sexta-feira, 6 de novembro de 2026

A SAGRADA ESCRITURA, SUA HISTÓRIA E FORMAÇÃO

 



Texto de Elmando Toledo

ESTUDO HISTÓRICO, BÍBLICO E TEOLÓGICO

Do mundo bíblico antigo à definição dos cânones cristãos

A Sagrada Escritura é a Palvra de Deus escrita, isto é a Reveleção escrita. Compreende os livros do Antigo e Novo Testamento. A Igreja Católica foi quem definiu o canon bíblico. Isto aconteceu depois de muitos anos de estudo e debates em diversos Concílios até chegar em um acordo final. A Igreja Católica considera que a Revelação escrita terminou com a morte do último Apóstolo, Sãso João e não há mais nada a acrescentar. Vamos estudar aqui sobre  a Sagrada Escritura, como ela foi definida e quais os critérios qua a Igreja Católica adotou para separar osa livros inspirados dos não inspirados. Vamos aprender sobre a constituição da Sagrada Escritura:

 Apresentação e objetivos

Este estudo apresenta a formação da Bíblia como processo histórico, religioso e comunitário. Examina a origem dos escritos, a transmissão dos textos, a tradução grega conhecida como Septuaginta, a formação dos cânones judaicos e cristãos, os concílios e listas antigas, os livros deuterocanônicos, os escritos apócrifos e pseudepígrafos, a Vulgata latina, a imprensa de Gutenberg, a diferença entre os cânones católico e protestante e a natureza dos Evangelhos Sinóticos.

A abordagem principal é católica, mas procura distinguir com rigor os dados históricos, as afirmações de fé e as posições de outras tradições cristãs. A história do cânon não deve ser reduzida à ideia de que um único concílio escolheu arbitrariamente os livros da Bíblia. O processo foi gradual: comunidades receberam, copiaram, proclamaram, rezaram e reconheceram determinados escritos como normativos; listas e decisões eclesiais vieram explicitar e estabilizar essa recepção.

Nota metodológica: termos que exigem cuidado

As palavras “apócrifo”, “deuterocanônico” e “pseudepígrafo” não são sinônimos. Seu significado varia conforme a tradição e o período. “Apócrifo” pode designar, em linguagem protestante, os livros que católicos chamam de deuterocanônicos; em estudos do Novo Testamento, costuma designar escritos cristãos antigos não recebidos no cânon. “Pseudepígrafo” descreve uma obra atribuída a uma personagem antiga que, segundo a pesquisa histórica, não foi seu autor real. Nem todo pseudepígrafo é herético, e nem todo apócrifo é falsificação mal-intencionada.

Sumário

·       1. O que é a Sagrada Escritura e o que significa cânon

·       2. Como se formou a Bíblia hebraica e o Antigo Testamento cristão

·       3. A Septuaginta e a tradução dos Setenta

·       4. Os critérios de reconhecimento dos livros inspirados

·       5. A formação do cânon do Novo Testamento

·       6. Concílios, sínodos e testemunhos antigos

·       7. Deuterocanônicos: quais são, história e razões da recepção católica

·       8. Apócrifos, pseudepígrafos e escritos não canônicos

·       9. São Jerônimo e a Vulgata latina

·       10. A Reforma e a Bíblia protestante

·       11. A primeira grande Bíblia impressa: Gutenberg

·       12. Os Evangelhos Sinóticos

·       13. Síntese cronológica, conclusões e bibliografia


1. O que é a Sagrada Escritura e o que significa cânon

A Bíblia não é um livro único escrito de uma só vez, mas uma biblioteca de escritos produzidos ao longo de muitos séculos, em contextos históricos, linguísticos e literários diversos. Reúne narrativas, leis, poesia, provérbios, profecias, evangelhos, cartas e literatura apocalíptica. Para a fé cristã, esses livros são recebidos como Palavra de Deus escrita sob a inspiração do Espírito Santo.

A palavra “cânon” vem do grego kanōn, originalmente “cana”, “régua” ou “medida”; por extensão, passou a significar regra ou norma. Aplicada à Bíblia, designa a lista dos livros reconhecidos como Sagrada Escritura. A canonicidade não é idêntica à autoria, à antiguidade ou à utilidade espiritual: um texto pode ser antigo, edificante e historicamente valioso sem pertencer ao cânon.

Na doutrina católica, Deus é autor da Escritura, mas os hagiógrafos — autores humanos — escreveram como verdadeiros autores, utilizando suas capacidades, línguas, estilos e circunstâncias. A Constituição Dei Verbum, n. 11, afirma que os livros inteiros, com todas as suas partes, são sagrados e canônicos porque escritos sob a inspiração do Espírito Santo e confiados à Igreja.

A inspiração é uma afirmação teológica; a crítica histórica, por sua vez, investiga a composição, as fontes, a transmissão manuscrita, o gênero literário e o contexto dos textos. As duas abordagens não precisam ser confundidas: a pesquisa histórica não mede a ação divina, mas ajuda a compreender os meios humanos pelos quais os textos chegaram até nós.

2. Como se formou a Bíblia hebraica e o Antigo Testamento cristão

O Antigo Testamento nasceu no interior da história de Israel e de Judá. A tradição judaica organiza suas Escrituras em três grandes conjuntos: Torá (Lei), Nevi’im (Profetas) e Ketuvim (Escritos), formando o acrônimo Tanakh. A Torá adquiriu autoridade muito cedo; os Profetas foram recebidos como coleção; os Escritos reuniram obras de gêneros e épocas diferentes. A consolidação das fronteiras exatas do conjunto ocorreu ao longo de um processo complexo, e não em uma única reunião documentada.

É comum falar de um “cânon de Jâmnia” ou “concílio de Jâmnia” por volta do ano 90 d.C. como se ali os rabinos tivessem fechado definitivamente a Bíblia judaica. A pesquisa atual recomenda cautela: houve debates rabínicos em Yavne/Jâmnia sobre livros como Cântico dos Cânticos e Eclesiastes, mas não há evidência segura de um concílio formal que tenha promulgado, de uma vez, uma lista definitiva equivalente ao cânon judaico posterior.

No século I, judeus não utilizavam todos necessariamente uma coleção idêntica em extensão e forma. Os manuscritos de Qumran mostram diversidade textual e a circulação de obras que depois não integraram o cânon rabínico. Fílon de Alexandria, Josefo e o Novo Testamento testemunham o uso de Escrituras judaicas, mas não fornecem, cada um isoladamente, uma lista completa e inequívoca igual à atual.

