quinta-feira, 15 de outubro de 2026

DOCUMENTÁRIO HISTÓRICO-TEOLÓGICO SOBRE O ARIANISMO: Origem, controvérsia cristológica, imperadores, Concílio de Niceia e resposta da Igreja

 




Ilustração artística contemporânea inspirada no ambiente dos concílios do século IV; não é uma representação documental exata.

Estudo de divulgação histórica com perspectiva católica e referências para aprofundamento


 

Nota metodológica: o que sabemos e o que não chegou até nós

O arianismo foi um dos conflitos centrais do cristianismo antigo. O nome deriva de Ário (Arius), presbítero de Alexandria, mas os grupos chamados “arianos” não formaram sempre um bloco uniforme: houve diferenças entre Ário, seus apoiadores e correntes posteriores que preferiam fórmulas como “semelhante ao Pai”. Por isso, o termo é útil, mas pode simplificar uma controvérsia complexa.

Também é necessário corrigir uma expectativa comum: não possuímos uma ata estenográfica completa dos debates de Niceia (325). O que sobrevive inclui o Credo, os vinte cânones disciplinares e a carta sinodal, além de cartas imperiais e relatos de testemunhas e historiadores eclesiásticos. As narrativas posteriores devem ser lidas criticamente, comparando fontes e reconhecendo que muitos autores escreviam em meio à disputa.

A abordagem deste documento é histórica e católica, mas distingue fatos documentados, interpretações teológicas e tradições posteriores. “Seita” é aqui usado no sentido popular de grupo dissidente; para precisão histórica, é preferível falar em controvérsia, corrente ou partido teológico.

1. Resumo executivo

·       O conflito surgiu no início do século IV, especialmente em Alexandria, em torno da relação entre o Pai e o Filho.

·       Ário sustentava que o Filho não era eterno no mesmo sentido que o Pai e que fora criado ou trazido à existência por vontade do Pai; a fórmula associada a ele era: “houve quando o Filho não existia”.

·       O Concílio de Niceia, convocado pelo imperador Constantino em 325, professou que o Filho é “gerado, não criado” e “consubstancial” (homoousios) ao Pai.

·       O papa em exercício era Silvestre I (314–335). Ele não é descrito pelas fontes como presente pessoalmente; a Igreja de Roma foi representada por legados, segundo a tradição histórica.

·       A decisão de Niceia não encerrou a controvérsia. Durante décadas, imperadores e bispos favoreceram fórmulas rivais; Atanásio de Alexandria e outros defensores de Niceia sofreram deposições e exílios.

·       A formulação niceno-constantinopolitana, associada ao Concílio de Constantinopla de 381, consolidou a confissão trinitária recebida pela Igreja Católica e por muitas outras tradições cristãs.

2. Contexto histórico: o Império e a Igreja no século IV

No início do século IV, o cristianismo saía de períodos de perseguição e ganhava espaço público. O Édito de Milão (313), associado a Constantino e Licínio, concedeu tolerância religiosa e restituição de bens cristãos. Após derrotar Licínio, Constantino tornou-se o principal poder imperial e passou a intervir na busca de unidade eclesial, que considerava importante para a estabilidade do Império.

A controvérsia ariana não foi apenas uma discussão abstrata: envolveu pregação, catequese, liturgia, autoridade episcopal, rivalidades regionais, redes de patronagem e o papel do imperador. A intervenção estatal podia proteger decisões conciliares, mas também pressionar bispos, impor exílios e favorecer determinadas fórmulas. Não se deve confundir, portanto, a doutrina da Igreja com a política variável dos imperadores.

Alexandria era um centro intelectual cristão de primeira grandeza. A disputa entre Ário e seu bispo, Alexandre de Alexandria, tornou-se um conflito mais amplo porque a pergunta tocava o coração da fé cristã: quem é Jesus Cristo e como se relaciona com o Pai?

3. Quem foi Ário e quando surgiu o arianismo?

Ário (c. 256–336) era presbítero em Alexandria, no Egito. A controvérsia explodiu por volta de 318–320, durante o episcopado de Alexandre. Ário foi influenciado por debates anteriores sobre a unidade de Deus, a geração do Logos e a distinção entre Pai e Filho. A origem exata de suas ideias é discutida; atribuir todo o sistema a um único mestre ou escola seria simplificador.

