sexta-feira, 20 de março de 2026

FOI CONSTANTINO QUE FUNDOU A IGREJA CATÓLICA? Parte 2

    Há aqueles que ainda insistem em afirmar que foi Constantino o fundador da Igreja Católica. Em sua maioria aprenderam de pessoas que tentam denegrir a  Igreja. Em muitos casos essas pessoas se deixam atrair por historiadores desinformados na história da Igreja. A verdadeira História está aí para desmenti-las.

    A maioria das pessoas aprenderam isso nas escolas com professores formados pelo iluminismo, e a outra parte vem ensinamentos protestantes que por ódio à Santa Igreja de Cristo tentam passar essa inverdade. Quem estuda a fundo e busca fundamentos sólidos dentro da história da Igreja saberá que tudo que estudou seja nas escolas pelos livros, ou contada de forma errada pelos falsos pastores verá que tudo não passa de uma invenção com o intuito de denegrir a imagem da Igreja Católica.   

  Mas, para você que deseja saber a verdade dos fatos tratarei de explicar que a Igreja começou muito antes de Constantino, pois, como  bem sabemos ela foi fundada por Jesus e continuada pelos Apóstolos ao longo da História. 

       Constantino nasceu no século III, mais precisamente em 26 de fevereiro de 272. Antes dele nascer a Igreja já existia, não tão organizada como existe hoje porque naquele tempo os cristãos foram perseguidos até Constantino anistiar o cristianismo no Ocidente. Tanto é verdade que a Helena, a mãe de Constantino já era cristã e católica quando Constantino nasceu. E a sua conversão em parte se deve à sua mãe.  

     A anistia aos cristãos aconteceu no Império Romano do Ocidente, mas, no Império Romano do Oriente os cristãos ainda eram perseguidos. A Igreja Católica já existia e foi o Imperador Teodósio I ou Teodósio o grande foi quem declarou a Igreja como religião oficial do Império Romano no ano de 380 como o "Édito de Tessalônica". 

    Outra tese protestante é que a fusão da Igreja Católica com o poder de Roma desvirtuou a Igreja fazendo-a apostatar da fé primitiva. Isso é outro engodo daqueles que negam a verdade. Porque Constantino deixou livre a liberdade de culto e ajudou em certas questões quando estas necessitavam a interferência do Imperador, mas, sua conversão não aconteceu do dia para a noite. Muitos defendem que ele se converteu no final de sua vida.  

    A Igreja Católica de Roma, onde está o Papa, é uma das mais antigas Igrejas Católicas. Sim porque havia várias Igrejas Católicas tanto no Ocidente, quanto no Oriente. Portanto, o nome da Igreja é Católica e Apostólica, e "romana" porque se refere ao lugar em que está situada que é Roma. Assim a Igreja Católica e Apostólica está em todo mundo formando as Igrejas particulares com suas Dioceses e Paróquias. Também existem as igrejas católicas que estão no Oriente em comunhão com a Santa Sé. No tempo de Constantino a Igreja católica estava presente tanto em Roma, como também em Bizâncio. A cidade de Bizâncio foi fundada pelos gregos em 667 a.C. Nesta cidade a Igreja católica, (chamada de Igreja católica Bizantina), já estava lá quando em 330 o imperador Constantino I reconstruiu a cidade dando a ela o nome de Constantinopla. Em 1930 ela ganha o nome de Istambul. 

    Perceba que: a ideia de que muitos têm de que foi Constantino que fundou a Igreja católica é falsa e quem afirma isso é mentiroso ou no mínimo carece de conhecimento de História. Em Roma a Sé do Papa, mas, em Constantinopla a presença dos Patriarcas e seus bispos formavam uma só Igreja. 

    Documentos antigos provam que a Igreja já existia muito antes de Constantino existir. A própria Bíblia vai mostrar que a Igreja Católica já estava em Roma muito antes de Constantino, desde o princípio. São Pedro que foi o primeiro bispo de Roma morreu mártir em 67 no tempo do imperador Nero, na Colina Vaticana onde existia um circo. Mais tarde sobre o túmulo do Apóstolo foi construída a Basílica de São Pedro.   

    Com muita frequência, presenciamos pessoas sem estudo e conhecimento histórico falando bobagens nas redes sociais, dentro de escolas, universidades ou mesmo em igrejas protestantes. Se estudassem mais sobre história, lessem mais ao invés de repetir o que outros falam, com certeza descobririam o quanto a ignorância e a falta de conhecimento têm cegado a muitos. Muitos sustentam a ideia de que a Igreja foi fundada por Constantino no ano de 324 d.C. 
    Acho que eles esquecem de um pequeno detalhe. Esqueceram dos 32 Papas que existiram entre Pedro (o primeiro Papa) até Constantino?

    Bem, vamos aos documentos de fato, que é o que nos interessa. Documentos que provam que a Igreja já existia muito antes de Constantino existir.
Desde Cristo, a Igreja era chamada simplesmente de Igreja. Mas o seu caráter universal (“Ide a todos os povos…”) fez agregar-se a ela a palavra católica (katolicon, do grego universal). O primeiro escritor da Igreja que apresenta a expressão católica foi Santo Inácio de Antioquia, martirizado em Roma, em 107 d.C.
    Santo Inácio nos fala abertamente da Igreja Católica, na sua Epístola aos Esmirnenses: “Onde comparecer o Bispo, aí esteja a multidão, do mesmo modo que, onde estiver Jesus Cristo, aí está a IGREJA CATÓLICA” (Epístola aos Esmirnenses, c. 8, 2).
    Outro contemporâneo dos Apóstolos foi São Policarpo, bispo de Esmirna, que nasceu no ano 69 e foi discípulo de São João Evangelista. Quando São Policarpo recebeu a palma do martírio, a Igreja de Esmirna escreveu uma carta que é assim endereçada: “A Igreja de Deus que peregrina em Esmirna à Igreja de Deus que peregrina em Filomélio e a todas as paróquias da IGREJA SANTA E CATÓLICA em todo o mundo”.
    Nessa mesma Epístola se fala de uma oração feita por São Policarpo, na qual ele fez menção de “todos quantos em sua vida tiveram trato com ele, pequenos e grandes, ilustres e humildes, e especialmente de toda a IGREJA CATÓLICA, espalhada por toda a terra” (São Cipriano em 249, antes de Constantino nascer, e antes do Concílio de Nicéia, testemunhava: “Estar em comunhão com o Papa é estar em comunhão com a Igreja Católica.” (Epístola, 55, n.1, Hartel, 614);
E não há para os fiéis outra casa senão a Igreja Católica.” (Sobre a unidade da Igreja, cap. 4); “Roma é a matriz e o trono da Igreja Católica.” (Epístola 48, n.3, Hartel, 607).
    No século III, Firmiliano, bispo de Capadócia, diz assim: “Há uma só esposa de Cristo que é a IGREJA CATÓLICA” (Epístoloa, de Firmiliano nº 14).
    São Frutuoso, martirizado no ano 259, diz: “é necessário que eu tenha em mente a IGREJA CATÓLICA, difundida desde o Oriente até o Ocidente”. (Ruinart. Acta martyrum pág 192 nº 3).

Veja a lista dos primeiros Papas da Igreja:

De 42 até 67 - São Pedro, da Galileia.
De 67 até 76 - São Lino de Volterra, Toscana.
De 77 até 88 - Santo Anacleto, romano.
De 89  até 98 - São Clemente I, romano.
De 98 até 105 - Santo Evaristo, da Grécia.
De 105 até 115 - Santo Alexandre I, romano.
De 115 até 125 - São Sisto I, romano.
De 125 até 136 - São Telésforo, da Grécia.
De 137 até 140 - Santo Higino, da Grécia.

De 140 até 155 - São Pio de Aquiléia, da Itália.
De 155 até 166 - Santo Aniceto, da Síria.
De 166 até 175 - São Sotero de Fondi, de Lácio, província Latina italiana.
De 175 até 189 - Santo Eleutério de Nicópolis, Grécia.
De 189 até 199 - São Victor I, da África.
De 199 até 217 - São Zeferino, romano.
De 217 até 222 - São Calixto I, romano.
De 222 até 230 - Santo Urbano I Romano.
De 230 até 235 - São Ponciano, romano.

De 235 até 236 - Santo Antero, da Grécia.
De 236 até 250 - São Fabiano, romano.
De 251 até 253 - São Cornélio, romano.
De 253 até 254 - São Lúcio, romano.
De 254 até 257 - Santo Estêvão I, romano.
De 257 até 258 - São Sisto II, da Grécia.
De 259 até 268 - São Dionísio, da Grécia.
De 259 até 274 - São Felix, romano. (Nesse tempo em 272 nasceu Constantino I).
De 275 até 283 - Santo Eutiquiano, de Luni, Toscana, Itália.
De 283 até 296 - São Caio, da Dalmácia, (Região da Costa do Mar Adriático).
De 296 até 304 - São Marcelino, romano.
De 308 até 309 - São Marcelino I, romano.
De 309 até 309 - Santo Eusébio, da Grécia.
De 311 até 314 - São Melquíades, Africano. (Nesse tempo é que em 313 o imperador Constantino, com o 'Edito de Milão' anistiou os cristãos e deu-lhes liberdade de culto.)    
De 314 até 335 - São Silvestre I, romano. 
De 366 até 336 - São Marcos, romano.
De 337 até 352 - São Júlio I, romano.
De 352 até 366 - São Libério, romano.
De 366 até 384 - São Dâmaso I, da Espanha. (Nesse tempo, em 380 é que o Imperador Teodósio o grande, com o Edito de Tessalônica decretou a Igreja Católica como religião oficial do Império Romano do Ocidente.)  

    Esta lista por si só desmente aqueles que insistem em afirmar que a Igreja Católica foi fundada por Constantino. Além do mais ele não tinha como fundar igreja nenhuma visto que ele quando teve aquela visão do símbolo de Cristo no céu, nem sabia ao certo quem era Jesus e nem tinha consciência do que era a Igreja. Assim como aconteceu com o fariseu Saulo de Tarso quando teve seu encontro com Jesus no caminho de Damasco, não sabia quem de fato era Jesus. Constantino teve experiência parecida porque ele sendo um pagão ouvia falar do Deus cristão, mas, antes disso acreditava que aquela gente era louca por acreditar num morto que foi crucificado e o Império Romano considerava os cristãos uma seita. Constantino teve que aprender muito. 
    Ele era pagão e muito supersticioso e isso explica o fato de sua conversão acontecer tardiamente quase na hora da sua morte. Ora, se ele se converteu antes de morrer, isso quer dizer que ele ou pouco ou quase nada acreditava na Igreja e se fez alguma coisa por ela o fez por entender que aquela gente não lhes faria mal, ele não via nos cristãos a ameaça que os seus antecessores viam a ponto de perseguir e mandar matar, mas, via nos cristãos um novo povo mais inteligente, mais preparado e que preferia dar a vida pelo seu Deus e se sujeitar ao poder e aos deuses do Imperador. Não se pode descartar a ideia de que Constantino viu no cristianismo uma nova forma de pacificar o Império que passava por muitas revoltas e o número de cristãos já era grande dentre eles sábios e intelectuais romanos embora a maioria dos romanos ainda era de pagãos. No entanto isto é pouco provável já que ele tinha muito pouco a ganhar com isso.
    Mas, era mais proveitoso estabelecer uma "paz" entre os cristãos que continuar a combater as muitas revoltas externas e internas. O fato é que, quanto mais perseguia, quanto mais matavam os cristãos, mais cristãos surgiam, como já dizia Tertuliano no início do século: "O sangue dos mártires é semente de cristãos".    
    Dizer que Constantino fundou a Igreja Católica é de uma ignorância sem tamanho. Porque ao contrário de Saulo de Tarso que se converteu imediatamente, Constantino demorou muito para aceitar e se converter. 
    Alguns estudiosos dizem que durante a sua vida ele ainda cultuava os deuses pagãos. Embora sua Mãe fosse cristã e talvez tenha lhe ensinado alguma coisa Constantino servia o paganismo. 
    É claro que dentro de seus planos, Deus serve-se de pessoas para agir na história. Deus utilizou a pessoa de Constantino para solidificar a Igreja. O Império Romano já no tempo de Constantino começou a ruir para vir a cair em 476.  

     Enquanto o Império Romano estava em ruínas sobre ele a Igreja estava de pé reerguida. E para aqueles que acham que a Igreja se paganizou com Constantino devem entender que foi o próprio Deus que através daqueles sinais de Cristo enviados ao imperador com os dizeres "com este sinal vencerás" é com este sinal que foi também gravado o lábaro, o sinal da vitória da Igreja sobre seus inimigos ao qual as portas do inferno não poderão rompê-la. 
    Começa ali a derrota de um Império pagão e a elevação da Igreja de Cristo porque Roma não seria mais conhecida como a capital do Império, mas o lugar sagrado de onde o Sucessor de Pedro habitaria e falaria ao mundo inteiro. E de lá não só os povos cristãos, os governos cristãos ouviriam, mas, até os não cristãos ouviriam a voz do pastor que em nome de Cristo abraçaria todos a si.

    O próprio livro dos Atos dos Apóstolos, presente tanto nas Bíblias católicas, quanto nas protestantes, começa sua narração em Jerusalém e termina quando São Paulo chega em Roma (Atos, 28). Há um propósito do próprio Cristo quando aparece para São Paulo: "Na noite seguinte aproximou-se dele e lhe disse: 'Tem confiança, assim como deste testemunho de mim em Jerusalém, assim importa também que dês em Roma' (Atos 23, 11) - porque o livro de Atos é uma transferência, a Igreja sai de Jerusalém e se estabiliza em Roma.
     São Pedro quando escreveu sua primeira carta, escreveu de Roma. Ora se escreveu de Roma é porque São Pedro já estava lá e isso é uma prova de que São Pedro já exercia sua missão de bispo de Roma e sua função de Papa (pai) daquela Igreja. (1ª. Carta de Pedro 5, 13) - "A Igreja de Babilônia (assim era conhecida Roma naquele tempo), saúda-vos, assim como também Marcos, meu filho."
     O termo católico vem de "universal", ou seja, a Igreja é uma só no céu e na terra, tendo um só cabeça que é Jesus Cristo, (Efésios 1, 22). Ela está em comunhão no Céu e na terra.
      Em Hebreus 12, 22-23 está escrito: - "Vós, ao contrário vos aproximastes da montanha de Sião, da cidade do Deus vivo, da Jerusalém celestial, das miríades de anjos, da universal assembleia dos primogênitos, cujos nomes estão nos céus, e de Deus, juiz de todos os espíritos dos justos que chegaram à perfeição"... Isto que quer dizer catolicidade, a comunhão dos santos. Assembleia em grego é Igreja, e universal é católico. Daí podem os protestantes afirmar "Ah mas, o termo católico não aparece na tradução grega, foi a Igreja Católica quem inventou ".

    Pois é, esta citação dos versículos acima é da Bíblia protestante Ferreira de Almeida. Se tal argumento protestante fosse sólido, porque a tradução protestante traz em si a mesma citação católica? 
  A Bíblia Ferreira de Almeida foi traduzida da Bíblia King James, que é a Bíblia britânica que traz uma tradução bem fiel aos originais e lá está escrito "general assembly" que tem o mesmo contexto de universalidade ou catolicidade. A Igreja Católica, desde o princípio é uma só em todo mundo. O mesmo culto, a mesma doutrina, o mesmo batismo. Diferente das placas das igrejas protestantes. Cada uma com seu culto, o batismo de uma não serve na outra, o culto de uma é diferente da outra, a doutrina de uma não serve na outra, etc.

           Enquanto que a Igreja Católica está unida ao seu Papa e aos demais bispos e conserva a mesma unidade a mais de 2000 anos e tem o pastoreio católico, isto é, universal, sem o pastoreio universal não pode existir a Igreja e será apenas uma seita. 
    A Igreja depois que se firmou estabeleceu sua base em Roma. A Igreja de Roma se tornou a Sede, a Igreja-mãe de todas as outras por todo o mundo. E mesmo as igrejas ortodoxas eram sim, ligadas a Roma. Pois, a própria carta aos Hebreus prova que a comunidade dos hebreus era submetida a Sé de Roma. E como podemos provar isto? Podemos provar já no finalzinho da Carta dos Hebreus que esta Carta foi mandada da Sé de Roma para a comunidade dos hebreus:

"Irmãos, eu vos peço que acolhais esta palavra de exortação. Aliás, eu vos envio apenas algumas palavras. Sabei que nosso irmão Timóteo foi libertado. Se vier logo, irei ver-vos juntamente com ele. Saudai todos os vossos dirigentes e todos os santos. Os da Itália vos saúdam! (Hebreus 13, 22-23)

Note que:

a) A carta saiu da Igreja de Roma para a comunidade dos hebreus.
b) A carta, além de todos os ensinamentos dá notícias do Apóstolo Timóteo que foi libertado e traz um convite, o escritor manifesta o desejo revê-los e espera que o depositário desta carta vá à Roma encontrá-los. o Apóstolo Timóteo morreu em 97 d.C. Logo, podemos concluir que a Epístola aos Hebreus foi escrita antes disso. Isso prova que a Igreja já estava em Roma muito antes de Constantino. 
c) A Igreja já estava estruturada com um corpo eclesiástico, pois, aquela comunidade depositária da carta contava com seus dirigentes e uma assembleia que é chamada de santos. Os batizados eram chamados de modo geral, de santos. Pois, santo quer dizer, escolhido, separado.