Os cristãos herdaram as Escrituras de Israel, mas muitos dos primeiros cristãos liam-nas em grego. A Igreja antiga recebeu amplamente a Bíblia grega, a Septuaginta, cuja coleção e ordem não coincidiam perfeitamente com a forma hebraica posteriormente padronizada. Daí uma diferença histórica importante: a Bíblia católica conserva livros que foram transmitidos na tradição grega e latina, enquanto a maioria das tradições protestantes adotou para o Antigo Testamento a lista correspondente ao cânon hebraico.

3. A Septuaginta e a tradução dos Setenta

Septuaginta (do latim septuaginta, “setenta”) é o nome tradicional da tradução grega das Escrituras judaicas. A tradução começou em Alexandria, no Egito, no século III a.C., com a Torá, para atender comunidades judaicas de língua grega. Outros livros foram traduzidos ou compostos em grego em períodos posteriores. Portanto, a Septuaginta não surgiu como uma tradução integral concluída de uma só vez.

A chamada Carta de Aristeias conta que setenta e dois sábios judeus, seis de cada tribo, foram enviados de Jerusalém a Alexandria a pedido de Ptolomeu II Filadelfo. A narrativa é importante para a história da recepção da tradução, mas os estudiosos a tratam como relato literário com elementos lendários, não como ata contemporânea plenamente verificável. A tradição dos setenta e dois tradutores explica o nome “Setenta”; a forma abreviada LXX tornou-se corrente.

A Septuaginta é relevante por três razões. Primeiro, foi a Bíblia de muitos judeus da diáspora. Segundo, foi amplamente utilizada pelos autores cristãos antigos e citada no Novo Testamento. Terceiro, preserva formas textuais e livros que não aparecem na coleção hebraica rabínica. Em certos livros, a versão grega difere do texto hebraico massorético não apenas na língua, mas também na extensão, na ordem e em variantes textuais.

Não se deve afirmar que todos os livros deuterocanônicos foram simplesmente traduzidos do hebraico para o grego. Sabedoria e 2 Macabeus, por exemplo, foram compostos em grego; partes de outros livros têm história textual complexa. Eclesiástico/Sirácida foi escrito originalmente em hebraico, embora sua transmissão tenha incluído tradução grega. Tobias e partes de outros livros são conhecidos por testemunhos em diferentes línguas.

4. Quais critérios a Igreja utilizou para reconhecer os livros inspirados

Não existiu uma comissão antiga que aplicasse uma lista mecânica de critérios a todos os livros. O reconhecimento foi progressivo, baseado na recepção das comunidades, na leitura litúrgica, na relação com a tradição apostólica e na coerência com a regra da fé. A formulação posterior dos critérios procurou explicar uma prática eclesial que já estava em desenvolvimento.

·       Apostolicidade: ligação com os apóstolos, seja por autoria atribuída a um apóstolo, seja por testemunho de alguém próximo do círculo apostólico. Marcos foi associado à pregação de Pedro; Lucas, à missão de Paulo.

·       Conformidade com a regra da fé: o conteúdo deveria estar em continuidade com a fé recebida nas Igrejas, e não promover ensinamentos incompatíveis com a proclamação apostólica.

·       Uso e recepção eclesial: leitura pública e contínua nas comunidades, especialmente na liturgia, e reconhecimento amplo entre Igrejas de regiões distintas.

·       Antiguidade e proximidade da era apostólica: a proximidade temporal era um indício importante, embora não funcionasse isoladamente.

·       Testemunho e transmissão: a circulação antiga, a atribuição recebida e o uso por escritores cristãos contribuíam para o discernimento.

Esses elementos não funcionavam como uma votação popular nem como simples teste de ortodoxia imposto retrospectivamente. A Igreja acreditava reconhecer, sob a assistência do Espírito Santo, a autoridade de escritos recebidos na tradição apostólica. Um livro podia ser muito apreciado e ainda assim não ser considerado canônico. O Pastor de Hermas, por exemplo, foi lido em algumas comunidades, mas não foi incluído no cânon definitivo.

5. A formação do cânon do Novo Testamento

Os escritos do Novo Testamento foram produzidos no século I. As cartas de Paulo são, em geral, os documentos cristãos mais antigos preservados. Os Evangelhos foram redigidos algumas décadas depois da morte e ressurreição de Jesus. Atos, cartas católicas e Apocalipse circularam em comunidades diferentes. Desde cedo, Igrejas copiavam e trocavam escritos apostólicos, mas a lista de 27 livros não aparece completa e universalmente atestada desde o primeiro momento.

No século II, os quatro Evangelhos ganharam reconhecimento especial. Irineu de Lião, por volta de 180, defendeu a autoridade dos quatro Evangelhos. O Fragmento Muratoriano, documento cuja data e origem são discutidas, geralmente situado no fim do século II, apresenta uma lista antiga de escritos cristãos recebidos em Roma ou em seu entorno. Não coincide em todos os detalhes com o cânon atual.

Eusébio de Cesareia, no início do século IV, classificou livros em categorias: reconhecidos, discutidos e rejeitados. Entre os discutidos estavam Hebreus, Tiago, Judas, 2 Pedro, 2 e 3 João e Apocalipse, conforme as regiões e testemunhos. Essa classificação demonstra que a recepção não foi uniforme em todos os lugares.

A Carta Festal 39 de Atanásio de Alexandria, de 367, apresenta a primeira lista preservada que coincide exatamente com os 27 livros do Novo Testamento atual. Isso não significa que Atanásio tenha criado esses livros ou que todos os cristãos os tenham aceitado imediatamente; significa que sua lista é um testemunho decisivo de uma recepção já amadurecida.

6. Concílios, sínodos e testemunhos antigos

Data / testemunho

Importância histórica

c. 180–200 — Fragmento Muratoriano

Uma das listas mais antigas de livros cristãos; preserva sinais de debates e recepções regionais.

c. 325 — Concílio de Niceia

Tratou principalmente da controvérsia ariana e da fé cristológica; não há evidência histórica de que tenha votado ou definido o cânon bíblico.

367 — Atanásio, Carta Festal 39

Lista os 27 livros do Novo Testamento como canônicos.

382 — Sínodo de Roma (lista associada a Dâmaso)

Uma lista canônica é tradicionalmente vinculada ao sínodo; a história documental de sua atribuição exige cautela.

393 — Sínodo de Hipona

Testemunho regional norte-africano sobre os livros recebidos; sua lista é próxima da tradição latina.

397 e 419 — Concílios de Cartago

Reafirmaram listas de livros para leitura na Igreja; decisões regionais importantes, não um concílio ecumênico universal.

1442 — Concílio de Florença

O Decreto para os Jacobitas enumera os livros recebidos pela Igreja, antes de Trento.

1546 — Concílio de Trento, Sessão IV

Definiu solenemente o cânon recebido pela Igreja Católica, incluindo os deuterocanônicos.

