terça-feira, 29 de julho de 2014

A IMPORTÂNCIA DA FÉ PARA NOSSA VIDA CRISTÃ - Estudo sobre a fé, sua prática e o que ela consiste

A fé é um dom dado por Deus  para que através dela posamos viver uma verdadeira vida como filhos (as) amados por Deus e por ela chegar à plenitude do reino de Deus. O papa quer que nós cristãos, sobretudo os católicos reavivam sua fé em Jesus Cristo e ao mesmo tempo a fé na Igreja. A fé é a força pela qual somos guiados, é pela fé somos batizados e que recebemos a graça dos Sacramentos, é pela fé em Cristo e em sua palavra que somos salvos. Uma das condições para se obter a salvação é ter fé, crer em Jesus Cristo, crer na sua Igreja, crer nos ensinamentos recebidos desde o batismo e viver estes mesmos ensinamentos. 

Uma pessoa de fé, é como alguém que constrói sua casa sobre a rocha, vem a chuva, as tempestades mas a casa não cai porque está bem firme, sustentada por uma rocha inabalável.


A Fé é o alicerce que nos une, a casa é o nosso coração e a rocha pela qual nossa casa, o coração, deve ser edificada é o próprio Senhor Jesus Ressuscitado. O que mantém esta casa unida é a palavra de Deus, ela é o cimento e a argamassa pela qual com a água da fé solidifica toda a estrutura desta casa que somos nós. Como em toda casa de vez em quando precisa de uma reforma, nossa fé também deve ser renovada, instruída e bem solidificada à rocha que é Jesus. Para isso ele criou a Igreja e a criou sobre Pedro, o qual é a rocha que sustenta a Igreja de Cristo. Por isso a Igreja é de suma importância, pois é nela que cultivamos a fé que recebemos e é nela que estão os degraus da santidade que são os sacramentos. Também é nela que aprendemos a vivenciar a palavra de Deus. Por isso que, o Papa nos lembra a importância de estudar, de meditar e cumprir o Catecismo da Igreja, pois ele nos explica, nos instrui a por em prática esta mesma fé.   

O cristão, o verdadeiro crente, que não participa da vida da Igreja, que não se interessa por amadurecer sua fé corre o imenso risco de perder-se, porque não abraça com sinceridade e amor aquilo que recebeu. Pior do que o ateu (que não acredita em Deus) ele se condenará por escutar a palavra de Deus e não acolhê-la em seu coração.  


 Fé e Razão na Doutrina Social Católica

                                                  Monsenhor Urbano Zilles

O cristão muitas vezes pode colocar-se a questão de como conciliar a secularização do mundo com a radicalidade do Evangelho.
Pergunta-se: Posso responsabilizar minha fé perante a razão crítica? Não é a fé cristã uma maneira hábil de se acomodar às coisas, fugindo da responsabilidade histórica neste mundo para um mundo eterno no além?
Não é a fé cristã um obstáculo ao desenvolvimento científico social? Tradicionalmente, sobretudo com Tomás de Aquino, costuma responder-se que a luz da razão e a luz da fé provêm ambas de Deus e que por isso não se podem contradizer. Entretanto é preciso não esquecer que também o sujeito da ciência e da fé é o mesmo homem, que empenha parte de sua capacidade – a razão – quando faz filosofia ou ciência, mas, envolve todo o seu ser – razão, coração, sentimento e emoção – quando  crê. Neste sentido, o teólogo católico confia na razão. Como a graça supõe a natureza e leva-a à perfeição, a fé não é obstáculo à razão, mas a supõe e aperfeiçoa. A fé é decisão livre e consciente do homem, que brota da liberdade do espírito com coragem e honestidade intelectual.

Neste encontro pretendo abordar o problema da fé e da razão sob
os seguintes aspectos: 1º) Contexto histórico; 2º) Doutrina social católica;
3º) O conceito cristão de fé; 4º) Relação entre fé e razão.

CONTEXTO HISTÓRICO

O encontro entre judeu-cristianismo e helenismo, nos primeiros séculos da nossa era, deixou problemas que nunca foram totalmente resolvidos. Os gregos indagam por Deus com a luz natural da razão. Perguntam. Os judeus, os cristãos e os muçulmanos afirmam ter a resposta: a revelação divina. Sentem-se, pois, de posse da resposta para as grandes perguntas da humanidade. Esta é a raiz da questão que abordaremos.
O modelo desse confronto encontramo-lo nos Atos dos Apóstolos quando Paulo, na praça, se dirige aos atenienses: “Ao passar e contemplar os objetos de vosso culto, achei um altar em que está escrito: para o deus desconhecido. Pois aquele que venerais sem conhecer, é esse que vos anuncio” (At 17, 23).
Se, inicialmente, houve diálogo entre teologia e filosofia, entre fé e razão, como o testemunham os santos padres, também ocorreu uma paulatina absorção da filosofia pela teologia. As escolas de filosofia, aos poucos, encerrara suas portas e a razão, muitas vezes, renunciou à sua autonomia para servir à teologia. Na Idade Média, torna-se difícil discernir o que é teologia ou filosofia. Uma das conseqüências negativas é que até hoje, na chamada cultura cristã, é difícil discernir até que ponto o helenismo foi cristianizado e o cristianismo foi helenizado. Esta fusão criou separações dentro do próprio cristianismo entre Ocidente e Oriente, cujas raízes acham-se nas diferenças culturais; para povos orientais, o obstáculo não foi Cristo, mas o Cristianismo na sua roupagem ocidental.
Alguns teólogos medievais, como Alberto Magno e Tomás de Aquino, souberam, distinguir entre filosofia e teologia como dois conhecimentos. Mas, se o pensamento patrístico e medieval tinha concebido e atuado como uma unidade profunda, esta unidade foi rompida
nos tempos modernos. Desenvolveu-se, sobretudo no Ocidente, um espírito racionalista tão radicalizado, que levou não só a uma separação,
mas até a uma oposição. Cultivou-se uma filosofia absolutamente autônoma dos conteúdos da fé. Como, nos tempos modernos, a exegese bíblica foi negligenciada, sob a aparência de teologia opõe-se uma filosofia teológica a outra filosofia meramente racional. Como conseqüência, de um lado, cresce uma desconfiança geral contra a razão e, de outro, em nome da mesma razão, apresentam-se conclusões como necessárias quando apenas possíveis. Na revolução francesa entroniza-se a deusa razão. Tenta-se uma religião dentro dos limites da razão pura (Kant).
Se o sujeito que conhece e crê é o mesmo, isto é, racional, a própria fé postula suas razões. A separação entre fé e razão criou um racionalismo que se distanciou da fé e, de outro lado, muitos cristãos se refugiaram no fideísmo. Para alguns, a fé tornou-se prejudicial e alienante para o pleno desenvolvimento da razão e, para outros, a razão tornou-se ameaça para a fé.
O respeito à autonomia da razão e da fé é condição para o diálogo entre ambas, para o desassombro da fé e a audácia da razão. Para crer, segundo a doutrina católica, ninguém precisa renunciar à maioridade de sua razão. O percurso de dois milênios de história mostra que quando fé e razão se respeitam mutuamente em sua autonomia uma pode fecundar a outra. Entretanto, o fato de a Igreja católica não ter examinado suficientemente a base e o contexto cultural na formulação de sua doutrina de fé impõe-lhe limites não só horizontais para a evangelização de outras culturas, mas para a própria inculturação do Evangelho no Ocidente. Este fenômeno parece evidenciar-se não só na fragmentação do Cristianismo ocidental em igrejas e seitas, mas dentro da própria Igreja instala-se um silêncio contestador para contrariar normas éticas, como no caso da regulação da natalidade e do divórcio, proclamadas em nome da fé.
Proclamar a autonomia da razão de seres racionais e a liberdade da fé provoca atitudes por vezes inesperadas. A ciência e a técnica mudaram profundamente o mundo e o homem. Surgiram novos problemas nas relações interpessoais e internacionais, no campo da fé como da ciência, que não se resolvem com respostas velhas e prontas.
Dos primeiros evangelizadores, dos apóstolos e discípulos de
Cristo, a Igreja recebeu um precioso tesouro. Mas quem tem um tesouro, deve estar consciente de que este lhe pode ser roubado. A modernidade, com o processo histórico-cultural complexo de transformação de mentalidades no Oci dente, trouxe conseqüências para a fé que nos desafiam não só à maior honestidade intelectual mas também a uma maior auscultação e discernimento das mudanças que ocorrem.
O processo de modernidade apóia-se na luz da razão. No século
XVIII, desencadeou-se, na França, um movimento espiritual chamado Iluminismo. Desde Platão, a luz é metáfora da razão. O Iluminismo caracteriza-se por uma confiança quase cega na razão humana e no seu poder ilimitado para libertar o pensamento de preconceitos. Crê-se que só ela é capaz de dissipar as trevas da ignorância e do mistério, combater o despotismo e a superstição religiosa e conquistar dias melhores para a humanidade. O Iluminismo funda-se em um ato de fé na razão humana. É, até certo ponto, uma reação a um totalitarismo eclesiástico na França da época. É conhecida a frase de Voltaire: “esmagai a infame!” (referindo-se à Igreja católica). Voltaire ataca a tradição religiosa, a autoridade política, questionando, em princípio, todo o tipo de autoridade, inclusive a de Deus. Tudo isso para conquistar um espaço para o livre exercício da razão, pois segundo ele, só este pode conduzir os homens à verdadeira liberdade.

O iluminismo francês caracteriza-se pela veneração da ciência, sobretudo do empirismo, por um anti-tradicionalismo, por um otimismo e por um liberalismo.
Na Alemanha, a Aufklärung foi menos anti-clerical, pois a Reforma já havia aberto um caminho para a liberdade de espírito.
Segundo princípios racionais, os iluministas alemães querem conduzir o homem a sua maioridade e conhecer Deus racionalmente. Buscam uma religião natural à luz da razão, pois os iluministas alemães reconhecem certo papel à fé revelada, embora a tentassem restringir à esfera moral. O iluminismo foi um grande processo de secularização do pensamento. Ataca, em nome da razão crítica, os mitos e as superstições das religiões positivas. Dentro do Iluminismo desenvolveu-se uma religião racional, natural e leiga. Tudo isso leva ao paradoxo de, por um lado, o racionalismo iluminista conduzir à crença e, por outro, à incredulidade.
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) afirma que “o Cristianismo é uma religião inteiramente espiritual, que distancia os homens das coisas da terra. A pátria do cristão não é de modo algum este mundo (...) O Cristianismo é muito favorável à tirania, embora esta nem sempre tenha se aproveitado.” Diz Rousseau que o Cristianismo abriu, no plano das relações sociais e terrenas, as portas à toda forma de tirania e egoísmo.
Não esqueçamos que o iluminismo surgiu na França após uma
experiência dolorosa de 150 anos de guerra religiosa na Europa, que
apontava o Cristianismo como fator de divisões da sociedade, intolerante e excludente. Os iluministas buscavam um deus unificador. Nessa época, na Inglaterra, nasce a maçonaria, com objetivos semelhantes. Neste contexto, em 1789, a Assembléia Constituinte da França proclama solenemente a Declaração dos direitos do homem e do cidadão. Em síntese, podemos dizer que a modernidade designa um movimento revolucionário de idéias centrado no culto à razão.

A reação da Igreja católica, às vezes sem o necessário discernimento, foi muito negativa. Com isso criou-se um distanciamento da Igreja em relação às ciências e ao mundo da vida, da experiência humana concreta, enquanto teologia, liturgia e moral foram racionalizadas. Como conseqüência, os próprios fiéis, ainda hoje, quando buscam respostas aos seus problemas existenciais, recorrem às seitas ou aos movimentos carismáticos. Assim, se a Igreja católica, por um lado, condenou o modernismo, por outro, tornou-se vítima de um racionalismo, negligenciando a mística e a experiência religiosa.
As tentativas de renovar a Igreja não obtiveram sucesso no Concílio Vaticano I (1870). O modernismo, geralmente identificado com a modernidade, foi condenado como “compêndio de todas as heresias”
(Encíclica Pascendi, 1907). A condenação por Pio X dos erros do modernismo criou a imagem de uma Igreja católica hostil à cultura moderna em geral. Por outro lado, o próprio Vaticano I assumira postulados da modernidade, afirmando que “a existência de Deus não só pode ser conhecida, mas demonstrada com certeza” (DS 3538) e fundamentando princípios morais nas leis da natureza com repercussão até o presente.
A modernidade insistiu na experiência pessoal pela qual cada pessoa percebe a realidade de Deus. Tentou basear fé e moral na experiência. Instaurou-se, dessa maneira, uma dualidade entre fé e ciência, entre subjetividade (fé) e objetividade (ciência). O anti-modernismo da Igreja católica foi identificado com anti-modernidade, e, por isso, passa a ser vista como conservadora e reacionária.
O espírito iluminista também repercutiu positivamente sobre a Igreja católica, levando a teologia e a pregação às fontes da Sagrada Escritura e dos Santos Padres, reduzindo o exagerado dogmatismo e favorecendo a busca de uma fundamentação mais crítica ao próprio dogma, à liturgia e à moral. No concílio Vaticano II a Igreja católica passou a ocupar posição conciliadora e estimuladora em relação ao progresso, mas encontrou um espírito acomodado. Sob o pretexto de não querer errar, os católicos se omitem muito.
A modernidade, por um lado, foi um processo longo que anulou  certezas e convicções herdadas do passado. Enfraqueceu os critérios de vida, de julgamento moral, critérios antes buscados na religião. O homem

moderno passou a viver com o sentimento de um mundo à deriva, sem rumo, caracterizado pela anarquia do pensamento. O mundo cindiu-se entre a lógica sistêmica e a experiência vivida, imperando no primeiro a razão instrumental e técnica e, no segundo, a liberdade subjetiva.
A modernidade obteve sucesso indiscutível, modificando a mentalidade humana do Ocidente. O sucesso, no campo da ciência e da técnica, modificou sistemas políticos e, dessa forma, a convivência humana. Mas nem tudo é progresso, pois o homem ficou com uma única certeza: o pensamento. O cogito cartesiano é solitário e tende a reduzir toda a racionalidade à racionalidade científica. Ora, a razão não é só a instrumental. Ao comunicarmo-nos não deixamos de ser racionais. Assim constatamos que a modernidade significou não, propriamente, um antropocentrismo, mas um raciocentrismo. Mas, como já advertia B.
Pascal, o homem não é somente razão, mas também coração, sentimento e emoção.
A vida humana passa a ser sempre mais racionalizada. A máquina é sua expressão típica. Não exige religião, nem fé, mas competência de
manipulá-la. A máquina precisa da criação de um modelo para reproduzi-lo em série, modificando a relação entre capital e trabalho. Aparentemente a razão triunfa. As revoluções pela conquista da liberdade sucedem-se. A valorização do homem de assumir o rumo de seu próprio destino, faz cada qual agir e pensar por conta própria, favorecendo o egoísmo. O desejado progresso deixa um número sempre maior de marginalizados para trás. É preciso reconhecer a autonomia e o direito originário de pensar livremente. Isso, por sua vez, exige tolerância, também no campo religioso. Mas a própria organização dos movimentos de solidariedade de classe exigem hoje revisão crítica. A modernização traz, desde Descartes, uma raiz individualista. Usando livremente a razão, o indivíduo quer ver, julgar e decidir por si mesmo; o indivíduo torna-se a medida para o homem e o centro de gravidade do mundo. O exercício da autoridade, também na Igreja católica, passa por uma crise, pois o iluminismo instaurou-se como movimento de emancipação de toda a tradição e de todo o autoritarismo, com exceção da própria razão. Mas também a razão tem seus limites.

Se de meados do século XIX até meados do século XX, o homem ocidental apostou na razão como caminho para solução de todos os problemas humanos, a partir de meados do século XX percebe-se o surgimento de uma desconfiança contra a mesma. Toma-se consciência de que é limitada. Esta mudança percebe-se na busca das religiões e seitas.
Desta maneira as ciências da racionalidade científica não cumpriram a promessa de tornar a vida mais bela e melhor em busca do bem-estar e da felicidade.
A tentativa de condenar as questões referentes a Deus, à alma e aodestino do homem ao ostracismo vingou-se. O mito do progresso passou, não raro, a ser substituído pelo mito do homem primitivo (natural).
A modernidade, com seu culto à razão, centralizou-se na subjetividade. O antropocentrismo moderno apresenta algumas características:
No campo teórico da ciência e da técnica tem pretensões universais pela racionalidade e objetividade; na vida prática, o homem refugia-se no individualismo e no subjetivismo. Instaura-se, assim, um divórcio entre a vida profissional e a vida privada.
A ciência aplicada à técnica produz máquinas sempre mais complexas. A máquina pode ser usada por aquele que tem competência e habilidade. Quem tem esse conhecimento sente-se autônomo. Esquece da dimensão ética, social e religiosa. O subjetivismo leva à reivindicação da liberdade individual, ao
egoísmo.
A idéia de progresso infinito dá ao homem ocidental a ilusão de poder salvar-se a si mesmo, através da ciência e da técnica.
A tolerância leva a uma indefinição: cada indivíduo deve decidir por si e Deus por todos, na vida prática.
A modernidade unilateralizou as reivindicações em todos os níveis, limitando-se aos direitos. Quem ainda ousa falar em deveres, exceto em alguns discursos kantianos?

Submetendo a tradição ao tribunal da razão crítica, o que vale é o
novo.
Se acompanharmos a Igreja católica ao longo da modernidade, constatamos que não faltam belas doutrinas, mas esta evolução trouxe novos e agrava velhos problemas sociais. A separação entre Igreja e Estado trouxe não só uma dupla legislação, mas esta muitas vezes é contraditória. Cabe, então, ao sujeito decidir livremente. Mas tem ele condições para decidir-se como cristão? Enquanto teólogos e filósofos se deleitam em discutir sistemas hegelianos, kantianos ou outros, e os pastores se preocupam consigo mesmos e sua posição ideológica, através de uma pregação vazia, a grande massa de intelectuais bate em retirada progressiva das escolas e universidades, assumindo atitude indiferente para com o Catolicismo. Não são discursos ideológicos de direita ou de esquerda, nem uma teologia ou filosofia de acomodação que mostrarão novos caminhos à Igreja e à sociedade. É preciso despertar uma inteligência crítica que ouse crer e traduzir a mensagem de Cristo de maneira fidedigna aos homens de hoje, sem ideologia partidária, e ouse o pensamento crítico construtivo.
O concílio Vaticano II representa uma mudança profunda na atitude oficial da Igreja em relação à modernidade, por exemplo, no reconhecimento do princípio da liberdade religiosa e da autonomia da atividade técnico-científica. Proclama a dignidade humana, de modo especial da liberdade: “A consciência é o núcleo secretíssimo e o sacrário do homem onde ele está sozinho com Deus e onde ressoa sua voz” (GS n.16). Aponta perspectivas possíveis para a solução dos grandes problemas.
Mas, o concílio Vaticano II realizou-se quando a “modernidade” já se encontrava no ocaso, quando a cultura ocidental já estava tomando consciência de seus limites; quando já se começara a desconfiar da razão como critério único e supremo da verdade. Percebeu que o usufruto do progresso tornou-se o privilégio para minorias, que agrediu o ambiente ecológico... As conquistas da racionalidade e da técnica trouxeram novos problemas no campo social e político, em novas formas de tiranias totalitárias de direita e de esquerda. Enfim, o racionalismo absoluto provocou uma profunda crise moral de dimensões universais e uma crise de sentido para a vida.
O homem de hoje preocupa-se, em primeiro lugar, com saúde, natureza e prazer. Valoriza emoções, sexo e dinheiro. No campo religioso, a nova geração procura experiência com fortes emoções. Se não as encontra na Igreja católica, procura-as alhures. Valoriza-se não só a razão, mas também o coração, o sentimento, o que dá prazer ao indivíduo. Foi superada a era da razão absoluta. O racionalismo aparece como um esqueleto, necessário mas não suficiente para viver e viver bem. Neste sentido, a doutrina é necessária na Igreja, mas não suficiente para educar novas gerações. Urge a vivência do amor. Ao olharmos para o campo social e político, constatamos um grande divórcio entre a doutrina da Igreja e a realidade. Com Tiago, não-cristãos podem objetar-nos: “onde estão as obras de vossa fé?” Por outro lado, precisamos da teologia crítica,
mas esta não é suficiente para quem procura viver a fé no mundo de hoje, pois a fé do povo é muito mais rica e mais ampla que as pequenas clareiras oferecidas pela teologia.
Doutrina social católica Tomando consciência da ruptura entre doutrina cristã e sociedade, pois a Igreja católica tornou-se uma grandeza social ao lado de outras, a partir da segunda metade do século XIX, os papas preocuparam-se com os graves problemas sociais através de numerosas encíclicas como a Rerum Novarum de Leão XIII, Quadragésimo Anno, de PioXI (1931), Mater et Magistra, de João XXIII (1961), e tantos títulos mais conhecidos que seu conteúdo. Também o concílio Vaticano II manifestou essa preocupação na constituição A Igreja no mundo de hoje e em outros documentos. O que se entende por doutrina social católica?
Por um lado, o racionalismo moderno, através da ciência e da técnica, possibilitou ao homem tornar-se cada vez mais senhor da criação, planejá-la racionalmente e manipulá-la a bel-prazer. Por outro, voltou-se contra o próprio homem. Bastaria lembrar as guerras, os campos de concentração nazistas e as bombas atômicas. A racionalidade científica hoje chega a seu limite na fome e miséria de grandes massas. Constatamos que não basta o conhecimento. É preciso querer. E esta é uma questão ética.
A ciência e a técnica reclamam um sentido. De que adiantarão se não estiverem a serviço do homem todo e de todos os homens? Será preciso humanizar ciência e técnica. A modernidade também produziu o desencanto da razão, pois não resolve problemas fundamentais da existência; produziu o desencanto da política, pois nenhum sistema apresenta uma utopia que satisfaça todas as aspirações do homem; produziu um desencanto com as instituições tradicionais, pois perderam a solidez. Esta situação abre um caminho para o anúncio do Evangelho e a busca de uma nova ordem social inspirada na fé cristã em toda a sua pluralidade de articulações. Neste campo a Igreja católica tem uma contribuição a dar através de sua doutrina social.
Por doutrina social pode entender-se a tentativa da Igreja católica de analisar as estruturas fundamentais da convivência humana que se devem realizar em todo e qualquer sistema social e político. Tal tentativa não propõe nenhum modelo concreto, mas busca princípios que possam inspirar todos os modelos. Entre tais princípios podemos citar o da  solidariedade, do bem-comum e o da subsidiaridade.
O ensinamento social da Igreja é tão antigo como a própria Igreja.
Entretanto a preocupação de sistematizar este ensinamento cresceu a partir do século XIX. Nasce da exigência evangélica do mandamento do amor e das exigências da vida em sociedade. Constitui-se como doutrina, baseando-se na sabedoria e, sobretudo, nas ciências humanas, sempre na perspectiva da fé e da ética, considerando, evidentemente, aspectos técnicos dos problemas sociais. É, pois, um ensinamento voltado para a ação em função de circunstâncias históricas. Como as circunstâncias históricas mudam rapidamente, tal ensinamento não é um sistema fechado, pois não só deve estar aberto às novas questões, mas também deve ousar juízos contingentes, porque não se pode contentar com a exposição de princípios sempre válidos e válidos em todas as circunstâncias. Assim a Igreja católica oferece um conjunto de princípios de reflexão, critérios de julgamento e diretrizes para transformar a sociedade em mais humana, reduzindo a fome, a miséria e as injustiças sociais.
A Igreja parte do pressuposto de que a fé em Deus é condição, embora não suficiente, para construir uma sociedade fraterna, pois somente onde os homens reconhecem um Pai comum respeitar-se-ão
como irmãos. Do contrário tentarão usurpar o lugar de Deus para explorar os semelhantes. Onde os homens aceitam a Deus como Pai não há espaço para totalitarismos e individualismos, pois “um só é vosso Pai, e um só é vosso mestre, e vós todos sois irmãos”.
O judeu-cristianismo ensina que o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus. Isso lhe dá uma dignidade única. A eminente dignidade da pessoa humana se caracteriza pela imanência, transcendência e singularidade. Pelo corpo, cada pessoa encontra-se em comunhão com o universo material, pois o corpo é nossa maneira de ser no mundo. Por outro lado, a pessoa pelo espírito transcende esse mundo material e permite B. Pascal afirmar que “o homem transcende infinitamente o homem.” Entretanto não se deve esquecer que cada pessoa é, também, singular e única.
Da eminente dignidade da pessoa humana decorrem não só direitos, mas também deveres. Deus criou o homem com a prerrogativa da liberdade. Só homens livres são responsáveis por seus atos.
As pessoas constituem a sociedade, pois ninguém se realiza sozinho. À dignidade está vinculado o princípio da solidariedade humana. Cada qual deve contribuir, não só exigir, com os semelhantes para o bem comum.
Sob este aspecto, a doutrina social católica opõe-se não só aos individualismos sociais e políticos, mas postula o princípio da subsidiaridade. Segundo este, nem o Estado, nem a sociedade podem substituir a iniciativa e a responsabilidade dos cidadãos e das organizações intermediárias, nem eliminar o espaço necessário para seu livre desenvolvimento. A inteligência é um dom de Deus para ser usado, e bem usado na transformação do mundo. Uma doutrina social da Igreja católica pressupõe um compromisso dos católicos com o uso da razão no desenvolvimento técnico científico do mundo. Pressupõe a apropriação crítica das novas conquistas a serviço do homem todo e de todos os homens.
Estruturas e sistemas sociais e políticos, antes de serem causa, são
efeito da inteligência e da ação humanas. Para discernir o que convém ou não, ou o que é compatível com a fé cristã ou não, pressupõe-se o uso da razão e do bom senso. A doutrina social não propõe um sistema particular, mas quer mostrar critérios que permitem ver possibilidades e limites nos sistemas existentes para garantir que as exigências da dignidade humana de todos e de cada um à luz do Evangelho e da fé possam ser satisfeitas.
Para isso, o cristão deve recorrer não só à fé, mas igualmente à razão, surgindo o problema do relacionamento entre ambas. A visão cristã defende “um para todos” (contra o capitalismo) e “todos para cada um” (contra o socialismo).
O conceito cristão de fé A fé ou crença é bem mais ampla que a ciência. Faz parte da vida.
Nascemos e crescemos numa circunstância interpretada e acreditamos que as coisas se comportam desta ou daquela maneira. Formam-se, assim, as crenças individuais, de grupos, de povos, de gerações. Nascemos para dentro de um sistema de crenças. Habituamo-nos a elas. Há momentos em que se tornam problemáticas e surge a dúvida, o conflito. Enquanto o homem crê, não precisa pensar. Antes de ser capaz do conhecimento científico, o homem vive do conhecimento da fé nos pais, nos deuses ou em Deus.
Assim a crença não só fundamenta historicamente a própria ciência, mas está presente na experiência cotidiana. Se hoje a concepção científica goza da preferência da opinião pública, nada impedirá que amanhã ou depois uma nova geração dê preferência a uma interpretação do mundo e da sociedade a partir do amor, de tipo religioso. Em sua gênese, a fé é anterior à ciência, ao próprio uso da razão, sendo pressuposto da ciência. É a questão do sentido para a própria existência humana. Na convivência humana articula-se como confiança no outro. A fé religiosa orienta-se para Deus.
Em nosso caso tratamos da fé cristã católica. Antes de mais nada, é dom de Deus. É o sim do homem a Deus que se revelou no homem histórico Jesus como o Cristo. Religião e fé não são sinônimos, pois há religiões nas quais a fé não é o fundamento e centro. Para o cristão a fé é o fundamento da existência, uma fé que se articula na vida concreta.
A fé cristã tem, por um lado, o motivo da obediência a Deus a exemplo de Abraão, o pai dos crentes e de Maria, mãe de Jesus e da Igreja. Por outro, tem o motivo do êxodo e da contestação do que já é em nome do que ainda não é. A fé de Abraão obriga-o a abandonar seu país e entregar seu filho Isaac em sacrifício. Deixa a segurança (terra, bens) e aventura-se com Deus em busca de novos caminhos, de rumos desconhecidos. É a fé sempre a caminho, a fé do peregrino rumo à meta.
O mesmo motivo encontramos no exemplo de Maria. Desta maneira a própria fé abre-nos para a surpresa de Deus, para o novo.
Crer em Deus é aceitá-lo como sentido da vida e do mundo. A fé situa-se no plano do reconhecimento, pois aceita-se ou rejeita-se mas não se demonstra Deus racionalmente. O Deus cientificamente demonstrado é um pobre deus. O Deus da fé cristã é e permanece mistério. O mistério se reconhece, mas não se conhece. Entretanto ninguém deixa de crer em Deus por causa da ciência. Esta também não demonstra sua nãoexistência.
Pode mostrar-se a plausibilidade da fé, pois não contraria a razão e faz sentido. A fé se testemunha, pois envolve todo o nosso ser, razão e coração. Neste sentido, a fé cristã deve ser decisão livre e responsável.
A fé cristã fundamenta-se em Deus, não nos homens. Estes podem decepcionar-nos, Deus não. Crer em Deus significa encontrar um sentido  para o mundo; significa encontrar-se com Ele através do mundo. Da mesma forma como é falsa a alternativa “ou Deus ou mundo” é falsa a alternativa “ou fé ou ciência”, porque seria absurdo dizer sim a Deus Criador e não a sua criatura, que é o mundo. Por isso crer em Deus significa crer no próximo, no mundo e em si mesmo.
Em síntese, o cristão, em nome da própria fé, deverá ser não apenas um bom profissional, mas deverá procurar ser o melhor cientista, o melhor pesquisador. Por seu dinamismo constitutivo, a fé cristã tende a unir a santidade e a competência. A fé impulsiona o cristão a transformar o mundo, a consagrá-lo pela pesquisa e pelo trabalho como o sacerdote consagra a hóstia no altar. Se é difícil crer em Deus, mais difícil é viver sem Ele, pois dizer sim a Deus faz sentido e não diminui o homem em sua humanidade. O sim, pronunciado no silêncio orante à proposta de Deus, engrandece o próprio homem e o impulsiona ao bom uso de sua razão,
pois crer em Deus de modo algum significa cruzar os braços e esperar que as coisas aconteçam por si ou que Deus faça um milagre. Antes é ter consciência de que normalmente Deus age no mundo através de sua criação, ou seja, através de nós, de nossa inteligência.
Relação entre fé e razão Na Europa medieval dominava o Cristianismo. O que mais absorvia os homens era a religião. Construíram-se catedrais com torres apontando para o alto. Na sociedade, a hierarquia eclesiástica ocupava o topo. A língua comum era o latim. Realizavam-se guerras (cruzadas, inquisição) por motivos religiosos. Toda a vida humana estava orientada para o além. Assim a religião gozava de um prestígio quase total. Hoje mudou muito. O que domina no Ocidente, e cada vez mais também no Oriente, é a crença na ciência e na técnica. Embora os  cientistas não estejam no topo, lugar ocupado pelos políticos e empresários, exercem a função de assessores, integrados em equipes de técnicos. Nesse mundo, a língua comum é a ciência, a matemática. Se outrora, nas cruzadas, se morria em nome da fé, hoje morre-se em nome da ciência e da técnica, como em acidentes automobilísticos, acidentes de usinas nucleares, acidentes de aviões, etc. Multidões morrem de fome, porque não têm trabalho, pois este é feito pelas máquinas. O homem voltou-se para o bem-estar neste mundo, para o qual a ciência e a técnica conquistaram prestígio. Há quem diga que a nova moeda no século XXI é o conhecimento. Neste mundo novo, os teólogos parecem muito ausentes e omissos, quando não hostis a ele. Falta a presença e o discernimento crítico à luz da fé cristã.
A discussão do relacionamento entre fé e razão é tão antiga como a própria Igreja. S. Pedro, em sua primeira epístola, adverte os cristãos “a saberem dar as razões de sua fé” (3,15). Na patrística, por vezes, encontramos resquícios de fideísmo. Neste sentido, poderia citar-se a afirmação de Tertuliano “credo quia absurdum”. Tal postura reencontramos em M. Lutero, no século XVI.
Desde Irineu de Lião é constante uma linha de pensamento que, sem identificar fé e razão e sem subordinar uma à outra, busca uma plausibilidade racional para a fé. Quem deu formulação clássica a essa questão foi Tomás de Aquino, na Idade Média.
A doutrina do Cristianismo foi elaborada durante séculos. Por outro lado, na Idade Média, a filosofia grega passou a ser recuperada, no Ocidente, através de traduções. Pela primeira vez o Cristianismo defrontou-se com um conjunto sistemático de filosofia. Urgia demarcar os limites da teologia e da filosofia e as relações mútuas entre ambas.
Tomás de Aquino primeiro distingue as duas e depois as
reconcilia. Como cristão, aceita o ensinamento da revelação e a ela se submete na fé. Para distinguir fé e razão, Tomás de Aquino recorre à distinção entre ordem natural e ordem sobrenatural. Para ele, trata-se de duas ordens distintas, mas não opostas, nem contraditórias, pois o Deus da criação e o Deus da revelação é o mesmo. Ambas se complementam em harmonia, pois a graça não destrói a natureza, mas a aperfeiçoa.