    Está claro que nem Constantino, nem Teodósio foram fundadores da Igreja Católica. A Igreja já estava lá em Roma muito antes conforme o desígnio de Deus e conforme atesta a própria Bíblia e os documentos históricos.

     Ela foi sonhada pelo próprio Deus, amada pelo próprio Deus. Não poderia ser de outra forma, até porque nenhum homem tem poder de fundar uma Igreja senão o próprio Cristo que deu sua vida por ela na cruz do Calvário. 

    Todas as vezes que você escutar alguém dizer que fulano e ciclano fundou uma igreja você deve perguntar se foi Jesus que morreu por ti ou ou foi o fulano fundador de tal denominação. 
    Qual poder que o ser humano tem de fundar uma igreja? Nenhuma. Porque o homem não é Deus, não pode morrer e ressuscitar e nem salvar ninguém dos seus pecados. A Igreja existe para dar continuidade à Salvação trazida por Cristo e para ser a ponte que liga o céu e a terra em um só louvor. Por isso ela tem que ser única. Tem que ser: Una, Santa, Católica e Apostólica.

As evidências da catolicidade da Igreja nos primeiros séculos
A Igreja é uma só, Una, Santa, Católica e Apostólica

Atos 1, 14 - A reunião dos Apóstolos no cenáculo, também com eles Maria e outras santas mulheres, em oração aguardavam a descida do Espírito Santo. Qual é o sinal? Eles rezavam juntos em união com Maria.

Atos  1, 15-26 A eleição de Mathias em substituição a Judas Scariotes. Foi feita uma reunião onde os Apóstolos elegeram por meio de um sorteio aquele que ocuparia o lugar de Scariotes no grupo dos 12.

    Se lermos o capítulo 1, vamos ver que logo no versículo 13 que aparece na lista apresentada por São Lucas a figura de São Pedro como o primeiro da lista seguido dos outros. Não é por acaso que São Lucas o fez, mas para dar importância aquele que é o portador das chaves dada do Jesus para governar a Igreja. E o versículo 15, Pedro se levantou e fez um discurso introdutório antes da eleição. 

    Ali estava presente diante de aproximadamente 120 pessoas. Ele relembrou o que houve com Judas Scariotes e disse que é necessário que fosse nomeado outro no lugar de Judas, dos quais tinha que ser alguém que os tivesse acompanhado durante o tempo em que o Senhor esteve com eles desde o batismo de João até a Ressurreição. Por quê? Porque era necessário que este escolhido tivesse conhecimento dos ensinamentos de Jesus, fosse justo e teria que dar testemunho da Ressurreição.
  Note São Pedro estava à frente da Igreja, foi sob as orientações de Pedro que a Igreja fez a escolha de dois homens José Barsabás, o justo. Também Mathias e, depois da oração, a sorte foi lançada em Mathias.

    Notemos aqui a união da Igreja e sua organização desde o século primeiro século, onde Pedro como chefe da Igreja é o primeiro a ser ouvido e as decisões tomadas em conjunto só foi possível com um magistério de 120 pessoas sob a autoridade de São Pedro.
     É o que a Igreja faz até hoje. Pedro é pontífice porque é ele que faz a ponte, essa é função papal dada por Jesus a Pedro em Mateus 16, 19. E os Apóstolos e toda a comunidade sabiam disso e por isso levavam todas as situações a Pedro e era ele quem dava a última palavra. Depois de São Pedro todos os outros Papas até chegar a nós nunca foi mudado. A Igreja de descrita em atos já tinha uma hierarquia onde os Apóstolos,  que foram os primeiros bispos, juntamente com São Pedro a governava.

Atos 2, 5-11 - Na descida do Espírito Santo várias pessoas pregaram o mesmo Evangelho. Eles que eram de línguas diferentes, mas a pregação foi uma só, recebida nas suas próprias línguas. Isto é, os Apóstolos falavam em Hebraico, mas o Espírito Santo permitia que eles entendessem a mensagem do Evangelho em seus próprios idiomas.
Para quê? Para haver uma só doutrina no mundo todo, não houvesse confusão nem divisão. O Espírito Santo ele é unificador e não divisor. Não pode ser católico se não houver unidade.

Atos 4, 32 - "A multidão dos que haviam crido era um só coração e uma só alma". A Igreja verdadeira que é a Igreja Católica conserva essa união de fé de oração e de doutrina desde Pentecostes. O que está fora deste contexto de catolicidade são as seitas. A Igreja sempre foi Católica e Apostólica e é assim até os dias de hoje, no Oriente, no Ocidente, nas Américas e em todo lugar. Em torno de um só Senhor que é Jesus Cristo e sob o governo do Papa sucessor de São Pedro.

Jesus disse a Pedro: "Tu és pedra, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja". (Mateus16, 19) - A Igreja nasceu do dom total de Cristo para a nossa Salvação, antecipado na instituição da Eucaristia e realizado na Cruz. "O começo e o nascimento da Igreja são significados pelo sangue e pela água que saíram do lado aberto de Cristo agonizante na Cruz é que nasceu o admirável sacramento de toda a Igreja. Da mesma forma que Eva foi formada do lado de Adão adormecido, assim a Igreja nasceu do coração traspassado de Cristo morto na Cruz. (Catecismo da Igreja Católica Nº. 766)

    Jesus não disse a Pedro "sobre ti fundarei as minhas igrejas e cada uma terá um nome e uma placa diferente, uma doutrina e um culto diferente". Jesus disse: "sobre ti (Pedro) fundarei a minha Igreja". A afirmação de Jesus está no singular. Porque uma só é a Igreja de Jesus. Esta Igreja é a Igreja Católica e Apostólica constituída por Jesus permanece até hoje.

               Estava no coração de Cristo o desejo que os homens fossem assistidos por ele após sua paixão, morte, ressurreição e subida aos céus. Para ficar conosco ele criou um novo povo dando-lhe uma Nova Aliança que não foi firmada no sangue de animais, mas, com seu próprio sangue selou uma aliança eterna. Nessa aliança fundou sua Igreja e pelo Sacramentos Batismo somos enxertado nessa Igreja que também é seu corpo e a Eucaristia sua presença real no Pão e no Vinho sua presença Real em Corpo e seu Sangue, alma e Divindade e ao mesmo tempo se dá em alimento de todas as almas completando este mistério de amor. Somente a Igreja Católica pode dar-nos este Sacramento de amor que é Jesus Sacramentado. "Eis que estarei convosco todos os dias até o fim dos tempos". (Mateus 28, 20).

    Portanto, a Igreja Católica é uma só porque um só é seu Fundador e Salvador que por nós morreu e ressuscitou e nenhum outro homem por mais santo, nem pastor, e, nem padre, nem bispo que se desligar dela não terá nenhum poder se fundar outra, pois, esse poder só coube a Jesus Cristo que é Deus e Senhor.

     A Igreja é preparada na Antiga Aliança, fundada por Cristo, realizada na Cruz redentora e por sua ressurreição, ela é manifestada como mistério de salvação pela efusão do Espírito Santo. Será consumada na glória do céu como assembleia de todos os resgatados da terra. Ela é ao mesmo tempo, visível e espiritual, sociedade hierárquica e corpo místico de Cristo. Ela é una formada de um elemento humano e um elemento divino. Somente a fé pode acolher este mistério. A Igreja é no mundo presente, o sacramento da salvação o sinal e a salvação, o sinal e o instrumento da comunhão de Deus e dos homens. (CIC 778, 779, 780)
                            

   A ORIGEM DO NOME 'PAPA'

    Alguns dizem "mas Papa não existe" porque na Bíblia não existe nenhuma menção que Pedro tenha sido o primeiro Papa. Realmente não há. Porque Papa é um título e não uma função. É um título dado ao bispo da Igreja de Roma que é, por assim dizer, a Igreja mais velha. E foi lá que São Pedro e também São Paulo terminou seus últimos dias solidificando aquela Igreja como Mãe de todas as outras. É por isso que o bispo de Roma, ou seja, o Papa é considerado o sucessor de Pedro. Com exceção das igrejas protestantes e algumas igrejas ortodoxas em sua maioria todas aceitam e concordam que o Papa é mesmo o sucessor de Pedro, não por acaso, mas pela própria História da Igreja e a sucessão apostólica que lhe ela tem initerruptamente. Desde o início da Igreja a autoridade de Pedro como primeiro pastor era aceita. Encontramos várias passagens em que Pedro era quem decidia e dava a última palavra. Os Apóstolos e os demais cristãos conheciam a autoridade que Jesus, sendo a "Pedra Angular" deu a Pedro como sendo a "rocha" o "alicerce" que sustenta a fé da Igreja, "Tu és pedra e sobre ti fundarei a minha Igreja" (Mateus16, 18-19). Jesus fala da Igreja como uma construção que será elevada sobre a rocha. Pedro é a rocha, a base que sustenta a Igreja. 
    Certa vez Jesus disse que o "homem sábio constrói sua casa sobre a rocha" Mateus 7, 24-25; "Pois, quem ouve minhas palavras é tão sábio como aquele que constrói sua casa sobre a rocha"; Ele sendo Deus quis que um homem, Pedro fosse essa rocha onde a Igreja se firmaria. Isso quer dizer através de Pedro todos pudessem ouvir a voz dEle o Supremo Pastor. Sem a autoridade sem a sustentabilidade de Pedro a Igreja não pode sustentar-se pois, assim quis o próprio Cristo que em Pedro tivesse  a missão não só de sustentar a fé, mas, de ligar e desligar. Isto é Jesus transfere a Pedro o poder e a autoridade de governar, pastorear em seu nome todos os fiéis.
    Sobre Pedro está fundada a Igreja de Cristo, sobre ele está a autoridade de Cristo simbolizada pelas chaves o poder de abrir e fechar de ligar e desligar, o que Pedro na condição de pastor decidir pelo sim e pelo não será acatado na terra e no céu. Pedro sempre foi respeitado como primaz entre os Apóstolos o "príncipe dos Apóstolos" dado por Jesus a ele como chefe da Igreja. Os Apóstolos que eram0 fiéis a Jesus reconheciam a autoridade de Pedro como chefe da Igreja terrena e seu Vigário e respeitavam suas decisões como sendo do próprio Cristo. Os Apóstolos reconheciam em Pedro a própria autoridade de Jesus Cristo.

        A autoridade que foi passada ao bispo de Roma é muito grande e por causa disso é que a Igreja lhe honrou com o título carinhoso de Papa ou "papai". Pai de toda a Igreja que é família cristã. Assim como toda família tem um "pai", o bispo de Roma é chamado carinhosamente de "papaizinho". Ele, que depois de ser provado no fogo foi designado o pastor primaz da Igreja, "Apascenta minhas ovelhas!" (João21, 17).
       Veja que em nenhuma outra passagem dos evangelhos Jesus diz tão diretamente como no versículo 17, do Capítulo 21 de São João. Note que estava ali Pedro e João, (João 21, 20). Jesus teve uma conversa particular com Pedro e depois de ter a certeza de quer ele o amava mais do que os outros pediu "apascenta as minhas ovelhas!", ou seja, Jesus entregou a Pedro o pastoreio da Igreja. 
    Nosso Senhor, naquele momento sagrou pessoalmente seu primeiro bispo para ser o 'pai" de todos os outros e de toda a Igreja que com ele se erguia. É por isso que a Igreja até os dias de hoje chama o bispo de Roma de Papa por causa desta autoridade dada a São Pedro e consequentemente ao seu sucessor. E foi ali, em Roma, na Comunidade de Roma que São Pedro permaneceu até o fim de sua vida e deu sua vida e e lá deu testemunho de Cristo com seu martírio.
    Foi naquela comunidade que ele viveu seus últimos anos e toda a Igreja Católica em todo mundo reconhece a autoridade de Cristo na pessoa Papa os demais sucessores de São Pedro.
            
     Há uma controvérsia porque enquanto alguns estudiosos defendem que a Igreja Católica de Roma foi fundada por São Pedro, outros dizem que foram os discípulos e que quando São Pedro chegou à Roma ela já existia. O fato é que a Igreja Católica de Roma é a Igreja onde o seu bispo traz em si o primado de Pedro.
Onde surgiu a palavra "Papa"?

     "Papa" é uma palavra de origem italiana que quer dizer "papai" ou "paizinho". É um título carinhoso que surgiu a partir do século VI para se referir aquele que foi colocado por Cristo nas função de Pai da Igreja Católica e que se firmou a partir dos séculos IX e X, para se referir exclusivamente ao Bispo de Roma. É por isso que muitos confundem esta palavra como se ela fosse uma função. Enquanto que a função do Papa é ser Bispo, isto é, ser o pastor.
    
    Certamente, esta interpretação está longe de ser correta, assim como a interpretação do jogo de palavras "Pater Patrum" ("padre dos padres"), que seria uma descrição e releitura posterior do ofício papal.

Do ponto de vista histórico-etimológico, o termo "papa", no entanto, não é um acrônimo, mas uma palavra de origem grega, que significa "pai", "papai", em sentido familiar e carinhoso. É o termo usado nos primeiros séculos do cristianismo para dirigir-se ao clero, sobretudo aos bispos. Foi a partir dos século IX-X que se tornou exclusiva do Bispo de Roma: de "pai" em sentido específico a "pai" de Roma.

Nas Catacumbas de São Calisto está o testemunho mais antigo em Roma do uso da palavra "papa" referida ao Bispo de Roma. O diácono Severo declara haver recebido a ordem do bispo romano Marcelino (296-304) de construir um nicho sepulcral familiar dentro de tais catacumbas: “iussu pp. sui Marcellini diaconus iste Severus fecit…” (cfr. Testini, Archeologia cristiana, Bari 1980, p.384). Resumindo: é a história de um termo genérico que, com o passar do tempo, assume um significado cada vez mais específico, até tornar-se exclusivo.

    O documento "Dictatus Papae", nascido no ambiente gregoriano durante a luta das investiduras, os termos "sumo pontífice" e "papa" são usados como sinônimos. Desde cerca de dez séculos antes, a palavra "papa" indicava apenas o Bispo de Roma.

Apesar de existirem vários títulos do Papa (o Sumo Pontífice, Bispo de Roma, sucessor de Pedro, Patriarca do Ocidente, (este último deixado de usar por Bento XVI), Primaz da Itália etc.), Mas, o teologicamente e mais verdadeiro e do qual derivam todos os outros é: "Bispo de Roma" e, portanto, herdeiro e sucessor de Pedro e cabeça do colégio apostólico.

    Dois textos, um da antiguidade e outro dos nossos dias, falam da importância do título romano:

"Dado que seria demasiado longo enumerar as sucessões de todas as Igrejas, tomaremos a máxima igreja, muito antiga e conhecida de todos, fundada e construída em Roma pelos dois gloriosíssimos apóstolos Pedro e Paulo; mostraremos que a tradição que ela tem, dos mesmos, e a fé que anunciou aos homens, chegaram até nós por sucessões de bispos… Porque, é com esta Igreja (de Roma), em razão de sua mais poderosa autoridade de fundação, que deve necessariamente concordar toda a Igreja… na qual sempre se conservou a tradição que vem dos Apóstolos" (cf. S. Irineu, Contra as heresias).

"Na comunhão eclesial existem legitimamente igrejas particulares com tradições próprias, sem detrimento do primado da cátedra de Pedro, que preside à universal assembleia da caridade, protege as legítimas diversidades e vigia para que as particularidades ajudem a unidade e de forma alguma a prejudiquem" (Lumen Gentium, 13).

(Artigo do Pe. Giovanni Roncari, professor de História da Igreja, publicado originalmente em Novena.it)


Outros títulos dado ao Papa:

Santo Padre

Entendendo-se novamente o termo “padre” no sentido latino de “pai”, esse título acrescenta à paternidade espiritual também o caráter de santidade inerente à vocação e missão confiada ao Papa por Cristo.

Pontífice

Vem do latim “pontifex”, derivado por sua vez de “pons”, que significa ponte. Quer dizer “construtor de pontes”. Frequentemente, vem antecedido pelo adjetivo “Sumo”, do latim “Summus”, que significa “máximo”, “supremo”.

Servo dos Servos de Deus

Adotado por São Gregório Magno em 602, esse título reflete o papel do Papa como aquele que está a serviço de todos os fiéis, que, por sua vez, também estão a serviço de Deus, a exemplo de Jesus Cristo: o próprio Cristo, sendo Deus, se fez homem para nos servir e salvar.

Vigário de Cristo

Adotado no século V por São Leão Magno, esse título recorda o papel do Papa de representar Jesus na terra como pastor das suas ovelhas. “Vicarius” tem a mesma raiz de “vice”, ou seja, substituto, sucessor, representante, aquele que exerce legitimamente as funções de outro.

Bispo de Roma

Como sucessor de São Pedro, todo Papa herda a missão de ser o bispo da Cidade Eterna.

Primaz da Itália

Historicamente, cada região da Igreja tem um cardeal primaz, isto é, um líder primário da Igreja naquela área específica.

Sua Santidade

Embora mais usado como referência ao Papa, esse título que primariamente evoca a santidade do seu posto como Vigário de Cristo é usado também para líderes de outras tradições cristãs, principalmente orientais, inclusive em comunhão com Roma (nas diversas tradições orientais também é bastante usado o título “Sua Beatitude”). A título de precisão, usa-se “Vossa Santidade” quando se fala diretamente à pessoa do Papa.

Soberano do Estado da Cidade do Vaticano

Título que reconhece o poder temporal do Papa como líder do Estado Vaticano independente. 