1870 — Concílio Vaticano I

Reafirmou a doutrina da inspiração e da recepção dos livros sagrados.

1965 — Concílio Vaticano II, Dei Verbum

Expôs a doutrina católica da inspiração, interpretação e transmissão da Revelação.

É incorreto dizer que o Concílio de Niceia escolheu os livros da Bíblia, que os bispos colocaram livros sobre uma mesa e os que caíram foram excluídos, ou que a Bíblia foi inventada no século IV. Essas narrativas não têm base documental confiável. Niceia foi convocado para enfrentar a crise ariana; a história do cânon é anterior e posterior a ele.

7. Os livros deuterocanônicos: quais são, quando e por que foram recebidos

“Deuterocanônico” é um termo teológico posterior, usado para livros cuja condição canônica foi objeto de debate em certos períodos e regiões, mas que a Igreja Católica reconhece plenamente como inspirados. O prefixo “deutero” não significa que sejam menos inspirados, inferiores ou acrescentados tardiamente à fé; indica que sua recepção foi mais discutida em comparação com os protocanônicos.

No Antigo Testamento católico, os sete livros deuterocanônicos são: Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico (Sirácida), Baruc, 1 Macabeus e 2 Macabeus. Além deles, a Igreja recebe partes gregas de Ester e Daniel: em Daniel, a Oração de Azarias e o Cântico dos Três Jovens, Susana e Bel e o Dragão; em Ester, passagens adicionais presentes na forma grega.

A Igreja não afirma que esses livros tenham sido “inventados” ou inseridos pela primeira vez em 1546. Eles circularam na tradição judaica helenística, foram transmitidos em manuscritos gregos e latinos, utilizados por escritores cristãos e incorporados à prática litúrgica de amplas regiões da Igreja. Houve, contudo, autores antigos que preferiram a lista hebraica ou expressaram reservas. Jerônimo é o exemplo mais conhecido: valorizava o texto hebraico como base para a tradução do Antigo Testamento e distinguiu livros eclesiásticos de livros canônicos segundo a lista hebraica, embora tenha traduzido ou incorporado alguns textos na tradição latina.

A decisão de Trento, em 8 de abril de 1546, não foi uma adição arbitrária. Em contexto de controvérsia com a Reforma, o concílio declarou formalmente a lista que a Igreja Católica deveria receber como sagrada e canônica, apoiando-se na tradição e no uso eclesial. A lista já havia sido enumerada em Florença (1442) e em testemunhos conciliares antigos do Ocidente. Trento definiu a questão com autoridade dogmática diante das disputas do século XVI.

Por que a Igreja Católica os considera canônicos?

·       Porque foram recebidos e transmitidos na tradição bíblica e litúrgica da Igreja, especialmente na forma grega e latina das Escrituras.

·       Porque a Igreja reconhece neles testemunho inspirado da história da salvação e da fé de Israel no período que antecedeu Cristo.

·       Porque a decisão conciliar não se baseou em uma única citação isolada, mas na recepção eclesial, na tradição dos Padres e na autoridade da Igreja para discernir o depósito da fé.

·       Porque a definição de Trento confirmou o cânon recebido, não uma nova revelação nem uma ampliação de última hora.

O que esses livros ensinam

Livro

Conteúdo e contribuição teológica

Tobias

Providência, fidelidade familiar, oração, caridade, casamento e auxílio angélico.

Judite

Coragem, confiança em Deus e libertação do povo diante de uma ameaça militar.

Sabedoria

Justiça, imortalidade, destino dos justos, sabedoria divina e crítica à idolatria.

Eclesiástico / Sirácida

Sabedoria prática, educação moral, culto, amizade, família e memória dos antepassados.

Baruc

Confissão, conversão, sabedoria e esperança de restauração.

1 Macabeus

Resistência judaica, perseguição religiosa e luta pela liberdade de culto no século II a.C.

2 Macabeus

Martírio, ressurreição, oração pelos mortos e fidelidade à Lei.

Uma observação: a expressão “deuterocanônico” também é usada para alguns livros do Novo Testamento cuja recepção foi discutida em certas regiões, como Hebreus, Tiago, Judas, 2 Pedro, 2 e 3 João e Apocalipse. No uso católico popular, porém, o termo costuma referir-se sobretudo aos livros do Antigo Testamento.

8. Apócrifos, pseudepígrafos e escritos não canônicos

A classificação depende da tradição. Para católicos, os livros de Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc e Macabeus são canônicos, não “apócrifos” no sentido de livros rejeitados. Em muitas Bíblias protestantes, esses mesmos livros são chamados de Apócrifos. Em estudos acadêmicos, é comum usar “literatura judaica do Segundo Templo”, “apócrifos do Antigo Testamento” ou “pseudepígrafos” para obras judaicas antigas que não entraram no cânon hebraico ou cristão.

8.1 Escritos judaicos antigos frequentemente chamados de pseudepígrafos

·       1 Enoque: coleção apocalíptica atribuída a Enoque; preservada integralmente em etíope e conhecida em fragmentos aramaicos de Qumran. É canônica na Igreja Ortodoxa Etíope, mas não no cânon católico ou na maioria dos cânones protestantes.

·       Jubileus: reconta partes de Gênesis e Êxodo com cronologia e leis próprias; foi importante em certos círculos judaicos antigos.

·       Testamentos dos Doze Patriarcas: obra composta em camadas, atribuída aos filhos de Jacó.

·       Salmos de Salomão: coleção judaica de salmos, importante para compreender expectativas messiânicas.

·       Assunção de Moisés e 4 Esdras: obras apocalípticas que refletem crises e esperanças judaicas.

8.2 Escritos cristãos antigos não incluídos no Novo Testamento

·       Evangelho de Tomé: coleção de ditos atribuídos a Jesus; não é um quinto Evangelho canônico e sua datação e composição são debatidas.

·       Protoevangelho de Tiago: narrativa sobre o nascimento e a infância de Maria e Jesus; influenciou tradições devocionais, mas não é canônico.

·       Evangelho de Pedro: narrativa da Paixão e Ressurreição, com elementos não recebidos na tradição canônica.

·       Evangelho de Judas: texto associado a correntes gnósticas, conhecido por manuscrito copta; não representa a fé apostólica normativa.

·       Atos de Paulo e Tecla: narrativa cristã antiga de caráter edificante, mas não reconhecida como Escritura.

·       Pastor de Hermas: obra moral e visionária muito lida em algumas comunidades, mas situada fora do cânon final.