Em linhas gerais, Ário defendia que o Filho, embora anterior ao restante da criação e instrumento da criação do mundo, não era coeterno nem da mesma realidade divina do Pai. O Filho teria recebido existência por vontade do Pai. Isso preservava, segundo Ário, a singularidade absoluta do Deus não gerado; para seus opositores, porém, colocava o Filho entre as criaturas e comprometia a plena divindade daquele que salva e revela o Pai.

Fórmula atribuída aos arianos nas fontes nicenas: “houve quando ele não era” e “antes de ser gerado, não era”. As expressões aparecem na carta sinodal de Niceia como resumo condenatório da posição debatida.

Os escritos de Ário sobreviveram apenas em fragmentos e citações, em grande parte transmitidos por adversários. Entre os materiais relevantes estão a carta a Eusébio de Nicomédia e trechos de sua obra Thalia, preservados por autores posteriores. Isso exige cuidado: a doutrina deve ser reconstruída comparando testemunhos, não com base em uma coleção completa de textos do próprio Ário.

4. O núcleo teológico da disputa

4.1 A pergunta fundamental

A questão não era simplesmente se Jesus era importante, divino em algum sentido ou superior aos seres humanos. O ponto era se o Filho pertence eternamente à própria identidade divina ou se é um ser produzido por Deus e, portanto, não é Deus no mesmo sentido que o Pai.

4.2 Vocabulário decisivo

·       Ousia: “essência” ou “substância”; termo filosófico usado para falar do que Deus é.

·       Homoousios: “da mesma essência” ou “consubstancial”. Em Niceia, protege a afirmação de que o Filho não é uma criatura nem um deus inferior.

·       Gerado, não criado: a geração eterna do Filho não é um acontecimento temporal nem fabricação de uma criatura.

·       Trindade: um só Deus em três Pessoas — Pai, Filho e Espírito Santo. Niceia concentrou-se sobretudo na relação do Filho com o Pai; a formulação sobre o Espírito seria desenvolvida mais explicitamente depois.

A palavra homoousios não aparece literalmente na Bíblia, mas foi adotada como termo de precisão para defender o sentido da fé bíblica contra interpretações consideradas incompatíveis com o conjunto das Escrituras. Os concílios frequentemente recorrem a vocabulário não bíblico para proteger uma afirmação bíblica.

5. Passagens bíblicas no debate

Os dois lados citavam a Bíblia. O conflito demonstra que a controvérsia não se resolvia por reunir versículos isolados, mas por interpretar cada passagem no contexto e em relação ao conjunto da fé.

5.1 Textos usados pelos arianos ou interpretados de modo subordinacionista

·       Provérbios 8,22 — “O Senhor me criou como princípio de seus caminhos” (tradução varia). A tradição ariana aplicava a Sabedoria ao Filho e entendia “criou” em sentido literal. A interpretação nicena não aceitava que o texto, poético e personificado, provasse que o Filho fosse criatura.

·       João 14,28 — “O Pai é maior do que eu”. A leitura nicena relacionava a frase à encarnação e à condição assumida pelo Filho, sem negar sua divindade.

·       Marcos 13,32 — o Filho não conhece o dia nem a hora. Os autores ortodoxos debateram como entender a passagem à luz da verdadeira humanidade de Cristo e da unidade de sua pessoa.

·       Colossenses 1,15 — Cristo é “primogênito de toda criatura”. Os nicenos entendiam “primogênito” como primazia e senhorio, sobretudo à luz dos versículos seguintes, que dizem que tudo foi criado por meio dele e para ele.

5.2 Textos centrais para a resposta nicena

·       João 1,1–3: o Verbo estava com Deus, era Deus e tudo veio a existir por meio dele. A distinção entre o Verbo e o Pai não implica que o Verbo pertença à classe das coisas criadas.

·       João 8,58: “Antes que Abraão existisse, Eu Sou”. A leitura cristã tradicional vê aqui uma afirmação de preexistência e uma alusão significativa ao nome divino.

·       João 20,28: Tomé confessa a Jesus: “Meu Senhor e meu Deus”.

·       Colossenses 1,16–17: todas as coisas foram criadas por meio de Cristo e nele tudo subsiste.

·       Hebreus 1,2–3,8–12: o Filho é o resplendor da glória de Deus; o texto aplica ao Filho linguagem elevada e cita textos do Antigo Testamento em sua honra.

·       Filipenses 2,6–11: o hino cristológico fala da condição divina de Cristo e de sua humilhação na encarnação.

Esses textos não substituem a análise exegética. A resposta nicena é uma síntese teológica: distingue Pai e Filho sem dividir a divindade e confessa a encarnação sem reduzir Cristo a uma criatura.