Fonte: pt.aleteia.org


          A SUCESSÃO APOSTÓLICA E O PRIMADO DE SÃO PEDRO

OS BISPOS DESDE O INÍCIO DA IGREJA

Mas, vejamos o que diz Eusébio de Cesareia, que foi bispo de Cesareia (270-339 d.C. – sendo bispo entre 313-315 d.C. – segundo historiador cristão depois de São Lucas e bem antes de Constantino,) no seu livro “História Eclesiástica” capítulo II assim descreve:

          “O primeiro, pois, que a sorte designou para o apostolado como substituição a Judas o traidor foi Mathias, que também tinha sido um dos discípulos do Salvador, como já foi provado. Por outro lado, os apóstolos mediante a oração e imposição das mãos, instituem ainda como destino ao ministério e para o serviço comum, alguns homens de boa reputação, em número de sete: Estêvão e seus companheiros. Também foi Estêvão, depois do Senhor e quase no momento em que recebia a imposição das mãos, como se tivessem promovido para isto mesmo, o primeiro a ser morto a pedradas pelos mesmos que mataram o Senhor”.

          Note aqui que Eusébio descreve a sucessão apostólica pela imposição das mãos. Ato que acontece até os dias de hoje na Igreja e sem ela não há sucessão legítima. A Igreja através de seus bispos a começar dos apóstolos designa seus sucessores os bispos, padres ou presbíteros e os diáconos e demais pessoas por meio da imposição das mãos que com autoridade direta de Cristo cujo é o mandatário da obra, a Igreja Católica e possui essa autoridade única e verdadeira dada por Cristo e recebida pelos apóstolos e seus sucessores, os bispos legitimamente constituídos.    

Continua [...] “Naquele tempo também Tiago, o chamado “irmão do Senhor” – Porque também ele era chamado filho de José; pois bem, o pai de Cristo era José, já que estava casado com a Virgem quando, antes que convivessem descobriu-se que havia concebido do Espírito Santo, como ensina a Sagrada Escritura dos Evangelhos –; este mesmo Tiago, pois, a quem os antigos puseram o sobrenome de Justo, pelo superior mérito de sua virtude, refere-se que foi o primeiro a quem se confiou o trono episcopal da Igreja Jerusalém”.

[O mesmo Eusébio vem a explicar no primeiro capítulo (VII-1 “sobre a discrepância dos evangelhos acerca da genealogia de Jesus Cristo” Eusébio explica que na antiguidade, entre os judeus, havia dois tipos de genealogia uma segundo a carne e outra segundo a lei os parentes de Jesus. Entre os não havia definição de parentesco, é comum que nos tempos de Cristo os parentes (primos) eram chamados de irmãos, não que sejam filhos dos mesmos pais, mas por parentesco. Nesse sentido Tiago, que não era irmão carnal de Jesus era chamado de seu “irmão”, não por genética, mas por parentesco. “Porque, efetivamente em Israel os nomes das famílias se enumeram segundo a natureza e segundo a Lei. Segundo a natureza por sucessão de nascimento legítimo, segundo a Lei, quando morria um sem filhos e seu irmão os engendrava para conservar o nome. Dessa forma conservavam-se as linhagens [...], outra hipótese é provável que Tiago tenha sido criado por José após a morte do pai e nessas condições passou a ser chamado de “irmão de Jesus”, não porque o era de fato, mas, por ser José seu tio, eram primos. Como sabemos disso? Tiago o Justo, também chamado Tiago Menor era filho de Alfeu e Maria de Clopas, irmã de Maria mãe de Jesus.]

          Pois bem, depois de Tiago, sucedeu-lhe a Simeão, filho de Clopas, outro parente de Jesus. E, portanto, nós podemos perceber que a Igreja sempre foi estruturada com a sucessão apostólica, seus bispos legitimamente constituídos desde o princípio e que aqueles que eram escolhidos para o episcopado, eram eleitos segundo os desígnios de Deus pela ação do Espírito Santo e pela confirmação dos Apóstolos. Assim, também São Marcos que foi o primeiro bispo da Igreja de Alexandria e depois dele sucedeu Aniano, já no império de Nero (54-68 d.C).

Tudo isto, podemos perceber, segundo atesta a própria Bíblia bem antes de Constantino, (306-337 dC.), a Igreja Católica já existia, fundada por Cristo, em primeiro lugar a Igreja é uma pessoa, Jesus Cristo; mas, também é uma instituição e embora sabemos que o nome “católica” apareceu mais tarde, o fato é que a Igreja já possuía um corpo hierárquico desde o princípio com O Papa, seus bispos, presbíteros e diáconos.

Continua Eusébio: “Pedro, segundo parece, pregou no Ponto, na Galácia e na Bitínia, na Capadócia e na Ásia, aos judeus da diáspora, por fim chegou à Roma e lá foi crucificado”.

Aqui temos que entender o seguinte: Pedro era o líder, o chefe dos Apóstolos? Sim era, se lermos os evangelhos e os Atos de Lucas podemos encontrar várias passagens em que os demais apóstolos recorriam a Pedro para resolver certas situações e era sempre Pedro a dar a última Palavra. Os evangelistas quando narram o chamado de Jesus descreve sempre primeiro Pedro, depois João e Tiago, seguido pelos demais. E quando Jesus escolhe Pedro como seu representante, Mt16, após a Ascensão de Cristo toda a Igreja assim o reconhecia como o primás, o príncipe dos Apóstolos. Somente após a reforma que Lutero ousou desafiar a autoridade papal o que ninguém tinha feito até então, nem mesmo os reis.

Mas se olharmos a curta narrativa de Eusébio, nos dá a entender que Pedro chegou à Roma e logo foi crucificado e não é bem assim. Também não foi Pedro quem fundou a Igreja de Roma. Quando Pedro lá chegou à Igreja já existia. Mas, foi lá que Pedro escolheu para passar seus últimos dias e lá sofreu o martírio. E como lá na colina Vaticana foi enterrado, os seus sucessores também fizeram de Roma a sede definitiva do Papado. Mas nem sempre foi assim, houve tempos em que a sede de Roma foi transferida para a cidade de Avignon na França e ali durou aproximadamente 70 anos, entre 1309 e 1377.

Paulo, que desde o Jerusalém até o Ilírico cumpriu a pregação do Evangelho de Cristo e finalmente sofreu o Martírio em Roma sob Nero. Isto é dito por Orígenes no tomo III de seus comentários ao Gênesis.

E assim, depois de São Pedro, o segundo Papa e bispo de Roma foi Lino, cujo é mencionado por Paulo quando de Roma escreve a Timóteo, na despedida ao final da carta.

Sobre a sucessão dos apóstolos assim escreve Eusébio:

“Que Paulo pregou aos gentios, desde o Ilírico, deitou os alicerces das Igrejas, está bem claro em suas próprias palavras e no que Lucas narra nos Atos.”

“Pelas palavras de Pedro, (1ª Carta de Pedro) em sua Carta, da qual já dissemos que é aceita, e que escreve aos judeus da diáspora, moradores do Ponto, da Galácia, da Capadócia, da Ásia e da Bitínia, percebe claramente em que ele pregou a Cristo e transmitiu a Doutrina do Novo Testamento aos que procediam da circuncisão.”

“Não é, porém, fácil dizer quantos e quais destes, convertidos em homens de zelo genuíno, foram considerados capazes de apascentar as igrejas fundadas por estes apóstolos, a não ser os que podem ser vistos nos escritos de Paulo. Este realmente teve inúmeros colaboradores e – como ele mesmo os chama – companheiros de luta. A maior parte ele considera digna de memoria imorredoura e em suas próprias cartas dá contínuo testemunho deles. E não somente isto, mas também Lucas nos Atos dá uma lista dos discípulos de Paulo e os menciona pelo nome”.

“Pelo menos Timóteo refere-se que foi o primeiro designado para no episcopado, (ser bispo), da Igreja de Éfeso, assim como Tito, das Igrejas de Creta.”

“Luas, por outro lado, oriundo de Antioquia por sua linhagem de Médico de profissão, foi durante maior parte do tempo companheiro de Paulo. Mas seu trato com os apóstolos também não foi superficial: deles adquiriu a terapêutica das almas, ada qual nos deixou exemplos em dois livros divinamente inspirados: O Evangelho, que ele confessa ter composto segundo o que lhe transmitiram os que foram testemunhas oculares e se fizeram servidores da doutrina, dos quais ele diz que seguiu desde o começo, os Atos dos Apóstolos que compôs, já não com o que tinha ouvido, mas com o que viu com seus próprios olhos”.

          Depois do imperador Vespasiano, sucedeu-lhe seu filho, Tito. No segundo ano de seu reinado, Lino depois de exercer o cargo de bispo de Roma por 12 anos, é sucedido por Anacleto (79 d.C.). O governo de Tito foi de 2 anos e alguns meses sendo sucedido por seu irmão, Domiciano (81-96 d.C).

No quarto ano do reinado de Domiciano, (84 d.C.) morre Aniano, bispo de Alexandria e seu sucessor foi Abílio. E no duodécimo ano do mesmo reinado, (93 d.C.), Clemente sucedeu a Anacleto como bispo de Roma. Isto é atestado pela Carta aos Filipenses na qual o apóstolo Paulo escreve: “Com Clemente também e os demais colaboradores meus, cujos nomes estão no livro da vida”. (Filipenses 4,3).

Clemente também escreveu uma carta, em nome da Igreja de Roma à Igreja de Conrinto, tendo como como motivo exortar os fiéis daquela Igreja sobre uma sedição ocorrida. Essa carta foi lida publicamente pela assembleia na maior parte das Igrejas, não apenas antigamente, mas em nossos dias. Afirma Eusébio.  

Não podemos esquecer da Igreja de Éfeso. Esta foi fundada pelo apóstolo Paulo por volta do ano 52 d.C. quando o apóstolo João ainda se encontrava exilado na Ilha de Patmos e seu primeiro bispo foi Timóteo. Quando João foi libertado, (96 d.C.), já encontrou a Igreja de Éfeso estruturada. O apóstolo João foi seu segundo bispo.

Na mesma linha temos Policarpo, que foi discípulo de João. Este foi bispo da Igreja de Esmirna [Ásia Menor, 96-100 d.C], e o registro mais próximo de sua sucessão foi Irineu de Lion.

Portanto, é falácia de alguns historiadores e dos demais protestantes ao tentar descontruir que a Igreja primitiva era um “grupo de pessoas desorganizadas” e que a Igreja no início não tinha sucessão apostólica, ou que o episcopado veio posterior. Ou como afirma os presbiterianos que a sucessão era apenas de presbíteros e não de bispos, etc.

Sabemos pelos registros históricos que a Igreja sempre foi estruturada e que a sucessão dos apóstolos era desde o princípio algo indispensável àqueles escolhidos para o episcopado escolhiam homens retos, de caráter ilibado.

Sabemos ainda que desde o século I, a Igreja era governada pelos seus bispos e que Pedro era reconhecido como o primás, o líder entre os demais Apóstolos e com ele seus sucessores conforme o desejo do próprio Cristo que lhe fez a “rocha” que sustentaria a sua Igreja visível.  


Fonte: História Eclesiástica, Eusébio de Ceareia

Capítulos II e III 

                    

 

                              

 

         

       

                                  

 

 

 

            

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

MARIA MÃE DE DEUS - QUAL O SIGNIFICADO DESSE TÍTULO?


A solenidade de Maria Mãe de Deus, celebrada no dia 01 de janeiro, é uma solenidade que marca o início do ano.

Mas, você já parou para pensar o que esse título dado significa?

Muitos vão se perguntar como poderia Maria ser Mãe de Deus, se Deus é eterno? – Sim é verdade, Deus é eterno, mas aqui nós não estamos falando em Deus Pai, mas em Deus Filho, nosso Senhor e Salvador.

A Sagrada Escritura e a doutrina da Igreja Católica ensinam que: Nosso Senhor Jesus Cristo, se encarnou no seio da Virgem Maria por obra e graça do Espírito Santo. Jesus Cristo veio em carne, mas, não se separou as duas naturezas, ele é perfeito homem e perfeito Deus. Logo, por causa da divindade do Filho de Deus, que é Deus junto do Pai e o poder do Espírito Santo tornou Maria a Mãe do próprio Deus. Pois, Jesus e o Pai é um só. Pois assim afirma a Sagrada Escritura: João 10:30 — “Eu e o Pai somos um”. João 14:9 — “Quem me vê a mim vê o Pai”. Colossenses 2:9 — “Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade”. Esses versículos são as declarações mais fortes de Jesus sobre sua unidade com Deus Pai.

Logo, percebe-se a união Maternal de Maria, não apenas ao ser humano, mas, também ao ser divino. “Ele será grande e se chamará Filho do Altíssimo” – Lucas1, 32.

 O Filho do Altíssimo é o Filho de Maria. Podemos compreender que ela é a Theotokos, isto é a Mãe de Deus, porque Jesus é Deus.

Os primeiros cristãos já acreditavam e professavam esta verdade, mas, somente em 431 d.C. no Concílio de Éfeso, que a Igreja para combater a heresia de Nestório.

Nestório afirmava que em Jesus havia duas pessoas distintas — uma divina e outra humana — e, por isso, negava que Maria pudesse ser chamada Theotokos (“Mãe de Deus”). Ele enfatizava a separação entre a natureza humana e a natureza divina de Cristo.   Ao separar excessivamente essas naturezas, Nestório acabava sugerindo que Jesus era como duas pessoas diferentes, em vez de uma única pessoa divina com duas naturezas.

Nestório rejeitava o título de Theotokos para Maria, preferindo chamá-la apenas de Christotokos (“Mãe de Cristo”), pois dizia que Maria havia gerado apenas o homem Jesus, não o Deus eterno.

A Igreja, porém, ensinava que Jesus é uma só pessoa (o Verbo encarnado), plenamente Deus e plenamente homem. Assim, Maria é verdadeiramente Mãe de Deus, pois deu à luz a pessoa divina de Cristo.

A Igreja afirmou que Jesus Cristo é uma só pessoa, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Por isso, Maria, que deu à Luz Jesus, é legitimamente chamada Theotokos (em grego, “Portadora de Deus” ou “Mãe de Deus”).

 São Cirilo de Alexandria: Foi o grande defensor dessa verdade, insistindo que negar o título de Theotokos era negar a plena divindade de Cristo.


O PRÓPRIO DEUS LHE CHAMA DE MÃE

Mas, ainda podemos recorrer mais uma vez à Sagrada Escritura para entender que Maria é Mãe de Deus. No Evangelho de Lucas, quando Isabel movida pelo Espírito Santo chama Maria de "Mãe de Deus". Assim diz o texto de Lucas1, 39-45:   

Naqueles dias, Maria se levantou e foi às pressas às montanhas, a uma cidade de Judá. Entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel. Ora, apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança estremeceu no seu seio; e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. E exclamou em alta voz: “Bendita és tu entre todas as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Donde me vem a honra de vir a mim a mãe do meu Senhor? Pois, assim que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança estremeceu de alegria em meu seio. Bem-aventurada és tu que creste, pois hão de se cumprir as coisas que da parte do Senhor te foram ditas!”

Podemos perceber que Maria, já grávida do Verbo divino, o levou consigo até a casa de Isabel. Ela, que também estava sob a sombra do Espírito do Altíssimo, aproxima saúda Isabel e logo, o Espírito Santo se manifesta e Isabel proclama, “de onde me vem a honra de receber em minha casa a mãe do meu Senhor?”

Os judeus não ousavam chamar pelo nome de Deus diretamente para não pecar contra o Mandamento e não cair em blasfêmia. Logo, Isabel chama a Deus de “meu Senhor”, que é o mesmo que dizer “meu Deus”.

Logo, é o próprio Deus, o Espírito Santo que move os lábios de Isabel e o chama de Mãe. Sim, Deus a reconhece como sua Mãe, porque no ventre de Maria estava Jesus Cristo que é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem. O útero de Maria se tornou o tabernáculo do Altíssimo. Não é por acaso que os santos padres vão chama-la de “Arca da Aliança”.

Então, aos que negam, como Nestório que Maria não pode ser mãe de Deus está indo contra a própria Sagrada Escritura.

Isabel poderia ter dito outras palavras do tipo, “oi prima, que bom que você está aqui, que honra receber a sua visita” [...] Mas, não ela, usada pelo Espírito Santo a chama de “Mãe do meu Senhor”, ou “Mãe de Deus”.

Quando nós vemos pelas redes sociais, alguns negando a maternidade de Maria como Mãe de Deus, agindo como fez Nestório, não podemos dar crédito a essas pessoas. Quem diz isso desconhece a própria Bíblia que nos diz que Maria não foi simplesmente Mãe de um ser humano comum, mas ela mesma, foi constituída, escolhida por Deus para dela nascer, não em duas naturezas separadas, mas um só homem e um só Deus.

Temos que ter cuidado com os crentes de plantão da internet. Porque negar a maternidade divina de Maria, é o mesmo que negar a própria Encarnação de Jesus Cristo, que é o Emanuel. Se negarmos Maria como Mãe de Deus, também negamos a divindade de Cristo que não se separam.

Poderia dizer muita coisa, mas, apenas esses versículos nos bastam para esclarecer que chamar Maria de “Mãe de Deus” não é algo impossível porque Deus fez isso possível no momento em que nela se encarnou. E porque sendo assim a própria Sagrada Escritura vai confirmar:

   Lucas 1:43 — Isabel chama Maria de “Mãe do meu Senhor”.

João 1:14 — “O Verbo se fez carne e habitou entre nós.”