8.3 Por que não entraram no cânon?

Não há uma única razão aplicável a todos os textos. Alguns são tardios em relação à era apostólica; outros não tinham vínculo apostólico reconhecido; alguns circularam apenas em grupos restritos; outros apresentavam teologia incompatível com a regra da fé recebida; e muitos eram lidos como edificantes, mas não proclamados como Escritura na liturgia. A exclusão canônica não significa que cada obra seja inútil, falsa em todos os seus dados ou proibida de ser estudada.

“Pseudepígrafo” é uma categoria literária, não uma sentença automática de heresia. Na Antiguidade, atribuir uma obra a uma figura venerada podium funcionar como convenção literária; a crítica moderna investiga se a atribuição é histórica. A Igreja distingue esses escritos da Escritura inspirada, mas historiadores podem utilizá-los para estudar crenças, debates e devoções antigas.

9. São Jerônimo e a Vulgata latina

No final do século IV, o Papa Dâmaso confiou a Jerônimo a revisão da Bíblia latina usada nas comunidades ocidentais. Jerônimo revisou os Evangelhos com atenção ao texto grego e, depois, traduziu grande parte do Antigo Testamento diretamente do hebraico. Seu trabalho ocorreu aproximadamente entre as décadas de 380 e 405. A coleção latina que se consolidou recebeu o nome de Vulgata, isto é, versão “comum” ou amplamente difundida.

Jerônimo defendia a importância do texto hebraico para o Antigo Testamento e utilizava a expressão hebraica veritas para indicar a prioridade do texto hebraico em certas questões textuais. Em seus prólogos, distinguiu os livros presentes na Bíblia hebraica daqueles lidos pela Igreja para edificação. Essa posição gerou debates, pois a prática litúrgica latina continuou a transmitir livros deuterocanônicos. Em alguns casos, livros não traduzidos integralmente por Jerônimo foram mantidos na Vulgata a partir de versões latinas anteriores.

A Vulgata não foi uma tradução inteiramente nova feita por uma só pessoa em um único momento. É uma tradição textual que passou por revisão, cópia, correções e padronizações medievais. No século XIII, a forma conhecida como Bíblia parisiense contribuiu para a organização do texto em volumes, capítulos e aparato de uso universitário.

O Concílio de Trento, na Sessão IV, declarou a antiga edição Vulgata autêntica para o uso público da Igreja latina em questões de fé e costumes, sem afirmar que cada leitura da Vulgata fosse superior a todo manuscrito hebraico ou grego. A decisão visava estabelecer uma referência eclesial estável. A edição crítica moderna da Vulgata, a Nova Vulgata, foi promulgada após o Concílio Vaticano II.

10. A Reforma e a Bíblia protestante

A maioria das Bíblias protestantes contém 66 livros: 39 no Antigo Testamento e 27 no Novo. A Bíblia católica contém 73: 46 no Antigo Testamento e 27 no Novo. A diferença está no Antigo Testamento, não no Novo. A Reforma do século XVI reabriu uma controvérsia antiga sobre a relação entre a coleção hebraica e a tradição grega recebida pelos cristãos.

Martinho Lutero adotou para o Antigo Testamento a lista correspondente à Bíblia hebraica. Em sua Bíblia alemã, publicada completa em 1534, colocou os livros que chamou de “Apócrifos” em seção separada, descrevendo-os como livros que não eram considerados iguais à Sagrada Escritura, mas úteis e bons para leitura. Portanto, é historicamente impreciso afirmar que Lutero simplesmente os apagou de todas as edições desde o início.

A decisão protestante relacionou-se à preferência pelo cânon hebraico, à influência de Jerônimo e a disputas doutrinais da Reforma. 2 Macabeus 12, por exemplo, era citado na tradição católica em relação à oração pelos mortos. Reformadores que não reconheciam o mesmo estatuto canônico do livro não aceitavam que ele fundamentasse uma doutrina. Gerald Bray observa que os reformadores retomaram a antiga discussão entre Agostinho e Jerônimo e que a recepção protestante dos Apócrifos variou: alguns reformadores reconheciam seu valor, embora não os colocassem no mesmo nível dos livros canônicos.

No século XIX, muitas Sociedades Bíblicas passaram a publicar Bíblias protestantes sem a seção dos Apócrifos, por razões confessionais, editoriais e econômicas. A tradição anglicana e algumas outras comunidades conservaram leituras litúrgicas ou edições com os Apócrifos, embora não necessariamente lhes atribuam a mesma autoridade doutrinal.

A diferença entre os cânones deve ser apresentada com honestidade: católicos não afirmam que os protestantes tenham removido livros do Novo Testamento; protestantes, por sua vez, entendem que os livros deuterocanônicos não pertencem ao cânon inspirado do Antigo Testamento. O desacordo é histórico e teológico, ligado à autoridade da tradição, à recepção e à interpretação das fontes antigas.

11. A primeira grande Bíblia impressa: Gutenberg

A chamada Bíblia de Gutenberg, impressa em Mainz, por volta de 1454–1455, é considerada a primeira grande Bíblia produzida na Europa com tipos móveis metálicos. Era uma Bíblia latina baseada na tradição da Vulgata. A Biblioteca do Congresso estima que tenham sido produzidos cerca de 180 exemplares, em papel e pergaminho, embora os números sejam estimativas históricas.

É importante não chamá-la de primeiro livro impresso do mundo: técnicas de impressão com tipos móveis já existiam na Ásia antes de Gutenberg. Sua importância está em ter inaugurado uma nova escala de produção tipográfica na Europa ocidental. A impressão facilitou a circulação de textos, a comparação de exemplares e, posteriormente, a expansão de traduções bíblicas e debates religiosos.

A Bíblia de Gutenberg não criou o cânon nem foi a primeira Bíblia existente. Manuscritos bíblicos completos ou parciais circularam por muitos séculos. A imprensa alterou a reprodução e a difusão do texto, não a origem dos livros.

12. Os Evangelhos Sinóticos

Mateus, Marcos e Lucas são chamados Sinóticos porque podem ser colocados em paralelo e apresentam grande quantidade de material, sequência narrativa e formulações semelhantes. A palavra vem do grego syn-opsis, “visão conjunta”. João possui estrutura, linguagem e seleção narrativa bastante diferentes, embora também testemunhe a fé cristã em Jesus.

A questão sinótica procura explicar as semelhanças e diferenças entre os três primeiros Evangelhos. A hipótese mais aceita em grande parte da pesquisa contemporânea é a prioridade de Marcos: Mateus e Lucas utilizaram Marcos como uma de suas fontes. Como Mateus e Lucas também compartilham ditos de Jesus ausentes em Marcos, muitos estudiosos propõem uma fonte hipotética de ditos chamada Q (do alemão Quelle, “fonte”). Há outras hipóteses, como a hipótese das duas fontes, a hipótese de Farrer e modelos de tradição oral.

