquele dia em diante. (E seus discípulos) começaram a pregar (o) Evangelho de Deus, (o Espírito) eterno imperecível. Amem. Notas deste Texto (1) Provável referência a doze que são mais íntimos, mais 'fortes', do núcleo mais interno - incluindo mulheres - e mais outros sete seguidores do círculo não tão íntimo, como um grupo intermediário, incluindo homens. (2) Poder ser uma referência a um local físico, de encontro, ou a um estado de consciência no qual os discípulos se encontrassem para um aprofundamento nestas temáticas e que lhes tornava possível a presença do Senhor e sua percepção. (3) Ou 'divina'. (4) Provavelmente uma alusão às potestades. (5) No oculto, o nível interno, nos planos mais sutis onde ele se encontrava. Este, provavelmente, não é o primeiro encontro que têm após a morte do Senhor. (6) No sentido de lhe dar sustento, geração, de mantê-la. (7) Referência ao estado de consciência elevado específico em que eram ministradas as instruções mais reservadas. (8) Como o universo passa do Caos à ordem. (9) Ele tem esta capacidade, este poder. (10) Outra tradução: 'pela (semeadura ou) disseminação do atrito impuro'. Pode referir-se à geração carnal em oposição à regeneração espiritual, ou à contaminação pelo contato (atrito) com as idéias impuras. (11) No Eugnosto a frase termina aqui com 'exceto só ele'. (12) No Eugnosto não há esta relação de dependência entre estas duas orações. Diz: 'Ninguém o determina. Ele não tem nome'. (13) Sobre este ponto, veja-se o Evangelho da Verdade atribuído a Valentino (séc II d.C.). (14) No Eugnosto, 'Ele tem sua própria aparência'. (15) Esta parte se encontra, no texto SJC, na resposta a Tomé. (...)


EVANGELHO DE NICODEMOS
DESCIDA DE CRISTO AO INFERNO
Versão grega

Dois textos apócrifos constituem o Evangelho de Nicodemos: Atos de Pilatos e Descida de Cristo ao Inferno. Em é seqüência do outro e o completa, embora escritos em ocas diferentes. Justino, em 150, menciona em seus escritos um texto chamado Atos de Pôncio Pilatos, narrando os acontecimentos posteriores à Crucificação.


Então José disse: "E por que vos admirai de que Jesus tenha ressuscitado? O admirável não é isto; o admirável é que não somente ele ressuscitou, como também devolveu a vida a um grande número de mortos, que há muito não são vistos em Jerusalém. E se não conheceis os outros, conheceis sim, pelo menos, Simeão, aquele que tomou Jesus nos braços, assim como também seus dois filhos, que igualmente foram ressuscitados. Pois a esses, há pouco tempo, nós mesmos demos sepultura, e agora podem contemplar seus sepulcros abertos e vazios, e estão vivos e morando em Arimatéia". Enviaram, então, algumas pessoas e comprovaram que os sepulcros estavam abertos e vazios. José então disse: "Vamos a Arimatéia e veremos se os encontramos".

E levantando-se os pontífices Anás, Caifás, José, Nicodemus, Gamaliel, e outros em sua companhia, foram até Arimatéia onde encontraram aqueles a quem José se havia referido. Fizeram, então, orações e abraçaram-se mutuamente. Depois regressaram a Jerusalém em sua companhia e os levaram até a sinagoga. E, ali postos, fecharam as portas, colocaram o Antigo Testamento dos judeus no cento e os pontífices disseram-lhes: 

"Queremos que jureis pelo Deus de Israel e por Adonai, para que assim digais a verdade, e como haveis ressuscitado e quem é aquele que vos tirou de entre os mortos". Quando os ressuscitados ouviram isto, fizeram sobre suas faces o sinal da cruz e disseram aos pontífices: "Dai-nos papel, tinta e pena". Trouxeram-lhes e, sentando-se, escreveram da seguinte maneira:

Oh, Senhor Jesus Cristo, ressurreição e vida do mundo! Dai-nos a graça para fazermos o relato da tua ressurreição e das maravilhas que fizeste no Inferno. Nós estávamos, então, no Inferno em companhia de todos os que haviam morrido desde o princípio. E na hora da meia-noite amanheceu naquelas trevas, algo assim como a luz do sol, e com o seu brilho fomos todos iluminados e pudemos ver-nos uns aos outros. E ao mesmo tempo o nosso pai Abraão, os patriarcas e profetas e todos em uníssono regozijaram-se e disseram entre si:

"Esta luz provém de um grande resplendor". Então o profeta Isaías, ali presente, disse: "Esta luz provém do Pai, do Filho e do Espírito Santo; sobre ela ou profetizei, quando ainda estava na terra, desta maneira: "Terra de Abulão e terra de Neftali, o povo que estava sumido nas trevas viu uma grande luz'.

Depois surgiu do meio um asceta do deserto, e os patriarcas perguntaram-lhe: "Quem sois?" Ele respondeu: "Eu sou João, o último dos profetas, aquele que preparou os caminhos do Filho de Deus e pregou a penitência ao povo para remissão dos pecados. O Filho de Deus veio ao meu encontro e, ao vê-lo de longe, disse ao povo: "Eis aqui o cordeiro de Deus, aquele que tira os pecados do mundo'. E com minha própria mão batizei-o no rio Jordão e vi o Espírito Santo em forma de pomba que descia sobre ele. E ouvi também a voz de Deus Pai, que assim dizia: "Este é meu Filho, o amado, o que me agrada'.

E por isso mesmo também enviou-me a vós para anunciar-vos a chegada do Filho de Deus unigênito a este lugar, a fim de que aquele que acreditar nele seja salvo, e quem não acreditar, seja condenado. Por isto recomendo a todos que, enquanto o virdes, adoreis somente a ele, porque esta é a única oportunidade de que dispondes para fazer penitência pelo culto que rendestes aos ídolos enquanto vivíeis no mundo vil de antes e pelos pecados que cometestes; isto já não poderá ser feito em outra ocasião.

Ao ouvir o primeiro a ser criado e pai de todos a instrução que João estava dando aos que se encontravam no inferno, disse Adão ao seu filho Seth: "Meu filho, quero que digas aos pais do gênero humano e aos profetas para onde eu o enviei quando caí no transe da morte". Seth disse: "Profetas e patriarcas, escutai: meu pai Adão, a primeira das criaturas, caiu uma vez em perigo de morte e enviou-me para fazer orações a Deus muito próximo da porta do paraíso, para que me fizesse chegar por meio de um anjo até a árvore da misericórdia, de onde haveria de tomar do óleo, para com ele ungir meu pai para que assim ele pudesse recuperar-se de sua doença. Assim fiz. E, depois de fazer minha oração, um anjo do Senhor veio e disse-me: "Que pedes, Seth? Buscas o óleo que cura os doentes ou a árvore que o distila para a doença do teu pai? Isto não pode ser encontrado agora. Vai, pois, e diz ao teu pai que depois de cinco mil e quinhentos anos, a partir da criação do mundo, haverá de descer o Filho de Deus humanizado; Ele encarregar-se-á de ungi-lo com este óleo, e teu pai levantar-se-á; e, além disso, purificá-lo-á, tanto a ele quanto aos seus descendentes com água e com o Espírito Santo; e então, sim, ver-se-á curado de todas as doenças, porém, por agora, isto é impossível'."

Os patriarcas e profetas que ouviram isto alegraram-se grandemente.
E, enquanto estavam todos se regozijando desta forma, Satanás, o herdeiro das trevas, veio e disse ao Inferno: "ó tu, devorador insaciável de todos, ouve minhas palavras: anda por aí um certo judeu, de nome Jesus, que chama-se a si mesmo Filho de Deus; mas, como é um homem puro, os judeus deram-lhe a morte na cruz, graças à nossa cooperação. Agora, então, que acaba de morrer, estejas preparado para que possamos colocá-lo aqui bem aprisionado; pois eu sei que não é mais do que um homem, e ouvi-o até dizer: "Minh'alma está triste por causa da morte'. Sabes, além disso, que ele me causou muitos danos no mundo enquanto vivia entre os mortais, pois aonde quer que eu encontrasse meus servos, ele os perseguia; e todos os homens que eu deixava mutilados, cegos, coxos, leprosos ou algo semelhante, ele os curava somente com sua palavra; até muitos deles para os quais eu já havia preparado sepultura, ele fazia reviver somente com sua palavra".

Então disse o Inferno: "E é ele tão poderoso assim que pode fazer tais coisas somente com sua palavra? E, sendo ele assim, tu porventura te atreves a enfrentá-lo? Eu creio que diante de alguém como ele, ninguém poderá opor-se. E o que disseste tê-lo ouvido exclamar, expressando seu temor diante da morte, disse-o sem dúvida, para rir-se de ti e enganar-te, para poder desafiar-te com seu poder. E então, ai! ai de ti por toda a eternidade!" Ao que Satanás respondeu: "ó Inferno, devorador insaciável de todos! 

Sentiste tanto medo assim ao ouvir falar de nosso inimigo comum? Eu nunca lhe tive medo, e bem que aticei os judeus, e eles o crucificaram e deram-lhe de beber fel com vinagre. Prepara-te, então, para que quando venha possa subjugá-lo firmemente".