Tomás de Aquino distingue uma dupla ordem de conhecimento: a)
natural, que é produto da razão humana, tem suas leis e seus métodos próprios. b) sobrenatural, não procede da razão humana, mas da revelação de Deus. Este conhecimento, baseado na revelação, leva a numerosas verdades das quais algumas estão ao alcance da razão e outras transcendem seus limites. O crente aceita essas verdades em virtude do dom sobrenatural da fé. Ambos esses conhecimentos, em última análise, originam-se de uma e mesma fonte, que é Deus. Por isso não pode haver contradição entre ambos. A filosofia, por sua vez, é autônoma em seus procedimentos racionais como é completa em sua ordem. Mas ambas ordens podem beneficiar-se de uma colaboração mútua. A revelação pode orientar a razão. A razão também pode servir à fé, colocando-se a seu serviço para esclarecer, explicar e defender os mistérios da revelação.
Surge, dessa colaboração mútua, uma ciência tipicamente cristã, que é a teologia.
A partir de Tomás de Aquino passa a tratar-se, na Igreja Católica, a relação entre fé e razão nos seguintes termos:
Cristianismo e filosofia são coisas especificamente distintas em virtude de seus objetos e motivos formais. O Cristianismo é uma religião, baseada no assentimento da fé em Deus como sentido da existência humana e do mundo. A filosofia e, por conseqüência, a ciência é
conhecimento adquirido pela razão. A fé baseia-se na autoridade de Deus que se revelou, embora quem crê, é o homem como um todo, com coração e razão. Na filosofia e nas ciências trabalhamos à luz natural da razão.
Enquanto cristãos, olhamos o mundo à luz da fé. O cristão crê as verdades da fé, o filósofo e o cientista sabem o objeto sobre o qual trata seu conhecimento. O assentimento do filósofo e do cientista a um objeto de seu conhecimento acontece por intuição ou por demonstração; envolve o sujeito enquanto racional. O assentimento da pessoa a um objeto da fé é livre.
A ciência e a filosofia, a rigor, não têm partido político, nem religião. Exigem competência racional e prática. O cientista e o filósofo podem ser cristãos ou não. O conhecimento científico ou filosófico é verdadeiro ou falso. Por isso importa evitar-se de esconder a ignorância científica sob o manto da fé. O saber da ciência e o saber da fé são distintos. Este último envolve a pessoa toda. Trata-se de duas ordens de conhecimento que não devem ser confundidas. O conhecimento filosófico e científico pode tornar-se um auxiliar importante ao crente para clarear os preâmbulos da fé, para explicar e compreender os dogmas e para defendê-los.
Quando se quer reduzir a ciência à fé facilmente se cai num falso fideísmo, renunciando à razão, ou se reduz tudo à razão, caindo num racionalismo absoluto.
Ciência e fé, cristianismo e filosofia, podem coincidir parcialmente em seu objeto material, mas são dois campos distintos
quanto a seus motivos formais de assentimento à verdade e quanto à fonte de suas certezas. A certeza do cristão apóia-se na fé e a do filósofo na razão.
As relações entre fé e razão podem ser diversas. Podem ser de
neutralidade, quando a razão procede com método puramente racional, como é o método próprio das ciências, prescindindo da fé. As relações podem ser ainda de hostilidade ou de harmonia. Diz João Paulo II na Fides et Ratio: “Confirma-se assim, uma vez mais, a harmonia fundamental entre o conhecimento filosófico e o conhecimento da fé: a fé requer que o seu objeto seja compreendido com a ajuda da razão; por sua vez a razão, no apogeu da sua indagação, admite como necessário aquilo que a fé apresenta” (n.42).
Conclusão Não existe nem pode existir uma doutrina social pronta e acabada, uma vez que a sociedade encontra-se em mudança permanente. E essas mudanças são imprevisíveis, pois dependem do livre uso que o homem faz de sua inteligência e de suas conquistas.

Para elaborar uma doutrina social católica não basta ler encíclicas
e comentaristas. Pressupõe-se, de um lado, um conhecimento profundo da Bíblia e da tradição da Igreja; por outro, um conhecimento das filosofias e das ciências. Só assim se conseguirão elaborar princípios para uma transformação da sociedade atual numa sociedade mais humana e mais fraterna. Para esta elaboração de uma doutrina social católica vale o que João Paulo II diz na introdução da encíclica Fides et ratio: “A fé e a razão constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração dohomem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de Oconhecer a Ele, para que, conhecendo-o e amando-o, possa chegar à verdade sobre si próprio”.
O maior pecado dos católicos hoje é, sem dúvida, a omissão, isto é, não o mal que fazem, mas o bem que deixam de fazer. Neste mundo urge que os católicos despertem para lutar conta o pessimismo e a acomodação, e anunciar uma grande esperança. Neste mundo Cristo atua amorosamente com sua graça. Basta ter olhos para ver. Prometeu “estarei convosco até a consumação dos séculos”. Ora, se Cristo está conosco,quem poderá contra nós?



A FÉ E A MORAL

Certamente poderíamos perguntar: O que a moral tem a ver com a Fé ou vice-versa?
A resposta é simples, muita coisa. Para um cristão de verdade o zelo pela moral implica que nós devemos produzir em nós o gosto de praticar os bons costumes não só os do Evangelho mas também o que nos orienta a Santa Madre Igreja.
O que é moral? Moral é um conjunto de regras pessoais ou sociais que devem praticadas por todos para o nosso bem e o bem da sociedade em que vivemos.
Mas, aqui muito mais nos leva à prática da moral cristã, e cujas não podemos deixar de ressaltar.
A primeira delas é evitar o escândalo, e mais, evitar ser a causa de escândalo para as pessoas. 
O escândalo é algo que nos leva ao pecado ou ao mal exemplo. E escandalizar é ato de ofensa às pessoas e à sociedade.
Jesus é rígido quando nos fala sobre o escândalo. Pois ele atinge diretamente à moral da (s) pessoa (s) - e uma pessoa sem moral é muito ruim cai em descrédito. Escandalizar-se também ofende não só a moral mas, também as pessoas.
Por isso Jesus pede que evitemos o escândalo, pois ele também ofende diretamente ao Espírito Santo que mora em nós. E aos poucos ele vai nos empurrando para longe de uma vida justa e santa aos olhos de Deus. Por isso Jesus disse que escandalizar o Espírito Santo que habita em nós é uma grave blasfêmia. Pelo contrário, Jesus disse que devemos ser puros e humildes como as crianças. Isto é devemos ser humildes, não querer ser pretencioso, mas apararnos sempre na doutrrina para que vivamos santamente sem querer ser causa de queda para as pessoas com nossos maus exemplos. Vamos ler um trecho de Mt, 18, 1-14:

[1] Neste momento os discípulos aproximaram-se e perguntaram-lhe: "Quem é o maior no reino dos céus?" [2]Jesus chamou uma criancinha , colocou-a no meio deles e disse: [3] "Em verdade vos digo: se não vos transformardes como criancinhas não entrareis no reino dos céus". {É necessário imitá-las na candura, na simplicidade, na inocência, na verdade na humildade, não porém na ingenuidade. Bíblia Ave-Maria/ nota, pag. 1305}.
[4] Aquele que se fizer humilde como esta criança será o mair no reino dos céus. [5] E o que recebe em meu nome um menino como este, é a mim que o recebe. [6] Mas, se alguém fizer cair em pecado um destes pequeninos que creem em mim, melhor que atassem ao pescoço a mó de um moinho e o lançassem no fundo do mar.
[7] Ai de vós por causa dos escândalos! Eles são inevitáveis, mas, ai do homem que os causa! [8] Por isso se tua mão ou o teu pé te fazem cair em pecado, corta-os e lança-os longe de ti; é melhor entrares na vida como um coxo ou manco que, tendo dois pés e duas mãos seres lançado no fogo eterno. [9] Se teu olho te leva ao pecado, arranca-o e lança para longe de ti. É melhor para ti entrares na vida cego de um olho que seres jogado com teus dois olhos no fogo eterno. {É necessário sacrificar toda forma de pecado. Mesmo que seja um objeto ou uma pessoa que estimamos o que nos é mais necessário. Bíblia Ave-Maria/nota, pág. 1306.}     
[10] "Guardai-vos de menosprezar um só desses pequenos*,porque eu vos digo que seus anjos no céu comtemplam sem cessar a face do meu Pai que está nos céus. [11] Porque o Filho do Homem veio para salvar o que estava perdido.
[12] **Quem vos parece? Um homem possui cem ovelhas: uma delas se desgarra. Não deixará ele as noventa e nove na montanha, para ir buscar aquela que se desgarrou? [13] E se a encontra enche de júbilo do que que as noventa e nove que não se desgarraram? [14] Assim é a vontade do Pai Celeste, que não se perca nenhum destes pequeninos.
(*Pequeninos, é o termo usado por Jesus para dar nome às pessoas humildes que se convertem. Pode aqui também usar o termo "simples de coração" pessoas que não sentem nem desejam maldade. Praticantes da Palavra, os verdadeios cristãos. ** Não podemos ser causa de escândalo para ninguém porque isso irá afastar as pessoas de Jesus e a vontade de Deus é salvar a todos sem distinção de classe, raça, cor e religião)  
Mt12, 31-32.36-37
[31]"Por isso, eu vos digo: todo aquele pecado e toda blasfêmia serão perdoados aos homens, mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada". [32] Todo o que tiver falado contra o filho do homem será perdoado, se porém, falar contra o Espírito Santo, não alcançará perdão nem neste século, nem no século vindouro"... [36] Eu vos digo: no dia do juízo os homens prestarão contas de toda palavra vã que tiverem proferido. [37] "É por tuas palavras que serás justificado ou condenado".   
{A blasfêmia contra o Espírito Santo consiste em atribuir, por maldade, ao espírito do mal,obras que lhe são devidas manifestamente à ação do Espírito Santo. Nota, Bíblia Ave Maria, pág.1298}  Porém, o escândalo causado seja por ações ou palavras é um atentado contra Deus. O cuidado com a moral implica que a vida do cristão deve ter coerência com aquilo que vive e prega. Pois, muito mais que pregar com o uso palavra é muito mais necessário dar bons exemplos, estar limpo de mente e de corpo. Isto significa que nosso corpo é templo do Espírito Santo. Você conviadaria alguém para vir em sua casa se ela estivesse suja, cheia de lixo? Claro que não. O nosso corpo deve estar limpo por fora e por dentro. Já no livro de Gênesis, (Cf. Gên1, 26), encontramos escrito que Deus nos fez sua imagem e semelhança. Somos imagem de Deus e como tal não podemos mostrar-nos de qualquer maneira às pessoas. Pois é, é nesse ponto que entra a moral cristã de que não podemos escravizar o corpo com o modismo expondo-o de qualquer maneira. Sabemos que a indústria da moda quer explorar o corpo com o sensualismo desenfreado, não obstante junta está a pornografia, o uso de tatuagens, de plásticas desnecessárias tudo em prol de uma beleza exagerada. Sem contar que muitos cristãos até usam o templo de Deus para ganhar dinheiro (prostituição e promiscuidade). Outras porém, se apresentam na casa de Deus com roupas curtas e sensuais como se Deus não estivesse nem aí, quando a Palavra de Deus diz ao contrário. São tão modernos em seus conceitos de uma certa "liberdade" que passam a viver uma libertinagem total. Outras blasfemam o nome de Deus com músicas e piadas ofendendo-o diretamente. Outras porém, buscam falsas profecias, horóscopos, advinhações, seitas de ocultismo e depois vão à missa e comungam como se nada tivesse acontecido. Por isso Deus não perdoa pois, o perdão passa por um profundo arrependimento e uma mudança radical, onde Cristo deve ser o centro de nossa vida. E será que é? Que Fé  professamos afinal? Somos de Deus para Deus nascemos, ou nascenos de Deus mas vivemnos para o mundo? Será que estou vivenciando o batismo que recebi? Essa pergunta deve ser feita por nós todos os dias.      
  
PELA FÉ É QUE OBTEMOS O CONSOLO

O mundo está cheio de toda espécie de maldade e sofrimentos. Não podemos ficar sentados esperando tudo de Deus. Para isso Deus nos consola com sua promessa de amor através da sua Palavra. Não há dúvida que o Senhor concede o consolo necessário para todos. Para isso basta ter fé, acreditar em sua Palavra e confiar no seu amor.

Um exemplo tiramos do Antigo Testamento, quando o profeta Elias sofreu perseguição da rainha idólatra Jezabel. Elias perdeu a coragem, fugiu, desejou morrer... Mas obteve consolação e ajuda do Senhor Javé que lhe encheu de coragem para que ele cumprisse o papel de anunciar o restabelecimento da Aliança em Israel.  (1Rs 19: 1-21) - Elias teve sua fé renovada. Aquilo que parecia não ter mais jeito, agora Deus havia lhe enchido de coragem e audácia para enfrentar os sacerdotes de baal. 
Deus sempre consola seu povo, os cristãos aprenderam de Jesus que ter fé, acreditar não é somente esperar que algo milagroso aconteça, claro que os milagres servem para nos aproximar de Deus e aumentar a nossa fé. Mas a fé não necessita de algo extraordinário. Pois Deus espera de nós que confiemos nele e no seu amor. Fé é abandonar-se nos braços do Senhor. Assim como Ele nos chama e confia em nós para a realização de sua obra, a nós cabe também confiar, ou crer n'Ele.
Pela fé somos consolados, por aprender sobre Jesus Cristo e andar segundo sua Palavra. Quando cremos, além de seremos consolados pelo amor de Jesus, aprendemos a consolar uns aos outros e quem nos dá esta graça e o grande consolador, o Espírito Santo. 
E é pelo Espírito santo que através da Oração, da vida comunitária, instiga-nos o amor uns para com os outros a fim de que essa consolação seja estendida a todos os irmãos.
Cristãos batizados que somos, devemos aprender sobre os propósitos de Deus para obter esta consolação, e qual é esta consolação? - É acreditar que Deus tem um futuro reservado aqueles que crentes na verdade de suja Palavra se tornaram firmes e perseverantes neste mundo obterá a consolação final no outro.
Por isso que as Escrituras podem nos consolar, como afirma são Paulo em Rm 15,4 - podem nos tornar aptos para sua obra - 2Tm3, 16-17. É no conhecer a verdade sobre Jesus que temos a esperança, esta esperança gera em nós a crer, o crer gera o confiar e o confiar gera a Fé no Deus que tudo pode.
Um exemplo de como as Escrituras podem nos consolar, aquecer nossos corações é: quando Jesus ressuscitado se manifesta no caminho de Emaús, encontrando seus discípulos desanimados por causa do terrível acontecimento, abre-lhes o coração para explicar -lhes o cumprimento das Escrituras, isso tocou-lhes fundo os seus corações, (Lc 24, 32).
Por isso é preciso ler sempre a Sagrada Escritura a fim de que estejamos sempre fortalecidos por ela. 
E quando estamos fortalecidos por ela, também temos força para consolar-nos uns aos outros porque a Palavra de Deus nos encoraja.
A meditação, a oração e a contemplação da Palavra de Deus alivia nosso fardo e nos permite levar aos nossos irmãos nosso testemunho de fé. Os doentes, os desesperançados ao verem nosso testemunho de fé obtém a consolação e o desejo de reaproximar de Deus. 
Quer nossa esperança seja celestial, quer seja terrestre somos consolados pela Palavra de Deus, como nos diz São Paulo: "O nosso próprio Senhor Jesus, que nos amou e deu consolo eterno e boa esperança por meio da benignidade imerecida, consolem vossos corações e vos façam firmes em toda boa ação e palavra" - 2Ts 2, 16-17. E também  em 1Jo 5, 14-15 - "A confiança que depositamos nele é esta: em tudo quanto lhe pedimos se for da sua vontade, ele nos tenderá. E sabemos que ele nos atende em tudo quanto pedimos, sabemos daí que já recebemos o que pedimos". Pela Fé, Deus pode oferecer o alívio, a consolação e atender nossos pedidos, se pela fé tomarmos posse da bênção que Jesus tem por mim e por você e obedecermos seus mandamentos. 


FÉ,  RESPONSABILIDADE E JUSTIÇA

Uma pessoa que tem fé sempre está bem disposta e não pensa em coisas negativas porque crendo em Jesus e em seu poder está ciente de que Deus tudo pode através de si. Somos a imagem de Deus, Jesus é nosso irmão e caminha conosco. É com essa certeza que conhecemos a famosa frase de São Paulo: "Tudo posso naquele que me dá forças!"

O cristão de fé não se afasta da verdade quando essa precisa ser dita. Mas lembre-se: a verdade não é a sua verdade, e sim, a verdade do Evangelho. Olhe que Jesus disse: "Por causa de mim e do Evangelho sereis entregues às autoridades e aos anciãos do povo", ... em outra diz: "Não vos preocupeis com o que haveis de dizer, pois,  o Espírito de eu Pai falará por vós!" (Mt10, 17-20)


Portanto é uma responsabilidade assumir a Fé em Cristo, ser discípulo(a) de Jesus exige que tenhamos responsabilidade com nossa fé com a doutrina que aprendemos.


A Fé chama pra si uma grande responsabilidade em assumir por inteiro o anúncio do Evangelho. Ter fé em Jesus significa também acreditar na sua Igreja, pois, ela é sinal visível do amor de Deus por nós. 

Também é renúncia, Jesus disse: "Se alguém quiser me seguir renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me!" Mc8, 34-35 - ou seja, o cristão é alguém que está no mundo mas não vive para o mundo. 
Há crenças e crenças por aí, mas, no que você acredita?
Há seguidores de tudo, mas, a quem você segue? 

Porque se dizemos crer em Jesus não podemos nos envergonhar, nos retrair diante das provocações do mundo. É nossa responsabilidade ser sal e luz para o mundo. Que o mundo perceba em nós a luz de cristo. 

Por outro lado devemos abir as portas para acolher as pessoas fracas na fé sem julgamentos; e é nosso dever ajudá-las para que se fortaleçam. (Rm14, 1-4.13) 
Uma pessoa de fé deve ser servo da justiça, nos diz São Paulo. Não donos da justiça. A justiça cabe unicamente a Deus. Para São Paulo e para nós hoje, nós cristãos devemos ser servos da justiça porque não estamos acima da Lei, mas sob a graça de Deus. A prática  da justiça conduz à santidade. 
Tudo aquilo que causa pecado está sobre a Lei de Deus e por isso causa a morte porque nos tira a fé. E cristão sem fé não é cristão. São Paulo nos exorta para que uma vez livres do pecado, pela graça, com os frutos da santidade que recebemos de Nosso Senhor Jesus Cristo, possamos viver na graça. Isso implica em obedecer a doutrina que recebemos. Quantos se dizem cristãos mas não querem obedecer à Sã doutrina da Igreja. Quantos que faltam com a verdade evangélica? (Rm6, 15-22).
Assim o cristão de fé é aquele que é justo, ele está sob a justiça divina e não sobre ela. E por estar sob ela que não pode se envolver mais com as coisas deste mundo que o pecado oferece. Pois o pecado nos tira a graça de Deus, perdendo esta graça perdemos a salvação como consequência recebemos a morte eterna. O Salário do pecado é a morte, nos diz São Paulo.   

PELA FÉ QUE SE REALIZAM OS MILAGRES
MAS HÁ UMA DIFERENÇA
ENTRE OS MILAGRES PELA FÉ
E O COMÉRCIO DE MILAGRES  

Antes de tudo temos que distinguir o que é milagre e o que é cura. 
Milagre é quando conseguimos algo de Deus que não pode ser explicado pela ciência e deve ser de imediato. Tanto o milagre quanto a cura, os dois depedem da nossa Fé e da ação divina. Mas existem diferenças. Por exemplo:
Partindo dos Evangelhos temos vários exemplos de curas e milagres realizados por Jesus: A cura do cego, do empregado do centurião romano, , a cura da sogra de Pedro, a cura do paralítico, a cura dos dez leprosos, etc. São exemplos de curas. 
A ressurreição de lázaro, do Filho da viúva de Naim, a mudança da água em vinho nas bodas de Caná, Jesus acalma a tempestade, a pesca milagrosa, a mutiplicação dos pães, Jesus anda sobre o mar, etc. São milagres. As curas são diretamente para nós, quanto que os milagres Deus age tantono ser humano como também nas forças da natureza. É o caso do episódio do Evangelho onde Jesus acalma uma tempestade. Todos é claro partem da ação direta de Deus e do poder de Jesus. Você caro irmão leitor consegue entender onde está a diferença entre o que é cura e o que é milagre?

Jesus deu esse poder aos seus Apóstolos e atodos nós batizados, mediante a Fé. Todos nós através da Fé podemos alcançá-las. Mas mediante a Oração. Nada se alcança sem Oração. Como lemos e aprendemos acima. O que não podemos é confundir: há muito mais curas que milagres. A cura e o milagre parte de uma decisão não nossa mas, de Deus. Por quê? a) Porque no tempo de Jesus não havia tanto uso da ciência e da medicina quanto hoje que temos a nossa disposição a tecnologia e a ciência ao nosso lado para nos auxiliar. b) Jesus realizava as curas e os milagres para mostrar que Ele era realmente o Messias enviado por Deus. Atrés delas as pessos se convertiam e acreditavam em Jesus. Quando Jesus acalmou a tempestade, lemos no Evangelho, as pessoas que presenciaram o milagre dissseram: "Quem é esse que até as forças da natureza obedecem?" (Cf. Lc8, 22-25) - Aqui Jesus questiona a fé dos discípulos. Onde está a vossa Fé? Jesus estava dormindo (enquanto na sua natureza humana, porque Deus não dorme), veio a tempestade e os discípulos começaram a gritar para que Jesus os salvasse. Para nós hoje serve a lição: quantos de nós estamos sem fé, cheios de tempestades e precisamos incomodar a Deus com nossos "problemas" que, se tivéssemos fé poderíamos resolver? Quantos   querems que Jesus faça tudo, mas, onde está nosso compromisso com a fé que recebemos?   
 Por outro lado, Jesus pregava e curava porque sentia compaixão (pois era Deus-homem) do seu povo que sofria. (Mt9, 35-36) Para Jesus eram como ovelhas sem Pastor, viviam sem rumo, sem expectativas. Massacrados pelo poder. Estavam sem esperança. E Jesus veio devolver esta esperança, mostrar que é preciso ter Fé. Que Deus estava ali com eles. Era preciso voltar a crer. Jesus então curava, libertava, perdoava... sentia compaixão. Isso não é bonito? Um Deus que questiona nossa fé, mas sente compaixão ao mesmo tempo! Um Deus que está do nosso lado e quer que tenhamos confiança e acreditemos nEle. Isto é a Fé!

