Quando vemos os ataques dos protestantes à Igreja Católica referente ao uso das imagens sacras, não podemos esquecer que tais ataques não são novidades. Isso ocorreu no passado em um movimento que ficou conhecido como “movimento iconoclasta.”

Quando
vemos hoje pessoas que não entendem o significado do uso e da veneração das
imagens e dos objetos sagrados e promovem confusão entre os cristãos, advém dos
mesmos princípios daqueles que um dia se opuseram a ela causando mortes e
perseguições.
Na
prática é a mesma sistemática de outrora que toma o pensamento e a ação protestante
por não aceitar a sã doutrina e a tradição. A iconoclastia que começou no
Oriente e durou 87 anos, reacendeu agora no meio protestante e evangélico.
Se
perguntasse a você, amigo católico, quando algum prestante lhe questionar a
respeito do uso das imagens sacras. Quando estes lhe acusarem de idolatria, você
responderia o quê? Quais argumentos sólidos poderia apresentar para refutar
tais acusações?
Saiba
que os argumentos estão aí, basta querer estudá-los. O movimento iconoclasta só
acabou porque houve muitos debates e pessoas como São João Damasceno que usou
de esplêndida hermenêutica para destruir o pensamento e o movimento iconoclasta.
Hoje
não é diferente, só mudou o lado. Se antes o movimento invadia as igrejas,
profanava os lugares santos, quebravam as imagens e os ícones, hoje também, os
protestantes estão fazendo o mesmo ou pior.
É
por isso que nós devemos estudar e beber das fontes, para saber com amor
refutar às acusações, e nos defender dos protestantes que nos acusam e acusam a
Santa Igreja de ser idólatra pelo uso das imagens e objetos sacros. Muitos o
fazem por ignorância, porque não sabem o por que nós veneramos as imagens.
Vamos
entender o que foi o movimento iconoclasta, o que foi o Concílio Ecumênico de Nicéia, porque este Concílio foi muito importante para acabar com o movimento iconoclasta; e
vamos aprender com a hermenêutica de São João Damasceno sobre a veneração
das imagens e porque o fazemos.
O que foi o movimento iconoclasta?
Iconoclastia (ou iconoclasmo) é a destruição ou oposição a imagens, ícones e monumentos sagrados. O termo vem do grego eikon (imagem) e klastes (quebrador). Historicamente, o conceito descreve tanto movimentos político-religiosos quanto atitudes de contestação a tradições estabelecidas.
Quando vemos os ataques dos protestantes à
Igreja Católica referente ao uso das imagens sacras, não podemos esquecer que
tais ataques não são novidades. Isso ocorreu no passado em um movimento que
ficou conhecido como “movimento iconoclasta.”
O
movimento iconoclasta foi um conflito político-religioso no Império Bizantino
entre os séculos VIII e IX, marcado pela proibição e destruição de imagens
religiosas, especialmente ícones de Cristo, Maria e santos. Ele começou com o
imperador Leão III em 730 e terminou oficialmente em 843 d.C.
O
movimento iconoclasta foi um conflito político-religioso no Império Bizantino
(séculos VIII e IX), marcado pela proibição e destruição de imagens religiosas,
iniciado pelo imperador Leão III em 730 e encerrado oficialmente no Segundo
Concílio de Niceia em 787, que restaurou a veneração dos ícones.
Local:
Império
Bizantino, principalmente em Constantinopla.
Período:
Séculos VIII e IX.
Motivação: Temor
de idolatria (confusão entre veneração e adoração).
Influência política e
econômica da Igreja, especialmente dos monges produtores de ícones.
Desejo imperial de
centralizar poder e reduzir a força das instituições religiosas.
Linha
do tempo do Iconoclasmo Bizantino
730 d.C. – Imperador Leão
III inicia a proibição dos ícones.
754 d.C. – Concílio de
Hieria legitima a iconoclastia e condena o uso de imagens.
787 d.C. – Segundo
Concílio de Niceia, convocado pela imperatriz Irene, restaura a veneração dos
ícones.
813 d.C. – Imperador Leão
V reabre a perseguição contra imagens religiosas.
843 d.C. – Imperatriz
Teodora encerra definitivamente o movimento iconoclasta.
Evento conhecido como
Triunfo da Ortodoxia, celebrado até hoje pela Igreja Ortodoxa.
Principais fases
Primeira fase:
(730–787): Iniciada por Leão III, o Isauro, que proibiu a veneração de imagens.
Constantino V reforçou a
perseguição, convocando o Concílio de Hieria (754), que legitimou a
iconoclastia.
Resultou na destruição de
mosaicos, afrescos, estátuas e pinturas religiosas.
Monges e defensores dos
ícones (iconófilos) foram perseguidos e exilados.
Segunda fase:
(813–843): Reativada por Leão V, o Armênio, após derrotas militares que foram
interpretadas como castigo divino.
Perseguições voltaram a
ocorrer.
Encerrada em 843, sob a
regência da imperatriz Teodora, que restaurou definitivamente a veneração dos
ícones.
Durante a perseguição do
movimento iconoclasta no Império Bizantino, ocorreram episódios intensos de
repressão contra o uso de imagens religiosas. Eis os principais acontecimentos:
Perseguição a monges:
Os monges eram os maiores defensores dos ícones (iconófilos). Muitos foram
presos, exilados ou até executados por se recusarem a abandonar a prática.
Confisco de bens:
Mosteiros que produziam ou guardavam ícones tiveram suas propriedades
confiscadas pelo Estado.
Concílio de Hieria
(754): Reunião convocada por Constantino V que declarou oficialmente que o uso
de imagens era herético.
Clima de violência:
Houve confrontos entre iconoclastas (destruidores de imagens) e iconófilos
(defensores das imagens), gerando divisões profundas na sociedade bizantina.
|
Grupo |
O que defendiam |
Ações durante a perseguição |
Consequências |
|
Iconoclastas (destruidores de ícones) |
Proibição de imagens religiosas, por medo de idolatria |
- Destruição de mosaicos, afrescos e estátuas - Confisco de bens de
mosteiros - Convocação do Concílio de Hieria (754) para legitimar a
iconoclastia |
- Reforço do poder imperial - Perda cultural e artística irreparável |
|
Iconófilos (defensores dos ícones) |
Veneração de ícones como meio de devoção, não adoração |
- Resistência nos mosteiros - Produção clandestina de ícones - Defesa
teológica da distinção entre veneração e adoração |
- Prisões, exílios e execuções - Fortalecimento da tradição
iconográfica após 843 |
Os iconoclastas
buscavam purificar a fé e fortalecer o poder imperial, mas acabaram causando
destruição cultural.
Os iconófilos
sofreram perseguições severas, mas sua resistência garantiu a restauração
definitiva dos ícones em 843, no chamado Triunfo da Ortodoxia.
O
CONCÍLIO DE NICÉIA
O Concílio de Nicéia
foi decisivo para a história do cristianismo: em 325 d.C., com a presença de
300 bispos; condenou o arianismo e estabeleceu o Credo Niceno, afirmando que
Cristo é consubstancial ao Pai; em 787 d.C., reafirmou a legitimidade da
veneração de imagens religiosas, encerrando a controvérsia iconoclasta.
Objetivo: Resolver a
controvérsia do arianismo, que negava a plena divindade de Cristo.
Principais decisões:
·
Condenação do arianismo como heresia.
·
Proclamação de que Cristo é
“consubstancial ao Pai” (mesma essência divina).
·
Elaboração do Credo Niceno, primeiro
símbolo de fé universal da Igreja.
·
Definição da data da Páscoa independente
do calendário judaico.
·
Aprovação de 20 cânones disciplinares,
incluindo regras sobre a ordenação, a penitência e organização eclesiástica.
Não só o movimento iconoclasta abalava as
estruturas da Igreja naquele tempo como também as heresias dentre elas a mais
forte, o arianismo (325 d.C).
Assim
ficou conhecida porque o propagador dessa heresia foi Ário, presbítero (padre)
de Alexandria. Ele ensinava que Cristo não era plenamente divino, mas uma
criatura criada por Deus Pai.
Negava
a consubstancialidade de Cristo, isto é que o Pai e o Filho contêm a mesma
essência divina.
O
arianismo causou impactos profundos na Igreja, tanto teológicos quanto
políticos e sociais. Eis os principais efeitos:
Impactos teológicos
- Crise doutrinária: Colocou em dúvida
a natureza de Cristo e a relação entre Pai e Filho.
