ESTUDO DE CONTESTAÇÃO - PARTE 1
A afirmação de que Jesus Cristo
morreu necessariamente em uma simples estaca vertical não pode ser demonstrada
apenas pelo significado etimológico mais antigo da palavra grega staurós. Jesus foi executado no século
I, sob autoridade romana; por isso, a investigação deve considerar o uso da
linguagem naquele período e o contexto histórico da crucificação romana.
A palavra staurós
teve uma história lexical e não deve ser interpretada por uma simples
transferência automática de seu significado mais antigo para todos os contextos
posteriores. Estudos modernos sobre a terminologia da crucificação demonstram a
complexidade desse vocabulário.
2. O contexto romano da crucificação
Jesus foi condenado por
autoridades romanas e executado mediante a pena romana da crucificação. A
investigação histórica deve, portanto, considerar as práticas romanas. A
literatura antiga e a pesquisa moderna indicam que as formas de crucificação
não eram necessariamente uniformes. Entre as estruturas historicamente
discutidas encontra-se o uso de um poste vertical associado a uma trave
transversal, chamada em latim de patibulum.
Martin Hengel realizou um estudo clássico e abrangente
sobre a crucificação no mundo greco-romano, especialmente sobre o caráter
infamante dessa pena e seu contexto na Palestina romana.
3. A palavra staurós
Raiz: vem do
verbo ἵστημι (histēmi), que significa “erguer-se, estar de pé”.
Uso
clássico: em Homero e outros autores antigos, “σταυρός” indicava uma
estaca ou poste usado em cercas ou palafitas
A palavra grega “σταυρός” — staurós pode ter sido usada, em
períodos antigos, para designar uma estaca ou poste. Todavia, esse dado
etimológico não demonstra que, no século I, o termo designasse obrigatoriamente
uma única peça vertical de madeira, pois ela, como vimos tem vários
significados.
O método linguístico correto exige analisar o contexto
histórico e o uso da palavra. Não é possível transformar uma possibilidade
lexical antiga em uma certeza absoluta sobre a geometria do instrumento da
morte de Cristo.
4. A palavra xýlon
Em grego,
“ξύλον” (xýlon) significa literalmente “madeira” ou “árvore”, mas
no contexto bíblico passou a designar também o instrumento de execução — a cruz
— sobre o qual Jesus foi crucificado. É uma palavra com usos amplos, desde
material de construção até símbolo teológico central
O Novo Testamento também utiliza
a palavra xýlon, frequentemente
traduzida por madeira ou madeiro. Essa palavra pertence a um campo semântico
amplo e pode referir-se a madeira, árvore ou objeto feito de madeira.
Consequentemente, afirmar que Jesus morreu em um xýlon não resolve a questão da forma
geométrica do instrumento. Uma estrutura composta por mais de uma peça de
madeira também pode ser corretamente designada por esse termo.
5. O sinal dos pregos nas mãos
“Se eu não vir nas suas mãos o sinal dos pregos, e
não puser o meu dedo no lugar dos pregos, e não puser a minha mão no seu lado,
de modo algum acreditarei.” — João 20,25
O Evangelho utiliza o plural
“pregos”. Esse detalhe harmoniza-se naturalmente com a representação de Jesus
com os braços estendidos e fixados separadamente. Uma estrutura com trave
transversal explica essa disposição de maneira natural.
O argumento não deve ser exagerado: o plural, isoladamente,
não determina matematicamente toda a forma da estrutura. Contudo, constitui um
elemento contextual coerente com a tradição da cruz com travessa.
6. A inscrição acima da cabeça
“Por cima de sua cabeça colocaram a causa de sua
condenação, escrita: ‘Este é Jesus, o Rei dos Judeus’.” — Mateus 27,37
A indicação de que a inscrição estava acima da cabeça
harmoniza-se naturalmente com a representação tradicional de uma cruz na qual
existe uma porção do poste vertical acima da travessa. Esse detalhe, sozinho,
não constitui uma demonstração absoluta, mas integra um conjunto de evidências
convergentes.
