Quando vemos os ataques dos protestantes à Igreja Católica referente ao uso das imagens sacras, não podemos esquecer que tais ataques não são novidades. Isso ocorreu no passado em um movimento que ficou conhecido como “movimento iconoclasta.”
Na
prática é a mesma sistemática de outrora que toma o pensamento e a ação protestante
por não aceitar a sã doutrina e a tradição. A iconoclastia que começou no
Oriente e durou 87 anos, reacendeu agora no meio protestante e evangélico.
Se
perguntasse a você, amigo católico, quando algum prestante lhe questionar a
respeito do uso das imagens sacras. Quando estes lhe acusarem de idolatria, você
responderia o quê? Quais argumentos sólidos poderia apresentar para refutar
tais acusações?
Saiba
que os argumentos estão aí, basta querer estudá-los. O movimento iconoclasta só
acabou porque houve muitos debates e pessoas como São João Damasceno que usou
de esplêndida hermenêutica para destruir o pensamento e o movimento iconoclasta.
Hoje
não é diferente, só mudou o lado. Se antes o movimento invadia as igrejas,
profanava os lugares santos, quebravam as imagens e os ícones, hoje também, os
protestantes estão fazendo o mesmo ou pior.
É
por isso que nós devemos estudar e beber das fontes, para saber com amor
refutar às acusações, e nos defender dos protestantes que nos acusam e acusam a
Santa Igreja de ser idólatra pelo uso das imagens e objetos sacros. Muitos o
fazem por ignorância, porque não sabem o por que nós veneramos as imagens.
Vamos
entender o que foi o movimento iconoclasta, o que foi o Concílio Ecumênico de Nicéia, porque este Concílio foi muito importante para acabar com o movimento iconoclasta; e
vamos aprender com a hermenêutica de São João Damasceno sobre a veneração
das imagens e porque o fazemos.
O que foi o movimento iconoclasta?
Iconoclastia (ou iconoclasmo) é a destruição ou oposição a imagens, ícones e monumentos sagrados. O termo vem do grego eikon (imagem) e klastes (quebrador). Historicamente, o conceito descreve tanto movimentos político-religiosos quanto atitudes de contestação a tradições estabelecidas.
Quando vemos os ataques dos protestantes à
Igreja Católica referente ao uso das imagens sacras, não podemos esquecer que
tais ataques não são novidades. Isso ocorreu no passado em um movimento que
ficou conhecido como “movimento iconoclasta.”
O
movimento iconoclasta foi um conflito político-religioso no Império Bizantino
entre os séculos VIII e IX, marcado pela proibição e destruição de imagens
religiosas, especialmente ícones de Cristo, Maria e santos. Ele começou com o
imperador Leão III em 730 e terminou oficialmente em 843 d.C.
O
movimento iconoclasta foi um conflito político-religioso no Império Bizantino
(séculos VIII e IX), marcado pela proibição e destruição de imagens religiosas,
iniciado pelo imperador Leão III em 730 e encerrado oficialmente no Segundo
Concílio de Niceia em 787, que restaurou a veneração dos ícones.
Local:
Império
Bizantino, principalmente em Constantinopla.
Período:
Séculos VIII e IX.
Motivação: Temor
de idolatria (confusão entre veneração e adoração).
Influência política e
econômica da Igreja, especialmente dos monges produtores de ícones.
Desejo imperial de
centralizar poder e reduzir a força das instituições religiosas.
Linha
do tempo do Iconoclasmo Bizantino
730 d.C. – Imperador Leão
III inicia a proibição dos ícones.
754 d.C. – Concílio de
Hieria legitima a iconoclastia e condena o uso de imagens.
787 d.C. – Segundo
Concílio de Niceia, convocado pela imperatriz Irene, restaura a veneração dos
ícones.
813 d.C. – Imperador Leão
V reabre a perseguição contra imagens religiosas.
843 d.C. – Imperatriz
Teodora encerra definitivamente o movimento iconoclasta.
Evento conhecido como
Triunfo da Ortodoxia, celebrado até hoje pela Igreja Ortodoxa.
Principais fases
Primeira fase:
(730–787): Iniciada por Leão III, o Isauro, que proibiu a veneração de imagens.
Constantino V reforçou a
perseguição, convocando o Concílio de Hieria (754), que legitimou a
iconoclastia.
Resultou na destruição de
mosaicos, afrescos, estátuas e pinturas religiosas.
Monges e defensores dos
ícones (iconófilos) foram perseguidos e exilados.
Segunda fase:
(813–843): Reativada por Leão V, o Armênio, após derrotas militares que foram
interpretadas como castigo divino.
Perseguições voltaram a
ocorrer.
Encerrada em 843, sob a
regência da imperatriz Teodora, que restaurou definitivamente a veneração dos
ícones.
Durante a perseguição do
movimento iconoclasta no Império Bizantino, ocorreram episódios intensos de
repressão contra o uso de imagens religiosas. Eis os principais acontecimentos:
Perseguição a monges:
Os monges eram os maiores defensores dos ícones (iconófilos). Muitos foram
presos, exilados ou até executados por se recusarem a abandonar a prática.
Confisco de bens:
Mosteiros que produziam ou guardavam ícones tiveram suas propriedades
confiscadas pelo Estado.
Concílio de Hieria
(754): Reunião convocada por Constantino V que declarou oficialmente que o uso
de imagens era herético.
Clima de violência:
Houve confrontos entre iconoclastas (destruidores de imagens) e iconófilos
(defensores das imagens), gerando divisões profundas na sociedade bizantina.
|
Grupo |
O que defendiam |
Ações durante a perseguição |
Consequências |
|
Iconoclastas (destruidores de ícones) |
Proibição de imagens religiosas, por medo de idolatria |
- Destruição de mosaicos, afrescos e estátuas - Confisco de bens de
mosteiros - Convocação do Concílio de Hieria (754) para legitimar a
iconoclastia |
- Reforço do poder imperial - Perda cultural e artística irreparável |
|
Iconófilos (defensores dos ícones) |
Veneração de ícones como meio de devoção, não adoração |
- Resistência nos mosteiros - Produção clandestina de ícones - Defesa
teológica da distinção entre veneração e adoração |
- Prisões, exílios e execuções - Fortalecimento da tradição
iconográfica após 843 |
Os iconoclastas
buscavam purificar a fé e fortalecer o poder imperial, mas acabaram causando
destruição cultural.
Os iconófilos
sofreram perseguições severas, mas sua resistência garantiu a restauração
definitiva dos ícones em 843, no chamado Triunfo da Ortodoxia.
O
CONCÍLIO DE NICÉIA
O Concílio de Nicéia
foi decisivo para a história do cristianismo: em 325 d.C., com a presença de
300 bispos; condenou o arianismo e estabeleceu o Credo Niceno, afirmando que
Cristo é consubstancial ao Pai; em 787 d.C., reafirmou a legitimidade da
veneração de imagens religiosas, encerrando a controvérsia iconoclasta.
Objetivo: Resolver a
controvérsia do arianismo, que negava a plena divindade de Cristo.
Principais decisões:
·
Condenação do arianismo como heresia.
·
Proclamação de que Cristo é
“consubstancial ao Pai” (mesma essência divina).
·
Elaboração do Credo Niceno, primeiro
símbolo de fé universal da Igreja.
·
Definição da data da Páscoa independente
do calendário judaico.
·
Aprovação de 20 cânones disciplinares,
incluindo regras sobre a ordenação, a penitência e organização eclesiástica.
Não só o movimento iconoclasta abalava as
estruturas da Igreja naquele tempo como também as heresias dentre elas a mais
forte, o arianismo (325 d.C).
Assim
ficou conhecida porque o propagador dessa heresia foi Ário, presbítero (padre)
de Alexandria. Ele ensinava que Cristo não era plenamente divino, mas uma
criatura criada por Deus Pai.
Negava
a consubstancialidade de Cristo, isto é que o Pai e o Filho contêm a mesma
essência divina.
O
arianismo causou impactos profundos na Igreja, tanto teológicos quanto
políticos e sociais. Eis os principais efeitos:
Impactos teológicos
- Crise doutrinária: Colocou em dúvida
a natureza de Cristo e a relação entre Pai e Filho.
- Divisão interna: Bispos e comunidades
se dividiram entre arianos e ortodoxos.
- Definição da Trindade: Forçou a
Igreja a formular com clareza a doutrina trinitária, consolidada no Credo
Niceno.
Impactos
sociais e culturais:
· Perseguições:
Houve perseguições contra líderes e comunidades que se mantinham fiéis ao Credo
Niceno.
· Fragmentação
religiosa: A fé cristã deixou de ser homogênea, gerando debates e disputas que
duraram séculos.
· Legado
histórico: O arianismo influenciou a expansão de povos germânicos e deixou
marcas na história da Igreja até a Idade Média.
Em resumo: o arianismo abalou a unidade da
Igreja, mas acabou servindo como catalisador para a formulação clara da
doutrina trinitária, que se tornou um dos pilares do cristianismo.
Ário foi excomungado em 318 d.C. pelo
bispo Alexandre de Alexandria, e não por um papa romano.
A controvérsia começou no Egito e se espalhou pelo mundo cristão, levando ao
Concílio de Niceia em 325, convocado pelo imperador Constantino, que condenou
oficialmente o arianismo como heresia.
Carta Apostólica – Duodecimum
Saeculum
Do
Sumo Pontífice João Paulo II, ao episcopado da Igreja Católica, por ocasião do
décimo segundo centenário do II Concílio de Nicéia.
[Nesta
encíclica, o Santo Padre o Papa João Paulo II, explica o que foi o II Concílio
de Nicéia e o que podemos entender a partir dele sobre a questão das imagens.]
Veneráveis
irmãos, saúde e benção apostólica!
1. O
décimo segundo centenário do II Concílio de Nicéia (787 d.C.), foi objeto de
numerosas comemorações eclesiais e acadêmicas as quais também a Sé apostólica
se associou. O acontecimento foi celebrado igualmente com a publicação de uma
Encíclica de sua Santidade o Patriarca de Constantinopla e do Santo Sínodo,
iniciativa que evidencia a importância teológica e o alcance ecumênico, ainda
atuais e o último concílio plenamente reconhecido pela Igreja Católica e pela
Igreja Ortodoxa. A doutrina defendida por este concílio quanto a legitimidade
da veneração dos ícones (imagens) na Igreja merece também ela uma atenção
especial, não só pela riqueza das suas aplicações espirituais, mas também pelas
exigências que ela impõe em todo âmbito da arte sacra.
O
relevo dado pelo segundo Concílio de Nicéia ao assunto da Tradição, e mais
precisamente da tradição não-escrita, constitui para nós católicos, assim como
para nossos irmãos ortodoxos, um convite a percorrermos de novo juntos o
caminho da Tradição da Igreja não dividida, para reexaminar à sua luz as
divergências, que os longos séculos de separação acentuaram entre nós, e para
reencontrar; conforme o que Jesus pediu ao Pai (Cf. Jo17,11.20-21), a comunhão
plena na unidade visível.
2. O
Patriarca de Constantinopla São Tarásio, moderador do segundo Concílio Niceno,
ao apresentar ao Papa Adriano I o relatório do desenrolar do Concílio,
escrevia: “Depois de termos todos ocupado o próprio lugar, nós estabelecemos
ter Cristo como (nosso) chefe. Com efeito, o Santo Evangelho foi colocado em
cima de um trono, como convite a todos os presentes a julgarem segundo a
justiça. O fato de se ter constituído Cristo como presidente da assembleia
conciliar, que se reunia no seu nome e sob a sua autoridade, foi um gesto
eloquente para afirmar que a unidade da Igreja não pode realizar-se anão ser na
obediência de seu único Senhor”.
3. Os
imperadores que tinham convocado o Concílio, Irene e Constantino VI, tinham
convidado o meu predecessor Adriano I, “enquanto verdadeiro primeiro Pontífice,
que preside no lugar e na sede do santo e muito venerável Apóstolo Pedro. Ele fez representar pelo arcebispo
da Igreja romana e pelo Hegúmeno (Abade) do mosteiro grego de São Sabas em
Roma. Para assegurar a representatividade universal da Igreja, era requerida
também a presença dos Patriarcas orientais. Uma vez que os seus territórios se
encontravam sob domínio muçulmanos, os patriarcas de Alexandria e de Antioquia
enviaram conjuntamente uma carta comum a São Tarásio; e o Patriarca de
Jerusalém enviou uma carta sinodal. Uma e outra forma lidas no Concílio.