O Inferno respondeu: "Herdeiro das trevas, filho da perdição, caluniador, acabas de dizer-me que ele fazia reviver somente com sua palavra a muitos dos que tu havia preparado para a sepultura; se, pois, ele livrou outros do sepulcro, como e com que forças nós seremos capazes de subjugá-lo? Há pouco tempo devorei um cadáver chamado Lázaro; porém, pouco depois, um dos vivos, somente com sua palavra, arrancou-o à força das minhas entranhas. E penso que ele é o mesmo ao qual tu te referes. Se, pois, viermos a recebê-lo aqui, tenho medo de que corramos perigo também com relação aos demais porque deves saber que vejo agitados todos os que devorei desde o princípio, e sinto dores na minha barriga. E Lázaro, aquele que me foi arrebatado anteriormente, não é um bom presságio, pois voou para longe de mim, não como um morto mas sim como uma águia:

tão rapidamente arremessou-o fora da terra. Assim, pois, conjuro-te por tuas artes e pelas minhas, não o tragas aqui. Tenho para mim que o fato de ele ter-se apresentado em nossa mansão quer dizer que todos os mortos cometeram pecado. E considera que, pelas trevas que possuímos, se o trouxeres aqui, não me restará nem um só dos mortos". Enquanto Satanás e o Inferno diziam tais coisas entre si, produziu-se uma grande voz como um trovão, que dizia: "Elevai, ó príncipes, vossas portas; descerrai, ó portas eternas, e o Rei da Glória entrará". Quando o Inferno ouviu isto, disse a Satanás: "Sai, se és capaz, e enfrenta-o". E Satanás saiu. Depois o Inferno disse para seus demônios: "Trancai bem e fortemente as portas de bronze e os ferrolhos de ferro; guardai minhas fechaduras e examinai tudo o que está em pé, pois, se aquele entrar aqui, ai! apoderar-se-á de nós".

Os pais que ouviram isto começaram a fazer-lhe zombarias dizendo: "Comilão insaciável, abre para que o Rei da Glória entre". E o profeta Davi disse: "Não sabes, cego, que estando eu ainda no mundo, fiz esta profecia: "Elevai, ó príncipes, vossas portas!?'"
Isaías por sua vez disse: "Eu, prevendo isto pela virtude do Espírito Santo, escrevi: "Os mortos ressuscitarão e os que estão no sepulcro levantar-se-ão e os que vivem na terra alegrar-se-ão'; e onde estão, ó morte, teus grilhões? Aonde, Inferno, a tua vitória?"

Então, de novo veio uma voz que dizia: "Levantai as portas". O Inferno, que ouviu repetir esta voz, disse como se não se apercebesse: "Quem é este Rei da Glória?" E os anjos do Senhor responderam: "O Senhor forte e poderoso, o Senhor poderoso na batalha". E num instante, à convocação de conjuração desta voz, as portas de bronze se tornaram pequeninas e os ferrolhos de ferro ficaram reduzidos a pedaços, e todos os defuntos acorrentados viram-se livres de suas correntes, e nós dentre eles. E entrou o Rei da Glória na figura humana, e todos os antros escuros de Inferno foram iluminados.

Em seguida o Inferno começou a gritar: "Fomos vencidos, ai de nós! Mas quem és tu, que possuis tal poder e força? Quem és tu, que vens aqui sem pecado? Aquele que é pequeno na aparência e pode grandes coisas, o humilde e o excelso, o servo e o senhor, o soldado e o rei, aquele que tem poder sobre os vivos e os mortos? Foste pregado à cruz e colocado no sepulcro, e agora ficaste livre e desfizeste nossa força. Então, por conseguinte, é tu Jesus, de quem nos falava o grande sátrapa Satanás, que pela cruz e pela morte tornaste-
ias dono de todo o mundo?"

Então o Inferno encarregou-se de Satanás e disse-lhe: "Belzebu, herdeiro do fogo e da tempestade, inimigo dos santos, que necessidade tinhas de providenciar para que o Rei da Glória fosse crucificado e que viesse depois aqui e nos despojasse? Vira-te e olha que em mim não ficou nenhum morto, pois que tudo o que ganhaste pela árvore da ciência puseste a perder pela cruz. Todo o teu gozo converteu-se em tristeza, e a pretensão de matar o Rei da Glória provocou tua própria morte. E, uma vez que te recebi com a recomendação de subjugar-te fortemente, aprenderás com a própria experiência quanto mal sou capaz de infligir-te. Ó chefe dos diabos, princípio da morte, raiz do pecado, final de toda a maldade, que encontraste de mal em Jesus para buscar sua perdição? Como tiveste coragem para perpetrar um crime tão grande? Por que te ocorreu fazer um varão como este descer até estas trevas, pois as despojou de todos os que morreram desde o princípio?"

Enquanto o Inferno admoestava assim Satanás, o Rei da Glória estendeu sua mão direita e com ela pegou e levantou o primeiro pai Adão. Depois dirigiu-se aos demais e disse-lhes: "Vinde aqui comigo todos os que foram feridos de morte pelo madeiro que me tocou, pois eis aqui que eu vos ressuscito pela madeira da cruz". E com isto levou todos para fora. E o primeiro pai Adão apareceu transbordante de gozo e dizia: "Agradeço, Senhor, tua magnanimidade por me haveres tirado do mais profundo Inferno". E também todos os profetas e santos disseram: "Damos-te graças, ó Cristo Salvador do mundo, porque tiraste nossa vida da corrupção".

Depois de assim haverem falado, o Salvador abençoou Adão na testa com o sinal da cruz. Depois fez a mesma coisa com os patriarcas, profetas, mártires e progenitores. E a seguir pegou-os a todos e deu um salto do Inferno. E enquanto ele caminhava, os santos pais seguiam-no cantando e dizendo: "Bendito aquele que vem em nome do Senhor.
Aleluia! Sejam para ele os louvores de todos os santos".

ILá, então, a caminho do paraíso levando pela mão o primeiro pai Adão. E ao chegar, entregou-o, assim como os demais justos, ao arcanjo Micael. E quando entraram pela porta do paraíso, saíram dois anciãos, aos quais os santos pais perguntaram: "Quem sois vós, que não viestes a morte nem descestes ao Inferno, mas viveis de corpo e alma no paraíso?" Um deles respondeu e disse: "Eu sou Enoch, aquele que agradou ao Senhor e foi trazido aqui por Ele; este é Elias e Tesbita; ambos seguiremos vivendo até a consumação dos séculos; então seremos enviados por Deus para enfrentar o anticristo e ser mortos por ele, e ressuscitar no terceiro dia, para depois sermos arrebatados pelas nuvens ao encontro do Senhor".

Enquanto eles assim se expressavam, veio outro homem de aparência humilde, que levava ainda sobre os seus ombros uma cruz. Os santos pais disseram-lhe: "Quem és tu, que tens o aspecto de ladrão, e que é essa cruz que leva sobre teus ombros?" Ele respondeu: "Eu, segundo dizes, era ladrão e assaltante no mundo e por isso os judeus prenderam-me e entregaram-me à morte na cruz juntamente com Nosso Senhor Jesus Cristo. E enquanto ele pendia na cruz, ao ver os prodígios que se sucederam, acreditei e roguei a ele dizendo: "Senhor, quando reinares, não te esqueças de mim'. E ele logo disse-me: "Em verdade em verdade te digo, hoje mesmo estarás comigo no paraíso'. Vim, pois, com minha cruz nas costas até o paraíso e, encontrando o arcanjo Micael, disse-lhe: Nosso Senhor Jesus, aquele que foi crucificado, enviou-me aqui; leva-me, então, até a porta do Éden'. E quando a espada de fogo viu o sinal da cruz, abriu-me a porta e entrei. Depois o arcanjo disse-me:

"Espera um momento, já que também deve ir o primeiro pai da raça humana, Adão, em companhia dos justos, para que eles também entrem. E agora, ao vê-los, saí ao vosso encontro'."
Quando os santos ouviram isto, exclamaram em voz alta da seguinte maneira: "Grande é o nosso Senhor e grande é o seu poder". 

Tudo isto nós vimos e ouvimos, os dois irmãos gêmeos, que fomos também enviados pelo arcanjo Micael e designados para pregar a ressurreição do Senhor antes de ir até o Jordão e sermos batizados. Para ali fomos e fomos batizados juntamente com outros defuntos também ressuscitados; depois viemos a Jerusalém e celebramos a Páscoa da ressurreição. Mas agora, na impossibilidade de permanecermos aqui, vamos. Que a caridade, então, de Deus Pai e a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo e a comunicação do Espírito Santo estejam convosco". E, uma vez isto escrito e fechados os livros, deram a metade aos pontífices e a outra metade a José e a Nicodemos. Eles, por sua vez, desapareceram imediatamente para a glória de Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.

EVANGELHO SEGUNDO NICODEMOS

DESCIDA DE CRISTO AO INFERNO
Versão Latina

Então os mestres Addas, Finnes e Égias, três varões que vieram da Galiléia para testemunhar que haviam visto Jesus ser arrebatado ao céu, levantaram-se em meio à multidão de chefes dos judeus e disseram na presença dos sacerdotes e levitas reunidos em conselho: "Senhores, quando íamos da Galiléia ao Jordão, veio ao nosso encontro uma
grande multidão de homens vestidos de branco que haviam morrido já há algum tempo.