7. A tradição cristã antiga
Um elemento de grande importância
é o testemunho dos primeiros séculos do cristianismo. A compreensão da cruz
como estrutura transversal não aparece apenas em períodos medievais. São
Justino Mártir, escritor cristão do século II, associa a cruz à forma transversal
e à imagem dos braços estendidos.
Esse testemunho é particularmente relevante porque Justino
viveu em um período muito mais próximo do mundo romano em que a crucificação
era conhecida como prática de execução.
8. A conclusão da contestação
Não possuímos o instrumento
físico utilizado na execução de Jesus e, portanto, não é metodologicamente
correto afirmar que cada detalhe geométrico da cruz possa ser reconstruído com
certeza absoluta. Entretanto, também não existe fundamento suficiente para
afirmar dogmaticamente que Jesus morreu em uma única estaca vertical.
O conjunto formado pelo contexto
romano, pela discussão histórica sobre o patibulum,
pelos detalhes textuais do Novo Testamento e pelo testemunho da tradição cristã
antiga favorece a compreensão de uma cruz com elemento transversal.
Além do mais temos a prova científica fidedigna do santo Sudário de Turim, a relíquia em que muitos estudiosos acreditam ser a mortalha que envolveu o corpo de Jesus após sua morte. Nela é apresentada de forma miraculosa a figura de um homem que foi severamente açoitado, coroado de espinhos, transpassado por uma lança, marcas de pregos que lhes transpassou os punhos e os pés, com dilacerações nos ombros causados pelo enorme peso do patíbulo. Esta relíquia também chamada de "o quinto evangelho' descreve visivelmente aquilo que os evangelhos descrevem por palavras atestando uma por uma as palavras dos evangelistas. Enfim, mostra hum homem que foi morto numa cruz.
PARTE II — A RESPOSTA CATÓLICA
1. A posição da Igreja Católica
A resposta católica sustenta que
Jesus Cristo morreu crucificado e que a tradição cristã recebeu e conservou a
memória de sua morte em uma cruz. A Igreja considera conjuntamente a Sagrada
Escritura, a Tradição apostólica e o testemunho histórico da Igreja antiga.
A cruz, para a fé católica, não é apenas uma figura
geométrica ou um objeto histórico. Ela é o sinal do sacrifício redentor de
Jesus Cristo e está inseparavelmente ligada à sua Ressurreição.
2. A Sagrada Escritura
Os textos bíblicos utilizados na
reflexão incluem a referência aos “pregos” em João 20,25 e à inscrição acima da
cabeça em Mateus 27,37. São Paulo utiliza repetidamente a linguagem da cruz
para expressar o centro da mensagem cristã.
“Nós pregamos Cristo crucificado.” — 1 Coríntios
1,23
“Ele se humilhou, tornando-se obediente até a
morte, e morte de cruz.” — Filipenses 2,8
“Quanto a mim, porém, jamais me glorie, a não ser
na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo.” — Gálatas 6,14
3. O testemunho de São Justino Mártir
São Justino Mártir é uma das
testemunhas patrísticas mais importantes para este estudo. Em sua Primeira Apologia, especialmente no
capítulo 55, ele emprega comparações que relacionam a cruz a uma forma
transversal.
O testemunho de Justino demonstra que essa compreensão da
cruz já estava presente no cristianismo do século II, não podendo ser
simplesmente atribuída a uma invenção medieval tardia.
4. A Cruz e o sacrifício redentor
Para a fé católica, a importância
da Cruz ultrapassa a discussão material sobre o formato exato do instrumento.
Cristo entregou-se livremente pela salvação da humanidade.
“Cristo nos resgatou da maldição da Lei,
tornando-se ele próprio maldição por nós.” — Gálatas 3,13
A Cruz é, portanto, o sinal histórico e teológico do amor
redentor de Cristo.
