O Natal não é a comemoração do aniversário de Jesus Cristo,
antes é a celebração da chegada do Salvador, nascido de uma mulher
(Gálatas4,4), marcando o momento divinamente estabelecido para Deus enviar Seu
Filho ao mundo, conforme descrito em Gálatas 4, 4 e Efésios 1, 10, cumprindo o
plano de redenção e abrindo caminho para a adoção de filhos de Deus, um período
oportuno (Kairós).
Nesse cenário encontra-se a simbologia do Presépio: Maria,
José, o Menino Jesus deitado na manjedoura, os pastores, os Magos [...] tudo
representa aquele momento espetacular da história em que como diz a Sagrada
Escritura: “Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho Unigênito para todos
que nele creem não pereça, mas tenha a vida eterna” (João3, 16).
É o Cordeiro de Deus anunciado pelo
profeta João Batista, o Enviado do Pai veio para tirar os pecados do mundo
(João1, 29).
Não é o papai-Noel, festejado pelo
comércio. É o nascimento de Jesus que celebramos e festejamos em nossas casas.
É ele o Salvador.
Muitos celebram o Natal, até mesmo quem não é cristão, como uma festa posta oficialmente no calendário, se adornam as casas com enfeites, velas, guirlandas, árvores [...] os comércios exploram a data para vender seus produtos. O modernismo está cada vez mais ofuscando o verdadeiro sentido do Natal. Importa para nós saber a importância de celebrá-lo não com comilanças e externamente, mas, somente o poderemos fazê-lo se realmente entendermos o seu verdadeiro significado e assim conhecermos de perto a pessoa de Cristo cujo é o esplendor de nossa vida. E o Natal não pode ser uma festa qualquer, vazia de sentimentos, mas a festa do Amor de Deus manifestado a todos os homens por meio de seu Filho e nosso Senhor Jesus Cristo. Não é a comemoração de aniversário, mas, como a própria palavra diz, é a celebração do Nascimento de Cristo, Deus que se fez homem. a palavra Natal significa nascimento. Por isso, é mais importante celebrar o nascimento do que uma data específica no calendário.
25 de dezembro não é a data do aniversário de Jesus (até porque não sabemos qual foi o mês e o dia em que ele nasceu), mas, é a celebração do nascimento mais importante daquele que dividiu a História em duas partes, antes dele e depois dele. Também não é uma festa pagã, como queiram afirmar alguns, mas é uma data solene de ação de graças por Deus Pai nos ter enviado seu Filho e nosso Salvador. Na Roma antiga, os povos cultuavam vários deuses como os gregos, o deus sol ou sol invictus, que era cultuado no dia 25 de dezembro. Quando a Igreja herdou a Roma pagã após o imperador Teodósio ter declarado a Igreja Católica como religião oficial, a Igreja então, para acabar com a idolatria, extinguiu a festa pagã ao deus sol e determinou que nesse dia em lugar dela celebrasse a festa do Natal de Jesus, cujo é o Sol verdadeiro, conforme Lucas 1, 78-79; Jesus é a verdadeira luz que veio vencer as trevas do pecado, conforme Ele mesmo disse "Eu sou a luz do mundo, quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida". (João 8, 12).
Então não podemos de forma alguma achar que o Natal é uma festa pagã e que não deve ser celebrada. Pelo contrário, o Natal nos mostra a chegada daquele que seria o verdadeiro "Sol" e que dissiparia toda escuridão do pecado. Assim é que a festa de antes do sol invictus passou a ser chamada de Comemoração do Natal do Senhor. Embora a crença popular venha a dizer que Jesus nasceu dia 25 de dezembro, a Igreja nunca afirmou que isso é verdade, muito embora alguém no passado já tenha defendido esta data. O que a Igreja na época, com o processo de cristianização dos povos pagãos era acabar com o culto do sol invictus e estabelcer o culto ao verdadeiro Deus e Senhor Jesus Cristo. É preciso explicar isso, para que as pessoas não caiam nas falsas acusações daqueles que perseguem a Igreja e tentam criar acusações desprovidas de fundamento.
É no Natal que começa a Salvação dos pecadores e se concretizará na cruz e na Ressurreição do Senhor.
Muita gente diz: "Mas, a Bíblia não manda celebrar o Natal de Cristo" [...] Ora, a Bíblia também não manda celebrar a sua Ressurreição (não da forma como entendemos), e no entanto, a celebramos. Portanto, se o Natal e a Ressurreição estão descritos na Bíblia, ela nos dá base para que nós podemos comemorar sim.
Assim como Moisés comemorou com cânticos a libertação do povo de Israel; a chegada da libertação de Israel não chegou no dia da Páscoa, mas, chegou no primeiro instante em que Deus chamou a Moisés do Sinai para libertar o seu povo. Assim é, a libertação do novo povo, não começou diretamente na Cruz, mas, no dia em Maria e José receberam a notícia de que seriam pais do Salvador, e no momento que Maria disse sim, ele se encarnou começou o plano de salvação de Deus Pai para libertar todos os homens da escravidão do pecado e que se revelou Natal. Percebe-se que uma coisa está ligada à outra?
Nos dois casos o plano de libertação começa com um chamado e um envio. Primeiro, Deus chama Moisés e o envia como seu mensageiro a fim de libertar seu povo da escravidão egípcia e com esse povo estabelece uma aliança e uma Lei. Depois, na plenitude dos tempos, (Gl4, 4), Deus envia seu Filho Jesus Cristo, sujeito à lei, para libertar o seu povo da escravidão do pecado. A missão de Moisés termina no deserto e o povo entra na terra prometida. A missão salvadora de Jesus se concretiza na Cruz, mas, continua na sua Igreja. Por isso, o Natal não é uma data qualquer, ela é muito mais importante do que podemos imaginar. Porque ele mostra a promessa de Deus se cumprindo na história. Deus que desce dos céus, deixa sua glória e vem ser um de nós, por amor aos homens aceita viver a nossa condição e se sacrifica por nós na cruz. E porque nos ama se faz pobre e pequenino numa manjedoura o Senhor de todo o Universo.
O Natal nos faz lembrar as palavras do velho sacerdote Simeão, quando no dia da circuncisão, tendo visto o menino Jesus exclamou: "Agora Senhor, podeis deixar vosso servo partir em paz porque meus olhos comtemplaram a salvação que preparastes diante de todos os povos, como luz papa iluminar as nações, e para a glória de todo o povo de Israel". (Lc2, 29-32) - Cristo é a verdadeira luz. Quando a Igreja substituiu o culto do sol invictus pelo Natal, é justamente para mostrar, como disse Simeão, aos povos de todas as nações que Cristo é a verdadeira luz e não um deus pagão. É essa luz que deve brilhar para que todos através dela possam ser iluminados por ela e andar no caminho da salvação.
O Natal é muito mais que uma comemoração, é um reavivamento, é de fato estar ligado ao mistério da encarnação do Verbo que se fez carne para a nossa salvação. É Deus que desce dos céus para se assemelhar a nós, para estar junto de nós. Ele destrona por um instante e se humilha em uma manjedoura até que por um grande amor se entrega na cruz. O autor da graça por excelência se faz pequeno e humilde por amor aos homens. Como expressa Zacarias: “Para dar ao seu povo conhecer a salvação pelo perdão dos pecados. Graças a ternura e misericórdia de nosso Deus que nos vai trazer do alto a visita do Sol nascente, que há de iluminar os que estão nas trevas e na sombra da morte e dirigir nossos passos no caminho da paz” (Lucas1, 77-79).
Se celebramos a Paixão de Cristo e sua ressurreição, temos que celebrar o Nascimento. É importante destacar isso, porque muitas pessoas são levadas por ensinamentos errados e não entendem que o mistério da Salvação está ligado ao mistério da Encarnação do Verbo. Na Igreja, esse mistério está contido na celebração litúrgica, consiste em todo ano celebrar este mistério de Cristo que veio a este mundo para nossa Salvação.
Celebramos durante o Ano Litúrgico todos os
passos do Salvador, seu mistério, sua doutrina, sua Paixão e Ressurreição. A
data de 25 de dezembro como dia da celebração do Natal também é uma adequação litúrgica. A Igreja Católica estabeleceu para celebrar não só um dia, mas toda a vida
de Cristo. Quem participa da Missa todos os dias vai perceber que a Liturgia,
as leituras, os Salmos, a Orações e os cantos litúrgicos [...] ao longo do ano vai traçando o caminho
da vida de Jesus, passando pelo Natal, sua vida pública, até culminar na Páscoa. E a Eucaristia é o ápice de
toda celebração.
Portanto,
nós Católicos, principalmente, não podemos achar que o Natal é mais uma festa
no calendário anual. É a festa do amor de Deus. Também não podemos deixar nos levar por conceitos
estranhos, e fora da doutrina. Se celebramos o mistério da Redenção, a lógica é
celebrar o mistério da Encarnação. Porque muitas pessoas acham que Jesus desceu
de paraquedas ou numa nave. Não! Jesus, o filho de Deus se encarnou de verdade
no seio de Maria, se fez homem, viveu dentro de um povo, o povo de Israel,
pertenceu a uma linhagem real, a linhagem de Davi. Como judeu cresceu e viveu a
religião de Moisés. Ele cumpriu toda a Lei e as profecias.
Para
quem acha que Jesus não era religioso, ele praticou a Religião judaica, tanto é
que ele celebrou a Páscoa judaica com seus Apóstolos. Jesus veio como servo, e
sendo servo de Deus se submeteu a Lei, embora fosse o autor dela. Somente
depois ele fundou sua Igreja, mas, dentro dos princípios judaicos, como ele
mesmo disse em Mateus 5, 17-18: Não julgueis que vim abolir a lei ou os
profetas. Não vim para os abolir, mas sim, leva-los à perfeição. Pois em
verdade vos digo: passará o céu e a terra, antes que desapareça um jota, um
traço da lei”.
Como
lemos, ele veio aperfeiçoar a Lei, não abolir, por isso ao fundar a sua Igreja,
abriu as portas para todas as pessoas sem distinção: raças, línguas e nações. E
quando chegou a hora, Ele fundou sua Igreja com os mesmos princípios, mas,
aperfeiçoada de modo a abrir as portas da Salvação a quem por ela passasse e,
por isso mesmo, deixou sua doutrina consolidada pelos Apóstolos, e para dar
acesso a todos instituiu os Sacramentos dentre eles os mais importantes: o
Batismo que inicia o cristão na Comunidade de Cristo, sua Igreja, a Confissão,
na qual pelo poder de Cristo na pessoa do sacerdote nos reconcilia com Deus pela
absolvição dos pecados, e a Eucaristia,
que é sua presença real em Corpo Sangue, Alma e Divindade, “eis que estarei
convosco, todos os dias até o fim do mundo”, disse Jesus, (Cf. Mt28, 20).
Não
podemos esquecer que Jesus foi semelhante a nós em tudo, exceto no pecado (Cf.
Hebreus 4, 15).