6. O Concílio de Niceia (325)

Constantino convocou os bispos para buscar unidade. A reunião ocorreu em Niceia, na Bitínia, em 325. As fontes antigas falam tradicionalmente em 318 bispos, mas a pesquisa moderna reconhece que o número exato é incerto; estimativas de cerca de 250 a 300 também são defendidas. O concílio tratou da controvérsia ariana, da data da Páscoa e de questões disciplinares, entre elas a situação dos meletianos.

O imperador participou e procurou uma solução de unidade, mas não era o autor da teologia conciliar. Os bispos debateram e formularam a profissão de fé. A palavra homoousios — consubstancial — tornou-se o termo-chave para excluir a ideia de que o Filho fosse uma criatura.

6.1 O Credo de Niceia de 325: trecho central

“Cremos em um só Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, gerado do Pai, unigênito, isto é, da substância do Pai; Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado, não criado, consubstancial ao Pai; por quem todas as coisas foram feitas, as que estão no céu e as que estão na terra.”

A tradução acima é uma versão em português do núcleo do texto antigo; há diferenças entre traduções. O Credo original de 325 terminava com anátemas contra fórmulas como “houve quando não era”, “veio a ser do nada” e a afirmação de que o Filho é de outra essência ou criado. Não deve ser confundido palavra por palavra com o Credo niceno-constantinopolitano recitado hoje na liturgia.

6.2 Os documentos preservados

·       Símbolo ou Credo de Niceia.

·       Vinte cânones disciplinares, sobre temas como ordenações, reconciliação de lapsos, conduta clerical e organização eclesial.

·       Carta sinodal à Igreja de Alexandria, que relata a condenação de Ário e resume as proposições rejeitadas.

·       Cartas de Eusébio de Cesareia e do imperador Constantino, preservadas em fontes antigas.

Não possuímos uma ata completa, palavra por palavra, dos debates. A afirmação de que os autos integrais sobreviveram em dezenas de volumes não é aceita pela historiografia crítica. É mais rigoroso trabalhar com os documentos que de fato chegaram até nós e com relatos antigos, sempre considerando o contexto de cada autor.

7. O Papa da época: São Silvestre I

O papa durante o Concílio de Niceia era Silvestre I, cujo pontificado durou de 314 a 335. As fontes históricas associam a Igreja de Roma ao concílio por meio de representantes ou legados. Não há evidência sólida de que Silvestre tenha viajado pessoalmente a Niceia. A tradição católica considera o concílio ecumênico e reconhece sua recepção pela Igreja; historicamente, porém, a condução prática da reunião ocorreu no Oriente e contou com a intervenção decisiva de Constantino.

É importante não atribuir ao papa discursos ou decisões individuais que as fontes não documentam. O Credo é um ato dos bispos reunidos em concílio, recebido pela Igreja; a função de Roma deve ser descrita à luz da documentação disponível, evitando tanto apagar sua participação quanto inventar detalhes.

8. A posição dos imperadores e dos reis

8.1 Constantino (306–337)

Constantino convocou Niceia e apoiou a busca de unidade. Depois do concílio, inicialmente apoiou a decisão, mas a política imperial oscilou: Ário e alguns de seus aliados voltaram a obter apoio e foram reabilitados em determinadas circunstâncias. Eusébio de Nicomédia, influente na corte, teve papel relevante. Atanásio, bispo de Alexandria e defensor de Niceia, foi deposto e exilado em mais de uma ocasião.

A atitude de Constantino não deve ser reduzida à ideia de que ele “inventou” a divindade de Cristo. A crença na divindade de Jesus era anterior ao imperador e está atestada na literatura cristã dos primeiros séculos. O imperador tentou gerir uma crise religiosa que ameaçava a unidade pública do Império.

8.2 Constâncio II (337–361)

Constâncio II favoreceu, em várias fases, bispos e fórmulas contrários ao uso niceno de homoousios. Concílios regionais, pressões políticas e exílios tornaram a disputa ainda mais intensa. O termo “ariano” foi aplicado a grupos diferentes; alguns rejeitavam que o Filho fosse da mesma essência do Pai, enquanto outros preferiam dizer que era “semelhante” ao Pai.

8.3 Juliano, o Apóstata (361–363)

Juliano procurou restaurar cultos tradicionais romanos e enfraquecer a posição privilegiada do cristianismo. A divisão interna dos cristãos também lhe ofereceu oportunidade política. Sua política não foi uma defesa teológica do arianismo, mas um projeto religioso imperial diferente.