5. A Cruz e a Ressurreição
A Cruz não representa, para a Igreja, uma glorificação do
sofrimento em si mesmo. O sinal da Cruz está inseparavelmente unido à vitória
de Cristo sobre a morte. Aquilo que era instrumento de condenação tornou-se,
pela Ressurreição, sinal de esperança e redenção.
6. A questão dos símbolos anteriores ao
cristianismo
O fato de existirem formas geométricas semelhantes a cruzes em
culturas anteriores não demonstra que a Cruz de Cristo seja um símbolo pagão.
Uma mesma forma pode assumir significados distintos em culturas diferentes.
O significado cristão da Cruz deriva da morte e da
Ressurreição de Jesus Cristo, e não simplesmente da existência prévia de formas
geométricas semelhantes.
CONCLUSÃO
Para concluir que Jesus morreu realmente na Cruz não podemos
ficar no significado etimológico, mas unir este significado ao contexto
histórico da época, à arqueologia, à ciência e aos próprios Evangelhos. Historicamente os historiadores já explicavam
que a tática da crucifixão não era só dos romanos: A
crucificação não foi uma invenção exclusiva dos romanos. Povos
do Oriente Próximo, como assírios e persas, já utilizavam métodos semelhantes
de execução por suspensão em estacas ou árvores, e gregos e cartagineses também
recorreram a práticas parecidas antes de Roma sistematizar a crucificação como
pena oficial. Os romanos sofisticaram as crucifixões como pena máxima para
punir ladrões, escravos e traidores. Eram várias as espécies de crucificação e
várias espécies de modelos de cruzes sendo a mais famosa a que tinha a forma de
um T. a haste ficava no local do suplício e o condenado era obrigado a carregar
a parte em que seria preso os braços pelo punho. Esta peça de madeira
confeccionada de acordo com cada condenado, era chamado de Patíbulo. Esse
foi o que Jesus carregou e nele foi pregado. A outra é em forma de um X, neste
tipo de cruz o condenado era amarrado e pregado com 4 cravos, dois nos pés e
dois nas mãos. Ou simplesmente era amarrado. O apóstolo André morreu neste tipo
de crucifixão. Os romanos nem sempre usavam de cravos. Muitas vezes amarravam o
condenado e preso com cordas ficava ali agonizando até morrer. Depois de mortos
eram jogados em uma vala comum e não tinham direito a sepultamento.
As testemunhas de Jeová, afirmam que Jesus morreu numa
estaca, o que é uma falácia etmológica. Podemos claramente desmontar
esta tese apenas com o seguinte:
1.
Pelos Evangelhos: João19, 1-13 – Pilatos tenta por três
vezes soltar Jesus e a turba dos judeus pedem a sua crucificação. João 19, 17-20
– com Jesus foram crucificados dois malfeitores. Sobre a cruz Pilatos mandou escrever
um letreiro em hebraico, latim e grego: “Este
é Jesus Nazareno, rei dos judeus”. João
19, 25 – junto a cruz de Jesus estava Maria sua mãe, a irmã de sua mãe Maria de
Cléofas, portanto a tia de Jesus e Maria Madalena a discípula. Note que só
nesse capítulo nos apresenta várias vezes a palavra “cruz” e não estaca – em grego
se usa a palavra xýlon.
2.
A morte do apóstolo Pedro: O apóstolo Pedro morreu em
Roma por volta de 29 de junho de 67 d.C., durante a perseguição aos cristãos
promovida pelo imperador Nero. A tradição afirma que ele foi crucificado de
cabeça para baixo, a seu pedido, por não se considerar digno de morrer da mesma
forma que Jesus. Três historiadores da antiguidade descrevem seu martírio:
Orígenes, Eusébio e Tertuliano. E um apócrifo (Atos de Pedro, escrito por volta
do século II), também descreve que ele foi crucificado da mesma forma que Jesus,
porém de cabeça para baixo. Ora, aqui está o “pulo do gato”: Se Pedro sofreu a
mesma morte que Jesus, ele foi crucificado, então a forma de cruz foi a mesma tanto
para Jesus quanto para Pedro. Se Jesus tivesse morrido numa estaca por que os
evangelistas disseram que Jesus morreu na cruz? e por que os historiadores não disseram
que ele morreu numa estaca ou invés de numa cruz? – logo podemos concluir que
Jesus foi realmente morto na cruz e não em uma estaca como queiram afirmar as
testemunhas de Jeová.