Dentre eles reconhecemos Karino e Lêucio; e quanto eles se aproximaram de nós e nos beijamos mutuamente, já que haviam sido nossos amigos, perguntamo-lhes: "Dizei-nos, irmãos e amigos, que são esta alma e este corpo, e quem são essas pessoas com quem caminhais, e como viveis no corpo, sendo que já faz tempo que morrestes?"
Eles responderam desta maneira: "Ressuscitamos dos infernos com Cristo e Ele tirou-nos de entre os mortos. E saibas que a partir de agora ficam destruídas as portas da morte e das trevas, e as almas dos santos foram tiradas dali e subiram ao céu com Cristo Senhor Nosso. O Senhor em pessoa mandou-nos que, durante um certo tempo vagássemos pelas margens do Jordão e pelos montes, entretanto sem que nos deixássemos ver e sem que falássemos com ninguém, mas somente com aqueles que ele permitisse. Neste momento,não nos seria possível nem falar nem nos deixar ver por vós se não nos tivesse sido permitido pelo Espírito Santo".

Diante destas palavras, a multidão que assistia ao conselho ficou assustada, presa de temor e de tremor, e dizia: "Por ventura será verdade o que estes dois galileus testemunham?" Então Anás e Caifás dirigiram-se ao conselho nestes termos: "Descobrir-se-á imediatamente o que está relacionado com todas estas coisas de que estes deram testemunho antes e depois: se se comprovar ser verdade que Karino e Lêucio permanecem vivos em seus corpos, e se nos for permitido vê-los com nossos próprios olhos, significa que é verdade o que eles testemunham com todos os detalhes, e, quando os encontrarmos, informar-nos-ão com certeza de tudo. Caso contrário, porém, sabei que tudo é pura farsa".

Puseram-se, então, a deliberar e concordaram em escolher alguns homens idôneos e tementes a Deus, que os sabiam mortos e os conheciam a sepultura em que haviam sido
colocados, para que fizessem diligentes pesquisas e comprovassem se aquilo era, na verdade, tal como haviam dito. Assim, pois, foram lá quinze homens que haviam presenciado a sua morte e haviam estado pessoalmente no lugar da sepultura, e haviam visto seus sepulcros. Examinaram, então, e os encontraram abertos, bem como outros tantos, sem que pudessem ver sinais de seus ossos ou de suas cinzas. E voltaram com grande surpresa, relatando o que haviam visto.

Então a sinagoga inteira turbou-se, cheia de uma angústia terrível, e disseram entre si: "Que haveremos de fazer?" Anás e Caifás disseram: "Dirigimos ao lugar onde eles estão, e enviemos até eles homens de nobreza, intercessores que lhes supliquem que se dignem vir a nós". Enviaram, então, Nicodemus, José e os três mestres galileus que os
haviam visto, com o pedido de que fizessem a gentileza de vir até eles. Puseram-se, então, a caminho e andaram por todos os arredores de Jordão e dos montes. Mas, não os tendo
encontrado, já estavam tomando o caminho de volta.

Quando, de repente, avistaram uma grande multidão, como de uns doze mil homens que haviam ressuscitado com o Senhor e que desciam do monte Amalech. Eles reconheceram muitos deles, porém não foram capazes de dirigir-lhes uma só palavra, com medo da visão angélica, e contentaram-se em vê-los de longe e ouvi-los cantando hinos e dizendo: "O Senhor ressuscitou de entre os mortos, como havia dito; alegremo-nos e regozijemo-nos todos, porque ele reina eternamente". Então os que foram buscá-los ficaram mudos de admiração e receberam deles o conselho de ir procurar Karino e Lêucio em suas próprias casas.

Levantaram-se, então, e foram buscá-los em suas casas, onde os encontraram entregues à oração. E, entrando no lugar em que estavam, caíram com os rostos por terra e assim que se cumprimentaram, levantaram-se e disseram: "Amigos de Deus, ao ouvir que havíeis ressuscitado de entre os mortos, a assembléia dos judeus enviou-nos a vós para pedir-vos encarecidamente que vos dirijais até eles, para que possamos juntos conhecer as maravilhas divinas que tiveram lugar à nossa volta em nossos tempos". Eles então levantaram-se imediatamente, movidos pela inspiração divina, e, em sua companhia,
entraram na sinagoga. E a assembléia dos judeus, juntamente com os sacerdotes, passaram às suas mãos os livros da lei e os conjuraram pelo Deus Heloi e Deus Adonai e pela lei e pelos profetas desta maneira: "Dizei-nos como haveis ressuscitado de entre os mortos e o que são estas maravilhas que tiveram lugar em nossos tempos, maravilhas de que jamais ouvimos falar em qualquer outro tempo. Sabei, então, que o pavor e a estupefação atingiram nossos ossos e que a terra moveu-se sob nossos pés, por havermos juntado nossa vontade para derramar sangue justo e santo".

Então, Karino e Lêucio fizeram-lhes sinais com as mãos para que lhes descem um rolo de papel e tinta. E assim o fizeram porque o Espírito Santo não lhes permitiu falar com eles.
Deram a cada um papel e os separaram em diferentes salas. E eles então, depois de fazerem o sinal da cruz com os dedos, começaram a escrever cada um seu próprio rolo. E, quando terminaram, exclamaram a uma só voz, de suas salas: "Amém". Em seguida Karino
levantou-se e deu seu papel para Anás, enquanto que Lêucio fez o mesmo com Caifás. E
depois de se despedirem, saíram e voltaram aos seus sepulcros.

Então, Anás e Caifás abriram cada um o seu volume e começaram a ler em segredo. O povo, porém, sentindo-se ofendido, exclamou em uníssono: "Lede esses escritos em voz
alta, e, depois, haveremos de conservá-los para que a verdade divina não venha a ser adulterada por indivíduos imundos e ardilosos, levados pela obsessão". Então Anás e Caifás, cheios de tremor, entregaram o rolo de papel ao mestre Addas, ao mestre Finees e ao mestre Égias, que haviam vindo da Galiléia com a notícia de que Jesus havia sido elevado ao céu; e todo o povo confiou neles para que lessem este escrito. E leram o papel, que continha o seguinte:

"Senhor Jesus Cristo, permite que eu, Karino, exponha as maravilhas que operaste nos Infernos. Enquanto nós nos encontrávamos presos nos Infernos, desaparecidos nas trevas e nas sombras da morte, vimo-nos de repente iluminados por uma grande luz e o Inferno e as portas da morte estremeceram. Então fez-se ouvir a voz do Filho do Altíssimo, como se fosse a voz de um grande trovão que, dando um forte brado, disse: "Deixai que se abram, ó príncipes, vossas portas; descerrai as portas da eternidade, pois sabeis que Cristo Senhor, Rei da Glória, virá para entrar.

"Então Satanás, o príncipe da morte, ouvindo o brado, fugiu aterrorizado para dizer aos seus subordinados e aos Infernos: "Meus ministros e todos os Infernos, vinde todos aqui, fechai vossas portas, colocai os ferrolhos, lutai com denodo e resisti, não aconteça que, sendo donos das correntes, venhamos a ficar presos nelas'. Então, todos os seus ímpios satélites, perturbados, puseram-se apressadamente a fechar as portas da morte, a verificar as fechaduras e os ferrolhos, e a empunhar com firmeza todas as suas armas, e a lamentar com voz sinistra e horripilante.

"Então Satanás disse ao Inferno: "Prepara-te para receber alguém que vou trazer-te'. Mas o Inferno assim respondeu a Satanás: "Esta voz não foi outra coisa senão o brado do Filho do Pai Altíssimo, pois diante das suas palavras a terra e os lugares do Inferno entraram em comoção; penso que tanto eu quanto minhas ligações ficaram agora patentes e a descoberto. Mas afirmo-te, ó Satanás, cabeça de todos os males, por tua força e pela minha, que não o tragas a mim, a não ser que, querendo pegá-lo, venhamos nós a ser presos por ele. Pois se somente com sua voz minha fortaleza ficou de tal forma desfeita, que fazer quando estiver em sua presença?'

"Por sua vez, Satanás, o príncipe da morte, assim respondeu: "Por que gritas? Não tenhas medo, perverssíssimo amigo de outrora, porque fui eu quem incitou o povo judeu contra ele e graças a mim foi ferido com bofetadas, e eu perpetrei sua traição através de um dos seus. Além disso, é um homem muito temeroso diante da morte, posto que, deixando-se oprimir pela força do temor, disse: "Minh'alma está triste até a morte'. E eu mesmo trouxe até ela, já que agora está dependurado na cruz'.

"Então o Inferno lhe disse: "Se é ele quem somente com o poder do seu verbo fez Lázaro voar das minhas entranhas como uma águia, morto já há quatro dias, esse não é um homem na sua humanidade, mas sim Deus na sua majestade. Suplico-te, então, que não mo tragas aqui'. Satanás contestou: "Entretanto, prepara-te; não tenhas medo. Agora que já está dependurado na cruz, não posso fazer outra coisa'. Então o Inferno respondeu a Satanás da seguinte maneira: "Se, então, não és capaz de fazer outra coisa, tua perdição está perto. Em última instância, eu ficarei, sim, abatido e sem honra, mas tu serás crucificado sob meu domínio'.

"Enquanto isso, os santos de Deus estavam escutando a contenda entre Satanás e o Inferno; eles ainda não se reconheciam, mas estavam a ponto de começar a se conhecer. E nosso pai Adão, por sua vez, assim respondeu a Satanás: "Ó príncipe da morte, por que
tremes e te amedrontas? Olha, o Senhor virá e irá destruir agora mesmo todas as tuas criaturas, e tu serás amarrado por ele e ficarás preso por toda a eternidade'.