Gálatas 4:4 — “Deus enviou seu Filho, nascido de mulher.”  

O que mais você precisa para acreditar?                             

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

EUSÉBIO DE CESARÉIA, SOBRE OS RELATOS SOBRE JESUS CRISTO, SUA PREEXISTÊNCIA E OS FATOS QUE OCORRERAM APÓS SEU NASCIMENTO , A MORTE DO REI HERODES ATÉ JOÃO BATISTA - CURIOSIDADES SOBRE REIS MAGOS

 

       


         "O Verbo que se fez carne e veio habitar entre nós". (João1, 14).

        O Natal não é a comemoração do aniversário de Jesus Cristo, antes é a celebração da chegada do Salvador, nascido de uma mulher (Gálatas4,4), marcando o momento divinamente estabelecido para Deus enviar Seu Filho ao mundo, conforme descrito em Gálatas 4, 4 e Efésios 1, 10, cumprindo o plano de redenção e abrindo caminho para a adoção de filhos de Deus, um período oportuno (Kairós).

        Nesse cenário encontra-se a simbologia do Presépio: Maria, José, o Menino Jesus deitado na manjedoura, os pastores, os Magos [...] tudo representa aquele momento espetacular da história em que como diz a Sagrada Escritura: “Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho Unigênito para todos que nele creem não pereça, mas tenha a vida eterna” (João3, 16).

        É o Cordeiro de Deus anunciado pelo profeta João Batista, o Enviado do Pai veio para tirar os pecados do mundo (João1, 29).

        Não é o papai-Noel, festejado pelo comércio. É o nascimento de Jesus que celebramos e festejamos em nossas casas. É ele o Salvador.

Muitos celebram o Natal, até mesmo quem não é cristão, como uma festa posta oficialmente no calendário, se adornam as casas com enfeites, velas, guirlandas, árvores [...] os comércios exploram a data para vender seus produtos. O modernismo está cada vez mais ofuscando o verdadeiro sentido do Natal. Importa para nós saber a importância de celebrá-lo não com comilanças e externamente, mas, somente o poderemos fazê-lo se realmente entendermos o seu verdadeiro significado e assim conhecermos de perto a pessoa de Cristo cujo é o esplendor de nossa vida. E o Natal não pode ser uma festa qualquer, vazia de sentimentos, mas a festa do Amor de Deus manifestado a todos os homens por meio de seu Filho e nosso Senhor Jesus Cristo. Não é a comemoração de aniversário, mas, como a própria palavra diz, é a celebração do Nascimento de Cristo, Deus que se fez homem. a palavra Natal significa nascimento. Por isso, é mais importante celebrar o nascimento do que uma data específica no calendário. 

25 de dezembro não é a data do aniversário de Jesus (até porque não sabemos qual foi o mês e o dia em que ele nasceu), mas, é a celebração do nascimento mais importante daquele que dividiu a História em duas partes, antes dele e depois dele. Também não é uma festa pagã, como queiram afirmar alguns, mas é uma data solene de ação de graças por Deus Pai nos ter enviado seu Filho e nosso Salvador. Na Roma antiga, os povos cultuavam vários deuses como os gregos, o deus sol ou sol invictus, que era cultuado no dia 25 de dezembro. Quando a Igreja herdou a Roma pagã após o imperador Teodósio ter declarado a Igreja Católica como religião oficial, a Igreja então, para acabar com a idolatria,  extinguiu a festa pagã ao deus sol e determinou que nesse dia em lugar dela celebrasse a festa do Natal de Jesus, cujo é o Sol verdadeiro, conforme Lucas 1, 78-79; Jesus é a verdadeira luz que veio vencer as trevas do pecado, conforme Ele mesmo disse "Eu sou a luz do mundo, quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida". (João 8, 12). 

Então não podemos de forma alguma achar que o Natal é uma festa pagã e que não deve ser celebrada. Pelo contrário, o Natal nos mostra a chegada daquele que seria o verdadeiro "Sol" e que dissiparia toda escuridão do pecado. Assim é que a festa de antes do sol invictus passou a ser chamada de Comemoração do Natal do Senhor. Embora a crença popular venha a dizer que Jesus nasceu dia 25 de dezembro, a Igreja nunca afirmou que isso é verdade, muito embora alguém no passado já tenha defendido esta data. O que a Igreja na época, com o processo de cristianização dos povos pagãos era acabar com o culto do sol invictus e estabelcer o culto ao verdadeiro Deus e Senhor Jesus Cristo. É preciso explicar isso, para que as pessoas não caiam nas falsas acusações daqueles que perseguem a Igreja e tentam criar acusações desprovidas de fundamento.  

 É no Natal que começa a Salvação dos pecadores e se concretizará na cruz e na Ressurreição do Senhor. 

Muita gente diz: "Mas, a Bíblia não manda celebrar o Natal de Cristo" [...] Ora, a Bíblia também não manda celebrar a sua Ressurreição (não da forma como entendemos), e no entanto, a celebramos. Portanto, se o Natal e a Ressurreição estão descritos na Bíblia, ela nos dá base para que nós podemos comemorar sim. 

Assim como Moisés comemorou com cânticos a libertação do povo de Israel; a chegada da libertação de Israel não chegou no dia da Páscoa, mas, chegou no primeiro instante em que Deus chamou a Moisés do Sinai para libertar o seu povo. Assim é, a libertação do novo povo, não começou diretamente na Cruz, mas, no dia em Maria e José receberam a notícia de que seriam pais do Salvador, e no momento que Maria disse sim, ele se encarnou começou o plano de salvação de Deus Pai para libertar todos os homens da escravidão do pecado e que se revelou Natal. Percebe-se que uma coisa está ligada à outra? 

Nos dois casos o plano de libertação começa com um chamado e um envio. Primeiro, Deus chama Moisés e o envia como seu mensageiro a fim de libertar seu povo da escravidão egípcia e com esse povo estabelece uma aliança e uma Lei. Depois, na plenitude dos tempos, (Gl4, 4), Deus envia seu Filho Jesus Cristo, sujeito à lei, para libertar o seu povo da escravidão do pecado. A missão de Moisés termina no deserto e o povo entra na terra prometida. A missão salvadora de Jesus se concretiza na Cruz, mas, continua na sua Igreja. Por isso, o Natal não é uma data qualquer, ela é muito mais importante do que podemos imaginar. Porque ele mostra a promessa de Deus se cumprindo na história. Deus que desce dos céus, deixa sua glória e vem ser um de nós, por amor aos homens aceita viver a nossa condição e se sacrifica por nós na cruz. E porque nos ama se faz pobre e pequenino numa manjedoura o Senhor de todo o Universo. 

O Natal nos faz lembrar as palavras do velho sacerdote Simeão, quando no dia da circuncisão, tendo visto o menino Jesus exclamou: "Agora Senhor, podeis deixar vosso servo partir em paz porque meus olhos comtemplaram a salvação que preparastes diante de todos os povos, como luz papa iluminar as nações, e para a glória de todo o povo de Israel". (Lc2, 29-32) - Cristo é a verdadeira luz. Quando a Igreja substituiu o culto do sol invictus pelo Natal, é justamente para mostrar, como disse Simeão, aos povos de todas as nações que Cristo é a verdadeira luz e não um deus pagão. É essa luz que deve brilhar para que todos através dela possam ser iluminados por ela e andar no caminho da salvação.                          

O Natal é muito mais que uma comemoração, é um reavivamento, é de fato estar ligado ao mistério da encarnação do Verbo que se fez carne para a nossa salvação. É Deus que desce dos céus para se assemelhar a nós, para estar junto de nós. Ele destrona por um instante e se humilha em uma manjedoura até que por um grande amor se entrega na cruz. O autor da graça por excelência se faz pequeno e humilde por amor aos homens. Como expressa Zacarias: “Para dar ao seu povo conhecer a salvação pelo perdão dos pecados. Graças a ternura e misericórdia de nosso Deus que nos vai trazer do alto a visita do Sol nascente, que há de iluminar os que estão nas trevas e na sombra da morte e dirigir nossos passos no caminho da paz” (Lucas1, 77-79). 

Se celebramos a Paixão de Cristo e sua ressurreição, temos que celebrar o Nascimento. É importante destacar isso, porque muitas pessoas são levadas por ensinamentos errados e não entendem que o mistério da Salvação está ligado ao mistério da Encarnação do Verbo. Na Igreja, esse mistério está contido na celebração litúrgica, consiste em todo ano celebrar este mistério de Cristo que veio a este mundo para nossa Salvação. 

Celebramos durante o Ano Litúrgico todos os passos do Salvador, seu mistério, sua doutrina, sua Paixão e Ressurreição. A data de 25 de dezembro como dia da celebração do Natal também é uma adequação litúrgica. A Igreja Católica estabeleceu para celebrar não só um dia, mas toda a vida de Cristo. Quem participa da Missa todos os dias vai perceber que a Liturgia, as leituras, os Salmos, a Orações e os cantos litúrgicos [...] ao longo do ano vai traçando o caminho da vida de Jesus, passando pelo Natal, sua vida pública, até culminar na Páscoa. E a Eucaristia é o ápice de toda celebração.

Portanto, nós Católicos, principalmente, não podemos achar que o Natal é mais uma festa no calendário anual. É a festa do amor de Deus. Também não podemos deixar nos levar por conceitos estranhos, e fora da doutrina. Se celebramos o mistério da Redenção, a lógica é celebrar o mistério da Encarnação. Porque muitas pessoas acham que Jesus desceu de paraquedas ou numa nave. Não! Jesus, o filho de Deus se encarnou de verdade no seio de Maria, se fez homem, viveu dentro de um povo, o povo de Israel, pertenceu a uma linhagem real, a linhagem de Davi. Como judeu cresceu e viveu a religião de Moisés. Ele cumpriu toda a Lei e as profecias.

Para quem acha que Jesus não era religioso, ele praticou a Religião judaica, tanto é que ele celebrou a Páscoa judaica com seus Apóstolos. Jesus veio como servo, e sendo servo de Deus se submeteu a Lei, embora fosse o autor dela. Somente depois ele fundou sua Igreja, mas, dentro dos princípios judaicos, como ele mesmo disse em Mateus 5, 17-18: Não julgueis que vim abolir a lei ou os profetas. Não vim para os abolir, mas sim, leva-los à perfeição. Pois em verdade vos digo: passará o céu e a terra, antes que desapareça um jota, um traço da lei”.

Como lemos, ele veio aperfeiçoar a Lei, não abolir, por isso ao fundar a sua Igreja, abriu as portas para todas as pessoas sem distinção: raças, línguas e nações. E quando chegou a hora, Ele fundou sua Igreja com os mesmos princípios, mas, aperfeiçoada de modo a abrir as portas da Salvação a quem por ela passasse e, por isso mesmo, deixou sua doutrina consolidada pelos Apóstolos, e para dar acesso a todos instituiu os Sacramentos dentre eles os mais importantes: o Batismo que inicia o cristão na Comunidade de Cristo, sua Igreja, a Confissão, na qual pelo poder de Cristo na pessoa do sacerdote nos reconcilia com Deus pela absolvição dos pecados,  e a Eucaristia, que é sua presença real em Corpo Sangue, Alma e Divindade, “eis que estarei convosco, todos os dias até o fim do mundo”, disse Jesus, (Cf. Mt28, 20).    

Não podemos esquecer que Jesus foi semelhante a nós em tudo, exceto no pecado (Cf. Hebreus 4, 15).

Portanto, celebrar o Natal com a consciência de que não é a comemoração de um personagem histórico ou uma celebridade importante, como Tiradentes, Dom Pedro I, Duque de Caxias, etc. Não! – É mais do que isso, o Natal é a celebração do mistério de Deus que se fez homem para nossa salvação. Cristo está vivo e ressuscitado em nosso meio. Não se celebra a morte, mas a vida. Jesus vive! O Natal é tempo de agradecimento por Deus ter nos dados seu Filho para nos salvar. Esse é o verdadeiro sentido do Natal.

A comemoração em família é importante, mas não pode ofuscar o verdadeiro sentido do Natal e nem deixar que o celebremos. Por isso, não é em casa que se celebra o Natal, mas é na Igreja, participando da Santa Missa do dia 24 e 25. Aliás, o dia 25 de dezembro para nós católicos é dia santo de guarda.

Em casa comemoramos em família o Natal, que não deve ser feito com desavenças, mas com a mesma presença de Jesus Cristo. Ele quer também nascer em nossas famílias. Natal não é comilança, praia, bebedeiras [...] Natal é momento solene de agradecimento. Podemos nos reunir à mesa, mas com o espírito de cristãos e não de pagãos. Saber que o dono da festa é o Noivo, é o Cordeiro de Deus, a festa é para Jesus e não para nós, é de agradecimento por ele ter nos salvado. Festa decente, músicas decentes, comportamentos decentes, união e não brigas, porque quando isso acontece o dono da festa se retira. A Oração em família. Tem gente que não se prepara para o Natal porque não entendeu ainda que o Natal não é nosso é de Cristo. 

Qual é o problema do externismo do Natal? O problema é tirar Jesus do centro. Comemorar uma data somente não faz nenhum sentido. A pergunta é: O Natal deve ser comemorado ou celebrado? A resposta é: mais celebrado que comemorado. Porque o motivo principal que a gente celebra o Natal é Jesus Cristo.

Muitas pessoas ficam presas aos atos externos natalinos: a troca de presentes, as reuniões em família, as ceias, os enfeites, as músicas, os sarais, os teatros, etc. Tudo isso é importante, mas não é o principal. De que adianta se empanturrar de comidas e guloseimas, encher o estômago uma vez por ano e passar a vida sem Jesus no coração?

O Natal só tem sentido se for o momento em que paramos para meditar sobre o amor de Deus por nós que nos deu Jesus, seu Filho amado para nossa Salvação. É momento de agradecer, de louvar e de adoração.

Muitas pessoas ficam presas nos externos natalinos e se esquece da singularidade do Natal. Olhemos para a pobreza do presépio: A gruta de Belém, ali Jesus, Maria, o Menino Jesus e os pastores, sim os pastores, aquela gente humilde, que sofria preconceitos, tida como escória da sociedade e mal educados [...] No entanto, o anjo aparece para eles e diz: “Não temais, eis que anuncio uma boa notícia que será alegria para todo o povo: Hoje vos nasceu na cidade de Davi um Salvador, que o Cristo Senhor. Isso vos servirá de sinal: acharás um recém-nascido envolto em faixas e posto em uma manjedoura”. (Lucas2, 9-12)

O Rei dos reis não nasceu rico. Nasceu na hostilidade de uma gruta, seu berço era um coxo onde os animais comiam, estava envolto em faixas, ainda nem tinha roupinha. No entanto, Ele, o Cristo de Deus veio para nos salvar. Belém, a cidade do rei Davi, é exaltada, já não é o menor dos lugarejos de Judá, mas, é grande porque recebeu o Salvador.

Será que as pessoas entendem isso? Deus que ama os pobres e pecadores e desde pequenos quis se fazer um deles. Assim é o Natal, é a festa do amor de Deus e nada mais. Deus que vem ao nosso meio, não nasce em um palácio, desce da sua Glória e se faz humilde. E toda sua caminhada neste mundo vai ser dentro da humildade e da servidão com gestos, palavras e ações.

Ensinou que felizes são os pobres, os humildes, os puros de coração, os perseguidos, os misericordiosos, os que choram...

No final de sua missão concretizando esta humildade lava os pés dos Apóstolos e diz: “Sabeis o que acabei de fazer? Vós me chamais de Mestre e Senhor, dizes bem porque eu sou. Se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, é para que vós também lavais os pés uns dos outros”. (João13, 12-14) – Morreu pobre, mas antes disse: “o filho do homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mateus8, 20) – profetizando assim o momento da sua paixão, morreu nu e sem lugar para reclinar a cabeça. Mas, esse Salvador que nasceu na pobreza e morreu pobre e nu, é Ele o Senhor, anunciado pelos anjos no Natal que revestido de glória está ressuscitado e voltará.

O Natal é tempo de olharmos mais para nossa vida, esquecer as coisas fúteis e se alegrar no Cristo Salvador.

Porque muitos acham que o Natal é uma festa pagã? Porque as pessoas estão esquecendo que o Natal é de Cristo e não nosso. Estamos pondo as coisas do mundo no centro, quando na verdade a centralidade do Natal é Jesus.

Neste contexto, para nossa reflexão, trago os escritos do historiador do século IV, Eusébio de Cesaréia. Primeiro historiador da Igreja depois de Lucas. Ele vai mostrar em seu relato quem é Jesus Cristo e descreve a situação política da Palestina mostrando em por menores como foi a chegada de Jesus, seu nascimento e os fatos que sucederam depois.      

Quem foi Eusébio?


Eusébio nasceu no ano 270 d.C e faleceu em 339 d.C. O local de seu nascimento é incerto, mas passou sua vida em Cesaréia, cidade romana da Palestina, foi bispo da Igreja de 313 a 315 em diante. Sua formação teológica foi baseada na obra de Orígenes. Escreveu várias obras dentre elas a “História Eclesiástica”.


Todos nós conhecemos Jesus, mas poucos sabem quem ele é de verdade. Para os cristãos ele é o Cristo, para os muçulmanos ele é apenas um profeta, para os espíritas ele é um espírito evoluído. Afinal quem é Jesus? 

