SANTOS COSME E DAMIÃO
Ícone dos Santos Cosme e Damião, Síria, c. 1778. Autor desconhecido. Obra em domínio público.
Wikimedia Commons; fonte catalográfica: Institut du monde arabe, Icônes arabes: art chrétien du Levant (2003), p. 72.
Apresentação
Este estudo apresenta uma análise ampliada dos Santos Cosme e Damião, considerados na tradição cristã irmãos gêmeos, médicos e mártires. Parte-se da tradição hagiográfica e do desenvolvimento histórico de seu culto para compreender a particular configuração que a devoção recebeu no Brasil. O estudo dedica atenção especial ao sincretismo afro-católico, à associação popular entre Cosme e Damião e Ibeji/Erês, à distribuição de doces e às diferenças entre a compreensão católica dos santos e os sistemas religiosos das tradições afro-brasileiras. Também examina o conceito de sincretismo na antropologia, evitando interpretações simplistas que reduzam as religiões afro-brasileiras a uma mera cópia do catolicismo. Por fim, apresenta as orientações do Magistério católico sobre veneração dos santos, inculturação, diálogo inter-religioso e limites do sincretismo doutrinal.
Palavras-chave: Cosme e Damião; santos; mártires; medicina; Ibeji; Erês; sincretismo; catolicismo popular; Candomblé; Umbanda; inculturação; diálogo inter-religioso.
1. Introdução: por que estudar Cosme e Damião?
Poucas devoções permitem observar com tanta clareza a interação entre cristianismo, cultura popular brasileira e tradições de matriz africana como a devoção a São Cosme e São Damião. No calendário cristão, os dois pertencem à memória dos mártires da Igreja antiga. No Brasil, entretanto, seus nomes passaram a circular em ambientes culturais e religiosos muito mais amplos, associados a festas, crianças, doces, promessas e, em determinados contextos, a Ibeji e Erês.
O fenômeno merece cuidado metodológico. Não se pode tomar uma associação popular como prova de que duas religiões possuem a mesma doutrina. Tampouco é adequado ignorar o processo histórico pelo qual comunidades africanas e afrodescendentes reelaboraram símbolos religiosos em uma sociedade profundamente marcada pelo catolicismo.
A pergunta central deste estudo é: como dois santos cristãos antigos chegaram a ocupar um lugar tão singular no imaginário religioso brasileiro, e por que a mesma festa pode receber significados diferentes em ambientes católicos e afro-brasileiros?
2. Fontes e método
O estudo combina documentos católicos, fontes hagiográficas e históricas, pesquisas antropológicas e sociológicas sobre religiões afro-brasileiras e trabalhos acadêmicos especificamente dedicados aos gêmeos, Ibeji, Cosme e Damião e à distribuição de doces.
Uma distinção importante será mantida: descrição histórica não é o mesmo que afirmação de fé. A hagiografia registra uma tradição religiosa; a antropologia descreve práticas e significados sociais; a teologia católica formula o sentido normativo do culto para os católicos.
3. A real história de Cosme e Damião
Significados dos seus nomes:
Cosme vem de cosmos, “modelo”
ou “ornado”, ou segundo Isidoro, cosmos em grego significa “puro”. De
fato, ele foi para outros por seus exemplos, foi ornado de virtudes, foi puro
de todo vício.
Damião vem de dama, “gamo”,
animal tímido e doce. Ou Damião devira de dogma, “doutrina”, e de ana,
“no alto”. Ou de damum, “sacrifício”. Ou então Damianus (Damião)
quer dizer domini manus, “mão do Senhor”. Essas são as variações de
significados para o nome de São Damião.
Com efeito, Damião teve
comportamento manso e de doutrina elevada em suas perseguições, e fez de si um
sacrifício, marcando sua carne, foi a mão do Senhor que cura com remédio.
Eles eram irmãos
gêmeos, nascidos na cidade de Egéia, de uma mãe religiosa chamada de Teodota. Instruidos
na arte da medicina, receberam tantas graças do Espirito Santo que curavam a
todas as doenças, não só de homens, mas, também de animais, faziam isso gratuitamente.