- Divisão interna: Bispos e comunidades
se dividiram entre arianos e ortodoxos.
- Definição da Trindade: Forçou a
Igreja a formular com clareza a doutrina trinitária, consolidada no Credo
Niceno.
Impactos
sociais e culturais
· Perseguições:
Houve perseguições contra líderes e comunidades que se mantinham fiéis ao Credo
Niceno.
· Fragmentação
religiosa: A fé cristã deixou de ser homogênea, gerando debates e disputas que
duraram séculos.
· Legado
histórico: O arianismo influenciou a expansão de povos germânicos e deixou
marcas na história da Igreja até a Idade Média.
Em resumo: o arianismo abalou a unidade da
Igreja, mas acabou servindo como catalisador para a formulação clara da
doutrina trinitária, que se tornou um dos pilares do cristianismo.
Ário foi excomungado em 318 d.C. pelo
bispo Alexandre de Alexandria, e não por um papa romano.
A controvérsia começou no Egito e se espalhou pelo mundo cristão, levando ao
Concílio de Niceia em 325, convocado pelo imperador Constantino, que condenou
oficialmente o arianismo como heresia.
CARTA
APOSTÓLICA – DUODECIMUM SAECULUM
Do
Sumo Pontífice João Paulo II, ao episcopado da Igreja Católica, por ocasião do
décimo segundo centenário do II Concílio de Nicéia.
[Nesta
encíclica, o Santo Padre o Papa João Paulo II, explica o que foi o II Concílio
de Nicéia e o que podemos entender a partir dele sobre a questão das imagens.]
Veneráveis
irmãos, saúde e benção apostólica!
1. O
décimo segundo centenário do II Concílio de Nicéia (787 d.C.), foi objeto de
numerosas comemorações eclesiais e acadêmicas as quais também a Sé apostólica
se associou. O acontecimento foi celebrado igualmente com a publicação de uma
Encíclica de sua Santidade o Patriarca de Constantinopla e do Santo Sínodo,
iniciativa que evidencia a importância teológica e o alcance ecumênico, ainda
atuais e o último concílio plenamente reconhecido pela Igreja Católica e pela
Igreja Ortodoxa. A doutrina defendida por este concílio quanto a legitimidade
da veneração dos ícones (imagens) na Igreja merece também ela uma atenção
especial, não só pela riqueza das suas aplicações espirituais, mas também pelas
exigências que ela impõe em todo âmbito da arte sacra.
O
relevo dado pelo segundo Concílio de Nicéia ao assunto da Tradição, e mais
precisamente da tradição não-escrita, constitui para nós católicos, assim como
para nossos irmãos ortodoxos, um convite a percorrermos de novo juntos o
caminho da Tradição da Igreja não dividida, para reexaminar à sua luz as
divergências, que os longos séculos de separação acentuaram entre nós, e para
reencontrar; conforme o que Jesus pediu ao Pai (Cf. Jo17,11.20-21), a comunhão
plena na unidade visível.
2. O
Patriarca de Constantinopla São Tarásio, moderador do segundo Concílio Niceno,
ao apresentar ao Papa Adriano I o relatório do desenrolar do Concílio,
escrevia: “Depois de termos todos ocupado o próprio lugar, nós estabelecemos
ter Cristo como (nosso) chefe. Com efeito, o Santo Evangelho foi colocado em
cima de um trono, como convite a todos os presentes a julgarem segundo a
justiça. O fato de se ter constituído Cristo como presidente da assembleia
conciliar, que se reunia no seu nome e sob a sua autoridade, foi um gesto
eloquente para afirmar que a unidade da Igreja não pode realizar-se anão ser na
obediência de seu único Senhor”.
3. Os
imperadores que tinham convocado o Concílio, Irene e Constantino VI, tinham
convidado o meu predecessor Adriano I, “enquanto verdadeiro primeiro Pontífice,
que preside no lugar e na sede do santo e muito venerável Apóstolo Pedro. Ele fez representar pelo arcebispo
da Igreja romana e pelo Hegúmeno (Abade) do mosteiro grego de São Sabas em
Roma. Para assegurar a representatividade universal da Igreja, era requerida
também a presença dos Patriarcas orientais. Uma vez que os seus territórios se
encontravam sob domínio muçulmanos, os patriarcas de Alexandria e de Antioquia
enviaram conjuntamente uma carta comum a São Tarásio; e o Patriarca de
Jerusalém enviou uma carta sinodal. Uma e outra forma lidas no Concílio.
Admita-se então comumente que as decisões do
Concílio ecumênico eram válidas somente se o Bispo de Roma nelas tivesse
colaborado e se os Patriarcas orientai tivessem manifestado o seu acordo. Neste
processo o papel da Igreja de Roma era reconhecido como insubstituível. Assim,
o segundo Concílio Niceno aprovou a explicação do Diácono João, segundo a qual
a assembleia dos iconoclastas, realizada na Hiéria em 754, não era legítima,
porque o Papa de Roma e os Bispos que estão à sua volta não tinham colaborado nela,
nem através dos legados, nem mediante uma carta encíclica, segundo a lei dos
Concílios; e “os Patriarcas do Oriente... e os bispos que estão com eles não
lhe tinham dado consenso”. Por outro lado, os padres do segundo Concílio Niceno
declararam que “acolhiam, acatavam e seguiam” a Carta enviada pelo Papa Adriano
aos imperadores assim como dirigida ao Patriarca. Estas cartas foram lidas, em
latim e na sua tradução grega, e todos foram convidados a dar-lhes
individualmente o próprio assenso.
4. O Concílio saudou unanimemente nas pessoas
dos legados pontifícios “a santíssima Igreja de Roma, ou seja, do Apóstolo
Pedro” e da “Cátedra apostólica”, adotando a fórmula romana e o Patriarca Tarásio,
escrevendo ao meu predecessor em nome do Concílio, reconhecia nele aquele que “herdou
a Cátedra do Apóstolo São Pedro”, e que, “revestido do Sumo Pontificado, tem a
subida honra de presidir, legitimamente e por vontade de Deus, à sagrada
Hierarquia”.
Um dos momentos decisivos
no decorrer do Concílio parece ter sido aquele em que ele se pronunciou a favor
do restabelecimento do culto das imagens, quando participantes acolheram, em
unanimidade, a proposta dos legados romanos de fazer colocar no meio da
assembleia um venerável ícone, para que os Padres pudessem prestar-lhes a sua
veneração.
O último Concílio
ecumênico reconhecido pela Igreja católica quer pela Igreja ortodoxa é um
exemplo notável de “sinergia” entre a sede de Roma e uma assembleia conciliar.
Ele inscreve-se na perspectiva da eclesiologia patrística de comunhão,
fundamentada na Tradição, como o Concílio Ecumênico Vaticano II, justamente,
uma vez mais pôs em evidência.
5. O
Concílio Niceno II afirmou solenemente a existência da “tradição eclesiástica
escrita e não-escrita”, como referência normativa para a fé e para a disciplina
da Igreja. Os padres manifestaram o seu desejo de “conservar intactas todas as
tradições da Igreja, que lhes foram confiadas, sejam elas escritas ou não-escritas.
Uma delas consiste precisamente na pintura dos ícones, em conformidade com a
carta da pregação apostólica”. Contra a corrente iconoclasta, que também tinha
apelado para a Escritura e para a tradição dos Padres, especialmente para o
pseudo-sínodo de Hiréia de 754, o segundo Concílio de Nicéia sanciona a
legitimidade da veneração das imagens conformando “o ensino divinamente
inspirado dos santos Padres e da Tradição da Igreja Católica”.
Os Padres do segundo Concílio Niceno
entendiam, a “tradição eclesiástica” como tradição dos seis Concílios
ecumênicos precedentes e dos Padres ortodoxos, cujo ensino era acolhido
comumente na Igreja.
O Concílio, deste modo definiu como sendo
de fé aquela verdade essencial, segundo a qual a mensagem cristã é “tradição”,“paràdosis”.
À medida que a Igreja foi se desenvolvendo, no tempo e no espaço, a sua
inteligência da Tradição, da qual é portadora, conheceu também ela as fases de
um desenvolvimento, cuja investigação constitui, para o diálogo ecumênico e
para toda a reflexão teológica autêntica, um percurso obrigatório.