Admita-se então comumente que as decisões do
Concílio ecumênico eram válidas somente se o Bispo de Roma nelas tivesse
colaborado e se os Patriarcas orientai tivessem manifestado o seu acordo. Neste
processo o papel da Igreja de Roma era reconhecido como insubstituível. Assim,
o segundo Concílio Niceno aprovou a explicação do Diácono João, segundo a qual
a assembleia dos iconoclastas, realizada na Hiéria em 754, não era legítima,
porque o Papa de Roma e os Bispos que estão à sua volta não tinham colaborado nela,
nem através dos legados, nem mediante uma carta encíclica, segundo a lei dos
Concílios; e “os Patriarcas do Oriente... e os bispos que estão com eles não
lhe tinham dado consenso”. Por outro lado, os padres do segundo Concílio Niceno
declararam que “acolhiam, acatavam e seguiam” a Carta enviada pelo Papa Adriano
aos imperadores assim como dirigida ao Patriarca. Estas cartas foram lidas, em
latim e na sua tradução grega, e todos foram convidados a dar-lhes
individualmente o próprio assenso.
4. O Concílio saudou unanimemente nas pessoas
dos legados pontifícios “a santíssima Igreja de Roma, ou seja, do Apóstolo
Pedro” e da “Cátedra apostólica”, adotando a fórmula romana e o Patriarca Tarásio,
escrevendo ao meu predecessor em nome do Concílio, reconhecia nele aquele que “herdou
a Cátedra do Apóstolo São Pedro”, e que, “revestido do Sumo Pontificado, tem a
subida honra de presidir, legitimamente e por vontade de Deus, à sagrada
Hierarquia”.
Um dos momentos decisivos
no decorrer do Concílio parece ter sido aquele em que ele se pronunciou a favor
do restabelecimento do culto das imagens, quando participantes acolheram, em
unanimidade, a proposta dos legados romanos de fazer colocar no meio da
assembleia um venerável ícone, para que os Padres pudessem prestar-lhes a sua
veneração.
O último Concílio
ecumênico reconhecido pela Igreja católica quer pela Igreja ortodoxa é um
exemplo notável de “sinergia” entre a sede de Roma e uma assembleia conciliar.
Ele inscreve-se na perspectiva da eclesiologia patrística de comunhão,
fundamentada na Tradição, como o Concílio Ecumênico Vaticano II, justamente,
uma vez mais pôs em evidência.
5. O
Concílio Niceno II afirmou solenemente a existência da “tradição eclesiástica
escrita e não-escrita”, como referência normativa para a fé e para a disciplina
da Igreja. Os padres manifestaram o seu desejo de “conservar intactas todas as
tradições da Igreja, que lhes foram confiadas, sejam elas escritas ou não-escritas.
Uma delas consiste precisamente na pintura dos ícones, em conformidade com a
carta da pregação apostólica”. Contra a corrente iconoclasta, que também tinha
apelado para a Escritura e para a tradição dos Padres, especialmente para o
pseudo-sínodo de Hiréia de 754, o segundo Concílio de Nicéia sanciona a
legitimidade da veneração das imagens conformando “o ensino divinamente
inspirado dos santos Padres e da Tradição da Igreja Católica”.
Os Padres do segundo Concílio Niceno
entendiam, a “tradição eclesiástica” como tradição dos seis Concílios
ecumênicos precedentes e dos Padres ortodoxos, cujo ensino era acolhido
comumente na Igreja.
O Concílio, deste modo definiu como sendo
de fé aquela verdade essencial, segundo a qual a mensagem cristã é “tradição”,“paràdosis”.
À medida que a Igreja foi se desenvolvendo, no tempo e no espaço, a sua
inteligência da Tradição, da qual é portadora, conheceu também ela as fases de
um desenvolvimento, cuja investigação constitui, para o diálogo ecumênico e
para toda a reflexão teológica autêntica, um percurso obrigatório.
6. Já
São Paulo nos ensina que, para a primeira geração cristã, a paràdosis consiste
na proclamação do Acontecimento de Cristo e do seu significado atual, que
realiza na salvação mediante a ação do Espírito Santo (cf. 1Coríntios 15,3-8; 11,2).
A tradição das palavras e dos atos do Senhor foi recolhida nos quatro
Evangelhos, mas sem exaurir neles (cf. Lucas1,1; João20, 30; 21,25). Esta
tradição primigênia é tradição “apostólica” (cf. 2Tessalonisseses 2,14-15;
Judas17; 2Pedro3,2). Ela diz respeito não apenas ao “depósito” da “sã doutrina”
(cf. 2Timóteo1,6-12; Tito1,9), mas também às normas de comportamento e às
regras de vida comunitária (cf. 1Tessalonissenses 4,1-7; 1Coríntios 4,17; 7,17;
11,6; 14,33). A Igreja lê a Escritura à luz da “regra da fé”, quer dizer, da
sua fé viva mantida coerente com o ensino dos Apóstolos. Aquilo que a Igreja
sempre acreditou e praticou, ela considera-o justamente como “Tradição
apostólica”.
Santo Agostinho dizia: “Uma observância
mantida pela Igreja inteira e conservada sempre, que não tenha sido instituída
pelos Concílios, acaba por não ser outra coisa, com pleno direito, senão uma
tradição que emana da autoridade dos Apóstolos.”
De fato, as tomadas de posição dos Padres
no decorrer dos grandes debates teológicos dos séculos IV e V, a importância crescente da instituição sinodal e nível regional
e universal, fizeram com que, pouco a pouco, a tradição se tornasse a “tradição
dos Padres” ou “tradição eclesiástica”, entendida como desenvolvimento homogêneo
da Tradição apostólica. Foi por isso que São Basílio Magno fez apelo às “tradições
não-escritas”, que são a “tradição dos Padres”, para fundamentar a sua teologia
trinitária, e sublinha a providência dupla da doutrina da Igreja “do ensino
escrito, bem como da tradição apostólica”.
O propósito do
Concílio Niceno, que cita oportunamente São Basílio a propósito da teologia das
imagens, invocou também a autoridade dos grandes doutores ortodoxos, como São
Gregório Nazianzeno, São Gregório de Nissa, São Cirilo de Alexandria. São João
Damasceno pôs também ele em relevo a importância para a fé das “tradições
não-escritas”, isto é, não contidas na Escritura, ao declarar: “Se alguém se
apresentar com um Evangelho diferente daquele que a Igreja Católica recebeu dos
Santos Apóstolos, dos Padres e dos Concílios e que ela conservou até os nossos
dias, não escuteis”.
7.
Mais próximo de
nós, o Concílio Vaticano II apresentou novamente em plena luz a importância da
“tradição que provém dos Apóstolos”. De fato, “a Sagrada Escritura é a Palavra
de Deus, enquanto consignada por escrito sob a ação do Espírito divino; a
Sagrada Tradição, por seu lado, é portadora da Palavra de Deus, confiada por
Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos Apóstolos, e transmite-a integralmente
aos seus sucessores”.
“Ora, aquilo
que foi transmitido pelos Apóstolos compreende tudo quanto contribui para o
Povo de Deus viva santamente e para o aumento da fé”. Juntamente com a Sagrada
Escritura, a Sagrada Tradição constitui “um único depósito sagrado da Palavra
de Deus, confiado à Igreja”. A interpretação autêntica “da Palavra de Deus
escrita ou contida na Tradição foi confiada unicamente ao Magistério vivo da
Igreja, cuja autoridade é exercida em nome de Jesus Cristo”. É mediante uma
fidelidade igual ao tesouro comum da Tradição que remonta aos Apóstolos, que as
Igrejas se esforçam hoje por aprofundar os motivos das suas divergências a as
razões que há de superar.
8.
A terrível “controvérsia
sobre as imagens” que dilacerou o império bizantino sob os imperadores
isáuricos Leão III e Constantino V, entre os anos 730 e 780, e de novo sob Leão
V, de 814 a 843, explica-se principalmente pelo debate teológico que, desde o
início, foi o seu fulcro.
Sem ignorar o
perigo de um ressurgimento sempre possível das práticas idolátricas do
paganismo, a Igreja admita que o Senhor, a Bem-aventurada Virgem Maria, os
Mártires e os santos fossem representados de formas patrióticas ou plásticas para
favorecer a oração e a devoção aos fiéis. Era claro para todos, segundo a
fórmula de São Basílio, recordada pelo Concílio Niceno, que “a honra prestada
ao ícone é dirigida ao protótipo”. No Ocidente, o Papa São Gregório Magno tinha
insistido no caráter didático das pinturas nas igrejas, úteis para que os
analfabetos, “ao contemplá-las, possam ler, pelo menos nas paredes, aquilo que
não são capazes de ler nos livros”, e acentuava que esta contemplação devia
levar à adoração da “única e onipotente Trindade Santíssima”. Foi neste
contexto quem se desenvolveu, de maneira particular em Roma durante o século
VIII, o culto das imagens dos Santos, dando lugar a uma produção artística
admirável.
O movimento
iconoclasta, rompendo com a tradição autêntica da Igreja, considerava a
veneração das imagens como um retorno à idolatria. Não sem contradição e
ambiguidade, ele proibia a representação de Cristo e das imagens religiosas em
geral, enquanto continuava a admitir as imagens profanas, em particular as
imagens do imperador, com os sinais de reverência que elas na davam ligados. A
base da argumentação dos iconoclastas era de natureza cristológica. Como pintar
Cristo que unia na sua pessoa, sem as confundir nem as separar, a natureza
divina e a natureza humana? Por outro lado, seria possível representar a sua
divindade inapreensível; por outro representa-lo na sua humanidade somente
seria dividi-lo separando n’Ele a divindade da humanidade. Escolher uma ou
outra destas duas vias levaria às duas heresias cristológicas opostas ao monofisismo
e do nestorianismo. Com efeito, quem pretendesse representar Cristo na sua
divindade condenar-se-ia absorver nessa representação a sua humanidade; e quem
mostrasse apenas um retrato de homem, acabaria por ocultar que ele é também
Deus.
9.
O dilema posto
pelos iconoclastas envolvia algo que ia muito além da questão da possibilidade de
uma arte cristã; punha em causa toda a visão cristã a realidade da Encarnação
e, portanto, das relações de Deus com o mundo, e da graça com a natureza, numa
palavra, a especificidade da “Nova Aliança”, que Deus concluiu com os homens
por meio de Jesus Cristo. Os defensores das imagens advertiam muito bem isso:
segundo uma expressão do Patriarca de Constantinopla São Germano, ilustre
vítima da heresia iconoclasta, era toda “a economia divina segundo a carne” que
era posta de novo em questão.
Com efeito, ver
representado o rosto humano do Filho de Deus, “imagem de Deus invisível”
(Colossenses1, 15), é ver o Verbo feito carne (cf. Jo1,14), o Cordeiro de Deus
que tira o pecado do mundo (cf. Jo1, 29). Portanto, a arte de representar a
forma, a efígie do rosto humano de Deus e levar aquele que o contempla ao
mistério inefável do mesmo Deus feito homem para nossa salvação. Assim o Papa
Adriano pôde escrever: “Graças a um rosto visível, o nosso espírito será
transportado, por um atrativo espiritual, até a majestade invisível da
divindade, através da contemplação da imagem que está representada a carne.,
que o Filho de Deus se dignou assumir para a nossa salvação. E, sendo assim,
nós adoramos e conjuntamente louvamos, glorificando-o em espírito, este mesmo
Redentor, porque, como está escrito, ‘Deus é Espírito’ e é por isso que nós
adoramos espiritualmente sua divindade”.
O Concílio
Niceno II, portanto, reafirmou solenemente a distinção tradicional entre “a
verdadeira adoração (latria)” que, “segundo a nossa fé, é devida somente a
natureza divina” e a “prosternação der honra” (timetiké proskynesis), que é
prestada aos ícones, porque “aquele que se prostra diante do ícone, prostra-se
diante da pessoa (a hipóstase) daquele que na figuração é representado”.
A iconografia
de Cristo, implica, portanto, toda a fé na realidade da Encarnação e no seu
significado inexaurível para Igreja e para o mundo. Se a Igreja costuma pô-la
em prática, fá-lo porque está convencida que o Deus revelado em Jesus Cristo
resgatou realmente e santificou a carne e o inteiro mundo sensível, ou seja, o
homem com seus cinco sentidos, a fim de lhe permitir renovar-se constantemente
“a imagem d’Aquele que o criou” (Colossenses3,10).
10.
O Concilio
Niceno II, por conseguinte, sancionou a tradição segundo a qual “devem expor-se
as venerandas imagens sacras, manufaturadas com tintas, como mosaico e outras
matérias idôneas, nas igrejas consagradas a Deus, nos vasos e paramentos
sagrados, nas paredes e nos retábulos, nas casas e nas ruas; isto implica-se
tanto à imagem de Nosso Senhor Deus e Salvador Jesus Cristo e à de Nossa
Senhora Imaculada, a santa Theotokos, como às imagens dos veneráveis anjos e
todos os homens santos e piedosos”. A doutrina deste Concílio sustentou a arte
da Igreja tanto no oriente como no Ocidente, inspirando-lhe obras de uma beleza
e uma profundidade sublimes.