Uma mulher de nome
Paládia, tinha gastado todos os seus bens e despesas com médicos, dirigiu-se a
eles, e aos santos recuperou completamente a saúde. Ela ofereceu um pequeno
presente a São Damião, e como este recusou aceitar, ela o obrigou com terríveis
juramentos. Ele concordou a receber não porque a cupidez o levasse a buscar
essa recompensa, mas por complacência por aquela mulher que lhe oferecia o
testemunho de seu reconhecimento. E para não parecer desprezar o nome do Senhor
pelo qual ela conjurava. Quando São Cosme soube do fato, determinou que seu
corpo não fosse enterrado junto ao de seu irmão. Mas na noite seguinte o Senhor
apareceu a Cosme e desculpou o irmão pelo presente recebido.
O procônsul Lísias,
conhecendo-lhes a fama, mandou chama-los e perguntou-lhes o nome, a pátria e a
fortuna deles. Eles responderam: “Nossos nomes são Cosme e Damião, temos mais
três irmãos: Ântimo, Leôncio e Euprépio. Somos da Arábia. Quanto a fortuna, nós
cristãos não nos importamos com isso”.
O procônsul ordenou
que fossem levados para imolar aos ídolos, e como eles recusaram mandou que
fossem torturados pelas mãos e pés. Como eles zombavam destes tormentos o procônsul
mandou acorrenta-los e jogá-los no mar, mas no mesmo instante um anjo os
resgatou e os levou diante do procônsul. Este falou: “pelos deuses, vocês venceram
por grande magia, desprezaram as torturas e acalmaram o mar. Ensine esta magia
e eu os seguirei em nome do deus Adriano”. Mal terminou de falar, surgiram dois
demônios que o golpearam na face e ele pôs a gritar: “Eu imploro, ó homens de
bem, que interceda por mim ao Senhor”. Eles rezaram e os demônios se afastaram.
O procônsul disse: “Vejam,
se os deuses estão indignados desta forma contra mim por ter pensado em
abandoná-los, eu sofreria ainda mais se vocês blasfemassem contra minhas
divindades”. Mandou então jogá-los na fogueira, mas eles nada sofreram. As chamas
pularam longe e mataram muitos que estavam por ali. Mandou que os suspendessem
no potro, mas protegidos por um anjo foram levados ilesos diante do procônsul,
enquanto os carrascos estavam cansados de tanto espancá-los. Mandou então prendê-los
e ordenou que Cosme e Damião fossem crucificados e apedrejados pelo povo, mas
as pedras voltavam para quem as arremessavam e feriram um grande número deles.
Mandou então vir os três irmãos e colocá-los ao lado das cruzes que estavam
Cosme e Damião, que seriam varados de flechas por quatro soldados. Mas as
flechas retornaram e feriram muitas pessoas. Vendo-se frustrado com todas as
tentativas, o procônsul ficou mortalmente confuso e perturbado e pela manhã mandou
que os cinco irmãos fossem decapitados.
Os cristãos lembrando-se
do que São Cosme dissera que não queria ser enterrado junto com o irmão,
pensaram como os mártires queriam ser sepultados. De repente, chegou um camelo
com uma voz humana ordenando que os santos fossem enterrados juntos no mesmo
lugar. Eles sofreram o martírio e deram glória a Deus sob o governo de
Diocleciano que começo a reinar em 287 d.C.
Tempos depois foi
erguida uma Igreja em homenagem aos santos... certa vez, um camponês após ter
trabalhado na colheita dormia de boca aberta quando uma serpente penetrou por
suas entranhas. Ao despertar não sentiu nada e voltou para casa, mas a noite
passou por sofrimentos terríveis; lançava gritos e invocaram os Santos Cosme e Damião.
A dor aumentava e ele refugiou na Igreja dos santos mártires, tendo adormecido
a serpente saiu pela sua
boca da mesma forma que entrou.