O bispo Eusébio traz para nós a resposta com provas irrefutáveis, mostrando passo a passo que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus. Tudo foi feito por Ele, para Ele e n’Ele. Sua presença antes, durante e após a criação do mundo. Assim escreve Eusébio:         

 

Sobre a preexistência de Nosso Salvador e da atribuição de sua divindade:

 

“Sendo a índole de Cristo dupla: uma semelhante à cabeça do corpo, e por esta o reconhecemos como Deus, e outra, comparável aos pés, mediante a qual, e para a nossa Salvação ele se revestiu de homem, sujeito ao mesmo que nós, nossa exposição a seguir será perfeita se iniciarmos o discurso de toda sua história partindo dos pontos principais e dominantes. Deste modo, a antiguidade e o caráter divino dos cristãos ficará patente aos olhos de todos que pensam que [o cristianismo] é algo novo, estranho de ontem e não de antes.”

“Nenhum tratado poderia bastar para explicar em pormenores a própria substância e natureza de Cristo, por isso o Espírito divino diz: “Sua linhagem quem narrará?”; Pois na verdade ninguém conheceu o Pai senão o Filho, e ninguém conheceu alguma vez ao Filho, segundo a dignidade, se não o próprio Pai que o engendrou.”

“E quem a não ser o Pai, poderia conceber sem impureza a luz que é anterior ao mundo e a sabedoria inteligente e substancial que precedeu aos séculos, o Verbo vivente no Pai e que desde o princípio é Deus, o primeiro e único que Deus engendrou antes de toda a criação e de toda a produção de seres visíveis e invisíveis, o general do exército espiritual e imortal do céu, o anjo do grande conselho, o servidor do pensamento inefável do Pai, o fazedor de todas as coisas junto ao Pai, a causa segunda de tudo depois do Pai, o Filho de Deus, genuíno e único, o Senhor, o Deus e Rei de todos os seres, que recebeu do Pai a autoridade soberana e a força, junto com a divindade, o poder e a honra? Porque em verdade, segundo o que dizem d’Ele os misteriosos ensinamentos das Escrituras: “No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Todas as coisas foram feitas por Ele, e sem Ele nada foi feito (João1,1-3).”

“É isto mesmo que ensina o grande Moisés, como o mais antigo dos profetas, ao descrever, sob a inspiração do Espírito divino, a criação e a ordenação do universo: o Criador e fazedor do universo cedeu a Cristo e apenas a Cristo, seu divino e primogênito Verbo, o fazer os seres inferiores; e com Ele o vemos conversando acerca da formação do homem; disse também Deus: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gênese1, 26)”.

“Fiador desta sentença é outro profeta, ao falar de Deus em certa passagem de hinos: “Pois ele falou, e foi feito; ele ordenou, e foi criado”, (Salmo 33,9). Introduz aqui o Pai e criador dispondo com gesto régio na qualidade de soberano absoluto, e o Verbo divino, não outro que o mesmo que nos foi anunciado, como segundo depois d’Ele e ministro executor das ordens paternas.”

“A este, já desde o alvorecer da humanidade, todos quantos nos foi dito que sobressaíram por sua retitude e sua religiosidade: os companheiros do grande servidor Moisés, e antes dele Abraão, o primeiro, assim como seus filhos e todos que mostraram justos e profetas, ao contemplá-lo com os olhos límpidos se sua inteligência, o reconhecem e renderam-lhe o culto devido como o Filho de Deus.

“E Ele mesmo, sem desviar em nada de sua piedade para com o Pai, tornou-se para todos o mestre do conhecimento do Pai. E assim lemos que o Senhor Deus foi visto por Abraão, que estava sentado no carvalhal de Manré, sob a forma de um homem comum. Abraão se prostra de pronto e, ainda que o olhe com seus olhos de homem, ainda assim o adora como Deus, suplica-lhe como Senhor e confessa saber de quem se tratava, ao dizer textualmente: "Senhor, tu que julgas toda a terra, não vais fazer justiça?"  (Gênese 18, 25)”

“Porque, se nenhuma razão pode admitir que a substância não criada e imutável de Deus todo-poderoso se transforme na forma de homem, nem que a aparência de homem  criado engane os olhos de quem vêem, nem que a Escritura forje enganosamente tais coisas, um Deus e Senhor que julga toda na terra e faz justiça, e que é visto sob a aparência de homem, nem se permitindo dizer de que se trata da causa primeira do universo, que outro poderia ser proclamado como tal, senão seu único e preexistente Verbo? Sobre ele também se diz nos salmos: “Mandou seu Verbo e os sanou e os livrou de sua corrupção” (Salmo107, 20).

“Moisés o proclama claramente segundo o Senhor depois do Pai quando diz: “Fez o Senhor chover enxofre e fogo, da parte do Senhor sobre Sodoma e Gomorra” (Gênese19, 24). Também a Sagrada Escritura o proclama Deus quando apareceu a Jacó ne figura de um homem e falou a ele dizendo: “Já não te chamarás Jacó, e sim, Israel, pois lutaste com Deus”, e então Jacó chamou aquele lugar “Visão de Deus”, dizendo: “Porque eu vi o Senhor face a face, e minha vida se salvou” (Gênese32, 28-30).

“E não se pode supor que estas aparições divinas mencionadas sejam de anjos inferiores e servidores de Deus, pois quando algum destes aparece aos homens, não se cala a Escritura, mas chama-os por seu nome, não Deus nem sequer Senhor, mas, anjos, como é fácil provar com incontáveis passagens.”

“E a este Verbo, Josué, sucessor de Moisés, depois de havê-lo contemplado não de outra maneira que em forma e figura de homem, chama-o príncipe do exército de Deus, como fazendo-o chefe dos anjos e arcanjos do céu e dos poderes superiores, e como sendo poder e sabedoria do Pai e a quem foi criado o segundo posto do reinado e do principado sobre todas as coisas.”

“Porque está escrito: “Estando Josué perto de Jericó, levantando os olhos, viu diante dele um homem que trazia na mão uma espada nua; chegou -se Josué a ele e disse-lhe: "És tu dos nossos, ou dos nossos adversários?" Respondeu ele: Eu sou o general do exército do Senhor; acabo de chegar. Então Josué prostrou sobre seu rosto na terra e disse-lhe: Que diz meu Senhor ao seu servo? Respondeu o general do exército do Senhor a Josué: Descalça as sandálias de teus pés, porque o lugar que estás é santo” (Josué5, 13-15).

“De onde, partindo das próprias palavras, observarás que este é o mesmo que se revelou a Moisés, pois efetivamente a Sagrada Escritura refere-se a ele nos mesmos termos: “Vendo o Senhor que ele se aproximava para ver, o Senhor, do meio da sarça, o chamou, e disse: Moisés, Moisés! Ele respondeu: Eis-me aqui. E disse o Senhor: Não te chegues para cá, tira as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é terra santa. E lhe disse: Eu sou o Deus de teu pai, Deus de Abraão, Deus de Isaque e de Jacó” (Êxodo 3, 4-6)

“E ao menos que há uma substância anterior ao mundo, viva e subsistente, que serviu de ajuda ao Pai e Deus do universo na criação de todos os seres, chamada Verbo de Deus e Sabedoria. Além das provas expostas, nos foi dado ouvi-lo da própria Sabedoria em pessoa que, pela boca de Salomão nos inicia claramente e seu próprio mistério: “Eu, a sabedoria, plantei minha tenda no conselho e invoquei o conhecimento e a inteligência; por meu intermédio reinam os reis, e os potentados administram justiça; por meu intermédio os grandes são engrandecidos; e por meu intermédio os soberanos dominam a terra” (Eclesiático24, 6-12; Provérbios8, 15-16).

  “Ao que se acrescenta: “O Senhor me criou como princípio de seus caminhos em suas obras, antes dos séculos assentou meus fundamentos. No princípio antes que fizesse o céu e a terra, antes que brotasse as fontes das águas, antes de firmar os montes e antes de todos os outeiros, engendrou a mim. Quando preparava os céus, eu estava com Ele; e quando tornava perenes os mananciais que estão sob o céu, eu estava com Ele a dirigir. Eu me sentava ali onde a cada dia Ele se agradava e me encantava estar diante d’Ele em toda ocasião, quando Ele se congratulava por ter terminado o universo”.

“Brevemente pois, está exposto que o Verbo divino existia antes de tudo, e também a quem apareceu, já que não o fez a todos.”

“Mas porque não foi isto ensinado antes, antigamente, a todos as nações, assim como é agora? Talvez possa explica-lo esta resposta: a vida primitiva dos homens era incapaz de encontrar um lugar para o ensinamento de Cristo, todo sabedoria e virtude.”

“De fato, logo no início, depois de seu primeiro tempo de vida feliz, o primeiro homem se afastou dos mandamentos divinos e lançou-se nesta vida mortal e perecível, trocando as delícias divinas do começo por essa terra maldita. E seus descendentes povoaram toda nossa terra, e com exceção de uns poucos aqui e ali, foram manifestadamente degenerando e chegaram a ter uma conduta própria de animais e uma vida intolerável.”

“Não lhes ocorria sequer pensar em cidades, nem em normas, nem em artes, nem ciências. De leis e juízos, assim como da virtude da filosofia não conheciam nem o nome. Como gente rude e selvagem, levavam vida nômade por lugares desertos. Com a excessiva maldade a que livremente se entregaram. Corrompiam o raciocínio natural e toda semente de inteligência e suavidade próprias da alma humana. E a tal ponto se entregavam sem reservas à toda iniquidade, que por vezes se corrompiam mutualmente, às vezes se matavam uns aos outros, ocasionalmente praticavam antropofagia, levaram sua ousadia até combater contra Deus e travar guerras de gigantes por todos conhecidas, e pensaram em fortificar a terra contra o céu e preparar-se, em seu louco desvario, para fazer guerra àquele que está sobre tudo”.

“Aos que levavam tal vida, Deus, que tudo controla, perseguiu com inundações e incêndios devastadores, como fossem uma floresta selvagem espalhada pela terra, e os abateu com fomes contínuas, com pestes e guerras, e ainda fulminando-os do alto, como se com estes remédios tão amargos tentasse eliminar uma espantosa e gravíssima enfermidade das almas.”

“Então, pois, quando estavam realmente ao ponto de chegar ao estupor da maldade, como de uma tremenda embriaguez que obscurecesse e afundasse em trevas as almas de quase todos os homens, a Sabedoria de Deus, sua primeira e primogênita criatura, o próprio Verbo preexistente, por um excesso de amor aos homens, se manifestou aos seres inferiores, algumas vezes por mio de visões de anjos e outras por si mesmo, como poder salvador de Deus, a alguns poucos varões amigos de Deus, e não de outra maneira que em forma de homem, a única que poderia aparecer para eles”.

“Mas uma vez que, por meio destes, a semente da religião se estendeu a uma multidão de homens, e surgiu dos primeiros hebreus da terra uma nação inteira que se apegou à religião, Deus, por meio do profeta Moisés, entregou a estes, como a homens que continuavam em seu antigo estilo de vida, imagens e símbolos de certo misterioso sábado e da circuncisão, e iniciou-os em outros preceitos espirituais, mas não lhes revelou o próprio mistério”.

“Mas a sua lei ficou famosa, e como a brisa perfumada difundiu-se entre os homens. Então, a partir deles, as mentes da maioria dos povos se foi suavizando por influência de legisladores e filósofos daqui e d’acolá, e a suavidade, ao ponto de chegarem a uma paz profunda, amizade e trato de uns para com os outros. Pois bem, assim é que finalmente, no início do império romano e por meio de um homem que em nada diferia de nossa natureza quanto à substâncias corporal, se manifestou a todos os homens e a todas as nações espalhadas pelo mundo considerando-os preparados e dispostos já a receber o conhecimento do Pai, aquele mesmo mestre de virtudes em pessoa, o colaborador do Pai em toda obra, o divino e celestial Verbo de Deus, e tão grandes coisas realizou e padeceu quantas  se achavam nas profecias; estas haviam proclamado de antemão que um homem e Deus ao mesmo tempo viria habitar nesta vida e realizaria maravilhas  e seria conhecido como mestre da religião do Pai para todas as nações; também haviam proclamado a maravilha de seu nascimento, a novidade de seus ensinamentos, suas obras admiráveis e, como se isto fosse pouco, a forma de sua morte, sua ressurreição de entre os mortos e sobretudo sua divina restauração nos céus.”

“Quando ao reinado final do Verbo, o profeta Daniel, contemplando-o sob influência do Espírito divino, sentiu-se divinamente inspirado e descreveu assim, bem no estilo humano sua visão: “Porque eu – disse – estava olhando até que foram colocados tronos, e um ancião de muitos dias se assentou. E sua roupa era alva como a neve, e seu cabelo como lã limpa; seu trono era uma chama de fogo, e suas rodas, fogo ardente. Um rio de fogo brotava diante d’Ele e milhares de milhares o serviam e miríades e miríades estavam diante d’Ele. Sentou-se no tribunal e se abriram os livros” (Daniel 7, 9-10).

“Após poucas linhas continua dizendo: “Eu estava olhando, e eis que vinha com as nuvens do céu um como um filho de homem que se dirigiu ao Ancião de muitos dias, e o fizeram chegar até ele. Foi-lhe dado o domínio e glória e o reino, para que os povos, nações e homens de todas as línguas o servissem; o seu domínio eterno, não passará, e o seu reino não será destruído”.

“Pois bem, está claro que todas estas coisas não poderiam referir-se ao a outro que não fosse nosso Salvador, ao Deus-Verbo, que no princípio estava em Deus e que, por causa de sua encarnação nos últimos tempos foi chamado Filho do homem”.

“Mas fiquemos contentes com o que foi dito, para que a presente obra, pois em comentários especiais já reuni as profecias que tangem a Jesus Cristo, nosso Salvador, e em outros escritos dei uma melhor demonstração de tudo que expusemos acerca d’Ele”. 

 

De como os nomes de Jesus e de Cristo já eram conhecidos desde a antiguidade e honrados pelos profetas inspirados por Deus

[Das prefigurações do Antigo Testamento a respeito de Jesus Cristo]

 

“É chegado o momento de demonstrar que também entre os antigos profetas, amigos de Deus, já se honravam os nomes de Jesus e de Cristo”.

“Moisés mesmo foi o primeiro a conhecer o nome de Cristo cm o mais augusto e glorioso quando fez entrega de figuras, símbolos e imagens misteriosas das coisas do céu, conforme a voz que lhe dizia: “Vê, pois, farás todas as coisas segundo o modelo que te foi mostrado no monte”; e celebrando ao sumo sacerdote de Deus tanto quanto é possível a um homem, proclama-o Cristo. A esta dignidade do supremo sacerdócio, que para ele ultrapassa qualquer dignidade dos homens, sobre a honra e glória, adiciona o nome de Cristo. Portanto, ele conhecia o caráter divino de Cristo”.

“Mas o mesmo Moisés, por obra do Espírito divino, conhecia de antemão bem claramente também o nome de Jesus, considerando-o mesmo digno de um privilégio único. Na verdade, nunca havia pronunciado este nome entre os homens antes de ser conhecido por Moisés. Este aplica o nome de Jesus pela primeira e única vez àquele que, novamente conforme a figura e o símbolo, ele sabia que viria sucedê-lo depois de sua morte no comando supremo”.

“Nunca antes seu sucessor havia usado o nome de Jesus, mas era chamado de outro nome, Ausé, exatamente o que lhe haviam dado seus pais. Moisés deu-lhe o nome de Jesus como privilégio precioso, muito maior do que o de uma coroa real. Deu-lhe este nome porque, em realidade, o próprio Jesus, filho de Navé, era portador da imagem de nosso Salvador, o único que, depois de Moisés e depois de haver concluído o culto simbólico por ele transmitido, o sucederia no comando da verdadeira e sólida religião”.

“E desta maneira Moisés, dando-lhes a maior honra, aplicou o nome de Jesus Cristo nosso Salvador aos dois homens que, segundo ele, mais sobressaísse em virtude e glória sobre todo povo, a saber, o sumo sacerdote e aquele que haveria de sucedê-lo no comando”.

“Está claro também que os profetas posteriores anunciaram a Cristo por seu nome e deram testemunho adiantadamente, não apenas da conspiração do povo judeu que seria levantada contra Ele, mas também do chamamento que Ele faria a todas as nações. Uma vez será Jeremias, quando assim diz: O espírito de nosso rosto, o Cristo Senhor, de quem havíamos dito: A sua sombra viveremos entre os povos, caiu o preso e suas armadilhas (Lamentações4, 20). Outra vez será Davi, que exclama perplexo: “Por que se amotinaram as nações e os povos imaginaram planos vãos? Levantaram-se os reis da terra e os príncipes se uniram contra o Senhor e seu Cristo; e logo acrescenta, falando na própria pessoa de Cristo: “O Senhor me disse: Tu és meu filho, eu hoje, te gerei. Pede-me, e eu te darei as nações em herança e os confins da terra em possessão”.

“Mas, deve-se saber que, entre os hebreus, o nome de Cristo não era ornamento apenas dos que estavam investidos do sumo sacerdócio eram ungidos simbolicamente com óleo preparado, mas também dos reis, que eram ungidos pelos profetas por inspiração divina e faziam deles imagens de Cristo, pois efetivamente estes reis já levavam em si mesmos a imagem do poder real e soberano do único e verdadeiro Cristo, Verbo divino, que reina sobre todas as coisas”.

“Além disso, a tradição nos faz saber igualmente que também alguns profetas foram convertidos em “Cristos”, figuradamente, por meio da unção com o óleo, de forma que todos estes fazem referência ao verdadeiro Cristo, o Verbo divino e celestial, único sumo Sacerdote do universo, único rei de toda criação e, entre os profetas, o único sumo Profeta do Pai”.

