ESTUDO HISTÓRICO, BÍBLICO E TEOLÓGICO
Do mundo bíblico antigo à definição dos cânones cristãos
Apresentação e objetivos
Este estudo apresenta a
formação da Bíblia como processo histórico, religioso e comunitário. Examina a
origem dos escritos, a transmissão dos textos, a tradução grega conhecida como
Septuaginta, a formação dos cânones judaicos e cristãos, os concílios e listas
antigas, os livros deuterocanônicos, os escritos apócrifos e pseudepígrafos, a
Vulgata latina, a imprensa de Gutenberg, a diferença entre os cânones católico
e protestante e a natureza dos Evangelhos Sinóticos.
A abordagem principal é
católica, mas procura distinguir com rigor os dados históricos, as afirmações
de fé e as posições de outras tradições cristãs. A história do cânon não deve
ser reduzida à ideia de que um único concílio escolheu arbitrariamente os livros
da Bíblia. O processo foi gradual: comunidades receberam, copiaram,
proclamaram, rezaram e reconheceram determinados escritos como normativos;
listas e decisões eclesiais vieram explicitar e estabilizar essa recepção.
Nota metodológica: termos
que exigem cuidado
As palavras “apócrifo”,
“deuterocanônico” e “pseudepígrafo” não são sinônimos. Seu significado varia
conforme a tradição e o período. “Apócrifo” pode designar, em linguagem
protestante, os livros que católicos chamam de deuterocanônicos; em estudos do
Novo Testamento, costuma designar escritos cristãos antigos não recebidos no
cânon. “Pseudepígrafo” descreve uma obra atribuída a uma personagem antiga que,
segundo a pesquisa histórica, não foi seu autor real. Nem todo pseudepígrafo é
herético, e nem todo apócrifo é falsificação mal-intencionada.
Sumário
· 1. O que é a Sagrada
Escritura e o que significa cânon
· 2. Como se formou a Bíblia
hebraica e o Antigo Testamento cristão
· 3. A Septuaginta e a
tradução dos Setenta
· 4. Os critérios de
reconhecimento dos livros inspirados
· 5. A formação do cânon do
Novo Testamento
· 6. Concílios, sínodos e
testemunhos antigos
· 7. Deuterocanônicos: quais
são, história e razões da recepção católica
· 8. Apócrifos,
pseudepígrafos e escritos não canônicos
· 9. São Jerônimo e a
Vulgata latina
· 10. A Reforma e a Bíblia
protestante
· 11. A primeira grande
Bíblia impressa: Gutenberg
· 12. Os Evangelhos
Sinóticos
· 13. Síntese cronológica,
conclusões e bibliografia
1. O que é a Sagrada Escritura e o que significa cânon
A Bíblia não é um livro
único escrito de uma só vez, mas uma biblioteca de escritos produzidos ao longo
de muitos séculos, em contextos históricos, linguísticos e literários diversos.
Reúne narrativas, leis, poesia, provérbios, profecias, evangelhos, cartas e
literatura apocalíptica. Para a fé cristã, esses livros são recebidos como
Palavra de Deus escrita sob a inspiração do Espírito Santo.
A palavra “cânon” vem do
grego kanōn, originalmente “cana”, “régua” ou “medida”; por extensão, passou a
significar regra ou norma. Aplicada à Bíblia, designa a lista dos livros
reconhecidos como Sagrada Escritura. A canonicidade não é idêntica à autoria, à
antiguidade ou à utilidade espiritual: um texto pode ser antigo, edificante e
historicamente valioso sem pertencer ao cânon.
Na doutrina católica, Deus
é autor da Escritura, mas os hagiógrafos — autores humanos — escreveram como
verdadeiros autores, utilizando suas capacidades, línguas, estilos e
circunstâncias. A Constituição Dei Verbum, n. 11, afirma que os livros
inteiros, com todas as suas partes, são sagrados e canônicos porque escritos
sob a inspiração do Espírito Santo e confiados à Igreja.
A inspiração é uma
afirmação teológica; a crítica histórica, por sua vez, investiga a composição,
as fontes, a transmissão manuscrita, o gênero literário e o contexto dos
textos. As duas abordagens não precisam ser confundidas: a pesquisa histórica
não mede a ação divina, mas ajuda a compreender os meios humanos pelos quais os
textos chegaram até nós.
2. Como se formou a Bíblia hebraica e
o Antigo Testamento cristão
O Antigo Testamento nasceu
no interior da história de Israel e de Judá. A tradição judaica organiza suas
Escrituras em três grandes conjuntos: Torá (Lei), Nevi’im (Profetas) e Ketuvim
(Escritos), formando o acrônimo Tanakh. A Torá adquiriu autoridade muito cedo;
os Profetas foram recebidos como coleção; os Escritos reuniram obras de gêneros
e épocas diferentes. A consolidação das fronteiras exatas do conjunto ocorreu
ao longo de um processo complexo, e não em uma única reunião documentada.
É comum falar de um “cânon
de Jâmnia” ou “concílio de Jâmnia” por volta do ano 90 d.C. como se ali os
rabinos tivessem fechado definitivamente a Bíblia judaica. A pesquisa atual
recomenda cautela: houve debates rabínicos em Yavne/Jâmnia sobre livros como
Cântico dos Cânticos e Eclesiastes, mas não há evidência segura de um concílio
formal que tenha promulgado, de uma vez, uma lista definitiva equivalente ao
cânon judaico posterior.
No século I, judeus não
utilizavam todos necessariamente uma coleção idêntica em extensão e forma. Os
manuscritos de Qumran mostram diversidade textual e a circulação de obras que
depois não integraram o cânon rabínico. Fílon de Alexandria, Josefo e o Novo
Testamento testemunham o uso de Escrituras judaicas, mas não fornecem, cada um
isoladamente, uma lista completa e inequívoca igual à atual.
Os cristãos herdaram as
Escrituras de Israel, mas muitos dos primeiros cristãos liam-nas em grego. A
Igreja antiga recebeu amplamente a Bíblia grega, a Septuaginta, cuja coleção e
ordem não coincidiam perfeitamente com a forma hebraica posteriormente padronizada.
Daí uma diferença histórica importante: a Bíblia católica conserva livros que
foram transmitidos na tradição grega e latina, enquanto a maioria das tradições
protestantes adotou para o Antigo Testamento a lista correspondente ao cânon
hebraico.
3. A Septuaginta e a tradução dos
Setenta
Septuaginta (do latim
septuaginta, “setenta”) é o nome tradicional da tradução grega das Escrituras
judaicas. A tradução começou em Alexandria, no Egito, no século III a.C., com a
Torá, para atender comunidades judaicas de língua grega. Outros livros foram
traduzidos ou compostos em grego em períodos posteriores. Portanto, a
Septuaginta não surgiu como uma tradução integral concluída de uma só vez.
A chamada Carta de
Aristeias conta que setenta e dois sábios judeus, seis de cada tribo, foram
enviados de Jerusalém a Alexandria a pedido de Ptolomeu II Filadelfo. A
narrativa é importante para a história da recepção da tradução, mas os
estudiosos a tratam como relato literário com elementos lendários, não como ata
contemporânea plenamente verificável. A tradição dos setenta e dois tradutores
explica o nome “Setenta”; a forma abreviada LXX tornou-se corrente.