8.4 Valente (364–378)

No Oriente, Valente favoreceu em certos momentos grupos homoianos, frequentemente classificados de modo amplo como arianos. A situação dos nicenos variou segundo região e período, e bispos foram pressionados ou exilados.

8.5 Teodósio I (379–395)

Teodósio I apoiou a fé nicena. O Édito de Tessalônica, de 380, favoreceu a confissão trinitária associada à Igreja de Roma e de Alexandria. O Concílio de Constantinopla, em 381, reafirmou a fé nicena e desenvolveu a confissão relativa ao Espírito Santo. A política imperial passou a privilegiar a ortodoxia nicena, embora a transformação religiosa do Império tenha sido gradual.

8.6 Reinos germânicos

Após as migrações e a formação de reinos pós-romanos, algumas elites visigodas, vândalas e ostrogodas professaram formas de cristianismo homoiano, enquanto as populações romanas locais eram muitas vezes nicenas. Isso gerou tensões políticas e religiosas, com intensidade variável. A conversão de Recaredo, rei visigodo, à fé católica no III Concílio de Toledo (589) é um marco importante da superação institucional do arianismo visigótico.

Não se deve falar de todos os reis como se tivessem uma posição única: as políticas mudaram de acordo com dinastias, alianças, região e circunstâncias.

9. A atitude da Igreja: condenação doutrinal, defesa da fé e conflitos políticos

A Igreja condenou a doutrina de Ário em sínodos anteriores a Niceia e, de forma decisiva, no concílio de 325. A razão teológica central era que, se o Filho fosse uma criatura, não seria plenamente Deus; isso afetaria a compreensão da salvação, da adoração cristã e da revelação do Pai em Cristo.

Atanásio de Alexandria tornou-se um dos principais defensores de Niceia. Em seus tratados, argumentou que somente Deus pode salvar e que o Verbo, por ser verdadeiramente divino, pode unir a humanidade a Deus. Foi exilado repetidas vezes. Outros defensores importantes foram Hilário de Poitiers, Basílio de Cesareia, Gregório de Nazianzo e Gregório de Nissa.

A história também inclui uso coercitivo do poder imperial: deposições, exílios e imposições políticas atingiram diferentes lados em momentos diversos. Uma narrativa responsável não deve romantizar a política eclesiástica nem concluir que a doutrina foi decidida apenas pela força. O debate foi teológico e bíblico, e as decisões conciliares foram disputadas, recebidas e reinterpretadas ao longo de décadas.

No plano católico, a resposta correta à heresia é a exposição da fé, o debate teológico, a disciplina eclesial legítima e a busca da unidade. A violência ou a coerção estatal não são argumentos teológicos e não demonstram a verdade de uma doutrina.

10. Padres da Igreja e fontes patrísticas

10.1 Santo Atanásio de Alexandria (c. 296–373)

Obras fundamentais: Contra os Arianos; Sobre os Decretos do Concílio de Niceia; Apologia contra os Arianos; História dos Arianos. Atanásio é fonte essencial, mas escreve como participante e polemista; deve ser comparado com outras testemunhas.

10.2 Eusébio de Cesareia (c. 260–339)

A Vida de Constantino, especialmente o livro III, descreve a convocação e o contexto do concílio. Sua carta à própria comunidade, depois de Niceia, explica sua aceitação do credo. Eusébio é testemunha próxima dos acontecimentos, mas também panegirista de Constantino.

10.3 Hilário de Poitiers (c. 310–367)

Em De Trinitate, Hilário defende a divindade do Filho e procura explicar textos bíblicos usados para sustentar a subordinação.

10.4 São Basílio Magno (c. 330–379)

Seus tratados contra Eunômio e sua correspondência ajudaram a clarificar a linguagem sobre a divindade do Filho e do Espírito Santo, no desenvolvimento posterior da teologia nicena.

10.5 Gregório de Nazianzo e Gregório de Nissa

Os discursos teológicos de Gregório de Nazianzo e os escritos trinitários de Gregório de Nissa aprofundam a distinção das Pessoas e a unidade da natureza divina.

10.6 Historiadores eclesiásticos

Sócrates Escolástico, Sozomeno e Teodoreto de Ciro narram a controvérsia em histórias eclesiásticas escritas no século V. São fontes valiosas, mas posteriores aos eventos; suas versões devem ser comparadas e contextualizadas.