"Então, todos os santos, ao ouvir a voz de nosso pai Adão e ao ver com que integridade respondia a Satanás, alegraram-se e sentiram-se reconfortados; em pouco tempo, puseram-se a andar em massa ao lado de Adão e reuniram-se a ele. E nosso pai Adão, ao olhar mais atentamente toda aquela multidão, admirava-se de ver que todos haviam sido gerados por ele neste mundo. E então, depois de abraçar todos os que estavam ao seu redor, disse ao seu filho Seth, derramando amargas lágrimas: "Meu filho Seth, conta aos santos patriarcas e profetas o que o guardião do paraíso te disse quando caí doente e enviei-te para que me trouxesses um pouco de óleo da misericórdia e me ungisses com ele'.
"E Seth disse: "Quando me enviaste à porta do paraíso, orei e roguei ao Senhor com lágrimas e chamei o guardião do paraíso para que me desse um pouco desse óleo. Então o arcanjo Micael saiu e disse-me: "Seth, por que choras? A propósito, saibas que teu pai Adão não receberá este óleo de misericórdia, senão depois de muitas gerações se haverem passado. Pois descerá do céu ao mundo o Filho de Deus e será batizado por João no rio Jordão; aí teu pai receberá este óleo de misericórdia, juntamente com todos os que creem.
nele; e o reino dos que acreditaram nele permanecerá pelos séculos'.
"Quando os santos ouviram isto exultaram. E um deles ali presente, chamado Isaías, exclamou em altos brados: "Pai Adão e todos os presentes, escutai minhas palavras:
enquanto vivia eu na terra, inspirado pelo Espírito Santo compus um cântico profético sobre
esta luz, dizendo: "O povo que permanecia nas trevas viu uma grande luz, amanheceu a luz para os habitantes da região das sombras da morte'. Ao ouvir isto, Adão e todos os presentes o interrogaram: "Quem és tu? Porque é verdade o que estás dizendo'. E ele respondeu: "Eu me chamo Isaías'.
"Então alguém que se assemelhava a um religioso aproximou-se. E perguntaram-lhe dizendo: "Quem és tu, que levas tais sinais em teu corpo?' E ele respondeu com firmeza:
"Eu sou João Batista, a voz e o profeta do Altíssimo. Eu caminhei diante da face do próprio Senhor para converter os desertos e os caminhos ásperos em veredas planas. Com o meu dedo, apontei os jerosolimitas e glorifiquei o cordeiro do Senhor e o Filho de Deus. Eu o batizei no rio Jordão e pude ouvir a voz do Pai que trovejava do céu sobre ele e proclamava: "Este é meu Filho amado, nele regozijo-me'. Eu também ouvi dele a promessa de que ele próprio haveria de descer aos Infernos'.

"O pai Adão ao ouvir isto exclamou com voz grave: "Aleluia', que significa: o Senhor está chegando.
Depois, outro dos que estavam presentes e que se distinguia por uma espécie de insígnia imperial, chamado Davi, pôs-se a falar, dizendo: "Eu, vivendo ainda na terra, revelei ao povo os mistérios da misericórdia de Deus, profetizando os futuros prazeres que haveriam de vir com o passar dos séculos, da seguinte maneira: "Dai glória a Deus por suas misericórdias e suas maravilhas aos filhos dos homens, porque despedaçou as portas de bronze e arrebentou os ferrolhos de ferro'. Então os santos patriarcas e profetas começaram
a se reconhecer e a falar, um por um, de suas profecias. O santo profeta Jeremias,
examinando suas profecias, dizia aos patriarcas o profetas: "Vivendo na terra, profetizei
sobre o Filho de Deus, que apareceu na terra e conversou com os homens'.
"Então todos os santos cheios de alegria por causa da luz do Senhor, por ver o pai Adão e pela resposta de todos os patriarcas e profetas, exclamaram: "Aleluia, bendito o que vem em nome do Senhor', de maneira que diante dessa exclamação, Satanás encheu-se de pavor e procurou um caminho para fugir. Mas isto não lhe era possível, porque o Inferno e seus satélites tinham-no subjugado o sitiado e diziam-lhe: "Por que tremes? De nenhuma
maneira permitiremos que saias daqui, mas haverás de receber isto como bem merecido,
das mãos daquele a quem atacavas sem trégua; caso contrário, saibas que serás acorrentado por ele e submetido à minha custódia'.

"E novamente ressoou a voz do Filho do Pai Altíssimo, como o estrondo de um grande trovão, que dizia: "Levantai vossas portas, ó príncipes, e elevai-vo, ó portas eternas, que o Rei da Glória vai entrar'. Estão Satanás e o Inferno puseram-se a gritar assim: "Quem é esse Rei da Glória?' E a voz do Senhor lhes respondeu: "O Senhor forte e poderoso, o Senhor forte na batalha'.

"Depois de ouvir-se esta voz, veio um homem cujo aspecto era como o de um ladrão, com uma cruz às costas, que gritava do lado de fora dizendo: "Abri a porta para que eu entre". Satanás então entreabriu-a e introduziu-o no recinto, fechando a porta atrás dele. E todos os santos viram-no cheio de luz e disseram-lhe: "Teu aspecto exterior é de ladrão; diga-nos, que é isso que levas em tuas costas?' Ele humildemente respondeu e disse: "Na verdade, fui mesmo um ladrão, e os judeus dependuraram-me na cruz com meu Senhor Jesus Cristo, Filho do Pai Altíssimo. Enfim, adiantei-me, mas ele vem imediatamente atrás de mim'.

"O santo Davi, então, encheu-se de cólera contra Satanás e bradou: "Abre tuas portas, ó asqueroso, para que o Rei da Glória entre'. E todos os santos de Deus também se insurgiram contra Satanás e queriam agarrá-lo e destruí-lo. E de novo ouviu-se um grito que vinha de dentro: "Descerrai vossas portas, ó príncipes, e elevai-vos, ó portas eternas, que o Rei da Glória vai entrar'. E o Inferno e Satanás novamente perguntaram àquela voz clara, dizendo" "Quem é este Rei da Glória?' E aquela voz maravilhosa respondeu: "O Senhor das virtudes, ele é o Rei da Glória'.

"E no mesmo instante o Inferno pôs-se a tremer e as portas da morte, bem como as fechaduras, despedaçaram-se, e os ferrolhos do Inferno romperam-se e caíram ao chão, deixando todas as coisas a descoberto. Satanás permaneceu no meio em pé, confuso e prostrado, com os pés presos por grilhões. E eis que o Senhor Jesus Cristo entrou rodeado de uma claridade sublime, manso, grande e humilde, levando em suas mãos uma corrente; com ela amarrou o pescoço de Satanás e depois de novamente unir suas mãos às costas,arremessou-o ao Tártaro e pôs seu santo pé em sua garganta, dizendo: "Fizeste muitas coisas más no decorrer dos séculos; não deste nenhum descanso; hoje entrego-te ao fogo eterno'. E chamando novamente o Inferno, disse-lhe com autoridade: "Toma este amaldiçoado e perverso Satanás e mantém-no sob tua custódia até o dia que eu determinar'.

O Inferno aceitou-o e ambos precipitaram-se no profundo do abismo.
"Então Nosso Senhor Jesus Cristo, Salvador de todos, piedosíssimo e muito suave, saudando novamente Adão, dizia-lhe com bondade: "A paz esteja contigo, Adão, na
companhia de teus filhos por todos os séculos dos séculos, amém'. E o pai Adão prostrou-se então aos pés do Senhor e, levantando-se, beijou suas mãos e derramou abundantes lágrimas dizendo: "Eis as mãos que me criaram, elas dão testemunho a todos'. Depois dirigiu-se ao Senhor, dizendo: "Vieste, ó Rei da Glória, para livrar os homens e integrá-los ao teu reino eterno'. E nossa mãe Eva caiu de maneira semelhante aos pés do Senhor, e levantando-se novamente, beijou suas mãos e derramou abundantes lágrimas enquanto dizia: "Eis as mãos que me criaram, elas dão testemunho a todos".

"Então, todos os santos o adoraram e disseram aos brados: "Bendito o que vem em nome do Senhor, o Senhor Deus iluminou-nos. Assim seja por todos os séculos. Aleluia por todos os séculos: louvor, honra, virtude, glória, porque vieste do alto para visitar-nos'. E, cantando "aleluia' e regozijando-se de glória, acorriam ao Senhor. Então o Salvador perscrutou à sua volta e mordeu o Inferno, e com a mesma rapidez com que havia arremessado uma parte às profundezas do Tártaro, a outra subiu consigo aos céus.

"Então, os santos de Deus rogaram ao Senhor que deixasse nos Infernos o sinal da santa cruz, sinal de vitória, para que seus perversos ministros não conseguissem reter nenhum culpado que tivesse sido absolvido pelo Senhor. E assim se fez, e o Senhor colocou sua cruz no meio do Inferno, que é sinal de vitória e lá permanecerá por toda a eternidade.

"Depois todos saímos dali na companhia do Senhor, deixando Satanás e o Inferno no Tártaro. E nos enviou a nós e a muitos outros que havíamos ressuscitado com nosso corpo, para dar testemunho da ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo e do que acontecera nos Infernos.

