terça-feira, 29 de setembro de 2026

SANTOS COSME E DAMIÃO História, tradição cristã, sincretismo religioso no Brasil, Ibeji, Erês e orientações da Igreja Católica


SANTOS COSME E DAMIÃO

História, tradição cristã, sincretismo religioso no Brasil,
Ibeji, Erês e orientações da Igreja Católica

Ícone dos Santos Cosme e Damião, Síria, c. 1778. Autor desconhecido. Obra em domínio público.

Wikimedia Commons; fonte catalográfica: Institut du monde arabe, Icônes arabes: art chrétien du Levant (2003), p. 72.

Resumo

Este estudo apresenta uma análise ampliada dos Santos Cosme e Damião, considerados na tradição cristã irmãos gêmeos, médicos e mártires. Parte-se da tradição hagiográfica e do desenvolvimento histórico de seu culto para compreender a particular configuração que a devoção recebeu no Brasil. O estudo dedica atenção especial ao sincretismo afro-católico, à associação popular entre Cosme e Damião e Ibeji/Erês, à distribuição de doces e às diferenças entre a compreensão católica dos santos e os sistemas religiosos das tradições afro-brasileiras. Também examina o conceito de sincretismo na antropologia, evitando interpretações simplistas que reduzam as religiões afro-brasileiras a uma mera cópia do catolicismo. Por fim, apresenta as orientações do Magistério católico sobre veneração dos santos, inculturação, diálogo inter-religioso e limites do sincretismo doutrinal.

Palavras-chave: Cosme e Damião; santos; mártires; medicina; Ibeji; Erês; sincretismo; catolicismo popular; Candomblé; Umbanda; inculturação; diálogo inter-religioso.

1. Introdução: por que estudar Cosme e Damião?

Poucas devoções permitem observar com tanta clareza a interação entre cristianismo, cultura popular brasileira e tradições de matriz africana como a devoção a São Cosme e São Damião. No calendário cristão, os dois pertencem à memória dos mártires da Igreja antiga. No Brasil, entretanto, seus nomes passaram a circular em ambientes culturais e religiosos muito mais amplos, associados a festas, crianças, doces, promessas e, em determinados contextos, a Ibeji e Erês.

O fenômeno merece cuidado metodológico. Não se pode tomar uma associação popular como prova de que duas religiões possuem a mesma doutrina. Tampouco é adequado ignorar o processo histórico pelo qual comunidades africanas e afrodescendentes reelaboraram símbolos religiosos em uma sociedade profundamente marcada pelo catolicismo.

A pergunta central deste estudo é: como dois santos cristãos antigos chegaram a ocupar um lugar tão singular no imaginário religioso brasileiro, e por que a mesma festa pode receber significados diferentes em ambientes católicos e afro-brasileiros?

2. Fontes e método

O estudo combina documentos católicos, fontes hagiográficas e históricas, pesquisas antropológicas e sociológicas sobre religiões afro-brasileiras e trabalhos acadêmicos especificamente dedicados aos gêmeos, Ibeji, Cosme e Damião e à distribuição de doces.

Uma distinção importante será mantida: descrição histórica não é o mesmo que afirmação de fé. A hagiografia registra uma tradição religiosa; a antropologia descreve práticas e significados sociais; a teologia católica formula o sentido normativo do culto para os católicos.

3. A história tradicional de Cosme e Damião

A tradição cristã apresenta Cosme e Damião como irmãos gêmeos e médicos. São chamados, na tradição oriental, de anárgiros, expressão associada à prática de exercer a medicina sem cobrar dos necessitados. Esse traço tornou-se fundamental para sua iconografia: os santos aparecem frequentemente com instrumentos ou objetos associados à medicina.

Os relatos tradicionais situam seu martírio no período das perseguições romanas, provavelmente no final do século III ou início do século IV. Os detalhes das narrativas de martírio pertencem ao gênero hagiográfico e apresentam episódios milagrosos. Por isso, devem ser lidos segundo sua natureza literária e religiosa, e não como se fossem uma biografia moderna construída a partir de documentação contemporânea.

O culto aos dois santos é muito antigo. A tradição de sua veneração no Oriente cristão alcançou o Ocidente, e Roma tornou-se importante centro de culto. A basílica romana dedicada aos santos no Fórum Romano é um dos testemunhos da consolidação de sua memória no cristianismo antigo.

A Igreja Católica celebra atualmente os santos em 26 de setembro; no Brasil, a tradição popular conserva amplamente 27 de setembro como data das festas.

4. A imagem dos santos e sua iconografia

No ícone reproduzido, os dois são apresentados como santos cristãos, em uma linguagem iconográfica própria do cristianismo oriental. A imagem é anterior ao desenvolvimento moderno das festas brasileiras e ajuda a separar a tradição iconográfica cristã dos processos sincréticos posteriores no Brasil.

É importante não tratar a iconografia como fotografia histórica. Nenhuma imagem medieval ou moderna fornece o rosto real de pessoas que viveram na Antiguidade. A iconografia procura comunicar identidade, santidade, função e memória.

5. O culto católico: veneração não é adoração

Uma chave para compreender a diferença entre catolicismo e interpretações populares do culto aos santos é a distinção teológica entre adoração e veneração. Na teologia católica, latria é a adoração devida exclusivamente a Deus; aos santos é prestada veneração, porque são criaturas que testemunharam a graça divina.

O Catecismo ensina que a honra prestada às imagens não termina na matéria da imagem, mas se dirige à pessoa representada. Assim, uma imagem de Cosme e Damião numa igreja não é entendida como uma divindade.

A intercessão dos santos é compreendida dentro da comunhão dos santos: o fiel pede que o santo interceda diante de Deus. O santo não ocupa o lugar de Deus nem possui, no ensinamento católico, uma divindade autônoma.

6. O contexto brasileiro: colonização, escravidão e encontros religiosos

O sincretismo brasileiro não surgiu em um ambiente de encontro entre religiões em condições de igualdade. A formação das religiões afro-brasileiras ocorreu dentro de uma sociedade colonial marcada pela escravidão de africanos, pela imposição de estruturas culturais europeias e pelo predomínio institucional do catolicismo.

A população africana trazida para o Brasil não formava uma única comunidade religiosa. Vieram pessoas de diferentes povos, línguas e tradições, incluindo matrizes iorubás, jejes, bantas e outras. Ao longo do tempo, elementos distintos foram reorganizados em novas formações religiosas brasileiras.