Portanto,
celebrar o Natal com a consciência de que não é a comemoração de um personagem
histórico ou uma celebridade importante, como Tiradentes, Dom Pedro I, Duque de
Caxias, etc. Não! – É mais do que isso, o Natal é a celebração do mistério de
Deus que se fez homem para nossa salvação. Cristo está vivo e ressuscitado em
nosso meio. Não se celebra a morte, mas a vida. Jesus vive! O Natal é tempo de
agradecimento por Deus ter nos dados seu Filho para nos salvar. Esse é o
verdadeiro sentido do Natal.
A
comemoração em família é importante, mas não pode ofuscar o verdadeiro sentido
do Natal e nem deixar que o celebremos. Por isso, não é em casa que se celebra
o Natal, mas é na Igreja, participando da Santa Missa do dia 24 e 25. Aliás, o
dia 25 de dezembro para nós católicos é dia santo de guarda.
Em casa comemoramos em família o Natal, que não deve ser feito com desavenças, mas com a mesma presença de Jesus Cristo. Ele quer também nascer em nossas famílias. Natal não é comilança, praia, bebedeiras [...] Natal é momento solene de agradecimento. Podemos nos reunir à mesa, mas com o espírito de cristãos e não de pagãos. Saber que o dono da festa é o Noivo, é o Cordeiro de Deus, a festa é para Jesus e não para nós, é de agradecimento por ele ter nos salvado. Festa decente, músicas decentes, comportamentos decentes, união e não brigas, porque quando isso acontece o dono da festa se retira. A Oração em família. Tem gente que não se prepara para o Natal porque não entendeu ainda que o Natal não é nosso é de Cristo.
Qual
é o problema do externismo do Natal? O problema é tirar Jesus do centro.
Comemorar uma data somente não faz nenhum sentido. A pergunta é: O Natal deve
ser comemorado ou celebrado? A resposta é: mais celebrado que comemorado. Porque
o motivo principal que a gente celebra o Natal é Jesus Cristo.
Muitas
pessoas ficam presas aos atos externos natalinos: a troca de presentes, as
reuniões em família, as ceias, os enfeites, as músicas, os sarais, os teatros,
etc. Tudo isso é importante, mas não é o principal. De que adianta se empanturrar
de comidas e guloseimas, encher o estômago uma vez por ano e passar a vida sem
Jesus no coração?
O
Natal só tem sentido se for o momento em que paramos para meditar sobre o amor
de Deus por nós que nos deu Jesus, seu Filho amado para nossa Salvação. É
momento de agradecer, de louvar e de adoração.
Muitas
pessoas ficam presas nos externos natalinos e se esquece da singularidade do Natal.
Olhemos para a pobreza do presépio: A gruta de Belém, ali Jesus, Maria, o
Menino Jesus e os pastores, sim os pastores, aquela gente humilde, que sofria
preconceitos, tida como escória da sociedade e mal educados [...] No entanto,
o anjo aparece para eles e diz: “Não temais, eis que anuncio uma boa
notícia que será alegria para todo o povo: Hoje vos nasceu na cidade de Davi um
Salvador, que o Cristo Senhor. Isso vos servirá de sinal: acharás um recém-nascido
envolto em faixas e posto em uma manjedoura”. (Lucas2, 9-12)
O
Rei dos reis não nasceu rico. Nasceu na hostilidade de uma gruta, seu berço era
um coxo onde os animais comiam, estava envolto em faixas, ainda nem tinha
roupinha. No entanto, Ele, o Cristo de Deus veio para nos salvar. Belém, a
cidade do rei Davi, é exaltada, já não é o menor dos lugarejos de Judá, mas, é
grande porque recebeu o Salvador.
Será
que as pessoas entendem isso? Deus que ama os pobres e pecadores e desde
pequenos quis se fazer um deles. Assim é o Natal, é a festa do amor de Deus e
nada mais. Deus que vem ao nosso meio, não nasce em um palácio, desce da sua
Glória e se faz humilde. E toda sua caminhada neste mundo vai ser dentro da
humildade e da servidão com gestos, palavras e ações.
Ensinou
que felizes são os pobres, os humildes, os puros de coração, os perseguidos, os
misericordiosos, os que choram...
No
final de sua missão concretizando esta humildade lava os pés dos Apóstolos e
diz: “Sabeis o que acabei de fazer? Vós me chamais de Mestre e Senhor, dizes
bem porque eu sou. Se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, é para que vós
também lavais os pés uns dos outros”. (João13, 12-14) – Morreu pobre, mas
antes disse: “o filho do homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mateus8, 20) –
profetizando assim o momento da sua paixão, morreu nu e sem lugar para reclinar
a cabeça. Mas, esse Salvador que nasceu na pobreza e morreu pobre e nu, é Ele o
Senhor, anunciado pelos anjos no Natal que revestido de glória está ressuscitado
e voltará.
O
Natal é tempo de olharmos mais para nossa vida, esquecer as coisas fúteis e se
alegrar no Cristo Salvador.
Porque muitos acham que o Natal é uma festa pagã? Porque as pessoas estão esquecendo que o Natal é de Cristo e não nosso. Estamos pondo as coisas do mundo no centro, quando na verdade a centralidade do Natal é Jesus.
Neste contexto, para nossa reflexão, trago os escritos do historiador do século IV, Eusébio de Cesaréia. Primeiro historiador da Igreja depois de Lucas. Ele vai mostrar em seu relato quem é Jesus Cristo e descreve a situação política da Palestina mostrando em por menores como foi a chegada de Jesus, seu nascimento e os fatos que sucederam depois.
Quem foi Eusébio?
Todos
nós conhecemos Jesus, mas poucos sabem quem ele é de verdade. Para os cristãos
ele é o Cristo, para os muçulmanos ele é apenas um profeta, para os espíritas
ele é um espírito evoluído. Afinal quem é Jesus?
O
bispo Eusébio traz para nós a resposta com provas irrefutáveis, mostrando passo
a passo que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus. Tudo foi feito por Ele, para Ele
e n’Ele. Sua presença antes, durante e após a criação do mundo. Assim escreve Eusébio:
Sobre
a preexistência de Nosso Salvador e da atribuição de sua divindade:
“Sendo
a índole de Cristo dupla: uma semelhante à cabeça do corpo, e por esta o
reconhecemos como Deus, e outra, comparável aos pés, mediante a qual, e para a
nossa Salvação ele se revestiu de homem, sujeito ao mesmo que nós, nossa
exposição a seguir será perfeita se iniciarmos o discurso de toda sua história
partindo dos pontos principais e dominantes. Deste modo, a antiguidade e o
caráter divino dos cristãos ficará patente aos olhos de todos que pensam que [o
cristianismo] é algo novo, estranho de ontem e não de antes.”
“Nenhum
tratado poderia bastar para explicar em pormenores a própria substância e
natureza de Cristo, por isso o Espírito divino diz: “Sua linhagem quem
narrará?”; Pois na verdade ninguém conheceu o Pai senão o Filho, e ninguém
conheceu alguma vez ao Filho, segundo a dignidade, se não o próprio Pai que o
engendrou.”
“E
quem a não ser o Pai, poderia conceber sem impureza a luz que é anterior ao
mundo e a sabedoria inteligente e substancial que precedeu aos séculos, o Verbo
vivente no Pai e que desde o princípio é Deus, o primeiro e único que Deus
engendrou antes de toda a criação e de toda a produção de seres visíveis e
invisíveis, o general do exército espiritual e imortal do céu, o anjo do grande
conselho, o servidor do pensamento inefável do Pai, o fazedor de todas as
coisas junto ao Pai, a causa segunda de tudo depois do Pai, o Filho de Deus,
genuíno e único, o Senhor, o Deus e Rei de todos os seres, que recebeu do Pai a
autoridade soberana e a força, junto com a divindade, o poder e a honra? Porque
em verdade, segundo o que dizem d’Ele os misteriosos ensinamentos das
Escrituras: “No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era
Deus. Todas as coisas foram feitas por Ele, e sem Ele nada foi feito
(João1,1-3).”
“É
isto mesmo que ensina o grande Moisés, como o mais antigo dos profetas, ao
descrever, sob a inspiração do Espírito divino, a criação e a ordenação do
universo: o Criador e fazedor do universo cedeu a Cristo e apenas a Cristo, seu
divino e primogênito Verbo, o fazer os seres inferiores; e com Ele o vemos
conversando acerca da formação do homem; disse também Deus: “Façamos o homem à
nossa imagem e semelhança” (Gênese1, 26)”.
“Fiador
desta sentença é outro profeta, ao falar de Deus em certa passagem de hinos:
“Pois ele falou, e foi feito; ele ordenou, e foi criado”, (Salmo 33,9).
Introduz aqui o Pai e criador dispondo com gesto régio na qualidade de soberano
absoluto, e o Verbo divino, não outro que o mesmo que nos foi anunciado, como
segundo depois d’Ele e ministro executor das ordens paternas.”
“A
este, já desde o alvorecer da humanidade, todos quantos nos foi dito que
sobressaíram por sua retitude e sua religiosidade: os companheiros do grande
servidor Moisés, e antes dele Abraão, o primeiro, assim como seus filhos e
todos que mostraram justos e profetas, ao contemplá-lo com os olhos límpidos se
sua inteligência, o reconhecem e renderam-lhe o culto devido como o Filho de
Deus.
“E
Ele mesmo, sem desviar em nada de sua piedade para com o Pai, tornou-se para
todos o mestre do conhecimento do Pai. E assim lemos que o Senhor Deus foi
visto por Abraão, que estava sentado no carvalhal de Manré, sob a forma de um
homem comum. Abraão se prostra de pronto e, ainda que o olhe com seus olhos de
homem, ainda assim o adora como Deus, suplica-lhe como Senhor e confessa saber
de quem se tratava, ao dizer textualmente: "Senhor, tu que julgas toda a terra,
não vais fazer justiça?" (Gênese 18, 25)”
“Porque,
se nenhuma razão pode admitir que a substância não criada e imutável de Deus
todo-poderoso se transforme na forma de homem, nem que a aparência de
homem criado engane os olhos de quem
vêem, nem que a Escritura forje enganosamente tais coisas, um Deus e Senhor que
julga toda na terra e faz justiça, e que é visto sob a aparência de homem, nem
se permitindo dizer de que se trata da causa primeira do universo, que outro
poderia ser proclamado como tal, senão seu único e preexistente Verbo? Sobre
ele também se diz nos salmos: “Mandou seu Verbo e os sanou e os livrou de sua
corrupção” (Salmo107, 20).
“Moisés
o proclama claramente segundo o Senhor depois do Pai quando diz: “Fez o Senhor
chover enxofre e fogo, da parte do Senhor sobre Sodoma e Gomorra” (Gênese19,
24). Também a Sagrada Escritura o proclama Deus quando apareceu a Jacó ne
figura de um homem e falou a ele dizendo: “Já não te chamarás Jacó, e sim,
Israel, pois lutaste com Deus”, e então Jacó chamou aquele lugar “Visão de
Deus”, dizendo: “Porque eu vi o Senhor face a face, e minha vida se salvou”
(Gênese32, 28-30).
“E
não se pode supor que estas aparições divinas mencionadas sejam de anjos
inferiores e servidores de Deus, pois quando algum destes aparece aos homens,
não se cala a Escritura, mas chama-os por seu nome, não Deus nem sequer Senhor,
mas, anjos, como é fácil provar com incontáveis passagens.”