Em particular a
Igreja grega e as Igrejas eslavas, apoiando-se nas obras dos granes teólogos
São Nicéforo de Constantinopla e São Teodoro Studita, apologistas do culto das
imagens, consideravam a veneração dos ícones com parte integrante da Liturgia,
à semelhança da celebração da Palavra viva do Senhor, assim a exposição de um
ícone figurativo permite àqueles que o contemplam ter acesso aos mistérios da
salvação mediante a vista. “Aquilo que por um lado é manifestado pela tinta e
pelo papel, por outro, no ícone, é manifestado pelas várias cores e pelos
outros materiais”.
No Ocidente a Igreja
de Roma distinguiu-se, numa continuidade sem interrupção, pela sua ação a favor
das imagens, sobretudo no momento crítico em que, entre os anos 825 e 843 os
impérios bizantino e franco se demonstravam ambos hostis ao Concílio Niceno II.
No Concílio de Trento, a Igreja Católica reafirmou a doutrina tradicional,
contra a nova forma de iconoclastia que então se manifestava, mais recente, o
Concílio Vaticano II recordou com sobriedade a posição constante da Igreja a
respeito das imagens e da arte sacra em geral.
11.
Desde há alguns
decênios para cá nota-se um surto de interesse pela teologia e pela
espiritualidade dos ícones orientais; isso é sinal de ritual da arte
autenticamente cristã. A este propósito não posso deixar de exortar aos meus irmãos
no episcopado a “manterem o uso e expor imagens nas igrejas à veneração dos
fiéis” e empenharem-se para que surjam cada vez mais obras de qualidade verdadeiramente
eclesial. O crente de hoje, como o de ontem, há de ser ajudado na oração e na
vida espiritual mediante a visão de obras que procurem exprimir o mistério sem
nunca ocultar. É esta a razão pela qual, hoje como no passado, a fé é a
indispensável inspiradora da arte da Igreja.
A arte, que não
leve a pensar senão no seu autor, sem estabelecer uma relação com o mundo
divino, não encontra espaço na concepção cristã do ícone. Seja qual for o
estilo que adote, todo o tipo de arte sacra deve exprimir a fé e a esperança da
Igreja. A tradição das imagens mostra que o artista deve ter consciência de
cumprir uma missão a serviço da Igreja.
A arte cristã
autêntica é aquela que, através da percepção sensível, leva a intuição de que o
Senhor está presente na sua Igreja, que os acontecimentos da história da
Salvação dão sentido e orientação à nossa vida e que a glória que nos está
prometida começa já a transformar a nossa existência. A arte sacra deve tender
a proporcionar-nos uma síntese visual de todas as dimensões de nossa fé. A arte
da Igreja deve ter a preocupação de falar a linguagem da Encarnação e exprimir,
com os elementos da matéria, Aquele que “se dignou habitar na matéria e
realizar a salvação através da matéria”, segundo a fórmula feliz de São João
Damasceno.
A redescoberta
do ícone cristão ajudará também a tomar consciência da urgência de reagir
contra os efeitos despersonalizadores, a às vezes degradantes, das múltiplas
imagens que condicionam a nossa vida, na publicidade e nos “mass-media”;
trata-se de fato de uma imagem que faz chegar até o olhar de um outro invisível
e que nos dá acesso à realidade do mundo espiritual e escatológico.
12.
Amadíssimos
irmãos: Ao recordar a utilidade da doutrina do VII Concílio Ecumênico,
parece-me que estamos perante à nossa tarefa primordial de evangelização. A
secularização crescente da sociedade mostra que ela está tomando, em larga
escala, alheia aos valores espirituais, ao mistério da nossa Salvação em Jesus
Cristo e à realidade do mundo futuro. A nossa tradição mais autêntica, que
compartilhamos plenamente com os nossos irmãos ortodoxos, ensina-nos que a
linguagem da beleza, posta a serviço da fé, é capaz de atingir o coração dos
homens e de nos levar a conhecer, a partir de dentro, Aquele que ousamos
representar nas imagens, Jesus Cristo o Filho de Deus feito homem, o mesmo
ontem, hoje e por todos os séculos”. (Hebreus13,8)
A todos dou, de
coração a Bênção Apostólica.
Dado em Roma,
junto de São Pedro, a 4 de dezembro, memória litúrgica de São João Damasceno,
Presbítero e doutor da Igreja, do ano de 1987, décimo do meu pontificado.
IOANES PAULUS
PP. II
APOLOGIA DE
SÃO JOÃO DAMASCENO A RESPEITO DAS IMAGENS
Reconhecimento:
·
Título: Doutor da Igreja, proclamado pelo Papa Leão XIII
em 1890.
·
Apelido: “São Tomás do Oriente”, pela profundidade
teológica comparável a São Tomás de Aquino.
·
Veneração: Igreja Católica, Ortodoxa, Luterana e Anglicana.
·
Morte: 4 de dezembro de 749, no mosteiro de Mar Saba,
Jerusalém.
Legado:
·
Influência: Sua obra consolidou a teologia oriental e serviu
de referência para a teologia católica e ortodoxa.
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Liturgia: Seus hinos ainda são cantados nas celebrações
bizantinas.
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Espiritualidade: Modelo de renúncia, contemplação e fidelidade à
tradição apostólica.
r Resumo:
Na sua apologética, São João Damasceno, ele desmonta a tese dos iconoclastas explicando como é o agir de Deus a respeito das imagens. Ele explica que Deus entregou a Lei à Moisés, mas, a Lei deve ser interpretada com cuidado, e não ao pé da letra, pois a letra mata. Com isso ele nos mostra que o problema não está em fazer imagens. O problema é a razão, (a finalidade) porque as fazemos e necessitamos delas. Na apologética, é mostrada que Deus havia sim, proibido as imagens de ídolos pagãos, ou seja, imagens de deuses pagãos e proibiu que os hebreus lhes rendessem culto de latria, isto é, de adoração. O povo hebreu, que tinha sido liberto por Deus através de Moisés vinha da nação egípcia, onde se adoravam muitos deuses. Porém, somente ao Deus verdadeiro é dada toda honra, louvor e adoração.
Após a libertação, o povo de Deus, trazia consigo os resquícios da idolatria egípcia e caminhava ainda para a terra prometida de Canaã. E lá também encontrariam muitos outros falsos deuses e falsos ídolos representados. A Lei veio justamente para proteger o povo e impedir a idolatria. Embora em outros momentos esse povo voltou a desobedecer a Deus, como por exemplo, adoração do bezerro de ouro, e no tempo do rei Acabe, e cujo, casou-se com Jezebel, que era fenícia, ela introduziu os seus deuses pagãos e fez o povo cair na idolatria e Acabe acabou por aceitar que a idolatria fosse praticada em seu reinado.
Mas, o mesmo Deus que tinha proibido fazer e cultuasr as imagens dos ídolos pagãos, também em outro momento permitiu que se fizesse imagens de anjos querubins e que colocasse sobre a tampa da Arca da aliança, também permitiu que a adoração fosse feita mediante a Arca da aliança. Também permitiu que fosse feita uma serpente de bronze e quem reverenciasse a serpente ficaria curado. Também aprovou que o rei Salomão adornasse o Templo com imagens de anjos, de bois e palmeiras.
Se formos interpretar a Lei como os iconoclastas daquele tempo e os protestantes de hoje, encontraremos um Deus caduco, contraditório naquilo que ordena, pois, uma hora outra proíbe que se faça imagens e em outro momento manda fazer imagens [...] mas, Deus não é contraditório naquilo que diz. Por isso, a interpretação correta da Escritura vai nos mostrar dois momentos distintos: O primeiro é Deus proibindo de fazer imagens de ídolos, representação de deuses pagãos. O segundo é a permissão da imagens para o culto e a veneração divina. Porque nesse caso Deus permite o uso das imagens não de falsos deuses, mas, o uso delas no culto sagrado. São João Damasceno vai explicar claramente isto.
E por fim, na plenitude dos tempos enviou seu filho ao mundo feito carne, Ele próprio, que era invisível se fez visível na carne santificando a matéria. O Verbo de Deus feito homem mostra-nos o rosto do Pai. Cristo é a imagem do Pai.
E assim na sua apologética São João Damasceno vai destruindo uma por uma às acusações dos iconoclastas de forma não haver mais dúvidas sobre porque a Igreja permite o uso e a veneração delas.
Assim também podemos entender que as imagens não possuem a função de embelezar o templo. Elas também fazem-nos voltar os olhos para além, para o sagrado, para o divino que elas representam, ainda que de forma imperfeita, elas nos levam ao Perfeito que é Deus.
Também dentro da tradição elas fazem parte da tradição não-escrita, isto é, elas nos contam a história a qual elas representam e dão testemunhos. Elas possuem uma linguagem didática a fim de catequizar os não letrados. O que segundo a doutrina, o que os não letrados não conseguem ver pela escrita, conseguem entender através de seus olhos, pela representação artística o próprio Evangelho e vida dos santos e da Virgem Maria.
Vamos ler, então, a sua apologética:
Apologética 1 – São João Damasceno
O temor me obrigou então, a falar. A verdade foi
mais forte que a majestade dos reis: “Diante dos reis falarei de vossas
prescrições”, ouvi o rei Davi dizendo, “e não me envergonharei”. Na verdade, eu
fui mais do que instigado a falar. A ordem do Rei é onipotente sobre os
súditos. Visto que poucos foram encontrados até agora que, mesmo reconhecendo
que o poder do rei terreno vem do alto, resistiram às exigências ilícitas.
Em primeiro lugar, compreendo o Magistério da
Igreja – que é nossa salvação – como uma espécie de coluna ou alicerce; expus o
seu sentido, dando rédeas, por assim dizer, a um cavalo de batalha bem
equipado. Pois vejo como uma grande calamidade que a Igreja, adornada com seus
grandes privilégios e os mais sagrados exemplos dos santos do passado, volte
aos primeiros rudimentos e tema onde não há temer. É desastroso supor que ela
não conheça a Deus como Ele é, que degenere na idolatria, pois se decaísse da
perfeição em uma vírgula sequer, seria uma mancha permanente em um rosto
harmonioso, destruindo assim, por essa mácula, a beleza do conjunto. O pequeno
não é pequeno quando leva algo grande, tampouco é sem importância abandonar a
antiga tradição da Igreja mantida por nossos antepassados, cuja conduta devemos
observar e a fé imitar.
Primeiramente, então, antes de falar convosco,
suplico a Deus Todo-Poderoso, a quem tudo é claro e que conhece a minha pouca capacidade
e intenção genuína, que abençoe as palavras de minha boca e permita-me
disciplinar a minha mente e direcioná-la par Ele, a fim de andar na sua
presença retamente, não me desviando nem para a direita e nem para a esquerda.
Peço, então, a todo povo de Deus – os escolhidos se Seu sacerdócio real, unidos
ao bom pastor do rebanho espiritual de Cristo, que representa em sim mesmo o
Seu sumo-sacerdócio – que receba este tratado com benevolência, não se atendo à
minha dignidade, nem buscando eloquência, pois sou bem consciente de minhas
falhas, mas que considere os pensamentos em si. Pois o reino dos Céus não está nas
palavras, mas nas ações. Meu objetivo não é triunfar, mas estender a mão
lutando pela verdade – uma mão solícita sob inspiração divina. Confiando, então
em sólida verdade, entrarei no meu assunto.
Prestei atenção às palavras da própria Verdade: “O
Senhor, nosso Deus, é o único Senhor”. “Temerás o Senhor, teu Deus, só a Ele
servirás e não terás outros deuses”, “Não farás para ti escultura, nem figura
alguma do que está em cima, nos céus, ou embaixo, sobre a terra”. “Sejam
confundidos todos os que adoram estátuas”, “Os deuses que não fizeram o céu e a
terra desaparecerão. Deste modo falou Deus pelos profetas aos patriarcas de
outrora. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por meio de seu Filho
Unigênito, pelo qual criou o Universo. Diz Ele: “Esta é a vida eterna: que
conheçam ti, o Deus único e verdadeiro, e a Jesus Cristo, aquele que enviaste”.
Creio em um único Deus, origem de todas as coisas,
incriado, imortal, eterno, impricipiado, inescrutável, incorpóreo, invisível,
incircunscrito, amorfo. Creio em um ser supersubstancial, uma divindade em três
entidades, o Pai, o Filho e o Espírito Santo e somente a Ela adoro com o culto
Latria. Adoro o único Deus, uma única divindade, mas em três pessoas: Deus Pai,
Deus Filho que se fez carne e Deus Espírito Santo. Não reverencio a criação
mais que o criador, mas reverencio a criatura criada como eu, aceitando livre e
espontaneamente para que Ele eleve a nossa natureza nos torne participantes de
sua natureza divina. Eu O adoro revestido de carne, junto com meu Senhor e Rei,
não como se fosse um traje ou que constituísse a quarta pessoa da Trindade –
Deus me livre! Essa carne é divina e perdura após a ascensão.