O catolicismo também não era uma realidade uniforme. Existiam liturgia oficial, irmandades, devoções locais, festas de padroeiros, promessas, romarias e práticas de religiosidade popular. O contato entre esse universo e tradições africanas produziu diferentes formas de aproximação.

Assim, o sincretismo não deve ser explicado exclusivamente como disfarce. Em alguns contextos, a associação de símbolos católicos a entidades africanas pode ter funcionado como mecanismo de sobrevivência e negociação; em outros, tornou-se linguagem religiosa e cultural; em outros ainda, grupos posteriormente rejeitaram certas equivalências para reforçar a africanização ou a autonomia de suas tradições.

7. O que significa 'sincretismo religioso'?

Sincretismo é um conceito utilizado para descrever combinações, aproximações, traduções e reinterpretações entre tradições religiosas. Não existe, porém, uma única definição aceita por todos os pesquisadores.

Roger Bastide teve papel fundamental no estudo do sincretismo afro-brasileiro. Sua obra procurou compreender simultaneamente a matriz africana das religiões e as transformações produzidas pelo ambiente brasileiro. Pesquisas posteriores criticaram e reformularam aspectos de sua abordagem, mostrando que o sincretismo pode variar conforme grupo, época, posição social e contexto ritual.

João Leal observa que Bastide passou por diferentes formulações: em alguns momentos destacou separações entre universos religiosos; em outros, estudou formas de justaposição e fusão. Isso impede que o conceito seja utilizado como se toda religião afro-brasileira tivesse a mesma relação com o catolicismo.

8. Ibeji: os gêmeos na tradição iorubá

Ibeji ocupa lugar importante na tradição religiosa iorubá relacionada aos gêmeos. A condição de nascimento gemelar possui forte significado religioso e cultural em diferentes comunidades iorubás. No processo brasileiro, Ibeji passou a ser aproximado de Cosme e Damião, sobretudo pela coincidência simbólica de ambos serem irmãos gêmeos.

Essa associação não significa, do ponto de vista acadêmico, que Ibeji e Cosme e Damião sejam historicamente a mesma figura. São produtos de tradições religiosas diferentes. A relação é resultado de processos de tradução e aproximação produzidos no contexto brasileiro.

A dissertação de Dieudonné Bukasa N'Dala, defendida na PUC-SP, trata especificamente do sincretismo afro-católico envolvendo Ibeji e Cosme e Damião, comparando o significado dos gêmeos na África e no Brasil.

9. E os Erês? É correto dizer que Erê = Cosme e Damião?

Não se deve transformar essa fórmula em equivalência universal. O termo Erê possui usos específicos e pode variar conforme tradição e contexto religioso. Em algumas explicações populares, Erês aparecem associados à infância, espontaneidade e alegria; porém, os sistemas religiosos afro-brasileiros são diversos.

Da mesma forma, Candomblé e Umbanda não devem ser apresentados como uma única religião. Possuem histórias, estruturas rituais e categorias próprias. Há comunidades que preservam forte linguagem de sincretismo e outras que fazem questão de distinguir seus elementos religiosos de equivalências católicas.

10. Por que Cosme e Damião se tornaram associados às crianças e aos doces?

A associação entre os santos, crianças e doces possui várias camadas. No catolicismo popular, festas de santos podem envolver promessas, distribuição de alimentos e práticas de caridade. No universo afro-brasileiro, a relação com Ibeji e com a infância fornece outra camada simbólica.

No Brasil, a distribuição de doces em 27 de setembro tornou-se uma prática cultural amplamente reconhecida. Ela pode ter significados religiosos diferentes conforme quem distribui e quem recebe: cumprimento de promessa a Cosme e Damião, participação em ritual afro-religioso, tradição familiar ou prática comunitária.

O estudo de Júlio Cesar Tavares Dias sobre o 'doce de Cosme e Damião' é útil para compreender o cruzamento entre catolicismo popular, sincretismo afro-católico e disputas no campo religioso brasileiro.

12. O processo de sincretização não foi uniforme

Um erro frequente é imaginar que todos os africanos escravizados no Brasil fizeram as mesmas associações entre santos e orixás. A pesquisa antropológica mostra variações regionais e históricas.

Também houve transformações posteriores. Reginaldo Prandi descreve processos de africanização de segmentos do Candomblé, marcados, entre outras coisas, por valorização explícita de referências africanas e crítica a certas formas de sincretismo.

Portanto, a frase 'Cosme e Damião são Ibeji' pode ter sentido dentro de determinado sistema popular ou ritual, mas não pode ser apresentada como descrição universal de todas as religiões afro-brasileiras.

13. Sincretismo como sobrevivência, resistência e criação cultural

Durante muito tempo, parte da literatura tratou o sincretismo sobretudo como sobrevivência ou disfarce. Estudos posteriores chamaram atenção para a agência dos próprios praticantes: comunidades afro-brasileiras não apenas receberam elementos externos, mas reorganizaram símbolos e produziram novas formas religiosas.

Reduzir o sincretismo a uma estratégia de esconder uma religião atrás de outra pode apagar criatividade religiosa e mudanças efetivamente ocorridas. Por outro lado, negar o contexto de coerção também seria incorreto: escravidão e marginalização influenciaram as condições em que as religiões afro-brasileiras se desenvolveram.

14. A posição da Igreja Católica sobre outras religiões

O Concílio Vaticano II, na Declaração Nostra aetate (1965), estabeleceu uma referência fundamental. A Igreja afirma que não rejeita o que há de verdadeiro e santo nas outras religiões e convida os católicos ao diálogo e à colaboração. Ao mesmo tempo, mantém o anúncio de Cristo e a identidade cristã.

Em 1984, Diálogo e Missão apresentou o diálogo como dimensão da missão da Igreja e descreveu formas de diálogo que incluem convivência cotidiana, colaboração em obras, intercâmbio teológico e diálogo espiritual.

Em 2026, a Nota Um Caminho de Esperança, dos Dicastérios para a Doutrina da Fé, para a Promoção da Unidade dos Cristãos e para o Diálogo Inter-religioso, reafirmou que o diálogo requer consciência da própria identidade e abertura à alteridade, evitando relativismo e sincretismo.

15. O que a Igreja entende por diálogo inter-religioso?

Diálogo não significa afirmar que todas as religiões são iguais. Significa encontrar-se com o outro com respeito, ouvir, conhecer, cooperar quando possível e apresentar a própria fé sem violência ou desprezo.