A Septuaginta é relevante
por três razões. Primeiro, foi a Bíblia de muitos judeus da diáspora. Segundo,
foi amplamente utilizada pelos autores cristãos antigos e citada no Novo
Testamento. Terceiro, preserva formas textuais e livros que não aparecem na coleção
hebraica rabínica. Em certos livros, a versão grega difere do texto hebraico
massorético não apenas na língua, mas também na extensão, na ordem e em
variantes textuais.
Não se deve afirmar que
todos os livros deuterocanônicos foram simplesmente traduzidos do hebraico para
o grego. Sabedoria e 2 Macabeus, por exemplo, foram compostos em grego; partes
de outros livros têm história textual complexa. Eclesiástico/Sirácida foi
escrito originalmente em hebraico, embora sua transmissão tenha incluído
tradução grega. Tobias e partes de outros livros são conhecidos por testemunhos
em diferentes línguas.
4. Quais critérios a Igreja utilizou
para reconhecer os livros inspirados
Não existiu uma comissão
antiga que aplicasse uma lista mecânica de critérios a todos os livros. O
reconhecimento foi progressivo, baseado na recepção das comunidades, na leitura
litúrgica, na relação com a tradição apostólica e na coerência com a regra da
fé. A formulação posterior dos critérios procurou explicar uma prática eclesial
que já estava em desenvolvimento.
· Apostolicidade: ligação
com os apóstolos, seja por autoria atribuída a um apóstolo, seja por testemunho
de alguém próximo do círculo apostólico. Marcos foi associado à pregação de
Pedro; Lucas, à missão de Paulo.
· Conformidade com a regra
da fé: o conteúdo deveria estar em continuidade com a fé recebida nas Igrejas,
e não promover ensinamentos incompatíveis com a proclamação apostólica.
· Uso e recepção eclesial:
leitura pública e contínua nas comunidades, especialmente na liturgia, e
reconhecimento amplo entre Igrejas de regiões distintas.
· Antiguidade e proximidade
da era apostólica: a proximidade temporal era um indício importante, embora não
funcionasse isoladamente.
· Testemunho e transmissão:
a circulação antiga, a atribuição recebida e o uso por escritores cristãos
contribuíam para o discernimento.
Esses elementos não
funcionavam como uma votação popular nem como simples teste de ortodoxia
imposto retrospectivamente. A Igreja acreditava reconhecer, sob a assistência
do Espírito Santo, a autoridade de escritos recebidos na tradição apostólica.
Um livro podia ser muito apreciado e ainda assim não ser considerado canônico.
O Pastor de Hermas, por exemplo, foi lido em algumas comunidades, mas não foi
incluído no cânon definitivo.
5. A formação do cânon do Novo
Testamento
Os escritos do Novo
Testamento foram produzidos no século I. As cartas de Paulo são, em geral, os
documentos cristãos mais antigos preservados. Os Evangelhos foram redigidos
algumas décadas depois da morte e ressurreição de Jesus. Atos, cartas católicas
e Apocalipse circularam em comunidades diferentes. Desde cedo, Igrejas copiavam
e trocavam escritos apostólicos, mas a lista de 27 livros não aparece completa
e universalmente atestada desde o primeiro momento.
No século II, os quatro
Evangelhos ganharam reconhecimento especial. Irineu de Lião, por volta de 180,
defendeu a autoridade dos quatro Evangelhos. O Fragmento Muratoriano, documento
cuja data e origem são discutidas, geralmente situado no fim do século II,
apresenta uma lista antiga de escritos cristãos recebidos em Roma ou em seu
entorno. Não coincide em todos os detalhes com o cânon atual.
Eusébio de Cesareia, no
início do século IV, classificou livros em categorias: reconhecidos, discutidos
e rejeitados. Entre os discutidos estavam Hebreus, Tiago, Judas, 2 Pedro, 2 e 3
João e Apocalipse, conforme as regiões e testemunhos. Essa classificação
demonstra que a recepção não foi uniforme em todos os lugares.
A Carta Festal 39 de
Atanásio de Alexandria, de 367, apresenta a primeira lista preservada que
coincide exatamente com os 27 livros do Novo Testamento atual. Isso não
significa que Atanásio tenha criado esses livros ou que todos os cristãos os
tenham aceitado imediatamente; significa que sua lista é um testemunho decisivo
de uma recepção já amadurecida.
6. Concílios, sínodos e testemunhos
antigos
|
Data /
testemunho |
Importância
histórica |
|
c. 180–200 —
Fragmento Muratoriano |
Uma das listas mais
antigas de livros cristãos; preserva sinais de debates e recepções regionais. |
|
c. 325 —
Concílio de Niceia |
Tratou principalmente da controvérsia ariana e da
fé cristológica; não há evidência histórica de que tenha votado ou definido o
cânon bíblico. |
|
367 — Atanásio,
Carta Festal 39 |
Lista os 27 livros
do Novo Testamento como canônicos. |
|
382 — Sínodo de
Roma (lista associada a Dâmaso) |
Uma lista canônica é tradicionalmente vinculada
ao sínodo; a história documental de sua atribuição exige cautela. |
|
393 — Sínodo de
Hipona |
Testemunho regional
norte-africano sobre os livros recebidos; sua lista é próxima da tradição
latina. |
|
397 e 419 —
Concílios de Cartago |
Reafirmaram listas de livros para leitura na
Igreja; decisões regionais importantes, não um concílio ecumênico universal. |
|
1442 — Concílio
de Florença |
O Decreto para os
Jacobitas enumera os livros recebidos pela Igreja, antes de Trento. |
|
1546 — Concílio
de Trento, Sessão IV |
Definiu solenemente o cânon recebido pela Igreja
Católica, incluindo os deuterocanônicos. |
|
1870 — Concílio
Vaticano I |
Reafirmou a doutrina
da inspiração e da recepção dos livros sagrados. |
|
1965 — Concílio
Vaticano II, Dei Verbum |
Expôs a doutrina católica da inspiração,
interpretação e transmissão da Revelação. |
É incorreto dizer que o
Concílio de Niceia escolheu os livros da Bíblia, que os bispos colocaram livros
sobre uma mesa e os que caíram foram excluídos, ou que a Bíblia foi inventada
no século IV. Essas narrativas não têm base documental confiável. Niceia foi
convocado para enfrentar a crise ariana; a história do cânon é anterior e
posterior a ele.
7. Os livros deuterocanônicos: quais
são, quando e por que foram recebidos
“Deuterocanônico” é um
termo teológico posterior, usado para livros cuja condição canônica foi objeto
de debate em certos períodos e regiões, mas que a Igreja Católica reconhece
plenamente como inspirados. O prefixo “deutero” não significa que sejam menos
inspirados, inferiores ou acrescentados tardiamente à fé; indica que sua
recepção foi mais discutida em comparação com os protocanônicos.
No Antigo Testamento
católico, os sete livros deuterocanônicos são: Tobias, Judite, Sabedoria,
Eclesiástico (Sirácida), Baruc, 1 Macabeus e 2 Macabeus. Além deles, a Igreja
recebe partes gregas de Ester e Daniel: em Daniel, a Oração de Azarias e o
Cântico dos Três Jovens, Susana e Bel e o Dragão; em Ester, passagens
adicionais presentes na forma grega.
A Igreja não afirma que
esses livros tenham sido “inventados” ou inseridos pela primeira vez em 1546.