"Caríssimos irmãos, isto é o que vimos e testemunhamos, depois de termos sido chamados por vós e o que testemunha aquele que morreu e ressuscitou por nós; porque da forma como as coisas aconteceram, elas foram escritas com todos os detalhes."
E quando terminaram de ler o escrito, todos os que escutavam caíram com o rosto no chão e puseram-se a chorar amargamente, enquanto batiam duramente no peito e diziam aos gritos: "Ai de nós! Aonde chegamos com nossa desgraça? Foge Pilatos, fogem Anás e Caifás, fogem os sacerdotes e levitas, fogem também o povo dos judeus dizendo entre soluços: "Ai de nós! Derramamos sobre a terra sangue inocente'."

Assim, então, durante três dias e três noites não provaram nem do pão nem da água e nenhum deles voltou à sinagoga. Mas ao terceiro dia, o conselho novamente se reuniu e leu a carta de Lêucio na íntegra, e não se encontrou nela nem mais nem menos, nem sequer havia mudado uma só letra do escrito de Karino. Então turbou-se a sinagoga e todos choraram durante quarenta dias e quarenta noites, esperando a morte e a divina vingança das mãos de Deus. Mas o altíssimo, que é todo piedade e misericórdia, não os aniquilou para que pudesse oferecer-lhes uma oportunidade de arrependimento. Não foram dignos, porém, de se converterem ao Senhor.

Caríssimos irmãos, estes são os testemunhos de Karino e de Lêucio sobre Cristo, Filho de Deus, e de seus santos nos Infernos, a quem damos todas as graças e glória pelos infinitos séculos dos séculos. Amém.
 ________________________________________________________________________

                                         SÃO JOÃO EVANGELISTA, O TEÓLOGO

    A PASSAGEM DA SANTA MÃE DE DEUS, MARIA SANTÍSSIMA É ELEVADA AOS CÉUS.

Quando a santíssima e gloriosa Mãe de Deus e sempre Virgem Maria, segundo o seu costume, ia ao sepulcro do Senhor para queimar aromas e dobrava seus santos joelhos, costumava suplicar a Cristo, seu filho e nosso Deus, que se dignasse vir até ela.

Ao notar a assiduidade com que ela se acercava da sagrada tumba, os judeus foram até os príncipes dos sacerdotes para dizer-lhes: "Maria vai todos os dias ao sepulcro". Aqueles chamaram os guardas que haviam sido colocados ali com o objetivo de impedir que alguém
se aproximasse para orar junto ao sagrado monumento, e começaram a fazer averiguações
para saber se era verdade o que se dizia com relação a ela. Os guardas responderam que não haviam notado nada, pois de fato, Deus não lhes permitia aperceberem-se da sua presença.

Certo dia, numa sexta-feira, a santa Maria foi, como de costume, ao sepulcro. E, enquanto estava orando, aconteceu que os céus se abriram e o arcanjo Gabriel desceu até ela e lhe disse: "Deus a salve, ó mãe de Cristo nosso Deus; tua oração, depois de atravessar os céus, chegou até a presença de teu Filho e foi ouvida. Por isto abandonarás o mundo daqui a pouco e partirás, conforme teu pedido, para as mansões celestiais, ao lado de teu Filho, para viver a vida autêntica e perene".

Tendo ouvido isto dos lábios do santo arcanjo, voltou até a cidade santa de Belém, tendo junto de si as três donzelas que a atendiam. Quando, então, repousava um pouco, ergueu-se e disse-lhes: "Trazei-me um incensório, que vou orar". E elas o trouxeram, conforme lhes havia sido ordenado.
Depois pôs-se a orar desta maneira: "Senhor meu Jesus Cristo, que por tua extrema bondade houveste por bem ser gerado por mim, ouve minha voz e envia-me o teu apóstolo João para que a sua visão me propicie o início da boa sorte. Manda-me também o restante dos teus apóstolos, aqueles que já foram ter contigo e aqueles que ainda se encontram nesta vida, de onde estiverem, para que, ao vê-los novamente, possa eu abençoar teu nome, sempre louvável. Sinto-me animada porque atendes à tua serva em todas as coisas".

Quando ela estava orando, eu, João, apresentei-me, já que fui arrebatado pelo Espírito Santo que me trouxe de Éfeso sobre uma nuvem, deixando-me depois no lugar onde estava a mãe de meu Senhor. Entrei, então, até onde ela se encontrava e dei graças ao seu Filho; depois disse: "Salve, ó mãe de meu Senhor, aquela que gerou a Cristo nosso Deus; alegra-te,
porque irás sair deste mundo muito gloriosamente". A santa mãe de Deus louvou a Deus porque eu, João, havia chegado junto a ela, lembrando-se daquela voz do Senhor que disse: "Eis aqui a tua mãe e eis aqui o teu filho".
Nesse momento as três jovens vieram e prostraram-se diante dela.
Então a santa mãe de Deus dirigiu-se a mim, dizendo-me: "Vem orar e jogar incenso".

Eu orei desta maneira: "Senhor Jesus Cristo, que fizeste tantas maravilhas, faz alguma também neste momento, à vista daquela que Te gerou; que tua mãe saia desta vida e que sejam abatidos aqueles que Te crucificaram e aqueles que não acreditaram em Ti".
Depois que dei por terminada minha oração, a santa Maria disse-me: "Traz-me o incensório". E, tomando-o, ela exclamou: "Glória a Ti, meu Deus e Senhor, foi cumprido em mim o que prometeste antes de subir aos céus, que, quando fosse a minha vez de sair deste mundo, virias ao meu encontro cheio de glória e rodeado de uma multidão de anjos". 

Então eu, João, disse-lhe: "Jesus Cristo, nosso Senhor e Deus, já está para vir; e tu o
verás, conforme Ele prometeu". Ao que respondeu a santa mãe de Deus: "Os judeus
fizeram o juramento de queimar meu corpo quando eu morreu". Eu respondi: "Teu santo e
precioso corpo não verá a corrupção". Ela então replicou: "Anda, pega o incensório,
esparze incenso e ora". E do céu veio uma voz dizendo amém.
Eu ouvi esta voz, e o Espírito Santo disse-me: "João, ouviste essa voz que foi emitida
no céu depois que a oração terminou?" Eu respondi-lhe: "Sim, eu ouvi". Então o Espírito
Santo acrescentou: "Esta voz que escutaste é sinal da iminente chegada de teus irmãos aos
apóstolos e das tuas santas hierarquias, pois hoje reunir-se-ão aqui".
Eu, João, pus-me então a orar. E o Espírito Santo disse aos apóstolos: "Vinde todos e sobre as nuvens, dos confins da terra, e reuni-vos na santa cidade de Belém para assistir a mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo que está em comoção: Pedro, de Roma, Paulo, da
Tibéria, Tomé, do centro das Índias, Tiago, de Jerusalém". André, o irmão de Pedro, e Felipe, Lucas e Simão Cananeu, juntamente com Tadeu, os quais já haviam morrido, foram despertados de seus sepulcros pelo Espírito Santo. Este dirigiu-se a eles e disse-lhes: "Não creiais que já chegou a hora da ressurreição. A razão pela qual neste momento surgis de vossas tumbas é que haveis de ir prestar preito à mãe de vosso Salvador e Senhor Jesus Cristo, tributando-lhe uma maravilhosa homenagem; pois chegou a hora de sua saída deste mundo e de sua partida para os céus".

Também Marcos, ainda vivo, chegou de Alexandria juntamente com os outros, chegados, como foi dito, de todos os países, Pedro, arrebatado por uma nuvem esteve no meio do céu e da terra sustentado pelo Espírito Santo, enquanto os demais apóstolos por sua vez também eram arrebatados sobre as nuvens para se encontrarem com Pedro. E assim, desta maneira, como fica dito, todos foram chegando por obra do Espírito Santo.

Entramos depois no lugar onde estava a mãe de nosso Deus e, prostrados em atitude de adoração, dissemos-lhes: "Não tenhas medo nem aflição. O Senhor Deus, a quem deste à luz, tirar-te-á deste mundo gloriosamente". E ela, regozijando-se em Deus seu salvador, ergueu-se no leito e disse aos apóstolos: "Agora sim eu creio que nosso Deus e mestre já vem do céu, que o vou contemplar e que hei de sair desta vida da mesma maneira pela qual eu vos vi apresentar-vos aqui. Quero que me digais como tomastes conhecimento da minha partida e vos apresentastes a mim e de quais países e latitudes viestes, já que viestes visitar-me com tanta presteza. Embora havereis de saber que meu filho, nosso Senhor Jesus Cristo e Deus universal, não quis ocultar-me, pois estou firmemente persuadida, mesmo neste momento, de que Ele é o Filho do Altíssimo".

Então Pedro dirigiu-se aos apóstolos nestes termos: "Cada um de nós, de acordo com o que nos foi anunciado e ordenado pelo Espírito Santo, dê a informação à mãe de Nosso Senhor".
Eu, João, de minha parte respondi e disse: "Encontrava-me em Éfeso e, enquanto me aproximava do santo altar para celebrar os ofícios, o Espírito Santo disse-me: `Chegou para a mãe do teu Senhor a hora de partir; põe-te então a caminho de Belém para despedir-te dela'. Nesse instante uma nuvem luminosa arrebatou-me e colocou-me na porta da casa onde tu jazes".
Pedro respondeu: "Eu também, quando me encontrava em Roma, ouvi uma voz da parte do Espírito Santo, a qual me disse: `A mãe de teu Senhor, tendo já chegado sua hora, está para partir; põe-se então a caminho de Belém para despedir-te dela'. E eis que uma nuvem luminosa arrebatou-me, e pude ver também os demais apóstolos que vinha até mim sobre as nuvens e percebi uma voz que dizia: `Ide todos a Belém'".