6. Já
São Paulo nos ensina que, para a primeira geração cristã, a paràdosis consiste
na proclamação do Acontecimento de Cristo e do seu significado atual, que
realiza na salvação mediante a ação do Espírito Santo (cf. 1Coríntios 15,3-8; 11,2).
A tradição das palavras e dos atos do Senhor foi recolhida nos quatro
Evangelhos, mas sem exaurir neles (cf. Lucas1,1; João20, 30; 21,25). Esta
tradição primigênia é tradição “apostólica” (cf. 2Tessalonisseses 2,14-15;
Judas17; 2Pedro3,2). Ela diz respeito não apenas ao “depósito” da “sã doutrina”
(cf. 2Timóteo1,6-12; Tito1,9), mas também às normas de comportamento e às
regras de vida comunitária (cf. 1Tessalonissenses 4,1-7; 1Coríntios 4,17; 7,17;
11,6; 14,33). A Igreja lê a Escritura à luz da “regra da fé”, quer dizer, da
sua fé viva mantida coerente com o ensino dos Apóstolos. Aquilo que a Igreja
sempre acreditou e praticou, ela considera-o justamente como “Tradição
apostólica”.
Santo Agostinho dizia: “Uma observância
mantida pela Igreja inteira e conservada sempre, que não tenha sido instituída
pelos Concílios, acaba por não ser outra coisa, com pleno direito, senão uma
tradição que emana da autoridade dos Apóstolos.”
De fato, as tomadas de posição dos Padres
no decorrer dos grandes debates teológicos dos séculos IV e V, a importância crescente da instituição sinodal e nível regional
e universal, fizeram com que, pouco a pouco, a tradição se tornasse a “tradição
dos Padres” ou “tradição eclesiástica”, entendida como desenvolvimento homogêneo
da Tradição apostólica. Foi por isso que São Basílio Magno fez apelo às “tradições
não-escritas”, que são a “tradição dos Padres”, para fundamentar a sua teologia
trinitária, e sublinha a providência dupla da doutrina da Igreja “do ensino
escrito, bem como da tradição apostólica”.
O propósito do
Concílio Niceno, que cita oportunamente São Basílio a propósito da teologia das
imagens, invocou também a autoridade dos grandes doutores ortodoxos, como São
Gregório Nazianzeno, São Gregório de Nissa, São Cirilo de Alexandria. São João
Damasceno pôs também ele em relevo a importância para a fé das “tradições
não-escritas”, isto é, não contidas na Escritura, ao declarar: “Se alguém se
apresentar com um Evangelho diferente daquele que a Igreja Católica recebeu dos
Santos Apóstolos, dos Padres e dos Concílios e que ela conservou até os nossos
dias, não escuteis”.
7.
Mais próximo de
nós, o Concílio Vaticano II apresentou novamente em plena luz a importância da
“tradição que provém dos Apóstolos”. De fato, “a Sagrada Escritura é a Palavra
de Deus, enquanto consignada por escrito sob a ação do Espírito divino; a
Sagrada Tradição, por seu lado, é portadora da Palavra de Deus, confiada por
Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos Apóstolos, e transmite-a integralmente
aos seus sucessores”.
“Ora, aquilo
que foi transmitido pelos Apóstolos compreende tudo quanto contribui para o
Povo de Deus viva santamente e para o aumento da fé”. Juntamente com a Sagrada
Escritura, a Sagrada Tradição constitui “um único depósito sagrado da Palavra
de Deus, confiado à Igreja”. A interpretação autêntica “da Palavra de Deus
escrita ou contida na Tradição foi confiada unicamente ao Magistério vivo da
Igreja, cuja autoridade é exercida em nome de Jesus Cristo”. É mediante uma
fidelidade igual ao tesouro comum da Tradição que remonta aos Apóstolos, que as
Igrejas se esforçam hoje por aprofundar os motivos das suas divergências a as
razões que há de superar.
8.
A terrível “controvérsia
sobre as imagens” que dilacerou o império bizantino sob os imperadores
isáuricos Leão III e Constantino V, entre os anos 730 e 780, e de novo sob Leão
V, de 814 a 843, explica-se principalmente pelo debate teológico que, desde o
início, foi o seu fulcro.
Sem ignorar o
perigo de um ressurgimento sempre possível das práticas idolátricas do
paganismo, a Igreja admita que o Senhor, a Bem-aventurada Virgem Maria, os
Mártires e os santos fossem representados de formas patrióticas ou plásticas para
favorecer a oração e a devoção aos fiéis. Era claro para todos, segundo a
fórmula de São Basílio, recordada pelo Concílio Niceno, que “a honra prestada
ao ícone é dirigida ao protótipo”. No Ocidente, o Papa São Gregório Magno tinha
insistido no caráter didático das pinturas nas igrejas, úteis para que os
analfabetos, “ao contemplá-las, possam ler, pelo menos nas paredes, aquilo que
não são capazes de ler nos livros”, e acentuava que esta contemplação devia
levar à adoração da “única e onipotente Trindade Santíssima”. Foi neste
contexto quem se desenvolveu, de maneira particular em Roma durante o século
VIII, o culto das imagens dos Santos, dando lugar a uma produção artística
admirável.
O movimento
iconoclasta, rompendo com a tradição autêntica da Igreja, considerava a
veneração das imagens como um retorno à idolatria. Não sem contradição e
ambiguidade, ele proibia a representação de Cristo e das imagens religiosas em
geral, enquanto continuava a admitir as imagens profanas, em particular as
imagens do imperador, com os sinais de reverência que elas na davam ligados. A
base da argumentação dos iconoclastas era de natureza cristológica. Como pintar
Cristo que unia na sua pessoa, sem as confundir nem as separar, a natureza
divina e a natureza humana? Por outro lado, seria possível representar a sua
divindade inapreensível; por outro representa-lo na sua humanidade somente
seria dividi-lo separando n’Ele a divindade da humanidade. Escolher uma ou
outra destas duas vias levaria às duas heresias cristológicas opostas ao monofisismo
e do nestorianismo. Com efeito, quem pretendesse representar Cristo na sua
divindade condenar-se-ia absorver nessa representação a sua humanidade; e quem
mostrasse apenas um retrato de homem, acabaria por ocultar que ele é também
Deus.
9.
O dilema posto
pelos iconoclastas envolvia algo que ia muito além da questão da possibilidade de
uma arte cristã; punha em causa toda a visão cristã a realidade da Encarnação
e, portanto, das relações de Deus com o mundo, e da graça com a natureza, numa
palavra, a especificidade da “Nova Aliança”, que Deus concluiu com os homens
por meio de Jesus Cristo. Os defensores das imagens advertiam muito bem isso:
segundo uma expressão do Patriarca de Constantinopla São Germano, ilustre
vítima da heresia iconoclasta, era toda “a economia divina segundo a carne” que
era posta de novo em questão.
Com efeito, ver
representado o rosto humano do Filho de Deus, “imagem de Deus invisível”
(Colossenses1, 15), é ver o Verbo feito carne (cf. Jo1,14), o Cordeiro de Deus
que tira o pecado do mundo (cf. Jo1, 29). Portanto, a arte de representar a
forma, a efígie do rosto humano de Deus e levar aquele que o contempla ao
mistério inefável do mesmo Deus feito homem para nossa salvação. Assim o Papa
Adriano pôde escrever: “Graças a um rosto visível, o nosso espírito será
transportado, por um atrativo espiritual, até a majestade invisível da
divindade, através da contemplação da imagem que está representada a carne.,
que o Filho de Deus se dignou assumir para a nossa salvação. E, sendo assim,
nós adoramos e conjuntamente louvamos, glorificando-o em espírito, este mesmo
Redentor, porque, como está escrito, ‘Deus é Espírito’ e é por isso que nós
adoramos espiritualmente sua divindade”.
O Concílio
Niceno II, portanto, reafirmou solenemente a distinção tradicional entre “a
verdadeira adoração (latria)” que, “segundo a nossa fé, é devida somente a
natureza divina” e a “prosternação der honra” (timetiké proskynesis), que é
prestada aos ícones, porque “aquele que se prostra diante do ícone, prostra-se
diante da pessoa (a hipóstase) daquele que na figuração é representado”.
A iconografia
de Cristo, implica, portanto, toda a fé na realidade da Encarnação e no seu
significado inexaurível para Igreja e para o mundo. Se a Igreja costuma pô-la
em prática, fá-lo porque está convencida que o Deus revelado em Jesus Cristo
resgatou realmente e santificou a carne e o inteiro mundo sensível, ou seja, o
homem com seus cinco sentidos, a fim de lhe permitir renovar-se constantemente
“a imagem d’Aquele que o criou” (Colossenses3,10).