11. O que o arianismo ameaçava, segundo a Igreja?

A palavra “ameaça” deve ser entendida principalmente no plano doutrinal e eclesial, não como se todo adepto fosse um agente consciente de destruição. Para os nicenos, a doutrina comprometia cinco pontos:

·       A identidade de Jesus: Cristo deixaria de ser plenamente Deus e seria uma criatura excelsa.

·       A salvação: se Cristo não é Deus, a união definitiva entre Deus e a humanidade fica teologicamente comprometida.

·       A adoração: a prática cristã de honrar o Filho exigia esclarecer se ele recebia a mesma honra divina ou uma honra inferior.

·       A leitura da Bíblia: textos sobre a preexistência, a criação e a encarnação precisavam ser lidos em conjunto.

·       A comunhão eclesial: bispos, igrejas locais e imperadores dividiram-se, causando deposições, exílios e rupturas.

A controvérsia foi também uma crise de autoridade: quem tinha competência para definir a fé comum, como os concílios eram recebidos e até onde o imperador podia intervir. Essas questões acompanharam a história posterior da Igreja. Ao final o Papa reunido com os bispos definem as questões de fé. Não é cabível ao poder secular definir as questões de fé que dado unicamente ao Magistério da Igreja.

12. Constantinopla (381) e o desfecho gradual

O Concílio de Constantinopla, sob Teodósio I, reafirmou a fé nicena e é tradicionalmente reconhecido como o segundo concílio ecumênico. A versão do Credo hoje usada na liturgia — o Credo niceno-constantinopolitano — é mais extensa que o símbolo de 325, especialmente na seção sobre o Espírito Santo. A história textual exata da relação entre o texto de 381 e o credo litúrgico posterior continua sendo objeto de estudo.

O arianismo não desapareceu de uma vez. Correntes homoianas sobreviveram em comunidades germânicas e em certos contextos políticos durante séculos. A conversão de elites e reinos, a recepção da fé nicena e as mudanças políticas contribuíram para seu declínio como alternativa institucional dominante.

O resultado teológico não foi a invenção tardia de uma divindade para Jesus, mas a formulação conciliar de uma convicção cristã antiga em linguagem técnica: o Filho é verdadeiramente Deus, distinto do Pai e consubstancial a ele.

13. Como ler criticamente a história

·       Não confundir o Credo de Niceia de 325 d.C com o Credo niceno-constantinopolitano recitado hoje.

·       Não afirmar que existem atas completas e literais do concílio: os registros integrais dos debates não sobreviveram.

·       Não tratar todos os adversários de Niceia como se sustentassem exatamente a mesma teologia.

·       Não reduzir o resultado a uma decisão pessoal de Constantino; os bispos formularam a definição, ainda que o imperador tenha exercido influência política.

·       Não usar as fontes patrísticas como se fossem relatos neutros modernos; elas são fontes primárias indispensáveis, mas situadas no conflito.

·       Distinguir a descrição histórica da avaliação doutrinal católica: o historiador reconstrói acontecimentos; a Igreja também avalia a compatibilidade das doutrinas com a fé recebida.

14. Conclusão católica

Para a fé católica, a confissão de Niceia protege o núcleo do Evangelho: Jesus Cristo não é apenas um profeta, anjo ou criatura superior, mas o Filho eterno de Deus feito homem para a salvação do mundo. A Igreja reconhece no Concílio de Niceia um marco decisivo da formulação dogmática da fé trinitária.

A importância do episódio vai além de uma disputa antiga. Ele mostra como a Igreja enfrentou uma crise de interpretação bíblica, desenvolveu linguagem teológica precisa e buscou preservar simultaneamente a unidade de Deus e a plena divindade do Filho. A história real, contudo, foi longa e turbulenta: a decisão de 325 precisou ser defendida, explicada e recebida durante décadas.

Síntese: Niceia não pretendeu acrescentar um segundo Deus ao Pai, mas confessar que o Filho, sem ser o Pai, compartilha eternamente a única divindade. “Gerado, não criado; consubstancial ao Pai” tornou-se a fórmula conciliar para expressar essa fé.

15. Fontes primárias e documentos

1. Concílio de Niceia (325), Credo, vinte cânones e Carta sinodal à Igreja de Alexandria. Traduções e compilação de textos antigos disponíveis em New Advent, “First Council of Nicaea (A.D. 325)”: https://www.newadvent.org/fathers/3801.htm

2. Eusébio de Cesareia, Vida de Constantino, livro III, especialmente capítulos 6–23, sobre a convocação e o ambiente do concílio.

