
Ilustração artística
contemporânea inspirada no ambiente dos concílios do século IV; não é uma
representação documental exata.
Estudo
de divulgação histórica com perspectiva católica e referências para
aprofundamento
Nota
metodológica: o que sabemos e o que não chegou até nós
O
arianismo foi um dos conflitos centrais do cristianismo antigo. O nome deriva de
Ário (Arius), presbítero de Alexandria, mas os grupos chamados “arianos” não
formaram sempre um bloco uniforme: houve diferenças entre Ário, seus apoiadores
e correntes posteriores que preferiam fórmulas como “semelhante ao Pai”. Por
isso, o termo é útil, mas pode simplificar uma controvérsia complexa.
Também
é necessário corrigir uma expectativa comum: não possuímos uma ata
estenográfica completa dos debates de Niceia (325). O que sobrevive inclui o
Credo, os vinte cânones disciplinares e a carta sinodal, além de cartas
imperiais e relatos de testemunhas e historiadores eclesiásticos. As narrativas
posteriores devem ser lidas criticamente, comparando fontes e reconhecendo que
muitos autores escreviam em meio à disputa.
A
abordagem deste documento é histórica e católica, mas distingue fatos
documentados, interpretações teológicas e tradições posteriores. “Seita” é aqui
usado no sentido popular de grupo dissidente; para precisão histórica, é
preferível falar em controvérsia, corrente ou partido teológico.
1.
Resumo executivo
· O
conflito surgiu no início do século IV, especialmente em Alexandria, em torno
da relação entre o Pai e o Filho.
· Ário
sustentava que o Filho não era eterno no mesmo sentido que o Pai e que fora
criado ou trazido à existência por vontade do Pai; a fórmula associada a ele
era: “houve quando o Filho não existia”.
· O
Concílio de Niceia, convocado pelo imperador Constantino em 325, professou que
o Filho é “gerado, não criado” e “consubstancial” (homoousios) ao Pai.
· O
papa em exercício era Silvestre I (314–335). Ele não é descrito pelas fontes
como presente pessoalmente; a Igreja de Roma foi representada por legados,
segundo a tradição histórica.
· A
decisão de Niceia não encerrou a controvérsia. Durante décadas, imperadores e
bispos favoreceram fórmulas rivais; Atanásio de Alexandria e outros defensores
de Niceia sofreram deposições e exílios.
· A
formulação niceno-constantinopolitana, associada ao Concílio de Constantinopla
de 381, consolidou a confissão trinitária recebida pela Igreja Católica e por
muitas outras tradições cristãs.
2.
Contexto histórico: o Império e a Igreja no século IV
No
início do século IV, o cristianismo saía de períodos de perseguição e ganhava
espaço público. O Édito de Milão (313), associado a Constantino e Licínio,
concedeu tolerância religiosa e restituição de bens cristãos. Após derrotar
Licínio, Constantino tornou-se o principal poder imperial e passou a intervir
na busca de unidade eclesial, que considerava importante para a estabilidade do
Império.
A
controvérsia ariana não foi apenas uma discussão abstrata: envolveu pregação,
catequese, liturgia, autoridade episcopal, rivalidades regionais, redes de
patronagem e o papel do imperador. A intervenção estatal podia proteger
decisões conciliares, mas também pressionar bispos, impor exílios e favorecer
determinadas fórmulas. Não se deve confundir, portanto, a doutrina da Igreja
com a política variável dos imperadores.
Alexandria
era um centro intelectual cristão de primeira grandeza. A disputa entre Ário e
seu bispo, Alexandre de Alexandria, tornou-se um conflito mais amplo porque a
pergunta tocava o coração da fé cristã: quem é Jesus Cristo e como se relaciona
com o Pai?
3.
Quem foi Ário e quando surgiu o arianismo?