Numa outra ocasião, um homem ia fazer uma viagem para muito longe e recomendou sua mulher aos santos mártires, e mostrou a ela um crucifixo que seria a “senha” por meio do qual ela saberia quando ela deveria ir imediatamente para junto dele, caso fosse chamada. Depois disso, o diabo que sabia da senha que o marido lhe dera, transfigurou-se em homem e apresentando a senha disse: “Seu marido me enviou de tal cidade para levá-la até ele”. E como assim temia partir ela disse: “Reconheço o sinal, mas como fui colocada sob a proteção de São Cosme e Damião, jure-me pelo altar deles que você me conduzirá e te acompanharei imediatamente”. Ele fez no mesmo instante o juramento. Então ela o seguiu. Quando chegaram a um lugar afastado o quis derrubá-la de seu juramento para matá-la. Percebendo, ela pediu aos santos mártires que lhe ajudassem, dizendo; “confiei em vocês e estou aqui”. Imediatamente os santos apareceram acompanhados de uma multidão de personagens vestidos de togas brancas, e a libertaram.
O diabo desapareceu e disseram a mulher: “Somos Cosme e Damião. A cujo juramento você se confiou, e por isso nós apressamos em vir em vossa defesa”.
O Papa Felix, anterior a São Gregório, mandou construir em Roma uma magnífica Igreja em honra destes santos mártires. Nessa Igreja havia um servidor dos santos a quem um câncer devorava toda a sua perna. Então, durante o sono, os santos apareceram trazendo consigo unguentos e instrumentos. Um disse ao outro: “Onde conseguiremos com que preencher o lugar onde cortaremos a carne podre?” O outro respondeu: “No cemitério de São Pedro acorrentado está um etíope recém sepultado, traga sua carne para substituir esta”. Ele foi e trouxe a perna do mouro. Em seguida cortaram o doente e puseram no lugar a perna do mouro, ungiram a ferida com cuidado, depois levaram a perna do doente para o corpo do morto. Ao acordar aquele homem não sentia mais nada, levou a mão na perna e ali não encontrou nenhuma lesão. Pegou uma vela e não vendo nenhuma ferida, pensava que não era mais ele, mas, um outro em seu lugar. Caindo em si, contou a todos o ocorrido, o que vira dormindo e como ficou curado. Em seguida foi ao cemitério encontrou a perna do mouro cortada e a outra colocada na sepultura. O culto dos santos é muito antigo. [Fonte: Legenda Áurea - Jacopo de Varazze - "Vida de Santos"]
A tradição de sua veneração no Oriente cristão alcançou o Ocidente, e Roma tornou-se importante centro de culto. A basílica romana dedicada aos santos no Fórum Romano é um dos testemunhos da consolidação de sua memória no cristianismo antigo.
No calendário Litúrgico da Igreja Católica celebra a memória dos santos em 26 de setembro e não no dia 27.
4. A imagem dos santos e sua iconografia
No ícone reproduzido, os dois são apresentados como santos cristãos, em uma linguagem iconográfica própria do cristianismo oriental. A imagem é anterior ao desenvolvimento moderno das festas brasileiras e ajuda a separar a tradição iconográfica cristã dos processos sincréticos posteriores no Brasil.
É importante não tratar a iconografia como fotografia histórica. Nenhuma imagem medieval ou moderna fornece o rosto real de pessoas que viveram na Antiguidade. A iconografia procura comunicar identidade, santidade, função e memória.
5. O culto católico: veneração não é adoração
Uma chave para compreender a diferença entre catolicismo e interpretações populares do culto aos santos é a distinção teológica entre adoração e veneração. Na teologia católica, latria é a adoração devida exclusivamente a Deus; aos santos é prestada veneração, porque são criaturas que testemunharam a graça divina.
O Catecismo ensina que a honra prestada às imagens não termina na matéria da imagem, mas se dirige à pessoa representada. Assim, uma imagem de Cosme e Damião numa igreja não é entendida como uma divindade.