A Nota Um Caminho de Esperança insiste em dois elementos simultâneos: fidelidade à identidade cristã e abertura sincera à alteridade. Assim, o diálogo católico não pede que o católico deixe de ser católico para conversar com um praticante de Candomblé ou Umbanda.

A Igreja também rejeita discriminação e violência motivadas pela religião. A defesa da liberdade religiosa e da dignidade humana é compatível com a manutenção de diferenças doutrinais.

16. Inculturação: a fé pode assumir formas culturais?

Sim. A tradição católica reconhece que a fé pode ser expressa por diferentes culturas. Música, arte, arquitetura, linguagem, costumes e formas comunitárias podem receber expressão local.

Mas inculturação não significa transformar uma doutrina em outra. Um elemento cultural pode ser utilizado na celebração cristã sem que seu significado religioso original seja automaticamente incorporado à doutrina católica.

Essa distinção ajuda a compreender por que uma festa brasileira de Cosme e Damião pode apresentar características culturais locais sem que isso altere a identidade dos santos dentro da teologia católica.

17. O que a Igreja deve evitar?

Desprezar ou demonizar pessoas por pertencerem a religiões de matriz africana.

Tratar todas as religiões afro-brasileiras como se fossem uma única religião.

Apresentar sincretismo como necessariamente fraude, disfarce ou ignorância.

Confundir diálogo inter-religioso com aceitação de todas as doutrinas como equivalentes.

Apagar as diferenças entre veneração católica dos santos e categorias próprias do Candomblé ou da Umbanda.

Usar a devoção popular para justificar preconceito racial ou religioso.

18. Uma leitura católica equilibrada de Cosme e Damião

Do ponto de vista católico, é possível reconhecer a história cultural brasileira sem alterar a identidade da fé. Cosme e Damião continuam sendo santos cristãos. A Igreja pode valorizar a tradição popular, orientar a devoção e reconhecer que a festa adquiriu novos significados em contato com tradições afro-brasileiras.

O católico não precisa negar a existência do sincretismo para preservar sua fé. O que precisa distinguir é o que pertence à doutrina católica e o que pertence à história cultural brasileira. Essa distinção permite respeito ao outro sem relativizar a própria confissão.

19. Questões acadêmicas que permanecem abertas

A pesquisa sobre sincretismo continua debatendo até que ponto o termo descreve adequadamente as religiões afro-brasileiras. Alguns autores preferem enfatizar hibridização, tradução, pluralidade, composição ou transformação, enquanto outros continuam utilizando 'sincretismo' por sua utilidade histórica.

Também é importante investigar diferenças regionais. A experiência da Bahia não é necessariamente igual à de São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Maranhão ou Rio Grande do Sul. O significado de Cosme e Damião pode mudar conforme a história local das irmandades, terreiros e festas populares.

20. Conclusão geral

Cosme e Damião constituem uma ponte privilegiada para estudar a complexa formação religiosa brasileira. Sua origem está na tradição cristã antiga; seu culto atravessou séculos e continentes; e, no Brasil, sua festa entrou em contato com tradições africanas que também foram transformadas pelo contexto histórico.

A associação com Ibeji e Erês possui fundamento histórico-cultural e simbólico em determinados contextos, sobretudo na condição de gêmeos e na centralidade das crianças e dos doces. Entretanto, não é correto concluir que catolicismo, Candomblé e Umbanda possuem a mesma teologia.

A Igreja Católica contemporânea orienta os fiéis para o respeito, o diálogo e a cooperação com outras tradições religiosas, mantendo simultaneamente a identidade da fé cristã. Nostra aetate rejeita uma postura de desprezo pelas outras religiões, enquanto documentos posteriores explicitam que diálogo não significa relativismo nem sincretismo doutrinal.

Uma abordagem madura do tema precisa manter três atitudes simultâneas: rigor histórico, respeito antropológico e clareza teológica. Essa combinação permite compreender por que uma mesma festa pode ser católica para uns, afro-brasileira para outros e, para muitos brasileiros, também uma tradição cultural familiar.

11. Catolicismo e religiões afro-brasileiras: onde está a diferença?

Tema

Perspectiva católica

Perspectivas afro-brasileiras

Cosme e Damião

Santos cristãos, médicos e mártires; sua honra está vinculada a Deus.

Podem ser relacionados simbolicamente a Ibeji/Erês em determinados contextos sincréticos.

Natureza do santo

Criatura humana santificada; não é divindade.

Categorias de orixá, entidade ou espírito não devem ser automaticamente aplicadas aos santos católicos.

Adoração

Reservada exclusivamente a Deus.

As categorias de culto variam segundo cada tradição; não são equivalentes à distinção católica entre latria e veneração.

Ibeji

Não faz parte da doutrina católica.

Categoria religiosa de matriz iorubá relacionada aos gêmeos.

Erê

Não é categoria dogmática católica.

Termo com usos específicos em tradições afro-brasileiras; significado depende do contexto.

Doces

Podem integrar festa, promessa, devoção e caridade.

Podem assumir significado ritual, comunitário ou cultural, conforme a tradição.

Imagem de santo

Representação que pode receber veneração.

Pode aparecer em contextos sincréticos, mas o significado não é necessariamente o mesmo atribuído na Igreja.

21. Referências bibliográficas e documentais

BASTIDE, Roger. As religiões africanas no Brasil: contribuição a uma sociologia das interpenetrações de civilizações. São Paulo: Pioneira/EDUSP, 1971.

CAPONE, Stefania. A busca da África no Candomblé: tradição e poder no Brasil. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2004.

CONCÍLIO VATICANO II. Nostra aetate: Declaração sobre a Igreja e as religiões não-cristãs. Roma, 28 out. 1965.

CONCÍLIO VATICANO II. Ad gentes: Decreto sobre a atividade missionária da Igreja. Roma, 7 dez. 1965.

DICASTÉRIO PARA A DOUTRINA DA FÉ; DICASTÉRIO PARA A PROMOÇÃO DA UNIDADE DOS CRISTÃOS; DICASTÉRIO PARA O DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO. Um Caminho de Esperança: Sessenta anos de diálogo e fraternidade inter-religiosa à luz da Declaração conciliar Nostra aetate. Vaticano, 16 set. 2026.