“E
a este Verbo, Josué, sucessor de Moisés, depois de havê-lo contemplado não de
outra maneira que em forma e figura de homem, chama-o príncipe do exército de
Deus, como fazendo-o chefe dos anjos e arcanjos do céu e dos poderes
superiores, e como sendo poder e sabedoria do Pai e a quem foi criado o segundo
posto do reinado e do principado sobre todas as coisas.”
“Porque
está escrito: “Estando Josué perto de Jericó, levantando os olhos, viu diante
dele um homem que trazia na mão uma espada nua; chegou -se Josué a ele e
disse-lhe: "És tu dos nossos, ou dos nossos adversários?" Respondeu ele: Eu sou o
general do exército do Senhor; acabo de chegar. Então Josué prostrou sobre seu
rosto na terra e disse-lhe: Que diz meu Senhor ao seu servo? Respondeu o
general do exército do Senhor a Josué: Descalça as sandálias de teus pés,
porque o lugar que estás é santo” (Josué5, 13-15).
“De
onde, partindo das próprias palavras, observarás que este é o mesmo que se
revelou a Moisés, pois efetivamente a Sagrada Escritura refere-se a ele nos
mesmos termos: “Vendo o Senhor que ele se aproximava para ver, o Senhor, do
meio da sarça, o chamou, e disse: Moisés, Moisés! Ele respondeu: Eis-me aqui. E
disse o Senhor: Não te chegues para cá, tira as sandálias dos pés, porque o
lugar em que estás é terra santa. E lhe disse: Eu sou o Deus de teu pai, Deus
de Abraão, Deus de Isaque e de Jacó” (Êxodo 3, 4-6)
“E
ao menos que há uma substância anterior ao mundo, viva e subsistente, que
serviu de ajuda ao Pai e Deus do universo na criação de todos os seres, chamada
Verbo de Deus e Sabedoria. Além das provas expostas, nos foi dado ouvi-lo da
própria Sabedoria em pessoa que, pela boca de Salomão nos inicia claramente e
seu próprio mistério: “Eu, a sabedoria, plantei minha tenda no conselho e
invoquei o conhecimento e a inteligência; por meu intermédio reinam os reis, e
os potentados administram justiça; por meu intermédio os grandes são
engrandecidos; e por meu intermédio os soberanos dominam a terra”
(Eclesiático24, 6-12; Provérbios8, 15-16).
“Ao que se acrescenta: “O Senhor me criou
como princípio de seus caminhos em suas obras, antes dos séculos assentou meus
fundamentos. No princípio antes que fizesse o céu e a terra, antes que brotasse
as fontes das águas, antes de firmar os montes e antes de todos os outeiros,
engendrou a mim. Quando preparava os céus, eu estava com Ele; e quando tornava
perenes os mananciais que estão sob o céu, eu estava com Ele a dirigir. Eu me
sentava ali onde a cada dia Ele se agradava e me encantava estar diante d’Ele
em toda ocasião, quando Ele se congratulava por ter terminado o universo”.
“Brevemente
pois, está exposto que o Verbo divino existia antes de tudo, e também a quem
apareceu, já que não o fez a todos.”
“Mas
porque não foi isto ensinado antes, antigamente, a todos as nações, assim como
é agora? Talvez possa explica-lo esta resposta: a vida primitiva dos homens era
incapaz de encontrar um lugar para o ensinamento de Cristo, todo sabedoria e
virtude.”
“De
fato, logo no início, depois de seu primeiro tempo de vida feliz, o primeiro
homem se afastou dos mandamentos divinos e lançou-se nesta vida mortal e
perecível, trocando as delícias divinas do começo por essa terra maldita. E
seus descendentes povoaram toda nossa terra, e com exceção de uns poucos aqui e
ali, foram manifestadamente degenerando e chegaram a ter uma conduta própria de
animais e uma vida intolerável.”
“Não
lhes ocorria sequer pensar em cidades, nem em normas, nem em artes, nem
ciências. De leis e juízos, assim como da virtude da filosofia não conheciam
nem o nome. Como gente rude e selvagem, levavam vida nômade por lugares
desertos. Com a excessiva maldade a que livremente se entregaram. Corrompiam o
raciocínio natural e toda semente de inteligência e suavidade próprias da alma
humana. E a tal ponto se entregavam sem reservas à toda iniquidade, que por
vezes se corrompiam mutualmente, às vezes se matavam uns aos outros,
ocasionalmente praticavam antropofagia, levaram sua ousadia até combater contra
Deus e travar guerras de gigantes por todos conhecidas, e pensaram em
fortificar a terra contra o céu e preparar-se, em seu louco desvario, para
fazer guerra àquele que está sobre tudo”.
“Aos
que levavam tal vida, Deus, que tudo controla, perseguiu com inundações e
incêndios devastadores, como fossem uma floresta selvagem espalhada pela terra,
e os abateu com fomes contínuas, com pestes e guerras, e ainda fulminando-os do
alto, como se com estes remédios tão amargos tentasse eliminar uma espantosa e
gravíssima enfermidade das almas.”
“Então,
pois, quando estavam realmente ao ponto de chegar ao estupor da maldade, como
de uma tremenda embriaguez que obscurecesse e afundasse em trevas as almas de
quase todos os homens, a Sabedoria de Deus, sua primeira e primogênita
criatura, o próprio Verbo preexistente, por um excesso de amor aos homens, se
manifestou aos seres inferiores, algumas vezes por mio de visões de anjos e
outras por si mesmo, como poder salvador de Deus, a alguns poucos varões amigos
de Deus, e não de outra maneira que em forma de homem, a única que poderia
aparecer para eles”.
“Mas
uma vez que, por meio destes, a semente da religião se estendeu a uma multidão
de homens, e surgiu dos primeiros hebreus da terra uma nação inteira que se
apegou à religião, Deus, por meio do profeta Moisés, entregou a estes, como a
homens que continuavam em seu antigo estilo de vida, imagens e símbolos de
certo misterioso sábado e da circuncisão, e iniciou-os em outros preceitos
espirituais, mas não lhes revelou o próprio mistério”.
“Mas
a sua lei ficou famosa, e como a brisa perfumada difundiu-se entre os homens.
Então, a partir deles, as mentes da maioria dos povos se foi suavizando por
influência de legisladores e filósofos daqui e d’acolá, e a suavidade, ao ponto
de chegarem a uma paz profunda, amizade e trato de uns para com os outros. Pois
bem, assim é que finalmente, no início do império romano e por meio de um homem
que em nada diferia de nossa natureza quanto à substâncias corporal, se
manifestou a todos os homens e a todas as nações espalhadas pelo mundo
considerando-os preparados e dispostos já a receber o conhecimento do Pai,
aquele mesmo mestre de virtudes em pessoa, o colaborador do Pai em toda obra, o
divino e celestial Verbo de Deus, e tão grandes coisas realizou e padeceu
quantas se achavam nas profecias; estas
haviam proclamado de antemão que um homem e Deus ao mesmo tempo viria habitar
nesta vida e realizaria maravilhas e
seria conhecido como mestre da religião do Pai para todas as nações; também
haviam proclamado a maravilha de seu nascimento, a novidade de seus
ensinamentos, suas obras admiráveis e, como se isto fosse pouco, a forma de sua
morte, sua ressurreição de entre os mortos e sobretudo sua divina restauração
nos céus.”
“Quando
ao reinado final do Verbo, o profeta Daniel, contemplando-o sob influência do
Espírito divino, sentiu-se divinamente inspirado e descreveu assim, bem no
estilo humano sua visão: “Porque eu – disse – estava olhando até que foram
colocados tronos, e um ancião de muitos dias se assentou. E sua roupa era alva
como a neve, e seu cabelo como lã limpa; seu trono era uma chama de fogo, e
suas rodas, fogo ardente. Um rio de fogo brotava diante d’Ele e milhares de
milhares o serviam e miríades e miríades estavam diante d’Ele. Sentou-se no
tribunal e se abriram os livros” (Daniel 7, 9-10).
“Após
poucas linhas continua dizendo: “Eu estava olhando, e eis que vinha com as
nuvens do céu um como um filho de homem que se dirigiu ao Ancião de muitos
dias, e o fizeram chegar até ele. Foi-lhe dado o domínio e glória e o reino,
para que os povos, nações e homens de todas as línguas o servissem; o seu
domínio eterno, não passará, e o seu reino não será destruído”.
“Pois
bem, está claro que todas estas coisas não poderiam referir-se ao a outro que
não fosse nosso Salvador, ao Deus-Verbo, que no princípio estava em Deus e que,
por causa de sua encarnação nos últimos tempos foi chamado Filho do homem”.
“Mas
fiquemos contentes com o que foi dito, para que a presente obra, pois em
comentários especiais já reuni as profecias que tangem a Jesus Cristo, nosso
Salvador, e em outros escritos dei uma melhor demonstração de tudo que
expusemos acerca d’Ele”.
De como os nomes de Jesus e de Cristo já
eram conhecidos desde a antiguidade e honrados pelos profetas inspirados por
Deus
[Das prefigurações do Antigo Testamento a
respeito de Jesus Cristo]
“É
chegado o momento de demonstrar que também entre os antigos profetas, amigos de
Deus, já se honravam os nomes de Jesus e de Cristo”.
“Moisés
mesmo foi o primeiro a conhecer o nome de Cristo cm o mais augusto e glorioso
quando fez entrega de figuras, símbolos e imagens misteriosas das coisas do
céu, conforme a voz que lhe dizia: “Vê, pois, farás todas as coisas segundo o
modelo que te foi mostrado no monte”; e celebrando ao sumo sacerdote de Deus
tanto quanto é possível a um homem, proclama-o Cristo. A esta dignidade do
supremo sacerdócio, que para ele ultrapassa qualquer dignidade dos homens,
sobre a honra e glória, adiciona o nome de Cristo. Portanto, ele conhecia o
caráter divino de Cristo”.
“Mas
o mesmo Moisés, por obra do Espírito divino, conhecia de antemão bem claramente
também o nome de Jesus, considerando-o mesmo digno de um privilégio único. Na
verdade, nunca havia pronunciado este nome entre os homens antes de ser
conhecido por Moisés. Este aplica o nome de Jesus pela primeira e única vez
àquele que, novamente conforme a figura e o símbolo, ele sabia que viria
sucedê-lo depois de sua morte no comando supremo”.
“Nunca
antes seu sucessor havia usado o nome de Jesus, mas era chamado de outro nome,
Ausé, exatamente o que lhe haviam dado seus pais. Moisés deu-lhe o nome de
Jesus como privilégio precioso, muito maior do que o de uma coroa real. Deu-lhe
este nome porque, em realidade, o próprio Jesus, filho de Navé, era portador da
imagem de nosso Salvador, o único que, depois de Moisés e depois de haver
concluído o culto simbólico por ele transmitido, o sucederia no comando da
verdadeira e sólida religião”.
“E
desta maneira Moisés, dando-lhes a maior honra, aplicou o nome de Jesus Cristo
nosso Salvador aos dois homens que, segundo ele, mais sobressaísse em virtude e
glória sobre todo povo, a saber, o sumo sacerdote e aquele que haveria de
sucedê-lo no comando”.