Evangelho

Características gerais

Ênfases frequentes

Mateus

Organiza o ensino de Jesus em grandes discursos; utiliza muitas citações e alusões às Escrituras de Israel.

Jesus como Messias e cumprimento das Escrituras; Reino dos Céus; discipulado e comunidade.

Marcos

Narrativa concisa, dinâmica e marcada por ações; provavelmente o mais antigo dos três.

Identidade de Jesus revelada no caminho da cruz; incompreensão dos discípulos; discipulado.

Lucas

Narrativa ordenada, com atenção a personagens marginalizados e à extensão da salvação.

Misericórdia, oração, Espírito Santo, pobres, mulheres e universalidade da missão.

A prioridade de Marcos é uma hipótese histórico-literária, não um dogma de fé. A hipótese Q também é uma reconstrução acadêmica, não um documento encontrado. A Igreja não exige que se adote uma teoria específica sobre as fontes para confessar a inspiração dos Evangelhos. O Catecismo e a Dei Verbum reconhecem que os evangelistas selecionaram, sintetizaram e organizaram tradições sobre Jesus, mantendo a intenção de transmitir fielmente o que receberam.

13. Linha do tempo resumida

Período

Marco

séc. III a.C.

Início da tradução grega da Torá em Alexandria.

séc. II–I a.C.

Traduções e composições gregas de outros livros; circulação da Septuaginta em expansão.

séc. I d.C.

Composição dos escritos do Novo Testamento e circulação entre as Igrejas.

séc. II

Reconhecimento dos quatro Evangelhos; listas e debates sobre escritos apostólicos.

367

Atanásio apresenta lista correspondente aos 27 livros do Novo Testamento.

393–419

Sínodos africanos de Hipona e Cartago testemunham a recepção regional do cânon.

séc. IV–V

Trabalho de Jerônimo e consolidação gradual da tradição latina da Vulgata.

1442

Concílio de Florença enumera os livros recebidos pela Igreja.

1546

Concílio de Trento define solenemente o cânon católico.

1454–1455

Impressão da Bíblia de Gutenberg em Mainz.

14. Conclusões

A Bíblia é fruto de uma longa história de revelação, composição, transmissão e recepção. O cânon não surgiu de uma decisão isolada, mas de um processo em que comunidades judaicas e cristãs reconheceram determinados escritos como normativos. A Igreja Católica entende que o Espírito Santo a assistiu nesse discernimento e que os concílios explicitaram uma tradição recebida.

A Septuaginta foi decisiva para a vida dos judeus de língua grega e para a Igreja antiga. A Vulgata tornou-se referência fundamental no Ocidente latino. Os deuterocanônicos não foram inventados no Concílio de Trento: foram recebidos na tradição cristã, embora sua autoridade tenha sido debatida por alguns autores e regiões. Trento encerrou oficialmente a controvérsia para a Igreja Católica no contexto da Reforma.

Os escritos apócrifos e pseudepígrafos são fontes valiosas para a história das ideias religiosas, mas não se confundem automaticamente com a Escritura inspirada. A Bíblia protestante reflete uma opção confessional pelo cânon hebraico para o Antigo Testamento, enquanto a Bíblia católica conserva a coleção recebida na tradição grega e latina. Os Evangelhos Sinóticos, por fim, mostram como a memória apostólica foi transmitida e organizada em formas literárias distintas.

15. Bibliografia e fontes para aprofundamento

Fontes primárias e documentos da Igreja

·       BÍBLIA SAGRADA. Edições católicas com livros deuterocanônicos; consultar também edições críticas dos textos hebraico, aramaico e grego.

·       CONCÍLIO DE TRENTO. Sessão IV (8 de abril de 1546): Decreto sobre os livros sagrados e sobre as tradições recebidas. Texto latino e traduções em coleções de concílios.

·       CONCÍLIO VATICANO II. Constituição dogmática Dei Verbum sobre a Revelação Divina, especialmente nn. 7–13. 18 nov. 1965.

·       ATALÁSIO DE ALEXANDRIA. Carta Festal 39 (367), lista dos livros canônicos.

·       EUSÉBIO DE CESAREIA. História Eclesiástica, livro III, cap. 25.

·       JERÔNIMO. Prólogos aos livros da Bíblia na Vulgata; consultar edição crítica da Vulgata e coleções patrísticas.

·       AGOSTINHO. A Doutrina Cristã, livro II, especialmente a discussão sobre os livros recebidos pela Igreja.

Estudos acadêmicos e obras de referência

·       BRAY, Gerald. “The Protestant Reformation on the Biblical Canon and the Apocrypha”. In: Oxford Handbook / estudos sobre o cânon e os Apócrifos. Oxford University Press, 2024.

·       CHAPMAN, Stephen B. The Eerdmans Companion to the Bible. Grand Rapids: Eerdmans. Capítulo sobre a transmissão e formação do cânon.

·       GALLAGHER, Edmon L.; MEADE, John D. The Biblical Canon Lists from Early Christianity: Texts and Analysis. Oxford: Oxford University Press, 2017.

·       GALLAGHER, Edmon L. The Apocrypha through History: The Canonical Reception of the Deuterocanonical Literature. Oxford University Press, 2025.

·       LIM, Timothy H. The Formation of the Jewish Canon. New Haven: Yale University Press, 2013.

·       METZGER, Bruce M. The Canon of the New Testament: Its Origin, Development, and Significance. Oxford: Clarendon Press, 1987.

·       McDONALD, Lee Martin. The Biblical Canon: Its Origin, Transmission, and Authority. Peabody: Hendrickson.

·       TREBOLLE BARRERA, Julio. The Jewish Bible and the Christian Bible: An Introduction to the History of the Bible. Grand Rapids: Eerdmans, 1998.

·       WASSERSTEIN, Abraham; WASSERSTEIN, David J. The Legend of the Septuagint: From Classical Antiquity to Today. Cambridge: Cambridge University Press, 2006.

·       KERBER, Daniel. “The Canon in the Vulgate Translation of the Bible”. The Bible Translator, v. 67, n. 2, 2016.

Fontes digitais consultadas

·       VATICANO. Dei Verbum (texto em português): https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651118_dei-verbum_po.html

·       LIBRARY OF CONGRESS. The Gutenberg Bible: https://www.loc.gov/exhibits/bibles/the-gutenberg-bible.html

·       OXFORD ACADEMIC. Sylvie Honigman, “Aristeas, Letter of”, Oxford Classical Dictionary, atualização 2021: https://academic.oup.com/edited-volume/61673/chapter-abstract/548509471

·       OXFORD ACADEMIC. Gerald Bray, “The Protestant Reformation on the Biblical Canon and the Apocrypha”, 2024: https://academic.oup.com/edited-volume/58970/chapter-abstract/494427922

·       NEW ADVENT. Catholic Encyclopedia: “Canon of the Old Testament”; “Canon of the New Testament”; “Muratorian Canon”. Utilizar como referência histórica confessional do início do século XX, cotejando com estudos recentes.