3.
Fatos arqueológicos: - Em Jerusalém
(1968): escavações encontraram os restos de um homem chamado Yehohanan, datados
do século I d.C. O osso do calcanhar tinha um pregão de ferro atravessado,
mostrando que ele foi pregado a uma madeira. Este é o único achado direto de
uma vítima de crucificação do período romano na Judeia. Giv’at HaMivtar
(Israel): outro achado arqueológico reforça que crucificações eram praticadas
na região. O osso perfurado sugere que os pés eram fixados lateralmente à cruz.
Achados em Itália e Inglaterra: alguns
restos humanos com marcas compatíveis com crucificação foram encontrados,
embora menos conclusivos. Em Fenstanton (Inglaterra, 2017), arqueólogos
descobriram um osso de calcanhar com um prego de ferro, datado do século III-IV
d.C. Em Gávello (Itália), restos de um homem do século I-IV mostraram sinais de
crucificação, embora sem pregos preservados.
A crucificação era realmente praticada pelos romanos e deixou marcas físicas em algumas vítimas.
Os restos confirmam descrições históricas de autores como Josefo e Tácito, que relatam crucificações em massa.
Apesar de ser uma
prática comum, os achados são raros porque os corpos geralmente eram deixados
expostos ou enterrados em valas comuns ou jogados no esgoto, dificultando a preservação dos ossos com
pregos. Jesus não teve a mesma sorte porque José de Arimatéia, homem rico e influente, era discípulo de Jesus e quis dar a ela um enterro digno. Reclamou o corpo a Pilatos e o sepultou em seu próprio túmulo, conforme atesta os evangelistas: Mateus 27, 59-60; João 19, 41-42; Lucas 23, 53.
CONCLUSÃO
CATÓLICA
A posição católica reconhece os
limites da evidência histórica: não possuímos o instrumento físico da execução
de Jesus e não podemos afirmar todos os seus detalhes com certeza absolutos.
Entretanto, o contexto romano, os elementos bíblicos e o testemunho patrístico,
histórico e arqueológico formam um conjunto coerente com que favorece a
compreensão tradicional da cruz com travessa.
Mais profundamente, a fé católica proclama que a
importância suprema está naquele que morreu:
Jesus Cristo. A Cruz é venerada
porque recorda e torna presente, para a fé, o sacrifício redentor de Cristo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS COMPLETAS
Sagrada Escritura
BÍBLIA SAGRADA. Passagens utilizadas: Mateus
27,37; João 20,25; Gálatas 3,13; Gálatas 6,14; Filipenses 2,8; 1 Coríntios
1,23. Para uso acadêmico ou pastoral, recomenda-se consultar uma edição
católica aprovada e indicar a tradução utilizada.
Fontes patrísticas
JUSTINO MÁRTIR. First Apology, especialmente capítulo 55. In: ROBERTS, Alexander;
DONALDSON, James (eds.). Ante-Nicene
Fathers, vol. 1. Buffalo, NY: Christian Literature Publishing Co., 1885.
JUSTINO MÁRTIR. Dialogue with Trypho. Obra apologética cristã do século II. Para
estudo crítico, recomenda-se consultar uma edição acadêmica moderna ou uma
edição da série Fathers of the Church.
Estudos históricos e filológicos
HENGEL, Martin. Crucifixion in the Ancient World and the Folly of the Message of the
Cross. Philadelphia: Fortress Press, 1977. Primeira edição americana. A
obra é um estudo clássico sobre a crucificação no mundo greco-romano.
SAMUELSSON, Gunnar. Crucifixion in Antiquity: An Inquiry into the Background and
Significance of the New Testament Terminology of Crucifixion. 2. ed.
revista. Tübingen: Mohr Siebeck, 2013. Wissenschaftliche Untersuchungen zum
Neuen Testament II, 310. DOI: 10.1628/978-3-16-152513-1.