Paulo, por sua vez, respondeu e disse: "Também eu, enquanto me encontrava numa cidade a pouca distância de Roma, chamada terra dos Tibérios, ouvi o Espírito Santo que me dizia: `A mãe de teu Senhor está para abandonar este mundo e empreender por meio da morte a sua caminhada aos céus; põe-te tu também então a caminho de Belém para despedir-te dela'. E nesse momento uma nuvem luminosa arrebatou-me e colocou-me no mesmo lugar em que estais".
Tomás, por sua vez, respondeu e disse: "Também eu encontrava-me percorrendo o país dos hindus, e à medida que pregava ia conquistando confiança, com a graça de Cristo,
quando o filho da irmã do rei, de nome Lavdan, estava para receber de mim o selo de batismo, no palácio, de repente o Espírito Santo disse-me: `Tu, Tomás, apresenta-te também em Belém para despedir-te da mãe do Senhor, pois o seu trânsito para os céus está para se efetuar'. Nesse momento uma nuvem luminosa arrebatou-me e trouxe-me à vossa presença".

Marcos, por sua vez, respondeu e disse: "Eu me encontrava na cidade de Alexandria, celebrando o ofício da terça e, enquanto orava, o Espírito Santo arrebatou-me trouxe-me à vossa presença".
Tiago respondeu e disse: "Enquanto me encontrava em Jerusalém, o Espírito Santo
intimou-me com esta ordem: `Vai a Belém, pois a mãe de teu Senhor está para partir'. E
uma nuvem luminosa arrebatou-me e colocou-me na vossa presença".

Mateus, por sua vez, respondeu e disse: "Eu dei graças e continuo dando graças a Deus porque, estando cheio de agitação ao encontrar-me dentro de uma embarcação e ver o mar alvoroçado pelas ondas, veio de repente uma nuvem luminosa e deitou sua sombra sobre a fúria da tempestade, acalmando-a; depois tomou-me e colocou-me junto a vós".
Por sua vez aqueles que haviam vindo anteriormente responderam e narraram de que maneira se haviam apresentado. Bartolomeu disse: "Eu encontrava-me na Tebaida pregando a palavra, e eis que o Espírito Santo dirigiu-se a mim nestes termos: `A mãe de teu Senhor está para partir; põe-te então, a caminho de Belém para despedir-te dela'. E eis que uma nuvem luminosa arrebatou-me e trouxe-me até vós".
Tudo isto foi dito pelos apóstolos à santa mãe de Deus: Como e de que maneira haviam
feito a viagem. E depois ela estendeu suas mãos aos céus e orou dizendo: "Adoro, exalto e
glorifico teu celebradíssimo nome, pois puseste teus olhos na humildade da tua escrava e
fizeste em mim grandes coisas. Tu que és poderoso. E eis que todas as gerações chamar-me- ão bem-aventurada".

Quando deu por terminada sua oração, disse aos apóstolos: "Lançai incenso e orai". E, enquanto eles oravam, produziu-se um trovão no céu e uma voz terrível fez-se ouvir. E nesse instante apareceu um imenso exército de anjos e de divindades e ouviu-se uma voz como a do Filho do Homem. Ao mesmo tempo, os serafins circundaram a casa onde jazia a santa e imaculada virgem e mãe de Deus. De tal maneira que tantos quantos estavam em Belém viram todas estas maravilhas e foram a Jerusalém anunciando todos os prodígios acontecidos.

Sucedeu que, depois que se ouviu aquela voz, o sol apareceu de repente ao mesmo tempo que a lua, ao redor da casa. E um grupo de primogênitos dos santos apresentou-se na casa onde jazia a mãe do Senhor para sua honra e glória. E vi também que muitos milagres aconteceram; cegos que voltavam a ver, surdos que ouviam, coxos que andavam, leprosos que se tornavam limpos e possuídos por espíritos imundos que eram curados. E todo aquele que se sentia acometido por alguma doença tocava pelo lado de fora o muro da casa onde ela jazia e gritava: "Santa Maria, mãe de Cristo, nosso Deus, tem compaixão de nós". E imediatamente sentiam-se curados.

E grandes multidões, vindas de diversos países, que se encontravam em Jerusalém por motivo de oração, ouviam os prodígios que se operavam em Belém através da mãe do Senhor e apresentaram-se naquele lugar suplicando a cura de diversas enfermidades: coisa que obtiveram. E aquele dia produziu uma alegria inenarrável, e enquanto a multidão dos curados e dos espectadores davam graças a Cristo nosso Deus e à sua mãe. E Jerusalém inteira, ao voltar de Belém, festejava cantando salmos e hinos.

Os sacerdotes dos judeus, por sua vez, e todo o seu povo, estavam extáticos de admiração pelo ocorrido. Mas, dominados por uma violentíssima paixão, e depois de se terem reunidos em conselho, levados pelo seu raciocínio néscio, decidiram ir contra a santa mãe de Deus e contra os santos apóstolos que se encontravam em Belém. Mas, tendo a multidão dos judeus se posto a caminho de Belém, aconteceu que à distância de uma milha uma visão terrível apresentou-se-lhes e eles ficaram com os pés como que amarrados, e voltaram aos seus conterrâneos e narraram aos príncipes dos sacerdotes tudo sobre a terrível visão.

Mas aqueles, sentindo-se ainda mais irados, foram à presença do governador gritando e dizendo: "A nação judaica veio abaixo por causa dessa mulher; expulsa-a de Belém e da comarca de Jerusalém". Mas o governador, surpreendido pelos milagres, replicou: "Eu, de minha parte, não a expulsarei nem de Jerusalém nem de nenhum outro lugar". Mas os judeus insistiam falando muito e rogando-lhes pela saúde de César Tibério que expulsasse os apóstolos de Belém, dizendo: "E, se assim não o fizeres, informaremos o imperador a respeito". Então viu-se constrangido a enviar um quiliarca a Belém contra os apóstolos.

O Espírito Santo disse, então, aos apóstolos e à mãe do Senhor: "Eis que o governador enviou um quiliarca contra vós por causa dos judeus que se amotinaram. Saí, então, de Belém e não temais, porque eu vos transportarei numa nuvem até Jerusalém, e a força do Pai, do Filho e do Espírito Santo está convosco".
Os apóstolos levantaram-se e saíram da casa levando a liteira da Senhora, a mãe de Deus, e dirigiram seus passos a caminho de Jerusalém. Mas de repente, conforme o Espírito Santo havia dito, foram arrebatados por uma nuvem e encontraram-se em Jerusalém na casa da Senhora. Uma vez ali, levantaram-se e cantaram hinos durante cinco dias ininterruptamente.

Quando o quiliarca chegou a Belém, ao não encontrar ali nem a mãe do Senhor nem os apóstolos, deteve os belemitas, dizendo-lhes: "Não sois vós aqueles que vieram contar ao governador e aos sacerdotes todos os milagres e prodígios que acabam de acontecer e não lhes dissestes que os apóstolos vieram de todos os países? Então, onde estão? Agora ponde-os todos imediatamente a caminho de Jerusalém para apresentá-los diante do governador".
Note-se que o quiliarca não estava inteirado da retirada dos apóstolos e da mãe do Senhor
para Jerusalém. Então, o quiliarca prendeu os belemitas e apresentou-se ao governador para dizer-lhe que não havia encontrado ninguém.

Cinco dias depois chegou ao conhecimento do governador, dos sacerdotes e de toda a cidade que a mãe do Senhor, em companhia dos apóstolos, encontravam-se em sua própria casa em Jerusalém, graças aos prodígios e maravilhas que ali aconteceram. E uma multidão de homens, mulheres e virgens reuniram-se gritando: "Santa Virgem, mãe de Cristo nosso Deus, não te esqueças da raça humana".

Diante destes acontecimentos, tanto o povo judeu quanto os sacerdotes sentiram-se ainda mais joguetes da paixão; e, atirando lenha ao fogo, arremeteram contra a casa onde estava a mãe do Senhor em companhia dos apóstolos, com a intenção de queimá-la. O governador contemplava o espetáculo de longe. Mas, no exato momento em que o povo judeu chegava às portas da casa, eis que, por obra de um anjo, saiu do seu interior uma labareda que abrasou um grande número de judeus. Com isto a cidade inteira ficou assustada e cheia de temor e todos deram graças ao Deus que foi gerado por ela. 

Quando o governador viu o que sucedera, dirigiu-se a todo o povo, dizendo aos brados: "Na verdade Aquele que nasceu da Virgem, Aquele que vós maquinastes perseguir, é filho de Deus, pois estes sinais são próprios do verdadeiro Deus". Assim, então, produziu-se uma cisão entre os judeus, e muitos acreditaram no nome do Nosso Senhor Jesus Cristo graças aos prodígios realizados.
Depois que se operaram estas maravilhas por intermédio da mãe de Deus e sempre Virgem Maria, mãe do Senhor, enquanto nós, os apóstolos, encontrávamos com ela em Jerusalém, o Espírito Santo disse-nos: "Já sabeis que foi num domingo que teve lugar a anunciação do arcanjo Gabriel à Virgem Maria, e que foi num domingo que nasceu o Salvador em Belém, e que foi num domingo que os filhos de Jerusalém saíram com palmas ao seu encontro dizendo: `Hosana nas alturas! Bendito o que vem em nome do Senhor', e que foi num domingo que ressuscitou de entre os mortos, e que num domingo haverá de vir julgar os vivos e os mortos e que, finalmente, num domingo haverá de baixar dos céus para honrar e glorificar com a sua presença a partida da santa e gloriosa virgem que lhe deu à luz".