·       CAMBRIDGE UNIVERSITY PRESS. Wasserstein & Wasserstein, The Legend of the Septuagint, capítulo “The Letter of Aristeas”: https://www.cambridge.org/core/books/abs/legend-of-the-septuagint/letter-of-aristeas/03C1222D8B24A3FEBA3807B1951062B0

·       UNITED STATES CONFERENCE / Religious Studies Center. Estudos introdutórios sobre os critérios de canonicidade; cotejar com Metzger, Gallagher e Meade.

Glossário breve

Termo

Definição

Cânon

Lista normativa de livros recebidos como Escritura sagrada por uma comunidade religiosa.

Hagiógrafo

Autor humano de um livro bíblico, considerado inspirado pela fé.

Septuaginta (LXX)

Tradução grega antiga das Escrituras judaicas, iniciada com a Torá no século III a.C.

Vulgata

Tradição latina da Bíblia associada sobretudo ao trabalho de revisão e tradução de Jerônimo.

Deuterocanônico

Livro reconhecido como canônico pela Igreja Católica cuja recepção foi discutida em certos períodos.

Apócrifo

Termo variável para escritos não incluídos em determinado cânon; pode ter sentidos distintos entre tradições.

Pseudepígrafo

Obra atribuída literariamente a uma figura antiga que não é considerada seu autor histórico.

Sinóticos

Mateus, Marcos e Lucas, assim chamados por permitirem comparação em paralelo.

 

DOCUMENTOS OFICIAIS DA IGREJA CATÓLICA SOBRE A SAGRADA ESCRITURA

História, inspiração divina, formação do cânon, interpretação e autoridade das Escrituras

A Igreja Católica possui um patrimônio muito extenso de documentos que tratam da Sagrada Escritura. São documentos de concílios ecumênicos, encíclicas papais, constituições dogmáticas, exortações apostólicas, documentos da Pontifícia Comissão Bíblica e ensinamentos do Catecismo.

Esses documentos são fundamentais para compreender não somente o que a Igreja ensina sobre a Bíblia, mas também por que a Igreja considera determinados livros inspirados, como reconheceu o cânon, como entende a inspiração divina e quais critérios devem orientar a interpretação das Escrituras.

Vou organizá-los cronologicamente e por importância doutrinária.


PARTE I — DOCUMENTOS CONCILIARES

1. Concílio de Hipona (393)

Data: 393 d.C.
Local: Hipona, norte da África.

O Sínodo de Hipona é um dos primeiros testemunhos conciliares importantes sobre a relação dos livros bíblicos recebidos pela Igreja.

Sua importância está na apresentação de uma lista de livros reconhecidos para leitura e autoridade eclesial.

A lista incluía os livros que posteriormente seriam confirmados na tradição latina, inclusive aqueles que hoje chamamos de deuterocanônicos.

Importância histórica:

  • Demonstra que a Igreja já possuía uma tradição de reconhecimento dos livros bíblicos.
  • Testemunha a recepção dos deuterocanônicos no cristianismo latino.
  • Mostra que a definição do cânon não começou com a Reforma Protestante nem com o Concílio de Trento.

É importante observar que Hipona foi um sínodo regional, não um concílio ecumênico.

2. Concílios de Cartago (397 e 419)

Os concílios de Cartago reafirmaram a lista de livros recebidos pelas Igrejas do norte da África.

Entre os participantes e personagens ligados a esse ambiente eclesiástico estava Santo Agostinho.

A lista contemplava os livros deuterocanônicos.

Importância doutrinária:

Os concílios demonstram que a Igreja não considerava o Antigo Testamento limitado exclusivamente à coleção hebraica posteriormente adotada pelo judaísmo rabínico.

A tradição cristã ocidental reconhecia uma coleção mais ampla, transmitida principalmente pela tradição grega e latina.

Esses testemunhos são importantes para compreender a história do cânon católico.


3. Concílio de Florença (1431–1449)

Um documento particularmente importante é o Decreto para os Jacobitas, de 1442.

Nesse decreto, o Concílio apresenta a relação dos livros que a Igreja recebe como sagrados e canônicos.

O documento é importante porque demonstra que a Igreja já possuía uma definição explícita da coleção bíblica antes do Concílio de Trento.

Consequência histórica:

É incorreto afirmar que os sete livros deuterocanônicos foram acrescentados pela primeira vez à Bíblia em 1546.

Florença já havia apresentado a lista que seria posteriormente reafirmada em Trento.


4. Concílio de Trento — Decreto sobre os livros sagrados (1546)

Este é um dos documentos mais importantes para o estudo do cânon bíblico católico.

Data: 8 de abril de 1546.
Sessão: IV.
Documento: Decreto sobre os livros sagrados e as tradições recebidas.

O Concílio foi realizado durante a Reforma Protestante, quando surgiram divergências sobre a autoridade da tradição e sobre a composição do Antigo Testamento.

O que Trento definiu?

O Concílio declarou solenemente quais livros deveriam ser recebidos como sagrados e canônicos pela Igreja Católica.

A lista compreende:

  • 46 livros do Antigo Testamento;
  • 27 livros do Novo Testamento.

Total: 73 livros.

Qual foi sua importância?

1.    Confirmou solenemente o cânon recebido pela Igreja.

2.    Reafirmou a inspiração dos livros deuterocanônicos.

3.    Estabeleceu a autoridade da tradição apostólica recebida pela Igreja.

4.    Reafirmou a importância da Vulgata latina para o uso público da Igreja.

É importante compreender que Trento não criou a Bíblia. Sua definição ocorreu depois de muitos séculos de recepção, transmissão e reconhecimento dos livros sagrados.

Documento para consulta:

Concílio de Trento — documentos históricos


5. Concílio Vaticano I (1869–1870)

Documento: Constituição dogmática Dei Filius.
Data: 24 de abril de 1870.

O Vaticano I tratou da relação entre fé e razão, da Revelação divina e da autoridade da Igreja.

No capítulo II, dedicado à Revelação, reafirma a inspiração divina das Escrituras.

O documento ensina que os livros do Antigo e do Novo Testamento devem ser recebidos como sagrados e canônicos porque foram escritos sob a inspiração do Espírito Santo.

Também reafirma que Deus é seu autor.

Importância

O Concílio reforçou a doutrina católica diante de correntes racionalistas que procuravam reduzir a Bíblia a uma produção exclusivamente humana.