A natureza humana não foi perdida na divindade, mas
como o Verbo feito carne permaneceu Verbo, assim também a carne se tornou Verbo
permanecendo carne, vindo a ser, antes, uma com o Verbo pela união hipostática.
Portanto, atrevo-me a traçar uma imagem do Deus invisível, mas como feito
visível por nossa causa, através da carne e do sangue. Não traço uma imagem da
divindade imortal, eu retrato a carne visível de Deus. Pois é impossível representar
um espírito qualquer, quanto mais Deus que lhe dá alento!
Ora, dizem os adversários, as ordens de Deus a
Moisés, o legislador, foram: “Adorarás o Senhor teu Deus e somente a Ele
prestarás culto; e não farás para ti coisa alguma esculpida do que está em cima
no céu ou em baixo na terra”.
Não conhecendo as Escrituras, sem dúvida eles se
perdem, e por não saberem que “a letra mata, mas o espírito vivifica”, deixam
de buscar o Espírito escondido na letra. Eu poderia dizer a essas pessoas, com
justiça: Aquele que vos ensinou isso também vos ensinaria o que vem em seguida.
Vede a interpretação do legislador no Deuteronômio: “Do meio do fogo, o Senhor
vos falou. Ouvistes o som de suas palavras, mas não o vistes, no entanto,
nenhuma forma somente uma voz”. E pouco depois: “Tende cuidado com a vossa
alma. No dia em que o Senhor, vosso Deus, vos falou do meio do fogo no Horeb,
não vistes figura alguma. Guardai-vos, pois, de fabricar alguma imagem
esculpida representando o que quer que seja, figura de homem ou de mulher,
representação de algum animal que vive na terra ou de um pássaro que voa nos
céus”. E novamente: “Para que não aconteça talvez de levantares os olhos aos
céus e, vendo o sol, a lua e todas as estrelas do firmamento vós os sirvais e
adoreis, sendo enganados pelo erro”.
Vede que o único objetivo é não reverenciar a
criatura mais do que o Criador, nem dar o culto de latria a não ser somente a
Ele. Por isso ele sempre vincula o serviço à reverência de culto, visto que novamente
diz: “Não terás outros deuses diante de mim, não farás para ti imagem de escultura
representando que quer que seja. Não te prostrarás diante delas nem as
servirás, porque eu sou o Senhor, teu Deus”. E de novo, “derrubareis seus
altares, quebrareis suas colunas, queimareis seus troncos sagrados,
despedaçareis seus ídolos. Pois não adorareis um outro deus”. E um pouco mais
adiante: “Não farás para ti deuses de metal fundido”.
Vede que Ele proíbe fazer imagens devido à
idolatria, e que é impossível fazer uma imagem do Deus ilimitado, imensurável e
invisível. “Vós não vistes a sua face”, diz a Escritura, se segundo São Paulo
no meio do Aerópago: “Se, pois, somos a raça de Deus, não devermos pensar que a
divindade é semelhante ao ouro, à prata ou à pedra lavrada por arte e gênio dos
homens”.
Estas prescrições foram dadas aos judeus por causa
da sua propensão à idolatria. Ora, nós pelo contrário, já não estamos sob os
cuidados de um pedagogo. Teologicamente falando, é-nos indicado evitar erros
supersticiosos, estar com Deus no conhecimento da verdade, adorar somente a
Eler e desfrutar da plenitude de sua sabedoria. Já passamos da fase de infância
e atingimos a perfeição da maturidade. Tendo recebido de Deus a habilidade de
discernir, sabemos o que pode ser representado em imagem e o que não pode. A
Escritura diz: “Não poderás ver face a face”. Que sabedoria a do legislador!
Como retratar o invisível? Como imaginar o inconcebível? Como dar expressão ao
ilimitado, ao incomensurável, ao invisível? Como dar fora à imensidão? Como
pintar a imortalidade? Como limitar o mistério?
É claro que, quando contemplais o Incorpóreo,
tornando-se homem por vossa causa, sereis capazes de revesti-lo de forma
humana. Quando o Invisível se torna visível à carne, pode-se, então desenhar
uma imagem se sua forma. Quando Aquele que é incorpóreo, sem forma nem limite,
imensurável na infinitude se sua própria natureza, existindo como Deus, toma
sobre Si a forma de um servo, em substância e estatura, e um corpo de carme;
então podeis desenhar sua imagem e mostrá-la a qualquer um que queira
contemplá-la. Podeis retratar sua inefável condescendência, seu nascimento
virginal, seu batismo no Jordão, sua transfiguração no Tabor, seus sofrimentos
onipotentes, sua morte e milagres, as provas da sua divindade, as obras que
realizou na carne através do Seu poder divino, sua cruz salvadora, seu
sepultamento, ressurreição e ascensão ao céu. Podeis registrar tudo isso não
apenas em palavras, mas também em cores.
Não temais, nem vos inquieteis: a reverência
prestada não é dada do mesmo tipo. Abraão prostrou-se por terra diante dos
filhos de Hemor, homens ímpios que desconheciam a Deus, quando comprou dupla
caverna para um túmulo. Jacó reverenciou seu irmão Esaú e o faraó, home egípcio.
De fato, prestou reverência também à ponta de seu próprio cajado. Reverenciou,
não adorou. Josué e Daniel prostraram-se por terra diante do Anjo de Deus, não
o adoraram. O culto de latria é uma coisa, a reverência que é dada por mérito,
é outra. Ora, como estamos falando de imagens e reverência, vamos analisar o
significado exato de cada uma.
Uma imagem é uma semelhança do original com uma
certa diferença, pois não é uma reprodução exata. Assim, o Filho é a imagem
viva, substancial e imutável do Deus invisível, portando em Si Mesmo a
plenitude do Pai, sendo em todas as coisas igual a Ele, diferindo apenas em ser
gerado por Ele, que é o Gerador; enquanto o Filho é gerado. O Pai não procede
do Filho, mas o Filho do Pai. É através do Filho, embora não depois d’Ele, que
Ele é o que é: o Pai que gera. Em Deus também há representações de imagens de
seus atos futuros – ou seja, seu desígnio desde toda eternidade, que é sempre
imutável. Aquele que é divino é imutável; não há n’Ele mudança, nem sombra de
instabilidade.
O bem-aventurado Dionísio, que fez das coisas
divinas na presença de Deus o seu estudo, diz que estas representações e
imagens estão previamente assinaladas. Em seus desígnios, Deus anotou e
estabeleceu tudo o que Ele faria, os imutáveis eventos futuros, antes que eles
viessem a acontecer. Do mesmo modo, um homem que desejasse construir uma casa,
primeiro pensaria e faria o projeto. Com efeito, as realidades visíveis são
imagens daquelas realidades invisíveis e intangíveis sobre as quais elas lançam
uma pálida luz.
A Sagrada Escritura reveste de aparência a Deus e
os Anjos, e o mesmo santo Dionísio explique o porquê. Quando as realidades
sensíveis podem traduzir suficientemente o que está além dos sentidos e dar
forma ao que é intangível, um meio de representação seria considerado
imperfeito conforme o nosso nível de compreensão se não transmitisse uma visão
material completa ou exigisse um esforço mental. Portanto, se a Sagrada
Escritura, suprindo a nossa necessidade, sempre reveste de carne o que nos apresenta
de intangível, é envolvido pela nossa natureza e trazido ao nível de nossos
anseios? Deste modo, uma certa concepção que antes não existia ocorre na mente
através dos sentidos e é transmitida à faculdade do juízo e acrescentada à
memória.
Gregório, tão eloquente sobre as realidades
divinas, diz que a mente, determinada a ir além das realidades corpóreas, é incapaz
de fazê-lo por si mesma. Pois as realidades invisíveis de Deus são tornadas
visíveis através das imagens desde a criação do mundo. Vemos imagens na criação
que nos lembram palidamente d’Ele, como quando, por exemplo, falamos da Santa e
adorável Trindade, representada pelo sol, pela luz, por reios ardentes, uma
fonte que corre, um rio caudaloso, pela mente, pela fala, pelo espírito dentro
de nós, por uma roseira, uma flor que brota, por um suave perfume.
Além disso, uma imagem é muitas vezes indicativa de
algo futuro, encobrindo misticamente o que está par acontecer. Por exemplo, a
arca, assim como o cajado e o jarro de barro, representa a figura de Nossa
Senhora, Mãe de Deus. A serpente nos apresenta
Aquele que derrotou na cruz a mordida da serpente original. O mar, a
água e nuvem simbolizam a graça do batismo.
De novo, os acontecimentos que se realizam são
expressos por imagens para a lembrança quer de um prodígio, de uma honra ou
desonra, quer de um homem ou bem ou mal, para ajudar aqueles que as veem em
tempos posteriores, a fim evitar o mal e imitar o bem. São de dois tipos: a
imagem escrita nos livros, como quando Deus escreveu a Lei nas tábuas, e quando
ordenou que as vidas dos santos fossem registradas e que lembranças sensíveis
preservadas como recordação. Como por exemplo o jarro de barro e o cajado
dentro da arca. Por isso agora preservamos por escrito as imagens e as boas
obras do passado. Rejeitai, portanto, completamente as imagens e ficai em
desarmonia com Deus, que criou estas disposições, ou recebei-as com a linguagem
e o modo que lhes convém.
Falando em modo, entramos na questão da reverência.
A reverência é um símbolo da veneração e da honra. Entendamos que ela pode ser
de diferentes graus. Em primeiro lugar, há reverência do culto de latria, que
damos a Deus, o único por natureza digno de adoração. Na qual, por cauda d’Ele,
que é adorável por natureza, honramos seus santos servidores – como quando
Josué e Daniel prostram-se diante do anjo, e Davi dos lugares santos, quando
disse “Entremos em sua morada, prostremo-nos diante do escabelo de seus pés”.
Também, em seus tabernáculos, como quando todo o povo de Israel adorava nas
tendas e em pé ao redor do Templo de Jerusalém, fixando nele o seu olhar por
todos os lados, prestando culto desde aquele dia até hoje. Ou ainda, quando
honramos os príncipes por Deus estabelecidos, como Jacó, que prestou reverência
a Esaú, seu irmão mais velho e ao Faraó, dirigente divinamente estabelecido, ou
como José, que foi reverenciado pelos seus irmãos. Tendo ciência de que a
reverência se baseia na honra, como o caso de Abraão e dos filhos de Het.
Então, eliminai totalmente a reverência, ou recebei-a integralmente de acordo
com sua medida apropriada.
Responde-se esta pergunta: há um só Deus? Tu respondes: “Sim, há um só legislador”. Por que, então, Ele ordena coisas opostas? Ora, os querubins não estão fora da criação. Por que, então ele permite que querubins esculpidos pela mão do homem encubram o próprio propiciatório? [aqui ele se refere aos dois querubins, os anjos da Arca da aliança que Deus mandou fazer e por sobre a tampa dela].
Não é evidente como é impossível, ou de
como um Deus, que é incircunscrito e impassível, ou de como um Deus, a criação não
deve ser adorada como um tal? Ele permite, no entanto, que seja feita imagens dos
querubins, que são incircunscritos, prostrados em adoração diante do trono
divino. E prostrados deste modo para encobrir o propiciatório. Ora, era
apropriado que a imagem dos coros celestiais encobrisse os mistérios divinos.
Dirias que a Arca, o cajado e o propiciatório não
foram criados? Não foram eles produzidos pela mão do homem? Não se devem ao que
tu chamas de matéria desprezível? O que é era o próprio tabernáculo? Não era
uma imagem? Não era um modelo e uma figura? Daí as palavras do santo apóstolo a
respeito da observância da Lei: “Que é representação e sombra das realidades
celestes, como foi dito a Moisés, quando estava para executar a construção do
tabernáculo: “Vê, faze tudo segundo o modelo que te foi mostrado sobre o monte”.
Mas, a Lei não era uma imagem. Ela envolvia a imagem. Nas palavras do mesmo
apóstolo, “a Lei contém sombra dos bens futuros, não a imagem destes”. Se,
pois, a Lei deveria proibir as imagens e ainda assim ser ela mesma uma
precursora destas, o que devemos dizer? Se o tabernáculo era uma imagem e o
modelo de um modelo, como é que a Lei proíbe a fabricação de imagens? Mas isto
não é o mínimo que se pode dizer. Há um tempo para tudo.
Antigamente, Deus, incorpóreo e incircunscrito,
nunca era retratado. Entretanto, agora que Deus é visto revestido de carne e
conversando com os homens, eu posso fazer uma imagem do Deus a quem vejo. Não
adoro a matéria, adoro o Deus da matéria, que se tornou matéria por min há
causa e dignou habitá-la, e que se dela operou a minha salvação. Não deixarei
de honrar essa matéria que opera minha salvação. Eu a venero, embora não como
Deus. Como poderia Deus nascer de algo sem vida? E se o corpo de Deus é Deus
pela união hipostática, ele é imutável. Sua natureza permanece a mesma de
antes, a carne criada no tempo é vivificada por uma alma espiritual e racional.