10.
O Concilio
Niceno II, por conseguinte, sancionou a tradição segundo a qual “devem expor-se
as venerandas imagens sacras, manufaturadas com tintas, como mosaico e outras
matérias idôneas, nas igrejas consagradas a Deus, nos vasos e paramentos
sagrados, nas paredes e nos retábulos, nas casas e nas ruas; isto implica-se
tanto à imagem de Nosso Senhor Deus e Salvador Jesus Cristo e à de Nossa
Senhora Imaculada, a santa Theotokos, como às imagens dos veneráveis anjos e
todos os homens santos e piedosos”. A doutrina deste Concílio sustentou a arte
da Igreja tanto no oriente como no Ocidente, inspirando-lhe obras de uma beleza
e uma profundidade sublimes.
Em particular a
Igreja grega e as Igrejas eslavas, apoiando-se nas obras dos granes teólogos
São Nicéforo de Constantinopla e São Teodoro Studita, apologistas do culto das
imagens, consideravam a veneração dos ícones com parte integrante da Liturgia,
à semelhança da celebração da Palavra viva do Senhor, assim a exposição de um
ícone figurativo permite àqueles que o contemplam ter acesso aos mistérios da
salvação mediante a vista. “Aquilo que por um lado é manifestado pela tinta e
pelo papel, por outro, no ícone, é manifestado pelas várias cores e pelos
outros materiais”.
No Ocidente a Igreja
de Roma distinguiu-se, numa continuidade sem interrupção, pela sua ação a favor
das imagens, sobretudo no momento crítico em que, entre os anos 825 e 843 os
impérios bizantino e franco se demonstravam ambos hostis ao Concílio Niceno II.
No Concílio de Trento, a Igreja Católica reafirmou a doutrina tradicional,
contra a nova forma de iconoclastia que então se manifestava, mais recente, o
Concílio Vaticano II recordou com sobriedade a posição constante da Igreja a
respeito das imagens e da arte sacra em geral.
11.
Desde há alguns
decênios para cá nota-se um surto de interesse pela teologia e pela
espiritualidade dos ícones orientais; isso é sinal de ritual da arte
autenticamente cristã. A este propósito não posso deixar de exortar aos meus irmãos
no episcopado a “manterem o uso e expor imagens nas igrejas à veneração dos
fiéis” e empenharem-se para que surjam cada vez mais obras de qualidade verdadeiramente
eclesial. O crente de hoje, como o de ontem, há de ser ajudado na oração e na
vida espiritual mediante a visão de obras que procurem exprimir o mistério sem
nunca ocultar. É esta a razão pela qual, hoje como no passado, a fé é a
indispensável inspiradora da arte da Igreja.
A arte, que não
leve a pensar senão no seu autor, sem estabelecer uma relação com o mundo
divino, não encontra espaço na concepção cristã do ícone. Seja qual for o
estilo que adote, todo o tipo de arte sacra deve exprimir a fé e a esperança da
Igreja. A tradição das imagens mostra que o artista deve ter consciência de
cumprir uma missão a serviço da Igreja.
A arte cristã
autêntica é aquela que, através da percepção sensível, leva a intuição de que o
Senhor está presente na sua Igreja, que os acontecimentos da história da
Salvação dão sentido e orientação à nossa vida e que a glória que nos está
prometida começa já a transformar a nossa existência. A arte sacra deve tender
a proporcionar-nos uma síntese visual de todas as dimensões de nossa fé. A arte
da Igreja deve ter a preocupação de falar a linguagem da Encarnação e exprimir,
com os elementos da matéria, Aquele que “se dignou habitar na matéria e
realizar a salvação através da matéria”, segundo a fórmula feliz de São João
Damasceno.
A redescoberta
do ícone cristão ajudará também a tomar consciência da urgência de reagir
contra os efeitos despersonalizadores, a às vezes degradantes, das múltiplas
imagens que condicionam a nossa vida, na publicidade e nos “mass-media”;
trata-se de fato de uma imagem que faz chegar até o olhar de um outro invisível
e que nos dá acesso à realidade do mundo espiritual e escatológico.
12.
Amadíssimos
irmãos: Ao recordar a utilidade da doutrina do VII Concílio Ecumênico,
parece-me que estamos perante à nossa tarefa primordial de evangelização. A
secularização crescente da sociedade mostra que ela está tomando, em larga
escala, alheia aos valores espirituais, ao mistério da nossa Salvação em Jesus
Cristo e à realidade do mundo futuro. A nossa tradição mais autêntica, que
compartilhamos plenamente com os nossos irmãos ortodoxos, ensina-nos que a
linguagem da beleza, posta a serviço da fé, é capaz de atingir o coração dos
homens e de nos levar a conhecer, a partir de dentro, Aquele que ousamos
representar nas imagens, Jesus Cristo o Filho de Deus feito homem, o mesmo
ontem, hoje e por todos os séculos”. (Hebreus13,8)
A todos dou, de
coração a Bênção Apostólica.
Dado em Roma,
junto de São Pedro, a 4 de dezembro, memória litúrgica de São João Damasceno,
Presbítero e doutor da Igreja, do ano de 1987, décimo do meu pontificado.
IOANES PAULUS
PP. II
APOLOGIA DE
SÃO JOÃO DAMASCENO A RESPEITO DAS IMAGENS
São João Damasceno (675–749) foi um dos maiores teólogos do Oriente cristão, monge sírio e Doutor da Igreja, lembrado principalmente por sua defesa da veneração dos ícones e por sua obra teológica “Exposição da Fé Ortodoxa”. Ele nasceu em Damasco, viveu parte da juventude como administrador do califado e depois renunciou às honras mundanas para seguir a vida monástica no mosteiro de São Sabas, próximo a Jerusalém.
Reconhecimento:
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Título: Doutor da Igreja, proclamado pelo Papa Leão XIII
em 1890.
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Apelido: “São Tomás do Oriente”, pela profundidade
teológica comparável a São Tomás de Aquino.
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Veneração: Igreja Católica, Ortodoxa, Luterana e Anglicana.
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Morte: 4 de dezembro de 749, no mosteiro de Mar Saba,
Jerusalém.
Legado:
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Influência: Sua obra consolidou a teologia oriental e serviu
de referência para a teologia católica e ortodoxa.
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Liturgia: Seus hinos ainda são cantados nas celebrações
bizantinas.
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Espiritualidade: Modelo de renúncia, contemplação e fidelidade à
tradição apostólica.
O temor me obrigou então, a falar. A verdade foi
mais forte que a majestade dos reis: “Diante dos reis falarei de vossas
prescrições”, ouvi o rei Davi dizendo, “e não me envergonharei”. Na verdade, eu
fui mais do que instigado a falar. A ordem do Rei é onipotente sobre os
súditos. Visto que poucos foram encontrados até agora que, mesmo reconhecendo
que o poder do rei terreno vem do alto, resistiram às exigências ilícitas.
Em primeiro lugar, compreendo o Magistério da
Igreja – que é nossa salvação – como uma espécie de coluna ou alicerce; expus o
seu sentido, dando rédeas, por assim dizer, a um cavalo de batalha bem
equipado. Pois vejo como uma grande calamidade que a Igreja, adornada com seus
grandes privilégios e os mais sagrados exemplos dos santos do passado, volte
aos primeiros rudimentos e tema onde não há temer. É desastroso supor que ela
não conheça a Deus como Ele é, que degenere na idolatria, pis se decaísse da
perfeição em uma vírgula sequer, seria uma mancha permanente em um rosto
harmonioso, destruindo assim, por essa mácula, a beleza do conjunto. O pequeno
não é pequeno quando leva algo grande, tampouco é sem importância abandonar a
antiga tradição da Igreja mantida por nossos antepassados, cuja conduta devemos
observar e a fé imitar.
Primeiramente, então, antes de falar convosco,
suplico a Deus Todo-Poderoso, a quem tudo é claro e que conhece a minha pouca capacidade
e intenção genuína, que abençoe as palavras de minha boca e permita-me
disciplinar a minha mente e direcioná-la par Ele, a fim de andar na sua
presença retamente, não me desviando nem para a direita e nem para a esquerda.