“Está
claro também que os profetas posteriores anunciaram a Cristo por seu nome e
deram testemunho adiantadamente, não apenas da conspiração do povo judeu que
seria levantada contra Ele, mas também do chamamento que Ele faria a todas as
nações. Uma vez será Jeremias, quando assim diz: “O
espírito de nosso rosto, o Cristo Senhor, de quem havíamos dito: A sua sombra
viveremos entre os povos, caiu o preso e suas armadilhas” (Lamentações4,
20). Outra vez será Davi, que exclama perplexo: “Por que se amotinaram as
nações e os povos imaginaram planos vãos? Levantaram-se os reis da terra e os
príncipes se uniram contra o Senhor e seu Cristo; e logo acrescenta, falando na
própria pessoa de Cristo: “O Senhor me disse: Tu és meu filho, eu hoje, te
gerei. Pede-me, e eu te darei as nações em herança e os confins da terra em
possessão”.
“Mas,
deve-se saber que, entre os hebreus, o nome de Cristo não era ornamento apenas
dos que estavam investidos do sumo sacerdócio eram ungidos simbolicamente com
óleo preparado, mas também dos reis, que eram ungidos pelos profetas por
inspiração divina e faziam deles imagens de Cristo, pois efetivamente estes
reis já levavam em si mesmos a imagem do poder real e soberano do único e
verdadeiro Cristo, Verbo divino, que reina sobre todas as coisas”.
“Além
disso, a tradição nos faz saber igualmente que também alguns profetas foram
convertidos em “Cristos”, figuradamente, por meio da unção com o óleo, de forma
que todos estes fazem referência ao verdadeiro Cristo, o Verbo divino e
celestial, único sumo Sacerdote do universo, único rei de toda criação e, entre
os profetas, o único sumo Profeta do Pai”.
“Prova
disto é que nenhum dos que antigamente foram ungidos simbolicamente; nem
sacerdotes, nem reis, nem profetas, possuíram tão alto poder de virtude divina
como está demonstrado que possuiu Jesus, nosso Salvador e Senhor, o único e
verdadeiro Cristo”.
“Ao
menos nenhum deles, por mais que brilhasse por sua dignidade e por sua honra
entre os seus em tantas gerações, deu jamais o nome de cristãos aos seus
súditos, aplicando-lhes figuradamente o nome de Cristo. Nem tampouco seus
súditos renderam-lhes honra de culto, nem foi de nenhum deles a disposição de
que após a sua morte estivessem preparados para morrer pelo mesmo a quem
horavam. E por nenhum deles houve tamanha comoção de todas as nações do vasto
mundo. E assim é, que a força do símbolo que havia neles era incapaz de operar
como operou a presença da verdade demonstrada através de nosso Salvador”.
“Este
não tomou de ninguém os símbolos e figuras do sumo sacerdócio, nem descendia,
quanto à carne, de família sacerdotal, nem foi elevado à dignidade real por um
corpo de guarda composto de homens; nem mesmo foi um profeta igual aos de
antigamente nem obteve entre os judeus nenhuma precedência de honra ou de
qualquer outro tipo; e, ainda assim, está adornado pelo Pai de todas estas
prerrogativas, e não por figura, mas em verdade mesmo”.
“Assim,
sem ter sido objeto de nada semelhante ao que descrevemos, está proclamado
Cristo com mais razão que todos aqueles, e sendo Ele mesmo o único e verdadeiro
Cristo de Deus, encheu o mundo inteiro de cristãos, isto é, de seu nome
realmente venerável e sagrado. Já não são figuras e imagens o que Ele entrega a
seus seguidores, mas as próprias virtudes em sua pureza e uma vida no céu com a
própria doutrina da verdade”.
“E
a unção que recebeu não foi preparada com substâncias materiais, mas algo
divino pelo Espírito de Deus, por sua participação na divindade incriada do
Pai. É justamente isto que ensinava Isaías quando clamava como se o fizesse com
a própria voz de Cristo: “O espírito do Senhor está sobre mim, por isto me
ungiu: e enviou-me para anunciar a boa nova aos pobres, a apregoar os cativos à
liberdade e aos cegos o ver de novo”. (Isaías61,1).
“E
não apenas Isaías. Também Davi dirige-se ao mesmo Cristo e lhe diz: “Teu trono é, ó Deus, eterno e para sempre; o cetro do teu
reino, cetro de retidão. Amaste a justiça e odiaste a maldade, por isso ungiu
Deus, o teu Deus, com óleo de alegria, mais que aos teus companheiros”
(Salmo45, 6-7). Aqui, o primeiro versículo do texto o chama Deus; o segundo
honra-o com o cetro real”.
“Em
continuação, depois de seu poder divino e real, mostra o mesmo Cristo, em
terceiro lugar, ungido não com óleo que procede de matéria física, mas com o
óleo divino da alegria, representando sua excelência, sua superioridade e sua
diferença em relação aos antigos, ungidos mais corporeamente e figuradamente”.
“Em
outra passagem, o mesmo Davi revela coisas que referem a Cristo com estas
palavras: “Disse o Senhor ao meu senhor: Senta-te à minha destra enquanto ponho
teus inimigos sob teus pés” (Salmo110, 1). E também: “Do meu sei te criei antes
do alvorecer. Jurou o Senhor e não se arrependerá: Tu és sacerdote para sempre,
segundo a ordem de Melquisedeque” (Salmo110, 4).
“Pois
bem, esse Melquisedeque aparece na Sagrada Escritura como sacerdote do Deus
Altíssimo sem que fosse assinalado com algum óleo preparado e sem que fosse
aparentado com o sacerdote hebreu por sucessão hereditária alguma. Por isso é
que nosso Salvador é proclamado com juramento Cristo e Sacerdote segundo sua
ordem e não segundo a de outros, que haviam recebido símbolos e figuras”.
“É
por isso que a história tampouco nos transmitiu que Cristo tivesse sido ungido
corporeamente entre os judeus, nem que tivesse nascido de uma tribo sacerdotal,
pelo contrário, que recebeu seu ser de Deus mesmo antes do alvorecer, sito é,
antes da criação do mundo, e que tomou posse de um sacerdócio imortal e
duradouro pela eternidade sem fim”.
“Uma
prova sólida e patente desta unção incorpórea e divina é que, de todos os
homens de seu tempo, e dos que se seguiram até hoje, unicamente Ele, entre
todos e no mundo inteiro, foi chamado e proclamado Cristo; somente a Ele
reconhecem sob este nome, dão testemunho d’Ele e se recordam todos, tantos
gregos, quanto bárbaros; e até hoje seus seguidores, espalhados por toda terra
habitada, seguem dando-lhe honras de rei, honrando-o mais do que os profetas e
glorificando-o como verdadeiro e único Sumo Sacerdote e nascido antes de todos
os séculos, e por haver recebido do Pai as honras divinas, adoram-no como a
Deus”.
“E
o que é mais extraordinário: que aqueles que a Ele estamos consagrados não
somente o horamos com voz e com palavras, mas também com a plena disposição da
alma, ao ponto de estimar mais o martírio por Ele do que nossa própria vida”.
De
quando Cristo se manifestou aos homens.
“Bem,
depois deste preâmbulo, necessário para a história eclesiástica a que me
propus, só nos resta começar nossa espécie de viagem, partindo da manifestação
de nosso Salvador em sua carne e depois de invocar a Deus, Pai do Verbo, ao
mesmo Jesus Cristo, nosso Salvador e Senhor, Verbo celestial de Deus, como
nossa ajuda e nosso colaborador na verdade da exposição”.
“Corria
pois o ano 42 do reinado de Augusto, [nome completo: Caio
Júlio César Otaviano Augusto (César Augusto)] e o vigésimo oitavo desde a
submissão do Egito e da morte de Marco Antônio e Cleópatra (com o qual se
extinguiu a dinastia egípcia dos Ptolomeus), quando nosso Salvador e Senhor
Jesus Cristo nasceu em Belém da Judeia, conforme as profecias a seu respeito,
nos tempos do primeiro recenseamento, e sendo Quirino governador da Síria”.
“Este
recenseamento de Quirino também é registrado pelo mais ilustre dos
historiadores hebreus, Flavo Josefo, ao relatar outros feitos referente à seita
dos galileus, surgida naquela ocasião, e a qual também é mencionada pelo nosso
Lucas no livro dos Atos quando diz: “Depois deste levantou judas o galileu, nos
dias do recenseamento, e arrastou o povo atrás de si. Também este pereceu, e
todos os que o seguiram se dispersaram” (Atos5, 37).
“A
estas indicações o mencionado Josefo acrescenta literalmente no livro 18 de
suas “Antiguidades” o seguinte: “Quirino, membro do senado, homem que havia
desempenhado já outros cargos pelos quais passou, sem omitir um só, até chegar
a cônsul e grande por sua dignidade em todos os demais, assumiu a Síria
acompanhado por uns poucos, enviado por César como juiz da nação e censor dos
bens”.
“E
pouco depois diz: “Mas judas gaulanita – da cidade chamada Gaula –, tomando
consigo a Sadoc, um fariseu, andava instigando à rebelião; dizia que o censo
não conduziria outra coisa que não a escravidão declarada, e exortava o povo a
aferrar-se à liberdade”.
“E
sobre o mesmo escreve no livro 2 de suas “Histórias da guerra judaica”: “Por
esse tempo certo galileu, chamado Judas, provocou a rebelião dos habitantes do
país, reprovando-lhes a submissão ao pagamento do tributo aos romanos e ao
submeter-se a amos mortais além de Deus”. Assim escreveu Josefo”.
De
como segundo as profecias, sem seus dias terminaram os reis por linha
hereditária que regiam a nação judia e começou a reinar Herodes, o primeiro
estrangeiro
“Foi
nesse tempo que assumiu o reinado sobre o povo judeu, pela primeira vez,
Herodes, de família estrangeira, e cumpriu-se a profecia feita por meio de Jeremias,
que dizia: “Não faltará chefe saído de Judá nem governante nascido de sua carne
até que chegue aquele para quem está reservado” (Jeremias33,17). E sinaliza-o
como esperança das nações .”
“Esta
predição efetivamente não havia sido cumprida durante o tempo que ainda lhes
era permitido viver sob governantes de sua própria nação, começando com o
próprio Moisés e continuando até império de Augusto. Nos tempos deste é que
pela primeira vez um estrangeiro, Herodes, se vê investido pelos romanos com o
governo dos judeus: segundo nos informa Josefo, era um idumeu por parte de pai
e árabe por parte de mãe. Mas, segundo Africanus – que não era mau historiador
–, os que dão informação exata sobre Herodes dizem que Antípatro (este era seu
pai) era filho de um certo Herodes de Ascalon, um dos chamados hieródulos,
que servia no templo de Apolo.
“Este
Antípatro, ainda criança, foi raptado por bandidos idumeus e viveu ele. Criado
em meio a seus costumes, mais trade firmou amizade com Hircano, sumo sacerdote
judeu. Dele nasceu Herodes dos tempos de nosso Salvador”.
“Tendo,
pois, o reino judeu vindo às mãos de tal pessoa, a expectativa das nações,
conforme a profecia, estava também à porta; havia desaparecido do reino os
príncipes e mandatários descendentes por via de sucessão entre si do próprio
Moisés”.