Eu honro toda a matéria; aliás, eu a reverencio.
Por meio dela, preenchida, por assim dizer, de um poder e graça divinos, a
minha salvação chegou até a mim. Não era matéria a três vezes bem-aventurada e
bendita madeira da cruz? Não era matéria o sagrado e santo monte Calvário? E o
rochedo do qual brota a Vida, o Santo Sepulcro, fonte de nossa ressurreição:
não era matéria? Não é matéria o santíssimo livro dos evangelhos? Não é matéria
a bendita mesa que nos dá o Pão da Vida? Não é matéria o ouro e a prata que são
feitas as cruzes, a patena, os cálices? E antes de tudo, não é matéria o Corpo
e Sangue de Nosso Senhor?
Livrai-nos da veneração e do culto devidos a tudo
isso, ou submetei-vos à tradição da Igreja no culto das imagens, honrando a
Deus e aos seus amigos, seguindo nisto a graça do Espírito Santo. Não desprezes
a matéria, pois ela não é desprezível. Nada do que Deus fez o é. Isso é heresia
maniqueísta. Somente uma coisa é desprezível e não vem de Deus, mas é nossa própria
invenção: a escolha espontânea da vontade de desconsiderar a lei natural – ou
seja, o pecado. Portanto, desonrais e rejeitais as imagens porque são feitas de
matéria, considerai o que diz a Escritura: “O Senhor disse a Moisés: ‘Eis que
chamei por seu nome Beseleel, filho de Uri, filho de Hur, da tribo de Judá. Eu
o enchi do espírito divino para lhe dar sabedoria, inteligência e habilidade para
toda sorte de obras: invenções, trabalho de ouro, de prata, de bronze gravuras
em pedras de engastes, trabalho em madeira e para executar toda sorte de obras.
Associei-lhe Ooliab, filho de Aquisamec, da tribo de Dã. E dou sabedoria ao
coração de todos os homens inteligentes, a fim de que executem tudo que te
ordenei”. E ainda: “Moisés disse a toda a assembleia dos israelitas: ‘Eis o que
o Senhor ordenou: Separai de entre vós uma oferta para o Senhor. Todo homem de
coração reto trará esta oferta ao Senhor; ouro, prata, bronze, púrpura violeta
e escarlate, carmesim, linho fino, pele de cabra, peles de carneiro tingidas de
vermelho, peles de golfinho, madeira de acácia, óleo para o candelabro, aromas
para o óleo de unção e para o incenso odorífero, pedras de ônix e pedras de
engaste para o efod e o peitoral. Venham todos aqueles dentre vós que são
hábeis, executem tudo o que o Senhor vis ordenou’”. Eis aí a exaltação da
matéria, que desqualificais. Que há de mais insignificante que pelo de cabra ou
pigmentos? Não são pigmentos a escarlate, a púrpura e o carmesim? Agora,
considerai a arte manual do homem tornando-se semelhança aos querubins! Como
podeis então, fazei da lei um pretexto para abandonar o que a lei ordena? É
certo que “se observardes a lei, de nada vos servirá Cristo: decaístes da
graça”. O Israel de outrora não via a Deus, mas “nós vemos a glória do Senhor
face a face”.
Nós O proclamamos também pelos nossos sentidos por
todos os lados e santificamos o sentido mais nobre, que é a visão. A imagem é
um memorial, exatamente como as palavras são para o ouvido que as escuta. O que
o livro é pra os letrados, a imagem é para os analfabetos. A imagem fala à
vista assim como as palavras ao ouvido: ela nos traz entendimento. Por isso
Deus ordenou que a Arca fosse feita de madeira imperecível e que fosse dourada
por dentro e por fora, que nela fossem colocadas as tábuas, o cajado e a urna
dourada contendo o maná, para memória do passado e símbolo do futuro.
Quem pode dizer que estas coisas não eram imagens e
mensageiras de grande alcance? E não estavam penduradas nas paredes do
tabernáculo, mas, à vista de todo povo que olhava em sua direção, foram
apresentadas para o culto e adoração a Deus, que delas se utilizou. É evidente
que não eram veneradas por si mesmas, mas que o povo, através delas, era levado
a lembrar dos sinais passados e a adorar o Deus das maravilhas. Eram imagens
que serviam de recordação. Não eram divinas, mas levavam às realidades divinas
por virtude do divino poder.
O Senhor também ordenou que doze pedras fossem
retiradas do Jordão e especificou o porquê: Diz Ele: “Quando vossos filhos lhes
perguntarem o significado destas pedras, contai-lhes como a água deixou o
Jordão por ordem divina e como a Arca foi preservada junto de seu povo”. Como,
então, não registraremos em imagens as dores e os milagres salvadores de
Cristo, Nosso Senhor, para que quando meu filho me perguntar “o que é isto?”,
eu possa dizer-lhe que o Verbo Divino se fez homem e que por sua causa não só
Israel passou pelo Jordão, mas toda a raça humana obteve de volta sua
bem-aventurança original? Através d’Ele a natureza humana subiu das profundezas
mais baixas da terra para mais alto que os céus e, em sua Pessoa, sentou-se no
trono que seu Pai lhe havia preparado.
Mas diz o opositor: “Faze uma imagem de Cristo ou
de sua Mãe e que isso seja suficiente!” Ó! Mas que loucura é essa?! É
absolutamente contra os santos, pelo que tu mesmo estás dizendo! Ora, como
poderíamos fazer estátuas de Cristo glorificado enquanto rejeitamos os santos
como se fossem indignos de honra e fingirmos ser verdade esta mentira? “Eu
vivo”, diz o Senhor, “e honro aqueles que me honram”. E diz o divino apóstolo
que ele, portanto, já não é um servo, mas filho. “E se é filho, também é
herdeiro de Deus”. E também “se sofremos com Ele, seremos com Ele
glorificados”. Tu não estás travando guerra contra as imagens, mas contra os
santos! São João, que reclinou sem Seu peito, diz que “seremos como Ele”. Assim
como um homem torna-se fogo pelo contato com o fogo, isto é, não por natureza,
mas pelo contato, pela combustão e participação, compreendo que o mesmo se dá
com a carne do Filho Crucificado de Deus. Essa carne, pela participação através
da união hipostática com a natureza divina, é imutavelmente Deus. Não em
virtude da graça divina, como era o caso de cada um dos profetas, mas pela
presença da própria Fonte primordial. Deus, diz Escritura, levanta-se da
assembleia dos deuses, de modo que os santos também são “deuses”. São gregório
usa essas palavras para dizer que Ele diferencia os seus vários méritos. Os
santos foram em vida cheios do Espírito Santo e, ainda que não estejam mais
aqui, a graça d’Ele permanece em seus espíritos e corpos nos túmulos e também
com seus retratos e imagens sagradas, não por sua própria natureza, mas pela
graça e pelo poder de Deus.
O Senhor encarregou Davi de construir-lhe um templo
através de seu filho e de prepara-lhe um lugar de repouso. Salomão, ao
construí-lo, fez os querubins, como diz o Livro dos Reis. Revestiu-os de ouro e
mandou entalhar querubins e palmas dentro e fora de todas as paredes ao redor.
Ao redor, não dos lados, note-se. E havia touros, leões e romãs. Não seria mais
conivente decorar todas as paredes da casa do Senhor com formas e imagens
sagradas do que feras e plantas? O que houve com a lei que diz “não farás nenhuma
imagem esculpida?” Mas tendo recebido o dom da sabedoria, Salomão, ao dar
imagem ao Céu, fez os querubins e as imagens de touros e leões, os quais a Lei
proibia. Ora, se fizermos uma estátua de Cristo e imagens dos santos, o fato de
estarem cheias do Espírito Santo não aumenta a piedade de nossa homenagem?
Assim, como o povo e o templo eram então purificados pelo sangue e pelos
holocaustos, a Igreja é agora edificada sobre o sangue dos santos, com o sangue
de Cristo dando testemunho sob Pôncio Pilatos e sendo Ele mesmo as primícias
dos mártires. Então, os sinais e formas de animais sem vida prefiguravam o
tabernáculo humano, os próprios mártires que estavam sendo preparados para a
morada de Deus.
Retratamos Cristo como nosso Rei e Senhor, não
podemos privá-lo de seu exército! Os santos são o exército do Senhor! Que antes
os reis terrenos dispensem suas tropas do que abandonem o seu Senhor e Rei! Que
renunciem à púrpura antes de tirarem a honra de seus homens mais valentes, os
quais venceram suas paixões! Pois se os santos são herdeiros de Deus e
co-herdeiros de Cristo, eles também serão participantes da divina glória da
soberania. Se os amigos de Deus tiveram parte nos sofrimentos de Cristo, como
não receberão uma parte da glória ainda na terra? “Não vos chamo servos”, diz o
Senhor, “chamo-vos de amigos”. Será que deveríamos, então, privá-los da honra
que lhes foi dada pela Igreja? Que audácia! Que atrevimento de espírito, lutar
contra Deus e seus mandamentos!
Vós que recusais prestar culto às imagens não deveríeis prestar culto ao Filho de Deus, Imagem viva do Deus invisível e forma imutável. Eu venero a imagem de Cristo como Deus Encarnado, a de Nossa Senhora, Mãe der todos nós, como a Mãe do Filho de Deus, e a dos santos como amigos de Deus. Eles resistiram ao pecado até o sangue seguiram a Cristo derramando seu sangue por Ele, que derramou por eles o seu. Eu registro as excelências e os sofrimentos daqueles que trilharam seus passos para que eu me santifique e seja inflamado pelo zelo da imitação. São Basílio diz: “A honra prestada a uma imagem se dirige a quem ela representa”. Se ergueis igrejas para os santos de Deus, levantai também seus troféus.
O templo de antigamente não foi construído em nome
de homem algum. A morte do justo era causa de lágrimas, não festejo.
Um homem que tocasse um cadáver era considerado
impuro, mesmo que o cadáver fosse o próprio Moisés. Agora, porém, as lembranças
dos santos são conservadas com júbilo. O corpo do morto de Jacó foi pranteado,
ao passo que pela morte de Estêvão há alegria.
Portanto, renunciai às celebrações solenes dos
santos, que não estão de acordo com a antiga lei, ou aceitai as imagens que,
como dizes, são igualmente contrárias a elas. Mas, é impossível não conservar
com júbilo a memória dos santos. Os Apóstolos e Padres são unânimes em
ordená-lo.
A partir do momento em que Deus Filho, impassível
em razão de sua Divindade, escolheu sofrer voluntariamente, Ele liquidou nossa
dívida, também pagando por nós um resgate mais nobre e pleno.
Somos verdadeiramente livres mediante o sagrado sangue do Filho, que suplica por nós ao Pai. E fomos, de fato, livrados da corrupção desde o momento em que Ele desceu aos infernos para as almas lá detidas pelos séculos e, acorrentando o forte, deu aos cativos a liberdade e aos cegos a visão.
Ele ressuscitou na plenitude do Seu poder, conservando
revestida de imortalidade a carne que havia tomado por nós. E uma vez que nascemos
de novo na água e do Espírito, somos verdadeiramente filhos e herdeiros de Deus.
Por isso São Paulo chama os fiéis de santos. E por isso não nos entristecemos
com a morte deles, mas nos alegramos. Tendo sido justificados pela fé, e
conhecendo o único Deus verdadeiro, não estamos mais sob a lei. O justo não
está sujeito à lei. Nós não estamos atados a letra da lei nem somos crianças,
que são tratadas como escravos, mas sim homens crescidos em perfeito estado. Somos
nutridos com alimento sólido, não com o que leva à idolatria.
A lei é boa como a luz que brilha em um lugar escuro até que o dia amanheça. Vossos corações já foram iluminados, a água viva do conhecimento de Deus prevaleceu sobre os tempestuosos mares do paganismo e nós todos podemos conhecer a Deus. A criação antiga passou e tudo foi renovado.
O Santo Apóstolo Paulo disse a São Pedro, chefe dos
Apóstolos: “Se tu sendo judeu, vives com o um pagão e não como um judeu, como
vais persuadir os pagãos a fazerem o que os judeus fazem?”
E aos Gálatas: “Atesto a todo homem que se circuncidar
está obrigado a observar toda a lei”.
Antigamente, aqueles que não conheciam a Deus
adoravam falsos deuses. Mas agora, conhecendo-O, ou melhor, sendo conhecidos
por Ele, como podemos retornar a rudimentos fracos e miseráveis?
Olhei para forma humana de Deus e minha alma foi salva.