DIAS, Júlio Cesar Tavares. O doce de Cosme e Damião: entre o sincretismo afro-católico e a recusa evangélica. Ciências Sociais e Religião, v. 17, n. 23, p. 14–33, 2015. DOI: 10.22456/1982-2650.56195.

LEAL, João. Bastide e o sincretismo: formação e desenvolvimentos de um conceito. Religião & Sociedade, v. 43, n. 2, p. 11–37, 2023. DOI: 10.1590/0100-85872023v43n2cap01.

N'DALA, Dieudonné Bukasa. Os gêmeos afro-brasileiros e o sincretismo religioso: o culto aos gêmeos — entre África e Brasil. 2013. 81 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) — Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2013.

PRANDI, Reginaldo. Referências sociais das religiões afro-brasileiras: sincretismo, branqueamento, africanização. Horizontes Antropológicos, v. 4, n. 8, p. 151–167, 1998. DOI: 10.1590/S0104-71831998000100008.

PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

PRANDI, Reginaldo. O Brasil com axé: candomblé e umbanda no mercado religioso. Estudos Avançados, v. 18, n. 52, p. 223–238, 2004. DOI: 10.1590/S0103-40142004000300015.

IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica. Cidade do Vaticano: Libreria Editrice Vaticana. Especialmente §§ 971, 1192, 2131–2132.

SECRETARIADO PARA OS NÃO-CRISTÃOS. A Igreja e as outras religiões: Diálogo e Missão. Vaticano, 10 jun. 1984.

22. Fontes digitais consultadas

https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_decl_19651028_nostra-aetate_po.html

https://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/interelg/documents/rc_pc_interelg_doc_19840610_dialogo-missione_po.html

https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_ddf_doc_20260916_nota-cammino-speranza_po.html

https://www.scielo.br/j/ha/a/g35m5TSrGjDp9HxYGjBqNGg/

https://www.scielo.br/j/rs/a/RjjsYgLJZMxpdwLKVWLD36R/

https://tede2.pucsp.br/handle/handle/3489

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Saints_Cosmas_and_Damian_icon,_Syria_(1778).jpg

23. Nota sobre a imagem utilizada

A imagem principal é uma fotografia de um ícone histórico dos Santos Cosme e Damião, datado aproximadamente de 1778, conservado na Catedral dos Santos Constantino e Helena, em Yabrud, Síria. A página da Wikimedia Commons informa que a obra é de autor desconhecido e está em domínio público. O documento usa a imagem como fonte iconográfica histórica, não como reconstrução fotográfica dos santos.

domingo, 27 de setembro de 2026

A IGREJA QUE CRISTO FUNDOU - É verdade que Jesus não fundou uma Igreja institucional?

 



Está nas redes sociais um vídeo de um pastor protestante ensinando erroneamente que o Senhor Jesus quando disse a São Pedro: “Eis que tu és pedra e sobre ti fundarei a minha Igreja”, Nosso Senhor não pretendia fundar nenhuma Igreja física (institucional), mas somente uma Igreja espiritual. Será isso verdade? Trago neste estudo a refutação mostrando e provando que o tal pregador possui falta de conhecimento a respeito do que fala.

 


Com ilustrações explicativas e referências bibliográficas

Estudo bíblico, teológico, patrístico e histórico sobre Mateus 16,18
Refutação da tese de que Jesus teria pretendido somente uma “Igreja espiritual”, sem dimensão visível e institucional.

O que é a Igreja? Por que ela é espiritual e visível?
Estudo católico sobre Mateus 16,18, Pedro, a natureza da Igreja e a continuidade apostólica

1. O que é a Igreja? — conceito fundamental

Antes de perguntar se Jesus fundou uma Igreja institucional, é necessário compreender o que a Igreja é. A palavra “Igreja” traduz o grego ekklēsía, usado no Novo Testamento para designar a assembleia ou comunidade convocada. O Catecismo ensina que o termo designa a assembleia litúrgica, a comunidade local e a comunidade universal dos crentes; esses sentidos estão ligados entre si (CIC 751-752).

A Igreja, portanto, não é simplesmente um prédio. Também não é apenas uma organização administrativa. Ela é uma comunidade convocada por Deus, reunida em Cristo, vivificada pelo Espírito Santo e enviada ao mundo.

O Compêndio do Catecismo resume: a Igreja é o povo que Deus convoca e reúne de todos os povos; pela fé e pelo Batismo, seus membros tornam-se filhos de Deus, membros de Cristo e templos do Espírito Santo (Compêndio, 147).

2. Quatro dimensões essenciais do conceito de Igreja

POVO DE DEUS — Deus não salva os homens isoladamente, mas quer reuni-los em um só povo (CIC 781-786).

CORPO DE CRISTO — Cristo é a Cabeça e os batizados são membros de um único Corpo (CIC 787-795; cf. 1Cor 12,12-27).

TEMPLO DO ESPÍRITO SANTO — o Espírito Santo habita na Igreja, guia-a na verdade, distribui dons e a santifica (CIC 797-801; cf. 1Cor 3,16; Ef 4,11-16).

COMUNIDADE VISÍVEL E ESPIRITUAL — a Igreja possui elementos humanos e divinos, visíveis e invisíveis, que não formam duas Igrejas, mas uma única realidade (Lumen gentium 8; CIC 771).

Figura 1 — A fé católica não opõe espiritualidade e visibilidade: as duas dimensões pertencem ao mesmo mistério da Igreja.

Introdução

A afirmação de que Jesus Cristo teria fundado somente uma “Igreja espiritual”, sem uma comunidade visível e organizada, precisa ser examinada diretamente à luz da Sagrada Escritura, da Tradição apostólica, dos Padres da Igreja e dos documentos do Magistério.

A resposta católica começa por uma precisão importante: a Igreja não é simplesmente um prédio, uma burocracia ou uma organização humana. Mas também não é uma realidade puramente invisível. O Catecismo ensina que a Igreja é uma realidade ao mesmo tempo visível e espiritual e que Cristo dotou sua comunidade de uma estrutura permanente.

 O que Mateus 16,18 realmente diz

Em Mateus 16,18 Jesus declara a Simão: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”. A frase contém quatro elementos inseparáveis: Pedro, a pedra, a Igreja e a ação de Cristo de edificá-la.

No versículo seguinte, Jesus acrescenta: “Eu te darei as chaves do Reino dos céus” e fala do poder de ligar e desligar. O texto, portanto, não descreve somente uma experiência interior de fé. Ele apresenta uma comunidade e uma missão exercida por uma pessoa concreta.