COOK, John Granger. Crucifixion in the Mediterranean World. Tübingen: Mohr Siebeck,
2014.
Wissenschaftliche
Untersuchungen zum Neuen Testament II.
CHAPMAN, David W.; SCHNABEL, Eckhard J. The Trial and Crucifixion of Jesus: Texts
and Commentary.
Tübingen:
Mohr Siebeck, 2015.
NOTA METODOLÓGICA
Este estudo distingue entre dados
diretamente atestados e inferências históricas. A palavra staurós, isoladamente, não resolve a geometria do instrumento da
execução. Da mesma forma, nenhum artefato identificado como o instrumento da
crucificação de Jesus está disponível para exame. A conclusão apresentada
baseia-se no conjunto das evidências textuais, históricas e patrísticas.
A pesquisa acadêmica
contemporânea reconhece a complexidade da terminologia e das práticas de
crucificação. Isso recomenda evitar tanto afirmações dogmáticas de certeza
absoluta quanto reduções etimológicas simplificadas.
Estudo bíblico, histórico,
linguístico e patrístico sobre a questão da morte de Jesus Cristo em uma cruz
ou em uma simples estaca.
Este volume reúne, em um único documento, o estudo de
contestação da tese de que Jesus Cristo teria morrido exclusivamente em uma
estaca vertical, seguido da resposta apresentada sob a perspectiva católica e
de referências bibliográficas completas.
A
RESPOSTA CATÓLICA SOBRE A CRUZ DE JESUS CRISTO
Jesus Cristo morreu em
uma cruz
A posição da Igreja Católica sustenta que Jesus Cristo morreu crucificado em uma estrutura formada
por um elemento vertical e uma trave transversal. Embora não possuamos
atualmente o instrumento físico utilizado na execução de Jesus e não seja
possível determinar com absoluta certeza todos os detalhes de sua forma, o
conjunto das evidências bíblicas, históricas e da Tradição cristã primitiva
favorece claramente a cruz.
A fé
católica não depende apenas de uma interpretação isolada de uma palavra, mas
considera conjuntamente:
·
a Sagrada Escritura;
·
o contexto histórico da
crucificação romana;
·
a Tradição dos primeiros
cristãos;
·
o testemunho dos Padres da
Igreja.
1. O contexto da
execução de Jesus era romano
Jesus
Cristo foi condenado à morte e executado pelas autoridades romanas. Portanto,
para compreender o instrumento utilizado em sua execução, é necessário
considerar a prática da crucificação romana no século I.
Os
romanos empregavam diferentes formas de crucificação. Uma das formas
historicamente documentadas envolvia o uso de um poste vertical e de uma trave
transversal, conhecida em latim como patibulum.
O
condenado podia ser conduzido ao local da execução carregando a trave
transversal, enquanto o poste vertical já se encontrava preparado no local.
Essa realidade histórica explica naturalmente os relatos evangélicos sobre
Jesus e Simão de Cirene durante o caminho para o Calvário.
O
historiador Martin Hengel, em sua importante obra Crucifixion in the
Ancient World and the Folly of the Message of the Cross, demonstra que a
crucificação era uma prática romana particularmente cruel e infamante e analisa
extensamente o seu contexto no mundo antigo.
2. A palavra
grega staurós deve ser compreendida no seu contexto histórico
O Novo Testamento utiliza a palavra grega: σταυρός — staurós para se referir ao instrumento da morte de Cristo.
A
palavra teve diferentes usos ao longo da história da língua grega. Por essa
razão, não se pode determinar a forma do instrumento utilizado por Jesus apenas
recorrendo ao significado mais antigo da palavra.
A
interpretação correta deve levar em consideração o contexto do século I.
A
palavra staurós, no Novo Testamento, é utilizada para designar o
instrumento romano da crucificação. Assim, a questão histórica não pode ser
resolvida simplesmente dizendo que a palavra, em épocas mais antigas, podia
significar “estaca”.