“Ao
menos tinham reinado antes do cativeiro e da migração para a Babilônia,
começando com Saul – o primeiro – e por Davi. E antes dos reis, foram
governados por mandatários chamados de juízes, que tinham começado também
depois de Moisés e de seu sucessor, Josué”.
“Pouco
depois do regresso da Babilônia servira-se initerruptamente de um regime
político de oligarquia aristocrática (eram os sacerdotes que estavam à frente
dos assuntos), até que o general romano Pompeu atacou Jerusalém, assaltou à
força e profanou os lugares santos entrando até a parte mais escondida do
Templo. E aquele que até o momento havia mantido por sucessão hereditária, na
qualidade de rei e de sumo sacerdote – chamava-se Aristóbulo – mandou
acorrentado à Roma, junto com seus filhos, e entregou o sumo sacerdócio a seu
irmão Hircano. A partir daquele momento o povo judeu inteiro tornou-se
tributário dos romanos”.
“Desta
forma, assim que Hircano, último a quem chegou à sucessão dos últimos
sacerdotes, foi levado cativo pelos partos, o senado romano e o imperador
Augusto colocaram a nação judia nas mãos de Herodes, o primeiro estrangeiro,
como já foi dito”.
“Em
seu tempo ocorreu visivelmente a vinda de Cristo e, segundo a profecia,
seguiu-se a esperada salvação e vocação dos gentios. A partir deste tempo
efetivamente, os príncipes e mandatários originários de Judá, quero dizer, os
que vinham do povo judeu, desapareceram, e em seguida naturalmente viram
perturbados também os assuntos do sumo sacerdócio, que então vinha sendo
passado de modo estável de pais para filhos em cada geração”.
“Encontramos
importante testemunho de tudo isso em Josefo, que explica como Herodes assim
que os romanos lhe confiaram o reino, deixou de instituir sumos sacerdotes
vindos da antiga linhagem, pelo contrário, distribuiu esta honra entre gente
sem expressão. E diz ainda que a instituição dos sacerdotes Herodes foi imitado
por seu filho Arquelau e depois dele pelos romanos, quando tomaram para si o
governo dos judeus.”
“O
mesmo Josefo explica como Herodes foi o primeiro a fechar sob seu próprio selo
as vestimentas sagradas do sumo sacerdote, não permitindo mais aos sumos
sacerdotes levá-las sobre si, e que o mesmo foi feito por seu sucessor
Arquelau, e depois deste pelos romanos”.
“Tudo
o que foi dito sirva como prova do cumprimento de outra profecia referente à
manifestação de Jesus Cristo nosso Salvador. No livro de Daniel, a Escritura
determina clara e expressamente um número de semanas até o Cristo príncipe –
acerca do que fiz uma exposição detalhada em outras obras – e profetiza que,
depois de cumprida estas semanas, seria extinta por completo a unção entre os
judeus. Agora, pois demonstra-se claramente que isto se cumpriu com o
nascimento de nosso Salvador Jesus Cristo. Sirva como exposição necessária para
a verdade das datas”.
Explicação de Eusébio sobre a discrepância
acerca da genealogia de Jesus Cristo, segundo os evangelistas Mateus e Lucas
“Posto
que ao escrever seus evangelhos Mateus e Lucas nos transmitiram genealogias
diferentes acerca de Cristo, que para muitos (até os nossos dias) parecem
discrepantes, e como cada crente, por ignorância da verdade, se esforça por
inventar sobre estas passagens, vamos adicionar considerações sobre este tema
que chegaram a nós e que Africanus, mencionado a pouco, recorda em carta a
Aristides. Acerca da concordância das genealogias nos evangelhos. Refuta as
opiniões dos demais como forçadas e mentirosas, e expõe o parecer que recebem
nestes mesmos termos: Porque efetivamente, em Israel os nomes das famílias se
enumeram segundo a natureza e segundo a lei. Quando um morria sem filhos e seu
irmão os engendrava para conservar o nome (a razão é que ainda não se havia
dado uma esperança clara de ressurreição, e arremedavam a prometida
ressurreição futura como uma ressurreição mortal, para que se perpetuasse o
nome do falecido). Como queira, que os incluídos nesta genealogia uns se
sucederam por via natural de pais a filhos, e os outros, ainda que gerados por
uns, recebiam o nome de outros, de ambos os grupos se registra a memória: dos
que foram gerados e dos que passaram por sê-lo”.
“Deste
modo nenhum dos evangelhos engana: enumeram segundo a natureza e segundo a lei.
De fato, duas famílias, que descendiam de Salomão e de Natã respectivamente,
estavam mutuamente entrelaçadas por causa das ressurreições dos que haviam
morrido sem filhos, das segundas núpcias e da ressurreição da descendência, de
forma que é justo considerar os mesmos indivíduos em diferentes ocasiões filhos
de diferentes pais, dos fictícios e dos verdadeiros, e também que ambas
genealogias são estritamente verdadeiras e chegam até José por caminhos
complicados, mas exatos”.
“Mas
para que fique claro o que foi dito, vou explicar a transposição das linhagens.
Que vai enumerando gerações a partir de Davi e através de Salomão encontra que
o terceiro antes do final é Matã, o qual gerou Jacó, pai de José. Mas partindo
de Natã, filho de Davi, segundo Lucas, também o terceiro para o final é Melqui,
pois José era filho de Heli, filho de Melqui. Portanto, sendo José nosso ponto
de atenção, deve-se demonstrar como nos é apresentado como seu pai um outro:
Jacó, que traz sua linhagem de Salomão, e Heli, que descende de Natã; e de que
modo, primeiramente os dois, Jacó e Reli, são irmãos; e ainda antes, como é que
os pais deste Natã e Melqui, sendo de linhagens diferentes, aparecem como avós
de José?”
“Assim
é que Matã e Melqui se casaram sucessivamente com a mesma mulher e tiveram
filhos, filhos de uma mesma mãe, pois a lei não impedia que uma mulher sem
marido – porque este a houvesse repudiado ou porque houvesse morrido – se
casasse com outro”.
“Pois
bem, de Esta (pela tradição era assim que chamava a mulher), Matã, o
descendente de Salomão foi o primeiro, gerando Jacó; tendo morrido Matã,
causou-se a viúva com Melqui, cuja descendência remonta a Natã e que, sendo,
como dissemos antes da mesma tribo, era de outra família. Este teve um filho:
Heli”.
“E
assim encontramos que, sendo de duas linhagens diferentes, Jacó e Heli são
irmãos por parte de mãe. Morrendo Heli sem filhos, seu irmão Jacó casou-se com
uma mulher, e dela teve um terceiro filho, José, o qual, segundo a natureza,
era seu (e segundo o texto, pois por isso está escrito: ‘Jacó gerou a José’),
mas, segundo a lei, era filho de Heli, já que Jacó, sendo seu irmão
suscitou-lhe descendência”.
“Portanto,
não se tirará autoridade a sua genealogia. Ao fazer tal enumeração o
evangelista Mateus diz: ‘Jacó gerou a José; mas Lucas procede o contrário: O
qual era segundo se cria (porque também acrescenta isso), filho de José que era
filho de Heli, filho de Melqui. Não seria possível expressar mais corretamente
o nascimento segundo a lei: vai remontando um a um até Adão, que foi de Deus, e
até o final omite o “gerou”, para não o aplicar a este tipo de paternidade”.
“E
isto não está sem provas nem é improvado. Efetivamente, os parentes carnais do
Salvador, por geração ou simplesmente pelo ensino, mas sendo verdadeiros em
tudo, transmitiram também o que segue. Uns ladrões idumeus assaltaram Ascalon,
cidade da Palestina; de um templo de Apolo, construído diante dos muros,
levaram cativo, junto com os despojos, a Antípatro, filho de hieródulos chamado
Herodes. Não podendo o sacerdote pagar o resgate por seu filho, Antípatro foi
educado nos costumes idumeus, e mais tarde fez amizade com Hircano, o sumo
sacerdote da Judéia”.
“Logo
tornou-se embaixador junto a Pompeu em favor de Hircano, para quem conseguiu o
reinol devastado por seu irmão Aristóbulo; e ele mesmo prosperou muito, pois
logo conseguiu o título de epimeletés, da Palestina. A Antípatro,
assassinado por inveja de sua grande fortuna, sucedeu seu filho Herodes, que
mais tarde por decisão de Antônio e Augusto e por decreto senatorial, reinaria
sobre os judeus. Este teve como filhos Herodes e os outros tetrarcas. Todos
estes dados coincidem com as histórias dos gregos”.
“Além
disso, estando escritas até então os arquivos as famílias hebreias, inclusive
as que remontam aos prosélitos, como Aquior o amonita, Rute a moabita e os que
saíram do Egito misturados aos hebreus, Herodes, por não ter nada com a raça
dos israelitas e magoado pela consciência de seu baixo nascimento, fez queimar
os registros de suas linhagens, acreditando que passaria por nobre, já outros
também não poderiam remontar sua linhagem, apoiados em documentos públicos, aos
patriarcas ou aos prosélitos ou aos chamados “geyoras”, os estrangeiros
misturados”.
“Em
realidade, uns poucos mais cuidadosos que tinham para si registros privados ou
que se lembravam dos nomes ou haviam-nos copiado, se ufanavam se ter salvo a
memória da nobreza. Ocorreu que entre estes estavam aqueles de que falamos
antes, chamados despósinoi por causa de seu parentesco com a família do
Salvador e que, desde as aldeias de Nazaré e Cocaba, visitaram o resto do país
e explicaram a referida genealogia, começando pelo Livro dos Dias, até onde
alcançaram”.
“Seja
assim ou de outro modo, ninguém poderia encontrar uma explicação mais clara. Eu
ao menos penso assim, e assim também todo aquele que tenha boa vontade. Ainda
que não seja comprovada, ocupemo-nos dela, porque não é possível expor outra
melhor e mais clara. Em todo caso, o Evangelho diz inteiramente a verdade”.
“E
ao final desta mesma carta adiciona o seguinte: Matã, da linhagem de
Salomão, gerou Jacó. Morto Matã, Melqui, o da linhagem de Natã gerou da mesma
mulher a Heli. Portanto, Heli e Jacó são irmãos uterinos. Morto Heli sem
filhos, Jacó dá-lhe uma descendência gerando a José, filho seu segundo a
natureza, mas de Heli segundo a Lei. Assim é que José era filho de ambos”. Assim
diz Africanus.
“Estabelecida
desta maneira a genealogia de José, também Maria aparece junto a ele,
obrigatoriamente, como sendo da mesma tribo, já que ao menos segundo a lei de
Moisés, não era permitido misturar-se às outras tribos, pois é prescrita a
união em matrimônio com um do mesmo povo e da mesma tribo, para que a herança
familiar não rodasse de tribo em tribo. Que isso seja o bastante”.
[Aqui
Eusébio esclarece e afirma que não existe discrepância na narração das
genealogias de Jesus Cristo escritas por Mateus e Lucas, apenas ambos seguiram
linhas genealógicas diferentes, enquanto um descreve segundo a descendência por
parte direta, ou seja, por natureza, o outro descreve a descendência de Cristo
segundo a lei, conforme era comum entre a lei dos judeus.]