Nesse mesmo domingo a mãe do Senhor disse aos apóstolos: "Atirai incenso, pois Cristo já está vindo com um exército de anjos". No mesmo instante Cristo apresentou-senos sentando sobre um trono de querubins. E, enquanto todos estávamos orando, apareceram multidões incontáveis de anjos, e o Senhor estava pleno de majestade sobre os querubins. E eis que um eflúvio resplandecente irradiou-se sobre a santa Virgem por virtude da presença de seu Filho Unigênito, e todas as divindades celestiais caíram por terra e O adoraram.

O Senhor dirigiu-se então à sua mãe e disse-lhe: "Maria." Ela respondeu: "Aqui me tens, Senhor". Ele disse-lhe: "Não te aflijas; melhor será que teu coração se alegre e sinta gozo, pois encontraste graça para poder contemplar a glória que me foi dada pelo meu Pai". 

A santa mãe de Deus elevou então seus olhos e viu nele uma glória tamanha, que é inefável para a boca do homem e incompreensível.
O Senhor permaneceu ao seu lado e continuou dizendo: "Eis que a partir deste momento teu corpo será transportado ao paraíso, enquanto que tua santa alma estará nos céus, entre os tesouros de meu Pai, coroada de um extraordinário resplendor, onde há paz e alegria próprias dos santos anjos e mais ainda".
A mãe do Senhor respondeu e disse-lhe: "Senhor, impõe-me tua mão direita e abençoe-me".

O Senhor estendeu sua santa mão direita e abençoou-a. Ela a estreitou e cobriu-a de beijos enquanto ela dizia: "Adoro esta mão direita que criou o céu e a terra. E rogo em teu nome sempre abençoado, ó Cristo-Deus, Rei dos séculos, Unigênito do Pai! Recebe a tua serva, Tu que Te dignaste encarnar através de mim, a pobrezinha, para salvar a raça humana segundo teus inefáveis desígnios. Concede tua ajuda a todo aquele que invoque ou que rogue ou que simplesmente faça menção ao nome da tua serva".

Enquanto ela dizia estas coisas, os apóstolos chegaram junto aos seus pés e, adorando-a, disseram-lhe: "Deixa, ó mãe do Senhor uma benção ao mundo, posto que vais abandoná-lo. Já o abençoaste e o ressuscitaste, perdido como estava, ao gerares tu a luz do mundo." E a mãe do Senhor, tendo-se colocado em oração, fez esta súplica: "Deus, que pela imensa bondade enviaste o teu Filho Unigênito para habitar este humilde corpo e Te dignaste a ser gerado por mim, a pobrezinha, tem compaixão do mundo e de toda a alma que invocar teu nome".

Orou novamente desta maneira: "Senhor, Rei dos céus, Filho do Deus vivo, recebe todo homem que invoque teu nome para que o teu nascimento seja glorificado". Depois pôs-se novamente a orar, dizendo: "Senhor Jesus Cristo, que podes no céu e na terra, esta é a súplica que dirijo ao teu santo nome: santifica para todo o sempre o lugar que se celebre a memória de meu nome e concede glória aos que Te dão graças por mim, recebendo delas toda a oferenda, toda a súplica e toda a oração".
Depois de haver ela orado desta maneira, o Senhor disse à sua própria mãe: "Alegra-te e regozija-te, pois todas as formas de graças e de dons foram dados por meu Pai celestial, por mim e pelo Espírito Santo. Toda alma que invocar o teu nome ver-se-á livre da confusão e encontrará misericórdia, consolo, ajuda e amparo neste século e no futuro diante de meu Pai celestial".

O Senhor voltou-se e disse a Pedro, então: "Chegou a hora de dar início à salmodia". E Pedro entoou e todas a potências celestiais responderam com Aleluia. Então um resplendor mais forte que a luz enalteceu a face da mãe do Senhor e ela levantou-se e foi abençoando com a sua própria mão cada um dos apóstolos. E todos deram glória a Deus. E o Senhor, depois de estender suas mãos puras, recebeu sua alma santa e imaculada.
No momento da sua imaculada alma sair, o lugar viu-se inundado de perfume e de uma luz inefável. E eis que se ouviu uma voz do céu que dizia: "Bendita és tu entre as mulheres". Então Pedro, e também eu João, e Paulo e Tomé, abraçamos com toda a pressa os seus santos pés para que fôssemos santificados. E os doze apóstolos, depois de depositar seu santo corpo na ataúde, levaram-no.

Eis que, durante a caminhada, certo judeu chamado Jefonias, robusto de corpo, atirou-se impetuosamente contra o féretro que os apóstolos levavam. Mas imediatamente um anjo do Senhor, com força invisível e servindo-se de uma espada de fogo, separou as duas mãos dos seus respectivos braços e deixou-as penduradas no ar ao longo do féretro.

Ao operar-se este milagre, todo o povo judeu que havia presenciado exclamou aos brados: "Realmente é Deus o Filho a quem deste à luz, ó mãe de Deus e sempre Virgem Maria." E o próprio Jefonias, intimado por Pedro para que reconhecesse as maravilhas do Senhor, levantou-se por detrás do féretro e pôs-se a gritar: "Santa Maria, tu que geraste Cristo-Deus, tem compaixão de mim". Pedro então dirigiu-se a ele e disse-lhe: "Em nome de seu Filho, que as mãos que estão separadas de ti se juntem". E apenas pronunciou essas palavras, as mãos que estavam dependuradas ao longo do féretro da Senhora separaram-se dele e de nosso uniram-se a Jefonias. E com isto ele próprio acreditou e deu graças a Cristo-Deus, que foi gerado por ela.

 A ASSUNÇÃO

Operado este milagre, os apóstolos levaram o féretro e depositavam o seu santo e venerado corpo no Getsêmani, num sepulcro novo. E eis que daquele santo sepulcro de Nossa Senhora, a mãe de Deus, desprendia um delicado perfume. E durante três dias consecutivos ouviram-se vozes de anjos invisíveis que davam graças a seu Filho, Cristo nosso Deus. Mas, ao término do terceiro dia, deixaram de ouvir-se as vozes, com isto ficaram cientes de que o seu venerável e imaculado corpo havia sido transportado ao paraíso.

Verificado que ele havia sido transportado, vimos imediatamente Isabel, a mãe de São João Batista, e Ana, a mãe de Nossa Senhora, e Abraão, e Isaac, e Jacó e Davi que cantavam a Aleluia. E vimos também todos os coros dos santos que adoravam a venerável relíquia de luz, cujo resplendor não se compara a nada. E o local onde teve lugar o transporte de seu santo e venerável corpo ao paraíso estava saturado de perfume. E fez-se ouvir a melodia daqueles que cantavam hinos ao seu Filho, e era tão doce que somente às virgens é dado escutá-lo; e era tal, que nunca chegava a parecer demais.
Nós os apóstolos, após contemplarmos o augusto transporte de seu santo corpo, pusemos a dar graças a Deus por haver permitido conhecermos suas maravilhas na passagem da mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Por cujas orações e intercessão sejamos dignos de alcançar o poder de viver sob seu abrigo, amparo e proteção neste século e no futuro, dando graças em todo lugar e tempo a seu Filho unigênito, juntamente com o Pai e o Espírito Santo, pelos séculos dos séculos.
Amém.

APROFUNDAMENTO NO ASSUNTO:

Os Livros Apócrifos


Ao lado dos livros canônicos, existem outros livros que versam sobre os mesmo assuntos de alguns escritos bíblicos, mas que não são tidos como inspirados e, portanto, não estão incluídos no cânon oficial. (Existem os Apócifos do A.T e do N. T)

São, em geral, contemporâneos dos escritos bíblicos, ou pouco posteriores, datando dos últimos séculos a.C ou dos primeiros séculos da era cristã. Estes livros, paralelos aos canônicos e que a eles se assemelham pelos títulos e pelos autores a que são atribuídos, receberam o nome de “apócrifos”.
Apócrifo é palavra grega (apócryphos) que significa escondido, secreto, oculto. Foram assim chamados, porque não eram de uso público, isto é, não eram usados oficialmente na liturgia e no ensino.
Alguns são de origem judaica e relacionam-se com fatos ou escritos do Antigo Testamento. P. ex.: O Livro de Henoc, Os Salmos de Salomão. Não eram lidos nas sinagogas.
Outros, de caráter cristão, relacionam-se com o Novo Testamento. P. ex.: Evangelho de Pedro, Atos de Paulo. Não eram lidos nas igrejas.
Quase sempre aparecem sob nomes fictícios de autores inspirados.

Os Ágrafos
Os ágrafos distinguem-se dos apócrifos. São Palavras ou frases avulsas, proferidas por Jesus Cristo e que não se encontram nos evangelhos canônicos, mas foram conservadas em outros livros do Novo Testamento e sobretudo em outras fontes. Ágrafo é expressão grega (ágraphus) que significa “não escrito”.
Lemos em At 20, 35: “Em tudo eu vos mostrei que é trabalhando assim que devemos sustentar os fracos, recordando-nos das palavras do Senhor Jesus, que disse: Há mais felicidade em dar do que em receber”. Estas palavras de Jesus não se encontram nos evangelhos; foram conservadas pela tradição. Constituem um exemplo de ágrafo. Seu número é reduzido, porque alguns decorrem de pequenas modificações de textos canônicos.