Eles circularam na tradição judaica helenística, foram transmitidos em
manuscritos gregos e latinos, utilizados por escritores cristãos e incorporados
à prática litúrgica de amplas regiões da Igreja. Houve, contudo, autores
antigos que preferiram a lista hebraica ou expressaram reservas. Jerônimo é o
exemplo mais conhecido: valorizava o texto hebraico como base para a tradução
do Antigo Testamento e distinguiu livros eclesiásticos de livros canônicos
segundo a lista hebraica, embora tenha traduzido ou incorporado alguns textos
na tradição latina.
A decisão de Trento, em 8
de abril de 1546, não foi uma adição arbitrária. Em contexto de controvérsia
com a Reforma, o concílio declarou formalmente a lista que a Igreja Católica
deveria receber como sagrada e canônica, apoiando-se na tradição e no uso eclesial.
A lista já havia sido enumerada em Florença (1442) e em testemunhos conciliares
antigos do Ocidente. Trento definiu a questão com autoridade dogmática diante
das disputas do século XVI.
Por que a Igreja Católica os
considera canônicos?
· Porque foram recebidos e
transmitidos na tradição bíblica e litúrgica da Igreja, especialmente na forma
grega e latina das Escrituras.
· Porque a Igreja reconhece
neles testemunho inspirado da história da salvação e da fé de Israel no período
que antecedeu Cristo.
· Porque a decisão conciliar
não se baseou em uma única citação isolada, mas na recepção eclesial, na
tradição dos Padres e na autoridade da Igreja para discernir o depósito da fé.
· Porque a definição de
Trento confirmou o cânon recebido, não uma nova revelação nem uma ampliação de
última hora.
O que esses livros ensinam
|
Livro |
Conteúdo e
contribuição teológica |
|
Tobias |
Providência,
fidelidade familiar, oração, caridade, casamento e auxílio angélico. |
|
Judite |
Coragem, confiança em Deus e libertação do povo
diante de uma ameaça militar. |
|
Sabedoria |
Justiça,
imortalidade, destino dos justos, sabedoria divina e crítica à idolatria. |
|
Eclesiástico /
Sirácida |
Sabedoria prática, educação moral, culto,
amizade, família e memória dos antepassados. |
|
Baruc |
Confissão,
conversão, sabedoria e esperança de restauração. |
|
1 Macabeus |
Resistência judaica, perseguição religiosa e luta
pela liberdade de culto no século II a.C. |
|
2 Macabeus |
Martírio,
ressurreição, oração pelos mortos e fidelidade à Lei. |
Uma observação: a
expressão “deuterocanônico” também é usada para alguns livros do Novo
Testamento cuja recepção foi discutida em certas regiões, como Hebreus, Tiago,
Judas, 2 Pedro, 2 e 3 João e Apocalipse. No uso católico popular, porém, o
termo costuma referir-se sobretudo aos livros do Antigo Testamento.
8. Apócrifos, pseudepígrafos e
escritos não canônicos
A classificação depende da
tradição. Para católicos, os livros de Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico,
Baruc e Macabeus são canônicos, não “apócrifos” no sentido de livros
rejeitados. Em muitas Bíblias protestantes, esses mesmos livros são chamados de
Apócrifos. Em estudos acadêmicos, é comum usar “literatura judaica do Segundo
Templo”, “apócrifos do Antigo Testamento” ou “pseudepígrafos” para obras
judaicas antigas que não entraram no cânon hebraico ou cristão.
8.1 Escritos judaicos
antigos frequentemente chamados de pseudepígrafos
· 1 Enoque: coleção
apocalíptica atribuída a Enoque; preservada integralmente em etíope e conhecida
em fragmentos aramaicos de Qumran. É canônica na Igreja Ortodoxa Etíope, mas
não no cânon católico ou na maioria dos cânones protestantes.
· Jubileus: reconta partes
de Gênesis e Êxodo com cronologia e leis próprias; foi importante em certos
círculos judaicos antigos.
· Testamentos dos Doze
Patriarcas: obra composta em camadas, atribuída aos filhos de Jacó.
· Salmos de Salomão: coleção
judaica de salmos, importante para compreender expectativas messiânicas.
· Assunção de Moisés e 4
Esdras: obras apocalípticas que refletem crises e esperanças judaicas.
8.2 Escritos cristãos
antigos não incluídos no Novo Testamento
· Evangelho de Tomé: coleção
de ditos atribuídos a Jesus; não é um quinto Evangelho canônico e sua datação e
composição são debatidas.
· Protoevangelho de Tiago:
narrativa sobre o nascimento e a infância de Maria e Jesus; influenciou
tradições devocionais, mas não é canônico.
· Evangelho de Pedro:
narrativa da Paixão e Ressurreição, com elementos não recebidos na tradição
canônica.
· Evangelho de Judas: texto
associado a correntes gnósticas, conhecido por manuscrito copta; não representa
a fé apostólica normativa.
· Atos de Paulo e Tecla:
narrativa cristã antiga de caráter edificante, mas não reconhecida como
Escritura.
· Pastor de Hermas: obra
moral e visionária muito lida em algumas comunidades, mas situada fora do cânon
final.
8.3 Por que não entraram no
cânon?
Não há uma única razão
aplicável a todos os textos. Alguns são tardios em relação à era apostólica;
outros não tinham vínculo apostólico reconhecido; alguns circularam apenas em
grupos restritos; outros apresentavam teologia incompatível com a regra da fé
recebida; e muitos eram lidos como edificantes, mas não proclamados como
Escritura na liturgia. A exclusão canônica não significa que cada obra seja
inútil, falsa em todos os seus dados ou proibida de ser estudada.
“Pseudepígrafo” é uma
categoria literária, não uma sentença automática de heresia. Na Antiguidade,
atribuir uma obra a uma figura venerada podium funcionar como convenção
literária; a crítica moderna investiga se a atribuição é histórica. A Igreja
distingue esses escritos da Escritura inspirada, mas historiadores podem
utilizá-los para estudar crenças, debates e devoções antigas.
9. São Jerônimo e a Vulgata latina
No final do século IV, o
Papa Dâmaso confiou a Jerônimo a revisão da Bíblia latina usada nas comunidades
ocidentais. Jerônimo revisou os Evangelhos com atenção ao texto grego e,
depois, traduziu grande parte do Antigo Testamento diretamente do hebraico. Seu
trabalho ocorreu aproximadamente entre as décadas de 380 e 405. A coleção
latina que se consolidou recebeu o nome de Vulgata, isto é, versão “comum” ou
amplamente difundida.
Jerônimo defendia a
importância do texto hebraico para o Antigo Testamento e utilizava a expressão
hebraica veritas para indicar a prioridade do texto hebraico em certas questões
textuais. Em seus prólogos, distinguiu os livros presentes na Bíblia hebraica
daqueles lidos pela Igreja para edificação. Essa posição gerou debates, pois a
prática litúrgica latina continuou a transmitir livros deuterocanônicos. Em
alguns casos, livros não traduzidos integralmente por Jerônimo foram mantidos
na Vulgata a partir de versões latinas anteriores.
A Vulgata não foi uma
tradução inteiramente nova feita por uma só pessoa em um único momento. É uma
tradição textual que passou por revisão, cópia, correções e padronizações
medievais. No século XIII, a forma conhecida como Bíblia parisiense contribuiu
para a organização do texto em volumes, capítulos e aparato de uso
universitário.