Ário
(c. 256–336) era presbítero em Alexandria, no Egito. A controvérsia explodiu
por volta de 318–320, durante o episcopado de Alexandre. Ário foi influenciado
por debates anteriores sobre a unidade de Deus, a geração do Logos e a
distinção entre Pai e Filho. A origem exata de suas ideias é discutida;
atribuir todo o sistema a um único mestre ou escola seria simplificador.
Em
linhas gerais, Ário defendia que o Filho, embora anterior ao restante da
criação e instrumento da criação do mundo, não era coeterno nem da mesma
realidade divina do Pai. O Filho teria recebido existência por vontade do Pai.
Isso preservava, segundo Ário, a singularidade absoluta do Deus não gerado;
para seus opositores, porém, colocava o Filho entre as criaturas e comprometia
a plena divindade daquele que salva e revela o Pai.
Fórmula atribuída aos
arianos nas fontes nicenas: “houve quando ele não era” e “antes de ser gerado,
não era”. As expressões aparecem na carta sinodal de Niceia como resumo
condenatório da posição debatida.
Os
escritos de Ário sobreviveram apenas em fragmentos e citações, em grande parte
transmitidos por adversários. Entre os materiais relevantes estão a carta a
Eusébio de Nicomédia e trechos de sua obra Thalia, preservados por autores
posteriores. Isso exige cuidado: a doutrina deve ser reconstruída comparando
testemunhos, não com base em uma coleção completa de textos do próprio Ário.
4.
O núcleo teológico da disputa
4.1
A pergunta fundamental
A
questão não era simplesmente se Jesus era importante, divino em algum sentido
ou superior aos seres humanos. O ponto era se o Filho pertence eternamente à
própria identidade divina ou se é um ser produzido por Deus e, portanto, não é
Deus no mesmo sentido que o Pai.
4.2
Vocabulário decisivo
· Ousia:
“essência” ou “substância”; termo filosófico usado para falar do que Deus é.
· Homoousios:
“da mesma essência” ou “consubstancial”. Em Niceia, protege a afirmação de que
o Filho não é uma criatura nem um deus inferior.
· Gerado,
não criado: a geração eterna do Filho não é um acontecimento temporal nem
fabricação de uma criatura.
· Trindade:
um só Deus em três Pessoas — Pai, Filho e Espírito Santo. Niceia concentrou-se
sobretudo na relação do Filho com o Pai; a formulação sobre o Espírito seria
desenvolvida mais explicitamente depois.
A
palavra homoousios não aparece literalmente na Bíblia, mas foi adotada como
termo de precisão para defender o sentido da fé bíblica contra interpretações
consideradas incompatíveis com o conjunto das Escrituras. Os concílios
frequentemente recorrem a vocabulário não bíblico para proteger uma afirmação
bíblica.
5.
Passagens bíblicas no debate
Os
dois lados citavam a Bíblia. O conflito demonstra que a controvérsia não se
resolvia por reunir versículos isolados, mas por interpretar cada passagem no
contexto e em relação ao conjunto da fé.
5.1
Textos usados pelos arianos ou interpretados de modo subordinacionista
· Provérbios
8,22 — “O Senhor me criou como princípio de seus caminhos” (tradução varia). A
tradição ariana aplicava a Sabedoria ao Filho e entendia “criou” em sentido
literal. A interpretação nicena não aceitava que o texto, poético e
personificado, provasse que o Filho fosse criatura.
· João
14,28 — “O Pai é maior do que eu”. A leitura nicena relacionava a frase à
encarnação e à condição assumida pelo Filho, sem negar sua divindade.
· Marcos
13,32 — o Filho não conhece o dia nem a hora. Os autores ortodoxos debateram
como entender a passagem à luz da verdadeira humanidade de Cristo e da unidade
de sua pessoa.
· Colossenses
1,15 — Cristo é “primogênito de toda criatura”. Os nicenos entendiam
“primogênito” como primazia e senhorio, sobretudo à luz dos versículos
seguintes, que dizem que tudo foi criado por meio dele e para ele.