Então Deus quer que busquemos a cura também através dos médicos aos quais Deus pode ungir e utilizar para nos curar. Quando não é possível Deus pode até intervir diretamente. Porque é bom lembrar disso? Porque as seitas fundamentalistas usam do artifício de que determinando a cura de alguém induzem as pessoas a se afastarem do tratamento, (isso não é a vontade de Deus), com a falsa idéia de que a pessoa será curada. Mas a pergunta é: Será que a pessoa tem fé o suficiente para crer nessa cura, ou ainda, será que é mesmo a vontade de Deus naquele momento? ... No livro do Eclesiástico está escrito: (Cf. Eclo38, 1-13) Segundo o autor diz que: a ciência é um dom divino e que devemos confiar no médico. Orar a Deus pela cura sim, em primeiro lugar. Mas deixar o médico agir pois Deus o ungiu para essa profissão. A medicina também é um sacerdócio, um ministério dado por Deus para nos auxiliar na cura. Como é que as seitas querem espalhar a falsa idéia de que Deus não precisa usar dos médicos e da medicina para curar as pessoas?
Depois os milagres. O milagre é algo que precisa da medicina para concluir que aquela cura não podia acontecer de forma nenhuma pela ciência. Porque se você conseguiu uma cura, mesmo que seja pedida a Deus, mas, esta foi atestada pela medicina que você foi curado então deixa de ser milagre. O milagre não tem explicação. Por exemplo: A pessoa nasceu cega (foi atestado pela ciência que é e nasceu cega) daí pela Oração ela passa derrepente enxergar, isso é um milagre. Um paralítico levanta da cadeira e sai andando normalmente após uma Oração, também é um milagre. O paciente em fase terminal de uma doença mortífera, e volta a se restabelecer e fica saudável, é milagre. Um paciente diagnosticado com câncer  no CTI prestes a morrer fica curado, os exames dão negativo, é milagre. Todos esses casos a ciência vai atestar que o acontecido não pôde ser dado pela ciência, não haverá explicação. Aí sim é milagre. E existem, vários são os casos em que acontecem os milagres, mas é diferente.
Quanto a cura essa passa por vários processos. 
Oração, confiança no tratamento, a graça da reabilitação e da cura.
Não que Deus não possa curar uma pessoa de imediato, mas, na maioria das vezes é necessário que a pessoa passe por aquela situação em que a doença de certa forma é utilizada por Deus para nos disciplinar interiormente. Deus não poupa ninguém dos sofrimentos. Não poupou nem seu próprio Filho. Mas, Deus não é insano capaz de nos dar uma cruz pesada e maior que nossas próprias forças. 
A Fé serve para que possamos nos converter,  pelo dom da Fé nos aproximamos mais de Deus. A graça de Deus só deve acontecer se servir para nossa salvação. Você tá lembrado da cura dos 10 leprosos por Jesus? Só um voltou para gradecer. Ser grato é importante. Não que Deus precise dela, mas porque Deus quer que nós o reconheçamos como Senhor de nossas vidas. E por falar, a vida por se só é um milagre. O nascer de um novo dia. A vida que nasce e renasce, o sol que nos ilumina, o colorido das flores, a beleza da imensidão do universo. Tudo que conseguimos comtemplar. Até a vida dos animais. Tudo isso já é uma milagre. Somos gratos pela vida que Deus nos deu? 
E antes de tudo, antes de pedir uma cura, ou um milagre, devemos pedir que o Senhor Jesus aumente a nossa fé. 
Se não confiarmos em Deus, se não cremos no poder de Jesus e sem abandonar-mos nos braços do Pai não há como dizer "eu tenho Fé".
Fé é: CRER+CONFIAR+DEPENDER de Deus.
 
Vamos recordar um trecho do Evangelho de Mateus, (Mt21, 18-22). Diz o texto:

De manhã, voltando à cidade, Jesus teve fome. Vendo uma figueira à beira do caminho, aproximou-se dela, mas só encontrou nela folhas; e disse: "Jamais nasça fruto de ti!" E imediatamente a figueira secou.
Vendo o acontecido os discípulos  ficaram stupefatos e disseram: "Como ficou seca num instante a figueira?!"
Jesus disse: "Em verdade eu vos declaro que, se tiverdes fé e não hesitardes, não só fareis o que foi feito a esta figueira, mas ainda se disserdes a este monte: Levanta-te daí ao mar, isso se fará..." Tudo que pedirdes com fé na Oração, vós o alcançareis."

Vamos à reflexão:

De onde Jesus voltava?

Se lermos  um capítulo (Mt 20, 29...) atrás vamos ver que Jesus partiu de Jericó (onde curou um cego) depois foi à Jerusalém.
Em Jerusalém acontece um fato intrigante:
Jesus ao entrar no Templo viu que ali em vez de ser uma casa de Oração, estava cheio de vendedores fazendo da casa de Deus um comércio. Poderíamos dizer que eram gente sem fé que estavam ali simplesmente pelo proveito próprio. A decepção de Jesus foi tanta, pois Jesus certamente queria encontrar ali pessoas de fé, que estavam ali para glorificar o nome de Deus, tanto que ele sentiu raiva (Jesus como homem) expulsou essas pessoas. Ele então resolve voltar para Jericó. 
Poderíamos perguntar? Qual propósito de Jesus secar aquela planta?
Jesus tira daí uma grande lição, uma lição sobre a fé.
Tudo é possível diante da Oração, a fé á algo determinate em nossa vida mas, não basta ter fé e ficar esperando é preciso acreditar que algo se fará, "se" (preste bem atenção!) nós fizermos a obra acontecer, não para nosso proveito, mas para nossa salvação.
O que acontece hoje?
Há um grande exagero por parte das seitas que usam o disfarce do milagre para tirarem proveito próprio. Na verdade essas instituições comercializam os milagres para erriquecerem seus templos e seus bolsos. O povo desde a época de Jesus, muitos corriam atrás de Jesus porque ele fazia milagres, e não porque Jesus era capaz de salvar.
 
Hoje é a mesma coisa, Jesus diz que nós devemos fazer a obra acontecer, basta ter fé, pois com o poder da Oração tudo é possível não existe o impossível para Deus.
Uma idéia errada que vemos hoje dentro e fora de nossa Igreja é que somente pessoas indicadas podem fazer milagres, cuidado! Isso não é verdade, todos nós batizados pelo Espírito Santo podemos fazê-lo. Jesus disse isso. Mas, devemos ter em conta que os milagres existem para uma serventia, aumentar a nossa fé e nos aproximar ainda mais de Deus. 
Outra falsa ideia que as seitas passam é que, devemos determinar os milagres, a cura, a expulsão do mal, etc. Para eles tudo é do mal, satanás está em tudo! Deus não quer o sofrimento de ninguém... Como? Então Deus é mentiroso? porque permitiu seu próprio Filho sofrer e morrer na Cruz?!
Claro que não podemos achar que o Espírito Santo, cujo é autor de toda graça é monopólio da Igreja Católica. Quem pensar assim está errado, pois, Deus age onde quer e quando quer. Existem muitas "igrejas" de outras denominações cristãs que vivem um verdadeiro Pentecostes, são ungidas e merecem nosso apreço. Mas, também existem muitas que usam o nome de Deus e falseiam a ação do Espírito Santo em proveito próprio para arrecadar dinheiro com falsas curas e falsos milagres. E a isso devemos ficar atentos! Pois, Deus não cobra pelo que faz e muito menos aqueles que são seus discípulos ou se julgam seus representantes. 

Falsear a ação do Espírito Santo é um atentado contra poder de Deus, dizer que: "determino que fulano, siclano seja curado..." então na verdade não acreditamos que o poder de Deus está em nós livremente para fazer acontecer e atentamos contra a vontade de Deus dando ordens (que pode não ser da vontade de Deus no momento),  fazendo de Deus um boneco de ventríloco que deve responder ao movimento de nossas mãos quando queremos. Não podemos brincar com o poder de Deus e nem fazer da sua Igreja um teatro. 

Pelo contrário, Jesus disse que tudo que pedirmos em Oração se fará. É pela Oração, pela fé, por acreditar e confiar no amor e no poder de Deus, é por confiar nele que nossos pedidos serão atendidos, se isso for servir para a glória de Deus.
Não pense você que Jesus e Deus Pai é obrigado a nos atender só porque queremos a fazer milagres toda hora. Não! Pois a nossa missão principal é pregar o Evangelho. Levar as pessoas para Deus antes de qualquer coisa. É para isso que fomos batizados e crismados.
Errado é pensar que a Igreja foi feita para fazer milagres. Vai muito mais além, a missão da Igreja é levar (contida nela) a todos, a salvação. Que passa pelo arrependimento, o batismo e a vida sacramental. Os Sacramentos foram instituídos para serem portais da graça, sinais e canais de salvação.

As seitas hoje, abusam dos chamados "milagres", e das chamadas "curas" para provocar uma grande comoção nas pessoas e depois conseguirem o que querem. Basta ver a toda hora nos programas de Tv. Deus nunca deixa de dar uma resposta a quem quer que seja. Mas, os que fazem isso em nome de Deus pecam gravemente e atentam o nome de Deus  e Jesus porque usam de tal prática rotineira para encher seus templos e suas contas bancárias. As pessoas estão a toda hora procurando milagres em vez de crescer espiritualmente na Fé. Os templos das seitas estão lotados, mas a verdadeira casa de Deus o coração das pessoas estão vazios. Deus não quer isso Ele quer corações voltados para seu Amor. Era preferível para Deus um templo com uma pessoa convertida e abraçando sua fé vivesse realmente os valores do Reino, que templos cheios de corações egoístas que estão ali em busca de algo para si, menos a salvação.


Por outro lado, em nossa igrejas, também há falhas quando nossos Líderes permitem que em seus espaços sagrados sejam vendidos coisas que não tem nenhuma relação com a fé.  Até mesmo os objetos religiosos, hoje, se tornaram meios de comércio e lucros excessivos de pessoase organizações inescrupulosas. A Igreja é tolerante e faz vista grossa, mas, isso é errado utilizar os espaços sagrados dentro e fora, para o comércio ainda que sejam objetos de uso religioso. Pois o espaço sagrado deve ser utilizado exclusivamente para a Oração. Foi o que Jesus disse citando os Escrituras: Está está escrito: "minha casa é uma casa de Oração!" - No entanto a tranformaram em um covil de ladrões!" (Is56, 7 e Jr7, 11)

Um outro exemplo: Em Mc8, 11-21. Os fariseus queriam que Jesus fizesse um milagre, um sinal. Jesus se recusa, por quê?
Na verdade havia um interesse de por Jesus à prova para acausá-lo diante do sinédrio, mas diante da afronta Jesus recusa.
E mais Jesus usa um termo  de dá um conselho "devemos guardar do fermento dos fariseus..."
Quer dizer aquelas pessoas não eram pessoas de fé, embora viram tantos prodígios, não estavam ali para uma conversão sincera e sim, para fazer Jesus cair em contradição. Jesus diz que o coração deles é insensível, pois, nem  Jesus tendo alimentado quatro mil pessoas com apenas cinco pães e sobrados os doze cestos ainda querem ver mais sinais para crer que Jesus é Deus? Não! Eles estavam intressados em acusar Jesus. Eles sabiam toda a Lei de Moisés mas não a cumpriam, sabiam das profecias mas não acreditavam em Jesus. Eles faziam tudo certinho para cumprir o protocolo e aparecer como "santinhos" ao povo mas exploravam o povo mais que podiam e com suas leis injustas oprimiam o povo de Israel. No entanto não tinham fé nem acreditam no poder libertador de Jesus.
Será que não corremos o risco de fazer como aqueles fariseus? Dizemos crer em Jesus mas, na verdade gostamos de ser elogiados e aparecer diante das pessoas, mas não agimos como verdadeiras pessoas de fé?...  (Mt6, 1) 
Hoje, no nosso tempo quantas pessoas que querem obrigar Deus a fazer milagres para terem fé. Bem sabemos que em alguns casos até Deus permite, mas o correto seria acreditar no poder de Deus, confiar, lançar-se nos braços do Pai. 
Jesus nos adverte que nem todo que diz o nome de Deus toda hora entrará no Céu. O mais grave muitos farão milagres, expulsarão demônios mas, essas pessoas não estarão do lado de Jesus. Porque segundo Jesus essas pessoas não tem fé. São falsos profetas, falsos líderes. Jesus pede que fiquemos atentos pois as pessoas de fé conhecerão pelos seus frutos, isto é pelas suas obras se eles são ou não pessoas de Deus. 
E depois o mais grave, o destino dessas pessoas é o inferno. (Mt7, 15-23). Somente pela fé podemos conhecer quem são essas pessoas. 
As seitas comercializam milagres, vendem um Jesus milagreiro porque sabem que o povo mal instruído na fé e por incopetência de resolver os seus mínimos problemas, buscam nas seitas solução pra tudo. Isto é um atentado contra Deus. Portanto como diz o Evangelho, falam de Jesus, pregam Jesus, mas seus frutos não são de Jesus e sim de satanás.
Pois muitas vezes os problemas que você vive, a solução que não chega é porque há um propósito maior para você no céu. Mas se você querer tudo na terra o que terá na eternidade? E quantos querem pedir, querem chamar Deus de Pai, mas, não são capazes de amar o próximo e perdoar? (Mc11, 25-26) ... Deus ouvirá você? 



A FÉ  VEM DO SABER OUVIR A PALAVRA DE DEUS
 
Romanos 10:17


Sem fé é impossível agradar a Deus, porque é necessário que, aquele que se aproxima de Deus, creia que Ele existe e é galardoador daqueles que O buscam.



Logo, todos precisamos de fé, o que, noutras palavras, significa que todos precisamos de ouvir e reflectir na Santa Palavra de Deus, o instrumento que Deus usa para fazer nascer e crescer em nós a fé.



                    Costumas ler, com regularidade, a Bíblia? Costumas lê-la em espírito de oração e dependência?



                   É que a "Palavra que sai da boca de Deus não voltará vazia para Ele, antes que tenha feito no coração do homem a obra para que foi enviada" (Isaías 55:11).



                     Porque precisamos de fé em constante crescimento, devemos guardar e esconder a Palavra no nosso coração, para que não pequemos contra Ele e também porque a Palavra é lâmpada para os nossos pés e luz para os nossos caminhos (Salmo 119:11, 105).


TER FÉ É: ACREDITAR NA CRUZ DE CRISTO

Algumas seitas cristãs hoje tentam passar a falsa idéia de que uma pessoa pode ter fé sem passar pela dor e o sofrimento. E não é verdade. Jesus nunca disse que se a gente tivesse fé as coisas iam dar sempre certo, que não íamos passar por dificuldades ou que tudo seria uma maravilha. Pelo contrário, Jesus deixa claro que estando do seu lado crendo e aceitando Ele como Senhor vamos passar pelos mesmos caminhos que ele passou às vezes até mais doloridos do que o dEle.

Esse negócio que as seitas passam que Jesus traz a solução pra tudo, é uma farsa, nem sempre Jesus pode ser a solução de tudo, não porque ele não pode, pois ele é Deus, mas porque se jogarmos toda nossa responsabilidade humana sobre Jesus que tipo cristãos seremos? Jesus não é obrigado a cumprir uma missão ou um dever que é o nosso.


Ele nos ajuda, nos dá força e coragem, nos ilumina, mas, a responsabilidade de resolver os nossos problemas é de cada um de nós.

Ele mesmo disse: "Se alguém quiser me seguir... (se quiser não é obrigado), renuncie-se a si mesmo tome a "SUA" cruz (não disse: toma a minha cruz) e siga-me!"
Que isto significa? significa que cada um de nós deve seguir Jesus dentro se sua própria vida com seus direitos e deveres a cumprir. 
Cristo é o fundamento de nossa fé, mas Deus nos provará esta fé. Como? Passando pelas provas da vida. Palas "cruzes" do dia a dia. Para que servirá esta prova? para nos tornar ainda mais fortes para Deus. Então a Cruz de Cristo podemos dizer, que se divide em muitas cruzes cada um de um jeito que se adequa aos nossos ombros. Isto é no nosso caminhar as cruzes vão se ajeitando basta que você tenha fé e forças, mas elas nunca deixarão de existir.
Não pense que é fácil crer em Jesus para viver, pelo contrário aí que as perseguições, as dificuldades serão maiores, porque o Cristão à luz de Cristo e do seu Evangelho terá que ser "provado no fogo" para ser salvo. Terá que passar pela porta estreita terá que sofrer, ser perseguido etc. 
São Paulo nos diz que somos a casa de Deus, o Edifício onde Deus habita e como tal Deus nos prova. Você moraria em uma casa construída com material ruim e que a qualquer momento pode cair? Que segurança teria? Claro que não moraria!
Pois é! Muito mesnos Deus. Deus não pode habitar num coração que não tem fé, pois a fé é a base que sólida sustenta a casa, mas se esta fé for ruim, a casa cairá. Por isso Deus sempre prova o lugar em que vive a fim de poder habitar com segurança. Deus exige o melhor e portanto, devemos ser esta construção firme solidificada pela fé e pelo amor. (Cf. 1Cr3, 9-17.)

"NÓS PREGAMOS CRISTO CRUCIFICADO!" - Estas palavras derrubam a tese dos " falsos crentes" dizem que nós temos fé em um Cristo morto.
Anunciar Cristo Crucificado é diferente de anunciar Jesus morto não é verdade? 
Mas nada mais que São Paulo para explicar o por quê:
1Cor 1, 17-29

[17] Cristo não me enviou para batizar, mas para pregar o Evangelho; (esta era a missão de Paulo) e isso sem recorrer a habilidade da arte oratória, (Paulo era formado para pregar era um homem formado em oratória sabia muito bem falar, haramaico, grego e romano), para não desvirtude da Cruz de Cristo. (pois se recorresse a tal arte as pessoas poderiam desacreditar em sua pregação achando que ele estava inventado fatos).

[18] A linguagem da Cruz é loucura para os que se perdem, mas, para os que foram salvos, para nós é uma força divina
Isto é, no tempo de Jesus quem morria na cruz era os piores criminosos e os judeus se escandalizavam pois era o poior dos castigos. Morrer na cruz era algo terrível para um judeu crente, praticante. Mas para nós a cruz é sinal de Salvação, pois, Deus quis que seu Filho morresse por nós na Cruz em expiação dos nossos pecados. Essa é a nossa fé. A linguagem da Cruz é uma só a Salvação.
Então, uma religião que se diz cristã mas, que não prega Jesus Crucifiado é uma religião falsa porque não prega Jesus integralmente como ele é, na sua totalidade, pois, a nossa Salvação passou pela morte de Jesus na Cruz.
Isto é um fato incontestável.  Uma coisa é  nós ficarmos presos no Jesus morto da sexta-feira da Paixão. Outra coisa é nós acreditarmos no Cristo vivo e Ressuscitado, mas que nasceu de maria, viveu, padeceu e foi crucificado, que morreu e foi sepultado, que ressuscitou ao terceiro dia e subiu a céu. Essa é a verdade da nossa profissão de fé.
Então o cristão jamais poderá ignorar a Cruz de Cristo pois ela é o Sinal da nossa Fé e da nossa Salvação. 
A verdadeira Igreja de Jesus é a Igreja da Cruz de Cristo! 

FÉ E JUSTIÇA SOCIAL
 Pergunta: "O que a Bíblia diz sobre a justiça social?"

Resposta:
Antes de discutir a visão cristã da justiça social, precisamos definir os termos. A justiça social é um conceito tão politicamente carregado que realmente não pode ser dissociado do seu contexto moderno. A justiça social é muitas vezes usada como um grito de guerra para muitos no lado esquerdo do espectro político. Este trecho da pesquisa "Justiça Social" na Wikipédia (traduzido do inglês) é uma boa definição deste conceito:

"A justiça social é também um conceito que alguns usam para descrever o movimento em direção a um mundo socialmente justo. Neste contexto, a justiça social baseia-se nos conceitos de igualdade e direitos humanos, e envolve um maior grau de igualitarismo econômico através da tributação progressiva, da redistribuição de renda ou até mesmo da redistribuição da propriedade. Essas políticas visam atingir o que os economistas de desenvolvimento chamam de igualdade de oportunidades, a qual pode realmente existir em algumas sociedades, e para a fabricação de igualdade de resultados nos casos em que as desigualdades inerentes aparecem em um sistema processualmente justo".

A palavra-chave nesta definição é "igualitarismo". Esta palavra, juntamente com as frases "redistribuição de renda", "redistribuição da propriedade" e "igualdade de resultados", diz muito sobre a justiça social. O igualitarismo, como uma doutrina política, essencialmente promove a ideia de que todas as pessoas devem ter os mesmos (iguais) direitos políticos, sociais, econômicos e civis. Esta ideia é baseada no fundamento dos direitos humanos inalienáveis consagrados em documentos como a Declaração de Independência Americana.

No entanto, como uma doutrina econômica, o igualitarismo é a força motriz por trás do socialismo e do comunismo. É o igualitarismo econômico que visa remover as barreiras da desigualdade econômica por meio da redistribuição da riqueza. Vemos isso sendo implementado através de programas de assistência social onde as políticas fiscais progressistas tomam proporcionalmente mais dinheiro de pessoas ricas a fim de elevar o padrão de vida para as pessoas que não têm as mesmas condições. Em outras palavras, o governo tira dos ricos e dá aos pobres.

O problema com essa doutrina é duplo: primeiro, há uma premissa equivocada no igualitarismo econômico de que os ricos se tornaram ricos através da exploração dos pobres. Grande parte da literatura socialista dos últimos 150 anos promove essa premissa. Isso pode ter sido o caso principal quando Karl Marx escreveu o seu primeiro Manifesto Comunista, e ainda hoje pode ser o caso por parte do tempo, mas certamente não o tempo todo. Em segundo lugar, os programas socialistas tendem a criar mais problemas do que resolvem; em outras palavras, eles não funcionam. Os programas de assistência social, os quais usam a receita fiscal pública para complementar a renda da população subempregada ou desempregada, normalmente têm o efeito de tornar os beneficiários dependentes da ajuda governamental ao invés de encorajá-los a tentar melhorar a sua situação. Todo caso em que o socialismo/comunismo foi implementado em escala nacional foi um fracasso, não conseguindo remover as distinções de classe na sociedade. Em vez disso, tudo que faz é substituir a distinção entre a nobreza e o homem comum com uma distinção entre a classe de trabalho e classe política.

Qual, então, é a visão cristã da justiça social? A Bíblia ensina que Deus é um Deus de justiça. De fato, "Deus é... justo e reto" (Deuteronômio 32:4). Além disso, a Bíblia sustenta a noção de justiça social na qual a preocupação e os cuidados são mostrados a favor dos pobres e aflitos (Deuteronômio 10:18, 24:17, 27:19). A Bíblia muitas vezes se refere ao órfão, à viúva e ao estrangeiro - ou seja, pessoas que não eram capazes de cuidar de si mesmas ou não tinham um sistema de apoio. A nação de Israel foi ordenada por Deus para cuidar dos menos afortunados da sociedade, e seu eventual fracasso de fazer isso foi em parte a razão para o seu julgamento e expulsão da terra.

Quando Jesus pregou o Sermão do Monte, Ele mencionou cuidar dos "pequeninos" (Mateus 25:40) e Tiago, em sua epístola, expõe a natureza da "verdadeira religião" (Tiago 1:27). Assim, se por "justiça social" queremos dizer que a sociedade tem a obrigação moral de cuidar dos menos afortunados, então isso é correto. Deus sabe que, devido à queda, haverá viúvas, órfãos e peregrinos na sociedade, e Ele fez provisões no antigo e novo testamento para cuidar deles. O modelo de tal comportamento é o próprio Jesus, o qual refletiu o senso de justiça de Deus ao levar a mensagem do evangelho até mesmo aos párias da sociedade.

No entanto, a noção cristã de justiça social é diferente da noção contemporânea de justiça social. As exortações bíblicas para cuidar dos pobres são mais individuais do que da sociedade como um todo. Em outras palavras, cada cristão é encorajado a fazer o que puder para ajudar o "menor destes." A base para tais mandamentos bíblicos encontra-se no segundo dos grandes mandamentos - amar ao próximo como a si mesmo (Mateus 22:39). A noção de justiça social de hoje substitui o indivíduo com o governo, o qual, por meio de impostos e outros meios, redistribui a riqueza. Esta política não incentiva a doação motivada pelo amor, mas apenas o ressentimento daqueles que veem a riqueza pela qual tanto trabalharam sendo tirada deles.

Uma outra diferença é que a cosmovisão cristã da justiça social não supõe que os ricos são os beneficiários de lucros indevidos. A riqueza não é o mal em uma cosmovisão cristã, mas há uma responsabilidade e uma expectativa para ser um bom administrador (porque toda riqueza vem de Deus). A justiça social de hoje opera sob a suposição de que os ricos exploram os pobres. A terceira diferença é que, sob o conceito cristão de boa administração, o cristão pode doar a instituições de caridade que ele queira apoiar. Por exemplo, se um cristão tiver uma afinidade com os bebês ainda não nascidos, ele pode apoiar agências e organizações que se dedicam a esse fim com o seu tempo, talento e finanças. Sob a forma contemporânea de justiça social, os que estão no poder são os que decidem quem recebe a riqueza redistribuída. Não temos nenhum controle sobre o que o governo faz com os nossos impostos e, mais frequentemente do que não, esse dinheiro vai para instituições de caridade que não consideramos dignas.

Resumindo, há uma tensão entre uma abordagem da justiça social que é centrada em Deus e da que é centrada no homem. A abordagem centrada no homem vê o governo no papel de salvador, trazendo consigo uma utopia por meio de políticas governamentais. A abordagem centrada em Deus vê Cristo como Salvador, trazendo o céu para a terra quando Ele voltar. No Seu retorno, Cristo restaurará todas as coisas e executará a justiça perfeita. Até então, os cristãos expressam o amor e a justiça de Deus ao mostrar bondade e misericórdia para com os menos afortunados.