O Concílio de Trento, na
Sessão IV, declarou a antiga edição Vulgata autêntica para o uso público da
Igreja latina em questões de fé e costumes, sem afirmar que cada leitura da
Vulgata fosse superior a todo manuscrito hebraico ou grego. A decisão visava estabelecer
uma referência eclesial estável. A edição crítica moderna da Vulgata, a Nova
Vulgata, foi promulgada após o Concílio Vaticano II.
10. A Reforma e a Bíblia protestante
A maioria das Bíblias
protestantes contém 66 livros: 39 no Antigo Testamento e 27 no Novo. A Bíblia
católica contém 73: 46 no Antigo Testamento e 27 no Novo. A diferença está no
Antigo Testamento, não no Novo. A Reforma do século XVI reabriu uma controvérsia
antiga sobre a relação entre a coleção hebraica e a tradição grega recebida
pelos cristãos.
Martinho Lutero adotou
para o Antigo Testamento a lista correspondente à Bíblia hebraica. Em sua
Bíblia alemã, publicada completa em 1534, colocou os livros que chamou de
“Apócrifos” em seção separada, descrevendo-os como livros que não eram
considerados iguais à Sagrada Escritura, mas úteis e bons para leitura.
Portanto, é historicamente impreciso afirmar que Lutero simplesmente os apagou
de todas as edições desde o início.
A decisão protestante
relacionou-se à preferência pelo cânon hebraico, à influência de Jerônimo e a
disputas doutrinais da Reforma. 2 Macabeus 12, por exemplo, era citado na
tradição católica em relação à oração pelos mortos. Reformadores que não
reconheciam o mesmo estatuto canônico do livro não aceitavam que ele
fundamentasse uma doutrina. Gerald Bray observa que os reformadores retomaram a
antiga discussão entre Agostinho e Jerônimo e que a recepção protestante dos
Apócrifos variou: alguns reformadores reconheciam seu valor, embora não os
colocassem no mesmo nível dos livros canônicos.
No século XIX, muitas
Sociedades Bíblicas passaram a publicar Bíblias protestantes sem a seção dos
Apócrifos, por razões confessionais, editoriais e econômicas. A tradição
anglicana e algumas outras comunidades conservaram leituras litúrgicas ou
edições com os Apócrifos, embora não necessariamente lhes atribuam a mesma
autoridade doutrinal.

A diferença entre os
cânones deve ser apresentada com honestidade: católicos não afirmam que os
protestantes tenham removido livros do Novo Testamento; protestantes, por sua
vez, entendem que os livros deuterocanônicos não pertencem ao cânon inspirado
do Antigo Testamento. O desacordo é histórico e teológico, ligado à autoridade
da tradição, à recepção e à interpretação das fontes antigas.
11. A primeira grande Bíblia
impressa: Gutenberg
A chamada Bíblia de
Gutenberg, impressa em Mainz, por volta de 1454–1455, é considerada a primeira
grande Bíblia produzida na Europa com tipos móveis metálicos. Era uma Bíblia
latina baseada na tradição da Vulgata. A Biblioteca do Congresso estima que tenham
sido produzidos cerca de 180 exemplares, em papel e pergaminho, embora os
números sejam estimativas históricas.
É importante não chamá-la
de primeiro livro impresso do mundo: técnicas de impressão com tipos móveis já
existiam na Ásia antes de Gutenberg. Sua importância está em ter inaugurado uma
nova escala de produção tipográfica na Europa ocidental. A impressão facilitou
a circulação de textos, a comparação de exemplares e, posteriormente, a
expansão de traduções bíblicas e debates religiosos.
A Bíblia de Gutenberg não
criou o cânon nem foi a primeira Bíblia existente. Manuscritos bíblicos
completos ou parciais circularam por muitos séculos. A imprensa alterou a
reprodução e a difusão do texto, não a origem dos livros.
12. Os Evangelhos Sinóticos
Mateus, Marcos e Lucas são
chamados Sinóticos porque podem ser colocados em paralelo e apresentam grande
quantidade de material, sequência narrativa e formulações semelhantes. A
palavra vem do grego syn-opsis, “visão conjunta”. João possui estrutura, linguagem
e seleção narrativa bastante diferentes, embora também testemunhe a fé cristã
em Jesus.
A questão sinótica procura
explicar as semelhanças e diferenças entre os três primeiros Evangelhos. A
hipótese mais aceita em grande parte da pesquisa contemporânea é a prioridade
de Marcos: Mateus e Lucas utilizaram Marcos como uma de suas fontes. Como Mateus
e Lucas também compartilham ditos de Jesus ausentes em Marcos, muitos
estudiosos propõem uma fonte hipotética de ditos chamada Q (do alemão Quelle,
“fonte”). Há outras hipóteses, como a hipótese das duas fontes, a hipótese de
Farrer e modelos de tradição oral.
|
Evangelho |
Características
gerais |
Ênfases
frequentes |
|
Mateus |
Organiza o ensino de
Jesus em grandes discursos; utiliza muitas citações e alusões às Escrituras
de Israel. |
Jesus como Messias e
cumprimento das Escrituras; Reino dos Céus; discipulado e comunidade. |
|
Marcos |
Narrativa concisa, dinâmica e marcada por ações;
provavelmente o mais antigo dos três. |
Identidade de Jesus revelada no caminho da cruz;
incompreensão dos discípulos; discipulado. |
|
Lucas |
Narrativa ordenada,
com atenção a personagens marginalizados e à extensão da salvação. |
Misericórdia,
oração, Espírito Santo, pobres, mulheres e universalidade da missão. |
A prioridade de Marcos é
uma hipótese histórico-literária, não um dogma de fé. A hipótese Q também é uma
reconstrução acadêmica, não um documento encontrado. A Igreja não exige que se
adote uma teoria específica sobre as fontes para confessar a inspiração dos
Evangelhos. O Catecismo e a Dei Verbum reconhecem que os evangelistas
selecionaram, sintetizaram e organizaram tradições sobre Jesus, mantendo a
intenção de transmitir fielmente o que receberam.
13. Linha do tempo resumida

|
Período |
Marco |
|
séc. III a.C. |
Início da tradução
grega da Torá em Alexandria. |
|
séc. II–I a.C. |
Traduções e composições gregas de outros livros;
circulação da Septuaginta em expansão. |
|
séc. I d.C. |
Composição dos
escritos do Novo Testamento e circulação entre as Igrejas. |
|
séc. II |
Reconhecimento dos quatro Evangelhos; listas e
debates sobre escritos apostólicos. |
|
367 |
Atanásio apresenta
lista correspondente aos 27 livros do Novo Testamento. |
|
393–419 |
Sínodos africanos de Hipona e Cartago testemunham
a recepção regional do cânon. |
|
séc. IV–V |
Trabalho de Jerônimo
e consolidação gradual da tradição latina da Vulgata. |
|
1442 |
Concílio de Florença enumera os livros recebidos
pela Igreja. |
|
1546 |
Concílio de Trento
define solenemente o cânon católico. |
|
1454–1455 |
Impressão da Bíblia de Gutenberg em Mainz. |
14. Conclusões
A Bíblia é fruto de uma
longa história de revelação, composição, transmissão e recepção. O cânon não
surgiu de uma decisão isolada, mas de um processo em que comunidades judaicas e
cristãs reconheceram determinados escritos como normativos. A Igreja Católica
entende que o Espírito Santo a assistiu nesse discernimento e que os concílios
explicitaram uma tradição recebida.