Entretanto, isso não significa negar a participação dos autores humanos.

A compreensão mais desenvolvida dessa relação seria apresentada posteriormente pelo Vaticano II.


6. Concílio Vaticano II — Constituição Dogmática Dei Verbum (1965)

Este é, provavelmente, o documento mais importante da Igreja contemporânea sobre a Sagrada Escritura.

Data: 18 de novembro de 1965.
Papa: São Paulo VI.
Documento: Constituição Dogmática sobre a Revelação Divina.

A Dei Verbum significa literalmente Palavra de Deus.

O documento possui seis capítulos e trata da Revelação divina, da transmissão da Revelação, da inspiração, da interpretação bíblica e da importância da Escritura na vida da Igreja.

Constituição Dogmática Dei Verbum — texto integral

Os principais ensinamentos da Dei Verbum

Capítulo I — A Revelação em si mesma

Ensina que Deus se revela à humanidade por meio de acontecimentos e palavras intimamente relacionados.

Cristo é o mediador e a plenitude de toda a Revelação.

Capítulo II — A transmissão da Revelação divina

Explica a relação entre Sagrada Escritura e Sagrada Tradição.

O parágrafo 9 ensina:

A Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura procedem da mesma fonte divina e estão intimamente ligadas.

O parágrafo 10 explica a relação entre Escritura, Tradição e Magistério.

Uma observação fundamental: a Igreja não ensina que o Magistério esteja acima da Palavra de Deus. Ele está a serviço dela.

Capítulo III — A inspiração divina e a interpretação da Sagrada Escritura

Este capítulo é essencial para compreender a inspiração bíblica.

O parágrafo 11 ensina que:

  • Deus é o autor da Sagrada Escritura.
  • Os livros foram escritos sob a inspiração do Espírito Santo.
  • Os autores humanos são verdadeiros autores.
  • Tudo aquilo que os hagiógrafos afirmam como autores inspirados deve ser compreendido dentro da verdade que Deus quis consignar nas Escrituras para nossa salvação.

O parágrafo 12 apresenta critérios fundamentais para a interpretação:

1.    Considerar a unidade de toda a Escritura.

2.    Considerar a Tradição viva da Igreja.

3.    Observar a analogia da fé.

Também é necessário investigar a intenção dos autores sagrados e os gêneros literários empregados.

Capítulo IV — O Antigo Testamento

Ensina que o Antigo Testamento conserva seu valor permanente e que a antiga aliança nunca foi revogada.

Capítulo V — O Novo Testamento

Apresenta a importância dos Evangelhos e dos demais escritos apostólicos.

Capítulo VI — A Sagrada Escritura na vida da Igreja

O parágrafo 21 afirma que a Igreja sempre venerou as Escrituras assim como venera o Corpo do Senhor.

É uma das afirmações mais importantes do documento.

A Palavra de Deus e a Eucaristia são apresentadas como duas mesas das quais a Igreja recebe o alimento espiritual.


PARTE II — ENCÍCLICAS PAPAIS SOBRE A BÍBLIA

7. Providentissimus Deus — Papa Leão XIII (1893)

Leão XIII publicou esta encíclica em 18 de novembro de 1893.

Título: Providentissimus Deus.

É um dos documentos fundamentais da história dos estudos bíblicos católicos.

Providentissimus Deus — texto integral

Contexto histórico

No século XIX, os estudos bíblicos enfrentavam desafios relacionados ao racionalismo, ao desenvolvimento das ciências naturais e às novas pesquisas históricas.

Alguns estudiosos procuravam interpretar a Bíblia exclusivamente como documento humano.

Leão XIII procurou estabelecer orientações para os estudiosos católicos.

Principais ensinamentos

  • Defesa da inspiração divina.
  • Importância do estudo das línguas originais.
  • Necessidade de formação bíblica dos sacerdotes.
  • Valorização dos Padres da Igreja.
  • Relação entre fé e investigação científica.
  • Necessidade de evitar interpretações contrárias à doutrina católica.

A encíclica também incentivou o aprofundamento acadêmico das Escrituras.

Sua importância histórica é enorme porque preparou o terreno para o desenvolvimento dos estudos bíblicos católicos no século XX.


8. Spiritus Paraclitus — Papa Bento XV (1920)

Data: 15 de setembro de 1920.
Papa: Bento XV.
Título: Spiritus Paraclitus.

Foi publicada por ocasião do décimo quinto centenário da morte de São Jerônimo.

O documento destaca a importância da Sagrada Escritura na vida espiritual e intelectual da Igreja.

Principais ensinamentos

  • A importância de São Jerônimo para os estudos bíblicos.
  • A necessidade de estudar cuidadosamente os textos sagrados.
  • A valorização da leitura espiritual da Bíblia.
  • A importância da interpretação em conformidade com a fé da Igreja.
  • A necessidade de conhecer os escritos patrísticos.

O documento também recorda a importância do trabalho de tradução realizado por Jerônimo.

É particularmente interessante para compreender a relação entre a tradição patrística e a interpretação bíblica.


9. Divino Afflante Spiritu — Papa Pio XII (1943)

Pio XII publicou esta encíclica em 30 de setembro de 1943.

Título: Divino Afflante Spiritu.

É um dos documentos mais importantes da história moderna da exegese católica.

Divino Afflante Spiritu — texto integral

Contexto histórico

Cinquenta anos antes, Leão XIII havia publicado Providentissimus Deus.

Nesse intervalo, os estudos arqueológicos, históricos e linguísticos avançaram consideravelmente.

Foram descobertos novos documentos antigos, desenvolvidos métodos científicos e ampliado o conhecimento das línguas bíblicas.

Pio XII reconheceu a importância dessas descobertas.

O que o documento ensinou?

1.    Necessidade de estudar hebraico, aramaico e grego.

2.    Importância dos manuscritos antigos.

3.    Valorização da crítica textual.

4.    Estudo dos gêneros literários.

5.    Investigação do contexto histórico.

6.    Necessidade de compreender a intenção dos autores sagrados.

Um dos grandes méritos dessa encíclica foi incentivar os exegetas católicos a utilizarem os instrumentos científicos disponíveis para compreender melhor a Bíblia.

Uma observação importante: a Igreja não considera que a utilização do método histórico-crítico seja uma ameaça à fé. Pelo contrário, reconhece sua utilidade quando aplicado corretamente.


PARTE III — DOCUMENTOS DA PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA

A Pontifícia Comissão Bíblica é um organismo da Santa Sé dedicado ao aprofundamento das questões relacionadas à interpretação das Escrituras.

Seus documentos constituem referências importantes para exegetas, teólogos, professores e pesquisadores.