A intercessão dos santos é compreendida dentro da comunhão dos santos: o fiel pede que o santo interceda diante de Deus. O santo não ocupa o lugar de Deus nem possui, no ensinamento católico, uma divindade autônoma.
6. O contexto brasileiro: colonização, escravidão e encontros religiosos
O sincretismo brasileiro não surgiu em um ambiente de encontro entre religiões em condições de igualdade. A formação das religiões afro-brasileiras ocorreu dentro de uma sociedade colonial marcada pela escravidão de africanos, pela imposição de estruturas culturais europeias e pelo predomínio institucional do catolicismo.
A população africana trazida para o Brasil não formava uma única comunidade religiosa. Vieram pessoas de diferentes povos, línguas e tradições, incluindo matrizes iorubás, jejes, bantas e outras. Ao longo do tempo, elementos distintos foram reorganizados em novas formações religiosas brasileiras.
O catolicismo também não era uma realidade uniforme. Existiam liturgia oficial, irmandades, devoções locais, festas de padroeiros, promessas, romarias e práticas de religiosidade popular. O contato entre esse universo e tradições africanas produziu diferentes formas de aproximação.
Assim, o sincretismo não deve ser explicado exclusivamente como disfarce. Em alguns contextos, a associação de símbolos católicos a entidades africanas pode ter funcionado como mecanismo de sobrevivência e negociação; em outros, tornou-se linguagem religiosa e cultural; em outros ainda, grupos posteriormente rejeitaram certas equivalências para reforçar a africanização ou a autonomia de suas tradições.
7. O que significa 'sincretismo religioso'?
Sincretismo é um conceito utilizado para descrever combinações, aproximações, traduções e reinterpretações entre tradições religiosas. Não existe, porém, uma única definição aceita por todos os pesquisadores.
Roger Bastide teve papel fundamental no estudo do sincretismo afro-brasileiro. Sua obra procurou compreender simultaneamente a matriz africana das religiões e as transformações produzidas pelo ambiente brasileiro. Pesquisas posteriores criticaram e reformularam aspectos de sua abordagem, mostrando que o sincretismo pode variar conforme grupo, época, posição social e contexto ritual.
João Leal observa que Bastide passou por diferentes formulações: em alguns momentos destacou separações entre universos religiosos; em outros, estudou formas de justaposição e fusão. Isso impede que o conceito seja utilizado como se toda religião afro-brasileira tivesse a mesma relação com o catolicismo.
8. Ibeji: os gêmeos na tradição iorubá
Ibeji ocupa lugar importante na tradição religiosa iorubá relacionada aos gêmeos. A condição de nascimento gemelar possui forte significado religioso e cultural em diferentes comunidades iorubás. No processo brasileiro, Ibeji passou a ser aproximado de Cosme e Damião, sobretudo pela coincidência simbólica de ambos serem irmãos gêmeos.
Essa associação não significa, do ponto de vista acadêmico, que Ibeji e Cosme e Damião sejam historicamente a mesma figura. São produtos de tradições religiosas diferentes. A relação é resultado de processos de tradução e aproximação produzidos no contexto brasileiro.
A dissertação de Dieudonné Bukasa N'Dala, defendida na PUC-SP, trata especificamente do sincretismo afro-católico envolvendo Ibeji e Cosme e Damião, comparando o significado dos gêmeos na África e no Brasil.
9. E os Erês? É correto dizer que Erê = Cosme e Damião?
Não se deve transformar essa fórmula em equivalência universal. O termo Erê possui usos específicos e pode variar conforme tradição e contexto religioso. Em algumas explicações populares, Erês aparecem associados à infância, espontaneidade e alegria; porém, os sistemas religiosos afro-brasileiros são diversos.
Da mesma forma, Candomblé e Umbanda não devem ser apresentados como uma única religião. Possuem histórias, estruturas rituais e categorias próprias. Há comunidades que preservam forte linguagem de sincretismo e outras que fazem questão de distinguir seus elementos religiosos de equivalências católicas.