Figura 2 — Estrutura argumentativa de Mateus 16,18-19.

 “Petros” e “petra”: a objeção linguística

O texto grego de Mateus usa Petros e petra. Essa diferença de gênero gramatical não autoriza concluir que Pedro esteja excluído da expressão “esta pedra”. Petros funciona como nome masculino, enquanto petra é o substantivo feminino usado na construção da frase.

O pano de fundo aramaico reforça a conexão: Pedro é chamado Cefas (Kēphas), termo relacionado a “rocha/pedra” em Jo 1,42; 1Cor 1,12; 3,22; 9,5; 15,5; Gl 1,18. Mesmo quando a tradição cristã enfatiza a fé confessada por Pedro, isso não elimina a missão pessoal que Cristo lhe confia.

 As chaves do Reino e a autoridade

A imagem das chaves é significativa. Em Isaías 22,22, a chave da casa de Davi está associada à autoridade de administração em nome do rei. Mateus apresenta Jesus concedendo a Pedro as “chaves do Reino dos céus”.

A Igreja Católica não entende essa autoridade como poder independente de Cristo. É um ministério recebido de Cristo e exercido em serviço da unidade da Igreja.

 A Igreja visível no Novo Testamento

·      Atos 2,42-47: a comunidade persevera na doutrina dos apóstolos, comunhão, fração do pão e orações.

·      Atos 6,1-6: existe uma necessidade administrativa e são escolhidos ministros para um serviço concreto.

·      Atos 14,23: Paulo e Barnabé constituem presbíteros nas comunidades.

·      Atos 15: apóstolos e presbíteros deliberam sobre uma controvérsia doutrinal e enviam uma decisão às Igrejas.

·      1Coríntios 5: Paulo trata de disciplina comunitária.

·      1Timóteo 3,15: a Igreja é chamada “casa de Deus, coluna e sustentáculo da verdade”.

·      Tito 1,5: Tito recebe a missão de estabelecer presbíteros em cada cidade.

Esses textos não descrevem uma associação invisível de indivíduos isolados. Mostram uma comunidade identificável, com doutrina, culto, ministérios, disciplina e autoridade.

 Atos 15: um modelo de Igreja apostólica

Atos 15 é especialmente importante. Diante de uma disputa doutrinal, a solução não é cada cristão formar uma interpretação privada. Os apóstolos e presbíteros se reúnem, Pedro participa decisivamente do debate, Tiago intervém, e uma decisão é comunicada às comunidades.

A Igreja apostólica aparece, portanto, como uma comunidade espiritual que possui também uma estrutura histórica e ministerial. A dimensão institucional não substitui a ação do Espírito Santo; é o meio concreto pelo qual a comunidade apostólica preserva a comunhão.

 João 21: Pedro recebe uma missão pastoral

Após a ressurreição, Jesus confia a Pedro o cuidado do rebanho: “Apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21,15-17). Cristo continua sendo o verdadeiro Pastor, mas confia a Pedro um serviço pastoral real.

Isso se harmoniza com Lucas 22,32, em que Jesus diz a Pedro: “confirma teus irmãos”. O Novo Testamento, portanto, apresenta Pedro com uma função de serviço à unidade.

 A Igreja nos primeiros séculos

A evidência patrística confirma que os cristãos antigos não concebiam a Igreja como uma realidade sem estrutura. A Primeira Carta de Clemente, Santo Inácio de Antioquia, Santo Irineu e São Cipriano testemunham comunidades, ministros, sucessão, Eucaristia e unidade.


Figura 3 — Linha do tempo simplificada de testemunhos antigos.

Santo Inácio de Antioquia

Na Carta aos Esmirnenses, Santo Inácio de Antioquia apresenta uma Igreja estruturada em torno do bispo, do presbitério e dos diáconos. Ele relaciona a vida eucarística à comunhão com o bispo e usa a expressão “Igreja Católica”.

A importância desse testemunho está em sua antiguidade: estamos no início do século II, muito antes da Idade Média. A organização episcopal não pode ser simplesmente explicada como uma invenção medieval.

Santo Irineu e a sucessão apostólica

No século II, Santo Irineu de Lião combate as doutrinas que considera heréticas recorrendo à tradição recebida dos apóstolos e à sucessão dos bispos. Em Contra as Heresias III,3, ele apresenta a sucessão episcopal como testemunho público da continuidade da pregação apostólica.

A lógica de Irineu é incompatível com uma concepção de cristianismo em que cada indivíduo pudesse determinar isoladamente a tradição apostólica.

São Cipriano e a unidade

São Cipriano de Cartago, no século III, interpreta Mateus 16 no contexto da unidade da Igreja. Seu testemunho é relevante para mostrar que a Igreja antiga era concebida como uma realidade una, episcopal e concreta.

É necessário, contudo, evitar simplificações: as relações entre o bispo de Roma e os demais bispos foram objeto de desenvolvimento histórico e de debates. Isso não altera o ponto central: Cipriano não imaginava uma Igreja meramente invisível.

Orígenes e Santo Agostinho: diversidade patrística

Nem todos os Padres explicaram Mateus 16,18 exatamente da mesma maneira. Orígenes e Agostinho oferecem leituras que podem enfatizar a fé ou a confissão de Pedro. Essa diversidade deve ser reconhecida.

Mas uma coisa é discutir o significado exato de “esta pedra”; outra é concluir que Cristo não fundou uma Igreja visível. A pluralidade exegética dos Padres não elimina o testemunho maciço sobre comunidades, ministros, sacramentos e unidade.

 O Catecismo da Igreja Católica

O Catecismo é explícito. O §763 afirma que “o Senhor Jesus deu início à sua Igreja”; o §765 ensina que Jesus dotou sua comunidade de uma estrutura permanente e destaca a escolha dos Doze “com Pedro como sua Cabeça”. O §881 afirma que Cristo fez de Simão Pedro a pedra de sua Igreja, confiou-lhe as chaves e o instituiu pastor de todo o rebanho.

O Compêndio também resume que a Igreja, em sua realidade visível, torna presente uma realidade espiritual e divina. Portanto, a própria doutrina católica rejeita a falsa escolha entre Igreja visível e Igreja espiritual. 