“Prova disto é que nenhum dos que antigamente foram ungidos simbolicamente; nem sacerdotes, nem reis, nem profetas, possuíram tão alto poder de virtude divina como está demonstrado que possuiu Jesus, nosso Salvador e Senhor, o único e verdadeiro Cristo”.

“Ao menos nenhum deles, por mais que brilhasse por sua dignidade e por sua honra entre os seus em tantas gerações, deu jamais o nome de cristãos aos seus súditos, aplicando-lhes figuradamente o nome de Cristo. Nem tampouco seus súditos renderam-lhes honra de culto, nem foi de nenhum deles a disposição de que após a sua morte estivessem preparados para morrer pelo mesmo a quem horavam. E por nenhum deles houve tamanha comoção de todas as nações do vasto mundo. E assim é, que a força do símbolo que havia neles era incapaz de operar como operou a presença da verdade demonstrada através de nosso Salvador”.

“Este não tomou de ninguém os símbolos e figuras do sumo sacerdócio, nem descendia, quanto à carne, de família sacerdotal, nem foi elevado à dignidade real por um corpo de guarda composto de homens; nem mesmo foi um profeta igual aos de antigamente nem obteve entre os judeus nenhuma precedência de honra ou de qualquer outro tipo; e, ainda assim, está adornado pelo Pai de todas estas prerrogativas, e não por figura, mas em verdade mesmo”.

“Assim, sem ter sido objeto de nada semelhante ao que descrevemos, está proclamado Cristo com mais razão que todos aqueles, e sendo Ele mesmo o único e verdadeiro Cristo de Deus, encheu o mundo inteiro de cristãos, isto é, de seu nome realmente venerável e sagrado. Já não são figuras e imagens o que Ele entrega a seus seguidores, mas as próprias virtudes em sua pureza e uma vida no céu com a própria doutrina da verdade”.

“E a unção que recebeu não foi preparada com substâncias materiais, mas algo divino pelo Espírito de Deus, por sua participação na divindade incriada do Pai. É justamente isto que ensinava Isaías quando clamava como se o fizesse com a própria voz de Cristo: “O espírito do Senhor está sobre mim, por isto me ungiu: e enviou-me para anunciar a boa nova aos pobres, a apregoar os cativos à liberdade e aos cegos o ver de novo”. (Isaías61,1).

“E não apenas Isaías. Também Davi dirige-se ao mesmo Cristo e lhe diz: Teu trono é, ó Deus, eterno e para sempre; o cetro do teu reino, cetro de retidão. Amaste a justiça e odiaste a maldade, por isso ungiu Deus, o teu Deus, com óleo de alegria, mais que aos teus companheiros (Salmo45, 6-7). Aqui, o primeiro versículo do texto o chama Deus; o segundo honra-o com o cetro real”.

“Em continuação, depois de seu poder divino e real, mostra o mesmo Cristo, em terceiro lugar, ungido não com óleo que procede de matéria física, mas com o óleo divino da alegria, representando sua excelência, sua superioridade e sua diferença em relação aos antigos, ungidos mais corporeamente e figuradamente”.

“Em outra passagem, o mesmo Davi revela coisas que referem a Cristo com estas palavras: “Disse o Senhor ao meu senhor: Senta-te à minha destra enquanto ponho teus inimigos sob teus pés” (Salmo110, 1). E também: “Do meu sei te criei antes do alvorecer. Jurou o Senhor e não se arrependerá: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque” (Salmo110, 4).

“Pois bem, esse Melquisedeque aparece na Sagrada Escritura como sacerdote do Deus Altíssimo sem que fosse assinalado com algum óleo preparado e sem que fosse aparentado com o sacerdote hebreu por sucessão hereditária alguma. Por isso é que nosso Salvador é proclamado com juramento Cristo e Sacerdote segundo sua ordem e não segundo a de outros, que haviam recebido símbolos e figuras”.

“É por isso que a história tampouco nos transmitiu que Cristo tivesse sido ungido corporeamente entre os judeus, nem que tivesse nascido de uma tribo sacerdotal, pelo contrário, que recebeu seu ser de Deus mesmo antes do alvorecer, sito é, antes da criação do mundo, e que tomou posse de um sacerdócio imortal e duradouro pela eternidade sem fim”.

“Uma prova sólida e patente desta unção incorpórea e divina é que, de todos os homens de seu tempo, e dos que se seguiram até hoje, unicamente Ele, entre todos e no mundo inteiro, foi chamado e proclamado Cristo; somente a Ele reconhecem sob este nome, dão testemunho d’Ele e se recordam todos, tantos gregos, quanto bárbaros; e até hoje seus seguidores, espalhados por toda terra habitada, seguem dando-lhe honras de rei, honrando-o mais do que os profetas e glorificando-o como verdadeiro e único Sumo Sacerdote e nascido antes de todos os séculos, e por haver recebido do Pai as honras divinas, adoram-no como a Deus”.

“E o que é mais extraordinário: que aqueles que a Ele estamos consagrados não somente o horamos com voz e com palavras, mas também com a plena disposição da alma, ao ponto de estimar mais o martírio por Ele do que nossa própria vida”.

 

De quando Cristo se manifestou aos homens. 

 

“Bem, depois deste preâmbulo, necessário para a história eclesiástica a que me propus, só nos resta começar nossa espécie de viagem, partindo da manifestação de nosso Salvador em sua carne e depois de invocar a Deus, Pai do Verbo, ao mesmo Jesus Cristo, nosso Salvador e Senhor, Verbo celestial de Deus, como nossa ajuda e nosso colaborador na verdade da exposição”.

 

“Corria pois o ano 42 do reinado de Augusto, [nome completo: Caio Júlio César Otaviano Augusto (César Augusto)] e o vigésimo oitavo desde a submissão do Egito e da morte de Marco Antônio e Cleópatra (com o qual se extinguiu a dinastia egípcia dos Ptolomeus), quando nosso Salvador e Senhor Jesus Cristo nasceu em Belém da Judeia, conforme as profecias a seu respeito, nos tempos do primeiro recenseamento, e sendo Quirino governador da Síria”.

“Este recenseamento de Quirino também é registrado pelo mais ilustre dos historiadores hebreus, Flavo Josefo, ao relatar outros feitos referente à seita dos galileus, surgida naquela ocasião, e a qual também é mencionada pelo nosso Lucas no livro dos Atos quando diz: “Depois deste levantou judas o galileu, nos dias do recenseamento, e arrastou o povo atrás de si. Também este pereceu, e todos os que o seguiram se dispersaram” (Atos5, 37). 

“A estas indicações o mencionado Josefo acrescenta literalmente no livro 18 de suas “Antiguidades” o seguinte: “Quirino, membro do senado, homem que havia desempenhado já outros cargos pelos quais passou, sem omitir um só, até chegar a cônsul e grande por sua dignidade em todos os demais, assumiu a Síria acompanhado por uns poucos, enviado por César como juiz da nação e censor dos bens”.

“E pouco depois diz: “Mas judas gaulanita – da cidade chamada Gaula –, tomando consigo a Sadoc, um fariseu, andava instigando à rebelião; dizia que o censo não conduziria outra coisa que não a escravidão declarada, e exortava o povo a aferrar-se à liberdade”.

“E sobre o mesmo escreve no livro 2 de suas “Histórias da guerra judaica”: “Por esse tempo certo galileu, chamado Judas, provocou a rebelião dos habitantes do país, reprovando-lhes a submissão ao pagamento do tributo aos romanos e ao submeter-se a amos mortais além de Deus”. Assim escreveu Josefo”. 

 

De como segundo as profecias, sem seus dias terminaram os reis por linha hereditária que regiam a nação judia e começou a reinar Herodes, o primeiro estrangeiro

 

“Foi nesse tempo que assumiu o reinado sobre o povo judeu, pela primeira vez, Herodes, de família estrangeira, e cumpriu-se a profecia feita por meio de Jeremias, que dizia: “Não faltará chefe saído de Judá nem governante nascido de sua carne até que chegue aquele para quem está reservado” (Jeremias33,17). E sinaliza-o como esperança das nações .”

    “Esta predição efetivamente não havia sido cumprida durante o tempo que ainda lhes era permitido viver sob governantes de sua própria nação, começando com o próprio Moisés e continuando até império de Augusto. Nos tempos deste é que pela primeira vez um estrangeiro, Herodes, se vê investido pelos romanos com o governo dos judeus: segundo nos informa Josefo, era um idumeu por parte de pai e árabe por parte de mãe. Mas, segundo Africanus – que não era mau historiador –, os que dão informação exata sobre Herodes dizem que Antípatro (este era seu pai) era filho de um certo Herodes de Ascalon, um dos chamados hieródulos, que servia no templo de Apolo.

“Este Antípatro, ainda criança, foi raptado por bandidos idumeus e viveu ele. Criado em meio a seus costumes, mais trade firmou amizade com Hircano, sumo sacerdote judeu. Dele nasceu Herodes dos tempos de nosso Salvador”.

“Tendo, pois, o reino judeu vindo às mãos de tal pessoa, a expectativa das nações, conforme a profecia, estava também à porta; havia desaparecido do reino os príncipes e mandatários descendentes por via de sucessão entre si do próprio Moisés”.

“Ao menos tinham reinado antes do cativeiro e da migração para a Babilônia, começando com Saul – o primeiro – e por Davi. E antes dos reis, foram governados por mandatários chamados de juízes, que tinham começado também depois de Moisés e de seu sucessor, Josué”.

“Pouco depois do regresso da Babilônia servira-se initerruptamente de um regime político de oligarquia aristocrática (eram os sacerdotes que estavam à frente dos assuntos), até que o general romano Pompeu atacou Jerusalém, assaltou à força e profanou os lugares santos entrando até a parte mais escondida do Templo. E aquele que até o momento havia mantido por sucessão hereditária, na qualidade de rei e de sumo sacerdote – chamava-se Aristóbulo – mandou acorrentado à Roma, junto com seus filhos, e entregou o sumo sacerdócio a seu irmão Hircano. A partir daquele momento o povo judeu inteiro tornou-se tributário dos romanos”.

“Desta forma, assim que Hircano, último a quem chegou à sucessão dos últimos sacerdotes, foi levado cativo pelos partos, o senado romano e o imperador Augusto colocaram a nação judia nas mãos de Herodes, o primeiro estrangeiro, como já foi dito”.

“Em seu tempo ocorreu visivelmente a vinda de Cristo e, segundo a profecia, seguiu-se a esperada salvação e vocação dos gentios. A partir deste tempo efetivamente, os príncipes e mandatários originários de Judá, quero dizer, os que vinham do povo judeu, desapareceram, e em seguida naturalmente viram perturbados também os assuntos do sumo sacerdócio, que então vinha sendo passado de modo estável de pais para filhos em cada geração”.

“Encontramos importante testemunho de tudo isso em Josefo, que explica como Herodes assim que os romanos lhe confiaram o reino, deixou de instituir sumos sacerdotes vindos da antiga linhagem, pelo contrário, distribuiu esta honra entre gente sem expressão. E diz ainda que a instituição dos sacerdotes Herodes foi imitado por seu filho Arquelau e depois dele pelos romanos, quando tomaram para si o governo dos judeus.”

“O mesmo Josefo explica como Herodes foi o primeiro a fechar sob seu próprio selo as vestimentas sagradas do sumo sacerdote, não permitindo mais aos sumos sacerdotes levá-las sobre si, e que o mesmo foi feito por seu sucessor Arquelau, e depois deste pelos romanos”.

“Tudo o que foi dito sirva como prova do cumprimento de outra profecia referente à manifestação de Jesus Cristo nosso Salvador. No livro de Daniel, a Escritura determina clara e expressamente um número de semanas até o Cristo príncipe – acerca do que fiz uma exposição detalhada em outras obras – e profetiza que, depois de cumprida estas semanas, seria extinta por completo a unção entre os judeus. Agora, pois demonstra-se claramente que isto se cumpriu com o nascimento de nosso Salvador Jesus Cristo. Sirva como exposição necessária para a verdade das datas”.

 

Explicação de Eusébio sobre a discrepância acerca da genealogia de Jesus Cristo, segundo os evangelistas Mateus e Lucas

 

“Posto que ao escrever seus evangelhos Mateus e Lucas nos transmitiram genealogias diferentes acerca de Cristo, que para muitos (até os nossos dias) parecem discrepantes, e como cada crente, por ignorância da verdade, se esforça por inventar sobre estas passagens, vamos adicionar considerações sobre este tema que chegaram a nós e que Africanus, mencionado a pouco, recorda em carta a Aristides. Acerca da concordância das genealogias nos evangelhos. Refuta as opiniões dos demais como forçadas e mentirosas, e expõe o parecer que recebem nestes mesmos termos: Porque efetivamente, em Israel os nomes das famílias se enumeram segundo a natureza e segundo a lei. Quando um morria sem filhos e seu irmão os engendrava para conservar o nome (a razão é que ainda não se havia dado uma esperança clara de ressurreição, e arremedavam a prometida ressurreição futura como uma ressurreição mortal, para que se perpetuasse o nome do falecido). Como queira, que os incluídos nesta genealogia uns se sucederam por via natural de pais a filhos, e os outros, ainda que gerados por uns, recebiam o nome de outros, de ambos os grupos se registra a memória: dos que foram gerados e dos que passaram por sê-lo”.

“Deste modo nenhum dos evangelhos engana: enumeram segundo a natureza e segundo a lei. De fato, duas famílias, que descendiam de Salomão e de Natã respectivamente, estavam mutuamente entrelaçadas por causa das ressurreições dos que haviam morrido sem filhos, das segundas núpcias e da ressurreição da descendência, de forma que é justo considerar os mesmos indivíduos em diferentes ocasiões filhos de diferentes pais, dos fictícios e dos verdadeiros, e também que ambas genealogias são estritamente verdadeiras e chegam até José por caminhos complicados, mas exatos”.

“Mas para que fique claro o que foi dito, vou explicar a transposição das linhagens. Que vai enumerando gerações a partir de Davi e através de Salomão encontra que o terceiro antes do final é Matã, o qual gerou Jacó, pai de José. Mas partindo de Natã, filho de Davi, segundo Lucas, também o terceiro para o final é Melqui, pois José era filho de Heli, filho de Melqui. Portanto, sendo José nosso ponto de atenção, deve-se demonstrar como nos é apresentado como seu pai um outro: Jacó, que traz sua linhagem de Salomão, e Heli, que descende de Natã; e de que modo, primeiramente os dois, Jacó e Reli, são irmãos; e ainda antes, como é que os pais deste Natã e Melqui, sendo de linhagens diferentes, aparecem como avós de José?”

“Assim é que Matã e Melqui se casaram sucessivamente com a mesma mulher e tiveram filhos, filhos de uma mesma mãe, pois a lei não impedia que uma mulher sem marido – porque este a houvesse repudiado ou porque houvesse morrido – se casasse com outro”.

“Pois bem, de Esta (pela tradição era assim que chamava a mulher), Matã, o descendente de Salomão foi o primeiro, gerando Jacó; tendo morrido Matã, causou-se a viúva com Melqui, cuja descendência remonta a Natã e que, sendo, como dissemos antes da mesma tribo, era de outra família. Este teve um filho: Heli”.

“E assim encontramos que, sendo de duas linhagens diferentes, Jacó e Heli são irmãos por parte de mãe. Morrendo Heli sem filhos, seu irmão Jacó casou-se com uma mulher, e dela teve um terceiro filho, José, o qual, segundo a natureza, era seu (e segundo o texto, pois por isso está escrito: ‘Jacó gerou a José’), mas, segundo a lei, era filho de Heli, já que Jacó, sendo seu irmão suscitou-lhe descendência”.

“Portanto, não se tirará autoridade a sua genealogia. Ao fazer tal enumeração o evangelista Mateus diz: ‘Jacó gerou a José; mas Lucas procede o contrário: O qual era segundo se cria (porque também acrescenta isso), filho de José que era filho de Heli, filho de Melqui. Não seria possível expressar mais corretamente o nascimento segundo a lei: vai remontando um a um até Adão, que foi de Deus, e até o final omite o “gerou”, para não o aplicar a este tipo de paternidade”. 

“E isto não está sem provas nem é improvado. Efetivamente, os parentes carnais do Salvador, por geração ou simplesmente pelo ensino, mas sendo verdadeiros em tudo, transmitiram também o que segue. Uns ladrões idumeus assaltaram Ascalon, cidade da Palestina; de um templo de Apolo, construído diante dos muros, levaram cativo, junto com os despojos, a Antípatro, filho de hieródulos chamado Herodes. Não podendo o sacerdote pagar o resgate por seu filho, Antípatro foi educado nos costumes idumeus, e mais tarde fez amizade com Hircano, o sumo sacerdote da Judéia”.

“Logo tornou-se embaixador junto a Pompeu em favor de Hircano, para quem conseguiu o reinol devastado por seu irmão Aristóbulo; e ele mesmo prosperou muito, pois logo conseguiu o título de epimeletés, da Palestina. A Antípatro, assassinado por inveja de sua grande fortuna, sucedeu seu filho Herodes, que mais tarde por decisão de Antônio e Augusto e por decreto senatorial, reinaria sobre os judeus. Este teve como filhos Herodes e os outros tetrarcas. Todos estes dados coincidem com as histórias dos gregos”.