10. Por que Cosme e Damião se tornaram associados às crianças e aos doces?
A associação entre os santos, crianças e doces possui várias camadas. No catolicismo popular, festas de santos podem envolver promessas, distribuição de alimentos e práticas de caridade. No universo afro-brasileiro, a relação com Ibeji e com a infância fornece outra camada simbólica.
No Brasil, a distribuição de doces em 27 de setembro tornou-se uma prática cultural amplamente reconhecida. Ela pode ter significados religiosos diferentes conforme quem distribui e quem recebe: cumprimento de promessa a Cosme e Damião, participação em ritual afro-religioso, tradição familiar ou prática comunitária.
O estudo de Júlio Cesar Tavares Dias sobre o 'doce de Cosme e Damião' é útil para compreender o cruzamento entre catolicismo popular, sincretismo afro-católico e disputas no campo religioso brasileiro.
12. O processo de sincretização não foi uniforme
Um erro frequente é imaginar que todos os africanos escravizados no Brasil fizeram as mesmas associações entre santos e orixás. A pesquisa antropológica mostra variações regionais e históricas.
Também houve transformações posteriores. Reginaldo Prandi descreve processos de africanização de segmentos do Candomblé, marcados, entre outras coisas, por valorização explícita de referências africanas e crítica a certas formas de sincretismo.
Portanto, a frase 'Cosme e Damião são Ibeji' pode ter sentido dentro de determinado sistema popular ou ritual, mas não pode ser apresentada como descrição universal de todas as religiões afro-brasileiras.
13. Sincretismo como sobrevivência, resistência e criação cultural
Durante muito tempo, parte da literatura tratou o sincretismo sobretudo como sobrevivência ou disfarce. Estudos posteriores chamaram atenção para a agência dos próprios praticantes: comunidades afro-brasileiras não apenas receberam elementos externos, mas reorganizaram símbolos e produziram novas formas religiosas.
Reduzir o sincretismo a uma estratégia de esconder uma religião atrás de outra pode apagar criatividade religiosa e mudanças efetivamente ocorridas. Por outro lado, negar o contexto de coerção também seria incorreto: escravidão e marginalização influenciaram as condições em que as religiões afro-brasileiras se desenvolveram.
14. A posição da Igreja Católica sobre outras religiões
O Concílio Vaticano II, na Declaração Nostra aetate (1965), estabeleceu uma referência fundamental. A Igreja afirma que não rejeita o que há de verdadeiro e santo nas outras religiões e convida os católicos ao diálogo e à colaboração. Ao mesmo tempo, mantém o anúncio de Cristo e a identidade cristã.
Em 1984, Diálogo e Missão apresentou o diálogo como dimensão da missão da Igreja e descreveu formas de diálogo que incluem convivência cotidiana, colaboração em obras, intercâmbio teológico e diálogo espiritual.
Em 2026, a Nota Um Caminho de Esperança, dos Dicastérios para a Doutrina da Fé, para a Promoção da Unidade dos Cristãos e para o Diálogo Inter-religioso, reafirmou que o diálogo requer consciência da própria identidade e abertura à alteridade, evitando relativismo e sincretismo.
15. O que a Igreja entende por diálogo inter-religioso?
Diálogo não significa afirmar que todas as religiões são iguais. Significa encontrar-se com o outro com respeito, ouvir, conhecer, cooperar quando possível e apresentar a própria fé sem violência ou desprezo.
A Nota Um Caminho de Esperança insiste em dois elementos simultâneos: fidelidade à identidade cristã e abertura sincera à alteridade. Assim, o diálogo católico não pede que o católico deixe de ser católico para conversar com um praticante de Candomblé ou Umbanda.
A Igreja também rejeita discriminação e violência motivadas pela religião. A defesa da liberdade religiosa e da dignidade humana é compatível com a manutenção de diferenças doutrinais.