3. Eusébio de Cesareia, Carta à sua Igreja sobre a fórmula de fé adotada em Niceia; preservada em coleções patrísticas.

4. Atanásio de Alexandria, Sobre os Decretos do Concílio de Niceia (De decretis); Contra os Arianos; História dos Arianos.

5. Sócrates Escolástico, História Eclesiástica, livro I.

6. Sozomeno, História Eclesiástica, livro I.

7. Teodoreto de Ciro, História Eclesiástica, livro I.

8. Hilário de Poitiers, De Trinitate.

9. Basílio de Cesareia, Contra Eunômio; cartas selecionadas.

10. Bíblia: Jo 1,1–3; Jo 8,58; Jo 14,28; Jo 20,28; Mc 13,32; Cl 1,15–20; Fl 2,6–11; Hb 1,1–12; Pr 8,22.

16. Bibliografia moderna para aprofundamento

ANATOLIOS, Khaled. Retrieving Nicaea: The Development and Meaning of Trinitarian Doctrine. Grand Rapids: Baker Academic, 2011.

AYRES, Lewis. Nicaea and Its Legacy: An Approach to Fourth-Century Trinitarian Theology. Oxford: Oxford University Press, 2004.

GWYNN, David M. The Eusebians: The Polemic of Athanasius of Alexandria and the Construction of the “Arian Controversy”. Oxford: Oxford University Press, 2007.

HANSEN, R. P. (ed./trad.). Eusebius: The Ecclesiastical History. (Consultar edição acadêmica e notas para o contexto das fontes antigas.)

SCHaff, Philip. History of the Christian Church, vol. III: Nicene and Post-Nicene Christianity. Seção sobre a controvérsia ariana e o Concílio de Niceia. Disponível em Christian Classics Ethereal Library: https://ccel.org/ccel/schaff/hcc3/hcc3.iii.xii.iv.html

“The Creed of Nicaea.” The Ecumenical Review, artigo de Wolfram Kinzig (2023), sobre a formação do credo e as fontes do concílio. DOI e acesso via Wiley Online Library: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/erev.12782

“The Theology of the Council of Nicaea.” St Andrews Encyclopaedia of Theology, visão acadêmica de contexto, fontes e teologia: https://www.saet.ac.uk/Christianity/TheTheologyoftheCouncilofNicaea

“First Council of Nicaea.” Catholic Encyclopedia, New Advent: https://www.newadvent.org/cathen/11044a.htm

Observação bibliográfica: as obras antigas existem em diversas edições e traduções. Para pesquisa acadêmica, cite a edição efetivamente consultada, incluindo tradutor, coleção, editora, ano e páginas. As páginas web acima servem como pontos de acesso e orientação, não substituem uma edição crítica.

17. Cronologia essencial

·       c. 318–320 — a disputa entre Ário e Alexandre de Alexandria torna-se pública.

·       325 — Constantino convoca o Concílio de Niceia; Ário é condenado e o credo niceno é promulgado.

·       337 — morte de Constantino; a controvérsia prossegue sob seus sucessores.

·       c. 340–360 — sucessivos sínodos, fórmulas concorrentes, deposições e exílios.

·       361–363 — governo de Juliano, que procura restaurar os cultos tradicionais romanos.

·       379–395 — Teodósio I favorece a fé nicena.

·       380 — Édito de Tessalônica favorece a confissão trinitária nicena.

·       381 — Concílio de Constantinopla reafirma e desenvolve a fé nicena.

·       589 — III Concílio de Toledo: conversão oficial de Recaredo e dos visigodos à fé católica.

18. Glossário

Arianismo: nome amplo para a doutrina de Ário e correntes posteriores que negavam ou enfraqueciam a plena consubstancialidade do Filho com o Pai.

Consubstancial (homoousios): da mesma essência; no Credo de Niceia, afirma a plena divindade do Filho.

Credo: síntese pública, é uma profissão de fé da Igreja Católica. É professado na Igreja Católica Apostólica Romana e na Igreja Católica Ortodoxa.  

Concílio ecumênico: assembleia episcopal recebida pela Igreja como concílio universal em matéria de fé e disciplina.

Homoiano: corrente que preferia dizer que o Filho é “semelhante” ao Pai, evitando ou rejeitando o termo homoousios.

Patrística: estudo dos Padres da Igreja e de seus escritos.

Logos/Verbo: termo do prólogo de João para o Filho eterno, que se fez carne.

 

[De Elmando Toledo]

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