A Septuaginta foi decisiva
para a vida dos judeus de língua grega e para a Igreja antiga. A Vulgata
tornou-se referência fundamental no Ocidente latino. Os deuterocanônicos não
foram inventados no Concílio de Trento: foram recebidos na tradição cristã, embora
sua autoridade tenha sido debatida por alguns autores e regiões. Trento
encerrou oficialmente a controvérsia para a Igreja Católica no contexto da
Reforma.
Os escritos apócrifos e
pseudepígrafos são fontes valiosas para a história das ideias religiosas, mas
não se confundem automaticamente com a Escritura inspirada. A Bíblia
protestante reflete uma opção confessional pelo cânon hebraico para o Antigo
Testamento, enquanto a Bíblia católica conserva a coleção recebida na tradição
grega e latina. Os Evangelhos Sinóticos, por fim, mostram como a memória
apostólica foi transmitida e organizada em formas literárias distintas.
15. Bibliografia e fontes para
aprofundamento
Fontes primárias e
documentos da Igreja
· BÍBLIA SAGRADA. Edições
católicas com livros deuterocanônicos; consultar também edições críticas dos
textos hebraico, aramaico e grego.
· CONCÍLIO DE TRENTO. Sessão
IV (8 de abril de 1546): Decreto sobre os livros sagrados e sobre as tradições
recebidas. Texto latino e traduções em coleções de concílios.
· CONCÍLIO VATICANO II.
Constituição dogmática Dei Verbum sobre a Revelação Divina, especialmente nn.
7–13. 18 nov. 1965.
· ATALÁSIO DE ALEXANDRIA.
Carta Festal 39 (367), lista dos livros canônicos.
· EUSÉBIO DE CESAREIA.
História Eclesiástica, livro III, cap. 25.
· JERÔNIMO. Prólogos aos
livros da Bíblia na Vulgata; consultar edição crítica da Vulgata e coleções
patrísticas.
· AGOSTINHO. A Doutrina
Cristã, livro II, especialmente a discussão sobre os livros recebidos pela
Igreja.
Estudos acadêmicos e obras
de referência
· BRAY, Gerald. “The
Protestant Reformation on the Biblical Canon and the Apocrypha”. In: Oxford
Handbook / estudos sobre o cânon e os Apócrifos. Oxford University Press, 2024.
· CHAPMAN, Stephen B. The
Eerdmans Companion to the Bible. Grand Rapids: Eerdmans. Capítulo sobre a
transmissão e formação do cânon.
· GALLAGHER, Edmon L.;
MEADE, John D. The Biblical Canon Lists from Early Christianity: Texts and
Analysis. Oxford: Oxford University Press, 2017.
· GALLAGHER, Edmon L. The
Apocrypha through History: The Canonical Reception of the Deuterocanonical
Literature. Oxford University Press, 2025.
· LIM, Timothy H. The
Formation of the Jewish Canon. New Haven: Yale University Press, 2013.
· METZGER, Bruce M. The
Canon of the New Testament: Its Origin, Development, and Significance. Oxford:
Clarendon Press, 1987.
· McDONALD, Lee Martin. The
Biblical Canon: Its Origin, Transmission, and Authority. Peabody: Hendrickson.
· TREBOLLE BARRERA, Julio.
The Jewish Bible and the Christian Bible: An Introduction to the History of the
Bible. Grand Rapids: Eerdmans, 1998.
· WASSERSTEIN, Abraham;
WASSERSTEIN, David J. The Legend of the Septuagint: From Classical Antiquity to
Today. Cambridge: Cambridge University Press, 2006.
· KERBER, Daniel. “The Canon
in the Vulgate Translation of the Bible”. The Bible Translator, v. 67, n. 2,
2016.
Fontes digitais consultadas
· VATICANO. Dei Verbum
(texto em português):
https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651118_dei-verbum_po.html
· LIBRARY OF CONGRESS. The
Gutenberg Bible: https://www.loc.gov/exhibits/bibles/the-gutenberg-bible.html
· OXFORD ACADEMIC. Sylvie
Honigman, “Aristeas, Letter of”, Oxford Classical Dictionary, atualização 2021:
https://academic.oup.com/edited-volume/61673/chapter-abstract/548509471
· OXFORD ACADEMIC. Gerald
Bray, “The Protestant Reformation on the Biblical Canon and the Apocrypha”,
2024: https://academic.oup.com/edited-volume/58970/chapter-abstract/494427922
· NEW ADVENT. Catholic
Encyclopedia: “Canon of the Old Testament”; “Canon of the New Testament”;
“Muratorian Canon”. Utilizar como referência histórica confessional do início
do século XX, cotejando com estudos recentes.
· CAMBRIDGE UNIVERSITY
PRESS. Wasserstein & Wasserstein, The Legend of the Septuagint, capítulo
“The Letter of Aristeas”:
https://www.cambridge.org/core/books/abs/legend-of-the-septuagint/letter-of-aristeas/03C1222D8B24A3FEBA3807B1951062B0
· UNITED STATES CONFERENCE /
Religious Studies Center. Estudos introdutórios sobre os critérios de
canonicidade; cotejar com Metzger, Gallagher e Meade.
Glossário breve
|
Termo |
Definição |
|
Cânon |
Lista normativa de
livros recebidos como Escritura sagrada por uma comunidade religiosa. |
|
Hagiógrafo |
Autor humano de um livro bíblico, considerado
inspirado pela fé. |
|
Septuaginta
(LXX) |
Tradução grega
antiga das Escrituras judaicas, iniciada com a Torá no século III a.C. |
|
Vulgata |
Tradição latina da Bíblia associada sobretudo ao
trabalho de revisão e tradução de Jerônimo. |
|
Deuterocanônico |
Livro reconhecido
como canônico pela Igreja Católica cuja recepção foi discutida em certos
períodos. |
|
Apócrifo |
Termo variável para escritos não incluídos em
determinado cânon; pode ter sentidos distintos entre tradições. |
|
Pseudepígrafo |
Obra atribuída
literariamente a uma figura antiga que não é considerada seu autor histórico. |
|
Sinóticos |
Mateus, Marcos e Lucas, assim chamados por
permitirem comparação em paralelo. |
DOCUMENTOS OFICIAIS DA IGREJA CATÓLICA SOBRE
A SAGRADA ESCRITURA
História, inspiração divina, formação do cânon, interpretação e
autoridade das Escrituras
A Igreja
Católica possui um patrimônio muito extenso de documentos que tratam da Sagrada
Escritura. São documentos de concílios ecumênicos, encíclicas papais,
constituições dogmáticas, exortações apostólicas, documentos da Pontifícia
Comissão Bíblica e ensinamentos do Catecismo.
Esses
documentos são fundamentais para compreender não somente o que a Igreja ensina
sobre a Bíblia, mas também por que a Igreja considera determinados livros
inspirados, como reconheceu o cânon, como entende a inspiração divina e quais
critérios devem orientar a interpretação das Escrituras.
Vou
organizá-los cronologicamente e por importância doutrinária.
PARTE I — DOCUMENTOS CONCILIARES
1. Concílio de Hipona (393)
Data: 393 d.C.