Assim como fez Jacó, eu contemplo sua imagem, embora de um jeito diferente. Vendo
com a visão imaterial, Jacó pareceu vislumbrar o futuro, ao passo que a imagem
d’Aquele que é visível à carne está gravada a fogo em minha alma. O vulto, o
sudário e as relíquias dos Apóstolos curavam doenças e expulsavam demônios. Como
é então que o vulto e as estátuas dos santos não devem ser exaltados?
Eliminai, portanto, o culto a toda matéria ou não
sejais um inovador. “Não alteres as antigas fronteiras que teus pais fixaram”.
Ninguém que considerou sequer um pouco a disciplina
da Igreja vai contestar isso. Pois se negligenciamos costumes não escritos como
se não tivessem muita importância, sepultamos no esquecimento os fatos
pertinentes ligados ao Evangelho”. Estas são as palavras de Basílio Magno.
Como é que sabemos onde e qual é o local sagrado do
Calvário ou do Santo Sepulcro? Não se baseia isso em uma tradição transmitida
de pai para filho? Está escrito que Nosso Senhor foi crucificado no Calvário e
sepultado num túmulo que José de Arimatéia talhou na pedra, mas é a tradição
não escrita que identifica estes locais e faz outras coisas semelhantes. De onde
vêm as três imersões do batismo, ao rezar com o rosto voltado para o Oriente, a
tradição dos divinos mistérios? Daí São Paulo dizer: “Assim, pois, irmãos,
ficai firmes e conservai as tradições que aprendestes, seja por palavras, seja
por carta nossa”.
Então, como tanto foi transmitido na Igreja e é
observado até hoje porque depreciar as imagens?
Se contestais, ainda que o grande Epfânio rejeitava
imagens rigorosamente, seu vos diria, em primeiro lugar que a obra em questão é
fictícia inautêntica. Leva o nome de alguém que não escreveu, algo que costumava
ser feito normalmente. Em segundo lugar, sabemos que o bem-aventurado Atanásio se
opunha que os corpos dos santos fossem sepultados em urnas e preferia que
fossem enterrados no chão, querendo dissipar o estranho costume dos egípcios,
que não enterravam seus mortos sob a terra, mas colocavam-nos em camas e
poltronas. Portanto, suponhamos que o grande Epifânio realmente tenha escrito
essa obra e, desejando corrigir algo semelhante, tenha ordenado que não fosse usada
as imagens. A prova de que ele não se opunha às mesmas pode ser encontrada em
sua própria igreja, que está adornada com imagens até hoje. Em terceiro lugar,
a exceção não é uma lei para a Igreja, nem pode uma só andorinha fazer verão,
como é do parecer de Gregório, o teólogo, e da verdade. Tampouco é possível que
uma única menção derrube a tradição de toda a Igreja que está espalhada pelo
mundo.
Vimos que os profetas reverenciavam Anjos, homens,
reis, ímpios e até mesmo um cajado. Davi diz: “E prostrai-vos ante o escabelo
de seus pés”. Isaías falando em nome de Deus, afirma: “O céu é o meu trono e a
terra meu escabelo”. Ora, é evidente a todos que o céu e a terra são criaturas.
Também Moisés e Aarão veneraram, com todo povo, a obra das mãos humanas.
Referências bíblicas apologia 1:
Hebreus1, 1-1-2; 5, 14; 8,5;9, 13; 10,1.38; 11,21
Ezequiel33,8
Salmos96,7; 118, 46
Deuteronômio4,12.15-19; 6,4.13-14; 10,20; 12,13;
Êxodo20,4; 33,20; 34,17.28
Jeremias10,11
João17,3
2Coríntios3,6
Gênese3,33; 23,7;30,3; 47,7.31; 50,18
Atos7,16
Josué 5,15
1Timóteo6,13
Colossenses1, 15
Tiago1,17
Romanos1,20;5,1; 6,14; 8, 17
1Corintios1,2; 10,1
Eclesiástico3,1
Êxodo25,40; 31, 1-6; 35, 4-10
Baruc3,38
Gálatas2, 14; 5,3; 4,1; 4,8-9; 5, 2-4
2Coríntios3, 18
Josué4, 21-22
1Samuel2, 30
1João3,2
Salmos82,1; 99,5; 135,15
1Reis 6,28-29
João15,15
Números19,11
1Pedro3, 19
Marcos3,26-27
Mateus12,19; 27, 60
1Tomóteo1,9
Gênese32,30
Atos5,15
Provérbios22,28
2Tessalonisenses2,15
Isaías66,1
Apologia 2 – S. João Damasceno
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I |
mploro vossa compreensão, meus senhores, e peço-vos que recebais o testemunho verdadeiro de um humilde servo, o menor de todos, na Igreja de Deus. Não fui levado a falar por questão de vanglória, o Senhor é minha testemunha, mas por zelo pela verdade. Somente nisso está minha esperança de salvação. Com isso, tenho confiança e suplico por ir ao encontro de Cristo, Nosso Senhor, pedindo que sirva de expiação pelos meus pecados. O homem que recebeu cinco talentos de seu senhor trouxe cinco que havia lucrado, e o que recebeu dois trouxe outros dois. O homem que recebeu um, o enterrou e devolveu sem juros e, sendo declarado perverso, foi banido nas trevas exteriores. Com receio de sofrer o mesmo, obedeço às ordens de Deus e, com o talento da eloquência, que é dom Seu, coloco diante dos sábios entre vós uma mesa repleta de tesouros, a fim de que, quando o Senhor vier, encontre-me rico de almas, um servo fiel, ao qual haverá para sua inefável alegria, como é meu desejo. Dai-me ouvidos atentos e corações abertos. Recebei meu tratado e ponderai bem a força dos argumentos. Essa é a segunda parte da minha obra sobre imagens. Alguns filhos da Igreja insistiram para que eu o fizesse porque a primeira parte não era suficientemente clara para todos. Sede indulgentes comigo por causa disso, pela minha obediência.
Amados,
a perversa serpente de outrora, isto é, o diabo, é acostumada a travar guerra
de diversos modos contra o homem, que é feito à imagem de Deus, e a operar sua
destruição por meio do confronto. Logo no início, ela inspirou no homem a
expectativa e o desejo de se tornar deus e, através deste desejo, arrastou para
baixo, a fim de fazê-lo participar da morte da criação inferior. Seduziu-o
também com prazeres vergonhosos e bestiais. Que contraste entre se tornar deus
e sentir um desejo bestial! Ela ainda induziu à infidelidade, como diz o rei
Davi: “O insensato diz, em seu coração: ‘não há Deus”’. Num momento, levou o
homem a adorar deuses demais, no outro, nem mesmo o Deus Verdadeiro. Por vezes
demônios, e ainda nos céus, a terra, o sol, a lua, as estrelas e o resto da
criação: bestas selvagens e répteis.
Ora,
é tão ruim recusar a devida honra a quem a honra é devida quanto dá-la a quem
não é. Além disso, instruiu alguns a chamarem de mau o Deus Incriado e
ludibriou a outros, fazendo-os reconhecer a Ele, que é bom por natureza, como
autor do mal. A uns enganou pela concepção errônea de que a divindade possui
uma só natureza e substância, a outros induziu a honrar três naturezas e três
substâncias. A uns, uma única substância em Nosso Senhor Jesus Cristo, Segunda
pessoa da Santíssima Trindade, a outros, duas naturezas e duas substâncias.
Mas
a verdade, escolhendo um caminho intermediário, varre esses conceitos errados e
ensina-nos a reconhecer um só Deus, uma só natureza em três pessoas: O Pai, o
Filho e o Espírito Santo. O mal não é um ser, mas um acidente, uma certa concepção,
palavra ou ato contra a lei de Deus, tendo sua origem nesta concepção, fala ou
ato e terminando com os mesmos. A verdade proclama também que em Cristo, a
Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, há duas naturezas e uma só pessoa.
Ora,
o diabo inimigo da verdade e da salvação do homem, ao sugerir que devem ser
feitas e adoradas como deuses as imagens de homens corruptíveis, aves, feras e
répteis, muitas vezes desviou não só os pagãos, mas também os filhos de Israel.
Nestes dias ele está ávido a perturbar a paz da Igreja de Cristo, por meio de
línguas falsas e mentirosas, usando palavras divinas em favor do que é mau,
tentando disfarçar sua má intenção e afastando do costume verdadeiro e
patrístico os instáveis. Alguns se erguem e disseram que era errado representar
e expor publicamente para veneração as chagas salvadoras de Cristo e o combate
dos santos contra o demônio. Quem, reconhecendo as realidades divinas e tendo
senso espiritual, não percebe nisso uma trapaça dele? Ele não quer que sua
vergonha seja conhecida e que a glória de Deus e de seus santos seja
divulgada.
Na
verdade, estaríamos errados se fizéssemos uma imagem do Deus Invisível, pois é
impossível fazer uma escultura de quem é incorpóreo, ilimitado e amorfo.
Novamente: seríamos ímpios se fizéssemos esculturas de homens e as
considerássemos como deuses, adorando-as como tal. Mas nós não fazemos nada
disso. Pois não estamos enganados quando fazemos uma imagem de Deus, que se
encarnou e tornou-se visível na terra, homem entre os homens, tomando sobre Si
contorno, forma e carne por sua indivisível bondade. Ansiamos por ver como Ele
é. Como diz o divino apóstolo, “agora vemos como por um espelho confusamente”.
Também a imagem é um espelho confuso, em função da densidade de nossos corpos.
A mente, mesmo com muito esforço, não consegue se livrar das realidades corpóreas.
Que
vergonha, demônio perverso, por nos invejar a visão da imagem de Nosso Senhor e
a nossa santificação por meio dela! Não irias querer que contemplássemos seus
sofrimentos salvadores, nem admirássemos sua condescendência, nem
considerássemos seus milagres ou louvássemos seu poder onipotente. Tu invejas
os santos pela honra que Deus lhes dá! Não irias querer que víssemos registrada
a sua glória, nem permitirias que nos tornássemos imitadores de sua fortaleza e
fé. Não iremos obedecer às suas sugestões, demônio perverso e odioso!
Ouvi-me,
povos de todas as nações, homens, mulheres, crianças, vós todos que levais o
nome de cristãos: Se qualquer pessoa vos pregar algo contrário ao que a Igreja
Católica recebeu dos santos apóstolos, padres e concílios, e preservou até os
dias de hoje, não lhes dê atenção! Não aceitais o conselho da serpente, como
fez Eva, para quem isso foi a morte. Se um anjo ou imperador vos ensinar
qualquer coisa contrária ao que recebestes, tapai vossos ouvidos! Até o momento
abstive-me de dizer, como o santo apóstolo, “que seja anátema”, na esperança de
emenda.
Mas
aqueles que não compreendem o sentido da Escritura dizem: Deus disse por meio
de Moisés, o legislador: “Não farás para ti escultura, nem figura alguma do que
está em cima, nos céus, ou embaixo, sobre a terra”. E por meio do profeta Davi:
“Que sejam confundidos todos os que adoram estátuas e se gloriam em seus
ídolos”. E muitas outras passagens parecidas. O que quer que citem da Sagrada
Escritura e dos Padres é com a mesma intenção.
Ora,
o que devíamos dizer perante isso? O que, senão aquilo que Deus falou aos
judeus? – “Examinai as Escrituras”.
É
bom examinar as Escrituras, mas aqui permiti que vossas mentes sejam iluminadas
por esta investigação. É impossível, amados, que Deus não fale a verdade. Há um
só Deus, um só Legislador do Antigo e do Novo Testamento, que “muitas vezes e
de diversos modos falou outrora aos nossos pais pelos profetas e nesses tempos,
que são os últimos, falou-nos através de Seu Filho Unigênito”. Ponderai,
portanto, com precisão. Não sou eu quem está falando. O Espírito Santo declarou
pelo santo apóstolo Paulo que Deus falou outrora muitas vezes e de diversos
modos aos patriarcas pelos profetas. Vede: de diversos modos.
Um
médico habilidoso não prescreve invariavelmente a mesma coisa para todos, mas
cada um de acordo com seu estado, levando em consideração o contexto e a
queixa, a estação do ano e a idade, dando o remédio à criança e outro ao
adulto, conforme seu tempo de vida. Um ao paciente fraco, outro ao paciente
forte, e para cada doente a coisa certa para seu estado e doença: uma coisa no
verão, outra no inverno, outra na primavera, outra no outono e em cada lugar
segundo suas exigências. Assim, do mesmo modo, o grande Médico das almas
prescreveu aos que ainda eram crianças, inclinados à doença da idolatria e que
mantinham ídolos como deuses e os adoravam como tal, negligenciando o culto ao
Senhor e preferindo a criatura em vez de sua glória. Ele os encarregou de não
fazerem isso.
É
impossível fazer uma imagem de Deus, que é incorpóreo, invisível, ilimitado,
incircunscrito e amorfo. Como podemos fazer uma imagem do que é invisível?
“Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o
revelou”. E ainda, “o homem não Me poderia ver e continuar a viver”.