Lumen gentium e a Igreja como realidade visível e espiritual

A Constituição dogmática Lumen gentium, especialmente no §8, apresenta a Igreja como uma realidade simultaneamente espiritual e visível. A Igreja possui elementos divinos e humanos. Sua estrutura histórica não é um acréscimo estranho ao plano de Cristo.

O Catecismo retoma essa visão ao explicar que Cristo reúne um povo, institui sua Igreja e lhe dá uma estrutura que permanecerá. 

Refutação direta da tese analisada

·      Se Jesus diz “edificarei a minha Igreja”, (e não as "minhas igrejas") existe uma comunidade que Ele chama de sua com uma só fé, um só batismo e um só Deus. 

·      Se Pedro recebe as chaves, existe uma função de autoridade, pois as chaves que que fala o Evangelho se refere a um poder de liderança espiritual e temporal e atemporal, porque Jesus dá a Pedro o poder de usar as chaves para ligar e desligar no céu e na terra.

·      Se os apóstolos recebem poder de ligar e desligar, existe autoridade comunitária. Além do mais, em Mateus 28, Jesus mandou anunciar o Evangelho e batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Se manda pregar e batizar, a pregação não poderá ser para os mortos e si para os vivos. Logo a Igreja tem duas dimensões física e espiritual.     

·      Se Atos apresenta presbíteros e decisões comuns, existe organização visível.

·      Se os Padres antigos falam de bispos, presbíteros, diáconos, Eucaristia e sucessão, a estrutura é anterior à Idade Média.

·      Portanto, “Igreja espiritual” não significa “Igreja sem corpo institucional”.

O equilíbrio católico

A posição católica não é que a Igreja seja simplesmente uma instituição humana. Isso seria insuficiente. A Igreja é Corpo de Cristo, povo de Deus, templo do Espírito Santo, sacramento universal de salvação e comunidade visível.

A conclusão mais precisa é: Cristo fundou uma Igreja espiritual e visível; divina e humana; sacramental e histórica; una e apostólica. A dimensão institucional serve à missão recebida de Cristo.

17. Quadro-resumo

Tese analisada

Testemunho

Resposta católica

“Somente Igreja espiritual”

Mt 16; At 2; At 15; 1Tm 3,15

A Igreja é espiritual e visível.

“Pedro não recebeu função especial”

Mt 16,18-19; Lc 22,32; Jo 21,15-17

Pedro recebe chaves e missão pastoral.

“Não havia estrutura”

At 6; At 14,23; Tt 1,5

Há ministérios desde a era apostólica.

“Episcopado surgiu tarde”

1 Clemente; Inácio de Antioquia; Irineu

Há testemunhos muito antigos de liderança e sucessão.

“Padres ensinavam só uma Igreja invisível”

Inácio; Irineu; Cipriano; Clemente

A Igreja antiga é comunitária, sacramental e visível.


Petros, petra e Cefas – No grego de Mateus, Petros é a forma masculina do nome Pedro, enquanto petra é o substantivo feminino “pedra/rocha”. A diferença de gênero gramatical não permite retirar Pedro da relação com a pedra. Aqui, o sentido é: Pedro é a rocha, o alicerce na qual a Igreja está firmada, os demais apóstolos são as colunas e Cristo é a Pedra Angular.

A Igreja coluna e sustentáculo da verdade - Todavia, se eu tardar, quero que saibas como deves portar-te na casa de Deus, que é a Igreja de Deus vivo, coluna e sustentáculo da verdade." — 1 Timóteo 3:15     

O pano de fundo aramaico é ainda mais relevante: Pedro é chamado Cefas/Kēphas em vários textos do Novo Testamento (Jo 1,42; 1Cor 1,12; 3,22; 9,5; 15,5; Gl 1,18).

Mesmo quando um intérprete entende a pedra também como a fé ou a confissão de Pedro, isso não elimina a pessoa de Pedro nem a Igreja. A confissão e o confessor aparecem juntos no relato.

 As chaves do Reino – Mateus 16,19 acrescenta: “Eu te darei as chaves do Reino dos céus”. A imagem das chaves remete à linguagem de autoridade de Isaías 22,22. Jesus confia a Pedro uma função concreta de serviço ao Reino.

O poder de “ligar e desligar” aparece também em Mateus 18,18, agora aplicado ao conjunto dos discípulos. Assim, a doutrina católica entende Pedro dentro do colégio apostólico, mas com uma função singular de unidade.

 João 21 e a missão de apascentar

Em João 21,15-17, Jesus confia a Pedro: “Apascenta as minhas ovelhas”. Isso não faz de Pedro um segundo Cristo. Cristo permanece o único Senhor e Pastor. Trata-se de um ministério recebido de Cristo.

Lucas 22,32 acrescenta outra dimensão: “tu, uma vez convertido, confirma teus irmãos”. Esses textos ajudam a compreender a função petrina em relação à unidade da Igreja.

 A Igreja é visível no Novo Testamento

Atos 2,42-47: uma comunidade concreta persevera na doutrina dos apóstolos, comunhão, fração do pão e orações.

Atos 6,1-6: existe uma questão prática e são escolhidos ministros para um serviço específico.

Atos 14,23: Paulo e Barnabé constituem presbíteros nas comunidades.

Atos 15,1-35: apóstolos e presbíteros se reúnem, discutem uma controvérsia e comunicam uma decisão às Igrejas.

1Coríntios 5: Paulo exerce disciplina comunitária.

1Timóteo 3,15: a Igreja é chamada “casa de Deus, coluna e sustentáculo da verdade”.

Tito 1,5: Tito recebe a missão de estabelecer presbíteros em cada cidade.

Esses dados tornam difícil sustentar que a Igreja apostólica fosse apenas uma ligação espiritual invisível entre indivíduos. O Novo Testamento apresenta uma comunidade identificável, com ministros, culto, disciplina, doutrina, autoridade e missão.

 Atos 15: a Igreja apostólica decide uma controvérsia

Atos 15 é uma das evidências mais fortes contra uma visão de Igreja sem estrutura. Diante da disputa sobre a circuncisão e a Lei de Moisés, os cristãos não ficam abandonados a interpretações particulares. Apóstolos e presbíteros se reúnem, Pedro fala, Tiago formula a conclusão e uma decisão é enviada às comunidades.

O episódio mostra simultaneamente ação do Espírito Santo, autoridade apostólica, colegialidade, liderança, decisão doutrinal e comunicação oficial. A Igreja é espiritual e também histórica.