Fonte: http://www.gotquestions.org/Portugues/justica-social.html
 FÉ E POLÍTICA

1. Entendemos por fé cristã a adesão pessoal a Jesus na Igreja e entendemos por compromisso político, não só e nem principalmente o compromisso partidário com a "polis”, com a sociedade política, com a cidadania; em última instância, o compromisso com a justiça e com a humanidade.
O binômio fé cristã e compromisso político não é tão simples e óbvio como possa parecer, pois, muitas vezes, a fé cristã e o compromisso político estiveram e estão separados e, às vezes, contrapostos. Existiu e existe ainda um divórcio entre fé cristã e compromisso político.
Ditadores latino-americanos que se diziam cristãos, comungavam e assistiam à procissão de Corpus Christi, torturavam e assassinavam seus inimigos políticos; políticos que se dizem cristãos são corruptos.
Há em muitos cristãos uma deformação teórica e prática da fé cristã que, muitas vezes, reduz a fé à profissão de umas verdades (o credo e o catecismo) e ao cumprimento de alguns ritos e devoções, sem que tudo isso tenha consequências morais e menos ainda no terreno da justiça social e do compromisso com a cidadania. Para muitos cristãos tradicionais, a moral se reduz à moral sexual e familiar, tudo o mais com algumas ações de beneficência e assistência caritativa. Uma fé individualista que não tem muito a ver com a vida, nem com a história, nem com a política. Nesse caso, a fé cristã se converte em um fato meramente cultural, um verniz para esconder uma atitude individualista, não solidária e injusta. É o que se denomina cristianismo burguês.
Porém, além dessa deformação ideológica, existe uma visão negativa da política; para muitos cristãos existe um dualismo entre e Igreja e a política; entre a Igreja e a sociedade; entre a Igreja e o mundo; entre nós e eles; entre o correto e o incorreto, como se a Igreja se identificasse com o bem e a política com o mal; a Igreja com a cultura da vida e a sociedade com a cultura da morte; como se o cristão, para ir a Deus tivesse que fugir do mundo e refugiar-se nos muros da Igreja... Não é estranho que Puebla afirme que na América Latina existe um divórcio real entre a fé cristã e a justiça social, o que, como afirma Puebla, constitui um escândalo e uma contradição com o ser cristão (Puebla, 28).
Tampouco é estranho que muitos pensem que a religião, a fé cristã e a própria Igreja são alienação e ópio do povo.
Por outro lado, também constatamos como algo muito positivo a existência de muitas pessoas em todo o mundo que praticam a justiça e lutam pelos direitos humanos com um compromisso social e político, sem que adiram à fé cristã. Por exemplo, membros de religiões não cristãs, como Gandhi e Dalai Lama, como os atores da primavera africana, como muitos jovens voluntários, muitas vezes agnósticos ou ateus, que não querem saber de nada com a Igreja; porém, que, no entanto, são muito sensíveis aos direitos humanos, à luta pela justiça e ao compromisso político por uma sociedade mais justa. O compromisso político pela justiça não é algo exclusivo do cristão, mas constitui uma dimensão ética de toda autêntica existência humana.
2. Nada mais distante dessa caricatura do cristianismo alheio à história, à justiça e à sociedade que a visão bíblica da fé cristã. No Antigo Testamento, Yahvé se revela sobretudo através dos profetas, como o defensor do pobre, do órfão e da viúva; aquele que deseja que se pratique o direito e a justiça sobretudo com os mais débeis; o que se comove ante o sofrimento e o clamor do povo e busca sua libertação; ele não quer sacrifícios e nem oferendas; quer justiça e misericórdia; compromisso e solidariedade.
Essa revelação alcança sua plenitude em Jesus de Nazaré, que anuncia o projeto do Reino de Deus, um projeto de vida plena e comunhão fraterna para toda a humanidade, para toda a sociedade, simbolizado no banquete messiânico no qual todos participam dos bens da criação e no qual os primeiros destinatários são os pobres e débeis aos quais a sociedade ordinariamente exclui e marginaliza. A esse Reino de Deus Jesus entrega toda a sua vida até a cruz e ao ser ressuscitado pelo Espírito, o Pai confirma a validade desse projeto solidário; projeto que desde o Pentecostes, a Igreja está encarregada de realizar no mundo; uma Igreja que deve ser um recinto de amor e de graça, onde todos encontrem razões para viver e ter esperança.
3. Porém, seríamos injustos se não reconhecêssemos que ao longo da história da Igreja não só houve deformações da vida cristã, divórcio entre fé e justiça, mas também autênticas expressões do evangelho, integrando fé e justiça, fé e compromisso solidário. Certamente, no começo da Igreja, realizou-se mais na linha da beneficência e do assistencialismo (esmolas, hospitais, asilos, restaurantes populares, atenção aos escravos e prisioneiros, proteção à mulheres...). Porém, desde que a sociologia e a economia modernas nos fizeram compreender que a pobreza não é casual, mas que tem causas estruturais, a fé cristã adquiriu uma dimensão mais clara de compromisso político com a justiça e de luta contra as estruturas injustas que produzem a morte do povo. A Doutrina Social da Igreja; Juan XXIII, com seu desejo de uma Igreja dos pobres e sua encíclica Pacem in terris; o Vaticano II, com seu ensinamento sobre os signos dos tempos abriram caminhos claros na conexão entre fé cristã e compromisso político pela justiça. Os gozos e esperanças, as tristezas e angústias do povo, sobretudo dos pobres são gozos, esperanças, angústias e tristezas da Igreja (GS 1). O Vaticano II não fala de Igreja "e” mundo; mas, de Igreja "no” mundo, na sociedade política; passa da anátema ao diálogo, sabendo que o Espírito não somente se acha presente na Igreja como também na sociedade, a qual a Igreja ajuda; porém, da qual também a Igreja recebe ajuda; sabendo que tanto na sociedade como na própria Igreja mesclam-se o trigo e cizânia, e que todos devemos caminhar unidos rumo ao Reino de Deus. Porém, também nas demais Igrejas cristãs, temos exemplos vivos da conexão entre fé e política. Pensemos em Dietrich Bonhoeffer, em Martin Luther King, Dorothe Sölle ou em Nelson Mandela.
4. Nesse caminho de relação entre Igreja e sociedade política situa-se a atual tradição latino-americana que em Medellín fez uma recepção criativa do Vaticano II ao escutar o clamor angustiado de um povo que pede justiça, pão, terras, saúde, educação, trabalho, teto, respeito a sua dignidade, a seus direitos humanos e a suas culturas.
A partir de Medellín, a Igreja latino-americana volta a integrar fé e compromisso político pela justiça: surge uma ‘floração’ de bispos, verdadeiros Santos Padres da Igreja dos pobres, que defendem ao povo das injustiças, comprometem-se com uma mudança das estruturas, como Helder Camara [Brasil], Proaño [Equador], Méndez Arceo [México], Pironio e Angelelli [Argentina], Óscar Romero [El Salvador], Samuel Ruiz [México, Chiapas], Aloisio Lorscheider e Mendes de Almeida [Brasil], Enrique Alvear [Chile] e, na Bolívia, Jorge Manrique, Manuel Eguiguren, para citar somente os já falecidos; nascem as Comunidades de Base lideradas, sobretudo por mulheres do povo com um compromisso social e político; a vida religiosa, sobretudo a feminina, se insere nos setores mais pobres e populares, entre mineradores, camponeses, indígenas, acompanhando ao povo em suas lutas e reivindicações; há muitos leigos cristãos comprometidos com a justiça e a política e nos processos de transformação política que buscam um mundo melhor, porque outro mundo é possível; surge a Teologia da Libertação que, com suas limitações e críticas, é uma força profética e evangélica que impulsiona ao compromisso político. A opção pelos pobres está implícita em nossa fé cristológica, tudo o que tem a ver com Cristo tem que ver com os pobres, como afirma Aparecida (Aparecida 393), tudo o que tem consequências sociais e políticas.
Porém, tudo isso tem seu preço; há perseguição e martírio, desde bispos, como Romero e Angelelli, a sacerdotes e religiosas, como Mauricio Lefébvre, Luis Espinal, Ignacio Ellacuría, a Irmã Dorothy Stang e quantidade de homens e mulheres do povo, santos inocentes, assassinados pela fé e pela justiça, por seu compromisso com o povo e com a política; verdadeiros mártires jesuânicos...
5. Nesse contexto histórico latino-americano de compromisso cristão pela justiça e pela política, temos que situar a Gregorio Iriarte, sua vocação missionária a América Latina, sua estância na Argentina e no Uruguai; sua chegada a Bolívia, em 1964, às minas do Século XX e à radio Pio XII; sua experiência de impacto do massacre dos mineiros na noite de São João; sua defesa dos mineiros perseguidos; sua luta pela justiça e pelos direitos humanos em tempos de ditaduras; suas análises da realidade nacional; sua difusão da Doutrina Social da Igreja e do Magistério latino-americano; sua preocupação por fazer mudar a mentalidade de muitos cristãos conservadores (leigos, sacerdotes, bispos, religiosos); suas perseguições; todo seu trabalho de conferencista e escritor, sobretudo ultimamente desde Cochabamba.
E tudo isso como consequência de sua fé cristã, em coerência com sua adesão e seguimento a Jesus, na Igreja e na vida religiosa, como fruto do evangelho lido no mundo de hoje, a partir do povo, unindo, assim, mística e profecia; amor à Igreja e serviço ao povo da Bolívia, a Bíblia e o diário.

Victor Codina, Ssj. 






ESTUDANDO A NOSSA PROFFISSÃO DE FÉ O "CREIO":
 CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA-CIC

A PROFISSÃO DA FÉ

PRIMEIRA SECÇÃO
«EU CREIO» – «NÓS CREMOS»


CAPÍTULO TERCEIRO



A RESPOSTA DO HOMEM A DEUS
142. Pela sua revelação, «Deus invisível, na riqueza do seu amor, fala aos homens como amigos e convive com eles, para os convidar e admitir à comunhão com Ele» (1). A resposta adequada a este convite é a fé.
143. Pela fé, o homem submete completamente a Deus a inteligência e a vontade; com todo o seu ser, o homem dá assentimento a Deus revelador (2). A Sagrada Escritura chama «obediência da fé» a esta resposta do homem a Deus revelador (3).



EU CREIO
I. A «obediência da fé»
144. Obedecer (ob-audire) na fé é submeter-se livremente à palavra escutada, por a sua verdade ser garantida por Deus, que é a própria verdade. Desta obediência, o modelo que a Sagrada Escritura nos propõe é Abraão. A sua realização mais perfeita é a da Virgem Maria.
ABRAÃO – «O PAI DE TODOS OS CRENTES»
145. A Epístola aos Hebreus, no grande elogio que faz da fé dos antepassados, insiste particularmente na fé de Abraão: «Pela fé, Abraão obedeceu ao chamamento de Deus, e partiu para uma terra que viria a receber como herança: partiu, sem saber para onde ia» (Heb 11, 8) (4). Pela fé, viveu como estrangeiro e peregrino na terra prometida (5). Pela fé, Sara recebeu a graça de conceber o filho da promessa. Pela fé, finalmente, Abraão ofereceu em sacrifício o seu filho único (6).
146. Abraão realiza assim a definição da fé dada pela Epístola aos Hebreus: «A fé constitui a garantia dos bens que se esperam, e a prova de que existem as coisas que não se vêem» (Heb 11, 1). «Abraão acreditou em Deus, e isto foi-lhe atribuído como justiça» (Rm 4, 3) (7). «Fortalecido» por esta fé (Rm 4, 20), Abraão tornou-se «o pai de todos os crentes» (Rm 4, 11. 18) (8).
147. O Antigo Testamento é rico em testemunhos desta fé. A Epístola aos Hebreus faz o elogio da fé exemplar dos antigos, «que lhes valeu um bom testemunho» (Heb 11, 2. 39). No entanto, para nós, «Deus previra destino melhor»: a graça de crer no seu Filho Jesus, «guia da nossa fé, que Ele leva à perfeição» (Heb 11, 40; 12, 2).
MARIA – «FELIZ AQUELA QUE ACREDITOU»
148. A Virgem Maria realiza, do modo mais perfeito, a «obediência da fé». Na fé, Maria acolheu o anúncio e a promessa trazidos pelo anjo Gabriel, acreditando que «a Deus nada é impossível» (Lc 1, 37) (9) e dando o seu assentimento: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1, 38). Isabel saudou-a: «Feliz aquela que acreditou no cumprimento de quanto lhe foi dito da parte do Senhor» (Lc 1, 45). É em virtude desta fé que todas as gerações a hão-de proclamar bem-aventurada (10).
149. Durante toda a sua vida e até à última provação (11), quando Jesus, seu filho, morreu na cruz, a sua fé jamais vacilou. Maria nunca deixou de crer «no cumprimento» da Palavra de Deus. Por isso, a Igreja venera em Maria a mais pura realização da fé.
II. «Eu sei em quem pus a minha fé» (2 Tm 1, 12)
CRER SÓ EM DEUS
150. Antes de mais, a fé é uma adesão pessoal do homem a Deus. Ao mesmo tempo, e inseparavelmente, é o assentimento livre a toda a verdade revelada por Deus. Enquanto adesão pessoal a Deus e assentimento à verdade por Ele revelada, a fé cristã difere da fé numa pessoa humana. É justo e bom confiar totalmente em Deus e crer absolutamente no que Ele diz. Seria vão e falso ter semelhante fé numa criatura (12).
CRER EM JESUS CRISTO, FILHO DE DEUS 151. Para o cristão, crer em Deus é crer inseparavelmente n'Aquele que Deus enviou – «no seu Filho muito amado» em quem Ele pôs todas as suas complacências (13): Deus mandou-nos que O escutássemos (14). O próprio Senhor disse aos seus discípulos: «Acreditais em Deus, acreditai também em Mim» (Jo 14, 1). Podemos crer em Jesus Cristo, porque Ele próprio é Deus, o Verbo feito carne: «A Deus, nunca ninguém O viu. O Filho Unigénito, que está no seio do Pai, é que O deu a conhecer» (Jo 1, 18). Porque «viu o Pai» (Jo 6, 46), Ele é o único que O conhece e O pode revelar (15).
CRER NO ESPÍRITO SANTO
152. Não é possível acreditar em Jesus Cristo sem ter parte no seu Espírito. É o Espírito Santo que revela aos homens quem é Jesus. Porque «ninguém é capaz de dizer: "Jesus é Senhor", a não ser pela acção do Espírito Santo» (1 Cor 12, 3). «O Espírito penetra todas as coisas, até o que há de mais profundo em Deus [...]. Ninguém conhece o que há em Deus senão o Espírito de Deus» (1 Cor 2, 10-11). Só Deus conhece inteiramente Deus. Nós cremos no Espírito Santo, porque Ele é Deus.
A Igreja não cessa de confessar a sua fé num só Deus, Pai, Filho e Espírito Santo.
III. As características da fé
A FÉ É UMA GRAÇA
153. Quando Pedro confessa que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo, Jesus declara-lhe que esta revelação não lhe veio «da carne nem do sangue, mas do seu Pai que está nos Céus» (Mt 16, 17) (16). A fé é um dom de Deus, uma virtude sobrenatural infundida por Ele. «Para prestar esta adesão da fé, são necessários a prévia e concomitante ajuda da graça divina e os interiores auxílios do Espírito Santo, o qual move e converte o coração para Deus, abre os olhos do entendimento, e dá "a todos a suavidade em aceitar e crer a verdade"» (17).
A FÉ É UM ACTO HUMANO
154. O acto de fé só é possível pela graça e pelos auxílios interiores do Espírito Santo. Mas não é menos verdade que crer é um acto autenticamente humano. Não é contrário nem à liberdade nem à inteligência do homem confiar em Deus e aderir às verdades por Ele reveladas. Mesmo nas relações humanas, não é contrário à nossa própria dignidade acreditar no que outras pessoas nos dizem acerca de si próprias e das suas intenções, e confiar nas suas promessas (como, por exemplo, quando um homem e uma mulher se casam), para assim entrarem em mútua comunhão. Por isso, é ainda menos contrário à nossa dignidade «prestar, pela fé, submissão plena da nossa inteligência e da nossa vontade a Deus revelador» (18) e entrar assim em comunhão intima com Ele.
155. Na fé, a inteligência e a vontade humanas cooperam com a graça divina: «Credere est actas intellectus assentientis veritati divinae ex imperio voluntatis, a Deo motae per gratiam» — «Crer é o acto da inteligência que presta o seu assentimento à verdade divina, por determinação da vontade, movida pela graça de Deus» (19).
A FÉ E A INTELIGÊNCIA
156. O motivo de crer não é o facto de as verdades reveladas aparecerem como verdadeiras e inteligíveis à luz da nossa razão natural. Nós cremos «por causa da autoridade do próprio Deus revelador, que não pode enganar-se nem enganar-nos» (20). «Contudo, para que a homenagem da nossa fé fosse conforme à razão, Deus quis que os auxílios interiores do Espírito Santo fossem acompanhados de provas exteriores da sua Revelação» (21). Assim, os milagres de Cristo e dos santos (22), as profecias, a propagação e a santidade da Igreja, a sua fecundidade e estabilidade «são sinais certos da Revelação, adaptados à inteligência de todos» (23), «motivos de credibilidade», mostrando que o assentimento da fé não é, «de modo algum, um movimento cego do espírito» (24).
157. A fé é certa, mais certa que qualquer conhecimento humano, porque se funda na própria Palavra de Deus, que não pode mentir. Sem dúvida, as verdades reveladas podem parecer obscuras à razão e à experiência humanas; mas «a certeza dada pela luz divina é maior do que a dada pela luz da razão natural» (25). «Dez mil dificuldades não fazem uma só dúvida» (26).
158. «A fé procura compreender» (27): é inerente à fé o desejo do crente de conhecer melhor Aquele em quem acreditou, e de compreender melhor o que Ele revelou; um conhecimento mais profundo exigirá, por sua vez, uma fé maior e cada vez mais abrasada em amor. A graça da fé abre «os olhos do coração» (Ef 1, 18) para uma inteligência viva dos conteúdos da Revelação, isto é, do conjunto do desígnio de Deus e dos mistérios da fé, da íntima conexão que os Liga entre si e com Cristo, centro do mistério revelado. Ora, para «que a compreensão da Revelação seja cada vez mais profunda, o mesmo Espírito Santo aperfeiçoa sem cessar a fé, mediante os seus dons» (28). Assim, conforme o dito de Santo Agostinho, «eu creio para compreender e compreendo para crer melhor» (29).
159. Fé e ciência. «Muito embora a fé esteja acima da razão, nunca pode haver verdadeiro desacordo entre ambas: o mesmo Deus, que revela os mistérios e comunica a fé, também acendeu no espírito humano a luz da razão. E Deus não pode negar-Se a Si próprio, nem a verdade pode jamais contradizer a verdade» (30). «É por isso que a busca metódica, em todos os domínios do saber, se for conduzida de modo verdadeiramente científico e segundo as normas da moral, jamais estará em oposição à fé: as realidades profanas e as da fé encontram a sua origem num só e mesmo Deus. Mais ainda: aquele que se esforça, com perseverança e humildade, por penetrar no segredo das coisas, é como que conduzido pela mão de Deus, que sustenta todos os seres e faz que eles sejam o que são, mesmo que não tenha consciência disso» (31).
A LIBERDADE DA FÉ
160. Para ser humana, «a resposta da fé, dada pelo homem a Deus, deve ser voluntária. Por conseguinte, ninguém deve ser constrangido a abraçara fé contra vontade. Efectivamente, o acto de fé é voluntário por sua própria natureza» (32). «E certo que Deus chama o homem a servi-Lo em espírito e verdade; mas, se é verdade que este apelo obriga o homem em consciência, isso não quer dizer que o constranja [...]. Isto foi evidente, no mais alto grau, em Jesus Cristo» (33). De facto, Cristo convidou à fé e à conversão, mas de modo nenhum constrangeu alguém. «Deu testemunho da verdade, mas não a impôs pela força aos seus contraditores. O seu Reino [...] dilata-se graças ao amor, pelo qual, levantado na cruz, Cristo atrai a Si todos os homens (34)».
A NECESSIDADE DA FÉ
161. Para obter a salvação é necessário acreditar em Jesus Cristo e n'Aquele que O enviou para nos salvar (35). «Porque "sem a fé não é possível agradar a Deus" (Heb 11, 6) e chegar a partilhar a condição de filhos seus; ninguém jamais pode justificar-se sem ela e ninguém que não "persevere nela até ao fim" (Mt 10, 22; 24, 13) poderá alcançar a vida eterna» (36).
A PERSEVERANÇA NA FÉ
162. A fé á um dom gratuito de Deus ao homem. Mas nós podemos perder este dom inestimável. Paulo adverte Timóteo a respeito dessa possibilidade: «Combate o bom combate, guardando a fé e a boa consciência; por se afastarem desse princípio é que muitos naufragaram na fé» (1 Tm 1, 18-19). Para viver, crescer e perseverar até ao fim na fé, temos de a alimentar com a Palavra de Deus; temos de pedir ao Senhor que no-la aumente (37); ela deve «agir pela caridade» (Gl 5, 6) (38), ser sustentada pela esperança (39) e permanecer enraizada na fé da Igreja.
A FÉ – VIDA ETERNA INICIADA
163. A fé faz que saboreemos, como que de antemão, a alegria e a luz da visão beatifica, termo da nossa caminhada nesta Terra. Então veremos Deus «face a face» (1 Cor 13, 12), «tal como Ele é» (1 Jo 3, 2). A fé, portanto, é já o princípio da vida eterna:

«Enquanto, desde já, contemplamos os benefícios da fé, como reflexo num espelho, é como se possuíssemos já as maravilhas que a nossa fé nos garante havermos de gozar um dia» (40).
164. Por enquanto porém, «caminhamos pela fé e não vemos claramente» (2 Cor 5, 7), e conhecemos Deus «como num espelho, de maneira confusa, [...] imperfeita» (1 Cor, 13, 12). Luminosa por parte d'Aquele em quem ela crê, a fé é muitas vezes vivida na obscuridade, e pode ser posta à prova. O mundo em que vivemos parece muitas vezes bem afastado daquilo que a ,fé nos diz: as experiências do mal e do sofrimento, das injustiças e da morte parecem contradizer a Boa-Nova, podem abalar a fé e tornarem-se, em relação a ela, uma tentação. 165. É então que nos devemos voltar para as testemunhas da fé: Abraão, que acreditou, «esperando contra toda a esperança» (Rm 4, 18); a Virgem Maria que, na «peregrinação da fé» (41), foi até à «noite da fé» (42), comungando no sofrimento do seu Filho e na noite do seu sepulcro (43); e tantas outras testemunhas da fé: «envoltos em tamanha nuvem de testemunhas, devemos desembaraçar-nos de todo o fardo e do pecado que nos cerca, e correr com constância o risco que nos é proposto, fixando os olhos no guia da nossa fé, o qual a leva à perfeição» (Heb 12, 1-2).


NÓS CREMOS
166. A fé é um acto pessoal, uma resposta livre do homem à proposta de Deus que Se revela. Mas não é um acto isolado. Ninguém pode acreditar sozinho, tal como ninguém pode viver só. Ninguém se deu a fé a si mesmo, como ninguém a si mesmo se deu a vida. Foi de outrem que o crente recebeu a fé; a outrem a deve transmitir. O nosso amor a Jesus e aos homens impele-nos a falar aos outros da nossa fé. Cada crente é, assim, um elo na grande cadeia dos crentes. Não posso crer sem ser amparado pela fé dos outros, e pela minha fé contribuo também para amparar os outros na fé.
167. «Eu creio» (44): é a fé da Igreja, professada pessoalmente por cada crente, principalmente por ocasião do Baptismo. «Nós cremos» (45): é a fé da Igreja, confessada pelos bispos reunidos em Concílio ou, de modo mais geral, pela assembleia litúrgica dos crentes. «Eu creio»: é também a Igreja, nossa Mãe, que responde a Deus pela sua fé e nos ensina a dizer: «Eu creio», «Nós cremos».
I. «Olhai, Senhor, para a fé da vossa Igreja»
168. É, antes de mais, a Igreja que crê, e que assim suporta, nutre e sustenta a minha fé. É primeiro a Igreja que, por toda a parte, confessa o Senhor («Te per orbem terrarum sancta confitetur Ecclesia» – «A Santa Igreja anuncia por toda a terra a glória do vosso nome» – como cantamos no «Te Deum»). Com ela e nela, também nós somos atraídos e levados a confessar: «Eu creio», «Nós cremos». É da Igreja que recebemos a fé e a vida nova em Cristo, pelo Baptismo. No Ritual Romano, o ministro do Baptismo pergunta ao catecúmeno: «Que vens pedir à Igreja de Deus?» E ele responde: – «A fé». – «Para que te serve a fé?» – «Para alcançar a vida eterna» (46).
169. A salvação vem só de Deus. Mas porque é através da Igreja que recebemos a vida da fé, a Igreja é nossa Mãe. «Cremos que a Igreja é como que a mãe do nosso novo nascimento, mas não cremos na Igreja como se ela fosse a autora da nossa salvação»(47). É porque é nossa Mãe, é também a educadora da nossa fé.
II. A linguagem da fé
170. Não acreditamos em fórmulas, mas sim nas realidades que as fórmulas exprimem e que a fé nos permite «tocar». «O acto [de fé] do crente não se detém no enunciado, mas na realidade [enunciada]» (48). No entanto, é através das fórmulas da fé que nos aproximamos dessas realidades. As fórmulas permitem-nos exprimir e transmitir a fé, celebrá-la em comunidade, assimilá-la e dela viver cada vez mais.
171. A Igreja, que é «coluna e apoio da verdade» (1 Tm 3, 15), guarda fielmente a fé transmitida aos santos de uma vez por todas (49). É ela que guarda a memória das palavras de Cristo. É ela que transmite, de geração em geração, a confissão de fé dos Apóstolos. Tal como uma mãe ensina os seus filhos a falar e, dessa forma, a compreender e a comunicar, a Igreja, nossa Mãe, ensina-nos a linguagem da fé, para nos introduzir na inteligência e na vida da fé.
III. Uma só fé 172. Desde há séculos, através de tantas línguas, culturas, povos e nações, a Igreja não cessa de confessar a sua fé única, recebida de um só Senhor, transmitida por um só Baptismo, enraizada na convicção de que todos os homens têm apenas um só Deus e Pai (50). Santo Ireneu de Lião, testemunha desta fé, declara:
173. «A Igreja, embora dispersa por todo o mundo até aos confins da Terra, tendo recebido dos Apóstolos e dos seus discípulos a fé, [...] guarda [esta pregação e esta fé] com tanto cuidado como se habitasse numa só casa; nela crê de modo idêntico, como tendo um só coração e uma só alma; prega-a e ensina-a e transmite-a com voz unânime, como se tivesse uma só boca» (51).
174. «Através do mundo, as línguas diferem: mas o conteúdo da Tradição é um só e o mesmo. Nem as Igrejas estabelecidas na Germania têm outra fé ou outra tradição, nem as que se estabeleceram entre os Iberos ou entre os Celtas, as do Oriente, do Egipto ou da Líbia, nem as que se fundaram no centro do mundo» (52). «A mensagem da Igreja é verídica e sólida, porque nela aparece um só e o mesmo caminho de salvação, em todo o mundo» (53).
175. Esta fé, «que recebemos da Igreja, guardamo-la nós cuidadosamente, porque sem cessar, sob a acção do Espírito de Deus, tal como um depósito de grande valor encerrado num vaso excelente, ela rejuvenesce e faz rejuvenescer o próprio vaso que a contém» (54).
Resumindo:
176. A fé é uma adesão pessoal, do homem todo, a Deus que Se revela. Comporta uma adesão da inteligência e da vontade à Revelação que Deus fez de Si mesmo, pelas suas acções e palavras.
177. «Crer» tem, pois, uma dupla referência: à pessoa e à verdade; à verdade, pela confiança na pessoa que a atesta.
178. Não devermos crer em mais ninguém senão em Deus, Pai, Filho e Espírito Santo.
179.  A fé é um dom sobrenatural de Deus. Para crer, o homem tem necessidade dos auxílios interiores do Espírito Santo. 180. «Crer» é um acto humano, consciente e livre, que está de acordo com a dignidade da pessoa humana.
181. «Crer» é um acto eclesial. A fé da Igreja precede, gera, suporta e nutre a nossa fé. A Igreja é a Mãe de todos os crentes. «Ninguém pode ter a Deus por Pai, se não tiver a Igreja por Mãe» (55).
182. «Nós cremos em tudo quanto está contido na Palavra de Deus, escrita ou transmitida, e que a Igreja propõe à nossa fé como divinamente revelado» (56).
183. A fé é necessária para a salvação. O próprio Senhor o afirma: «Quem acreditar e for baptizado salvar-se-á, mas quem não acreditar será condenado» (Mc 16, 16).
184. «A fé é um antegozo do conhecimento que nos tornará felizes na vida futura» (57).