Local: Hipona, norte da África.
O Sínodo
de Hipona é um dos primeiros testemunhos conciliares importantes sobre a
relação dos livros bíblicos recebidos pela Igreja.
Sua
importância está na apresentação de uma lista de livros reconhecidos para
leitura e autoridade eclesial.
A lista
incluía os livros que posteriormente seriam confirmados na tradição latina,
inclusive aqueles que hoje chamamos de deuterocanônicos.
Importância
histórica:
- Demonstra que a Igreja
já possuía uma tradição de reconhecimento dos livros bíblicos.
- Testemunha a recepção
dos deuterocanônicos no cristianismo latino.
- Mostra que a definição
do cânon não começou com a Reforma Protestante nem com o Concílio de
Trento.
É
importante observar que Hipona foi um sínodo regional, não um concílio
ecumênico.
2. Concílios de Cartago (397 e 419)
Os
concílios de Cartago reafirmaram a lista de livros recebidos pelas Igrejas do
norte da África.
Entre os
participantes e personagens ligados a esse ambiente eclesiástico estava Santo
Agostinho.
A lista
contemplava os livros deuterocanônicos.
Importância
doutrinária:
Os
concílios demonstram que a Igreja não considerava o Antigo Testamento limitado
exclusivamente à coleção hebraica posteriormente adotada pelo judaísmo
rabínico.
A
tradição cristã ocidental reconhecia uma coleção mais ampla, transmitida
principalmente pela tradição grega e latina.
Esses
testemunhos são importantes para compreender a história do cânon católico.
3. Concílio de Florença (1431–1449)
Um
documento particularmente importante é o Decreto para os Jacobitas, de 1442.
Nesse
decreto, o Concílio apresenta a relação dos livros que a Igreja recebe como
sagrados e canônicos.
O
documento é importante porque demonstra que a Igreja já possuía uma definição
explícita da coleção bíblica antes do Concílio de Trento.
Consequência
histórica:
É
incorreto afirmar que os sete livros deuterocanônicos foram acrescentados pela
primeira vez à Bíblia em 1546.
Florença
já havia apresentado a lista que seria posteriormente reafirmada em Trento.
4. Concílio de Trento — Decreto sobre os livros sagrados (1546)
Este é um
dos documentos mais importantes para o estudo do cânon bíblico católico.
Data: 8 de
abril de 1546.
Sessão: IV.
Documento: Decreto sobre os livros sagrados e as tradições recebidas.
O
Concílio foi realizado durante a Reforma Protestante, quando surgiram
divergências sobre a autoridade da tradição e sobre a composição do Antigo
Testamento.
O que Trento definiu?
O
Concílio declarou solenemente quais livros deveriam ser recebidos como sagrados
e canônicos pela Igreja Católica.
A lista
compreende:
- 46 livros do Antigo
Testamento;
- 27 livros do Novo
Testamento.
Total: 73
livros.
Qual foi sua importância?
1.
Confirmou solenemente o cânon recebido pela Igreja.
2.
Reafirmou a inspiração dos livros deuterocanônicos.
3.
Estabeleceu a autoridade da tradição apostólica recebida pela Igreja.
4.
Reafirmou a importância da Vulgata latina para o uso público da Igreja.
É
importante compreender que Trento não criou a Bíblia. Sua definição ocorreu
depois de muitos séculos de recepção, transmissão e reconhecimento dos livros
sagrados.
Documento
para consulta:
Concílio de Trento — documentos históricos
5. Concílio Vaticano I (1869–1870)
Documento:
Constituição dogmática Dei Filius.
Data: 24 de abril de 1870.
O
Vaticano I tratou da relação entre fé e razão, da Revelação divina e da
autoridade da Igreja.
No
capítulo II, dedicado à Revelação, reafirma a inspiração divina das Escrituras.
O
documento ensina que os livros do Antigo e do Novo Testamento devem ser
recebidos como sagrados e canônicos porque foram escritos sob a inspiração do
Espírito Santo.
Também
reafirma que Deus é seu autor.
Importância
O
Concílio reforçou a doutrina católica diante de correntes racionalistas que
procuravam reduzir a Bíblia a uma produção exclusivamente humana.
Entretanto,
isso não significa negar a participação dos autores humanos.
A
compreensão mais desenvolvida dessa relação seria apresentada posteriormente
pelo Vaticano II.
6. Concílio Vaticano II — Constituição Dogmática Dei Verbum (1965)
Este é,
provavelmente, o documento mais importante da Igreja contemporânea sobre a
Sagrada Escritura.
Data: 18 de
novembro de 1965.
Papa: São Paulo VI.
Documento: Constituição Dogmática sobre a Revelação Divina.
A Dei
Verbum significa literalmente Palavra de Deus.
O
documento possui seis capítulos e trata da Revelação divina, da transmissão da
Revelação, da inspiração, da interpretação bíblica e da importância da
Escritura na vida da Igreja.
Constituição Dogmática Dei Verbum — texto integral
Os principais ensinamentos da Dei Verbum
Capítulo
I — A Revelação em si mesma
Ensina
que Deus se revela à humanidade por meio de acontecimentos e palavras
intimamente relacionados.
Cristo é
o mediador e a plenitude de toda a Revelação.
Capítulo
II — A transmissão da Revelação divina
Explica a
relação entre Sagrada Escritura e Sagrada Tradição.
O
parágrafo 9 ensina:
A Sagrada
Tradição e a Sagrada Escritura procedem da mesma fonte divina e estão
intimamente ligadas.
O
parágrafo 10 explica a relação entre Escritura, Tradição e Magistério.
Uma
observação fundamental: a Igreja não ensina que o Magistério esteja acima da
Palavra de Deus. Ele está a serviço dela.
Capítulo
III — A inspiração divina e a interpretação da Sagrada Escritura
Este
capítulo é essencial para compreender a inspiração bíblica.
O
parágrafo 11 ensina que:
- Deus é o autor da
Sagrada Escritura.
- Os livros foram
escritos sob a inspiração do Espírito Santo.
- Os autores humanos são
verdadeiros autores.
- Tudo aquilo que os
hagiógrafos afirmam como autores inspirados deve ser compreendido dentro
da verdade que Deus quis consignar nas Escrituras para nossa salvação.
O
parágrafo 12 apresenta critérios fundamentais para a interpretação:
1.
Considerar a unidade de toda a Escritura.
2.
Considerar a Tradição viva da Igreja.
3.
Observar a analogia da fé.
Também é
necessário investigar a intenção dos autores sagrados e os gêneros literários
empregados.
Capítulo
IV — O Antigo Testamento
Ensina
que o Antigo Testamento conserva seu valor permanente e que a antiga aliança
nunca foi revogada.
Capítulo
V — O Novo Testamento
Apresenta
a importância dos Evangelhos e dos demais escritos apostólicos.
Capítulo
VI — A Sagrada Escritura na vida da Igreja
O
parágrafo 21 afirma que a Igreja sempre venerou as Escrituras assim como venera
o Corpo do Senhor.
É uma das
afirmações mais importantes do documento.
A Palavra
de Deus e a Eucaristia são apresentadas como duas mesas das quais a Igreja
recebe o alimento espiritual.
PARTE II — ENCÍCLICAS PAPAIS SOBRE A BÍBLIA
7. Providentissimus Deus — Papa Leão XIII (1893)
Leão XIII
publicou esta encíclica em 18 de novembro de 1893.