Peço, então, a todo povo de Deus – os escolhidos se Seu sacerdócio real, unidos
ao bom pastor do rebanho espiritual de Cristo, que representa em sim mesmo o
Seu sumo-sacerdócio – que receba este tratado com benevolência, não se atendo à
minha dignidade, nem buscando eloquência, pois sou bem consciente de minhas
falhas, mas que considere os pensamentos em si. Pois o reino dos Céus não está nas
palavras, mas nas ações. Meu objetivo não é triunfar, mas estender a mão
lutando pela verdade – uma mão solícita sob inspiração divina. Confiando, então
em sólida verdade, entrarei no meu assunto.
Prestei atenção às palavras da própria Verdade: “O
Senhor, nosso Deus, é o único Senhor”. “Temerás o Senhor, teu Deus, só a Ele
servirás e não terás outros deuses”, “Não farás para ti escultura, nem figura
alguma do que está em cima, nos céus, ou embaixo, sobre a terra”. “Sejam
confundidos todos os que adoram estátuas”, “Os deuses que não fizeram o céu e a
terra desaparecerão. Deste modo falou Deus pelos profetas aos patriarcas de
outrora. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por meio de seu Filho
Unigênito, pelo qual criou o Universo. Diz Ele: “Esta é a vida eterna: que
conheçam ti, o Deus único e verdadeiro, e a Jesus Cristo, aquele que enviaste”.
Creio em um único Deus, origem de todas as coisas,
incriado, imortal, eterno, impricipiado, inescrutável, incorpóreo, invisível,
incircunscrito, amorfo. Creio em um ser supersubstancial, uma divindade em três
entidades, o Pai, o Filho e o Espírito Santo e somente a Ela adoro com o culto
Latria. Adoro o único Deus, uma única divindade, mas em três pessoas: Deus Pai,
Deus Filho que se fez carne e Deus Espírito Santo. Não reverencio a criação
mais que o criador, mas reverencio a criatura criada como eu, aceitando livre e
espontaneamente para que Ele eleve a nossa natureza nos torne participantes de
sua natureza divina. Eu O adoro revestido de carne, junto com meu Senhor e Rei,
não como se fosse um traje ou que constituísse a quarta pessoa da Trindade –
Deus me livre! Essa carne é divina e perdura após a ascensão.
A natureza humana não foi perdida na divindade, mas
como o Verbo feito carne permaneceu Verbo, assim também a carne se tornou Verbo
permanecendo carne, vindo a ser, antes, uma com o Verbo pela união hipostática.
Portanto, atrevo-me a traçar uma imagem do Deus invisível, mas como feito
visível por nossa causa, através da carne e do sangue. Não traço uma imagem da
divindade imortal, eu retrato a carne visível de Deus. Pois é impossível representar
um espírito qualquer, quanto mais Deus que lhe dá alento!
Ora, dizem os adversários, as ordens de Deus a
Moisés, o legislador, foram: “Adorarás o Senhor teu Deus e somente a Ele
prestarás culto; e não farás para ti coisa alguma esculpida do que está em cima
no céu ou em baixo na terra”.
Não conhecendo as Escrituras, sem dúvida eles se
perdem, e por não saberem que “a letra mata, mas o espírito vivifica”, deixam
de buscar o Espírito escondido na letra. Eu poderia dizer a essas pessoas, com
justiça: Aquele que vos ensinou isso também vos ensinaria o que vem em seguida.
Vede a interpretação do legislador no Deuteronômio: “Do meio do fogo, o Senhor
vos falou. Ouvistes o som de suas palavras, mas não o vistes, no entanto,
nenhuma forma somente uma voz”. E pouco depois: “Tende cuidado com a vossa
alma. No dia em que o Senhor, vosso Deus, vos falou do meio do fogo no Horeb,
não vistes figura alguma. Guardai-vos, pois, de fabricar alguma imagem
esculpida representando o que quer que seja, figura de homem ou de mulher,
representação de algum animal que vive na terra ou de um pássaro que voa nos
céus”. E novamente: “Para que não aconteça talvez de levantares os olhos aos
céus e, vendo o sol, a lua e todas as estrelas do firmamento vós os sirvais e
adoreis, sendo enganados pelo erro”.
Vede que o único objetivo é não reverenciar a
criatura mais do que o Criador, nem dar o culto de latria a não ser somente a
Ele. Por isso ele sempre vincula o serviço à reverência de culto, visto que novamente
diz: “Não terás outros deuses diante de mim, não farás para ti imagem de escultura
representando que quer que seja. Não te prostrarás diante delas nem as
servirás, porque eu sou o Senhor, teu Deus”. E de novo, “derrubareis seus
altares, quebrareis suas colunas, queimareis seus troncos sagrados,
despedaçareis seus ídolos. Pois não adorareis um outro deus”. E um pouco mais
adiante: “Não farás para ti deuses de metal fundido”.
Vede que Ele proíbe fazer imagens devido à
idolatria, e que é impossível fazer uma imagem do Deus ilimitado, imensurável e
invisível. “Vós não vistes a sua face”, diz a Escritura, se segundo São Paulo
no meio do Aerópago: “Se, pois, somos a raça de Deus, não devermos pensar que a
divindade é semelhante ao ouro, à prata ou à pedra lavrada por arte e gênio dos
homens”.
Estas prescrições foram dadas aos judeus por causa
da sua propensão à idolatria. Ora, nós pelo contrário, já não estamos sob os
cuidados de um pedagogo. Teologicamente falando, é-nos indicado evitar erros
supersticiosos, estar com Deus no conhecimento da verdade, adorar somente a
Eler e desfrutar da plenitude de sua sabedoria. Já passamos da fase de infância
e atingimos a perfeição da maturidade. Tendo recebido de Deus a habilidade de
discernir, sabemos o que pode ser representado em imagem e o que não pode. A
Escritura diz: “Não poderás ver face a face”. Que sabedoria a do legislador!
Como retratar o invisível? Como imaginar o inconcebível? Como dar expressão ao
ilimitado, ao incomensurável, ao invisível? Como dar fora à imensidão? Como
pintar a imortalidade? Como limitar o mistério?
É claro que, quando contemplais o Incorpóreo,
tornando-se homem por vossa causa, sereis capazes de revesti-lo de forma
humana. Quando o Invisível se torna visível à carne, pode-se, então desenhar
uma imagem se sua forma. Quando Aquele que é incorpóreo, sem forma nem limite,
imensurável na infinitude se sua própria natureza, existindo como Deus, toma
sobre Si a forma de um servo, em substância e estatura, e um corpo de carme;
então podeis desenhar sua imagem e mostrá-la a qualquer um que queira
contemplá-la. Podeis retratar sua inefável condescendência, seu nascimento
virginal, seu batismo no Jordão, sua transfiguração no Tabor, seus sofrimentos
onipotentes, sua morte e milagres, as provas da sua divindade, as obras que
realizou na carne através do Seu poder divino, sua cruz salvadora, seu
sepultamento, ressurreição e ascensão ao céu. Podeis registrar tudo isso não
apenas em palavras, mas também em cores.
Não temais, nem vos inquieteis: a reverência
prestada não é dada do mesmo tipo. Abraão prostrou-se por terra diante dos
filhos de Hemor, homens ímpios que desconheciam a Deus, quando comprou dupla
caverna para um túmulo. Jacó reverenciou seu irmão Esaú e o faraó, home egípcio.
De fato, prestou reverência também à ponta de seu próprio cajado. Reverenciou,
não adorou. Josué e Daniel prostraram-se por terra diante do Anjo de Deus, não
o adoraram. O culto de latria é uma coisa, a reverência que é dada por mérito,
é outra. Ora, como estamos falando de imagens e reverência, vamos analisar o
significado exato de cada uma.
Uma imagem é uma semelhança do original com uma
certa diferença, pois não é uma reprodução exata. Assim, o Filho é a imagem
viva, substancial e imutável do Deus invisível, portando em Si Mesmo a
plenitude do Pai, sendo em todas as coisas igual a Ele, diferindo apenas em ser
gerado por Ele, que é o Gerador; enquanto o Filho é gerado. O Pai não procede
do Filho, mas o Filho do Pai. É através do Filho, embora não depois d’Ele, que
Ele é o que é: o Pai que gera. Em Deus também há representações de imagens de
seus atos futuros – ou seja, seu desígnio desde toda eternidade, que é sempre
imutável. Aquele que é divino é imutável; não há n’Ele mudança, nem sombra de
instabilidade.