SÍMBOLO DOS APÓSTOLOS (58)
CREDO DE NICEIA–CONSTANTINOPLA (59)
Creio em Deus, Pai todo-poderoso,
Criador do Céu e da Terra;
Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso,
Criador do Céu e da Terra,
de todas as coisas visíveis e invisíveis.
e em Jesus Cristo, seu único Filho,
nosso Senhor,
Creio em um só Senhor, Jesus Cristo,
Filho Unigénito de Deus,
 nascido do Pai antes de todos os séculos:
Deus de Deus, luz da luz,
Deus verdadeiro de Deus verdadeiro;
gerado, não criado, consubstancial ao Pai.
Por Ele todas as coisas foram feitas.
E por nós, homens, e para nossa salvação
desceu dos Céus.
que foi concebido pelo poder
do Espírito Santo;
nasceu da Virgem Maria;
E encarnou pelo Espírito Santo,
 no seio da Virgem Maria,
e Se fez homem.
padeceu sob Pôncio Pilatos,
foi crucificado, morto e sepultado;
desceu à mansão dos mortos;
ressuscitou ao terceiro dia;
subiu aos Céus;
está sentado à direita de Deus Pai
todo-poderoso, de onde há-de vir a julgar
os vivos e os mortos.
Também por nós foi crucificado sob Pôncio Pilatos;
padeceu e foi sepultado.
Ressuscitou ao terceiro dia,
conforme as Escrituras;
e subiu aos Céus, onde está sentado
à direita do Pai.
De novo há-de vir em sua glória,
para julgar os vivos e os mortos;
e o seu Reino não terá fim.
Creio no Espírito Santo;
Creio no Espírito Santo,
Senhor que dá a vida,
e procede do Pai e do Filho;
e com o Pai e o Filho é adorado
e glorificado:
Ele que falou pelos profetas.
na santa Igreja Católica;
na comunhão dos Santos;
Creio na Igreja una, santa,
católica e apostólica.  
na remissão dos pecados;
na ressurreição da carne;
na vida eterna.
Amen
Professo um só Baptismo
para remissão dos pecados.
E espero a ressurreição dos mortos,
e a vida do mundo que há-de vir.
Amen.
  
NÃO HÁ SALVAÇÃO SEM CARIDADE 

A caridade é muito mais que dar esmolas. Ela é um gesto concreto de fé e consiste em promover e dar qualidade ao ser humano para que possa resgatar sua dignidade. Fazer uma caridade descompromissada com a pessoa humana é fácil, dar esmolas, um prato de comida a quem precisa, dar roupas, agasalhos, tudo isso é bom que se faça, mas, é preciso entender o que significa a caridade evangélica. Ela consiste em promover a dignidade humana num todo dentro dos princípios ensinados por Jesus: Amor, Perdão e Justiça, Garantia dos Direitos Humanos, Paz, Solidariedade. Promoção da Dignidade Humana. E tudo que se diz ao Homem, também pode ser aplicado na Natureza, pois, a caridade implica em que possamos respeitar o Meio Ambiente em que vivemos.

Como diz o ditado: "o importante não é dar o peixe, é importante ensinar a pessoa a pescar!"
As pessoas sofrem por falta de oportunidades. Numa sociedade onde o capitalismo fala mais alto devemos promover a dignidade humana de forma que todos tenham acesso aos direitos básicos para viver: saúde, educação, emprego, segurança pública, onde haja políticas justas de juros. Hoje percebemos que o lema francês: igualdade e fraternidade está meio esquecido. Os cristãos não podem ser escravos do dinheiro e nem do moralismo econômico, mas devem seguir o exemplo dos primeiros cristãos que agiam em comum para que as comunidades não passassem dificuldade; (Cf. At 44-46). Hoje o que se vê é má distrubuição de renda, onde a riqueza concentra-se em uma pequena parcela da população enquanto muitos passam fome, com um salário injusto e uma má distribuição de renda. Não é tarefa apenas dos políticos fazer com que essa distribuição chegue ao povo, porque isso não irá acontecer. Mas podemos começar pela caridade de cada um em perceber que o que nos sobra, falta na casa de tantos irmãos. A caridade consiste em promover a dignidade humana. Muitas vezes o nosso gesto é da hipocrisia de sentir dó das pessoas, mas e daí? Vai resolver alguma coisa? Vai resolver eu matar a fome de alguém uma vez? Não! Isso não é caridade. A caridade é oferecer meios pelos quais as pessoas possam adquirir seu sustento, possa devolver à pessoa o gosto de ser útil para sociedade. Como chamar a Deus de Pai e não reconhecer os outros como irmãos? Como ter fé sem agir com a caridade? Como fazer o reino de Deus acontecer, se faço daqui um inferno?
Quando São Paulo disse que a Fé sem obras é morta, é porque em primeiro lugar deve estar o amor. Hoje há muitas maneiras de praticar a caridade. Podemos começar na nossa, casa depois, na nossa rua, no nosso bairro. Existem ONGS, instituições sociais da Igreja, do Município que ajudam. Grupos de voluntarios que prestam serviço em creches, hospitais, asilos, existem na Igreja diversos grupos de assistência aos necessitados, como a S.S.V.P. (Sociedade S. Vicente de Paulo) a Cáritas Brasileira. Em outras a Cruz Vermelha, o Exército da Salvação, o UNICEF e tantos outros movimentos. As Pastorais como: Pastoral da Pessoa Idosa, Pastoral da Criança, Pastoral Carcerária, etc. Então, por onde começar? Seja um voluntário. A Fé cristã consiste nas obras que fazemos. Jesus deixa claro que seremos julgados pelas nossas obras, isto é pelo bem que fazemos, porque todo ser humano é imagem e semelhança de Deus, não importa se ele é feio ou bonito, pobre ou rico, mocinho ou bandido. Importa que cada um promova o Reino de Deus. Pela Fé, Esperança e Caridade vem a Salvação. Podemos fazer com que a Salvação chegue às pessoas levando a elas nosso amor. Lembre-se: "Caridade é mais que boas ações, é resgatar a dignidade humana!"                 

 Agora vamos conhecer estudar a Carta Encíclica de Sua Santidade o Papa Francisco sobre a Fé:

 CARTA ENCÍCLICA
LUMEN FIDEI
DO SUMO PONTÍFICE
FRANCISCO
AOS BISPOS
AOS PRESBÍTEROS E AOS DIÁCONOS
ÀS PESSOAS CONSAGRADAS
E A TODOS OS FIÉIS LEIGOS

SOBRE A FÉ
 
1. A luz da fé é a expressão com que a tradição da Igreja designou o grande dom trazido por Jesus. Eis como Ele Se nos apresenta, no Evangelho de João: « Eu vim ao mundo como luz, para que todo o que crê em Mim não fique nas trevas » (Jo 12, 46). E São Paulo exprime-se nestes termos: « Porque o Deus que disse: "das trevas brilhe a luz", foi quem brilhou nos nossos corações » (2 Cor 4, 6). No mundo pagão, com fome de luz, tinha-se desenvolvido o culto do deus Sol, Sol invictus, invocado na sua aurora. Embora o sol renascesse cada dia, facilmente se percebia que era incapaz de irradiar a sua luz sobre toda a existência do homem. De facto, o sol não ilumina toda a realidade, sendo os seus raios incapazes de chegar até às sombras da morte, onde a vista humana se fecha para a sua luz. Aliás « nunca se viu ninguém — afirma o mártir São Justino — pronto a morrer pela sua fé no sol ».[1] Conscientes do amplo horizonte que a fé lhes abria, os cristãos chamaram a Cristo o verdadeiro Sol, « cujos raios dão a vida ».[2] A Marta, em lágrimas pela morte do irmão Lázaro, Jesus diz-lhe: « Eu não te disse que, se acreditares, verás a glória de Deus? » (Jo 11, 40). Quem acredita, vê; vê com uma luz que ilumina todo o percurso da estrada, porque nos vem de Cristo ressuscitado, estrela da manhã que não tem ocaso.

Uma luz ilusória?

2. E contudo podemos ouvir a objecção que se levanta de muitos dos nossos contemporâneos, quando se lhes fala desta luz da fé. Nos tempos modernos, pensou-se que tal luz poderia ter sido suficiente para as sociedades antigas, mas não servia para os novos tempos, para o homem tornado adulto, orgulhoso da sua razão, desejoso de explorar de forma nova o futuro. Nesta perspectiva, a fé aparecia como uma luz ilusória, que impedia o homem de cultivar a ousadia do saber. O jovem Nietzsche convidava a irmã Elisabeth a arriscar, percorrendo vias novas (…), na incerteza de proceder de forma autónoma ». E acrescentava: « Neste ponto, separam-se os caminhos da humanidade: se queres alcançar a paz da alma e a felicidade, contenta-te com a fé; mas, se queres ser uma discípula da verdade, então investiga ». [3] O crer opor-se-ia ao indagar. Partindo daqui, Nietzsche desenvolverá a sua crítica ao cristianismo por ter diminuído o alcance da existência humana, espoliando a vida de novidade e aventura. Neste caso, a fé seria uma espécie de ilusão de luz, que impede o nosso caminho de homens livres rumo ao amanhã. 3. Por este caminho, a fé acabou por ser associada com a escuridão. E, a fim de conviver com a luz da razão, pensou-se na possibilidade de a conservar, de lhe encontrar um espaço: o espaço para a fé abria-se onde a razão não podia iluminar, onde o homem já não podia ter certezas. Deste modo, a fé foi entendida como um salto no vazio, que fazemos por falta de luz e impelidos por um sentimento cego, ou como uma luz subjectiva, talvez capaz de aquecer o coração e consolar pessoalmente, mas impossível de ser proposta aos outros como luz objectiva e comum para iluminar o caminho. Entretanto, pouco a pouco, foi-se vendo que a luz da razão autónoma não consegue iluminar suficientemente o futuro; este, no fim de contas, permanece na sua obscuridade e deixa o homem no temor do desconhecido. E, assim, o homem renunciou à busca de uma luz grande, de uma verdade grande, para se contentar com pequenas luzes que iluminam por breves instantes, mas são incapazes de desvendar a estrada. Quando falta a luz, tudo se torna confuso: é impossível distinguir o bem do mal, diferenciar a estrada que conduz à meta daquela que nos faz girar repetidamente em círculo, sem direcção.

Uma luz a redescobrir

4. Por isso, urge recuperar o carácter de luz que é próprio da fé, pois, quando a sua chama se apaga, todas as outras luzes acabam também por perder o seu vigor. De facto, a luz da fé possui um carácter singular, sendo capaz de iluminar toda a existência do homem. Ora, para que uma luz seja tão poderosa, não pode dimanar de nós mesmos; tem de vir de uma fonte mais originária, deve porvir em última análise de Deus. A fé nasce no encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos apoiar-nos para construir solidamente a vida. Transformados por este amor, recebemos olhos novos e experimentamos que há nele uma grande promessa de plenitude e se nos abre a visão do futuro. A fé, que recebemos de Deus como dom sobrenatural, aparece-nos como luz para a estrada orientando os nossos passos no tempo. Por um lado, provém do passado: é a luz duma memória basilar — a da vida de Jesus –, onde o seu amor se manifestou plenamente fiável, capaz de vencer a morte. Mas, por outro lado e ao mesmo tempo, dado que Cristo ressuscitou e nos atrai de além da morte, a fé é luz que vem do futuro, que descerra diante de nós horizontes grandes e nos leva a ultrapassar o nosso « eu » isolado abrindo-o à amplitude da comunhão. Deste modo, compreendemos que a fé não mora na escuridão, mas é uma luz para as nossas trevas. Dante, na Divina Comédia, depois de ter confessado diante de São Pedro a sua fé, descreve-a como uma « centelha / que se expande depois em viva chama / e, como estrela no céu, em mim cintila ». [4] É precisamente desta luz da fé que quero falar, desejando que cresça a fim de iluminar o presente até se tornar estrela que mostra os horizontes do nosso caminho, num tempo em que o homem vive particularmente carecido de luz. 5. Antes da sua paixão, o Senhor assegurava a Pedro: « Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça » (Lc 22, 32). Depois pediu-lhe para « confirmar os irmãos » na mesma fé. Consciente da tarefa confiada ao Sucessor de Pedro, Bento XVI quis proclamar este Ano da Fé, um tempo de graça que nos tem ajudado a sentir a grande alegria de crer, a reavivar a percepção da amplitude de horizontes que a fé descerra, para a confessar na sua unidade e integridade, fiéis à memória do Senhor, sustentados pela sua presença e pela acção do Espírito Santo. A convicção duma fé que faz grande e plena a vida, centrada em Cristo e na força da sua graça, animava a missão dos primeiros cristãos. Nas Actas dos Mártires, lemos este diálogo entre o prefeito romano Rústico e o cristão Hierax: « Onde estão os teus pais? » — perguntava o juiz ao mártir; este respondeu: « O nosso verdadeiro pai é Cristo, e nossa mãe a fé n’Ele ».[5] Para aqueles cristãos, a fé, enquanto encontro com o Deus vivo que Se manifestou em Cristo, era uma « mãe », porque os fazia vir à luz, gerava neles a vida divina, uma nova experiência, uma visão luminosa da existência, pela qual estavam prontos a dar testemunho público até ao fim.
6. O Ano da Fé teve início no cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II. Esta coincidência permite-nos ver que o mesmo foi um Concílio sobre a fé, [6] por nos ter convidado a repor, no centro da nossa vida eclesial e pessoal, o primado de Deus em Cristo. Na verdade, a Igreja nunca dá por descontada a fé, pois sabe que este dom de Deus deve ser nutrido e revigorado sem cessar para continuar a orientar o caminho dela. O Concílio Vaticano II fez brilhar a fé no âmbito da experiência humana, percorrendo assim os caminhos do homem contemporâneo. Desta forma, se viu como a fé enriquece a existência humana em todas as suas dimensões. 7. Estas considerações sobre a fé — em continuidade com tudo o que o magistério da Igreja pronunciou acerca desta virtude teologal [7] — pretendem juntar-se a tudo aquilo que Bento XVI escreveu nas cartas encíclicas sobre a caridade e a esperança. Ele já tinha quase concluído um primeiro esboço desta carta encíclica sobre a fé. Estou-lhe profundamente agradecido e, na fraternidade de Cristo, assumo o seu precioso trabalho, limitando-me a acrescentar ao texto qualquer nova contribuição. De facto, o Sucessor de Pedro, ontem, hoje e amanhã, sempre está chamado a « confirmar os irmãos » no tesouro incomensurável da fé que Deus dá a cada homem como luz para o seu caminho.
Na fé, dom de Deus e virtude sobrenatural por Ele infundida, reconhecemos que um grande Amor nos foi oferecido, que uma Palavra estupenda nos foi dirigida: acolhendo esta Palavra que é Jesus Cristo — Palavra encarnada –, o Espírito Santo transforma-nos, ilumina o caminho do futuro e faz crescer em nós as asas da esperança para o percorrermos com alegria. Fé, esperança e caridade constituem, numa interligação admirável, o dinamismo da vida cristã rumo à plena comunhão com Deus. Mas, como é este caminho que a fé desvenda diante de nós? Donde provém a sua luz, tão poderosa que permite iluminar o caminho duma vida bem sucedida e fecunda, cheia de fruto?

CAPÍTULO I
ACREDITAMOS NO AMOR
(cf. 1 Jo 4, 16)
Abraão, nosso pai na fé
8. A fé desvenda-nos o caminho e acompanha os nossos passos na história. Por isso, se quisermos compreender o que é a fé, temos de explanar o seu percurso, o caminho dos homens crentes, com os primeiros testemunhos já no Antigo Testamento. Um posto singular ocupa Abraão, nosso pai na fé. Na sua vida, acontece um facto impressionante: Deus dirige-lhe a Palavra, revela-Se como um Deus que fala e o chama por nome. A fé está ligada à escuta. Abraão não vê Deus, mas ouve a sua voz. Deste modo, a fé assume um carácter pessoal: o Senhor não é o Deus de um lugar, nem mesmo o Deus vinculado a um tempo sagrado específico, mas o Deus de uma pessoa, concretamente o Deus de Abraão, Isaac e Jacob, capaz de entrar em contacto com o homem e estabelecer com ele uma aliança. A fé é a resposta a uma Palavra que interpela pessoalmente, a um Tu que nos chama por nome. 9. Esta Palavra comunica a Abraão uma chamada e uma promessa. Contém, antes de tudo, uma chamada a sair da própria terra, convite a abrir-se a uma vida nova, início de um êxodo que o encaminha para um futuro inesperado. A perspectiva, que a fé vai proporcionar a Abraão, estará sempre ligada com este passo em frente que ele deve realizar: a fé « vê » na medida em que caminha, em que entra no espaço aberto pela Palavra de Deus. Mas tal Palavra contém ainda uma promessa: a tua descendência será numerosa, serás pai de um grande povo (cf. Gn 13, 16; 15, 5; 22, 17). É verdade que a fé de Abraão, enquanto resposta a uma Palavra que a precede, será sempre um acto de memória; contudo esta memória não o fixa no passado, porque, sendo memória de uma promessa, se torna capaz de abrir ao futuro, de iluminar os passos ao longo do caminho. Assim se vê como a fé, enquanto memória do futuro, está intimamente ligada com a esperança.
10. A Abraão pede-se para se confiar a esta Palavra. A fé compreende que a palavra — uma realidade aparentemente efémera e passageira —, quando é pronunciada pelo Deus fiel, torna-se no que de mais seguro e inabalável possa haver, possibilitando a continuidade do nosso caminho no tempo. A fé acolhe esta Palavra como rocha segura, sobre a qual se pode construir com alicerces firmes. Por isso, na Bíblia hebraica, a fé é indicada pela palavra ‘emûnah, que deriva do verbo ‘amàn, cuja raiz significa « sustentar ». O termo ‘emûnah tanto pode significar a fidelidade de Deus como a fé do homem. O homem fiel recebe a sua força do confiar-se nas mãos do Deus fiel. Jogando com dois significados da palavra — presentes tanto no termo grego pistós como no correspondente latino fidelis –, São Cirilo de Jerusalém exaltará a dignidade do cristão, que recebe o mesmo nome de Deus: ambos são chamados « fiéis ».[8] E Santo Agostinho explica-o assim: « O homem fiel é aquele que crê no Deus que promete; o Deus fiel é aquele que concede o que prometeu ao homem ».[9]
11. Há ainda um aspecto da história de Abraão que é importante para se compreender a sua fé. A Palavra de Deus, embora traga consigo novidade e surpresa, não é de forma alguma alheia à experiência do Patriarca. Na voz que se lhe dirige, Abraão reconhece um apelo profundo, desde sempre inscrito no mais íntimo do seu ser. Deus associa a sua promessa com aquele « ponto » onde desde sempre a existência do homem se mostra promissora, ou seja, a paternidade, a geração duma nova vida: « Sara, tua mulher, dar-te-á um filho, a quem hás-de chamar Isaac » (Gn 17, 19). O mesmo Deus que pede a Abraão para se confiar totalmente a Ele, revela-Se como a fonte donde provém toda a vida. Desta forma, a fé une-se com a Paternidade de Deus, da qual brota a criação: o Deus que chama Abraão é o Deus criador, aquele que « chama à existência o que não existe » (Rm 4, 17), aquele que, « antes da fundação do mundo, (...) nos predestinou para sermos adoptados como seus filhos » (Ef 1, 4-5). No caso de Abraão, a fé em Deus ilumina as raízes mais profundas do seu ser: permite-lhe reconhecer a fonte de bondade que está na origem de todas as coisas, e confirmar que a sua vida não deriva do nada nem do acaso, mas de uma chamada e um amor pessoais. O Deus misterioso que o chamou não é um Deus estranho, mas a origem de tudo e que tudo sustenta. A grande prova da fé de Abraão, o sacrifício do filho Isaac, manifestará até que ponto este amor originador é capaz de garantir a vida mesmo para além da morte. A Palavra que foi capaz de suscitar um filho no seu corpo « já sem vida (…), como sem vida estava o seio » de Sara estéril (Rm 4, 19), também será capaz de garantir a promessa de um futuro para além de qualquer ameaça ou perigo (cf. Heb 11, 19; Rm 4, 21).


A fé de Israel
12. A história do povo de Israel, no livro do Êxodo, continua na esteira da fé de Abraão. De novo, a fé nasce de um dom originador: Israel abre-se à acção de Deus, que quer libertá-lo da sua miséria. A fé é chamada a um longo caminho, para poder adorar o Senhor no Sinai e herdar uma terra prometida. O amor divino possui os traços de um pai que conduz seu filho pelo caminho (cf. Dt 1, 31). A confissão de fé de Israel desenrola-se como uma narração dos benefícios de Deus, da sua acção para libertar e conduzir o povo (cf. Dt 26, 5-11); narração esta, que o povo transmite de geração em geração. A luz de Deus brilha para Israel, através da comemoração dos factos realizados pelo Senhor, recordados e confessados no culto, transmitidos pelos pais aos filhos. Deste modo aprendemos que a luz trazida pela fé está ligada com a narração concreta da vida, com a grata lembrança dos benefícios de Deus e com o progressivo cumprimento das suas promessas. A arquitectura gótica exprimiu-o muito bem: nas grandes catedrais, a luz chega do céu através dos vitrais onde está representada a história sagrada. A luz de Deus vem-nos através da narração da sua revelação e, assim, é capaz de iluminar o nosso caminho no tempo, recordando os benefícios divinos e mostrando como se cumprem as suas promessas. 13. A história de Israel mostra-nos ainda a tentação da incredulidade, em que o povo caiu várias vezes. Aparece aqui o contrário da fé: a idolatria. Enquanto Moisés fala com Deus no Sinai, o povo não suporta o mistério do rosto divino escondido, não suporta o tempo de espera. Por sua natureza, a fé pede para se renunciar à posse imediata que a visão parece oferecer; é um convite para se abrir à fonte da luz, respeitando o mistério próprio de um Rosto que pretende revelar-se de forma pessoal e no momento oportuno. Martin Buber citava esta definição da idolatria, dada pelo rabino de Kock: há idolatria, « quando um rosto se dirige reverente a um rosto que não é rosto ».[10] Em vez da fé em Deus, prefere-se adorar o ídolo, cujo rosto se pode fixar e cuja origem é conhecida, porque foi feito por nós. Diante do ídolo, não se corre o risco de uma possível chamada que nos faça sair das próprias seguranças, porque os ídolos « têm boca, mas não falam » (Sal 115, 5). Compreende-se assim que o ídolo é um pretexto para se colocar a si mesmo no centro da realidade, na adoração da obra das próprias mãos. Perdida a orientação fundamental que dá unidade à sua existência, o homem dispersa-se na multiplicidade dos seus desejos; negando-se a esperar o tempo da promessa, desintegra-se nos mil instantes da sua história. Por isso, a idolatria é sempre politeísmo, movimento sem meta de um senhor para outro. A idolatria não oferece um caminho, mas uma multiplicidade de veredas que não conduzem a uma meta certa, antes se configuram como um labirinto. Quem não quer confiar-se a Deus, deve ouvir as vozes dos muitos ídolos que lhe gritam: « Confia-te a mim! » A fé, enquanto ligada à conversão, é o contrário da idolatria: é separação dos ídolos para voltar ao Deus vivo, através de um encontro pessoal. Acreditar significa confiar-se a um amor misericordioso que sempre acolhe e perdoa, que sustenta e guia a existência, que se mostra poderoso na sua capacidade de endireitar os desvios da nossa história. A fé consiste na disponibilidade a deixar-se incessantemente transformar pela chamada de Deus. Paradoxalmente, neste voltar-se continuamente para o Senhor, o homem encontra uma estrada segura que o liberta do movimento dispersivo a que o sujeitam os ídolos.
14. Na fé de Israel, sobressai também a figura de Moisés, o mediador. O povo não pode ver o rosto de Deus; é Moisés que fala com Jahvé na montanha e comunica a todos a vontade do Senhor. Com esta presença do mediador, Israel aprendeu a caminhar unido. O acto de fé do indivíduo insere-se numa comunidade, no « nós » comum do povo, que, na fé, é como um só homem: « o meu filho primogénito », assim Deus designará todo o Israel (cf. Ex 4, 22). Aqui a mediação não se torna um obstáculo, mas uma abertura: no encontro com os outros, o olhar abre-se para uma verdade maior que nós mesmos. Jean Jacques Rousseau lamentava-se por não poder ver Deus pessoalmente: « Quantos homens entre mim e Deus! » [11] « Será assim tão simples e natural que Deus tenha ido ter com Moisés para falar a Jean Jacques Rousseau? » [12] A partir de uma concepção individualista e limitada do conhecimento é impossível compreender o sentido da mediação: esta capacidade de participar na visão do outro, saber compartilhado que é o conhecimento próprio do amor. A fé é um dom gratuito de Deus, que exige a humildade e a coragem de fiar-se e entregar-se para ver o caminho luminoso do encontro entre Deus e os homens, a história da salvação.