Que
eles adoravam ídolos não há dúvida, considerando o que diz a Escritura a
respeito do êxodo dos filhos de Israel, quando Moisés subiu ao Monte Sinai e se
manteve em oração a Deus. Enquanto recebia a Lei, o povo ingrato levantou-se
contra Aarão, sacerdote do Senhor dizendo: “Faze-nos deuses que marchem à nossa
frente, porque Moisés não sabemos o que é feito dele”. Então, quando puseram os
olhos sobre os brincos de suas esposas e os reuniram: eles comeram e beberam e
se embriagaram de vinho e loucura e começaram a se alegrar, dizendo e suja
insensatez: “Eis, ó Israel, o teu deus que te tirou do Egito”. Vedes como eles
tornaram deuses os ídolos, que eram demônios, e adoraram a criatura em vez do
Criador?” [Episódio do bezerro de ouro, livro do Êxodo, 32]
Por
esta razão, o Senhor os proibiu de fazer qualquer imagem esculpida, como disse
Moisés no Deuteronômio: “Do meio do fogo, o Senhor vos falou. Ouvistes o som de
suas palavras, mas não o vistes, no entanto, nenhuma forma”. E um pouco mais
adiante: “Tende cuidado com a vossa alma. No dia em que o Senhor, vosso Deus
vos falou do seio do fogo em Horeb, não vistes figura alguma. Guardai-vos,
pois, de fabricar alguma imagem esculpida representando o que quer que seja,
figura de homem ou mulher, representação de algum animal que vive na terra ou
de um pássaro que voa nos céus”. E ainda: “Para que não aconteça, porventura,
que levantando os olhos aos céus e vendo o sol, a lua e todas as estrelas do
céu, sejais enganados pelo erro e os adore e sirva”.
Vê-se
que o único objetivo em vista é que a criatura não seja adorada no lugar do
Criador e o culto de latria seja dado a Deus somente. Deste modo, em todos os
casos quem que fala de culto, ele quer dizer o de latria. Outra vez: “Não terás
outro deus diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura representando o
que quer que seja”. Novamente: “Não farás deuses de metal fundido”.
Vê-se
que ele proíbe a fabricação de imagens devido à idolatria, e que é impossível
fazer uma imagem de Deus, que é Espírito, invisível e incircunscrito. “Não
vistes figura alguma”, Ele diz. E não Paulo, no meio do Areópago: “Se somos,
pois, a raça de Deus, não devemos pensar que a divindade é semelhante ao ouro,
à prata ou à pedra lavrada por arte e gênio dos homens”.
Vede
de novo como é assim: “Não farás para ti qualquer coisa de bronze, nem qualquer
semelhança”. Mas fizeram isso por ordem de Deus, pois ele o fez: um véu de
púrpura violeta, de púrpura escarlate, de carmesim e de linho retorcido na
entrada do tabernáculo, e querubins artisticamente bordados. E fizeram também o
propiciatório, isto é, o oráculo do mais puro ouro, e os dois querubins. Que
dirás disso, Moisés? Tu dizes “não farás para ti imagem de escultura
representando o que quer que seja”, tu mesmo fazes querubins de bordado e dois
de ouro puro!
Ouvi
a resposta de Moisés, servo de Deus: “Ó povo cego e insensato! Distingui o peso
do que é dito e tendes cuidado com vossa alma! Eu disse que vós não vistes
nenhuma imagem no dia em que o Senhor vos falou no Horeb, no meio do fogo, para
que não pecásseis contra a Lei e fizésseis para vós uma imagem de bronze: ‘não
farás para ti qualquer imagem ou deus de metal’. Eu nunca disse ‘não farás a
imagem de querubins em adoração diante do propiciatório!’ O que eu disse foi: ‘não
farás para ti deuses de metal e não farás qualquer semelhança como de Deus, nem
adorarás a criatura no lugar do Criador, nem criatura alguma, qualquer que
seja, como se fosse Deus, nem servirás a criatura no lugar do Criador’”.
Vede
como o objetivo da Escritura torna-se claro para quem realmente o busca. Deveis
saber, amados que em todos os assuntos a verdade e a falsidade são distintas e
também o objetivo de quem as pratica, seja ele bom ou mau. No Evangelho
encontramos todas as coisas, boas e más: Deus e os anjos, o homem, céus, terra,
água, fogo, ar, sol, lua e estrelas, luz e trevas, Satanás e os demônios, a
serpente e os escorpiões, morte e inferno, virtude e vícios. E porque tudo o
que é dito sobre eles é verdade e o objetivo em vista é a glória de Deus e dos
santos, aos quais Ele honrou, nossa salvação e a humilhação do demônio, nós
adoramos, acolhemos e amamos esses enunciados, e os recebemos de todo coração
como fazemos com todo Antigo e o Novo Testamento e com todo testemunho oral dos
Santos Padres.
Ora,
nós Rejeitamos os escritos maus E abomináveis dos pagãos, maniqueus E de Todos os
outros hereges, como Portadores De insensatez E mentiras favorecem satanás e seus
demônios, e a estes agradam, embora contenham o nome de Deus. Então, no que diz
respeito às imagens, devemos manifestar a verdade e levar em consideração a
intenção daqueles que as fizeram. Se for deveras para a glória de Deus e de
seus santos, pra promover a bondade, evitar o mau e salvar almas, devemos
recebê-las, honrá-las e venerá-las como imagens, lembranças, semelhanças e como
livros iletrados. Devemos amá-las e acolhê-las, com as mãos e o coração, como
recordações do Deus encarnado, de sua Mãe, ou dos santos, que são participantes
dos sofrimentos e da glória de Cristo, que venceram e derrotaram Satanás e a
ilusão diabólica.
Se
alguém se atrever a fazer uma imagem do Deus Todo-Poderoso, que é incorpóreo,
invisível, incircunscrito, nós a rejeitamos como sendo uma mentira. Se alguém
fez imagens para honra e o culto ao diabo e seus anjos, nós abominamos e as
entregamos às chamas. Ou se alguém dá honras divinas às estátuas de homens,
aves, répteis ou qualquer outra criatura, nós anatemizamos. Assim como nossos
antepassados na fé demoliram os templos dos demônios e ergueram no mesmo local,
igrejas dedicadas aos santos que nós honramos, da mesma maneira derrubaram as estátuas
dos demônios e colocaram no lugar estátuas de Cristo, de sua Mãe e dos santos.
No
Antigo Testamento, Israel não ergueu templos para os seres humanos nem
considerou sagrada a memória do homem. Naquela época, a raça de Adão estava sob
uma maldição e a morte era o castigo, consequentemente um luto. Um cadáver era
considerado impuro e ficava contaminada a pessoa que o tocasse. Mas desde que o
Senhor tomou sobre Si a nossa natureza, ela (a morte) foi glorificada como um remédio
vivificante e eficaz e transformador em imortalidade. Deste modo, a morte dos
santos é uma alegria; igrejas são erguidas para eles e imagens suas são feitas.
Esteja
certo de que qualquer pessoa que queira demolir uma imagem por puro zelo de
glória e permanente memória de Cristo, de sua Mãe ou de qualquer um dos santos,
para envergonhar o demônio e seus seguidores, - digo, qualquer pessoa que se
recuse a honrar e venerar esta imagem como sagrada (não adorá-la como deus) – é
inimigo de Cristo. É inimigo se sua Bem-aventurada Mãe e dos santos; é um
porta-voz do demônio e da sua horda, pois demonstra, com sua conduta, ter mágoa
por serem os santos honrados e glorificados e o demônio envergonhado. A imagem
é um hino de louvor, uma expressão, um sinal duradouro daqueles que lutaram e
venceram e dos demônios humilhados e afugentados.
Os
reis são designados a fazer leis na Igreja. O que diz o santo apóstolo? “Na
Igreja, Deus constituiu primeiramente os apóstolos, em segundo lugar os
profetas, em terceiro lugar os doutores e pastores para a instrução da Igreja”.
Ele não diz “reis”. E ainda: “Sede submissos e obedecei aos que vos guiam, pois
eles velam por vossas almas e delas devem tomar conta”. Novamente: “Lembrai-vos
de vossos guias que vos pregaram a Palavra de Deus. Considerai como souberam
encerrar a carreira. E imitai-lhes a fé”. Os reis não vos pregaram a Palavra,
mas sim os apóstolos e profetas, pastores e doutores. O senhor disse a Davi
quando falavam sobre construir-lhe uma casa: “Tu não construirás uma casa a seu
nome, porque és um guerreiro e derramaste sangue”. “Pagai a cada um o que lhe
compete”, exclamou São Paulo, “o imposto, a quem deveis o imposto; o tributo, a
quem deveis tributo; o temor e o respeito, a quem deveis temor e respeito”.
A
boa conduta política é assunto do rei, a organização eclesiástica é dos
pastores e doutores. Tirá-las de suas mãos é cometer um roubo. Saul rasgou o
manto de Samuel, e qual foi a consequência? Deus lhe tirou a realeza e a deu ao
manso Davi. Jezabel perseguiu Elias; porcos e cães lamberam seu sangue e
prostitutas banharam-se nele. Herodes eliminou João Batista e foi consumido por
vermes. Já São Germano, brilhante por suas palavras e exemplo, foi punido e
tornou-se exilado. E muitos outros bispos e padres, dos quais desconhecemos os
nomes. Acaso isso não é uma perseguição?
Quando
os fariseus e os doutores cercaram Nosso Senhor para supostamente ouvir seus
ensinamentos e lhe perguntaram se era lícito para tributo a César. Ele respondeu:
“Trazei-me uma moeda”. E quando trouxeram disse: “de quem é a imagem?”
Responderam então: “De César”. E disse: “Dai a César o que é de César, e a Deus
o que é de Deus”. No que diz respeito à nossa vida cotidiana (em tributos,
impostos, e pagamentos, os quais vos são devidos), nós vos somos obedientes, ó
rei. Mas no governo da Igreja nós temos nossos pastores, pregadores da Palavra
e expoentes da lei eclesiástica. Não alteramos a tradição que recebemos. Se começarmos
a impor a lei à Igreja, ainda que seja algo ínfimo, todo o edifício cairá ao
chão em pouco tempo.
Vós
olhais a matéria e a chamais de desprezível. Isso foi o que os maniqueus
fizeram, mas a Sagrada Escritura a declara bia, diz: “Deus contemplou toda a
sua obra e viu que tudo era muito bom”. Eu digo que a matéria é criatura de
Deus e algo bom. Ora, se dizeis que é algo mau, estais dizendo que ela não é de
Deus ou fazeis d’Ele uma causa do mal.
Escutai
as palavras da Escritura relativas à matéria, que vós desprezais: “Moisés disse
a toda assembleia dos israelitas: Eis o que o Senhor ordenou: Separai de entre
vós uma oferta para o Senhor. Todo homem de coração reto trará a oferta ao
Senhor: ouro, prata, bronze, púrpura violeta e escarlate, carmesim, linho fino,
pele de cabra, peles de carneiro tingidas de vermelho, peles de golfinho,
madeira de acácia, óleo para o candelabro, aromas para o óleo da unção e para o
incenso odorífero, pedras de ônix e pedras de engaste para o efod e o peitoral.
Venham todos aqueles dentre vós que são hábeis e executem tudo que o Senhor
ordenou: a saber, o tabernáculo, etc”.
Eis
então que a matéria é honrada e vós desonrais. O que é mais insignificante o
que pelo de cabra e tinturas? Não são as tinturas a púrpura violeta, a
escarlate e o carmesim? A imagem dos querubins são obras de mãos humanas e o
tabernáculo, do princípio ao fim, era uma imagem. “Cuida” disse Deus a Moisés, “de
fazê-los conforme o modelo que te foi mostrado no monte”, e foram venerados
pelo povo de Israel em círculo. E não estavam à vista do povo, assim como os
querubins? Não olhava o povo para a Arca, para o candelabro, para o altar, par
a urna dourada e para o cajado, e os venerava?
Não
é matéria que eu adoro, é o Criador da matéria, que Se fez matéria por mim e
estabeleceu sua morada na matéria e operou minha salvação através da matéria. Pois
“o Verbo se fez carne e habitou entre nós”. É evidente a todos que a carne é
matéria e que é criada. Então eu reverencio e honro a matéria, e venero aquela
que me ocasionou a minha salvação. Não a honro como Deus, mas como um canal da
força e da graça divinas. Não é matéria as três vezes bendita madeira da Cruz? E
o sagrado e santo monte do Calvário? Não é matéria o Santo Sepulcro, a rocha
que dá a vida, fonte de nossa ressurreição? Não é matéria o livro dos
Evangelhos e a santa mesa que nos dá o pão da vida? Não são o ouro e a prata
matéria de que são feitos as cruzes, as imagens sagradas e os cálices? E acima
de tudo, não são o Corpo e o Sangue do Senhor constituídos de matéria?