Não eram três e nem eram reis
Teologicamente
nos é apresentado os magos do Oriente e, cujos foram visitar o Menino Jesus
trazendo seus presentes: Ouro, incenso e mirra. São Mateus2, 1-12, assim descreve:
Tendo,
pois Jesus nascido e, Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que magos
vieram do Oriente à Jerusalém. Perguntaram eles: “Onde está o rei dos judeus
que acaba de nascer? Vimos sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo”. A
esta notícia, o rei Herodes ficou perturbado e toda Jerusalém com ele. Convocou
os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo e indagou deles onde havia de
nascer o Cristo. Dissera-lhe: “Em Belém, na Judéia porque assim foi escrito
pelo profeta: E tu Belém, terra de Judá, não és de modo algum a menor entre as
cidades de Judá; porque de ti sairá o chefe que governará Israel, meu povo”.
(Miquéias 5, 2).
Herodes,
então, chamou secretamente os magos e perguntou-lhes sobre a época exata em que
o astro lhes tinha aparecido. E enviando-os à Belém disse: “Ide e
informai-vos bem a respeito do menino. Quando o tiveres encontrado,
comunicai-me, para que eu também vá adorá-lo”. Tendo eles ouvido as
palavras do rei, partiram.
Eis que a estrela, que tinham visto no Oriente, os foi precedendo até chegar sobre o lugar onde estava o menino e ali parou. Entrando na casa, acharam o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se diante dele, o adoraram. Depois, abrindo seus tesouros, ofereceram-lhe ouro, incenso e mirra. Avisados em sonhos de não retornarem a Herodes, voltaram para sua terra por outro caminho.
Percebam o que o evangelista Mateus disse: “Eis que magos vieram do Oriente à Jerusalém”. Mateus não descreve a quantidade daqueles homens. Então, porque entendemos que eram três? Essa dedução se deu mais tarde na Idade Média. Supondo que eram três por causa dos presentes ofertados, logo deduziram que eram três à quantidade de magos.
Mas, vamos analisar os fatos à luz da história. E e para isso, precisamos voltar no tempo em que os fatos aconteceram. Quem eram os magos e qual a situação do lugar por onde eles percorreram até chegar em Belém.
Viajaram por quase 3.000 quilômetros de terra árida, com sol escaldante, o calor escaldante do deserto, talvez até tempestades de areia, e com frio congelante à noite.
Uma viagem perigosa cheia de
salteadores para encontrar um recém-nascido. Mas, é importante viajar, porque eles estavam indo ao encontro não de um recém-nascido comum, mas, alguém que iria mudar a história do mundo. Todos os esforços empregados na viagem eram importantes, afinal queriam chegar à terra dos judeus para ver o Messias.
A
história já se dá conta que não eram três, não traziam coroas e nem chegaram no
dia do nascimento. Sua verdadeira história é maior que a lenda e começa muito
antes de todos estes fatos. Numa terra onde o fogo era sagrado e os homens possuíam
uma habilidade intelectual que até hoje surpreendem os mais estudiosos.
Há
muitos anos esta história é lida e relida. Mais de 18 séculos construíram uma
história em cima desses versículos. Como sabemos os nomes dos o Magos, Belchior,
Baltazar e Gaspar, de onde surgiram já que Mateus não os cita? Bem, para isso vamos traçar uma linha do tempo para explicar
o surgimento desses nomes.
Século I: Evangelho de Mateus menciona apenas “magos do Oriente”, sem nomes.
Século III: Escritos apócrifos começam a sugerir nomes e número dos magos, nomes aparecem no Evangelho Armênio da Infância de Jesus.
Século VI: Tradições cristãs fixam três nomes: Melchior, Gaspar e Baltazar.
Idade Média: Cada nome é associado a um continente (Europa, Ásia, África).
Século
XV: Arte e liturgia consolidam os nomes como parte da Epifania.
Atualidade:
Tradição popular e celebrações do Dia de Reis mantêm os três.
Mateus não descreve que os magos estiveram em Belém no dia do nascimento. Ele diz que os Magos passaram em Jerusalém e, tendo encontrado Herodes, indagaram onde haveria de nascer o rei dos judeus e foi à partir daí que eles souberam que ele nasceria em Belém de Judá. Até que a estrela que os precedia parou sobre o lugar. Então entraram na casa, e vendo o menino com sua mãe o adoraram o Menino e ofertaram os presentes.
Com isso, podemos supor que eles levaram mais tempo para chegar à Belém, talvez seis meses a um ano e meio, tempo suficiente para a família se estabelecer em uma casa, [geralmente as casas do tempo de Jesus possuíam um lugar de moradia, um lugar para hóspedes e em baixo um lugar para os animais]. E que também não partiram imediatamente porque Mateus relata que eles foram avisados em sonho para não retornar pelo mesmo caminho. É natural que diante de uma viagem longa e cansativa precisassem recompor as forças, algo em torno de dois a três dias.
Podemos calcular que a visita dos magos ocorreu em Belém, mas Jesus já devia ter de um a um ano e meio de idade. A narração de Mateus está de acordo, quando ele narra que Herodes mandou
matar os bebês de dois anos para baixo, crendo que com eles mataria também a
Jesus.
Quanto aos magos, precisamos voltar no tempo, 500 anos antes, quando nas montanhas do planalto da Mesopotâmia, hoje território Iraniano, um grupo de homens guardava um conhecimento que ninguém mais possuía. Eles eram chamados de magos, não eram feiticeiros, eram estudiosos, eram homens sábios. Representavam a elite intelectual do império Persa.
Heródoto
o Pai da história descreveu os magos no século V a.C. e na fonte os apresentou
como conselheiros do soberano, autoridades em questões religiosas e celestes,
mas nenhum dos dois compreendeu toda a verdade. Os magos não eram apenas
conselheiros, eles guardavam os conhecimentos antigos. Enquanto a Europa ainda
vivia a rudez tribal, eles calculam com precisão o movimento dos astros, do
sol, dos planetas [...] A Babilônia guardava registros astronômicos que datavam
milênios atrás, e esses homens usavam seus conhecimentos com muita precisão
desafiando o tempo.
Eles
não só observavam o céu, mas, também interpretava os movimentos celestes,
previam eclipses com anos de antecedência. Conheciam os ciclos de Sauron e
catalogaram as constelações, traçaram a trajetória dos planetas errantes e
mediram a duração do ano solar.
Tabuinhas
de argila recuperadas da Babilônia e Nínive, datadas do segundo milênio a.C. Os
diários astronômicos babilônicos, que estão guardados no museu britânico
registram por séculos a posição dos planetas, noite após noite. Eles não
adivinhavam, mas, calculavam com muita precisão que até hoje os astrônomos
modernos recorrem a eles para seus estudos. O conhecimento deles ia além da
matemática. Eles seguiam os ensinamentos do Zoroastro, fundador do
Zoroastrismo, uma doutrina que parece surpreender e que é semelhante a tradição
judaica porque eles também possuíam um único Deus supremo, a Uramazda,
acreditavam na luta entre a luz e as trevas, do julgamento após a morte, do
Paraíso e do inferno e na chegada do Salvador.
Eles
esperavam por um redentor nascido de uma virgem que renovasse o mundo, que
vencesse o mal e ressuscitaria os mortos. Uma imagem que lembra outras tradições, inclusive as tradições judaicas e
que não é uma simples coincidência.
Mas,
a questão é: Quem influenciou quem? – Os judeus inspiraram os persas, ou foram
os persas que influenciaram os judeus?
Muitos
estudiosos acreditam que a resposta está em um evento que mudou o curso da
história. Em 586 a.C. Jerusalém caiu nas mãos dos babilônicos. O Templo foi
destruído e o povo judeu oi deportado para a Babilônia, local onde vivia os
magos. Para essa terra chegaram as profecias que os exilados levaram com eles.
Encontro desses dois mundos, persa e judeu foi
decisivo na história antiga. Daniel não era um exilado qualquer sua
inteligência impressionou o rei Nabucodonosor a tal ponto de ser elevado a
chefe dos sábios da Babilônia, guia dos magos e astrólogos.
O
livro de Daniel capítulo II, versículo 48, afirma isso claramente. "Um profeta
judeu tornou-se mestre dos mesmos magos que séculos depois procuraram o
Messias".
Não
podemos dizer que é uma mera coincidência, mas é como um fio que atravessa o tempo e
a história. Daniel possuía as profecias mais detalhadas sobre a chegada do
Cristo. Em particular as das 70 semanas de Daniel. (Daniel9, 20.24-27), um
calendário profético que indicava precisamente quando chegaria o Messias,
quando ele seria morto e quando Jerusalém cairia em ruína. [Daniel profetizou a queda de Jerusalém pelos Babilônicos e Jesus profetizou a queda de Jerusalém pelos Romanos].
Os
magos estudaram este texto de Daniel e compararam com o de Isaías, com os salmos de Davi
e com profecias de Balaão que anunciavam uma estrela de Jacó e o nascimento de um rei.
Então eles presenciaram algo que vai mudar a história. Quando o rei Ciro o
grande conquistou a Babilônia (539 a.C.), ele libertou os judeus e reconstruiu
o Templo de Salomão, seguindo o conselho dos magos que o convenceu de que
aquele Tabernáculo era do Deus verdadeiro.
Existe prova arqueológica, o Cilindro de Ciro, que está no museu britânico dá testemunho desta libertação. É um fragmento de argila que conta esse feito
histórico.
Os judeus tinham Ciro como enviado de Deus e o profeta Isaías no capítulo 45, versículo 1, o chama de o “ungido de IHWH, Yahweh .
Nem
todos os judeus voltaram para Jerusalém, alguns ficaram na Mesopotâmia e
fundaram sinagogas e comunidades muito influentes. Eles conservaram as
Escrituras e fundaram escolas; é provável que os magos tiveram acessos a esses documentos.
Nos séculos que se sucedem as escolas rabínicas da Babilônia cresceriam e Talmude babilônico se tornou um dos textos mais importantes do judaísmo.
Por
gerações os laços persas e judaicos tornaram-se grandes e mudaram gerações. Por
cinco séculos esse conhecimento foi aperfeiçoado, passando de professor para
aluno, até que Deus ofereceu o extraordinário, um grande sinal.
Após
800 anos Júpiter e Saturno se aproximaram três vezes na constelação de peixes,
formando uma conjunção tripla. No século XVII, Kleper calculou isso. E as
antigas tabuinhas babilônicas confirmam o evento. A tabuinha de Sipar que está
no museu de Berlin falava dessa conjunção. Os magos já previam esta conjunção a
muito tempo e imediatamente a reconheceram. É astronomia e não astrologia, nem
magia. Eles entenderam a mensagem divina dos céus. Júpiter representava
Marduck, Saturno representava a justiça ligada aos israelitas e peixes
simbolizava a sua terra. Esses três encontros: maio, outubro e dezembro.