A
Igreja Católica, portanto, considera o conjunto da realidade histórica e
bíblica.
3. Jesus foi pregado com
“pregos”
O Evangelho
de São João apresenta um detalhe particularmente importante.
São Tomé
declara:
“Se eu não
vir nas suas mãos o sinal dos pregos, e não puser o meu dedo no lugar dos
pregos, e não puser a minha mão no seu lado, de modo algum acreditarei.”
João
20,25
O Evangelho
utiliza a palavra no plural:
“pregos”.
Esse detalhe
harmoniza-se naturalmente com a imagem de Jesus tendo os braços estendidos e
fixados separadamente.
Uma cruz com
uma trave transversal permite que os braços sejam abertos e presos em posições
distintas.
Embora o
plural “pregos”, isoladamente, não determine matematicamente toda a forma do
instrumento da crucificação, ele constitui um elemento que se harmoniza com a
tradição cristã da cruz.
4. A inscrição
foi colocada acima da cabeça de Jesus
O
Evangelho de São Mateus afirma:
“Por
cima de sua cabeça colocaram a causa de sua condenação, escrita: ‘Este é Jesus,
o Rei dos Judeus’.”
Mateus 27,37
A
inscrição colocada acima da cabeça de Jesus harmoniza-se naturalmente com a
estrutura tradicional da cruz, na qual existe uma parte do poste vertical acima
da trave transversal.
A
representação tradicional é:
A
Igreja não afirma que este versículo, sozinho, determine geometricamente a
forma da cruz. Entretanto, ele constitui mais um elemento bíblico coerente com
a representação tradicional recebida desde os primeiros séculos do
cristianismo.
5. A tradição
cristã mais antiga conhece a cruz com travessa
Um
dos argumentos mais importantes da resposta católica encontra-se no testemunho
dos primeiros cristãos.
A
compreensão da morte de Cristo em uma cruz com uma dimensão transversal não
surgiu na Idade Média.
Ela
já aparece nos primeiros séculos do cristianismo.
São Justino Mártir: São Justino Mártir, escritor cristão do século II, viveu relativamente próximo do período em que a crucificação ainda fazia parte da realidade do Império Romano.
Em sua Primeira
Apologia, São Justino relaciona a cruz à forma do corpo humano,
particularmente à imagem dos braços estendidos.
Essa associação é
extremamente significativa porque demonstra que os cristãos dos primeiros
séculos já compreendiam a cruz como uma estrutura transversal.
São Justino Mártir é,
portanto, uma testemunha importante da Tradição cristã antiga.
6. A Cruz
pertence à memória histórica da Igreja
Desde
os primeiros séculos, os cristãos conservaram a memória da cruz de Cristo.
Essa
tradição não é uma invenção isolada de uma época posterior, mas faz parte da
transmissão histórica da fé cristã.
A
Igreja Católica considera especialmente importante o testemunho da Igreja
antiga, porque os primeiros cristãos estavam muito mais próximos:
· linguisticamente, culturalmente e historicamente do mundo romano no qual Jesus foi crucificado.
A
memória constante da Igreja sobre a cruz possui, portanto, grande valor
histórico e religioso.
7. A cruz não é
um símbolo pagão simplesmente porque formas semelhantes existiam antes do
cristianismo
A
existência de símbolos semelhantes à cruz em culturas anteriores ao
cristianismo não significa que a Cruz de Cristo seja um símbolo pagão.
Uma
forma geométrica pode ser utilizada por diferentes povos e assumir significados
completamente distintos.
O
significado cristão da Cruz não deriva simplesmente de sua forma geométrica.
Para
os cristãos, a Cruz significa:
·
o sacrifício de Jesus Cristo;
·
a redenção da humanidade;
·
o amor de Deus;
·
a vitória de Cristo sobre o
pecado;
·
a vitória da Ressurreição sobre
a morte.
A
Cruz tornou-se cristã porque Cristo foi crucificado.