A plenitude da fé cristã
15. « Abraão (...) exultou pensando em ver o meu dia; viu-o e ficou feliz » ( Jo 8, 56). De acordo com estas palavras de Jesus, a fé de Abraão estava orientada para Ele, de certo modo era visão antecipada do seu mistério. Assim o entende Santo Agostinho, quando afirma que os Patriarcas se salvaram pela fé; não fé em Cristo já chegado, mas fé em Cristo que havia de vir, fé proclive para o evento futuro de Jesus. [13] A fé cristã está centrada em Cristo; é confissão de que Jesus é o Senhor e que Deus O ressuscitou de entre os mortos (cf. Rm 10, 9). Todas as linhas do Antigo Testamento se concentram em Cristo: Ele torna-Se o « sim » definitivo a todas as promessas, fundamento último do nosso « Amen » a Deus (cf. 2 Cor 1, 20). A história de Jesus é a manifestação plena da fiabilidade de Deus. Se Israel recordava os grandes actos de amor de Deus, que formavam o centro da sua confissão e abriam o horizonte da sua fé, agora a vida de Jesus aparece como o lugar da intervenção definitiva de Deus, a suprema manifestação do seu amor por nós. A palavra que Deus nos dirige em Jesus já não é uma entre muitas outras, mas a sua Palavra eterna (cf. Heb 1, 1-2). Não há nenhuma garantia maior que Deus possa dar para nos certificar do seu amor, como nos lembra São Paulo (cf. Rm 8, 31-39). Portanto, a fé cristã é fé no Amor pleno, no seu poder eficaz, na sua capacidade de transformar o mundo e iluminar o tempo. « Nós conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele » (1 Jo 4, 16). A fé identifica, no amor de Deus manifestado em Jesus, o fundamento sobre o qual assenta a realidade e o seu destino último. 16. A maior prova da fiabilidade do amor de Cristo encontra-se na sua morte pelo homem. Se dar a vida pelos amigos é a maior prova de amor (cf. Jo 15, 13), Jesus ofereceu a sua vida por todos, mesmo por aqueles que eram inimigos, para transformar o coração. É por isso que os evangelistas situam, na hora da Cruz, o momento culminante do olhar de fé: naquela hora resplandece o amor divino em toda a sua sublimidade e amplitude. São João colocará aqui o seu testemunho solene, quando, juntamente com a Mãe de Jesus, contemplou Aquele que trespassaram (cf. Jo 19, 37): « Aquele que viu estas coisas é que dá testemunho delas e o seu testemunho é verdadeiro. E ele bem sabe que diz a verdade, para vós crerdes também » (Jo 19, 35). Na sua obra O Idiota, Fiódor Mikhailovich Dostoiévski faz o protagonista — o príncipe Myskin — dizer, à vista do quadro de Cristo morto no sepulcro, pintado por Hans Holbein o Jovem: « Aquele quadro poderia mesmo fazer perder a fé a alguém »;[14] de facto, o quadro representa, de forma muito crua, os efeitos destruidores da morte no corpo de Cristo. E todavia é precisamente na contemplação da morte de Jesus que a fé se reforça e recebe uma luz fulgurante, é quando ela se revela como fé no seu amor inabalável por nós, que é capaz de penetrar na morte para nos salvar. Neste amor que não se subtraiu à morte para manifestar quanto me ama, é possível crer; a sua totalidade vence toda e qualquer suspeita e permite confiar-nos plenamente a Cristo.
17. Ora, a morte de Cristo desvenda a total fiabilidade do amor de Deus à luz da sua ressurreição. Enquanto ressuscitado, Cristo é testemunha fiável, digna de fé (cf. Ap 1, 5; Heb 2, 17), apoio firme para a nossa fé. « Se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé », afirma São Paulo (1 Cor 15, 17). Se o amor do Pai não tivesse feito Jesus ressurgir dos mortos, se não tivesse podido restituir a vida ao seu corpo, não seria um amor plenamente fiável, capaz de iluminar também as trevas da morte. Quando São Paulo fala da sua nova vida em Cristo, refere que a vive « na fé do Filho de Deus que me amou e a Si mesmo Se entregou por mim » (Gl 2, 20). Esta « fé do Filho de Deus » é certamente a fé do Apóstolo dos gentios em Jesus, mas supõe também a fiabilidade de Jesus, que se funda, sem dúvida, no seu amor até à morte, mas também no facto de Ele ser Filho de Deus. Precisamente porque é o Filho, porque está radicado de modo absoluto no Pai, Jesus pôde vencer a morte e fazer resplandecer em plenitude a vida. A nossa cultura perdeu a noção desta presença concreta de Deus, da sua acção no mundo; pensamos que Deus Se encontra só no além, noutro nível de realidade, separado das nossas relações concretas. Mas, se fosse assim, isto é, se Deus fosse incapaz de agir no mundo, o seu amor não seria verdadeiramente poderoso, verdadeiramente real e, por conseguinte, não seria sequer verdadeiro amor, capaz de cumprir a felicidade que promete. E, então, seria completamente indiferente crer ou não crer n’Ele. Ao contrário, os cristãos confessam o amor concreto e poderoso de Deus, que actua verdadeiramente na história e determina o seu destino final; um amor que se fez passível de encontro, que se revelou em plenitude na paixão, morte e ressurreição de Cristo.
18. A plenitude a que Jesus leva a fé possui outro aspecto decisivo: na fé, Cristo não é apenas Aquele em quem acreditamos, a maior manifestação do amor de Deus, mas é também Aquele a quem nos unimos para poder acreditar. A fé não só olha para Jesus, mas olha também a partir da perspectiva de Jesus e com os seus olhos: é uma participação no seu modo de ver. Em muitos âmbitos da vida, fiamo-nos de outras pessoas que conhecem as coisas melhor do que nós: temos confiança no arquitecto que constrói a nossa casa, no farmacêutico que nos fornece o remédio para a cura, no advogado que nos defende no tribunal. Precisamos também de alguém que seja fiável e perito nas coisas de Deus: Jesus, seu Filho, apresenta-Se como Aquele que nos explica Deus (cf. Jo 1, 18). A vida de Cristo, a sua maneira de conhecer o Pai, de viver totalmente em relação com Ele abre um espaço novo à experiência humana, e nós podemos entrar nele. São João exprimiu a importância que a relação pessoal com Jesus tem para a nossa fé, através de vários usos do verbo crer. Juntamente com o « crer que » é verdade o que Jesus nos diz (cf. Jo 14, 10; 20, 31), João usa mais duas expressões: « crer a (sinónimo de dar crédito a) » Jesus e « crer em » Jesus. « Cremos a » Jesus, quando aceitamos a sua palavra, o seu testemunho, porque Ele é verdadeiro (cf. Jo 6, 30). « Cremos em » Jesus, quando O acolhemos pessoalmente na nossa vida e nos confiamos a Ele, aderindo a Ele no amor e seguindo-O ao longo do caminho (cf. Jo 2, 11; 6, 47; 12, 44). Para nos permitir conhecê-Lo, acolhê-Lo e segui-Lo, o Filho de Deus assumiu a nossa carne; e, assim, a sua visão do Pai deu-se também de forma humana, através de um caminho e um percurso no tempo. A fé cristã é fé na encarnação do Verbo e na sua ressurreição na carne; é fé num Deus que Se fez tão próximo que entrou na nossa história. A fé no Filho de Deus feito homem em Jesus de Nazaré não nos separa da realidade; antes permite-nos individuar o seu significado mais profundo, descobrir quanto Deus ama este mundo e o orienta sem cessar para Si; e isto leva o cristão a comprometer-se, a viver de modo ainda mais intenso o seu caminho sobre a terra.


A salvação pela fé
19. A partir desta participação no modo de ver de Jesus, o apóstolo Paulo deixou-nos, nos seus escritos, uma descrição da existência crente. Aquele que acredita, ao aceitar o dom da fé, é transformado numa nova criatura, recebe um novo ser, um ser filial, torna-se filho no Filho: « Abbá, Pai » é a palavra mais característica da experiência de Jesus, que se torna centro da experiência cristã (cf. Rm 8, 15). A vida na fé, enquanto existência filial, é reconhecer o dom originário e radical que está na base da existência do homem, podendo resumir-se nesta frase de São Paulo aos Coríntios: « Que tens tu que não tenhas recebido? » ( 1 Cor 4, 7). É precisamente aqui que se situa o cerne da polémica do Apóstolo com os fariseus: a discussão sobre a salvação pela fé ou pelas obras da lei. Aquilo que São Paulo rejeita é a atitude de quem se quer justificar a si mesmo diante de Deus através das próprias obras; esta pessoa, mesmo quando obedece aos mandamentos, mesmo quando realiza obras boas, coloca-se a si própria no centro e não reconhece que a origem do bem é Deus. Quem actua assim, quem quer ser fonte da sua própria justiça, depressa a vê exaurir-se e descobre que não pode sequer aguentar-se na fidelidade à lei; fecha-se, isolando-se do Senhor e dos outros, e, por isso, a sua vida torna-se vã, as suas obras estéreis, como árvore longe da água. Assim se exprime Santo Agostinho com a sua linguagem concisa e eficaz: « Não te afastes d’Aquele que te fez, nem mesmo para te encontrares a ti ». [15] Quando o homem pensa que, afastando-se de Deus, encontrar-se-á a si mesmo, a sua existência fracassa (cf. Lc 15, 11-24). O início da salvação é a abertura a algo que nos antecede, a um dom originário que sustenta a vida e a guarda na existência. Só abrindo-nos a esta origem e reconhecendo-a é que podemos ser transformados, deixando que a salvação actue em nós e torne a vida fecunda, cheia de frutos bons. A salvação pela fé consiste em reconhecer o primado do dom de Deus, como resume São Paulo: « Porque é pela graça que estais salvos, por meio da fé. E isto não vem de vós, é dom de Deus » ( Ef 2, 8). 20. A nova lógica da fé centra-se em Cristo. A fé em Cristo salva-nos, porque é n’Ele que a vida se abre radicalmente a um Amor que nos precede e transforma a partir de dentro, que age em nós e connosco. Vê-se isto claramente na exegese que o Apóstolo dos gentios faz de um texto do Deuteronómio; uma exegese que se insere na dinâmica mais profunda do Antigo Testamento. Moisés diz ao povo que o mandamento de Deus não está demasiado alto nem demasiado longe do homem; não se deve dizer: « Quem subirá por nós até ao céu e no-la irá buscar? » ou « Quem atravessará o mar e no-la irá buscar? » (cf. Dt 30, 11-14). Esta proximidade da palavra de Deus é concretizada por São Paulo na presença de Jesus no cristão. « Não digas no teu coração: Quem subirá ao céu? Seria para fazer com que Cristo descesse. Nem digas: Quem descerá ao abismo? Seria para fazer com que Cristo subisse de entre os mortos » (Rm 10, 6-7). Cristo desceu à terra e ressuscitou dos mortos: com a sua encarnação e ressurreição, o Filho de Deus abraçou o percurso inteiro do homem e habita nos nossos corações por meio do Espírito Santo. A fé sabe que Deus Se tornou muito próximo de nós, que Cristo nos foi oferecido como grande dom que nos transforma interiormente, que habita em nós, e assim nos dá a luz que ilumina a origem e o fim da vida, o arco inteiro do percurso humano.
21. Podemos assim compreender a novidade, a que a fé nos conduz. O crente é transformado pelo Amor, ao qual se abriu na fé; e, na sua abertura a este Amor que lhe é oferecido, a sua existência dilata-se para além dele próprio. São Paulo pode afirmar: « Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim » ( Gl 2, 20), e exortar: « Que Cristo, pela fé, habite nos vossos corações » ( Ef 3, 17). Na fé, o « eu » do crente dilata-se para ser habitado por um Outro, para viver num Outro, e assim a sua vida amplia-se no Amor. É aqui que se situa a acção própria do Espírito Santo: o cristão pode ter os olhos de Jesus, os seus sentimentos, a sua predisposição filial, porque é feito participante do seu Amor, que é o Espírito; é neste Amor que se recebe, de algum modo, a visão própria de Jesus. Fora desta conformação no Amor, fora da presença do Espírito que o infunde nos nossos corações (cf. Rm 5, 5), é impossível confessar Jesus como Senhor (cf. 1 Cor 12, 3).


A forma eclesial da fé
22. Deste modo, a vida do fiel torna-se existência eclesial. Quando São Paulo fala aos cristãos de Roma do único corpo que todos os crentes formam em Cristo, exorta-os a não se vangloriarem, mas a avaliarem-se « de acordo com a medida de fé que Deus distribuiu a cada um » ( Rm 12, 3). O crente aprende a ver-se a si mesmo a partir da fé que professa. A figura de Cristo é o espelho em que descobre realizada a sua própria imagem. E dado que Cristo abraça em Si mesmo todos os crentes que formam o seu corpo, o cristão compreende-se a si mesmo neste corpo, em relação primordial com Cristo e os irmãos na fé. A imagem do corpo não pretende reduzir o crente a simples parte de um todo anónimo, a mero elemento de uma grande engrenagem; antes, sublinha a união vital de Cristo com os crentes e de todos os crentes entre si (cf. Rm 12, 4-5). Os cristãos sejam « todos um só » (cf. Gl 3, 28), sem perder a sua individualidade, e, no serviço aos outros, cada um ganha profundamente o próprio ser. Compreende-se assim por que motivo, fora deste corpo, desta unidade da Igreja em Cristo — desta Igreja que, segundo as palavras de Romano Guardini, « é a portadora histórica do olhar global de Cristo sobre o mundo », [16] —, a fé perca a sua « medida », já não encontre o seu equilíbrio, nem o espaço necessário para se manter de pé. A fé tem uma forma necessariamente eclesial, é professada partindo do corpo de Cristo, como comunhão concreta dos crentes. A partir deste lugar eclesial, ela abre o indivíduo cristão a todos os homens. Uma vez escutada, a palavra de Cristo, pelo seu próprio dinamismo, transforma-se em resposta no cristão, tornando-se ela mesma palavra pronunciada, confissão de fé. São Paulo afirma: « Realmente com o coração se crê (…) e com a boca se faz a profissão de fé » ( Rm 10, 10). A fé não é um facto privado, uma concepção individualista, uma opinião subjectiva, mas nasce de uma escuta e destina-se a ser pronunciada e a tornar-se anúncio. Com efeito, « como hão-de acreditar n’Aquele de quem não ouviram falar? E como hão-de ouvir falar, sem alguém que O anuncie? ( Rm 10, 14). Concluindo, a fé torna-se operativa no cristão a partir do dom recebido, a partir do Amor que o atrai para Cristo (cf. Gl 5, 6) e torna participante do caminho da Igreja, peregrina na história rumo à perfeição. Para quem foi assim transformado, abre-se um novo modo de ver, a fé torna-se luz para os seus olhos.
CAPÍTULO II
SE NÃO ACREDITARDES,
NÃO COMPREENDEREIS
 (cf. Is 7, 9)

Fé e verdade
23. Se não acreditardes, não compreendereis (cf. Is 7, 9): foi assim que a versão grega da Bíblia hebraica — a tradução dos Setenta, feita em Alexandria do Egipto — traduziu as palavras do profeta Isaías ao rei Acaz, fazendo aparecer como central, na fé, a questão do conhecimento da verdade. Entretanto, no texto hebraico, há uma leitura diferente; aqui o profeta diz ao rei: « Se não o acreditardes, não subsistireis ». Existe aqui um jogo de palavras com duas formas do verbo ‘amàn: « acreditardes » ( ta’aminu) e « subsistireis » ( te’amenu). Apavorado com a força dos seus inimigos, o rei busca a segurança que lhe pode vir de uma aliança com o grande império da Assíria; mas o profeta convida-o a confiar apenas na verdadeira rocha que não vacila: o Deus de Israel. Uma vez que Deus é fiável, é razoável ter fé n’Ele, construir a própria segurança sobre a sua Palavra. Este é o Deus que Isaías chamará mais adiante, por duas vezes, o Deus-Amen, o « Deus fiel » (cf. Is 65, 16), fundamento inabalável de fidelidade à aliança. Poder-se-ia pensar que a versão grega da Bíblia, traduzindo « subsistir » por « compreender », tivesse realizado uma mudança profunda do texto, passando da noção bíblica de entrega a Deus à noção grega de compreensão. E no entanto esta tradução, que aceitava certamente o diálogo com a cultura helenista, não é alheia à dinâmica profunda do texto hebraico; a firmeza que Isaías promete ao rei passa, realmente, pela compreensão do agir de Deus e da unidade que Ele dá à vida do homem e à história do povo. O profeta exorta a compreender os caminhos do Senhor, encontrando na fidelidade de Deus o plano de sabedoria que governa os séculos. Esta síntese entre o « compreender » e o « subsistir » é expressa por Santo Agostinho, nas suas Confissões, quando fala da verdade em que se pode confiar para conseguirmos ficar de pé: « Estarei firme e consolidar-me-ei em Ti, (…) na tua verdade ». [17] Vendo o contexto, sabemos que este Padre da Igreja quer mostrar que esta verdade fidedigna de Deus é, como resulta da Bíblia, a sua presença fiel ao longo da história, a sua capacidade de manter unidos os tempos, recolhendo a dispersão dos dias do homem. [18] 24. Lido a esta luz, o texto de Isaías faz-nos concluir: o homem precisa de conhecimento, precisa de verdade, porque sem ela não se mantém de pé, não caminha. Sem verdade, a fé não salva, não torna seguros os nossos passos. Seria uma linda fábula, a projecção dos nossos desejos de felicidade, algo que nos satisfaz só na medida em que nos quisermos iludir; ou então reduzir-se-ia a um sentimento bom que consola e afaga, mas permanece sujeito às nossas mudanças de ânimo, à variação dos tempos, incapaz de sustentar um caminho constante na vida. Se a fé fosse isso, então o rei Acaz teria razão para não jogar a sua vida e a segurança do seu reino sobre uma emoção. Mas não é! Precisamente pela sua ligação intrínseca com a verdade, a fé é capaz de oferecer uma luz nova, superior aos cálculos do rei, porque vê mais longe, compreende o agir de Deus, que é fiel à sua aliança e às suas promessas.
25. Lembrar esta ligação da fé com a verdade é hoje mais necessário do que nunca, precisamente por causa da crise de verdade em que vivemos. Na cultura contemporânea, tende-se frequentemente a aceitar como verdade apenas a da tecnologia: é verdadeiro aquilo que o homem consegue construir e medir com a sua ciência; é verdadeiro porque funciona, e assim torna a vida mais cómoda e aprazível. Esta verdade parece ser, hoje, a única certa, a única partilhável com os outros, a única sobre a qual se pode conjuntamente discutir e comprometer-se; depois haveria as verdades do indivíduo, como ser autêntico face àquilo que cada um sente no seu íntimo, válidas apenas para o sujeito mas que não podem ser propostas aos outros com a pretensão de servir o bem comum. A verdade grande, aquela que explica o conjunto da vida pessoal e social, é vista com suspeita. Porventura não foi esta — perguntam-se — a verdade pretendida pelos grandes totalitarismos do século passado, uma verdade que impunha a própria concepção global para esmagar a história concreta do indivíduo? No fim, resta apenas um relativismo, no qual a questão sobre a verdade de tudo — que, no fundo, é também a questão de Deus — já não interessa. Nesta perspectiva, é lógico que se pretenda eliminar a ligação da religião com a verdade, porque esta associação estaria na raiz do fanatismo, que quer emudecer quem não partilha da crença própria. A este respeito, pode-se falar de uma grande obnubilação da memória no nosso mundo contemporâneo; de facto, a busca da verdade é uma questão de memória, de memória profunda, porque visa algo que nos precede e, desta forma, pode conseguir unir-nos para além do nosso « eu » pequeno e limitado; é uma questão relativa à origem de tudo, a cuja luz se pode ver a meta e também o sentido da estrada comum.

Conhecimento da verdade e amor

26. Nesta situação, poderá a fé cristã prestar um serviço ao bem comum relativamente à maneira correcta de entender a verdade? Para termos uma resposta, é necessário reflectir sobre o tipo de conhecimento próprio da fé. Pode ajudar-nos esta frase de Paulo: « Acredita-se com o coração » ( Rm 10, 10). Este, na Bíblia, é o centro do homem, onde se entrecruzam todas as suas dimensões: o corpo e o espírito, a interioridade da pessoa e a sua abertura ao mundo e aos outros, a inteligência, a vontade, a afectividade. O coração pode manter unidas estas dimensões, porque é o lugar onde nos abrimos à verdade e ao amor, deixando que nos toquem e transformem profundamente. A fé transforma a pessoa inteira, precisamente na medida em que ela se abre ao amor; é neste entrelaçamento da fé com o amor que se compreende a forma de conhecimento própria da fé, a sua força de convicção, a sua capacidade de iluminar os nossos passos. A fé conhece na medida em que está ligada ao amor, já que o próprio amor traz uma luz. A compreensão da fé é aquela que nasce quando recebemos o grande amor de Deus, que nos transforma interiormente e nos dá olhos novos para ver a realidade. 27. É conhecido o modo como o filósofo Ludwig Wittgenstein explicou a ligação entre a fé e a certeza. Segundo ele, acreditar seria comparável à experiência do enamoramento, concebida como algo de subjectivo, impossível de propor como verdade válida para todos.[19] De facto, aos olhos do homem moderno, parece que a questão do amor não teria nada a ver com a verdade; o amor surge, hoje, como uma experiência ligada, não à verdade, mas ao mundo inconstante dos sentimentos.
Mas, será esta verdadeiramente uma descrição adequada do amor? Na realidade, o amor não se pode reduzir a um sentimento que vai e vem. É verdade que o amor tem a ver com a nossa afectividade, mas para a abrir à pessoa amada, e assim iniciar um caminho que faz sair da reclusão no próprio eu e dirigir-se para a outra pessoa, a fim de construir uma relação duradoura; o amor visa a união com a pessoa amada. E aqui se manifesta em que sentido o amor tem necessidade da verdade: apenas na medida em que o amor estiver fundado na verdade é que pode perdurar no tempo, superar o instante efémero e permanecer firme para sustentar um caminho comum. Se o amor não tivesse relação com a verdade, estaria sujeito à alteração dos sentimentos e não superaria a prova do tempo. Diversamente, o amor verdadeiro unifica todos os elementos da nossa personalidade e torna-se uma luz nova que aponta para uma vida grande e plena. Sem a verdade, o amor não pode oferecer um vínculo sólido, não consegue arrancar o « eu » para fora do seu isolamento, nem libertá-lo do instante fugidio para edificar a vida e produzir fruto.
Se o amor tem necessidade da verdade, também a verdade precisa do amor; amor e verdade não se podem separar. Sem o amor, a verdade torna-se fria, impessoal, gravosa para a vida concreta da pessoa. A verdade que buscamos, a verdade que dá significado aos nossos passos, ilumina-nos quando somos tocados pelo amor. Quem ama, compreende que o amor é experiência da verdade, compreende que é precisamente ele que abre os nossos olhos para verem a realidade inteira, de maneira nova, em união com a pessoa amada. Neste sentido, escreveu São Gregório Magno que o próprio amor é um conhecimento, [20] traz consigo uma lógica nova. Trata-se de um modo relacional de olhar o mundo, que se torna conhecimento partilhado, visão na visão do outro e visão comum sobre todas as coisas. Na Idade Média, Guilherme de Saint Thierry adopta esta tradição, ao comentar um versículo do Cântico dos Cânticos no qual o amado diz à amada: « Como são lindos os teus olhos de pomba! » (Ct 1, 15). [21] Estes dois olhos — explica Saint Thierry — são a razão crente e o amor, que se tornam um único olhar para chegar à contemplação de Deus, quando a inteligência se faz « entendimento de um amor iluminado ». [22]
28. Esta descoberta do amor como fonte de conhecimento, que pertence à experiência primordial de cada homem, encontra uma expressão categorizada na concepção bíblica da fé. Israel, saboreando o amor com que Deus o escolheu e gerou como povo, chega a compreender a unidade do desígnio divino, desde a origem à sua realização. O conhecimento da fé, pelo facto de nascer do amor de Deus que estabelece a Aliança, é conhecimento que ilumina um caminho na história. É por isso também que, na Bíblia, verdade e fidelidade caminham juntas: o Deus verdadeiro é o Deus fiel, Aquele que mantém as suas promessas e permite, com o decorrer do tempo, compreender o seu desígnio. Através da experiência dos profetas, no sofrimento do exílio e na esperança de um regresso definitivo à Cidade Santa, Israel intuiu que esta verdade de Deus se estendia mais além da própria história, abraçando a história inteira do mundo a começar da criação. O conhecimento da fé ilumina não só o caminho particular de um povo, mas também o percurso inteiro do mundo criado, desde a origem até à sua consumação.


A fé como escuta e visão

29. Justamente porque o conhecimento da fé está ligado à aliança de um Deus fiel, que estabelece uma relação de amor com o homem e lhe dirige a Palavra, é apresentado pela Bíblia como escuta, aparece associado com o ouvido. São Paulo usará uma fórmula que se tornou clássica: « fides ex auditu — a fé vem da escuta » ( Rm 10, 17). O conhecimento associado à palavra é sempre conhecimento pessoal, que reconhece a voz, se lhe abre livremente e a segue obedientemente. Por isso, São Paulo falou da « obediência da fé » (cf. Rm 1, 5; 16, 26). [23] Além disso, a fé é conhecimento ligado ao transcorrer do tempo que a palavra necessita para ser explicitada: é conhecimento que só se aprende num percurso de seguimento. A escuta ajuda a identificar bem o nexo entre conhecimento e amor. A propósito do conhecimento da verdade, pretendeu-se por vezes contrapor a escuta à visão, a qual seria peculiar da cultura grega. Se a luz, por um lado, oferece a contemplação da totalidade a que o homem sempre aspirou, por outro, parece não deixar espaço à liberdade, pois desce do céu e chega directamente à vista, sem lhe pedir que responda. Além disso, parece convidar a uma contemplação estática, separada do tempo concreto em que o homem goza e sofre. Segundo esta concepção, haveria oposição entre a abordagem bíblica do conhecimento e a grega, a qual, na sua busca duma compreensão completa da realidade, teria associado o conhecimento com a visão.
Mas tal suposta oposição não é corroborada de forma alguma pelos dados bíblicos: o Antigo Testamento combinou os dois tipos de conhecimento, unindo a escuta da Palavra de Deus com o desejo de ver o seu rosto. Isto tornou possível entabular diálogo com a cultura helenista, um diálogo que pertence ao coração da Escritura. O ouvido atesta não só a chamada pessoal e a obediência, mas também que a verdade se revela no tempo; a vista, por sua vez, oferece a visão plena de todo o percurso, permitindo situar-nos no grande projecto de Deus; sem tal visão, disporíamos apenas de fragmentos isolados de um todo desconhecido.
30. A conexão entre o ver e o ouvir, como órgãos do conhecimento da fé, aparece com a máxima clareza no Evangelho de João, onde acreditar é simultaneamente ouvir e ver. A escuta da fé verifica-se segundo a forma de conhecimento própria do amor: é uma escuta pessoal, que distingue e reconhece a voz do Bom Pastor (cf. Jo 10, 3-5); uma escuta que requer o seguimento, como acontece com os primeiros discípulos que, « ouvindo [João Baptista] falar desta maneira, seguiram Jesus » ( Jo 1, 37). Por outro lado, a fé está ligada também com a visão: umas vezes, a visão dos sinais de Jesus precede a fé, como sucede com os judeus que, depois da ressurreição de Lázaro, « ao verem o que Jesus fez, creram n’Ele » ( Jo 11, 45); outras vezes, é a fé que leva a uma visão mais profunda: « Se acreditares, verás a glória de Deus » ( Jo 11, 40). Por fim, acreditar e ver cruzam-se: « Quem crê em Mim (...) crê n’Aquele que Me enviou; e quem Me vê a Mim, vê Aquele que me enviou » ( Jo 12, 44-45). O ver, graças à sua união com o ouvir, torna-se seguimento de Cristo; e a fé aparece como um caminho do olhar em que os olhos se habituam a ver em profundidade. E assim, na manhã de Páscoa, de João — que, ainda na escuridão perante o túmulo vazio, « viu e começou a crer » ( Jo 20, 8) — passa-se a Maria Madalena — que já vê Jesus (cf. Jo 20, 14) e quer retê-Lo, mas é convidada a contemplá-Lo no seu caminho para o Pai — até à plena confissão da própria Madalena diante dos discípulos: « Vi o Senhor! » ( Jo 20, 18). Como se chega a esta síntese entre o ouvir e o ver? A partir da pessoa concreta de Jesus, que Se vê e escuta. Ele é a Palavra que Se fez carne e cuja glória contemplámos (cf. Jo 1, 14). A luz da fé é a luz de um Rosto, no qual se vê o Pai. De facto, no quarto Evangelho, a verdade que a fé apreende é a manifestação do Pai no Filho, na sua carne e nas suas obras terrenas; verdade essa, que se pode definir como a « vida luminosa » de Jesus.[24] Isto significa que o conhecimento da fé não nos convida a olhar uma verdade puramente interior; a verdade que a fé nos descerra é uma verdade centrada no encontro com Cristo, na contemplação da sua vida, na percepção da sua presença. Neste sentido e a propósito da visão corpórea do Ressuscitado, São Tomás de Aquino fala de oculata fides (uma fé que vê) dos Apóstolos:[25] viram Jesus ressuscitado com os seus olhos e acreditaram, isto é, puderam penetrar na profundidade daquilo que viam para confessar o Filho de Deus, sentado à direita do Pai.
31. Só assim, através da encarnação, através da partilha da nossa humanidade, podia chegar à plenitude o conhecimento próprio do amor. De facto, a luz do amor nasce quando somos tocados no coração, recebendo assim, em nós, a presença interior do amado, que nos permite reconhecer o seu mistério. Compreendemos agora por que motivo, para João, a fé seja, juntamente com o escutar e o ver, um tocar, como nos diz na sua Primeira Carta: « O que ouvimos, o que vimos (…) e as nossas mãos tocaram relativamente ao Verbo da Vida… » ( 1 Jo 1, 1). Por meio da sua encarnação, com a sua vinda entre nós, Jesus tocou-nos e, através dos sacramentos, ainda hoje nos toca; desta forma, transformando o nosso coração, permitiu-nos — e permite-nos — reconhecê-Lo e confessá-Lo como Filho de Deus. Pela fé, podemos tocá-Lo e receber a força da sua graça. Santo Agostinho, comentando a passagem da hemorroíssa que toca Jesus para ser curada (cf. Lc 8, 45-46), afirma: « Tocar com o coração, isto é crer ». [26] A multidão comprime-se ao redor de Jesus, mas não O alcança com aquele toque pessoal da fé que reconhece o seu mistério, o seu ser Filho que manifesta o Pai. Só quando somos configurados com Jesus é que recebemos o olhar adequado para O ver.