Brilhantes e visíveis a olho nu. Um fenômeno raro segundo os astrônomos
modernos. Para os magos um sinal divino. Não tinha dúvidas, um rei havia
nascido. Não era um soberano qualquer, mas alguém que esperavam há séculos, ou
seja, o Messias, anunciado pelas profecias. A mais antiga delas assim falava:
Números24, 17, descreve as palavras de Balaão: “Uma estrela surgirá de Jacó
e um cetro de Israel”.
Texto
muito conhecido pelos rabinos e o Targum o relacionava diretamente ao Messias.
Quando Barcoja liderou a rebelião de 132/136 a.C. foi chamado de “filho a
estrela” justamente por esse motivo.
Um
texto de Orígenes conta que uma estrela apareceu os magos perceberam que algo
mudava. Suas artes perderam poder, como se a força por trás daquele sinal
superasse todos os seus conhecimentos. Eles procuraram nos livros antigos e,
tendo encontrado a profecia de Balaão e tiveram a certeza de que o que acontecia
era maior do eles.
Mas, aquela estrela não era apenas a conjunção
dos planetas, o fenômeno descrito pelo evangelista Mateus mostra que aquele
evento não a ciência não pode dar explicação. A luz aparece e desaparece se
move e finalmente para em cima da casa em Belém, onde estava o menino. Embora na mente deles e na história fala-se sobre uma estrela, essa luz que os guiou até Belém, guiou outrora Moisés e o povo de Deus pelo deserto. Para os hebreus ela iluminava os caminhos, para os egípcios ela confundindo-lhes o caminho contra a perseguição do Faraó. Não era simplesmente uma estrela era a Luz de Deus guiando aqueles homens.
Aquela não era uma estrela qualquer, era uma manifestação da glória de Deus. Tornada de forma visível aos olhos humanos; e os magos diante de tudo isso tiveram que escolher entre permanecer em segurança de seu mundo ou partir para terras distantes, para a Judéia, guiados por um sinal que desafiava toda a lógica. Eles tinham riquezas, prestígios e estabilidade, porque arriscar tanto por uma criança? Porque quando nos é manifestada a verdade, ninguém pode ficar acomodado. Depois de ver o que eles viram, não podiam mais ser os mesmos. Quando o céu fala com a gente a vida comum não é mais suficiente [...] assim, eles partiram e escolheram uma viagem cheia de riscos, que não ofereciam nenhum conforto. Da Babilônia à Jerusalém é de um mil e trezentos quilômetros em linha reta. Mas, as caravanas não seguiam em linha reta. Elas passavam pelas curvas dos rios, contornavam as montanhas, atravessavam oásis remotos, percorrendo as rotas de comércio do mundo antigo, levando ao percurso de 2.700 Quilômetros, enfrentando perigos invisíveis.
O livro de Esdras nos mostra esta cronologia,
(Esdras7, 9), o retorno dos exilados de volta para a Judéia levou quatro meses,
saindo no quarto dia do primeiro mês e chegaram no primeiro dia do quinto mês.
Era uma caravana protegida pelo poder imperial. Imaginem a mesma rota no
primeiro século, de dia temperaturas acima dos cinquenta graus e à noite
gelada, além dos assaltantes, animais selvagens como os leões, cobras sob a
areia. Imagine a resistência daqueles homens somente para encontrar um menino.
Não um menino qualquer, mas, alguém muito importante, o Cristo de Deus.
As
rotas comerciais eram do comércio de seda, especiarias, metais preciosos e
escravos. Os nabateus controlavam vastas regiões do comércio, os partas
dominavam a mesopotâmia, bandidos por todo lado, e então podemos perguntar:
eram mesmos só três aqueles homens? Alguns acham que eram muito mais. Mas, eu
prefiro pensar que eram três caravanas, com três líderes, o que não era pouca
gente, afinal nenhuma pessoa ousaria empreender tal viagem em um número
reduzido mediante as dificuldades da época como exposto acima.
Embora
a tradição ocidental afirme que eram três homens, por causa dos três presentes,
na lógica oriental isso não faz sentido. O Oriente fala de dois textos siríacos
que listam ainda mais, o manuscrito armênio do século V, relata os nomes de
dois magos, as tradições persas falam de numerosas caravanas oficiais e Mateus
não indica nenhuma quantidade.
Eles
trouxeram ouro, incenso e mirra, riquezas de valor incalculável. Eles teriam enfrentado
quase três mil quilômetros em um território perigoso, hostil em apenas um
número de três, se pensarmos isso seria impossível que não houvesse mais
pessoas para protegê-los. Eles precisavam de guardas, servos animais de carga
que carregasse água, comida e tendas. Precisavam de guias experientes que
conhecessem a região. Seria uma caravana completa, não é como hoje que as
pessoas viajam de trem, avião, ônibus, etc. Naquele tempo viajar era uma
verdadeira aventura, mas uma verdadeira penúria. Estima-se então que eles
levaram cerca de 4 a 6 meses para chegar à Jerusalém e à Belém.
Por onde passavam chamavam atenção e deixavam muita gente curiosa. Não era apenas homens em viagem, era sinal de que algo grande estavam acontecendo. Uma quantidade de homens cruzando o deserto, uma inundação de camelos e dromedários, carregando tesouros, tendas ao pôr-do-sol, fogueiras, e noite após noite contemplam a andança de Jupiter e Saturno [...] eles não pararam. Seus presentes não foram escolhidos por acaso; o ouro representava a realeza, vinha das minas da Arábia; o incenso, especiaria muito cara, representa a divindade, era queimado nos templos de todas as civilizações (Egito, Israel, Babilônia, Grécia Roma, etc.), a fumaça que subia representava as orações que se eleva aos céus a Deus e aos deuses. [Nero queimou todo estoque de incenso no funeral de Popia; os templos romanos consumiam toneladas de incenso].
A mirra era usada para
ungir reis e profetas, para confecção de perfumes, aplicação medicinal, e para
preparar cadáveres, embalsamamento ou mumificação; ela é representa o sofrimento
de Cristo; ambos vinham da Península Arábica e da costa da Somália.
Os
magos trouxeram os bens mais preciosos que o mundo antigo podia ter. Carregavam
um simbolismo maior do quem os oferecia. Ouro para um rei, incenso para um Deus
e mirra para quem iria morrer. Nestes presentes estavam profeticamente representadas
tudo aquilo que o Salvador representava e o sofrimento que ele deveria sofrer
até a morte por nós na cruz.
A
realeza de Cristo é diferente da realeza de Herodes; porque Herodes era um rei
usurpador, enquanto que Cristo era o Salvador o Rei dos reis, o filho de Davi e
nosso Redentor. Herodes representa o mal que se opõe ao bem, as trevas contra a luz e o mundo que não
aceita a realeza de Cristo.
Os Magos representam as nações de toda terra que hão de adorar e reconhecer Nosso
Senhor como único e verdadeiro Deus e Senhor. Ao contrário de Herodes, os magos sabiam
que aquele Menino não era uma criança qualquer, mas, o Messias esperado, o Rei,
o Filho de Deus. Por isso, a viagem foi cansativa, perigosa, mas valeu apena
encontrar o “Rei dos Judeus”, o Cristo Senhor. Então a viagem foi reconfortada de alegria e
voltaram pra casa jubilosos por ter realizado a sagrada missão e mesmo sem perceber
cumpriram a profecia representada pelos seus presentes.
Herodes
por outro lado, representa o mal, o ódio daqueles que não aceitam a luz e
preferem viverem nas trevas. Herodes é a imagem da ignomínia, da morte, do
pecado. Daqueles que até os dias de hoje não aceitam o Jesus como Deus, Senhor
e Salvador. Mas, Herodes sem saber também cumpria outra profecia, a daqueles que
durante a toda vida pública de Jesus, se opunham aos seus ensinamentos,
procuravam armadilhas para matá-lo, perseguiam não só a Ele, mas, seus discípulos
e apóstolos, até os nossos dias Herodes é representado por aqueles que
perseguem a Cristo e a sua Igreja. Por aqueles que detém o poder nas mãos e
usam do poder para matar os cristãos. Herodes, facínora, canalha sem
escrúpulos, invejoso [...] quantos Herodes temos hoje?
O
importante é que nós aprendamos com o Natal, com o nascimento de Cristo, Ele o “Sol
da Justiça”, conforme ensina o profeta Zacarias que veio dissipar as trevas
do pecado com sua luz. Saibamos também como os magos, caminhar sempre em
direção a esta luz que é Cristo. Sejamos agradecidos como os magos que viram o
Salvador e o adoraram. Saibamos fazer de nosso coração a sua morada levamos
sempre a alegria e a gratidão por tudo que Jesus passou pela nossa salvação.] {Este texto entre não faz parte da História Eclesiástica de Eusébio}
O infanticídio cometido por Herodes e o
seu fim catastrófico segundo Eusébio:
“Nascido
Cristo em Belém de Judá, conforme as profecias no tempo mencionado, Herodes,
ante a pergunta doa magos vindos do Oriente que queriam saber onde se achava o
nascido rei dos judeus – porque tinham visto sua estrela, e o motivo de sua
viagem tão longa era seu empenho em adorar como Deus ao recém-nascido – ,
bastante perturbado pelo assunto, como se estivesse em perigo a soberania - ao menos era o que ele realmente pensava –,
depois de informar-se com os doutores da lei dentre o povo onde esperavam que
haveria de nascer o Cristo, assim soube que a profecia de Miquéias indicava
Belém, ordenou mediante um edito matar os meninos de peito de Belém e
redondezas, de dois anos para baixo, segundo o tempo exato indicado pelos
magos, pensando que também Jesus, como era natural, teria certamente a mesma
sorte que os outros meninos de sua idade”.
“Mas
o menino, levado para o Egito, adiantou-se ao plano: um anjo apareceu a seus
pais indicando-lhe de antemão o que iria acontecer. Isto é, o que nos ensina a
Sagrada Escritura do Evangelho”.
“Mas,
além disso, é conveniente dar uma olhada na resposta pelo atrevimento de
Herodes contra Cristo e os meninos de sua idade. Imediatamente depois, sem a
menor demora, a justiça divina o perseguiu quando ainda transbordava de vida e
lhe mostrou o prelúdio do que o aguardava para depois de sua saída desta vida”.
“Não
é possível resumir as sucessivas calamidades domésticas com que se enevoou a
suposta prosperidade de seu reino: os assassinatos de sua mulher, de seus
filhos e pessoas muito próximas a sua família por parentesco ou por amizade. O que
se pode supor a respeito disso deixa à sombra qualquer representação trágica.
Josefo explica extensamente em seus relatos históricos”.
“Mas
sobre um flagelo divino o arrebatou e ele começou a morrer já desde o momento
em que conspirou contra nosso Salvador e contra os demais meninos, será bom
escutar as palavras do próprio escritor, que no livro 12 de suas Antiguidades
judaicas descreveu o final catastrófico da vida de Herodes como segue: A
doença de Herodes fazia-se mais e mais virulenta. Deus vingava seus crimes”.
“Com
efeito, era um fogo suave que não denunciava ao tato dos que apalpavam, um
abrasamento como o que por dentro aumentava sua destruição; e logo uma vontade terrível
de comer algo, sem que nada lhe servisse, ulcerações e dores atrozes nos
intestinos, e sobretudo no ventre, com inchaço úmido e reluzente nos pés”.