O bem-aventurado Dionísio, que fez das coisas
divinas na presença de Deus o seu estudo, diz que estas representações e
imagens estão previamente assinaladas. Em seus desígnios, Deus anotou e
estabeleceu tudo o que Ele faria, os imutáveis eventos futuros, antes que eles
viessem a acontecer. Do mesmo modo, um homem que desejasse construir uma casa,
primeiro pensaria e faria o projeto. Com efeito, as realidades visíveis são
imagens daquelas realidades invisíveis e intangíveis sobre as quais elas lançam
uma pálida luz.
A Sagrada Escritura reveste de aparência a Deus e
os Anjos, e o mesmo santo Dionísio explique o porquê. Quando as realidades
sensíveis podem traduzir suficientemente o que está além dos sentidos e dar
forma ao que é intangível, um meio de representação seria considerado
imperfeito conforme o nosso nível de compreensão se não transmitisse uma visão
material completa ou exigisse um esforço mental. Portanto, se a Sagrada
Escritura, suprindo a nossa necessidade, sempre reveste de carne o que nos apresenta
de intangível, é envolvido pela nossa natureza e trazido ao nível de nossos
anseios? Deste modo, uma certa concepção que antes não existia ocorre na mente
através dos sentidos e é transmitida à faculdade do juízo e acrescentada à
memória.
Gregório, tão eloquente sobre as realidades
divinas, diz que a mente, determinada a ir além das realidades corpóreas, é incapaz
de fazê-lo por si mesma. Pois as realidades invisíveis de Deus são tornadas
visíveis através das imagens desde a criação do mundo. Vemos imagens na criação
que nos lembram palidamente d’Ele, como quando, por exemplo, falamos da Santa e
adorável Trindade, representada pelo sol, pela luz, por reios ardentes, uma
fonte que corre, um rio caudaloso, pela mente, pela fala, pelo espírito dentro
de nós, por uma roseira, uma flor que brota, por um suave perfume.
Além disso, uma imagem é muitas vezes indicativa de
algo futuro, encobrindo misticamente o que está par acontecer. Por exemplo, a
arca, assim como o cajado e o jarro de barro, representa a figura de Nossa
Senhora, Mãe de Deus. A serpente nos apresenta
Aquele que derrotou na cruz a mordida da serpente original. O mar, a
água e nuvem simbolizam a graça do batismo.
De novo, os acontecimentos que se realizam são
expressos por imagens para a lembrança quer de um prodígio, de uma honra ou
desonra, quer de um homem ou bem ou mal, para ajudar aqueles que as veem em
tempos posteriores, a fim evitar o mal e imitar o bem. São de dois tipos: a
imagem escrita nos livros, como quando Deus escreveu a Lei nas tábuas, e quando
ordenou que as vidas dos santos fossem registradas e que lembranças sensíveis
preservadas como recordação. Como por exemplo o jarro de barro e o cajado
dentro da arca. Por isso agora preservamos por escrito as imagens e as boas
obras do passado. Rejeitai, portanto, completamente as imagens e ficai em
desarmonia com Deus, que criou estas disposições, ou recebei-as com a linguagem
e o modo que lhes convém.
Falando em modo, entramos na questão da reverência.
A reverência é um símbolo da veneração e da honra. Entendamos que ela pode ser
de diferentes graus. Em primeiro lugar, há reverência do culto de latria, que
damos a Deus, o único por natureza digno de adoração. Na qual, por cauda d’Ele,
que é adorável por natureza, honramos seus santos servidores – como quando
Josué e Daniel prostram-se diante do anjo, e Davi dos lugares santos, quando
disse “Entremos em sua morada, prostremo-nos diante do escabelo de seus pés”.
Também, em seus tabernáculos, como quando todo o povo de Israel adorava nas
tendas e em pé ao redor do Templo de Jerusalém, fixando nele o seu olhar por
todos os lados, prestando culto desde aquele dia até hoje. Ou ainda, quando
honramos os príncipes por Deus estabelecidos, como Jacó, que prestou reverência
a Esaú, seu irmão mais velho e ao Faraó, dirigente divinamente estabelecido, ou
como José, que foi reverenciado pelos seus irmãos. Tendo ciência de que a
reverência se baseia na honra, como o caso de Abraão e dos filhos de Het.
Então, eliminai totalmente a reverência, ou recebei-a integralmente de acordo
com sua medida apropriada.
Responde-se esta pergunta: há um só Deus? Tu
respondes: “Sim, há um só legislador”. Por que, então, Ele ordena coisas
opostas? Ora, os querubins não estão fora da criação. Por que, então ele permite
que querubins esculpidos pela mão do homem encubram o próprio propiciatório?
[aqui ele se refere aos dois querubins, os anjos da Arca da aliança que Deus
mandou fazer e por sobre a tampa dela]. Não é evidente como é impossível, ou de
como um Deus, que é incircunscrito e impassível, ou de como um Deus, a criação não
deve ser adorada como um tal? Ele permite, no entanto, que seja feita imagens dos
querubins, que são incircunscritos, prostrados em adoração diante do trono
divino. E prostrados deste modo para encobrir o propiciatório. Ora, era
apropriado que a imagem dos coros celestiais encobrisse os mistérios divinos.
Dirias que a Arca, o cajado e o propiciatório não
foram criados? Não foram eles produzidos pela mão do homem? Não se devem ao que
tu chamas de matéria desprezível? O que é era o próprio tabernáculo? Não era
uma imagem? Não era um modelo e uma figura? Daí as palavras do santo apóstolo a
respeito da observância da Lei: “Que é representação e sombra das realidades
celestes, como foi dito a Moisés, quando estava para executar a construção do
tabernáculo: “Vê, faze tudo segundo o modelo que te foi mostrado sobre o monte”.
Mas, a Lei não era uma imagem. Ela envolvia a imagem. Nas palavras do mesmo
apóstolo, “a Lei contém sombra dos bens futuros, não a imagem destes”. Se,
pois, a Lei deveria proibir as imagens e ainda assim ser ela mesma uma
precursora destas, o que devemos dizer? Se o tabernáculo era uma imagem e o
modelo de um modelo, como é que a Lei proíbe a fabricação de imagens? Mas isto
não é o mínimo que se pode dizer. Há um tempo para tudo.
Antigamente, Deus, incorpóreo e incircunscrito,
nunca era retratado. Entretanto, agora que Deus é visto revestido de carne e
conversando com os homens, eu posso fazer uma imagem do Deus a quem vejo. Não
adoro a matéria, adoro o Deus da matéria, que se tornou matéria por min há
causa e dignou habitá-la, e que se dela operou a minha salvação. Não deixarei
de honrar essa matéria que opera minha salvação. Eu a venero, embora não como
Deus. Como poderia Deus nascer de algo sem vida? E se o corpo de Deus é Deus
pela união hipostática, ele é imutável. Sua natureza permanece a mesma de
antes, a carne criada no tempo é vivificada por uma alma espiritual e racional.
Eu honro toda a matéria; aliás, eu a reverencio.
Por meio dela, preenchida, por assim dizer, de um poder e graça divinos, a
minha salvação chegou até a mim. Não era matéria a três vezes bem-aventurada e
bendita madeira da cruz? Não era matéria o sagrado e santo monte Calvário? E o
rochedo do qual brota a Vida, o Santo Sepulcro, fonte de nossa ressurreição:
não era matéria? Não é matéria o santíssimo livro dos evangelhos? Não é matéria
a bendita mesa que nos dá o Pão da Vida? Não é matéria o ouro e a prata que são
feitas as cruzes, a patena, os cálices? E antes de tudo, não é matéria o Corpo
e Sangue de Nosso Senhor?
Livrai-nos da veneração e do culto devidos a tudo
isso, ou submetei-vos à tradição da Igreja no culto das imagens, honrando a
Deus e aos seus amigos, seguindo nisto a graça do Espírito Santo. Não desprezes
a matéria, pois ela não é desprezível. Nada do que Deus fez o é. Isso é heresia
maniqueísta. Somente uma coisa é desprezível e não vem de Deus, mas é nossa própria
invenção: a escolha espontânea da vontade de desconsiderar a lei natural – ou
seja, o pecado. Portanto, desonrais e rejeitais as imagens porque são feitas de
matéria, considerai o que diz a Escritura: “O Senhor disse a Moisés: ‘Eis que
chamei por seu nome Beseleel, filho de Uri, filho de Hur, da tribo de Judá. Eu
o enchi do espírito divino para lhe dar sabedoria, inteligência e habilidade para
toda sorte de obras: invenções, trabalho de ouro, de prata, de bronze gravuras
em pedras de engastes, trabalho em madeira e para executar toda sorte de obras.