Título: Providentissimus
Deus.
É um dos
documentos fundamentais da história dos estudos bíblicos católicos.
Providentissimus Deus — texto integral
Contexto histórico
No século
XIX, os estudos bíblicos enfrentavam desafios relacionados ao racionalismo, ao
desenvolvimento das ciências naturais e às novas pesquisas históricas.
Alguns
estudiosos procuravam interpretar a Bíblia exclusivamente como documento
humano.
Leão XIII
procurou estabelecer orientações para os estudiosos católicos.
Principais ensinamentos
- Defesa da inspiração
divina.
- Importância do estudo
das línguas originais.
- Necessidade de
formação bíblica dos sacerdotes.
- Valorização dos Padres
da Igreja.
- Relação entre fé e
investigação científica.
- Necessidade de evitar
interpretações contrárias à doutrina católica.
A
encíclica também incentivou o aprofundamento acadêmico das Escrituras.
Sua
importância histórica é enorme porque preparou o terreno para o desenvolvimento
dos estudos bíblicos católicos no século XX.
8. Spiritus Paraclitus — Papa Bento XV (1920)
Data: 15 de
setembro de 1920.
Papa: Bento XV.
Título: Spiritus Paraclitus.
Foi
publicada por ocasião do décimo quinto centenário da morte de São Jerônimo.
O
documento destaca a importância da Sagrada Escritura na vida espiritual e
intelectual da Igreja.
Principais ensinamentos
- A importância de São
Jerônimo para os estudos bíblicos.
- A necessidade de
estudar cuidadosamente os textos sagrados.
- A valorização da
leitura espiritual da Bíblia.
- A importância da
interpretação em conformidade com a fé da Igreja.
- A necessidade de
conhecer os escritos patrísticos.
O
documento também recorda a importância do trabalho de tradução realizado por
Jerônimo.
É
particularmente interessante para compreender a relação entre a tradição
patrística e a interpretação bíblica.
9. Divino Afflante Spiritu — Papa Pio XII (1943)
Pio XII publicou
esta encíclica em 30 de setembro de 1943.
Título: Divino
Afflante Spiritu.
É um dos
documentos mais importantes da história moderna da exegese católica.
Divino Afflante Spiritu — texto integral
Contexto histórico
Cinquenta
anos antes, Leão XIII havia publicado Providentissimus Deus.
Nesse
intervalo, os estudos arqueológicos, históricos e linguísticos avançaram
consideravelmente.
Foram
descobertos novos documentos antigos, desenvolvidos métodos científicos e
ampliado o conhecimento das línguas bíblicas.
Pio XII
reconheceu a importância dessas descobertas.
O que o documento ensinou?
1.
Necessidade de estudar hebraico, aramaico e grego.
2.
Importância dos manuscritos antigos.
3.
Valorização da crítica textual.
4.
Estudo dos gêneros literários.
5.
Investigação do contexto histórico.
6.
Necessidade de compreender a intenção dos autores sagrados.
Um dos
grandes méritos dessa encíclica foi incentivar os exegetas católicos a
utilizarem os instrumentos científicos disponíveis para compreender melhor a
Bíblia.
Uma
observação importante: a Igreja não considera que a utilização do
método histórico-crítico seja uma ameaça à fé. Pelo contrário, reconhece sua
utilidade quando aplicado corretamente.
PARTE III — DOCUMENTOS DA PONTIFÍCIA COMISSÃO
BÍBLICA
A
Pontifícia Comissão Bíblica é um organismo da Santa Sé dedicado ao
aprofundamento das questões relacionadas à interpretação das Escrituras.
Seus
documentos constituem referências importantes para exegetas, teólogos,
professores e pesquisadores.
10. A Interpretação da Bíblia na Igreja (1993)
Documento
publicado em 15 de abril de 1993.
Foi
elaborado pela Pontifícia Comissão Bíblica durante o pontificado de São João
Paulo II.
A Interpretação da Bíblia na Igreja — documento integral
É uma das
referências mais importantes para compreender como a Igreja orienta a
interpretação bíblica atualmente.
Principais assuntos
- Método
histórico-crítico.
- Análise literária.
- Crítica textual.
- Interpretação
patrística.
- Abordagem canônica.
- Interpretação
espiritual.
- Fundamentalismo
bíblico.
- Relação entre Bíblia e
Igreja.
Um ensinamento particularmente importante
O
documento reconhece que o método histórico-crítico é indispensável para o
estudo científico dos textos antigos.
Entretanto,
também alerta que a Bíblia não pode ser reduzida a um documento histórico sem
considerar sua dimensão espiritual e teológica.
A
interpretação católica deve respeitar simultaneamente a dimensão humana e
divina da Escritura.
11. O Povo Judaico e as Suas Sagradas Escrituras na Bíblia Cristã (2001)
Documento
publicado em 24 de maio de 2001.
Trata da
relação entre o Antigo Testamento, o judaísmo e a fé cristã.
É
especialmente importante para compreender:
- A origem judaica do
cristianismo.
- A relação entre a
Bíblia hebraica e o Antigo Testamento cristão.
- A interpretação
cristológica das Escrituras.
- A importância da
tradição judaica.
- A relação entre a
antiga e a nova aliança.
O
documento também ajuda a evitar interpretações equivocadas que desprezem o
judaísmo ou apresentem o Antigo Testamento como se tivesse perdido todo o seu
valor.
12. Bíblia e Moral: Raízes Bíblicas do Agir Cristão (2008)
Documento
da Pontifícia Comissão Bíblica.
Trata da
relação entre a Sagrada Escritura e a moral cristã.
Explica
como os ensinamentos bíblicos fundamentam a conduta humana.
Entre os
temas abordados estão:
- Dignidade humana.
- Justiça.
- Liberdade.
- Responsabilidade.
- Relações sociais.
- Proteção da vida.
- Amor ao próximo.
É uma
referência importante para compreender como os princípios bíblicos devem
orientar a vida moral cristã.
13. Inspiração e Verdade da Sagrada Escritura (2014)
Este é
outro documento de grande importância.
Foi
publicado pela Pontifícia Comissão Bíblica em 22 de fevereiro de 2014.
Seu
título original é L'ispirazione e la verità della Sacra Scrittura.
A obra
aprofunda duas questões fundamentais:
Primeira:
a inspiração.
Como
compreender que Deus seja o autor da Bíblia e, ao mesmo tempo, os homens sejam
verdadeiros autores dos textos?
Segunda:
a verdade.
Como
compreender a verdade da Escritura considerando os diferentes gêneros
literários, contextos históricos e formas de expressão?
O
documento aprofunda especialmente a relação entre a inspiração divina e a
contribuição dos autores humanos.
É uma
leitura recomendada para quem deseja estudar a doutrina católica da inspiração
bíblica em nível acadêmico.
A relação
oficial de documentos da Comissão Bíblica pode ser consultada aqui:
Pontifícia Comissão Bíblica — documentos publicados
PARTE IV — CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA
14. Catecismo da Igreja Católica — parágrafos 50 a 141
O
Catecismo apresenta uma síntese oficial da doutrina católica sobre a Revelação
divina e a Sagrada Escritura.