5.2
Textos centrais para a resposta nicena
· João
1,1–3: o Verbo estava com Deus, era Deus e tudo veio a existir por meio dele. A
distinção entre o Verbo e o Pai não implica que o Verbo pertença à classe das
coisas criadas.
· João
8,58: “Antes que Abraão existisse, Eu Sou”. A leitura cristã tradicional vê
aqui uma afirmação de preexistência e uma alusão significativa ao nome divino.
· João
20,28: Tomé confessa a Jesus: “Meu Senhor e meu Deus”.
· Colossenses
1,16–17: todas as coisas foram criadas por meio de Cristo e nele tudo subsiste.
· Hebreus
1,2–3,8–12: o Filho é o resplendor da glória de Deus; o texto aplica ao Filho
linguagem elevada e cita textos do Antigo Testamento em sua honra.
· Filipenses
2,6–11: o hino cristológico fala da condição divina de Cristo e de sua
humilhação na encarnação.
Esses
textos não substituem a análise exegética. A resposta nicena é uma síntese
teológica: distingue Pai e Filho sem dividir a divindade e confessa a
encarnação sem reduzir Cristo a uma criatura.
6.
O Concílio de Niceia (325)
Constantino
convocou os bispos para buscar unidade. A reunião ocorreu em Niceia, na
Bitínia, em 325. As fontes antigas falam tradicionalmente em 318 bispos, mas a
pesquisa moderna reconhece que o número exato é incerto; estimativas de cerca
de 250 a 300 também são defendidas. O concílio tratou da controvérsia ariana,
da data da Páscoa e de questões disciplinares, entre elas a situação dos
meletianos.
O
imperador participou e procurou uma solução de unidade, mas não era o autor da
teologia conciliar. Os bispos debateram e formularam a profissão de fé. A
palavra homoousios — consubstancial — tornou-se o termo-chave para excluir a
ideia de que o Filho fosse uma criatura.
6.1
O Credo de Niceia de 325: trecho central
“Cremos em um só Senhor
Jesus Cristo, Filho de Deus, gerado do Pai, unigênito, isto é, da substância do
Pai; Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado, não
criado, consubstancial ao Pai; por quem todas as coisas foram feitas, as que
estão no céu e as que estão na terra.”
A
tradução acima é uma versão em português do núcleo do texto antigo; há
diferenças entre traduções. O Credo original de 325 terminava com anátemas
contra fórmulas como “houve quando não era”, “veio a ser do nada” e a afirmação
de que o Filho é de outra essência ou criado. Não deve ser confundido palavra
por palavra com o Credo niceno-constantinopolitano recitado hoje na liturgia.
6.2
Os documentos preservados
· Símbolo
ou Credo de Niceia.
· Vinte
cânones disciplinares, sobre temas como ordenações, reconciliação de lapsos,
conduta clerical e organização eclesial.
· Carta
sinodal à Igreja de Alexandria, que relata a condenação de Ário e resume as
proposições rejeitadas.
· Cartas
de Eusébio de Cesareia e do imperador Constantino, preservadas em fontes
antigas.
Não
possuímos uma ata completa, palavra por palavra, dos debates. A afirmação de
que os autos integrais sobreviveram em dezenas de volumes não é aceita pela
historiografia crítica. É mais rigoroso trabalhar com os documentos que de fato
chegaram até nós e com relatos antigos, sempre considerando o contexto de cada
autor.
7.
O Papa da época: São Silvestre I
O
papa durante o Concílio de Niceia era Silvestre I, cujo pontificado durou de
314 a 335. As fontes históricas associam a Igreja de Roma ao concílio por meio
de representantes ou legados. Não há evidência sólida de que Silvestre tenha
viajado pessoalmente a Niceia. A tradição católica considera o concílio
ecumênico e reconhece sua recepção pela Igreja; historicamente, porém, a
condução prática da reunião ocorreu no Oriente e contou com a intervenção
decisiva de Constantino.