O diálogo entre fé e razão

32. A fé cristã, enquanto anuncia a verdade do amor total de Deus e abre para a força deste amor, chega ao centro mais profundo da experiência de cada homem, que vem à luz graças ao amor e é chamado ao amor para permanecer na luz. Movidos pelo desejo de iluminar a realidade inteira a partir do amor de Deus manifestado em Jesus e procurando amar com este mesmo amor, os primeiros cristãos encontraram no mundo grego, na sua fome de verdade, um parceiro idóneo para o diálogo. O encontro da mensagem evangélica com o pensamento filosófico do mundo antigo constituiu uma passagem decisiva para o Evangelho chegar a todos os povos e favoreceu uma fecunda sinergia entre fé e razão, que se foi desenvolvendo no decurso dos séculos até aos nossos dias. O Beato João Paulo II, na sua carta encíclica Fides et ratio, mostrou como fé e razão se reforçam mutuamente. [27] Depois de ter encontrado a luz plena do amor de Jesus, descobrimos que havia, em todo o nosso amor, um lampejo daquela luz e compreendemos qual era a sua meta derradeira; e, simultaneamente, o facto de o nosso amor trazer em si uma luz ajuda-nos a ver o caminho do amor rumo à plenitude da doação total do Filho de Deus por nós. Neste movimento circular, a luz da fé ilumina todas as nossas relações humanas, que podem ser vividas em união com o amor e a ternura de Cristo. 33. Na vida de Santo Agostinho, encontramos um exemplo significativo deste caminho: a busca da razão, com o seu desejo de verdade e clareza, aparece integrada no horizonte da fé, do qual recebeu uma nova compreensão. Por um lado, acolhe a filosofia grega da luz com a sua insistência na visão: o seu encontro com o neoplatonismo fez-lhe conhecer o paradigma da luz, que desce do alto para iluminar as coisas, tornando-se assim um símbolo de Deus. Desta maneira, Santo Agostinho compreendeu a transcendência divina e descobriu que todas as coisas possuem em si uma transparência, isto é, que podiam reflectir a bondade de Deus, o Bem; assim se libertou do maniqueísmo, em que antes vivia, que o inclinava a pensar que o bem e o mal lutassem continuamente entre si, confundindo-se e misturando-se, sem contornos claros. O facto de ter compreendido que Deus é luz deu à sua existência uma nova orientação, a capacidade de reconhecer o mal de que era culpado e voltar-se para o bem.
Mas, por outro lado, na experiência concreta de Agostinho, que ele próprio narra nas suas Confissões, o momento decisivo no seu caminho de fé não foi uma visão de Deus para além deste mundo, mas a escuta, quando no jardim ouviu uma voz que lhe dizia: « Toma e lê »; ele pegou no tomo com as Cartas de São Paulo, detendo-se no capítulo décimo terceiro da Carta aos Romanos.[28] Temos aqui o Deus pessoal da Bíblia, capaz de falar ao homem, descer para viver com ele e acompanhar o seu caminho na história, manifestando-Se no tempo da escuta e da resposta.
Mas, este encontro com o Deus da Palavra não levou Santo Agostinho a rejeitar a luz e a visão, mas integrou ambas as perspectivas, guiado sempre pela revelação do amor de Deus em Jesus. Deste modo, elaborou uma filosofia da luz que reúne em si a reciprocidade própria da palavra e abre um espaço à liberdade própria do olhar para a luz: tal como à palavra corresponde uma resposta livre, assim também a luz encontra como resposta uma imagem que a reflecte. Deste modo, associando escuta e visão, Santo Agostinho pôde referir-se à « palavra que resplandece no interior do homem ».[29] A luz torna-se, por assim dizer, a luz de uma palavra, porque é a luz de um Rosto pessoal, uma luz que, ao iluminar-nos, nos chama e quer reflectir-se no nosso rosto para resplandecer a partir do nosso íntimo. Por outro lado, o desejo da visão do todo, e não apenas dos fragmentos da história, continua presente e cumprir-se-á no fim, quando o homem — como diz o Santo de Hipona — poderá ver e amar;[30] e isto, não por ser capaz de possuir a luz toda, já que esta será sempre inexaurível, mas por entrar, todo inteiro, na luz.
34. A luz do amor, própria da fé, pode iluminar as perguntas do nosso tempo acerca da verdade. Muitas vezes, hoje, a verdade é reduzida a autenticidade subjectiva do indivíduo, válida apenas para a vida individual. Uma verdade comum mete-nos medo, porque a identificamos — como dissemos atrás — com a imposição intransigente dos totalitarismos; mas, se ela é a verdade do amor, se é a verdade que se mostra no encontro pessoal com o Outro e com os outros, então fica livre da reclusão no indivíduo e pode fazer parte do bem comum. Sendo a verdade de um amor, não é verdade que se impõe pela violência, não é verdade que esmaga o indivíduo; nascendo do amor pode chegar ao coração, ao centro pessoal de cada homem; daqui resulta claramente que a fé não é intransigente, mas cresce na convivência que respeita o outro. O crente não é arrogante; pelo contrário, a verdade torna-o humilde, sabendo que, mais do que possuirmo-la nós, é ela que nos abraça e possui. Longe de nos endurecer, a segurança da fé põe-nos a caminho e torna possível o testemunho e o diálogo com todos. Por outro lado, enquanto unida à verdade do amor, a luz da fé não é alheia ao mundo material, porque o amor vive-se sempre com corpo e alma; a luz da fé é luz encarnada, que dimana da vida luminosa de Jesus. A fé ilumina também a matéria, confia na sua ordem, sabe que nela se abre um caminho cada vez mais amplo de harmonia e compreensão. Deste modo, o olhar da ciência tira benefício da fé: esta convida o cientista a permanecer aberto à realidade, em toda a sua riqueza inesgotável. A fé desperta o sentido crítico, enquanto impede a pesquisa de se deter, satisfeita, nas suas fórmulas e ajuda-a a compreender que a natureza sempre as ultrapassa. Convidando a maravilhar-se diante do mistério da criação, a fé alarga os horizontes da razão para iluminar melhor o mundo que se abre aos estudos da ciência.

A fé e a busca de Deus

35. A luz da fé em Jesus ilumina também o caminho de todos aqueles que procuram a Deus e oferece a contribuição própria do cristianismo para o diálogo com os seguidores das diferentes religiões. A Carta aos Hebreus fala-nos do testemunho dos justos que, antes da Aliança com Abraão, já procuravam a Deus com fé; lá se diz, a propósito de Henoc, que « tinha agradado a Deus », sendo isso impossível sem a fé, porque « quem se aproxima de Deus tem de acreditar que Ele existe e recompensa aqueles que O procuram » ( Heb 11, 5.6). Deste modo, é possível compreender que o caminho do homem religioso passa pela confissão de um Deus que cuida dele e que Se pode encontrar. Que outra recompensa poderia Deus oferecer àqueles que O buscam, senão deixar-Se encontrar a Si mesmo? Ainda antes de Henoc, encontramos a figura de Abel, de quem se louva igualmente a fé, em virtude da qual foram agradáveis a Deus os seus dons, a oferenda dos primogénitos dos seus rebanhos (cf. Heb 11, 4). O homem religioso procura reconhecer os sinais de Deus nas experiências diárias da sua vida, no ciclo das estações, na fecundidade da terra e em todo o movimento do universo. Deus é luminoso, podendo ser encontrado também por aqueles que O buscam de coração sincero. Imagem desta busca são os Magos, guiados pela estrela até Belém (cf. Mt 2, 1-12). A luz de Deus mostrou-se-lhes como caminho, como estrela que os guia ao longo duma estrada a descobrir. Deste modo, a estrela fala da paciência de Deus com os nossos olhos, que devem habituar-se ao seu fulgor. Encontrando-se a caminho, o homem religioso deve estar pronto a deixar-se guiar, a sair de si mesmo para encontrar o Deus que não cessa de nos surpreender. Este respeito de Deus pelos olhos do homem mostra-nos que, quando o homem se aproxima d’Ele, a luz humana não se dissolve na imensidão luminosa de Deus, como se fosse um estrela absorvida pela aurora, mas torna-se tanto mais brilhante quanto mais perto fica do fogo gerador, como um espelho que reflecte o resplendor. A confissão de Jesus, único Salvador, afirma que toda a luz de Deus se concentrou n’Ele, na sua « vida luminosa », em que se revela a origem e a consumação da história.[31] Não há nenhuma experiência humana, nenhum itinerário do homem para Deus que não possa ser acolhido, iluminado e purificado por esta luz. Quanto mais o cristão penetrar no círculo aberto pela luz de Cristo, tanto mais será capaz de compreender e acompanhar o caminho de cada homem para Deus.
Configurando-se como caminho, a fé tem a ver também com a vida dos homens que, apesar de não acreditar, desejam-no fazer e não cessam de procurar. Na medida em que se abrem, de coração sincero, ao amor e se põem a caminho com a luz que conseguem captar, já vivem — sem o saber — no caminho para a fé: procuram agir como se Deus existisse, seja porque reconhecem a sua importância para encontrar directrizes firmes na vida comum, seja porque sentem o desejo de luz no meio da escuridão, seja ainda porque, notando como é grande e bela a vida, intuem que a presença de Deus ainda a tornaria maior. Santo Ireneu de Lião refere que Abraão, antes de ouvir a voz de Deus, já O procurava « com o desejo ardente do seu coração » e « percorria todo o mundo, perguntando-se onde pudesse estar Deus », até que « Deus teve piedade daquele que, sozinho, O procurava no silêncio ».[32] Quem se põe a caminho para praticar o bem, já se aproxima de Deus, já está sustentado pela sua ajuda, porque é próprio da dinâmica da luz divina iluminar os nossos olhos, quando caminhamos para a plenitude do amor.
Fé e teologia
36. Como luz que é, a fé convida-nos a penetrar nela, a explorar sempre mais o horizonte que ilumina, para conhecer melhor o que amamos. Deste desejo nasce a teologia cristã; assim, é claro que a teologia é impossível sem a fé e pertence ao próprio movimento da fé, que procura a compreensão mais profunda da auto-revelação de Deus, culminada no Mistério de Cristo. A primeira consequência é que, na teologia, não se verifica apenas um esforço da razão para perscrutar e conhecer, como nas ciências experimentais. Deus não pode ser reduzido a objecto; Ele é Sujeito que Se dá a conhecer e manifesta na relação pessoa a pessoa. A fé recta orienta a razão para se abrir à luz que vem de Deus, a fim de que ela, guiada pelo amor à verdade, possa conhecer Deus de forma mais profunda. Os grandes doutores e teólogos medievais declararam que a teologia, enquanto ciência da fé, é uma participação no conhecimento que Deus tem de Si mesmo. Por isso, a teologia não é apenas palavra sobre Deus, mas, antes de tudo, acolhimento e busca de uma compreensão mais profunda da palavra que Deus nos dirige: palavra que Deus pronuncia sobre Si mesmo, porque é um diálogo eterno de comunhão, no âmbito do qual é admitido o homem. [33] Assim, é própria da teologia a humildade, que se deixa « tocar » por Deus, reconhece os seus limites face ao Mistério e se encoraja a explorar, com a disciplina própria da razão, as riquezas insondáveis deste Mistério. Além disso, a teologia partilha a forma eclesial da fé; a sua luz é a luz do sujeito crente que é a Igreja. Isto implica, por um lado, que a teologia esteja ao serviço da fé dos cristãos, vise humildemente preservar e aprofundar o crer de todos, sobretudo dos mais simples; e por outro, dado que vive da fé, a teologia não considera o magistério do Papa e dos Bispos em comunhão com ele como algo de extrínseco, um limite à sua liberdade, mas, pelo contrário, como um dos seus momentos internos constitutivos, enquanto o magistério assegura o contacto com a fonte originária, oferecendo assim a certeza de beber na Palavra de Cristo em toda a sua integridade.

CAPÍTULO III
TRANSMITO-VOS AQUILO QUE RECEBI
(cf. 1 Cor 15, 3)

A Igreja, mãe da nossa fé
37. Quem se abriu ao amor de Deus, acolheu a sua voz e recebeu a sua luz, não pode guardar este dom para si mesmo. Uma vez que é escuta e visão, a fé transmite-se também como palavra e como luz; dirigindo-se aos Coríntios, o apóstolo Paulo utiliza precisamente estas duas imagens. Por um lado, diz: « Animados do mesmo espírito de fé, conforme o que está escrito: Acreditei e por isso falei, também nós acreditamos e por isso falamos » ( 2 Cor 4, 13); a palavra recebida faz-se resposta, confissão, e assim ecoa para os outros, convidando-os a crer. Por outro, São Paulo refere-se também à luz: « E nós todos que, com o rosto descoberto, reflectimos a glória do Senhor, somos transfigurados na sua própria imagem » ( 2 Cor 3, 18); é uma luz que se reflecte de rosto em rosto, como sucedeu com Moisés cujo rosto reflectia a glória de Deus depois de ter falado com Ele: « [Deus] brilhou nos nossos corações, para irradiar o conhecimento da glória de Deus, que resplandece na face de Cristo » ( 2 Cor 4, 6). A luz de Jesus brilha no rosto dos cristãos como num espelho, e assim se difunde chegando até nós, para que também nós possamos participar desta visão e reflectir para outros a sua luz, da mesma forma que a luz do círio, na liturgia de Páscoa, acende muitas outras velas. A fé transmite-se por assim dizer sob a forma de contacto, de pessoa a pessoa, como uma chama se acende noutra chama. Os cristãos, na sua pobreza, lançam uma semente tão fecunda que se torna uma grande árvore, capaz de encher o mundo de frutos. 38. A transmissão da fé, que brilha para as pessoas de todos os lugares, passa também através do eixo do tempo, de geração em geração. Dado que a fé nasce de um encontro que acontece na história e ilumina o nosso caminho no tempo, a mesma deve ser transmitida ao longo dos séculos. É através de uma cadeia ininterrupta de testemunhos que nos chega o rosto de Jesus. Como é possível isto? Como se pode estar seguro de beber no « verdadeiro Jesus » através dos séculos? Se o homem fosse um indivíduo isolado, se quiséssemos partir apenas do « eu » individual, que pretende encontrar em si mesmo a firmeza do seu conhecimento, tal certeza seria impossível; não posso, por mim mesmo, ver aquilo que aconteceu numa época tão distante de mim. Mas, esta não é a única maneira de o homem conhecer; a pessoa vive sempre em relação: provém de outros, pertence a outros, a sua vida torna-se maior no encontro com os outros; o próprio conhecimento e consciência de nós mesmos são de tipo relacional e estão ligados a outros que nos precederam, a começar pelos nossos pais que nos deram a vida e o nome. A própria linguagem, as palavras com que interpretamos a nossa vida e a realidade inteira chegam-nos através dos outros, conservadas na memória viva de outros; o conhecimento de nós mesmos só é possível quando participamos duma memória mais ampla. O mesmo acontece com a fé, que leva à plenitude o modo humano de entender: o passado da fé, aquele acto de amor de Jesus que gerou no mundo uma vida nova, chega até nós na memória de outros, das testemunhas, guardado vivo naquele sujeito único de memória que é a Igreja; esta é uma Mãe que nos ensina a falar a linguagem da fé. São João insistiu sobre este aspecto no seu Evangelho, unindo conjuntamente fé e memória e associando as duas à acção do Espírito Santo que, como diz Jesus, « há-de recordar-vos tudo » (Jo 14, 26). O Amor, que é o Espírito e que habita na Igreja, mantém unidos entre si todos os tempos e faz-nos contemporâneos de Jesus, tornando-Se assim o guia do nosso caminho na fé.
39. É impossível crer sozinhos. A fé não é só uma opção individual que se realiza na interioridade do crente, não é uma relação isolada entre o « eu » do fiel e o « Tu » divino, entre o sujeito autónomo e Deus; mas, por sua natureza, abre-se ao « nós », verifica-se sempre dentro da comunhão da Igreja. Assim no-lo recorda a forma dialogada do Credo, que se usa na liturgia baptismal. O crer exprime-se como resposta a um convite, a uma palavra que não provém de mim, mas deve ser escutada; por isso, insere-se no interior de um diálogo, não pode ser uma mera confissão que nasce do indivíduo: só é possível responder « creio » em primeira pessoa, porque se pertence a uma comunhão grande, dizendo também « cremos ». Esta abertura ao « nós » eclesial realiza-se de acordo com a abertura própria do amor de Deus, que não é apenas relação entre o Pai e o Filho, entre « eu » e « tu », mas, no Espírito, é também um « nós », uma comunhão de pessoas. Por isso mesmo, quem crê nunca está sozinho; e, pela mesma razão, a fé tende a difundir-se, a convidar outros para a sua alegria. Quem recebe a fé, descobre que os espaços do próprio « eu » se alargam, gerando-se nele novas relações que enriquecem a vida. Assim o exprimiu vigorosamente Tertuliano ao dizer do catecúmeno que, tendo sido recebido numa nova família « depois do banho do novo nascimento », é acolhido na casa da Mãe para erguer as mãos e rezar, juntamente com os irmãos, o Pai Nosso.[34]

Os sacramentos e a transmissão da fé
40. Como sucede em cada família, a Igreja transmite aos seus filhos o conteúdo da sua memória. Como se deve fazer esta transmissão de modo que nada se perca, mas antes que tudo se aprofunde cada vez mais na herança da fé? É através da Tradição Apostólica, conservada na Igreja com a assistência do Espírito Santo, que temos contacto vivo com a memória fundadora. E aquilo que foi transmitido pelos Apóstolos, como afirma o Concílio Ecuménico Vaticano II, « abrange tudo quanto contribui para a vida santa do Povo de Deus e para o aumento da sua fé; e assim a Igreja, na sua doutrina, vida e culto, perpetua e transmite a todas as gerações tudo aquilo que ela é e tudo quanto acredita ». [35] De facto, a fé tem necessidade de um âmbito onde se possa testemunhar e comunicar, e que o mesmo seja adequado e proporcionado ao que se comunica. Para transmitir um conteúdo meramente doutrinal, uma ideia, talvez bastasse um livro ou a repetição de uma mensagem oral; mas aquilo que se comunica na Igreja, o que se transmite na sua Tradição viva é a luz nova que nasce do encontro com o Deus vivo, uma luz que toca a pessoa no seu íntimo, no coração, envolvendo a sua mente, vontade e afectividade, abrindo-a a relações vivas na comunhão com Deus e com os outros. Para se transmitir tal plenitude, existe um meio especial que põe em jogo a pessoa inteira: corpo e espírito, interioridade e relações. Este meio são os sacramentos celebrados na liturgia da Igreja: neles, comunica-se uma memória encarnada, ligada aos lugares e épocas da vida, associada com todos os sentidos; neles, a pessoa é envolvida, como membro de um sujeito vivo, num tecido de relações comunitárias. Por isso, se é verdade que os sacramentos são os sacramentos da fé,[36] há que afirmar também que a fé tem uma estrutura sacramental; o despertar da fé passa pelo despertar de um novo sentido sacramental na vida do homem e na existência cristã, mostrando como o visível e o material se abrem para o mistério do eterno.
41. A transmissão da fé verifica-se, em primeiro lugar, através do Baptismo. Poderia parecer que este sacramento fosse apenas um modo para simbolizar a confissão de fé, um acto pedagógico para quem precise de imagens e gestos, e do qual seria possível fundamentalmente prescindir. Mas não é assim, como no-lo recorda uma palavra de São Paulo: « Pelo Baptismo fomos sepultados com Cristo na morte, para que, tal como Cristo foi ressuscitado de entre os mortos pela glória do Pai, também nós caminhemos numa vida nova » ( Rm 6, 4); nele, tornamo-nos nova criatura e filhos adoptivos de Deus. E mais adiante o Apóstolo diz que o cristão foi confiado a uma « forma de ensino » ( typos didachés), a que obedece de coração (cf. Rm 6, 17): no Baptismo, o homem recebe também uma doutrina que deve professar e uma forma concreta de vida que requer o envolvimento de toda a sua pessoa, encaminhando-a para o bem; é transferido para um novo âmbito, confiado a um novo ambiente, a uma nova maneira comum de agir, na Igreja. Deste modo, o Baptismo recorda-nos que a fé não é obra do indivíduo isolado, não é um acto que o homem possa realizar contando apenas com as próprias forças, mas tem de ser recebida, entrando na comunhão eclesial que transmite o dom de Deus: ninguém se baptiza a si mesmo, tal como ninguém vem sozinho à existência. Fomos baptizados. 42. Quais são os elementos baptismais que nos introduzem nesta nova « forma de ensino »? Sobre o catecúmeno é invocado, em primeiro lugar, o nome da Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo. E deste modo se oferece, logo desde o princípio, uma síntese do caminho da fé: o Deus que chamou Abraão e quis chamar-Se seu Deus, o Deus que revelou o seu nome a Moisés, o Deus que, ao entregar-nos o seu Filho, nos revelou plenamente o mistério do seu Nome, dá à pessoa baptizada uma nova identidade filial. Desta forma, se evidencia o sentido da imersão na água que se realiza no Baptismo: a água é, simultaneamente, símbolo de morte, que nos convida a passar pela conversão do « eu » tendo em vista a sua abertura a um « Eu » maior, e símbolo de vida, do ventre onde renascemos para seguir Cristo na sua nova existência. Deste modo, através da imersão na água, o Baptismo fala-nos da estrutura encarnada da fé. A acção de Cristo toca-nos na nossa realidade pessoal, transformando-nos radicalmente, tornando-nos filhos adoptivos de Deus, participantes da natureza divina; e assim modifica todas as nossas relações, a nossa situação concreta na terra e no universo, abrindo-as à própria vida de comunhão d’Ele. Este dinamismo de transformação próprio do Baptismo ajuda-nos a perceber a importância do catecumenato, que hoje — mesmo em sociedades de antigas raízes cristãs, onde um número crescente de adultos se aproxima do sacramento baptismal — se reveste de singular relevância para a nova evangelização. É o itinerário de preparação para o Baptismo, para a transformação da vida inteira em Cristo.
Para compreender a ligação entre o Baptismo e a fé, pode ajudar-nos a recordação de um texto do profeta Isaías, que já aparece associado com o Baptismo na literatura cristã antiga: « Terá o seu refúgio em rochas elevadas, terá (…) água em abundância » (Is 33, 16).[37] Resgatado da morte pela água, o baptizado pode manter-se de pé sobre « rochas elevadas », porque encontrou a solidez à qual confiar-se; e, assim, a água de morte transformou-se em água de vida. O texto grego descrevia-a como água pistòs, água « fiel »: a água do Baptismo é fiel, podendo confiar-nos a ela porque a sua corrente entra na dinâmica de amor de Jesus, fonte de segurança para o nosso caminho na vida.
43. A estrutura do Baptismo, a sua configuração como renascimento no qual recebemos um nome novo e uma vida nova, ajuda-nos a compreender o sentido e a importância do Baptismo das crianças. Uma criança não é capaz de um acto livre que acolha a fé: ainda não a pode confessar sozinha e, por isso mesmo, é confessada pelos seus pais e pelos padrinhos em nome dela. A fé é vivida no âmbito da comunidade da Igreja, insere-se num « nós » comum. Assim, a criança pode ser sustentada por outros, pelos seus pais e padrinhos, e pode ser acolhida na fé deles que é a fé da Igreja, simbolizada pela luz que o pai toma do círio na liturgia baptismal. Esta estrutura do Baptismo põe em evidência a importância da sinergia entre a Igreja e a família na transmissão da fé. Os pais são chamados — como diz Santo Agostinho — não só a gerar os filhos para a vida, mas a levá-los a Deus, para que sejam, através do Baptismo, regenerados como filhos de Deus, recebam o dom da fé. [38] Assim, juntamente com a vida, é-lhes dada a orientação fundamental da existência e a segurança de um bom futuro; orientação esta, que será ulteriormente corroborada no sacramento da Confirmação com o selo indelével do Espírito Santo. 44. A natureza sacramental da fé encontra a sua máxima expressão na Eucaristia. Esta é alimento precioso da fé, encontro com Cristo presente de maneira real no seu acto supremo de amor: o dom de Si mesmo que gera vida. Na Eucaristia, temos o cruzamento dos dois eixos sobre os quais a fé percorre o seu caminho. Por um lado, o eixo da história: a Eucaristia é acto de memória, actualização do mistério, em que o passado, como um evento de morte e ressurreição, mostra a sua capacidade de se abrir ao futuro, de antecipar a plenitude final; no-lo recorda a liturgia com o seu hodie, o « hoje » dos mistérios da salvação. Por outro lado, encontra-se aqui também o eixo que conduz do mundo visível ao invisível: na Eucaristia, aprendemos a ver a profundidade do real. O pão e o vinho transformam-se no Corpo e Sangue de Cristo, que Se faz presente no seu caminho pascal para o Pai: este movimento introduz-nos, corpo e alma, no movimento de toda a criação para a sua plenitude em Deus.
45. Na celebração dos sacramentos, a Igreja transmite a sua memória, particularmente com a profissão de fé. Nesta, não se trata tanto de prestar assentimento a um conjunto de verdades abstractas, como sobretudo fazer a vida toda entrar na comunhão plena com o Deus Vivo. Podemos dizer que, no Credo, o fiel é convidado a entrar no mistério que professa e a deixar-se transformar por aquilo que confessa. Para compreender o sentido desta afirmação, pensemos em primeiro lugar no conteúdo do Credo. Este tem uma estrutura trinitária: o Pai e o Filho unem-Se no Espírito de amor. Deste modo o crente afirma que o centro do ser, o segredo mais profundo de todas as coisas é a comunhão divina. Além disso, o Credo contém uma confissão cristológica: repassam-se os mistérios da vida de Jesus até à sua morte, ressurreição e ascensão ao Céu, na esperança da sua vinda final na glória. E, consequentemente, afirma-se que este Deus-comunhão, permuta de amor entre o Pai e o Filho no Espírito, é capaz de abraçar a história do homem, de introduzi-lo no seu dinamismo de comunhão, que tem, no Pai, a sua origem e meta final. Aquele que confessa a fé sente-se implicado na verdade que confessa; não pode pronunciar, com verdade, as palavras do Credo, sem ser por isso mesmo transformado, sem mergulhar na história de amor que o abraça, que dilata o seu ser tornando-o parte de uma grande comunhão, do sujeito último que pronuncia o Credo: a Igreja. Todas as verdades, em que cremos, afirmam o mistério da vida nova da fé como caminho de comunhão com o Deus Vivo.