16. Inculturação: a fé pode assumir formas culturais?
Sim. A tradição católica reconhece que a fé pode ser expressa por diferentes culturas. Música, arte, arquitetura, linguagem, costumes e formas comunitárias podem receber expressão local.
Mas inculturação não significa transformar uma doutrina em outra. Um elemento cultural pode ser utilizado na celebração cristã sem que seu significado religioso original seja automaticamente incorporado à doutrina católica.
Essa distinção ajuda a compreender por que uma festa brasileira de Cosme e Damião pode apresentar características culturais locais sem que isso altere a identidade dos santos dentro da teologia católica.
17. O que a Igreja deve evitar?
Desprezar ou demonizar pessoas por pertencerem a religiões de matriz africana.
Tratar todas as religiões afro-brasileiras como se fossem uma única religião.
Apresentar sincretismo como necessariamente fraude, disfarce ou ignorância.
Confundir diálogo inter-religioso com aceitação de todas as doutrinas como equivalentes.
Apagar as diferenças entre veneração católica dos santos e categorias próprias do Candomblé ou da Umbanda.
Usar a devoção popular para justificar preconceito racial ou religioso.
18. Uma leitura católica equilibrada de Cosme e Damião
Do ponto de vista católico, é possível reconhecer a história cultural brasileira sem alterar a identidade da fé. Cosme e Damião continuam sendo santos cristãos. A Igreja pode valorizar a tradição popular, orientar a devoção e reconhecer que a festa adquiriu novos significados em contato com tradições afro-brasileiras.
O católico não precisa negar a existência do sincretismo para preservar sua fé. O que precisa distinguir é o que pertence à doutrina católica e o que pertence à história cultural brasileira. Essa distinção permite respeito ao outro sem relativizar a própria confissão.
19. Questões acadêmicas que permanecem abertas
A pesquisa sobre sincretismo continua debatendo até que ponto o termo descreve adequadamente as religiões afro-brasileiras. Alguns autores preferem enfatizar hibridização, tradução, pluralidade, composição ou transformação, enquanto outros continuam utilizando 'sincretismo' por sua utilidade histórica.
Também é importante investigar diferenças regionais. A experiência da Bahia não é necessariamente igual à de São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Maranhão ou Rio Grande do Sul. O significado de Cosme e Damião pode mudar conforme a história local das irmandades, terreiros e festas populares.
20. Conclusão geral
Cosme e Damião constituem uma ponte privilegiada para estudar a complexa formação religiosa brasileira. Sua origem está na tradição cristã antiga; seu culto atravessou séculos e continentes; e, no Brasil, sua festa entrou em contato com tradições africanas que também foram transformadas pelo contexto histórico.
A associação com Ibeji e Erês possui fundamento histórico-cultural e simbólico em determinados contextos, sobretudo na condição de gêmeos e na centralidade das crianças e dos doces. Entretanto, não é correto concluir que catolicismo, Candomblé e Umbanda possuem a mesma teologia.
A Igreja Católica contemporânea orienta os fiéis para o respeito, o diálogo e a cooperação com outras tradições religiosas, mantendo simultaneamente a identidade da fé cristã. Nostra aetate rejeita uma postura de desprezo pelas outras religiões, enquanto documentos posteriores explicitam que diálogo não significa relativismo nem sincretismo doutrinal.
Uma abordagem madura do tema precisa manter três atitudes simultâneas: rigor histórico, respeito antropológico e clareza teológica. Essa combinação permite compreender por que uma mesma festa pode ser católica para uns, afro-brasileira para outros e, para muitos brasileiros, também uma tradição cultural familiar.