“Além disso, estando escritas até então os arquivos as famílias hebreias, inclusive as que remontam aos prosélitos, como Aquior o amonita, Rute a moabita e os que saíram do Egito misturados aos hebreus, Herodes, por não ter nada com a raça dos israelitas e magoado pela consciência de seu baixo nascimento, fez queimar os registros de suas linhagens, acreditando que passaria por nobre, já outros também não poderiam remontar sua linhagem, apoiados em documentos públicos, aos patriarcas ou aos prosélitos ou aos chamados “geyoras”, os estrangeiros misturados”.

“Em realidade, uns poucos mais cuidadosos que tinham para si registros privados ou que se lembravam dos nomes ou haviam-nos copiado, se ufanavam se ter salvo a memória da nobreza. Ocorreu que entre estes estavam aqueles de que falamos antes, chamados despósinoi por causa de seu parentesco com a família do Salvador e que, desde as aldeias de Nazaré e Cocaba, visitaram o resto do país e explicaram a referida genealogia, começando pelo Livro dos Dias, até onde alcançaram”.

“Seja assim ou de outro modo, ninguém poderia encontrar uma explicação mais clara. Eu ao menos penso assim, e assim também todo aquele que tenha boa vontade. Ainda que não seja comprovada, ocupemo-nos dela, porque não é possível expor outra melhor e mais clara. Em todo caso, o Evangelho diz inteiramente a verdade”.

“E ao final desta mesma carta adiciona o seguinte: Matã, da linhagem de Salomão, gerou Jacó. Morto Matã, Melqui, o da linhagem de Natã gerou da mesma mulher a Heli. Portanto, Heli e Jacó são irmãos uterinos. Morto Heli sem filhos, Jacó dá-lhe uma descendência gerando a José, filho seu segundo a natureza, mas de Heli segundo a Lei. Assim é que José era filho de ambos”. Assim diz Africanus.

“Estabelecida desta maneira a genealogia de José, também Maria aparece junto a ele, obrigatoriamente, como sendo da mesma tribo, já que ao menos segundo a lei de Moisés, não era permitido misturar-se às outras tribos, pois é prescrita a união em matrimônio com um do mesmo povo e da mesma tribo, para que a herança familiar não rodasse de tribo em tribo. Que isso seja o bastante”.             

 

[Aqui Eusébio esclarece e afirma que não existe discrepância na narração das genealogias de Jesus Cristo escritas por Mateus e Lucas, apenas ambos seguiram linhas genealógicas diferentes, enquanto um descreve segundo a descendência por parte direta, ou seja, por natureza, o outro descreve a descendência de Cristo segundo a lei, conforme era comum entre a lei dos judeus.] 

 Sobre os Magos do Oriente

Não eram três e nem eram reis



 

Teologicamente nos é apresentado os magos do Oriente e, cujos foram visitar o Menino Jesus trazendo seus presentes: Ouro, incenso e mirra. São Mateus2, 1-12, assim descreve:

Tendo, pois Jesus nascido e, Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que magos vieram do Oriente à Jerusalém. Perguntaram eles: “Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo”. A esta notícia, o rei Herodes ficou perturbado e toda Jerusalém com ele. Convocou os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo e indagou deles onde havia de nascer o Cristo. Dissera-lhe: “Em Belém, na Judéia porque assim foi escrito pelo profeta: E tu Belém, terra de Judá, não és de modo algum a menor entre as cidades de Judá; porque de ti sairá o chefe que governará Israel, meu povo”. (Miquéias 5, 2).

Herodes, então, chamou secretamente os magos e perguntou-lhes sobre a época exata em que o astro lhes tinha aparecido. E enviando-os à Belém disse: “Ide e informai-vos bem a respeito do menino. Quando o tiveres encontrado, comunicai-me, para que eu também vá adorá-lo”. Tendo eles ouvido as palavras do rei, partiram.

Eis que a estrela, que tinham visto no Oriente, os foi precedendo até chegar sobre o lugar onde estava o menino e ali parou. Entrando na casa, acharam o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se diante dele, o adoraram. Depois, abrindo seus tesouros, ofereceram-lhe ouro, incenso e mirra. Avisados em sonhos de não retornarem a Herodes, voltaram para sua terra por outro caminho. 

Percebam o que o evangelista Mateus disse: “Eis que magos vieram do Oriente à Jerusalém”. Mateus não descreve a quantidade daqueles homens. Então, porque entendemos que eram três? Essa dedução se deu mais tarde na Idade Média. Supondo que eram três por causa dos presentes ofertados, logo deduziram que eram três à quantidade de magos.

 Mas, vamos analisar os fatos à luz da história. E e para isso, precisamos voltar no tempo em que os fatos aconteceram. Quem eram os magos e qual a situação do lugar por onde eles percorreram até chegar em Belém. 

Viajaram por quase 3.000 quilômetros de terra árida, com sol escaldante, o calor escaldante do deserto, talvez até tempestades de areia, e com frio congelante à noite.

Uma viagem perigosa cheia de salteadores para encontrar um recém-nascido. Mas, é importante viajar, porque eles estavam indo ao encontro não de um recém-nascido comum, mas, alguém que iria mudar a história do mundo. Todos os esforços empregados na viagem eram importantes, afinal queriam chegar à terra dos judeus para ver o Messias. 

A história já se dá conta que não eram três, não traziam coroas e nem chegaram no dia do nascimento. Sua verdadeira história é maior que a lenda e começa muito antes de todos estes fatos. Numa terra onde o fogo era sagrado e os homens possuíam uma habilidade intelectual que até hoje surpreendem os mais estudiosos.

Há muitos anos esta história é lida e relida. Mais de 18 séculos construíram uma história em cima desses versículos. Como sabemos os nomes dos o Magos, Belchior, Baltazar e Gaspar, de onde surgiram já que Mateus não os cita? Bem, para isso vamos traçar uma linha do tempo para explicar o surgimento desses nomes.

Século I: Evangelho de Mateus menciona apenas “magos do Oriente”, sem nomes. 

Século III: Escritos apócrifos começam a sugerir nomes e número dos magos, nomes aparecem no Evangelho Armênio da Infância de Jesus. 

Século VI: Tradições cristãs fixam três nomes: Melchior, Gaspar e Baltazar. 

Idade Média: Cada nome é associado a um continente (Europa, Ásia, África). 

Século XV: Arte e liturgia consolidam os nomes como parte da Epifania.

Atualidade: Tradição popular e celebrações do Dia de Reis mantêm os três.

Mateus não descreve que os magos estiveram em Belém no dia do nascimento. Ele diz que os Magos passaram em Jerusalém e, tendo encontrado Herodes, indagaram onde haveria de nascer o rei dos judeus e foi à partir daí que eles souberam que ele nasceria em Belém de Judá. Até que a estrela que os precedia parou sobre o lugar. Então entraram na casa, e vendo o menino com sua mãe o adoraram o Menino e ofertaram os presentes. 

Com isso, podemos supor que eles levaram mais tempo para chegar à Belém, talvez seis meses a um ano e meio, tempo suficiente para a família se estabelecer em uma casa, [geralmente as casas do tempo de Jesus possuíam um lugar de moradia, um lugar para hóspedes e em baixo um lugar para os animais]. E que também não partiram imediatamente porque Mateus relata que eles foram avisados em sonho para não retornar pelo mesmo caminho. É natural que diante de uma viagem longa e cansativa precisassem recompor as forças, algo em torno de dois a três dias.

Podemos calcular que a visita dos magos ocorreu em Belém, mas Jesus já devia ter de um a um ano e meio de idade.  A narração de Mateus está de acordo, quando ele narra que Herodes mandou matar os bebês de dois anos para baixo, crendo que com eles mataria também a Jesus. 

Quanto aos magos, precisamos voltar no tempo, 500 anos antes, quando nas montanhas do planalto da Mesopotâmia, hoje território Iraniano, um grupo de homens guardava um conhecimento que ninguém mais possuía. Eles eram chamados de magos, não eram feiticeiros, eram estudiosos, eram homens sábios. Representavam a elite intelectual do império Persa.

Heródoto o Pai da história descreveu os magos no século V a.C. e na fonte os apresentou como conselheiros do soberano, autoridades em questões religiosas e celestes, mas nenhum dos dois compreendeu toda a verdade. Os magos não eram apenas conselheiros, eles guardavam os conhecimentos antigos. Enquanto a Europa ainda vivia a rudez tribal, eles calculam com precisão o movimento dos astros, do sol, dos planetas [...] A Babilônia guardava registros astronômicos que datavam milênios atrás, e esses homens usavam seus conhecimentos com muita precisão desafiando o tempo.

Eles não só observavam o céu, mas, também interpretava os movimentos celestes, previam eclipses com anos de antecedência. Conheciam os ciclos de Sauron e catalogaram as constelações, traçaram a trajetória dos planetas errantes e mediram a duração do ano solar.

Tabuinhas de argila recuperadas da Babilônia e Nínive, datadas do segundo milênio a.C. Os diários astronômicos babilônicos, que estão guardados no museu britânico registram por séculos a posição dos planetas, noite após noite. Eles não adivinhavam, mas, calculavam com muita precisão que até hoje os astrônomos modernos recorrem a eles para seus estudos. O conhecimento deles ia além da matemática. Eles seguiam os ensinamentos do Zoroastro, fundador do Zoroastrismo, uma doutrina que parece surpreender e que é semelhante a tradição judaica porque eles também possuíam um único Deus supremo, a Uramazda, acreditavam na luta entre a luz e as trevas, do julgamento após a morte, do Paraíso e do inferno e na chegada do Salvador.

Eles esperavam por um redentor nascido de uma virgem que renovasse o mundo, que vencesse o mal e ressuscitaria os mortos. Uma imagem que lembra outras tradições, inclusive as tradições judaicas e que não é uma simples coincidência.

Mas, a questão é: Quem influenciou quem? – Os judeus inspiraram os persas, ou foram os persas que influenciaram os judeus?

Muitos estudiosos acreditam que a resposta está em um evento que mudou o curso da história. Em 586 a.C. Jerusalém caiu nas mãos dos babilônicos. O Templo foi destruído e o povo judeu oi deportado para a Babilônia, local onde vivia os magos. Para essa terra chegaram as profecias que os exilados levaram com eles.

 Encontro desses dois mundos, persa e judeu foi decisivo na história antiga. Daniel não era um exilado qualquer sua inteligência impressionou o rei Nabucodonosor a tal ponto de ser elevado a chefe dos sábios da Babilônia, guia dos magos e astrólogos.

O livro de Daniel capítulo II, versículo 48, afirma isso claramente. "Um profeta judeu tornou-se mestre dos mesmos magos que séculos depois procuraram o Messias".

Não podemos dizer que é uma mera coincidência, mas é como um fio que atravessa o tempo e a história. Daniel possuía as profecias mais detalhadas sobre a chegada do Cristo. Em particular as das 70 semanas de Daniel. (Daniel9, 20.24-27), um calendário profético que indicava precisamente quando chegaria o Messias, quando ele seria morto e quando Jerusalém cairia em ruína. [Daniel profetizou a queda de Jerusalém pelos Babilônicos e Jesus profetizou a queda de Jerusalém pelos Romanos].

Os magos estudaram este texto de Daniel e compararam com o de Isaías, com os salmos de Davi e com profecias de Balaão que anunciavam uma estrela de Jacó e o nascimento de um rei. Então eles presenciaram algo que vai mudar a história. Quando o rei Ciro o grande conquistou a Babilônia (539 a.C.), ele libertou os judeus e reconstruiu o Templo de Salomão, seguindo o conselho dos magos que o convenceu de que aquele Tabernáculo era do Deus verdadeiro.

Existe prova arqueológica, o Cilindro de Ciro, que está no museu britânico dá testemunho desta libertação. É um fragmento de argila que conta esse feito histórico. 

Os judeus tinham Ciro como enviado de Deus e o profeta Isaías no capítulo 45, versículo 1, o chama de o “ungido de IHWH, Yahweh . 

Nem todos os judeus voltaram para Jerusalém, alguns ficaram na Mesopotâmia e fundaram sinagogas e comunidades muito influentes. Eles conservaram as Escrituras e fundaram escolas; é provável  que os magos tiveram acessos a esses documentos. Nos séculos que se sucedem as escolas rabínicas da Babilônia cresceriam e Talmude babilônico se tornou um dos textos mais importantes do judaísmo.

Por gerações os laços persas e judaicos tornaram-se grandes e mudaram gerações. Por cinco séculos esse conhecimento foi aperfeiçoado, passando de professor para aluno, até que Deus ofereceu o extraordinário, um grande sinal.

Após 800 anos Júpiter e Saturno se aproximaram três vezes na constelação de peixes, formando uma conjunção tripla. No século XVII, Kleper calculou isso. E as antigas tabuinhas babilônicas confirmam o evento. A tabuinha de Sipar que está no museu de Berlin falava dessa conjunção. Os magos já previam esta conjunção a muito tempo e imediatamente a reconheceram. É astronomia e não astrologia, nem magia. Eles entenderam a mensagem divina dos céus. Júpiter representava Marduck, Saturno representava a justiça ligada aos israelitas e peixes simbolizava a sua terra. Esses três encontros: maio, outubro e dezembro. Brilhantes e visíveis a olho nu. Um fenômeno raro segundo os astrônomos modernos. Para os magos um sinal divino. Não tinha dúvidas, um rei havia nascido. Não era um soberano qualquer, mas alguém que esperavam há séculos, ou seja, o Messias, anunciado pelas profecias. A mais antiga delas assim falava: Números24, 17, descreve as palavras de Balaão: “Uma estrela surgirá de Jacó e um cetro de Israel”.

Texto muito conhecido pelos rabinos e o Targum o relacionava diretamente ao Messias. Quando Barcoja liderou a rebelião de 132/136 a.C. foi chamado de “filho a estrela” justamente por esse motivo.

Um texto de Orígenes conta que uma estrela apareceu os magos perceberam que algo mudava. Suas artes perderam poder, como se a força por trás daquele sinal superasse todos os seus conhecimentos. Eles procuraram nos livros antigos e, tendo encontrado a profecia de Balaão e tiveram a certeza de que o que acontecia era maior do eles.

 Mas, aquela estrela não era apenas a conjunção dos planetas, o fenômeno descrito pelo evangelista Mateus mostra que aquele evento não a ciência não pode dar explicação. A luz aparece e desaparece se move e finalmente para em cima da casa em Belém, onde estava o menino. Embora na mente deles e na história fala-se sobre uma estrela, essa luz que os guiou até Belém, guiou outrora Moisés e o povo de Deus pelo deserto. Para os hebreus ela iluminava os caminhos, para os egípcios ela confundindo-lhes o caminho contra a perseguição do Faraó. Não era simplesmente uma estrela era a Luz de Deus guiando aqueles homens.     

Aquela não era uma estrela qualquer, era uma manifestação da glória de Deus. Tornada de forma visível aos olhos humanos; e os magos diante de tudo isso tiveram que escolher entre permanecer em segurança de seu mundo ou partir para terras distantes, para a Judéia, guiados por um sinal que desafiava toda a lógica. Eles tinham riquezas, prestígios e estabilidade, porque arriscar tanto por uma criança? Porque quando nos é manifestada a verdade, ninguém pode ficar acomodado. Depois de ver o que eles viram, não podiam mais ser os mesmos. Quando o céu fala com a gente a vida comum não é mais suficiente [...] assim, eles partiram e escolheram uma viagem cheia de riscos, que não ofereciam nenhum conforto. Da Babilônia à Jerusalém é de um mil e trezentos quilômetros em linha reta. Mas, as caravanas não seguiam em linha reta. Elas passavam pelas curvas dos rios, contornavam as montanhas, atravessavam oásis remotos, percorrendo as rotas de comércio do mundo antigo, levando ao percurso de 2.700 Quilômetros, enfrentando perigos invisíveis. 

O livro de Esdras nos mostra esta cronologia, (Esdras7, 9), o retorno dos exilados de volta para a Judéia levou quatro meses, saindo no quarto dia do primeiro mês e chegaram no primeiro dia do quinto mês. Era uma caravana protegida pelo poder imperial. Imaginem a mesma rota no primeiro século, de dia temperaturas acima dos cinquenta graus e à noite gelada, além dos assaltantes, animais selvagens como os leões, cobras sob a areia. Imagine a resistência daqueles homens somente para encontrar um menino. Não um menino qualquer, mas, alguém muito importante, o Cristo de Deus.

As rotas comerciais eram do comércio de seda, especiarias, metais preciosos e escravos. Os nabateus controlavam vastas regiões do comércio, os partas dominavam a mesopotâmia, bandidos por todo lado, e então podemos perguntar: eram mesmos só três aqueles homens? Alguns acham que eram muito mais. Mas, eu prefiro pensar que eram três caravanas, com três líderes, o que não era pouca gente, afinal nenhuma pessoa ousaria empreender tal viagem em um número reduzido mediante as dificuldades da época como exposto acima.

Embora a tradição ocidental afirme que eram três homens, por causa dos três presentes, na lógica oriental isso não faz sentido. O Oriente fala de dois textos siríacos que listam ainda mais, o manuscrito armênio do século V, relata os nomes de dois magos, as tradições persas falam de numerosas caravanas oficiais e Mateus não indica nenhuma quantidade.

Eles trouxeram ouro, incenso e mirra, riquezas de valor incalculável. Eles teriam enfrentado quase três mil quilômetros em um território perigoso, hostil em apenas um número de três, se pensarmos isso seria impossível que não houvesse mais pessoas para protegê-los. Eles precisavam de guardas, servos animais de carga que carregasse água, comida e tendas. Precisavam de guias experientes que conhecessem a região. Seria uma caravana completa, não é como hoje que as pessoas viajam de trem, avião, ônibus, etc. Naquele tempo viajar era uma verdadeira aventura, mas uma verdadeira penúria. Estima-se então que eles levaram cerca de 4 a 6 meses para chegar à Jerusalém e à Belém.