É
importante não atribuir ao papa discursos ou decisões individuais que as fontes
não documentam. O Credo é um ato dos bispos reunidos em concílio, recebido pela
Igreja; a função de Roma deve ser descrita à luz da documentação disponível,
evitando tanto apagar sua participação quanto inventar detalhes.
8.
A posição dos imperadores e dos reis
8.1
Constantino (306–337)
Constantino
convocou Niceia e apoiou a busca de unidade. Depois do concílio, inicialmente
apoiou a decisão, mas a política imperial oscilou: Ário e alguns de seus
aliados voltaram a obter apoio e foram reabilitados em determinadas
circunstâncias. Eusébio de Nicomédia, influente na corte, teve papel relevante.
Atanásio, bispo de Alexandria e defensor de Niceia, foi deposto e exilado em
mais de uma ocasião.
A
atitude de Constantino não deve ser reduzida à ideia de que ele “inventou” a
divindade de Cristo. A crença na divindade de Jesus era anterior ao imperador e
está atestada na literatura cristã dos primeiros séculos. O imperador tentou
gerir uma crise religiosa que ameaçava a unidade pública do Império.
8.2
Constâncio II (337–361)
Constâncio
II favoreceu, em várias fases, bispos e fórmulas contrários ao uso niceno de
homoousios. Concílios regionais, pressões políticas e exílios tornaram a
disputa ainda mais intensa. O termo “ariano” foi aplicado a grupos diferentes;
alguns rejeitavam que o Filho fosse da mesma essência do Pai, enquanto outros
preferiam dizer que era “semelhante” ao Pai.
8.3
Juliano, o Apóstata (361–363)
Juliano
procurou restaurar cultos tradicionais romanos e enfraquecer a posição
privilegiada do cristianismo. A divisão interna dos cristãos também lhe
ofereceu oportunidade política. Sua política não foi uma defesa teológica do
arianismo, mas um projeto religioso imperial diferente.
8.4
Valente (364–378)
No
Oriente, Valente favoreceu em certos momentos grupos homoianos, frequentemente
classificados de modo amplo como arianos. A situação dos nicenos variou segundo
região e período, e bispos foram pressionados ou exilados.
8.5
Teodósio I (379–395)
Teodósio
I apoiou a fé nicena. O Édito de Tessalônica, de 380, favoreceu a confissão
trinitária associada à Igreja de Roma e de Alexandria. O Concílio de
Constantinopla, em 381, reafirmou a fé nicena e desenvolveu a confissão
relativa ao Espírito Santo. A política imperial passou a privilegiar a
ortodoxia nicena, embora a transformação religiosa do Império tenha sido
gradual.
8.6
Reinos germânicos
Após
as migrações e a formação de reinos pós-romanos, algumas elites visigodas,
vândalas e ostrogodas professaram formas de cristianismo homoiano, enquanto as
populações romanas locais eram muitas vezes nicenas. Isso gerou tensões
políticas e religiosas, com intensidade variável. A conversão de Recaredo, rei
visigodo, à fé católica no III Concílio de Toledo (589) é um marco importante
da superação institucional do arianismo visigótico.
Não
se deve falar de todos os reis como se tivessem uma posição única: as políticas
mudaram de acordo com dinastias, alianças, região e circunstâncias.
9.
A atitude da Igreja: condenação doutrinal, defesa da fé e conflitos políticos
A
Igreja condenou a doutrina de Ário em sínodos anteriores a Niceia e, de forma
decisiva, no concílio de 325. A razão teológica central era que, se o Filho
fosse uma criatura, não seria plenamente Deus; isso afetaria a compreensão da
salvação, da adoração cristã e da revelação do Pai em Cristo.
Atanásio
de Alexandria tornou-se um dos principais defensores de Niceia. Em seus
tratados, argumentou que somente Deus pode salvar e que o Verbo, por ser
verdadeiramente divino, pode unir a humanidade a Deus. Foi exilado repetidas
vezes. Outros defensores importantes foram Hilário de Poitiers, Basílio de
Cesareia, Gregório de Nazianzo e Gregório de Nissa.