Associei-lhe Ooliab, filho de Aquisamec, da tribo de Dã. E dou sabedoria ao
coração de todos os homens inteligentes, a fim de que executem tudo que te
ordenei”. E ainda: “Moisés disse a toda a assembleia dos israelitas: ‘Eis o que
o Senhor ordenou: Separai de entre vós uma oferta para o Senhor. Todo homem de
coração reto trará esta oferta ao Senhor; ouro, prata, bronze, púrpura violeta
e escarlate, carmesim, linho fino, pele de cabra, peles de carneiro tingidas de
vermelho, peles de golfinho, madeira de acácia, óleo para o candelabro, aromas
para o óleo de unção e para o incenso odorífero, pedras de ônix e pedras de
engaste para o efod e o peitoral. Venham todos aqueles dentre vós que são
hábeis, executem tudo o que o Senhor vis ordenou’”. Eis aí a exaltação da
matéria, que desqualificais. Que há de mais insignificante que pelo de cabra ou
pigmentos? Não são pigmentos a escarlate, a púrpura e o carmesim? Agora,
considerai a arte manual do homem tornando-se semelhança aos querubins! Como
podeis então, fazei da lei um pretexto para abandonar o que a lei ordena? É
certo que “se observardes a lei, de nada vos servirá Cristo: decaístes da
graça”. O Israel de outrora não via a Deus, mas “nós vemos a glória do Senhor
face a face”.
Nós O proclamamos também pelos nossos sentidos por
todos os lados e santificamos o sentido mais nobre, que é a visão. A imagem é
um memorial, exatamente como as palavras são para o ouvido que as escuta. O que
o livro é pra os letrados, a imagem é para os analfabetos. A imagem fala à
vista assim como as palavras ao ouvido: ela nos traz entendimento. Por isso
Deus ordenou que a Arca fosse feita de madeira imperecível e que fosse dourada
por dentro e por fora, que nela fossem colocadas as tábuas, o cajado e a urna
dourada contendo o maná, para memória do passado e símbolo do futuro.
Quem pode dizer que estas coisas não eram imagens e
mensageiras de grande alcance? E não estavam penduradas nas paredes do
tabernáculo, mas, à vista de todo povo que olhava em sua direção, foram
apresentadas para o culto e adoração a Deus, que delas se utilizou. É evidente
que não eram veneradas por si mesmas, mas que o povo, através delas, era levado
a lembrar dos sinais passados e a adorar o Deus das maravilhas. Eram imagens
que serviam de recordação. Não eram divinas, mas levavam às realidades divinas
por virtude do divino poder.
O Senhor também ordenou que doze pedras fossem
retiradas do Jordão e especificou o porquê: Diz Ele: “Quando vossos filhos lhes
perguntarem o significado destas pedras, contai-lhes como a água deixou o
Jordão por ordem divina e como a Arca foi preservada junto de seu povo”. Como,
então, não registraremos em imagens as dores e os milagres salvadores de
Cristo, Nosso Senhor, para que quando meu filho me perguntar “o que é isto?”,
eu possa dizer-lhe que o Verbo Divino se fez homem e que por sua causa não só
Israel passou pelo Jordão, mas toda a raça humana obteve de volta sua
bem-aventurança original? Através d’Ele a natureza humana subiu das profundezas
mais baixas da terra para mais alto que os céus e, em sua Pessoa, sentou-se no
trono que seu Pai lhe havia preparado.
Mas diz o opositor: “Faze uma imagem de Cristo ou
de sua Mãe e que isso seja suficiente!” Ó! Mas que loucura é essa?! É
absolutamente contra os santos, pelo que tu mesmo estás dizendo! Ora, como
poderíamos fazer estátuas de Cristo glorificado enquanto rejeitamos os santos
como se fossem indignos de honra e fingirmos ser verdade esta mentira? “Eu
vivo”, diz o Senhor, “e honro aqueles que me honram”. E diz o divino apóstolo
que ele, portanto, já não é um servo, mas filho. “E se é filho, também é
herdeiro de Deus”. E também “se sofremos com Ele, seremos com Ele
glorificados”. Tu não estás travando guerra contra as imagens, mas contra os
santos! São João, que reclinou sem Seu peito, diz que “seremos como Ele”. Assim
como um homem torna-se fogo pelo contato com o fogo, isto é, não por natureza,
mas pelo contato, pela combustão e participação, compreendo que o mesmo se dá
com a carne do Filho Crucificado de Deus. Essa carne, pela participação através
da união hipostática com a natureza divina, é imutavelmente Deus. Não em
virtude da graça divina, como era o caso de cada um dos profetas, mas pela
presença da própria Fonte primordial. Deus, diz Escritura, levanta-se da
assembleia dos deuses, de modo que os santos também são “deuses”. São gregório
usa essas palavras para dizer que Ele diferencia os seus vários méritos. Os
santos foram em vida cheios do Espírito Santo e, ainda que não estejam mais
aqui, a graça d’Ele permanece em seus espíritos e corpos nos túmulos e também
com seus retratos e imagens sagradas, não por sua própria natureza, mas pela
graça e pelo poder de Deus.
O Senhor encarregou Davi de construir-lhe um templo
através de seu filho e de prepara-lhe um lugar de repouso. Salomão, ao
construí-lo, fez os querubins, como diz o Livro dos Reis. Revestiu-os de ouro e
mandou entalhar querubins e palmas dentro e fora de todas as paredes ao redor.
Ao redor, não dos lados, note-se. E havia touros, leões e romãs. Não seria mais
conivente decorar todas as paredes da casa do Senhor com formas e imagens
sagradas do que feras e plantas? O que houve com a lei que diz “não farás nenhuma
imagem esculpida?” Mas tendo recebido o dom da sabedoria, Salomão, ao dar
imagem ao Céu, fez os querubins e as imagens de touros e leões, os quais a Lei
proibia. Ora, se fizermos uma estátua de Cristo e imagens dos santos, o fato de
estarem cheias do Espírito Santo não aumenta a piedade de nossa homenagem?
Assim, como o povo e o templo eram então purificados pelo sangue e pelos
holocaustos, a Igreja é agora edificada sobre o sangue dos santos, com o sangue
de Cristo dando testemunho sob Pôncio Pilatos e sendo Ele mesmo as primícias
dos mártires. Então, os sinais e formas de animais sem vida prefiguravam o
tabernáculo humano, os próprios mártires que estavam sendo preparados para a
morada de Deus.
Retratamos Cristo como nosso Rei e Senhor, não
podemos privá-lo de seu exército! Os santos são o exército do Senhor! Que antes
os reis terrenos dispensem suas tropas do que abandonem o seu Senhor e Rei! Que
renunciem à púrpura antes de tirarem a honra de seus homens mais valentes, os
quais venceram suas paixões! Pois se os santos são herdeiros de Deus e
co-herdeiros de Cristo, eles também serão participantes da divina glória da
soberania. Se os amigos de Deus tiveram parte nos sofrimentos de Cristo, como
não receberão uma parte da glória ainda na terra? “Não vos chamo servos”, diz o
Senhor, “chamo-vos de amigos”. Será que deveríamos, então, privá-los da honra
que lhes foi dada pela Igreja? Que audácia! Que atrevimento de espírito, lutar
contra Deus e seus mandamentos!
Vós que recusais prestar culto às imagens não
deveríeis prestar culto ao Filho de Deus, Imagem viva do Deus invisível e forma
imutável. Eu venero a imagem de Cristo como Deus Encarnado, a de Nossa Senhora,
Mãe der todos nós, como a Mãe do Filho de Deus, e a dos santos como amigos de
Deus. Eles resistiram ao pecado até o sangue seguiram a Cristo derramando seu
sangue por Ele, que derramou por eles o seu. Eu registro as excelências e os
sofrimentos daqueles que trilharam seus passos para que eu me santifique e seja
inflamado pelo zelo da imitação. São Basílio diz: “A honra prestada a uma
imagem se dirige a quem ela representa”. Se ergueis igrejas para os santos de Deus,
levantai também seus troféus.