“Em
torno do baixo-ventre tinha uma infecção parecida; mais ainda, suas partes
pudendas estavam podres e criavam vermes. Sua respiração era de uma rigidez
aguda e extremamente desagradável pela carga de supuração e por sua forte asma;
em todos os membros sofria espasmos de uma força insuportável”.
“Certo
é que os adivinhos e os que tem sabedoria para predizer estas coisas diziam que
Deus estava fazendo-se pagar pelas muitas impiedades do rei. Isto é o que o
autor citado anota na mencionada obra”.
“E
no livro segundo os relatos históricos nos dá uma tradição parecida acerca do
mesmo assunto, escrevendo assim: Então a enfermidade de apoderou de todo seu
corpo e foi destroçando-o com vários sofrimentos. A febre na verdade, era
fraca, mas era insuportável a comichão em toda superfície do corpo, as dores
contínuas no ventre, os edemas dos pés, como de um hidrópico, a inflamação do
baixo-ventre e a podridão verminosa de suas partes pudendas, ao que deve
acrescentar a asma, a dispneia e espasmos em todos seus membros, ao ponto de os
adivinhos dizerem que estes sofrimentos eram castigos”.
“Mas,
ele mesmo lutando com tais padecimentos, ainda aferrava à vida, e esperando
salvar-se imaginava curas. Atravessou o Jordão e utilizou águas termais de
Calirroe. Estas vão desaguar no mar do Asfalto, e como são doces são também
potáveis”.
“Ali
os médicos decidiram aquecer com azeite quente todo seu purulento corpo em
banheira cheia de azeite; desmaiou e revirou os olhos, como se estivesse
acabado. Armou-se grande alvoroço entre os criados, e como o ruído voltou a si.
Renunciando desde então à cura, mandou distribuir a cada soldado 50 dracmas e
muito dinheiro aos chefes e a seus amigos”.
“Regressou
então e chegou à Jericó, já vítima da melancolia e ameaçado pela morte. Pôs-se
a tramar uma ação criminosa. De fato, fez reunir notáveis de cada aldeia de
toda Judeia e mandou encerrá-los no chamado hipódromo”.
“Chamando
depois sua irmã Salomé e seu marido Alexandre disse: “Sei que os judeus
estão festejando a minha morte, mas posso ainda ser pranteado por outros a ter
funerais esplêndidos se vocês atenderem minhas ordens. Assim que eu expirar,
fazei com que cada um dos homens aqui detidos seja imediatamente cercado de
soldados e fazei com que os matem, para que a Judeia inteira e cada casa, ainda
que à força chore por mim”.
E
um pouco mais adiante diz: “Depois, torturado também pela falta de alimento e
por uma tosse espasmódica e abatido pelas dores, tramava antecipar sua hora
fatal. Pegou uma maçã e pediu uma faca, pois tinha o costume de cortá-la para
comê-la. Depois, olhando em volta por medo de que houvesse alguém para impedi-lo,
levantou sua mão direita com a intenção de ferir-se”.
“Além
destes detalhes, o mesmo escritor refere que, antes de morrer de todo, mandou
que matassem outro de seus filhos legítimos, terceiro que somou aos outros dois
já assassinados anteriormente, e no mesmo momento. De repente e entre enormes
dores, expirou”.
“Assim
foi o final de Herodes (o grande), justo e merecido pelo infanticídio perpetrado
em Belém por atentar contra nosso Salvador. Depois disto, um anjo se apresentou
em sonhos a José, que vivia no Egito, e ordenou-lhe partir com o menino e sua
mãe para a Judeia, explicando que estavam mortos o que buscavam a morte do
menino, ao que acrescenta o evangelista: “Porém, vindo que Arquelau reinava
no lugar de seu pai Herodes, temeu ir para lá, mas avisados em sonhos,
retirou-se para a região da Galileia”.
Dos
tempos de Pilatos
“O
historiador acima citado corrobora com a notícia da subida de Arquelau ao poder
depois de Herodes [é esse Herodes o jovem que mais tarde aparecerá nos relatos
da Paixão de Cristo], e descreve de que maneira, por testamento de seu pai
Herodes e por decisão de César Augusto, recebeu em sucessão o reino judeu, e
como, tirado do poder após dez anos, seus irmãos Filipe e Herodes o jovem,
junto com Lisanias, governaram as suas próprias tetrarquias”.
“O
mesmo Josefo, no livro 18 de suas Antiguidades, declara que no 12 do
império de Tibério (pois foi este o sucessor do império, depois dos cinquenta e
sete anos do reinado de Augusto), Pôncio Pilatos obteve o governo da Judéia, no
qual se manteve por dez anos completos, quase até a morte de Tibério”.
“Portanto,
está claramente refutada a patranha dos que agora, ultimamente divulgam umas
memórias contra nosso Salvador, nas quais a própria data anotada é a primeira
prova da mentira de tal farsa”.
“De
fato, situam suas atrevidas invenções acerca da paixão do Salvador no quarto
consulado de Tibério, que coincide com o sétimo ano de seu reinado, tempo no
qual está demonstrado que Pilatos não tinha ainda se apresentado na Judéia, ao
menos se tomarmos Josefo como testemunha, que claramente assinala em seu livro
já citado que Tibério instituiu Pilatos governador da Judéia justamente no
décimo segundo ano de seu império”.
Dos sumos sacerdotes dos judeus sob os
quais Cristo ensinou
“Foi,
portanto, nestes tempos, segundo o evangelista, estando Tibério César no décimo
quinto ano de seu império e Pilatos no quarto ano de sua procuração, e sendo tetrarcas
do resto da Judéia Herodes, Lisanias e Felipe, que nosso Salvador e Senhor
Jesus, o Cristo de Deus, tendo cerca de trinta anos se apresentou para o
batismo com João e deu início então à proclamação do Evangelho”.
“Diz
ainda a divina Escritura que todo o tempo de seu ensino transcorreu durante o
sumo sacerdócio de Anás e Caifás, mostrando que efetivamente todo tempo de seu
ensino se cumpriu nos anos em que estes exerceram seus cargos. Portanto,
continuou até o começo de Caifás, o que não chega a dar um intervalo de quatro
anos completos”.
“De
fato, como as normas legais naquele tempo estavam já de certa forma relaxadas,
havia quebrado aquela segundo a qual os cargos referentes ao culto de Deus
seriam vitalícios e por sucessão hereditária, e os governadores romanos
investiam com o sumo sacerdócio pessoas diferentes e em tempos também
diferentes, sem que durassem no cargo mais de um ano”.
“Relata
Josefo, que depois de Anás se sucederam quatro sumos sacerdotes até Caifás. Na
mesma obra Antiguidades escreve o seguinte: “Valério Grato destituiu do
sacerdócio a Anás e tornou sumo sacerdote a Ismael, filho de Fabi; mas trocando
também este ao cabo de pouco tempo, designa como sumo sacerdote a Eleazar,
filho do sacerdote Anás”.
“Por
conseguinte, está demostrado que todo o tempo do ensino de nosso Salvador não
chega a quatro anos completos, posto desde Anás até a nomeação de Caifás foram
quatro os sumos sacerdotes que, em quatro anos, exerceram o cargo anual. Tem
razão o texto evangélico ao menos em apontar Caifás como sumo sacerdote do ano
que se cumpriu a paixão do Salvador. Por não discordar da observação
precedente, fica também corroborada a duração do ensino de Cristo”.
“Além
disso, nosso Salvador e Senhor chama os doze apóstolos pouco depois do início
de seu ensino, e somente a eles dentre os demais discípulos, por privilégio
especial, deu o nome de Apóstolos. Depois designou outros setenta, e também
a estes enviou, de dois em dois, adiante dele a todo lugar e cidade por onde
ele iria”.
Testemunhos
sobre João Batista
“Não
muito depois, Herodes o jovem mandou decapitar João Batista. O texto sagrado do
Evangelho também o menciona e Josefo o confirma, ao menos quando faz referência
a Erodias e de como Herodes se casou com ela, apesar de ser mulher de seu
irmão, depois de repudiar suja primeira e legítima esposa (filha de Aretas, rei
de Petra) e de separar Herodias de seu marido, que ainda vivia; menciona também
que por causa dela deu morte a João e promoveu guerra contra Aretas, cuja filha
tinha desonrado. Ele diz ainda que nesta guerra, durante a batalha, o exército
de Herodes foi desbaratado por inteiro, e que tudo isso aconteceu por ter
atentado contra João”.
“O
mesmo Josefo confessa que João era um homem extremamente justo e que batizava,
confirmando assim o que está escrito sobre ele no texto dos evangelhos.
Menciona ainda que Herodes foi destronado por culpa da mesma Herodias, e com
ela foi desterrado, condenado a habitar na cidade de Viena na Gália”.
“Isto
é o que narra no mesmo livro 18 das Antiguidades, onde escreve sobre
João o que segue textualmente: “Para alguns judeus parece que foi Deus que
desbaratou o exército de Herodes, fazendo-o pagar muito justamente pelo que fez
a João, chamado o Batista”.
“Porque
Herodes havia-lhe dado morte. Era um homem bom e que exortava os judeus ao
exercício da virtude, a usar a justiça no trato de uns para com os outros e da
piedade para com Deus, a aceitar o batismo. Porque desta maneira também o
batismo lhe parecia aceitável, não como instrumento de perdão para alguns
pecados, mas para a purificação do corpo, desde que a justiça já de antemão houvesse
purificado a alma”.
“E
como outros se fossem aglomerando em torno de João (pois ficavam suspensos escutando
suas palavras), Herodes temeroso de que uma tal força de persuasão sobre os
homens conduzisse a alguma revolta (já que em tudo pareciam proceder segundo os
conselhos de João), pensou que o melhor era antecipar-se e fazê-lo matar antes
que armasse uma revolução, em vez de ver-se envolto em dificuldades por uma
mudança de situação e ter que se arrepender mais tarde. E João, devido a
suspeita de Herodes, foi mandado prisioneiro à Maqueronte, a célebre fortaleza
mais acima, e ali foi executado”.
“Depois
de explicar tudo isso a respeito de João, na mesma obra histórica, menciona
também nosso Salvador nos seguintes termos: “Por este mesmo tempo viveu
Jesus, homem sábio se é que de homem devemos chamá-lo, porque realizava obras portentosas,
era mestre dos homens que recebiam com prazer a verdade e atraiu não somente os
judeus, mas também muitos gregos”.
“Este
era o Cristo. Havendo-lhe infligido Pilatos o suplício da cruz, instigado por
nossos líderes, os que primeiro o haviam amado não cessaram de amá-lo, pois ao
fim de três dias novamente apareceu-lhes vivo. Os profetas de Deus tinham dito
estas mesmas coisas e outras incontáveis maravilhas sobre ele. A tribo dos
cristãos, que dele tomou o nome, ainda não desapareceu até hoje”.
“Quando
um escritor saído dentre os próprios judeus transmite desde o começo em suas
próprias obras estas coisas referentes a João Batista e a nosso Salvador, que
subterfúgio resta aos que tramaram contra ele as Memórias, sem que fique
evidente seu descaramento? Mas seja bastante o que foi dito”.
Fonte: História Eclesiástica de Eusébio de Cesaréia