Catecismo da Igreja Católica — Parte I, parágrafos 50–141
Os
parágrafos mais importantes para o nosso estudo são:
|
Parágrafo |
Assunto |
|
74–83 |
Transmissão da Revelação divina |
|
84–95 |
Depósito da fé e Magistério |
|
101–104 |
Cristo, Palavra única da Escritura |
|
105–108 |
Inspiração e verdade da Sagrada Escritura |
|
109–114 |
Interpretação da Escritura |
|
115–119 |
Sentidos da Escritura |
|
120 |
Cânon das Escrituras |
|
121–123 |
Antigo Testamento |
|
124–127 |
Novo Testamento |
|
128–130 |
Unidade entre os dois Testamentos |
|
131–133 |
Importância da Sagrada Escritura na vida
cristã |
|
134–141 |
Relação entre Escritura e vida da Igreja |
Três parágrafos que merecem atenção especial
Parágrafo
105 — Inspiração
Afirma
que Deus é o autor da Sagrada Escritura.
Parágrafo
120 — Cânon
Apresenta
a relação dos livros que compõem a Bíblia católica.
Parágrafo
131 — Importância da Escritura
Ensina
que a Igreja exorta todos os fiéis a recorrerem frequentemente à leitura das
Escrituras.
PARTE V — OUTROS DOCUMENTOS IMPORTANTES
15. Verbum Domini — Bento XVI (2010)
Bento XVI
publicou a Exortação Apostólica Pós-Sinodal Verbum Domini em 30 de
setembro de 2010.
Verbum Domini — texto integral
É um dos
documentos mais ricos sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja.
Foi
elaborado a partir dos trabalhos do Sínodo dos Bispos de 2008.
Principais temas
- A Palavra de Deus na
Revelação.
- A inspiração das
Escrituras.
- A relação entre Bíblia
e Tradição.
- A interpretação
bíblica.
- A liturgia da Palavra.
- A homilia.
- A leitura orante da
Bíblia.
- A evangelização.
- A missão da Igreja.
Um dos
pontos centrais é que a interpretação autêntica da Bíblia não pode ser separada
da vida de fé da Igreja.
O
documento também aprofunda a chamada lectio divina, uma forma
tradicional de leitura orante das Escrituras.
16. Sacrosanctum Concilium — Vaticano II (1963)
Constituição
sobre a Sagrada Liturgia.
Embora
não seja exclusivamente dedicada à Bíblia, possui ensinamentos importantes
sobre sua presença na liturgia.
O número
24 afirma a importância da Sagrada Escritura na celebração litúrgica.
O
documento ensina que as Escrituras possuem importância fundamental na
celebração dos sacramentos e na vida espiritual dos fiéis.
Isso
explica por que a liturgia católica possui leituras bíblicas organizadas e
distribuídas ao longo do ano litúrgico.
17. Lumen Gentium — Vaticano II (1964)
Constituição
Dogmática sobre a Igreja.
Embora
seu tema central seja a natureza da Igreja, apresenta ensinamentos importantes
sobre a Palavra de Deus.
O
documento explica a missão dos bispos como sucessores dos apóstolos e sua
responsabilidade de ensinar e transmitir fielmente a fé.
É
importante porque a Igreja não compreende a Bíblia separadamente da comunidade
apostólica que recebeu e transmitiu a Revelação.
PARTE VI — COMO ESSES DOCUMENTOS SE
COMPLETAM?
Podemos
organizar o desenvolvimento do ensinamento católico da seguinte maneira:
|
Documento |
Principal contribuição |
|
Hipona (393) |
Testemunho antigo da lista de livros
recebidos |
|
Cartago (397 e 419) |
Reafirmação da tradição canônica africana |
|
Florença (1442) |
Enumeração dos livros sagrados |
|
Trento (1546) |
Definição solene do cânon católico |
|
Vaticano I (1870) |
Reafirmação da inspiração divina |
|
Providentissimus Deus (1893) |
Orientação para os estudos bíblicos |
|
Spiritus Paraclitus (1920) |
Valorização da Escritura e de São Jerônimo |
|
Divino Afflante Spiritu (1943) |
Desenvolvimento dos estudos científicos e
exegéticos |
|
Dei Verbum (1965) |
Doutrina fundamental sobre Revelação e
Escritura |
|
Interpretação da Bíblia na Igreja (1993) |
Orientação dos métodos de interpretação |
|
O Povo Judaico e suas Sagradas Escrituras
(2001) |
Relação entre Bíblia hebraica e
cristianismo |
|
Bíblia e Moral (2008) |
Fundamentos bíblicos da moral cristã |
|
Verbum Domini (2010) |
Palavra de Deus na vida e missão da Igreja |
|
Inspiração e Verdade da Sagrada Escritura
(2014) |
Aprofundamento da inspiração e da verdade
bíblica |
PARTE VII — QUAIS DOCUMENTOS ESTUDAR
PRIMEIRO?
Se o
objetivo é desenvolver um conhecimento aprofundado da posição católica sobre a
Bíblia, recomendo esta sequência:
1. Dei
Verbum (1965)
É a base doutrinária de todo o estudo.
2.
Catecismo da Igreja Católica (101–141)
Apresenta uma síntese organizada e acessível da doutrina.
3.
Concílio de Trento — Sessão IV (1546)
Fundamental para estudar o cânon e os deuterocanônicos.
4.
Providentissimus Deus (1893)
Para conhecer a orientação de Leão XIII sobre os estudos bíblicos.
5. Divino
Afflante Spiritu (1943)
Para compreender a evolução dos métodos de pesquisa bíblica.
6. A
Interpretação da Bíblia na Igreja (1993)
Para estudar os métodos exegéticos e os critérios de interpretação.
7. Verbum
Domini (2010)
Para compreender o lugar da Palavra de Deus na vida da Igreja.
8.
Inspiração e Verdade da Sagrada Escritura (2014)
Para aprofundar academicamente a inspiração e a verdade bíblica.
Conclusão teológica
Existe
uma questão fundamental que atravessa todos esses documentos:
A Igreja
Católica não considera a Bíblia um livro isolado, independente da Tradição
apostólica e da comunidade que a recebeu, preservou e transmitiu.
A
Constituição Dei Verbum, especialmente nos números 9 e 10, ensina que
Sagrada Escritura e Sagrada Tradição constituem um único depósito sagrado da
Palavra de Deus, confiado à Igreja.
Isso não
significa que a Igreja seja proprietária da Palavra de Deus, mas que recebeu a
missão de guardá-la, transmiti-la e interpretá-la fielmente.
A própria
história da formação do cânon demonstra essa realidade: antes de existir uma
Bíblia cristã reunida em um único volume, já existiam comunidades que
anunciavam Cristo, celebravam a Eucaristia, transmitiam os ensinamentos
apostólicos e reconheciam determinados escritos como Palavra inspirada.
A Bíblia nasceu no contexto da história da Revelação e foi recebida, preservada e transmitida pela Igreja Católica Apostólica Romana e as Igrejas Católicas do Oriente (Jerusalém, Constantinopla, Armênia, Melquita, Copta, Grega, e demais Igrejas Ortodoxas). A interpretação da Sagrada Escritura cabe Magistério da Igreja Católica. É ela que zela pelo "depósito da fé", ou seja, a Tradição Oral e a Tradição Escrita.
Essa é uma das chaves fundamentais para compreender a doutrina católica sobre a Sagrada Escritura.