A
história também inclui uso coercitivo do poder imperial: deposições, exílios e
imposições políticas atingiram diferentes lados em momentos diversos. Uma
narrativa responsável não deve romantizar a política eclesiástica nem concluir
que a doutrina foi decidida apenas pela força. O debate foi teológico e
bíblico, e as decisões conciliares foram disputadas, recebidas e
reinterpretadas ao longo de décadas.
No
plano católico, a resposta correta à heresia é a exposição da fé, o debate
teológico, a disciplina eclesial legítima e a busca da unidade. A violência ou
a coerção estatal não são argumentos teológicos e não demonstram a verdade de
uma doutrina.
10.
Padres da Igreja e fontes patrísticas
10.1
Santo Atanásio de Alexandria (c. 296–373)
Obras
fundamentais: Contra os Arianos; Sobre os Decretos do Concílio de Niceia;
Apologia contra os Arianos; História dos Arianos. Atanásio é fonte essencial,
mas escreve como participante e polemista; deve ser comparado com outras
testemunhas.
10.2
Eusébio de Cesareia (c. 260–339)
A
Vida de Constantino, especialmente o livro III, descreve a convocação e o
contexto do concílio. Sua carta à própria comunidade, depois de Niceia, explica
sua aceitação do credo. Eusébio é testemunha próxima dos acontecimentos, mas
também panegirista de Constantino.
10.3
Hilário de Poitiers (c. 310–367)
Em
De Trinitate, Hilário defende a divindade do Filho e procura explicar textos
bíblicos usados para sustentar a subordinação.
10.4
São Basílio Magno (c. 330–379)
Seus
tratados contra Eunômio e sua correspondência ajudaram a clarificar a linguagem
sobre a divindade do Filho e do Espírito Santo, no desenvolvimento posterior da
teologia nicena.
10.5
Gregório de Nazianzo e Gregório de Nissa
Os
discursos teológicos de Gregório de Nazianzo e os escritos trinitários de
Gregório de Nissa aprofundam a distinção das Pessoas e a unidade da natureza
divina.
10.6
Historiadores eclesiásticos
Sócrates
Escolástico, Sozomeno e Teodoreto de Ciro narram a controvérsia em histórias
eclesiásticas escritas no século V. São fontes valiosas, mas posteriores aos
eventos; suas versões devem ser comparadas e contextualizadas.
11.
O que o arianismo ameaçava, segundo a Igreja?
A
palavra “ameaça” deve ser entendida principalmente no plano doutrinal e
eclesial, não como se todo adepto fosse um agente consciente de destruição.
Para os nicenos, a doutrina comprometia cinco pontos:
· A
identidade de Jesus: Cristo deixaria de ser plenamente Deus e seria uma
criatura excelsa.
· A
salvação: se Cristo não é Deus, a união definitiva entre Deus e a humanidade
fica teologicamente comprometida.
· A
adoração: a prática cristã de honrar o Filho exigia esclarecer se ele recebia a
mesma honra divina ou uma honra inferior.
· A
leitura da Bíblia: textos sobre a preexistência, a criação e a encarnação
precisavam ser lidos em conjunto.
· A
comunhão eclesial: bispos, igrejas locais e imperadores dividiram-se, causando
deposições, exílios e rupturas.
A
controvérsia foi também uma crise de autoridade: quem tinha competência para
definir a fé comum, como os concílios eram recebidos e até onde o imperador
podia intervir. Essas questões acompanharam a história posterior da Igreja. Ao final o Papa reunido com os bispos definem as questões de fé. Não é cabível ao poder secular definir as questões de fé que dado unicamente ao Magistério da Igreja.
12.