Rejeitai
a honra e a veneração disso tudo ou submetei-vos à tradição eclesiástica,
santificando o culto das imagens em nome de Deus e de seus amigos e obedecendo
assim a graça do Espírito Divino. Se rejeitais
as imagens por causa da lei, deveríeis também guardar o sábado e ser
circuncidado, pois a Lei ordena inflexivelmente. Deveríeis observar toda a Lei
e não celebrar fora de Jerusalém a Páscoa do Senhor. Mas deveis saber que, se
observais a Lei, de nada vos servirá Cristo. Estais obrigados a casar com a esposa de teu irmão e assim dar continuidade
a seu nome, e a não cantar um cântico do Senhor em terra estrangeira. Mas basta!
“Vós que procurais a vossa justificação na Lei, rompestes com Cristo: decaístes
da graça”.
Anunciemos
o Cristo, Rei e Senhor, não lhe despojando de seu exército. Os santos são o
exército do Senhor! Que o rei terreno se despoje do seu, então, e de sua
própria dignidade! Que ponha de lado a púrpura e a coroa antes de tirar a honra
de seus mais valorosos homens, que dominaram suas paixões! Pois se os amigos de
Cristo são co-herdeiros de Cristo e devem ser participantes da glória e do
reino divino, não lhes é devida até mesmo a glória terrena? “Não vos chamo
servos”, diz o Senhor, “vós sois meus amigos”. Devemos, então, negar-lhes a
honra que a Igreja lhes dá?
Ó
mão atrevida! ó juízo audaz e rebelde, que se opõe a Deus e aos seus decretos!
Se venerais as imagens, não venerais o Filho de Deus, imagem viva de Deus invisível
e figura imutável de sua substância. O templo construído por Salomão foi
consagrado pelo sangue de animais e decorado com imagens de leões, bois, palmeiras
e romãs. Agora a Igreja é consagrada pelo sangue de Cristo e de seus santos e
enfeitada com a imagem dos mesmos. Removei completamente o culto das imagens,
ou não sejais uns inovadores: não altereis as antigas fronteiras fixadas por
vossos pais. Não falo de fronteiras anteriores à encarnação de Cristo Nosso
Senhor, mas partir de sua vinda. Deus, falou a eles, depreciando as tradições
da antiga lei, dizendo: “Eu, por minha vez dei-lhes funestas”, por causa de sua
dureza de coração. “Pois, transferindo o sacerdócio, forçoso é que se faça
também a mudança da lei”.
As
testemunhas oculares e ministros da palavra transmitiram o ensino da Igreja não
somente por escrito, mas também por tradição não escrita. De onde vem nosso
conhecimento do local sagrado, do Monte Calvário ou do Santo Sepulcro? Não nos
foi transmitido de pai para filho? Está escrito que Nosso Senhor foi crucificado
no Calvário e sepultado no túmulo de José de Arimatéia que foi escavado na
rocha, mas é tradição não escrita que estamos venerando os lugares certos, e
muitas outras coisas do mesmo tipo. Donde vem o batizar três vezes, isto é, por
três imersões? Donde vem o “adorar a Cruz?” não vem da tradição não escrita? Por
isso o santo apóstolo Paulo declara: “Assim, pois, irmãos, ficai firmes e
conservai os ensinamentos que de nós aprendestes, seja por palavras, (tradição),
seja por carta nossa”.
Portanto,
das muitas coisas transmitidas à Igreja por tradição não-escrita e que ainda
são mantidas, porque desprezas as imagens?
Os
maniqueus seguiram um evangelho segundo Tomé e vós seguires um segundo Leão. Não
admito a ação tirânica de um imperador que se põe a oprimir a Igreja. O imperador
não recebeu o poder de “ligar e desligar”. Sei da existência do imperador
Valente, um cristão de nome que promoveu perseguição à fé verdadeira; de Zenão
e Anastácio, Heráclio e Constantino de Sicília e Berdanes, chamado Filípico. Não
estou convencido de que os decretos imperiais ordenam a Igreja, mas sim as
tradições patrísticas, escritas e não escritas. Assim como o Evangelho escrito
tem sido pregado no mundo inteiro, do mesmo modo representar a imagem de Cristo,
o Deus Encarnado, e os antos, “adorar” a Cruz e rezar voltado para o Oriente
tem sido no mundo inteiro uma tradição não escrita.
Os
costumes que tu apresentas não incriminam nosso culto de imagens, mas aquele
dos pagãos, que delas fazem ídolos. A piedosa prática da Igreja não deve ser
rejeitada por causa do abuso pagão. Feiticeiros e magos conjuram, ao passo que
a Igreja exorciza os catecúmenos. Aqueles invocam demônios, esta invoca a Deus
contra os demônios. Os pagãos sacrificavam aos demônios, Israel oferecia
holocaustos e vítimas. Também a Igreja oferece a Deus um sacrifício incruento.
Os
pagãos erigiam imagens aos demônios e Israel, por palavras, fez delas ídolos: “Eis
ó Israel, os teus deuses que tiraram do Egito”. Agora nós erigimos imagens ao Deus
Encarnado, aos seus servos e amigos, que expulsaram aquelas dedicadas aos demônios.
Se vós dizeis que o bem-aventurado Epifânio rejeitava claramente nosso uso de
imagens, sabei que a obra em questão é falsa escrita por alguém de nome
Epifânio, como acontecia com frequência. Um pai luta contra seus próprios filhos.
Todos se tornaram participantes do único Espírito Santo. A própria Igreja é
testemunha disso ao enfeitar imagens, até que ele, o feroz e selvagem Leão
levantou-se contra ela e perturbou a paz do rebanho de Cristo, dando de beber
ao povo de Deus com sua perturbadora mão enlameada.
Se
venero e cultuo como instrumento de salvação a cruz e a lança, a cana e a
esponja, por meio das quais os judeus, que foram adquiridos por Deus,
escarneceram e condenaram à morte o meu Senhor, não devo também cultuar as
imagens que os cristãos fazem com boa intenção para a glória e a memória de
Cristo?
Se
venero a imagem da Cruz, feita de madeira que for, não venerarei a imagem que
me mostra o Crucificado e minha salvação através da Cruz? Ó barbaridade do
homem! É evidente que o culto a matéria, pois supondo que a Cruz, se for feita
de madeira, caia e se quebre em pedaços, eu a jogaria ao fogo, e o mesmo faria
com as imagens.
Visto
que não é nova a invenção de imagens e seu culto, mas antiga tradição da
Igreja, acolhei o conjunto dos oráculos da Escritura e doa Santos Padres. No sagrado
Evangelho segundo São Mateus, Nosso Senhor chamou seus discípulos de
bem-aventurados e, com eles, todos os que seguiram seus exemplos e trilharam
seus passos nestes termos: “Bem-aventurados são vossos olhos, porque me veem, e
vossos ouvidos, porque me ouvem! Em verdade eu vos digo, muitos profetas e
justos desejaram ver o que estais vendo, e não viram; desejaram ouvir o que estais
ouvindo, e não ouviram”. Então também nós desejamos ver como nos é possível. “Agora
vemos como por um espelho, confusamente”, e mesmo que por imagem, também somos
bem-aventurados.
O
próprio Deus criou e apresentou imagens primeiro. Pois “criou o homem à sua
imagem”. E Abraão, Moisés, Isaías e todos os profetas viram imagens suas, não
sua substância. A sarça ardente era uma imagem da Mãe de Deus, e Moisés estava
prestes a se aproximar, Deus disse: “Tire as sandálias dos seus pés porque o
lugar em que pisas é terra santa”. Ora, se o lugar ao qual Moisés viu uma
imagem de Nossa Senhora é santo, quanto mais a própria imagem? [São João
Damasceno interpreta a sarça ardente como imagem da Virgem Maria porque, assim
como o arbusto ardia sem se consumir, Maria recebeu em seu seio o fogo divino —
o Verbo encarnado — sem perder sua virgindade.]
E
não apenas é santa, mas arrisco dizer que é “a santa dos santos”. Quando os
fariseus perguntaram a Nosso Senhor porque Moisés permitiu a carta de divórcio,
Ele respondeu: “Moisés permitiu despedir a mulher por causa da dureza de vossos
corações. Mas não foi assim desde o princípio”. E eu te digo que Moisés proibiu
os filhos de Israel de fazerem imagens por conhecer sua propensão à idolatria e
a sua dureza de coração. Esse não é o nosso caso. Nós estamos firmemente
estabelecidos na rocha da fé. Enriquecidos pela luz do conhecimento de Deus.
Escutai
as palavras de Nosso Senhor: “Insensatos e cegos! Quem jura pelo templo, jura ao
mesmo tempo por Aquele que nele habita. E quem jura pelo céu, jura ao mesmo
tempo pelo trono de Deus e por Aquele que nele está sentado”. Quem jura por uma
imagem, jura por aquilo que ela representa. Já foi suficientemente provado que
o tabernáculo e tudo o que havia em seu interior, o véu, a arca, a mesa, eram
imagens e modelos, obras de mãos humanas, cultuadas por todo Israel e também
que os querubins entalhados foram feitos por ordem de Deus. Pois Ele disse a Moisés:
“Cuida de fazê-los conforme o modelo que te foi mostrado no monte”.
Escutai
também os testemunhos dos apóstolos de que Israel, em obediência a Deus, cultuava
imagens e obras de mãos humanas: “Na verdade, se Cristo estivesse na terra, não
seria nem mesmo sacerdote, pois já existem os que oferecem dádivas segundo a Lei.
Estes estão a serviço daquilo que é representação à sombra das realidades
celestes, como foi dito a Moisés, quando estava para concluir a construção da
Tenda: “Vê” falou Deus, “faze tudo segundo o modelo que te foi mostrado sobre o
monte”.
Agora,
porém, Cristo recebeu um ministério superior. Ele é o mediador de uma aliança
bem melhor, baseada em melhores promessas. Pois, se a primeira aliança fosse
sem defeito, não se procuraria substituí-la por uma segunda. De fato, vendo suas
faltas, Deus disse: “Dias virão, diz o Senhor, que eu concluirei com a casa de
Israel e com a casa de Judá uma nova aliança. Não como a aliança que fiz com
seus pais, no dia em que conduzi pela mão para fazê-los sair da terra do Egito”.
E um pouco adiante: “Assim, ao falar e ‘nova’ aliança, declarou antiga a
primeira. Ora, o que se torna antigo e envelhece está prestes a desaparecer.
De
fato, foi construída uma primeira tenda, chamada “Santo”, onde se encontravam o
candelabro, a mesa e os pães da preposição. Atrás do segundo véu, havia outra
tenda, chamada “Santo dos Santos”. Estavam lá o altar de ouro para o incenso e
a Arca da aliança, toda recoberta de ouro, na qual se encontrava uma urna de
ouro que continha o maná, o cajado de Aarão que tinha florescido, as tábuas da
aliança. Sobre a Arca estavam os querubins da glória, que com sua sombra
cobriam o propiciatório”. E ainda: “De
fato Cristo não entrou num santuário feito por mão humana, imitação do verdadeiro,
mas dom próprio Céu”. E também: “A Lei contém apenas a sombra dos bens futuros,
não a expressão exata da realidade”.
Vede
que a Lei, tudo o que ela ordenou e todo o nosso próprio culto consistem na
consagração dom que é feito por mãos humanas, conduzindo-nos ao Deus invisível
através da matéria.
Ora, a Lei e todos os seus decretos foram um prenúncio da imagem do futuro, ou seja, do nosso culto. E este é uma imagem do prêmio eterno. Quanto a isso, a Jerusalém celeste é invisível e imaterial, como o mesmo divino apóstolo diz: “Não temos aqui cidade permanente, mas vamos em busca da futura, cujo arquiteto e construtor é Deus”. Todas as determinações da Lei e do nosso culto foram direcionadas a esta cidade celestial. A Deus a glória, pelos séculos dos séculos.
Referências bíblicas apologia 2:
Mateus25,20ss
Salmos13,1;
93,7; 136,4
Romanos1,23-25;
13,7
1Coríntios12,
38; 13,12; 28, 13
Gálatas1,8;
5,4
Êxodo3,5;
20,4; 21,1; 25, 40; 26, 31; 32,4; 33,20;34 ,17; 35,4-10; 37,6-7
João1,
18; 1, 14; 5,39; 15,15
Hebreus1,
1-2; 6,18; 7,12; 8, 4-9.13; 9, 2-5.24; 10,1; 11,10; 13,14
Deuteronômio4,12-19;
25,5ss;
Atos12,
33; 17,29
Gálatas5,2
Hebreus
13,7.17
1Samuel15,27-28
1Reis19,2-3
2Reis9,33
Mateus13,
16-17;19, 8; 23, 17-22; 22,17
Provérbios22,28
Gênese1,31
Ezequiel20,
25
2Tessalonissenses
2,15