 O testemunho da Igreja antiga

A tese de que a Igreja institucional teria sido criada séculos depois também não se ajusta às fontes cristãs antigas.

Primeira Carta de Clemente

 

A Primeira Carta de Clemente aos Coríntios, normalmente situada no final do século I, trata de uma crise de liderança em Corinto e apela à ordem e à continuidade dos ministérios. É um testemunho muito antigo de uma Igreja com estrutura e autoridade.

 

 Santo Inácio de Antioquia

 

No início do século II, Inácio fala claramente de bispo, presbitério e diáconos. Na Carta aos Esmirnenses, relaciona a comunhão eucarística à unidade com o bispo e usa a expressão “Igreja Católica”.  Isso não significa que toda formulação posterior do episcopado já estivesse pronta no início do século II. Significa que uma estrutura ministerial estável é muito antiga e não pode ser reduzida a uma criação medieval.

 

Santo Irineu de Lião

No século II, Irineu combate doutrinas que considera contrárias à tradição apostólica apelando à sucessão dos bispos e à transmissão pública da fé. Em Contra as Heresias III,3, ele apresenta as sucessões das Igrejas como testemunho da continuidade apostólica. A sucessão pressupõe Igrejas concretas, ministros identificáveis e uma tradição que pode ser verificada publicamente.

 

São Cipriano de Cartago

 

No século III, Cipriano trata da unidade da Igreja, do episcopado e de Mateus 16. Sua teologia não deve ser simplificada como se já contivesse todas as formulações posteriores sobre o papado; entretanto, ela testemunha uma Igreja una, episcopal e visível.

 

 Orígenes e Santo Agostinho: honestidade histórica

 

É importante não afirmar que todos os Padres interpretaram Mateus 16,18 exatamente do mesmo modo. Orígenes e Agostinho apresentam leituras que podem enfatizar a fé ou a confissão de Pedro. Essa diversidade, porém, não sustenta a conclusão de uma Igreja puramente invisível. Mesmo esses autores tratam a Igreja como comunidade concreta, sacramental e histórica. A divergência sobre o significado exato de “pedra” não elimina a realidade da Igreja.

 

 O Catecismo da Igreja Católica: definição e estrutura

 

O Catecismo, nos §§751-752, explica o significado de “Igreja”. Nos §§758-769 apresenta sua origem e fundação. Nos §§770-776 explica que a Igreja é simultaneamente visível e espiritual. Nos §§781-810 apresenta a Igreja como povo de Deus, Corpo de Cristo e templo do Espírito Santo. Nos §§880-887 trata da estrutura apostólica, do colégio dos bispos e do ministério de Pedro.

 

Especialmente importante é o §765: Cristo dotou sua comunidade de uma estrutura que permanecerá. E o §881 afirma que o Senhor fez de Simão Pedro a pedra da sua Igreja, confiou-lhe as chaves e o instituiu pastor de todo o rebanho.

 

 Lumen gentium 8: a resposta definitiva à falsa oposição:

 

Lumen gentium 8 é central para este estudo. O Concílio afirma que Cristo sustenta na terra sua Igreja “como um todo visível” e explica que a sociedade hierarquicamente organizada e o Corpo místico de Cristo, a assembleia visível e a comunidade espiritual, não devem ser consideradas duas entidades, mas uma única realidade complexa formada por elemento humano e divino.

Portanto, a doutrina católica não escolhe entre uma Igreja institucional e uma Igreja espiritual. A Igreja é uma realidade espiritual que possui expressão visível e uma estrutura histórica.

 

Documentos posteriores do Magistério:

 

Dominus Iesus (2000), Congregação para a Doutrina da Fé — trata da unicidade e universalidade salvífica de Cristo e da Igreja.

 

Respostas a questões relativas a alguns aspectos da Doutrina sobre a Igreja (2007), Congregação para a Doutrina da Fé — esclarece o significado de “subsistit in” em Lumen gentium 8.

 

Compêndio do Catecismo, perguntas 147-152 — apresenta de forma resumida o significado, origem e missão da Igreja.

Lumen gentium 18-23 — trata do ministério dos bispos, da sucessão dos Apóstolos e da função de Pedro como princípio e fundamento visível da unidade.

Refutação direta da afirmação de que Jesus fundou apenas uma Igreja espiritual

 

Jesus usa a expressão “minha Igreja” em Mateus 16,18.

 

Jesus fala de construção, portas, chaves e autoridade — imagens incompatíveis com a ideia de uma realidade exclusivamente interior.

 

·       Pedro recebe uma missão concreta de unidade e pastoreio.

 

·       Os demais apóstolos recebem missão e autoridade.

 

·       Atos mostra uma Igreja com ministros, reuniões, decisões e disciplina.

 

·       As cartas apostólicas mostram bispos/presbíteros e diáconos.

 

·       Os documentos cristãos do final do século I e início do II mostram Igrejas concretas e ministros.

 

·       O Magistério católico ensina expressamente que a Igreja é uma realidade visível e espiritual.

 

O que significa dizer que a Igreja é institucional?

 

Em linguagem católica, instituição não significa que a Igreja seja apenas uma organização burocrática. Significa que Cristo quis uma comunidade dotada de meios concretos de continuidade: a pregação apostólica, os sacramentos, os ministérios, a disciplina, a comunhão e a missão.

 

A estrutura existe para servir à graça e à missão. Assim como a humanidade de Cristo não anulava sua divindade, a dimensão visível da Igreja não anula sua dimensão espiritual. A analogia deve ser usada com cuidado, mas ajuda a compreender a unidade de elementos humanos e divinos.

 PONTOS PRINCIPAIS

A tese de uma Igreja exclusivamente espiritual e invisível é incompatível com numerosos textos bíblicos e testemunhos históricos. 

Mateus 16, 18-19

Jesus confere a Pedro um papel singular, associado às chaves do Reino e ao poder de ligar e desligar. Jesus confere a Pedro um papel singular, associado às chaves do Reino e ao poder de ligar e desligar.

 

A evidência linguística favorece a identificação de Pedro com a pedra mencionada por Cristo.

 

Mateus 18, 17

A Igreja aparece como autoridade capaz de emitir juízo disciplinar. A Igreja aparece como autoridade capaz de emitir juízo disciplinar.

 

Atos dos Apóstolos

A Igreja primitiva possui ministros, sucessão apostólica e concílios. A Igreja primitiva possui ministros, sucessão apostólica e concílios.