Fé, oração e Decálogo

46. Há mais dois elementos que são essenciais na transmissão fiel da memória da Igreja. O primeiro é a Oração do Senhor, o Pai Nosso; nela, o cristão aprende a partilhar a própria experiência espiritual de Cristo e começa a ver com os olhos d’Ele. A partir d’Aquele que é Luz da Luz, do Filho Unigénito do Pai, também nós conhecemos a Deus e podemos inflamar outros no desejo de se aproximarem d’Ele. Igualmente importante é ainda a ligação entre a fé e o Decálogo. Dissemos já que a fé se apresenta como um caminho, uma estrada a percorrer, aberta pelo encontro com o Deus vivo; por isso, à luz da fé, da entrega total ao Deus que salva, o Decálogo adquire a sua verdade mais profunda, contida nas palavras que introduzem os Dez Mandamentos: « Eu sou o Senhor, teu Deus, que te fiz sair da terra do Egipto » (Ex 20, 2). O Decálogo não é um conjunto de preceitos negativos, mas de indicações concretas para sair do deserto do « eu » auto-referencial, fechado em si mesmo, e entrar em diálogo com Deus, deixando-se abraçar pela sua misericórdia a fim de a irradiar. Deste modo, a fé confessa o amor de Deus, origem e sustentáculo de tudo, deixa-se mover por este amor para caminhar rumo à plenitude da comunhão com Deus. O Decálogo aparece como o caminho da gratidão, da resposta de amor, que é possível porque, na fé, nos abrimos à experiência do amor de Deus que nos transforma. E este caminho recebe uma luz nova de tudo aquilo que Jesus ensina no Sermão da Montanha (cf. Mt 5 - 7).
Toquei assim os quatro elementos que resumem o tesouro de memória que a Igreja transmite: a confissão de fé, a celebração dos sacramentos, o caminho do Decálogo, a oração. À volta deles se estruturou tradicionalmente a catequese da Igreja, como se pode ver no Catecismo da Igreja Católica, instrumento fundamental para aquele acto com que a Igreja comunica o conteúdo inteiro da fé, « tudo aquilo que ela é e tudo quanto acredita ».[39]

A unidade e a integridade da fé
47. A unidade da Igreja, no tempo e no espaço, está ligada com a unidade da fé: « Há um só Corpo e um só Espírito, (...) uma só fé » ( Ef 4, 4-5). Hoje poderá parecer realizável a união dos homens com base num compromisso comum, na amizade, na partilha da mesma sorte com uma meta comum; mas sentimos muita dificuldade em conceber uma unidade na mesma verdade; parece-nos que uma união do género se oporia à liberdade do pensamento e à autonomia do sujeito. Pelo contrário, a experiência do amor diz-nos que é possível termos uma visão comum precisamente no amor: neste, aprendemos a ver a realidade com os olhos do outro e isto, longe de nos empobrecer, enriquece o nosso olhar. O amor verdadeiro, à medida do amor divino, exige a verdade e, no olhar comum da verdade que é Jesus Cristo, torna-se firme e profundo. Esta é também a alegria da fé: a unidade de visão num só corpo e num só espírito. Neste sentido, São Leão Magno podia afirmar: « Se a fé não é una, não é fé ». [40] Qual é o segredo desta unidade? A fé é una, em primeiro lugar, pela unidade de Deus conhecido e confessado. Todos os artigos de fé se referem a Ele, são caminhos para conhecer o seu ser e o seu agir; por isso, possuem uma unidade superior a tudo quanto possamos construir com o nosso pensamento, possuem a unidade que nos enriquece, porque se comunica a nós e nos torna um.
Depois, a fé é una, porque se dirige ao único Senhor, à vida de Jesus, à história concreta que Ele partilha connosco. Santo Ireneu de Lião deixou isto claro, contrapondo-o aos hereges gnósticos. Estes sustentavam a existência de dois tipos de fé: uma fé rude, a fé dos simples, imperfeita, que se mantinha ao nível da carne de Cristo e da contemplação dos seus mistérios; e outro tipo de fé mais profunda e perfeita, a fé verdadeira reservada para um círculo restrito de iniciados, que se elevava com o intelecto para além da carne de Jesus rumo aos mistérios da divindade desconhecida. Contra esta pretensão, que ainda em nossos dias continua a ter o seu encanto e os seus seguidores, Santo Ireneu reafirma que a fé é uma só, porque passa sempre pelo ponto concreto da encarnação, sem nunca superar a carne e a história de Cristo, dado que Deus Se quis revelar plenamente nela. É por isso que não há diferença, na fé, entre « aquele que é capaz de falar dela mais tempo » e « aquele que fala pouco », entre aquele que é mais dotado e quem se mostra menos capaz: nem o primeiro pode ampliar a fé, nem o segundo diminuí-la.[41]
Por último, a fé é una, porque é partilhada por toda a Igreja, que é um só corpo e um só Espírito: na comunhão do único sujeito que é a Igreja, recebemos um olhar comum. Confessando a mesma fé, apoiamo-nos sobre a mesma rocha, somos transformados pelo mesmo Espírito de amor, irradiamos uma única luz e temos um único olhar para penetrar na realidade.
48. Dado que a fé é uma só, deve-se confessar em toda a sua pureza e integridade. Precisamente porque todos os artigos da fé estão unitariamente ligados, negar um deles — mesmo dos que possam parecer menos importantes — equivale a danificar o todo. Cada época pode encontrar pontos da fé mais fáceis ou mais difíceis de aceitar; por isso, é importante vigiar para que se transmita todo o depósito da fé (cf. 1 Tm 6, 20) e para que se insista oportunamente sobre todos os aspectos da confissão de fé. De facto, visto que a unidade da fé é a unidade da Igreja, tirar algo à fé é fazê-lo à verdade da comunhão. Os Padres descreveram a fé como um corpo, o corpo da verdade, com diversos membros, analogamente ao que se passa no corpo de Cristo com o seu prolongamento na Igreja. [42] A integridade da fé foi associada também com a imagem da Igreja virgem, com o seu amor esponsal fiel a Cristo: danificar a fé significa danificar a comunhão com o Senhor. [43] A unidade da fé é, por conseguinte, a de um organismo vivo, como bem evidenciou o Beato John Henry Newman, quando enumera, entre as notas características para distinguir a continuidade da doutrina no tempo, o seu poder de assimilar em si tudo o que encontra, nos diversos âmbitos em que se torna presente, nas diversas culturas que encontra, [44] tudo purificando e levando à sua melhor expressão. É assim que a fé se mostra universal, católica, porque a sua luz cresce para iluminar todo o universo, toda a história. 49. Como serviço à unidade da fé e à sua transmissão íntegra, o Senhor deu à Igreja o dom da sucessão apostólica. Por seu intermédio, fica garantida a continuidade da memória da Igreja, e é possível beber, com certeza, na fonte pura donde surge a fé; assim a garantia da ligação com a origem é-nos dada por pessoas vivas, o que equivale à fé viva que a Igreja transmite. Esta fé viva assenta sobre a fidelidade das testemunhas que foram escolhidas pelo Senhor para tal tarefa; por isso, o magistério fala sempre em obediência à Palavra originária, sobre a qual se baseia a fé, e é fiável porque se entrega à Palavra que escuta, guarda e expõe.[45] No discurso de despedida aos anciãos de Éfeso, em Mileto, referido por São Lucas nos Actos dos Apóstolos, São Paulo atesta que cumpriu o encargo, que lhe foi confiado pelo Senhor, de lhes anunciar toda a vontade de Deus (cf. Act 20, 27); é graças ao magistério da Igreja que nos pode chegar, íntegra, esta vontade e, com ela, a alegria de a podermos cumprir plenamente.

CAPÍTULO IV
DEUS PREPARA
PARA ELES UMA CIDADE
(cf. Heb 11, 16)

A fé e o bem comum
50. Ao apresentar a história dos patriarcas e dos justos do Antigo Testamento, a Carta aos Hebreus põe em relevo um aspecto essencial da sua fé; esta não se apresenta apenas como um caminho, mas também como edificação, preparação de um lugar onde os homens possam habitar uns com os outros. O primeiro construtor é Noé, que, na arca, consegue salvar a sua família (cf. Heb 11, 7). Depois aparece Abraão, de quem se diz que, pela fé, habitara em tendas, esperando a cidade de alicerces firmes (cf. Heb 11, 9-10). Vemos assim surgir, relacionada com a fé, uma nova fiabilidade, uma nova solidez, que só Deus pode dar. Se o homem de fé assenta sobre o Deus-Amen, o Deus fiel (cf. Is 65, 16), tornando-se assim firme ele mesmo, podemos acrescentar que a firmeza da fé se refere também à cidade que Deus está a preparar para o homem. A fé revela quão firmes podem ser os vínculos entre os homens, quando Deus Se torna presente no meio deles. Não evoca apenas uma solidez interior, uma convicção firme do crente; a fé ilumina também as relações entre os homens, porque nasce do amor e segue a dinâmica do amor de Deus. O Deus fiável dá aos homens uma cidade fiável. 51. Devido precisamente à sua ligação com o amor (cf. Gl 5, 6), a luz da fé coloca-se ao serviço concreto da justiça, do direito e da paz. A fé nasce do encontro com o amor gerador de Deus que mostra o sentido e a bondade da nossa vida; esta é iluminada na medida em que entra no dinamismo aberto por este amor, isto é, enquanto se torna caminho e exercício para a plenitude do amor. A luz da fé é capaz de valorizar a riqueza das relações humanas, a sua capacidade de perdurarem, serem fiáveis, enriquecerem a vida comum. A fé não afasta do mundo, nem é alheia ao esforço concreto dos nossos contemporâneos. Sem um amor fiável, nada poderia manter verdadeiramente unidos os homens: a unidade entre eles seria concebível apenas enquanto fundada sobre a utilidade, a conjugação dos interesses, o medo, mas não sobre a beleza de viverem juntos, nem sobre a alegria que a simples presença do outro pode gerar. A fé faz compreender a arquitectura das relações humanas, porque identifica o seu fundamento último e destino definitivo em Deus, no seu amor, e assim ilumina a arte da sua construção, tornando-se um serviço ao bem comum. Por isso, a fé é um bem para todos, um bem comum: a sua luz não ilumina apenas o âmbito da Igreja nem serve somente para construir uma cidade eterna no além, mas ajuda também a construir as nossas sociedades de modo que caminhem para um futuro de esperança. A Carta aos Hebreus oferece um exemplo disto mesmo, ao nomear entre os homens de fé Samuel e David, a quem a fé permitiu « exercerem a justiça » (11, 33). A expressão refere-se aqui à sua justiça no governar, àquela sabedoria que traz a paz ao povo (cf. 1 Sm 12, 3-5; 2 Sm 8, 15). As mãos da fé levantam-se para o céu, mas fazem-no ao mesmo tempo que edificam, na caridade, uma cidade construída sobre relações que têm como alicerce o amor de Deus.
A fé e a família
52. No caminho de Abraão para a cidade futura, a Carta aos Hebreus alude à bênção que se transmite dos pais aos filhos (cf. 11, 20-21). O primeiro âmbito da cidade dos homens iluminado pela fé é a família; penso, antes de mais nada, na união estável do homem e da mulher no matrimónio. Tal união nasce do seu amor, sinal e presença do amor de Deus, nasce do reconhecimento e aceitação do bem que é a diferença sexual, em virtude da qual os cônjuges se podem unir numa só carne (cf. Gn 2, 24) e são capazes de gerar uma nova vida, manifestação da bondade do Criador, da sua sabedoria e do seu desígnio de amor. Fundados sobre este amor, homem e mulher podem prometer-se amor mútuo com um gesto que compromete a vida inteira e que lembra muitos traços da fé: prometer um amor que dure para sempre é possível quando se descobre um desígnio maior que os próprios projectos, que nos sustenta e permite doar o futuro inteiro à pessoa amada. Depois, a fé pode ajudar a individuar em toda a sua profundidade e riqueza a geração dos filhos, porque faz reconhecer nela o amor criador que nos dá e nos entrega o mistério de uma nova pessoa; foi assim que Sara, pela sua fé, se tornou mãe, apoiando-se na fidelidade de Deus à sua promessa (cf. Heb 11, 11). 53. Em família, a fé acompanha todas as idades da vida, a começar pela infância: as crianças aprendem a confiar no amor de seus pais. Por isso, é importante que os pais cultivem práticas de fé comuns na família, que acompanhem o amadurecimento da fé dos filhos. Sobretudo os jovens, que atravessam uma idade da vida tão complexa, rica e importante para a fé, devem sentir a proximidade e a atenção da família e da comunidade eclesial no seu caminho de crescimento da fé. Todos vimos como, nas Jornadas Mundiais da Juventude, os jovens mostram a alegria da fé, o compromisso de viver uma fé cada vez mais sólida e generosa. Os jovens têm o desejo de uma vida grande; o encontro com Cristo, o deixar-se conquistar e guiar pelo seu amor alarga o horizonte da existência, dá-lhe uma esperança firme que não desilude. A fé não é um refúgio para gente sem coragem, mas a dilatação da vida: faz descobrir uma grande chamada — a vocação ao amor — e assegura que este amor é fiável, que vale a pena entregar-se a ele, porque o seu fundamento se encontra na fidelidade de Deus, que é mais forte do que toda a nossa fragilidade.

Uma luz para a vida em sociedade

54. Assimilada e aprofundada em família, a fé torna-se luz para iluminar todas as relações sociais. Como experiência da paternidade e da misericórdia de Deus, dilata-se depois em caminho fraterno. Na Idade Moderna, procurou-se construir a fraternidade universal entre os homens, baseando-se na sua igualdade; mas, pouco a pouco, fomos compreendendo que esta fraternidade, privada do referimento a um Pai comum como seu fundamento último, não consegue subsistir; por isso, é necessário voltar à verdadeira raiz da fraternidade. Desde o seu início, a história de fé foi uma história de fraternidade, embora não desprovida de conflitos. Deus chama Abraão para sair da sua terra, prometendo fazer dele uma única e grande nação, um grande povo, sobre o qual repousa a Bênção divina (cf. Gn 12, 1-3). À medida que a história da salvação avança, o homem descobre que Deus quer fazer a todos participar como irmãos da única bênção, que encontra a sua plenitude em Jesus, para que todos se tornem um só. O amor inexaurível do Pai é-nos comunicado em Jesus, também através da presença do irmão. A fé ensina-nos a ver que, em cada homem, há uma bênção para mim, que a luz do rosto de Deus me ilumina através do rosto do irmão. Quantos benefícios trouxe o olhar da fé cristã à cidade dos homens para a sua vida em comum! Graças à fé, compreendemos a dignidade única de cada pessoa, que não era tão evidente no mundo antigo. No século II, o pagão Celso censurava os cristãos por algo que lhe parecia uma ilusão e um engano: pensar que Deus tivesse criado o mundo para o homem, colocando-o no vértice do universo inteiro. « Porquê pretender que [a verdura] cresça para os homens, em vez de crescer para os mais selvagens dos animais sem razão? »[46] « Se olhássemos a terra do alto do céu, que diferença se nos ofereceria entre as nossas actividades e as das formigas e das abelhas? »[47] No centro da fé bíblica, há o amor de Deus, o seu cuidado concreto por cada pessoa, o seu desejo de salvação que abraça toda a humanidade e a criação inteira e que atinge o clímax na encarnação, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Quando se obscurece esta realidade, falta o critério para individuar o que torna preciosa e única a vida do homem; e este perde o seu lugar no universo, extravia-se na natureza, renunciando à própria responsabilidade moral, ou então pretende ser árbitro absoluto, arrogando-se um poder de manipulação sem limites.
55. Além disso a fé, ao revelar-nos o amor de Deus Criador, faz-nos olhar com maior respeito para a natureza, fazendo-nos reconhecer nela uma gramática escrita por Ele e uma habitação que nos foi confiada para ser cultivada e guardada; ajuda-nos a encontrar modelos de progresso, que não se baseiem apenas na utilidade e no lucro mas considerem a criação como dom, de que todos somos devedores; ensina-nos a individuar formas justas de governo, reconhecendo que a autoridade vem de Deus para estar ao serviço do bem comum. A fé afirma também a possibilidade do perdão, que muitas vezes requer tempo, canseira, paciência e empenho; um perdão possível quando se descobre que o bem é sempre mais originário e mais forte que o mal, que a palavra com que Deus afirma a nossa vida é mais profunda do que todas as nossas negações. Aliás, mesmo dum ponto de vista simplesmente antropológico, a unidade é superior ao conflito; devemos preocupar-nos também com o conflito, mas vivendo-o de tal modo que nos leve a resolvê-lo, a superá-lo, como elo duma cadeia, num avanço para a unidade. Quando a fé esmorece, há o risco de esmorecerem também os fundamentos do viver, como advertia o poeta Thomas Sterls Eliot: « Precisais porventura que se vos diga que até aqueles modestos sucessos / que vos permitem ser orgulhosos de uma sociedade educada / dificilmente sobreviveriam à fé, a que devem o seu significado? »[48] Se tiramos a fé em Deus das nossas cidades, enfraquecer-se-á a confiança entre nós, apenas o medo nos manterá unidos, e a estabilidade ficará ameaçada. Afirma a Carta aos Hebreus: « Deus não Se envergonha de ser chamado o "seu Deus", porque preparou para eles uma cidade » (Heb 11, 16). A expressão « não se envergonha » tem conotado um reconhecimento público: pretende-se afirmar que Deus, com o seu agir concreto, confessa publicamente a sua presença entre nós, o seu desejo de tornar firmes as relações entre os homens. Porventura vamos ser nós a envergonhar-nos de chamar a Deus « o nosso Deus »? Seremos por acaso nós a recusar-nos a confessá-Lo como tal na nossa vida pública, a propor a grandeza da vida comum que Ele torna possível? A fé ilumina a vida social: possui uma luz criadora para cada momento novo da história, porque coloca todos os acontecimentos em relação com a origem e o destino de tudo no Pai que nos ama.

Uma força consoladora no sofrimento

56. São Paulo, falando aos cristãos de Corinto das suas tribulações e sofrimentos, coloca a sua fé em relação com a pregação do Evangelho. De facto, diz que nele se cumpre esta passagem da Escritura: « Acreditei e por isso falei » ( 2 Cor 4, 13). O Apóstolo refere-se a uma frase do Salmo 116, onde o salmista exclama: « Eu tinha confiança, mesmo quando disse: "A minha aflição é muito grande!" » (v. 10). Falar da fé comporta frequentemente falar também de provas dolorosas, mas é precisamente nelas que São Paulo vê o anúncio mais convincente do Evangelho, porque é na fraqueza e no sofrimento que sobressai e se descobre o poder de Deus que supera a nossa fraqueza e o nosso sofrimento. O próprio Apóstolo se encontra numa situação de morte que redunda em vida para os cristãos (cf. 2 Cor 4, 7-12). Na hora da prova, a fé ilumina-nos; e é precisamente no sofrimento e na fraqueza que se torna claro como « não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, o Senhor » ( 2 Cor 4, 5). O capítulo 11 da Carta aos Hebreus termina com a referência a quantos sofreram pela fé, entre os quais ocupa um lugar particular Moisés que tomou sobre si a humilhação de Cristo (cf. vv. 26.35-38). O cristão sabe que o sofrimento não pode ser eliminado, mas pode adquirir um sentido: pode tornar-se acto de amor, entrega nas mãos de Deus que não nos abandona e, deste modo, ser uma etapa de crescimento na fé e no amor. Contemplando a união de Cristo com o Pai, mesmo no momento de maior sofrimento na cruz (cf. Mc 15, 34), o cristão aprende a participar no olhar próprio de Jesus; até a morte fica iluminada, podendo ser vivida como a última chamada da fé, o último « Sai da tua terra » (cf. Gn 12, 1), o último « Vem! » pronunciado pelo Pai, a quem nos entregamos com a confiança de que Ele nos tornará firmes também na passagem definitiva. 57. A luz da fé não nos faz esquecer os sofrimentos do mundo. Os que sofrem foram mediadores de luz para tantos homens e mulheres de fé; tal foi o leproso para São Francisco de Assis, ou os pobres para a Beata Teresa de Calcutá. Compreenderam o mistério que há neles; aproximando-se deles, certamente não cancelaram todos os seus sofrimentos, nem puderam explicar todo o mal. A fé não é luz que dissipa todas as nossas trevas, mas lâmpada que guia os nossos passos na noite, e isto basta para o caminho. Ao homem que sofre, Deus não dá um raciocínio que explique tudo, mas oferece a sua resposta sob a forma duma presença que o acompanha, duma história de bem que se une a cada história de sofrimento para nela abrir uma brecha de luz. Em Cristo, o próprio Deus quis partilhar connosco esta estrada e oferecer-nos o seu olhar para nela vermos a luz. Cristo é aquele que, tendo suportado a dor, Se tornou « autor e consumador da fé » (Heb 12, 2).
O sofrimento recorda-nos que o serviço da fé ao bem comum é sempre serviço de esperança que nos faz olhar em frente, sabendo que só a partir de Deus, do futuro que vem de Jesus ressuscitado, é que a nossa sociedade pode encontrar alicerces sólidos e duradouros. Neste sentido, a fé está unida à esperança, porque, embora a nossa morada aqui na terra se vá destruindo, há uma habitação eterna que Deus já inaugurou em Cristo, no seu corpo (cf. 2 Cor 4, 16 — 5, 5). Assim, o dinamismo de fé, esperança e caridade (cf. 1 Ts 1, 3; 1 Cor 13, 13) faz-nos abraçar as preocupações de todos os homens, no nosso caminho rumo àquela cidade, « cujo arquitecto e construtor é o próprio Deus » (Heb 11, 10), porque « a esperança não engana » (Rm 5, 5).
Unida à fé e à caridade, a esperança projecta-nos para um futuro certo, que se coloca numa perspectiva diferente relativamente às propostas ilusórias dos ídolos do mundo, mas que dá novo impulso e nova força à vida de todos os dias. Não deixemos que nos roubem a esperança, nem permitamos que esta seja anulada por soluções e propostas imediatas que nos bloqueiam no caminho, que « fragmentam » o tempo transformando-o em espaço. O tempo é sempre superior ao espaço: o espaço cristaliza os processos, ao passo que o tempo projecta para o futuro e impele a caminhar na esperança.

FELIZ DAQUELA QUE ACREDITOU
 
(cf. Lc 1, 45)
58. Na parábola do semeador, São Lucas refere estas palavras com que o Senhor explica o significado da « terra boa »: « São aqueles que, tendo ouvido a palavra com um coração bom e virtuoso, conservam-na e dão fruto com a sua perseverança » (Lc 8, 15). No contexto do Evangelho de Lucas, a menção do coração bom e virtuoso, em referência à Palavra ouvida e conservada, pode constituir um retrato implícito da fé da Virgem Maria; o próprio evangelista nos fala da memória de Maria, dizendo que conservava no coração tudo aquilo que ouvia e via, de modo que a Palavra produzisse fruto na sua vida. A Mãe do Senhor é ícone perfeito da fé, como dirá Santa Isabel: « Feliz de ti que acreditaste » (Lc 1, 45).
Em Maria, Filha de Sião, tem cumprimento a longa história de fé do Antigo Testamento, com a narração de tantas mulheres fiéis a começar por Sara; mulheres que eram, juntamente com os Patriarcas, o lugar onde a promessa de Deus se cumpria e a vida nova desabrochava. Na plenitude dos tempos, a Palavra de Deus dirigiu-se a Maria, e Ela acolheu-a com todo o seu ser, no seu coração, para que n’Ela tomasse carne e nascesse como luz para os homens. O mártir São Justino, na obra Diálogo com Trifão, tem uma expressão significativa ao dizer que Maria, quando aceitou a mensagem do Anjo, concebeu « fé e alegria ».[49] De facto, na Mãe de Jesus, a fé mostrou-se cheia de fruto e, quando a nossa vida espiritual dá fruto, enchemo-nos de alegria, que é o sinal mais claro da grandeza da fé. Na sua vida, Maria realizou a peregrinação da fé seguindo o seu Filho.[50] Assim, em Maria, o caminho de fé do Antigo Testamento foi assumido no seguimento de Jesus e deixa-se transformar por Ele, entrando no olhar próprio do Filho de Deus encarnado.
59. Podemos dizer que, na Bem-aventurada Virgem Maria, se cumpre aquilo em que insisti anteriormente, isto é, que o crente se envolve todo na sua confissão de fé. Pelo seu vínculo com Jesus, Maria está intimamente associada com aquilo que acreditamos. Na concepção virginal de Maria, temos um sinal claro da filiação divina de Cristo: a origem eterna de Cristo está no Pai — Ele é o Filho em sentido total e único — e por isso nasce, no tempo, sem intervenção do homem. Sendo Filho, Jesus pode trazer ao mundo um novo início e uma nova luz, a plenitude do amor fiel de Deus que Se entrega aos homens. Por outro lado, a verdadeira maternidade de Maria garantiu, ao Filho de Deus, uma verdadeira história humana, uma verdadeira carne na qual morrerá na cruz e ressuscitará dos mortos. Maria acompanhá-Lo-á até à cruz (cf. Jo 19, 25), donde a sua maternidade se estenderá a todo o discípulo de seu Filho (cf. Jo 19, 26-27). Estará presente também no Cenáculo, depois da ressurreição e ascensão de Jesus, para implorar com os Apóstolos o dom do Espírito (cf. Act 1, 14). O movimento de amor entre o Pai e o Filho no Espírito percorreu a nossa história; Cristo atrai-nos a Si para nos poder salvar (cf. Jo 12, 32). No centro da fé, encontra-se a confissão de Jesus, Filho de Deus, nascido de mulher, que nos introduz, pelo dom do Espírito Santo, na filiação adoptiva (cf. Gl 4, 4-6). 60. A Maria, Mãe da Igreja e Mãe da nossa fé, nos dirigimos, rezando-Lhe:
Ajudai, ó Mãe, a nossa fé.
Abri o nosso ouvido à Palavra, para reconhecermos a voz de Deus e a sua chamada.
Despertai em nós o desejo de seguir os seus passos, saindo da nossa terra e acolhendo a sua promessa.
Ajudai-nos a deixar-nos tocar pelo seu amor, para podermos tocá-Lo com a fé.
Ajudai-nos a confiar-nos plenamente a Ele, a crer no seu amor, sobretudo nos momentos de tribulação e cruz, quando a nossa fé é chamada a amadurecer.
Semeai, na nossa fé, a alegria do Ressuscitado.
Recordai-nos que quem crê nunca está sozinho.
Ensinai-nos a ver com os olhos de Jesus, para que Ele seja luz no nosso caminho. E que esta luz da fé cresça sempre em nós até chegar aquele dia sem ocaso que é o próprio Cristo, vosso Filho, nosso Senhor.
Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 29 de Junho, solenidade dos Apóstolos São Pedro e São Paulo, do ano 2013, primeiro de Pontificado.


FRANCISCUS