Constantinopla (381) e o desfecho gradual
O
Concílio de Constantinopla, sob Teodósio I, reafirmou a fé nicena e é
tradicionalmente reconhecido como o segundo concílio ecumênico. A versão do
Credo hoje usada na liturgia — o Credo niceno-constantinopolitano — é mais
extensa que o símbolo de 325, especialmente na seção sobre o Espírito Santo. A
história textual exata da relação entre o texto de 381 e o credo litúrgico
posterior continua sendo objeto de estudo.
O
arianismo não desapareceu de uma vez. Correntes homoianas sobreviveram em
comunidades germânicas e em certos contextos políticos durante séculos. A
conversão de elites e reinos, a recepção da fé nicena e as mudanças políticas
contribuíram para seu declínio como alternativa institucional dominante.
O
resultado teológico não foi a invenção tardia de uma divindade para Jesus, mas
a formulação conciliar de uma convicção cristã antiga em linguagem técnica: o
Filho é verdadeiramente Deus, distinto do Pai e consubstancial a ele.
13.
Como ler criticamente a história
· Não
confundir o Credo de Niceia de 325 d.C com o Credo niceno-constantinopolitano
recitado hoje.
· Não
afirmar que existem atas completas e literais do concílio: os registros
integrais dos debates não sobreviveram.
· Não
tratar todos os adversários de Niceia como se sustentassem exatamente a mesma
teologia.
· Não
reduzir o resultado a uma decisão pessoal de Constantino; os bispos formularam
a definição, ainda que o imperador tenha exercido influência política.
· Não
usar as fontes patrísticas como se fossem relatos neutros modernos; elas são
fontes primárias indispensáveis, mas situadas no conflito.
· Distinguir
a descrição histórica da avaliação doutrinal católica: o historiador reconstrói
acontecimentos; a Igreja também avalia a compatibilidade das doutrinas com a fé
recebida.
14.
Conclusão católica
Para
a fé católica, a confissão de Niceia protege o núcleo do Evangelho: Jesus
Cristo não é apenas um profeta, anjo ou criatura superior, mas o Filho eterno
de Deus feito homem para a salvação do mundo. A Igreja reconhece no Concílio de
Niceia um marco decisivo da formulação dogmática da fé trinitária.
A
importância do episódio vai além de uma disputa antiga. Ele mostra como a
Igreja enfrentou uma crise de interpretação bíblica, desenvolveu linguagem
teológica precisa e buscou preservar simultaneamente a unidade de Deus e a
plena divindade do Filho. A história real, contudo, foi longa e turbulenta: a
decisão de 325 precisou ser defendida, explicada e recebida durante décadas.
Síntese: Niceia não
pretendeu acrescentar um segundo Deus ao Pai, mas confessar que o Filho, sem
ser o Pai, compartilha eternamente a única divindade. “Gerado, não criado;
consubstancial ao Pai” tornou-se a fórmula conciliar para expressar essa fé.
15.
Fontes primárias e documentos
1.
Concílio de Niceia (325), Credo, vinte cânones e Carta sinodal à Igreja de
Alexandria. Traduções e compilação de textos antigos disponíveis em New Advent,
“First Council of Nicaea (A.D. 325)”:
https://www.newadvent.org/fathers/3801.htm
2.
Eusébio de Cesareia, Vida de Constantino, livro III, especialmente capítulos
6–23, sobre a convocação e o ambiente do concílio.
3.
Eusébio de Cesareia, Carta à sua Igreja sobre a fórmula de fé adotada em
Niceia; preservada em coleções patrísticas.
4.
Atanásio de Alexandria, Sobre os Decretos do Concílio de Niceia (De decretis);
Contra os Arianos; História dos Arianos.
5.
Sócrates Escolástico, História Eclesiástica, livro I.
6.
Sozomeno, História Eclesiástica, livro I.
7.
Teodoreto de Ciro, História Eclesiástica, livro I.
8.
Hilário de Poitiers, De Trinitate.
9.
Basílio de Cesareia, Contra Eunômio; cartas selecionadas.
10.