Protocanônicos e Deuterocanônicos
Feita a distinção fundamental entre canônicos e apócrifos, convém lembrar que alguns poucos dentre os livros canônicos recebem o nome de deuterocanônicos, para distinguir dos outros, a maioria, chamados protocanônicos.
A distinção é recente; data do século XVI. Foi usada pela primeira vez por Sixto de Sena. Protocanônicos são os livros sobre cuja canonicidade nunca houve dúvida. Constituem a primeira lista ou primeiro cânon oficial. Deuterocanônicos são aqueles cuja canonicidade foi definida depois de superadas algumas dúvidas. Constituem uma como segunda lista.
É legítima a distinção sob o ponto de vista histórico, mas todos eles têm o mesmo valor oficial como norma religiosa. Os deuterocanônicos não são inferiores aos outros e não devem ser confundidos com os apócrifos.
São deuterocanônicos no Antigo testamento: Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc, Primeiro e Segundo Livros dos Macabeus, os sete últimos capítulos de Ester (10, 4-16, 24 na Vulgata) e três passagens de Daniel (3, 24-90; 13 e 14). Destes livros só se conservou a tradução grega, embora muitos tenham sido provavelmente escritos em hebraico ou aramaico.
No Novo Testamento são deuterocanônicos: Carta aos Hebreus, Carta de São Tiago, Segunda Carta de São Pedro, Segunda e Terceira Cartas de São João, Carta Católica de São Judas e Apocalipse.

Apócrifos e Pseudepígrafos
É também necessário lembrar que os autores protestantes não usam, para o Antigo Testamento (AT), a expressão apócrifos no mesmo sentido dos autores católicos.
Para eles os apócrifos são aqueles que denominamos deuterocanônicos. Aos apócrifos do AT dão o nome grego de pseudepígrafos, que significa etimologicamente: “que tem falso título”. Compõe-se do adjetivo pseudés = falso, e do substantivo epigrafé = título, inscrição, epígrafe.
A divergência entre o cânon católico e o cânon judaico e protestante para o Antigo Testamento provém do fato de os judeus e os protestantes aceitarem somente os livros cujo original hebraico se conservou, ao passo que a Igreja Católica, seguindo os apóstolos, aceitou livros cujos originais hebraicos ou aramaicos se perderam e dos quais se conservou a tradução grega. Um deles – O Livro da Sabedoria – foi escrito diretamente em grego.

Principais Apócrifos do Antigo Testamento
Os livros apócrifos do Antigo Testamento são divididos em três grupos, conforme o gênero literário. De alguns se conservaram apenas fragmentos. Aqui serão indicados somente os títulos dos principais, com as datas prováveis de sua composição. As obras não canônicas escritas nessa época formam parte da denominada literatura intertestamentária.


 Entre os manuscritos de textos bíblicos descobertos em Qumran, a partir de 1947, encontram-se textos extrabíblicos que podem ser aqui incluídos. Assim
Regra da Comunidade
Regra de Guerra
Hinos
Comentários de Habacuc e outros comentários        
Os apócrifos do Antigo Testamento são úteis e têm valor histórico, porque mostram muitas idéias religiosas e morais que predominavam entre o povo no tempo de Cristo.
Como veremos, pelo menos dois apócrifos do Antigo Testamento são citados em livro canônico do Novo Testamento.
Principais Apócrifos do Novo Testamento
Constituem quatro grupos.
Evangelhos
- Evangelho segundo os Hebreus, restam fragmentos.    Fim do 1 séc. d.C.
- Evangelho dos Ebionitas ou dos Doze Apóstolos            De origem herética. Meados do séc. II d.C.
- Evangelho segundo os Egípcios                                       Meados do séc. II d.C. De inspiração gnóstica.
- Evangelho de Pedro                                                         Meados do séc. II d.C. De tendência docetista
- Evangelhos de: Mateus – Filipe – Tomé – André –         Do 2e 3séc. d.C. De fundo herético
  Bartolomeu – Barnabé
- Proto-evangelho de Tiago                                                2séc. d.C.
Atos
- Atos de João                                                                    Entre 150 e 180 d.C.
- Atos de Paulo                                                                  Entre 160 e 170 d.C.
- Atos de Pedro                                                                  Fim do 2séc. d.C.
- Atos de Tomé                                                                  3ou 4séc. d.C. De origem síria.
Epístolas
- Terceira Epístola aos Coríntios                                     2séc. d.C.
- Epístola aos Laodicenses                                               Fim do 2séc. d.C.
- Cartas dos Apóstolos                                                     Cerca de 180 d.C.
- Correspondência entre Sêneca e São Paulo                 4séc. d.C.
Apocalipses
- Apocalipse de Pedro                                                     Meados do séc. 2d.C.
- Apocalipse de Paulo                                                     380 d.C.
- Sibila Cristã                                                                   3o séc. em diante.

Valor dos Apócrifos do Novo Testamento
São de valor desigual os diversos livros ou fragmentos apócrifos do Novo Testamento que chegaram até nós. Cada um deve, portanto, ser julgado separadamente. Pode-se, contudo, ter uma visão geral de seus méritos e de suas falhas ou erros.
Entre os evidentes valores enumeram-se:
Das narrativas apresentadas decorrem idéias teológicas fundamentais. Embora nem sempre explicitamente enunciadas, refletem as convicções vigentes naquela época e contêm elementos da fé cristã. Assim a divindade de Cristo e a Virgindade de Maria (nos apócrifos da infância); a descida de Cristo aos infernos (nos evangelhos sobre paixão-morte-ressurreição), a Assunção de Maria (nos apócrifos sobre a dormição = morte de Maria). Ao lado dos ensinamentos ortodoxos, aparecem, ao mesmo tempo, divergências doutrinárias que caracterizam as principais seitas e heresias. Constituem, é certo, pontos negativos, mas trazem esclarecimentos para a história da teologia e da Igreja.
Alguns dos apócrifos, principalmente dos mais antigos, nos transmitiram pormenores apreciáveis, que se perpetuaram na liturgia e na arte. Assim os nomes dos pais de Maria, Joaquim e Ana; a apresentação de Maria no templo; a morte de são José, assistido por Jesus e Maria; a morte de Maria, tendo os apóstolos em torno do leito; o nascimento de Jesus numa gruta e a presença do boi e do jumento; o nome dos três reis magos; o nome de Longino, o soldado romano que traspassou o lado de Jesus com a lança; a história de Verônica e do seu véu, etc.
Gozaram, por isso, de especial estima e exerceram grande influência entre os primeiros cristãos.
Podem ser considerados autênticos diversos fatos da vida de Jesus e muitos milagres por ele realizados, que não se encontram nos livros canônicos, mas foram conservados pelos apócrifos.
De fato, diz São João em seu evangelho: “Fez Jesus, em presença de seus discípulos, muitos outros milagres que não estão neste livro” (Jo 20, 30).
Os evangelhos sinóticos – Mt, Mc e Lc – falam, por sua vez, de muitas curas e milagres, em diversas oportunidades, sem, contudo, registrá-los separadamente.
Do mesmo modo, a existência de “ágrafos” mostra que os evangelhos não registraram exaustivamente todas as palavras de Jesus. Comparativamente, pode-se lembrar que pelo menos dois apócrifos do Antigo Testamento são citados na epístola de Judas. No v. 9 a “Assunção de Moisés” e nos v. 14 e 15 o “Livro de Henoc” (1,7).
Entre as falhas e erros podemos destacar:
Muitos apócrifos contêm passagens eivadas de fantasias e lendas inverossímeis.
Outros, em grande número, estão infiltrados de princípios errôneos decorrentes de heresias que surgiram nos primeiros séculos.
Umas eram de origem judaica e consistiam na mistura de princípios da lei mosaica com a doutrina cristã. Assim os ebionitas para quem Jesus não era Deus, mas o fiel cumpridor da lei, o Messias esperado. O nome provém da palavra hebraica ebiyôn que significa pobre. É o termo que aparece na primeira bem-aventurança: “Felizes os pobres em espírito ...”. Consideravam-se como fiéis praticantes das bem-aventuranças.
Outras decorrem das idéias predominantes nos meios cultos daquela época. A principal foi o gnosticismo, que se reveste de diversos aspectos e constitui uma tentativa de associação do cristianismo com idéias da filosofia grega. Gnose (gnôsis) quer dizer conhecimento. O gnosticismo seria o mais profundo conhecimento de Deus, do mal e da salvação. A perfeição consistiria na fusão da alma com a divindade.
Outra forma de heresia era o docetismo, nome derivado da palavra grega (dókesis) que significa aparência. A encarnação de Cristo teria sido só aparente, porque a matéria é um mal absoluto. Jesus, sendo Deus, não podia padecer nem morrer.
São Paulo, nas epístolas, embora sem citar nomes, faz referências a desvios na fé. Em Cl 2,8: “Tomai cuidado para que ninguém vos escravize por meio da filosofia, vã e sedutora, que se baseia na tradição humana e nos elementos do mundo e não em Cristo”. Em 1Tm 6,20-21: “Ó Timóteo, guarda o depósito, evitando as ímpias e vãs disputas e as contestações da falsa ciência. Alguns, por segui-las, desviaram-se da fé”.

Fonte: Site Paróquia Cristo Rei de Blumenau
http://www.cristorei.org/estudo-biblico---complementos/biblia-apocrifa

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe seu comentário, em breve será respondido.

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.