Por onde passavam chamavam atenção e deixavam muita gente curiosa. Não era apenas homens em viagem, era sinal de que algo grande estavam acontecendo. Uma quantidade de homens cruzando o deserto, uma inundação de camelos e dromedários, carregando tesouros, tendas ao pôr-do-sol, fogueiras, e noite após noite contemplam a andança de Jupiter e Saturno [...] eles não pararam. Seus presentes não foram escolhidos por acaso; o ouro representava a realeza, vinha das minas da Arábia; o incenso, especiaria muito cara, representa a divindade, era queimado nos templos de todas as civilizações (Egito, Israel, Babilônia, Grécia Roma, etc.), a fumaça que subia representava as orações que se eleva aos céus a Deus e aos deuses. [Nero queimou todo estoque de incenso no funeral de Popia; os templos romanos consumiam toneladas de incenso].

 A mirra era usada para ungir reis e profetas, para confecção de perfumes, aplicação medicinal, e para preparar cadáveres, embalsamamento ou mumificação; ela é representa o sofrimento de Cristo; ambos vinham da Península Arábica e da costa da Somália.

Os magos trouxeram os bens mais preciosos que o mundo antigo podia ter. Carregavam um simbolismo maior do quem os oferecia. Ouro para um rei, incenso para um Deus e mirra para quem iria morrer. Nestes presentes estavam profeticamente representadas tudo aquilo que o Salvador representava e o sofrimento que ele deveria sofrer até a morte por nós na cruz.

A realeza de Cristo é diferente da realeza de Herodes; porque Herodes era um rei usurpador, enquanto que Cristo era o Salvador o Rei dos reis, o filho de Davi e nosso Redentor. Herodes representa o mal que se opõe ao bem, as trevas contra a luz e o mundo que não aceita a realeza de Cristo.

Os Magos representam as nações de toda terra que hão de adorar e reconhecer Nosso Senhor como único e verdadeiro Deus e Senhor. Ao contrário de Herodes, os magos sabiam que aquele Menino não era uma criança qualquer, mas, o Messias esperado, o Rei, o Filho de Deus. Por isso, a viagem foi cansativa, perigosa, mas valeu apena encontrar o “Rei dos Judeus”, o Cristo Senhor. Então a viagem foi reconfortada de alegria e voltaram pra casa jubilosos por ter realizado a sagrada missão e mesmo sem perceber cumpriram a profecia representada pelos seus presentes.

Herodes por outro lado, representa o mal, o ódio daqueles que não aceitam a luz e preferem viverem nas trevas. Herodes é a imagem da ignomínia, da morte, do pecado. Daqueles que até os dias de hoje não aceitam o Jesus como Deus, Senhor e Salvador. Mas, Herodes sem saber também cumpria outra profecia, a daqueles que durante a toda vida pública de Jesus, se opunham aos seus ensinamentos, procuravam armadilhas para matá-lo, perseguiam não só a Ele, mas, seus discípulos e apóstolos, até os nossos dias Herodes é representado por aqueles que perseguem a Cristo e a sua Igreja. Por aqueles que detém o poder nas mãos e usam do poder para matar os cristãos. Herodes, facínora, canalha sem escrúpulos, invejoso [...] quantos Herodes temos hoje?

O importante é que nós aprendamos com o Natal, com o nascimento de Cristo, Ele o “Sol da Justiça”, conforme ensina o profeta Zacarias que veio dissipar as trevas do pecado com sua luz. Saibamos também como os magos, caminhar sempre em direção a esta luz que é Cristo. Sejamos agradecidos como os magos que viram o Salvador e o adoraram. Saibamos fazer de nosso coração a sua morada levamos sempre a alegria e a gratidão por tudo que Jesus passou pela nossa salvação.] {Este texto entre não faz parte da História Eclesiástica de Eusébio}  

O infanticídio cometido por Herodes e o seu fim catastrófico segundo Eusébio:

 

“Nascido Cristo em Belém de Judá, conforme as profecias no tempo mencionado, Herodes, ante a pergunta doa magos vindos do Oriente que queriam saber onde se achava o nascido rei dos judeus – porque tinham visto sua estrela, e o motivo de sua viagem tão longa era seu empenho em adorar como Deus ao recém-nascido – , bastante perturbado pelo assunto, como se estivesse em perigo a soberania  - ao menos era o que ele realmente pensava –, depois de informar-se com os doutores da lei dentre o povo onde esperavam que haveria de nascer o Cristo, assim soube que a profecia de Miquéias indicava Belém, ordenou mediante um edito matar os meninos de peito de Belém e redondezas, de dois anos para baixo, segundo o tempo exato indicado pelos magos, pensando que também Jesus, como era natural, teria certamente a mesma sorte que os outros meninos de sua idade”.

“Mas o menino, levado para o Egito, adiantou-se ao plano: um anjo apareceu a seus pais indicando-lhe de antemão o que iria acontecer. Isto é, o que nos ensina a Sagrada Escritura do Evangelho”.

“Mas, além disso, é conveniente dar uma olhada na resposta pelo atrevimento de Herodes contra Cristo e os meninos de sua idade. Imediatamente depois, sem a menor demora, a justiça divina o perseguiu quando ainda transbordava de vida e lhe mostrou o prelúdio do que o aguardava para depois de sua saída desta vida”.

“Não é possível resumir as sucessivas calamidades domésticas com que se enevoou a suposta prosperidade de seu reino: os assassinatos de sua mulher, de seus filhos e pessoas muito próximas a sua família por parentesco ou por amizade. O que se pode supor a respeito disso deixa à sombra qualquer representação trágica. Josefo explica extensamente em seus relatos históricos”.

“Mas sobre um flagelo divino o arrebatou e ele começou a morrer já desde o momento em que conspirou contra nosso Salvador e contra os demais meninos, será bom escutar as palavras do próprio escritor, que no livro 12 de suas Antiguidades judaicas descreveu o final catastrófico da vida de Herodes como segue: A doença de Herodes fazia-se mais e mais virulenta. Deus vingava seus crimes”.

“Com efeito, era um fogo suave que não denunciava ao tato dos que apalpavam, um abrasamento como o que por dentro aumentava sua destruição; e logo uma vontade terrível de comer algo, sem que nada lhe servisse, ulcerações e dores atrozes nos intestinos, e sobretudo no ventre, com inchaço úmido e reluzente nos pés”.

“Em torno do baixo-ventre tinha uma infecção parecida; mais ainda, suas partes pudendas estavam podres e criavam vermes. Sua respiração era de uma rigidez aguda e extremamente desagradável pela carga de supuração e por sua forte asma; em todos os membros sofria espasmos de uma força insuportável”.

“Certo é que os adivinhos e os que tem sabedoria para predizer estas coisas diziam que Deus estava fazendo-se pagar pelas muitas impiedades do rei. Isto é o que o autor citado anota na mencionada obra”.

“E no livro segundo os relatos históricos nos dá uma tradição parecida acerca do mesmo assunto, escrevendo assim: Então a enfermidade de apoderou de todo seu corpo e foi destroçando-o com vários sofrimentos. A febre na verdade, era fraca, mas era insuportável a comichão em toda superfície do corpo, as dores contínuas no ventre, os edemas dos pés, como de um hidrópico, a inflamação do baixo-ventre e a podridão verminosa de suas partes pudendas, ao que deve acrescentar a asma, a dispneia e espasmos em todos seus membros, ao ponto de os adivinhos dizerem que estes sofrimentos eram castigos”.

“Mas, ele mesmo lutando com tais padecimentos, ainda aferrava à vida, e esperando salvar-se imaginava curas. Atravessou o Jordão e utilizou águas termais de Calirroe. Estas vão desaguar no mar do Asfalto, e como são doces são também potáveis”.

“Ali os médicos decidiram aquecer com azeite quente todo seu purulento corpo em banheira cheia de azeite; desmaiou e revirou os olhos, como se estivesse acabado. Armou-se grande alvoroço entre os criados, e como o ruído voltou a si. Renunciando desde então à cura, mandou distribuir a cada soldado 50 dracmas e muito dinheiro aos chefes e a seus amigos”.

“Regressou então e chegou à Jericó, já vítima da melancolia e ameaçado pela morte. Pôs-se a tramar uma ação criminosa. De fato, fez reunir notáveis de cada aldeia de toda Judeia e mandou encerrá-los no chamado hipódromo”.

“Chamando depois sua irmã Salomé e seu marido Alexandre disse: “Sei que os judeus estão festejando a minha morte, mas posso ainda ser pranteado por outros a ter funerais esplêndidos se vocês atenderem minhas ordens. Assim que eu expirar, fazei com que cada um dos homens aqui detidos seja imediatamente cercado de soldados e fazei com que os matem, para que a Judeia inteira e cada casa, ainda que à força chore por mim”.

E um pouco mais adiante diz: “Depois, torturado também pela falta de alimento e por uma tosse espasmódica e abatido pelas dores, tramava antecipar sua hora fatal. Pegou uma maçã e pediu uma faca, pois tinha o costume de cortá-la para comê-la. Depois, olhando em volta por medo de que houvesse alguém para impedi-lo, levantou sua mão direita com a intenção de ferir-se”.

“Além destes detalhes, o mesmo escritor refere que, antes de morrer de todo, mandou que matassem outro de seus filhos legítimos, terceiro que somou aos outros dois já assassinados anteriormente, e no mesmo momento. De repente e entre enormes dores, expirou”.

“Assim foi o final de Herodes (o grande), justo e merecido pelo infanticídio perpetrado em Belém por atentar contra nosso Salvador. Depois disto, um anjo se apresentou em sonhos a José, que vivia no Egito, e ordenou-lhe partir com o menino e sua mãe para a Judeia, explicando que estavam mortos o que buscavam a morte do menino, ao que acrescenta o evangelista: “Porém, vindo que Arquelau reinava no lugar de seu pai Herodes, temeu ir para lá, mas avisados em sonhos, retirou-se para a região da Galileia”.


Dos tempos de Pilatos

 

“O historiador acima citado corrobora com a notícia da subida de Arquelau ao poder depois de Herodes [é esse Herodes o jovem que mais tarde aparecerá nos relatos da Paixão de Cristo], e descreve de que maneira, por testamento de seu pai Herodes e por decisão de César Augusto, recebeu em sucessão o reino judeu, e como, tirado do poder após dez anos, seus irmãos Filipe e Herodes o jovem, junto com Lisanias, governaram as suas próprias tetrarquias”.

“O mesmo Josefo, no livro 18 de suas Antiguidades, declara que no 12 do império de Tibério (pois foi este o sucessor do império, depois dos cinquenta e sete anos do reinado de Augusto), Pôncio Pilatos obteve o governo da Judéia, no qual se manteve por dez anos completos, quase até a morte de Tibério”.

“Portanto, está claramente refutada a patranha dos que agora, ultimamente divulgam umas memórias contra nosso Salvador, nas quais a própria data anotada é a primeira prova da mentira de tal farsa”.

“De fato, situam suas atrevidas invenções acerca da paixão do Salvador no quarto consulado de Tibério, que coincide com o sétimo ano de seu reinado, tempo no qual está demonstrado que Pilatos não tinha ainda se apresentado na Judéia, ao menos se tomarmos Josefo como testemunha, que claramente assinala em seu livro já citado que Tibério instituiu Pilatos governador da Judéia justamente no décimo segundo ano de seu império”.

 

Dos sumos sacerdotes dos judeus sob os quais Cristo ensinou

 

“Foi, portanto, nestes tempos, segundo o evangelista, estando Tibério César no décimo quinto ano de seu império e Pilatos no quarto ano de sua procuração, e sendo tetrarcas do resto da Judéia Herodes, Lisanias e Felipe, que nosso Salvador e Senhor Jesus, o Cristo de Deus, tendo cerca de trinta anos se apresentou para o batismo com João e deu início então à proclamação do Evangelho”.

“Diz ainda a divina Escritura que todo o tempo de seu ensino transcorreu durante o sumo sacerdócio de Anás e Caifás, mostrando que efetivamente todo tempo de seu ensino se cumpriu nos anos em que estes exerceram seus cargos. Portanto, continuou até o começo de Caifás, o que não chega a dar um intervalo de quatro anos completos”.

“De fato, como as normas legais naquele tempo estavam já de certa forma relaxadas, havia quebrado aquela segundo a qual os cargos referentes ao culto de Deus seriam vitalícios e por sucessão hereditária, e os governadores romanos investiam com o sumo sacerdócio pessoas diferentes e em tempos também diferentes, sem que durassem no cargo mais de um ano”.

“Relata Josefo, que depois de Anás se sucederam quatro sumos sacerdotes até Caifás. Na mesma obra Antiguidades escreve o seguinte: “Valério Grato destituiu do sacerdócio a Anás e tornou sumo sacerdote a Ismael, filho de Fabi; mas trocando também este ao cabo de pouco tempo, designa como sumo sacerdote a Eleazar, filho do sacerdote Anás”.

“Por conseguinte, está demostrado que todo o tempo do ensino de nosso Salvador não chega a quatro anos completos, posto desde Anás até a nomeação de Caifás foram quatro os sumos sacerdotes que, em quatro anos, exerceram o cargo anual. Tem razão o texto evangélico ao menos em apontar Caifás como sumo sacerdote do ano que se cumpriu a paixão do Salvador. Por não discordar da observação precedente, fica também corroborada a duração do ensino de Cristo”.

“Além disso, nosso Salvador e Senhor chama os doze apóstolos pouco depois do início de seu ensino, e somente a eles dentre os demais discípulos, por privilégio especial, deu o nome de Apóstolos. Depois designou outros setenta, e também a estes enviou, de dois em dois, adiante dele a todo lugar e cidade por onde ele iria”.

 

Testemunhos sobre João Batista

 

“Não muito depois, Herodes o jovem mandou decapitar João Batista. O texto sagrado do Evangelho também o menciona e Josefo o confirma, ao menos quando faz referência a Erodias e de como Herodes se casou com ela, apesar de ser mulher de seu irmão, depois de repudiar suja primeira e legítima esposa (filha de Aretas, rei de Petra) e de separar Herodias de seu marido, que ainda vivia; menciona também que por causa dela deu morte a João e promoveu guerra contra Aretas, cuja filha tinha desonrado. Ele diz ainda que nesta guerra, durante a batalha, o exército de Herodes foi desbaratado por inteiro, e que tudo isso aconteceu por ter atentado contra João”.

“O mesmo Josefo confessa que João era um homem extremamente justo e que batizava, confirmando assim o que está escrito sobre ele no texto dos evangelhos. Menciona ainda que Herodes foi destronado por culpa da mesma Herodias, e com ela foi desterrado, condenado a habitar na cidade de Viena na Gália”.

“Isto é o que narra no mesmo livro 18 das Antiguidades, onde escreve sobre João o que segue textualmente: “Para alguns judeus parece que foi Deus que desbaratou o exército de Herodes, fazendo-o pagar muito justamente pelo que fez a João, chamado o Batista”.

“Porque Herodes havia-lhe dado morte. Era um homem bom e que exortava os judeus ao exercício da virtude, a usar a justiça no trato de uns para com os outros e da piedade para com Deus, a aceitar o batismo. Porque desta maneira também o batismo lhe parecia aceitável, não como instrumento de perdão para alguns pecados, mas para a purificação do corpo, desde que a justiça já de antemão houvesse purificado a alma”.

“E como outros se fossem aglomerando em torno de João (pois ficavam suspensos escutando suas palavras), Herodes temeroso de que uma tal força de persuasão sobre os homens conduzisse a alguma revolta (já que em tudo pareciam proceder segundo os conselhos de João), pensou que o melhor era antecipar-se e fazê-lo matar antes que armasse uma revolução, em vez de ver-se envolto em dificuldades por uma mudança de situação e ter que se arrepender mais tarde. E João, devido a suspeita de Herodes, foi mandado prisioneiro à Maqueronte, a célebre fortaleza mais acima, e ali foi executado”.

“Depois de explicar tudo isso a respeito de João, na mesma obra histórica, menciona também nosso Salvador nos seguintes termos: “Por este mesmo tempo viveu Jesus, homem sábio se é que de homem devemos chamá-lo, porque realizava obras portentosas, era mestre dos homens que recebiam com prazer a verdade e atraiu não somente os judeus, mas também muitos gregos”.

“Este era o Cristo. Havendo-lhe infligido Pilatos o suplício da cruz, instigado por nossos líderes, os que primeiro o haviam amado não cessaram de amá-lo, pois ao fim de três dias novamente apareceu-lhes vivo. Os profetas de Deus tinham dito estas mesmas coisas e outras incontáveis maravilhas sobre ele. A tribo dos cristãos, que dele tomou o nome, ainda não desapareceu até hoje”.

“Quando um escritor saído dentre os próprios judeus transmite desde o começo em suas próprias obras estas coisas referentes a João Batista e a nosso Salvador, que subterfúgio resta aos que tramaram contra ele as Memórias, sem que fique evidente seu descaramento? Mas seja bastante o que foi dito”.                            

            

Fonte: História Eclesiástica  de Eusébio de Cesaréia 

                                

 

                                   

 

           

                               

              

             

             

            

                                                 

                                                                                    

                            

      

      

     

               

                     

          

  

      

                                         

     

              

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