 

Inácio de Antioquia, Clemente Romano e Irineu de Lión testemunham uma Igreja visível e estruturada. Inácio de Antioquia, Clemente Romano e Irineu testemunham uma Igreja visível e estruturada.

 

Primado e Sucessão

Irineu descreve a sucessão dos bispos de Roma e sua importância para a unidade da fé. Irineu descreve a sucessão dos bispos de Roma e sua importância para a unidade da fé

 

O Magistério

O Catecismo e Pastor Aeternus interpretam Mateus 16 no contexto da tradição contínua da Igreja.

 

Refutação

A oposição entre Igreja espiritual e Igreja visível é falsa; o Novo Testamento mostra ambas as dimensões.

 

Conclusão

Cristo fundou uma Igreja espiritual em sua origem divina e visível em sua constituição histórica. Cristo fundou uma Igreja espiritual em sua origem divina e visível em sua constituição histórica.

A afirmação de que Jesus não pretendia fundar uma Igreja visível e institucional depende de uma separação entre “espiritual” e “visível” e isto é impossível. Paulo dá uma interpretação do que é a Igreja, (Cllosensses 1, 18) explicando que ela é o corpo de Cristo, Cristo a cabeça, nós os membros e o Espírito Santo a alma deste corpo. A Igreja, portanto é viva em seus dois sentidos. É viva porque é composta de homens e mulheres e é espiritual porque Cristo é a cabeça e ao mesmo tempo seu fundador. Dentro deste aspecto é também santa porque embora composta por pecadores é regida pela cabeça que é Cristo e santificada pelo Espírito Santo. Por isso o Novo Testamento, os primeiros Padres e o Magistério católico não fazem separação, mas consideram-na uma só visível e invisível. Peregrina neste mundo e triunfante no Céu. Padecente com Cristo e gloriosa no Céu com O Ressuscitado.   

 

Cristo reuniu um povo, escolheu os Doze, confiou uma missão aos apóstolos, deu a Pedro uma função singular, instituiu sinais sacramentais, enviou ministros e prometeu permanecer com sua Igreja. A Igreja é, portanto, espiritual e visível; divina e humana; sacramental e histórica; una e apostólica.

 

O ponto central não é afirmar que a Igreja seja simplesmente uma instituição humana. A afirmação católica é mais profunda: a Igreja é uma realidade espiritual fundada por Cristo que se manifesta e permanece na história através de uma comunidade visível, sacramental e apostólica.

Nota final

Este estudo não pretende julgar a pessoa do pastor citado, mas examinar uma proposição teológica. A tese de uma Igreja puramente espiritual não explica adequadamente a linguagem de Mateus 16, a estrutura de Atos, a sucessão ministerial e o testemunho dos primeiros séculos. A fé católica reconhece, ao mesmo tempo, a natureza espiritual da Igreja e sua manifestação visível na história.

Fontes oficiais do Vaticano confirmam expressamente que Jesus iniciou sua Igreja e que lhe deu uma estrutura permanente, com os Doze e Pedro como chefe; o Catecismo também descreve a Igreja como realidade visível na qual atua uma realidade espiritual. 


18. Referências bíblicas principais

·      Mateus 16,13-20; Mateus 18,15-20; Mateus 28,18-20.

·      Lucas 22,31-32; João 20,21-23; João 21,15-17.

·      Atos 2,42-47; Atos 6,1-6; Atos 14,23; Atos 15,1-35.

·      1Coríntios 1,10; 5; 10,16-17; 12; 14.

·      Efésios 2,19-22; 4,1-16.

·      1Timóteo 3,1-15; Tito 1,5-9.

19. Referências patrísticas e históricas

·      CLEMENTE DE ROMA. Primeira Carta aos Coríntios (1 Clemente), especialmente caps. 42-44 e 47-58. Final do século I.

·      INÁCIO DE ANTIOQUIA. Carta aos Esmirnenses, caps. 8-9; Carta aos Magnésios, caps. 6-7. Início do século II.

·      IRINEU DE LIÃO. Contra as Heresias, III,3-4. Século II.

·      TERTULIANO. De Praescriptione Haereticorum, 22; De Pudicitia, 21.

·      CIPRIANO DE CARTAGO. De Unitate Ecclesiae, 4-5; Epístola 73,7.

·      ORÍGENES. Commentary on Matthew, Book XII, sobre Mt 16,18-19.

·      AGOSTINHO DE HIPONA. Retractationes, I,21, e textos sobre Mateus 16 e a Igreja.

·      EUSÉBIO DE CESAREIA. História Eclesiástica, II-III, especialmente as seções sobre a sucessão de Roma.

20. Documentos do Magistério

·      CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. §§ 751-752; 758-769; 763-765; 770-776; 880-887.

·      CONCÍLIO VATICANO II. Lumen gentium, especialmente §§ 4, 8, 18-23.

·      CONCÍLIO VATICANO II. Christus Dominus, §2.

·      CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Dominus Iesus. 2000.

·      CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Respostas a questões relativas a alguns aspectos da Doutrina sobre a Igreja. 2007.

·      CONCÍLIO VATICANO I. Pastor Aeternus. 1870.

21. Bibliografia teológica e acadêmica complementar

·      DAVIES, W. D.; ALLISON, Dale C. A Critical and Exegetical Commentary on the Gospel According to Saint Matthew. Vol. 2. Edinburgh: T&T Clark, 1991.

·      FRANCE, R. T. The Gospel of Matthew. Grand Rapids: Eerdmans, 2007.

·      KELLY, J. N. D. Early Christian Doctrines. 5th rev. ed. London: A&C Black, 1977.

·      RATZINGER, Joseph. Called to Communion: Understanding the Church Today. San Francisco: Ignatius Press, 1996.

·      SCHATZ, Klaus. Papal Primacy: From Its Origins to the Present. Collegeville: Liturgical Press, 1996.

·      HOLMES, Michael W., ed. The Apostolic Fathers: Greek Texts and English Translations. 3rd ed. Grand Rapids: Baker Academic, 2007.

·      LAKE, Kirsopp, trans. Eusebius: The Ecclesiastical History. Loeb Classical Library. Cambridge, MA: Harvard University Press.

SANTOS COSME E DAMIÃO História, tradição cristã, sincretismo religioso no Brasil, Ibeji, Erês e orientações da Igreja Católica

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