Como
ensina São Paulo:
“Quanto
a mim, porém, jamais me glorie, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus
Cristo.”
Gálatas 6,14
A CRUZ E O
SACRIFÍCIO DE CRISTO
Para a fé católica, a Cruz não é apenas uma lembrança histórica do
instrumento utilizado na execução de Jesus.
Ela é o sinal do sacrifício redentor.
São Paulo ensina:
“Cristo nos resgatou da maldição da Lei, tornando-se ele próprio
maldição por nós.”
Gálatas 3,13
E também:
“Ele se humilhou, tornando-se obediente até a morte, e morte de
cruz.”
Filipenses 2,8
A Cruz representa o momento supremo da entrega de Cristo.
Jesus não morreu simplesmente como vítima de uma injustiça humana.
Ele ofereceu livremente sua vida pela salvação do mundo.
A CRUZ COMO SINAL DA
VITÓRIA
Para o cristianismo, a Cruz não termina na morte.
A Cruz está inseparavelmente ligada à Ressurreição.
O instrumento da execução tornou-se o sinal da vitória de Cristo.
Aquilo que era:
·
instrumento de humilhação;
·
instrumento de sofrimento;
·
instrumento de condenação;
transformou-se, pela Ressurreição de Cristo, em sinal de:
·
salvação;
·
esperança;
·
vitória;
·
redenção.
Por isso, a Igreja Católica venera a Cruz não como se adorasse um
pedaço de madeira, mas porque reconhece aquilo que ela representa: o sacrifício
redentor de Jesus Cristo.
MAS NÓS PREGAMOS CRISTO CRUCIFICADO
O contexto: O apóstolo Paulo explica que os judeus pediam sinais miraculosos e os gregos buscavam a sabedoria humana da época.
O escândalo: Para os judeus, um Messias que morria na cruz era um escândalo (uma fraqueza inaceitável), pois esperavam um conquistador político.
A loucura: Para os gregos (gentios), pregar sobre um homem executado como criminoso parecia loucura ou tolice.
O poder de Deus: Para os que creem, a cruz representa o amor, a redenção e o verdadeiro poder de Deus para a salvação.
1 Coríntios 1:18-25
¹⁸ Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus.
¹⁹ Porque está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios, e aniquilarei a inteligência dos inteligentes.
²⁰ Onde está o sábio? Onde está o escriba? Onde está o inquiridor deste século? Porventura não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo?
²¹ Pois, visto que na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação.
²² Porque os judeus pedem sinal, e os gregos buscam sabedoria;
²³ Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos.
²⁴ Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus.
²⁵ Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens.
CONCLUSÃO CATÓLICA
A resposta católica pode ser resumida da seguinte maneira:
A Igreja Católica reconhece que não possuímos o instrumento físico
utilizado na crucificação de Jesus e, portanto, não é possível determinar todos
os seus detalhes materiais com absoluta certeza. Entretanto, o conjunto das
evidências disponíveis favorece a compreensão tradicional de que Cristo morreu
em uma cruz com travessa horizontal. O contexto da crucificação romana, a
existência do patibulum, a referência bíblica aos “pregos” nas mãos, a
inscrição colocada acima da cabeça de Jesus e, sobretudo, o testemunho dos
primeiros cristãos, como São Justino Mártir no século II, formam um conjunto
coerente de evidências. Por isso, a Cruz não é uma invenção medieval nem uma
simples tradição tardia, mas pertence à memória histórica e religiosa mais
antiga do cristianismo.
Para a Igreja Católica, porém, existe uma realidade ainda mais
profunda:
A importância suprema não está apenas na forma geométrica do
instrumento, mas naquele que nele morreu e no sacrifício que realizou.
Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, entregou-se pela
salvação da humanidade.
E por isso a Igreja proclama, juntamente com São Paulo:
“Nós pregamos Cristo crucificado.”
1 Coríntios 1,23
E também:
“Quanto a mim, porém, jamais me glorie, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo.” Gálatas 6,14
[De autoria de Elmando Toledo – evangelizador, catequista]