11. Catolicismo e religiões afro-brasileiras: onde está a diferença?
Tema | Perspectiva católica | Perspectivas afro-brasileiras |
Cosme e Damião | Santos cristãos, médicos e mártires; sua honra está vinculada a Deus. | Podem ser relacionados simbolicamente a Ibeji/Erês em determinados contextos sincréticos. |
Natureza do santo | Criatura humana santificada; não é divindade. | Categorias de orixá, entidade ou espírito não devem ser automaticamente aplicadas aos santos católicos. |
Adoração | Reservada exclusivamente a Deus. | As categorias de culto variam segundo cada tradição; não são equivalentes à distinção católica entre latria e veneração. |
Ibeji | Não faz parte da doutrina católica. | Categoria religiosa de matriz iorubá relacionada aos gêmeos. |
Erê | Não é categoria dogmática católica. | Termo com usos específicos em tradições afro-brasileiras; significado depende do contexto. |
Doces | Podem integrar festa, promessa, devoção e caridade. | Podem assumir significado ritual, comunitário ou cultural, conforme a tradição. |
Imagem de santo | Representação que pode receber veneração. | Pode aparecer em contextos sincréticos, mas o significado não é necessariamente o mesmo atribuído na Igreja. |
21. Referências bibliográficas e documentais
BASTIDE, Roger. As religiões africanas no Brasil: contribuição a uma sociologia das interpenetrações de civilizações. São Paulo: Pioneira/EDUSP, 1971.
CAPONE, Stefania. A busca da África no Candomblé: tradição e poder no Brasil. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2004.
CONCÍLIO VATICANO II. Nostra aetate: Declaração sobre a Igreja e as religiões não-cristãs. Roma, 28 out. 1965.
CONCÍLIO VATICANO II. Ad gentes: Decreto sobre a atividade missionária da Igreja. Roma, 7 dez. 1965.
DICASTÉRIO PARA A DOUTRINA DA FÉ; DICASTÉRIO PARA A PROMOÇÃO DA UNIDADE DOS CRISTÃOS; DICASTÉRIO PARA O DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO. Um Caminho de Esperança: Sessenta anos de diálogo e fraternidade inter-religiosa à luz da Declaração conciliar Nostra aetate. Vaticano, 16 set. 2026.
DIAS, Júlio Cesar Tavares. O doce de Cosme e Damião: entre o sincretismo afro-católico e a recusa evangélica. Ciências Sociais e Religião, v. 17, n. 23, p. 14–33, 2015. DOI: 10.22456/1982-2650.56195.
LEAL, João. Bastide e o sincretismo: formação e desenvolvimentos de um conceito. Religião & Sociedade, v. 43, n. 2, p. 11–37, 2023. DOI: 10.1590/0100-85872023v43n2cap01.
N'DALA, Dieudonné Bukasa. Os gêmeos afro-brasileiros e o sincretismo religioso: o culto aos gêmeos — entre África e Brasil. 2013. 81 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) — Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2013.
PRANDI, Reginaldo. Referências sociais das religiões afro-brasileiras: sincretismo, branqueamento, africanização. Horizontes Antropológicos, v. 4, n. 8, p. 151–167, 1998. DOI: 10.1590/S0104-71831998000100008.
PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
PRANDI, Reginaldo. O Brasil com axé: candomblé e umbanda no mercado religioso. Estudos Avançados, v. 18, n. 52, p. 223–238, 2004. DOI: 10.1590/S0103-40142004000300015.
IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica. Cidade do Vaticano: Libreria Editrice Vaticana. Especialmente §§ 971, 1192, 2131–2132.
SECRETARIADO PARA OS NÃO-CRISTÃOS. A Igreja e as outras religiões: Diálogo e Missão. Vaticano, 10 jun. 1984.
22. Fontes digitais consultadas
https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_decl_19651028_nostra-aetate_po.html
https://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/interelg/documents/rc_pc_interelg_doc_19840610_dialogo-missione_po.html
https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_ddf_doc_20260916_nota-cammino-speranza_po.html
https://www.scielo.br/j/ha/a/g35m5TSrGjDp9HxYGjBqNGg/
https://www.scielo.br/j/rs/a/RjjsYgLJZMxpdwLKVWLD36R/
https://tede2.pucsp.br/handle/handle/3489
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Saints_Cosmas_and_Damian_icon,_Syria_(1778).jpg