Bíblia: Jo 1,1–3; Jo 8,58; Jo 14,28; Jo 20,28; Mc 13,32; Cl 1,15–20; Fl 2,6–11;
Hb 1,1–12; Pr 8,22.
16.
Bibliografia moderna para aprofundamento
ANATOLIOS,
Khaled. Retrieving Nicaea: The Development and Meaning of Trinitarian Doctrine.
Grand Rapids: Baker Academic, 2011.
AYRES,
Lewis. Nicaea and Its Legacy: An Approach to Fourth-Century Trinitarian
Theology. Oxford: Oxford University Press, 2004.
GWYNN,
David M. The Eusebians: The Polemic of Athanasius of Alexandria and the
Construction of the “Arian Controversy”. Oxford: Oxford University Press, 2007.
HANSEN,
R. P. (ed./trad.). Eusebius: The Ecclesiastical History. (Consultar edição
acadêmica e notas para o contexto das fontes antigas.)
SCHaff,
Philip. History of the Christian Church, vol. III: Nicene and Post-Nicene
Christianity. Seção sobre a controvérsia ariana e o Concílio de Niceia.
Disponível em Christian Classics Ethereal Library:
https://ccel.org/ccel/schaff/hcc3/hcc3.iii.xii.iv.html
“The
Creed of Nicaea.” The Ecumenical Review, artigo de Wolfram Kinzig (2023), sobre
a formação do credo e as fontes do concílio. DOI e acesso via Wiley Online
Library: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/erev.12782
“The
Theology of the Council of Nicaea.” St Andrews Encyclopaedia of Theology, visão
acadêmica de contexto, fontes e teologia:
https://www.saet.ac.uk/Christianity/TheTheologyoftheCouncilofNicaea
“First
Council of Nicaea.” Catholic Encyclopedia, New Advent:
https://www.newadvent.org/cathen/11044a.htm
Observação
bibliográfica: as obras antigas existem em diversas edições e traduções. Para
pesquisa acadêmica, cite a edição efetivamente consultada, incluindo tradutor,
coleção, editora, ano e páginas. As páginas web acima servem como pontos de
acesso e orientação, não substituem uma edição crítica.
17.
Cronologia essencial
· c.
318–320 — a disputa entre Ário e Alexandre de Alexandria torna-se pública.
· 325
— Constantino convoca o Concílio de Niceia; Ário é condenado e o credo niceno é
promulgado.
· 337
— morte de Constantino; a controvérsia prossegue sob seus sucessores.
· c.
340–360 — sucessivos sínodos, fórmulas concorrentes, deposições e exílios.
· 361–363
— governo de Juliano, que procura restaurar os cultos tradicionais romanos.
· 379–395
— Teodósio I favorece a fé nicena.
· 380
— Édito de Tessalônica favorece a confissão trinitária nicena.
· 381
— Concílio de Constantinopla reafirma e desenvolve a fé nicena.
· 589
— III Concílio de Toledo: conversão oficial de Recaredo e dos visigodos à fé
católica.
18.
Glossário
Arianismo: nome
amplo para a doutrina de Ário e correntes posteriores que negavam ou
enfraqueciam a plena consubstancialidade do Filho com o Pai.
Consubstancial
(homoousios): da mesma essência; no Credo de
Niceia, afirma a plena divindade do Filho.
Credo: síntese
pública, é uma profissão de fé da Igreja Católica. É professado na Igreja Católica Apostólica Romana e na Igreja Católica Ortodoxa.
Concílio ecumênico: assembleia
episcopal recebida pela Igreja como concílio universal em matéria de fé e
disciplina.
Homoiano: corrente
que preferia dizer que o Filho é “semelhante” ao Pai, evitando ou rejeitando o
termo homoousios.
Patrística: estudo
dos Padres da Igreja e de seus escritos.
Logos/Verbo: termo
do prólogo de João para o Filho eterno, que se fez carne.
[De
Elmando Toledo]
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