O templo de antigamente não foi construído em nome
de homem algum. A morte do justo era causa de lágrimas, não festejo.
Um homem que tocasse um cadáver era considerado
impuro, mesmo que o cadáver fosse o próprio Moisés. Agora, porém, as lembranças
dos santos são conservadas com júbilo. O corpo do morto de Jacó foi pranteado,
ao passo que pela morte de Estêvão há alegria.
Portanto, renunciai às celebrações solenes dos
santos, que não estão de acordo com a antiga lei, ou aceitai as imagens que,
como dizes, são igualmente contrárias a elas. Mas, é impossível não conservar
com júbilo a memória dos santos. Os Apóstolos e Padres são unânimes em
ordená-lo.
A partir do momento em que o Verbo Divino se fez carne,
Ele é como nós em tudo, exceto no pecado, e é da nossa natureza, sem confusão. Ele
deificou a nossa carne para sempre e nós somos, de fato, santificados pela sua
Divindade e pala união desta sua carne.
A partir do momento em que Deus Filho, impassível
em razão de sua Divindade, escolheu sofrer voluntariamente, Ele liquidou nossa
dívida, também pagando por nós um resgate mais nobre e pleno.
Somos verdadeiramente livres mediante o sagrado
sangue do Filho, que suplica por nós ao Pai. E fomos, de fato, livrados da
corrupção desde o momento em que Ele desceu aos infernos para as almas lá
detidas pelos séculos e, acorrentando o forte, deu aos cativos a liberdade e
aos cegos a visão.
Ele ressuscitou na plenitude do Seu poder, conservando
revestida de imortalidade a carne que havia tomado por nós. E uma vez que nascemos
de novo na água e do Espírito, somos verdadeiramente filhos e herdeiros de Deus.
Por isso São Paulo chama os fiéis de santos. E por isso não nos entristecemos
com a morte deles, mas nos alegramos. Tendo sido justificados pela fé, e
conhecendo o único Deus verdadeiro, não estamos mais sob a lei. O justo não
está sujeito à lei. Nós não estamos atados a letra da lei nem somos crianças,
que são tratadas como escravos, mas sim homens crescidos em perfeito estado. Somos
nutridos com alimento sólido, não com o que leva à idolatria.
A lei é boa como a luz que brilha em um lugar
escuro até que o dia amanheça. Vossos corações já foram iluminados, a água viva
do conhecimento de Deus prevaleceu sobre os tempestuosos mares do paganismo e
nós todos podemos conhecer a Deus. A criação antiga passou e tudo foi renovado.
O Santo Apóstolo Paulo disse a São Pedro, chefe dos
Apóstolos: “Se tu sendo judeu, vives com o um pagão e não como um judeu, como
vais persuadir os pagãos a fazerem o que os judeus fazem?”
E aos Gálatas: “Atesto a todo homem que se circuncidar
está obrigado a observar toda a lei”.
Antigamente, aqueles que não conheciam a Deus
adoravam falsos deuses. Mas agora, conhecendo-O, ou melhor, sendo conhecidos
por Ele, como podemos retornar a rudimentos fracos e miseráveis?
Olhei para forma humana de Deus e minha alma foi salva.
Assim como fez Jacó, eu contemplo sua imagem, embora de um jeito diferente. Vendo
com a visão imaterial, Jacó pareceu vislumbrar o futuro, ao passo que a imagem
d’Aquele que é visível à carne está gravada a fogo em minha alma. O vulto, o
sudário e as relíquias dos Apóstolos curavam doenças e expulsavam demônios. Como
é então que o vulto e as estátuas dos santos não devem ser exaltados?
Eliminai, portanto, o culto a toda matéria ou não
sejais um inovador. “Não alteres as antigas fronteiras que teus pais fixaram”.
Não foi apenas por escrito que eles nos legaram a
tradição da Igreja, mas também por certos exemplos dados de outro modo. No vigésimo
sétimo livro de sua obra a respeito do Espírito Santo, em trinta capítulos dirigidos
a Anfilóquio, São Basílio diz: “entre os valiosos ensinamentos e dogmas da
Igreja, alguns conservamos em documentos escritos, outros recebemos da Tradição
Apostólica nos mistérios. Ambos são de igual valor para o crescimento da alma.
Ninguém que considerou sequer um pouco a disciplina
da Igreja vai contestar isso. Pois se negligenciamos costumes não escritos como
se não tivessem muita importância, sepultamos no esquecimento os fatos
pertinentes ligados ao Evangelho”. Estas são as palavras de Basílio Magno.
Como é que sabemos onde e qual é o local sagrado do
Calvário ou do Santo Sepulcro? Não se baseia isso em uma tradição transmitida
de pai para filho? Está escrito que Nosso Senhor foi crucificado no Calvário e
sepultado num túmulo que José de Arimatéia talhou na pedra, mas é a tradição
não escrita que identifica estes locais e faz outras coisas semelhantes. De onde
vêm as três imersões do batismo, ao rezar com o rosto voltado para o Oriente, a
tradição dos divinos mistérios? Daí São Paulo dizer: “Assim, pois, irmãos,
ficai firmes e conservai as tradições que aprendestes, seja por palavras, seja
por carta nossa”.
Então, como tanto foi transmitido na Igreja e é
observado até hoje porque depreciar as imagens?
Se apontais determinadas práticas, estas não
incriminam o nosso culto às imagens, mas sim os dos pagãos, que as transformaram
em ídolos. Não há motivo para opor-se à nossa prática piedosa por causa da
insensatez deles. Se os magos e feiticeiros fazem uso das súplicas, o mesmo faz
a Igreja para com os catecúmenos. Os pagãos invocam demônios, mas a Igreja invoca
Deus contra os demônios. Os pagãos erguem imagens aos demônios, a quem chamam
de deuses. Ora, nós as erguemos ao Deus Único Encarnado, aos seus servos e
amigos, que servem de prova contra as hostes diabólicas.
Se contestais, ainda que o grande Epfânio rejeitava
imagens rigorosamente, seu vos diria, em primeiro lugar que a obra em questão é
fictícia inautêntica. Leva o nome de alguém que não escreveu, algo que costumava
ser feito normalmente. Em segundo lugar, sabemos que o bem-aventurado Atanásio se
opunha que os corpos dos santos fossem sepultados em urnas e preferia que
fossem enterrados no chão, querendo dissipar o estranho costume dos egípcios,
que não enterravam seus mortos sob a terra, mas colocavam-nos em camas e
poltronas. Portanto, suponhamos que o grande Epifânio realmente tenha escrito
essa obra e, desejando corrigir algo semelhante, tenha ordenado que não fosse usada
as imagens. A prova de que ele não se opunha às mesmas pode ser encontrada em
sua própria igreja, que está adornada com imagens até hoje. Em terceiro lugar,
a exceção não é uma lei para a Igreja, nem pode uma só andorinha fazer verão,
como é do parecer de Gregório, o teólogo, e da verdade. Tampouco é possível que
uma única menção derrube a tradição de toda a Igreja que está espalhada pelo
mundo.
Aceitai, pois, os ensinamentos da Escritura e dos
autores espirituais. Se a Escritura chama os ídolos dos pagãos de “ouro e prata
e obras de mãos humanas”, ela não proíbe a veneração de objetos inanimados ou
da obra das mãos do homem, mas sim a adoração de demônios.
Vimos que os profetas reverenciavam Anjos, homens,
reis, ímpios e até mesmo um cajado. Davi diz: “E prostrai-vos ante o escabelo
de seus pés”. Isaías falando em nome de Deus, afirma: “O céu é o meu trono e a
terra meu escabelo”. Ora, é evidente a todos que o céu e a terra são criaturas.
Também Moisés e Aarão veneraram, com todo povo, a obra das mãos humanas.
São Paulo. A cigarra dourada da Igreja, diz em sua
epístola aos hebreus: “Porém, já veio Cristo, Sumo Sacerdote dos bens
vindouros. E através de um tabernáculo mais excelente e mais perfeito, não
construído por mãos humanas, isto é, não deste mundo”. E novamente: “Eis que
Cristo entrou agora não em um santuário feito pelos homens, que era a mera
figura do santuário verdadeiro, mas no próprio Céu, para se apresentar como
intercessor nosso perante a face de Deus”. Assim os primeiros objetos santos, o
tabernáculo e tudo o que havia nele,
foram feitos por mãos humanas e ninguém nega que foram venerados.

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