10. A Interpretação da Bíblia na Igreja (1993)

Documento publicado em 15 de abril de 1993.

Foi elaborado pela Pontifícia Comissão Bíblica durante o pontificado de São João Paulo II.

A Interpretação da Bíblia na Igreja — documento integral

É uma das referências mais importantes para compreender como a Igreja orienta a interpretação bíblica atualmente.

Principais assuntos

  • Método histórico-crítico.
  • Análise literária.
  • Crítica textual.
  • Interpretação patrística.
  • Abordagem canônica.
  • Interpretação espiritual.
  • Fundamentalismo bíblico.
  • Relação entre Bíblia e Igreja.

Um ensinamento particularmente importante

O documento reconhece que o método histórico-crítico é indispensável para o estudo científico dos textos antigos.

Entretanto, também alerta que a Bíblia não pode ser reduzida a um documento histórico sem considerar sua dimensão espiritual e teológica.

A interpretação católica deve respeitar simultaneamente a dimensão humana e divina da Escritura.


11. O Povo Judaico e as Suas Sagradas Escrituras na Bíblia Cristã (2001)

Documento publicado em 24 de maio de 2001.

Trata da relação entre o Antigo Testamento, o judaísmo e a fé cristã.

É especialmente importante para compreender:

  • A origem judaica do cristianismo.
  • A relação entre a Bíblia hebraica e o Antigo Testamento cristão.
  • A interpretação cristológica das Escrituras.
  • A importância da tradição judaica.
  • A relação entre a antiga e a nova aliança.

O documento também ajuda a evitar interpretações equivocadas que desprezem o judaísmo ou apresentem o Antigo Testamento como se tivesse perdido todo o seu valor.


12. Bíblia e Moral: Raízes Bíblicas do Agir Cristão (2008)

Documento da Pontifícia Comissão Bíblica.

Trata da relação entre a Sagrada Escritura e a moral cristã.

Explica como os ensinamentos bíblicos fundamentam a conduta humana.

Entre os temas abordados estão:

  • Dignidade humana.
  • Justiça.
  • Liberdade.
  • Responsabilidade.
  • Relações sociais.
  • Proteção da vida.
  • Amor ao próximo.

É uma referência importante para compreender como os princípios bíblicos devem orientar a vida moral cristã.


13. Inspiração e Verdade da Sagrada Escritura (2014)

Este é outro documento de grande importância.

Foi publicado pela Pontifícia Comissão Bíblica em 22 de fevereiro de 2014.

Seu título original é L'ispirazione e la verità della Sacra Scrittura.

A obra aprofunda duas questões fundamentais:

Primeira: a inspiração.

Como compreender que Deus seja o autor da Bíblia e, ao mesmo tempo, os homens sejam verdadeiros autores dos textos?

Segunda: a verdade.

Como compreender a verdade da Escritura considerando os diferentes gêneros literários, contextos históricos e formas de expressão?

O documento aprofunda especialmente a relação entre a inspiração divina e a contribuição dos autores humanos.

É uma leitura recomendada para quem deseja estudar a doutrina católica da inspiração bíblica em nível acadêmico.

A relação oficial de documentos da Comissão Bíblica pode ser consultada aqui:

Pontifícia Comissão Bíblica — documentos publicados


PARTE IV — CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA

14. Catecismo da Igreja Católica — parágrafos 50 a 141

O Catecismo apresenta uma síntese oficial da doutrina católica sobre a Revelação divina e a Sagrada Escritura.

Catecismo da Igreja Católica — Parte I, parágrafos 50–141

Os parágrafos mais importantes para o nosso estudo são:

Parágrafo

Assunto

74–83

Transmissão da Revelação divina

84–95

Depósito da fé e Magistério

101–104

Cristo, Palavra única da Escritura

105–108

Inspiração e verdade da Sagrada Escritura

109–114

Interpretação da Escritura

115–119

Sentidos da Escritura

120

Cânon das Escrituras

121–123

Antigo Testamento

124–127

Novo Testamento

128–130

Unidade entre os dois Testamentos

131–133

Importância da Sagrada Escritura na vida cristã

134–141

Relação entre Escritura e vida da Igreja

Três parágrafos que merecem atenção especial

Parágrafo 105 — Inspiração

Afirma que Deus é o autor da Sagrada Escritura.

Parágrafo 120 — Cânon

Apresenta a relação dos livros que compõem a Bíblia católica.

Parágrafo 131 — Importância da Escritura

Ensina que a Igreja exorta todos os fiéis a recorrerem frequentemente à leitura das Escrituras.


PARTE V — OUTROS DOCUMENTOS IMPORTANTES

15. Verbum Domini — Bento XVI (2010)

Bento XVI publicou a Exortação Apostólica Pós-Sinodal Verbum Domini em 30 de setembro de 2010.

Verbum Domini — texto integral

É um dos documentos mais ricos sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja.

Foi elaborado a partir dos trabalhos do Sínodo dos Bispos de 2008.

Principais temas

  • A Palavra de Deus na Revelação.
  • A inspiração das Escrituras.
  • A relação entre Bíblia e Tradição.
  • A interpretação bíblica.
  • A liturgia da Palavra.
  • A homilia.
  • A leitura orante da Bíblia.
  • A evangelização.
  • A missão da Igreja.

Um dos pontos centrais é que a interpretação autêntica da Bíblia não pode ser separada da vida de fé da Igreja.

O documento também aprofunda a chamada lectio divina, uma forma tradicional de leitura orante das Escrituras.


16. Sacrosanctum Concilium — Vaticano II (1963)

Constituição sobre a Sagrada Liturgia.

Embora não seja exclusivamente dedicada à Bíblia, possui ensinamentos importantes sobre sua presença na liturgia.

O número 24 afirma a importância da Sagrada Escritura na celebração litúrgica.

O documento ensina que as Escrituras possuem importância fundamental na celebração dos sacramentos e na vida espiritual dos fiéis.

Isso explica por que a liturgia católica possui leituras bíblicas organizadas e distribuídas ao longo do ano litúrgico.


17. Lumen Gentium — Vaticano II (1964)

Constituição Dogmática sobre a Igreja.

Embora seu tema central seja a natureza da Igreja, apresenta ensinamentos importantes sobre a Palavra de Deus.

O documento explica a missão dos bispos como sucessores dos apóstolos e sua responsabilidade de ensinar e transmitir fielmente a fé.

É importante porque a Igreja não compreende a Bíblia separadamente da comunidade apostólica que recebeu e transmitiu a Revelação.


PARTE VI — COMO ESSES DOCUMENTOS SE COMPLETAM?

Podemos organizar o desenvolvimento do ensinamento católico da seguinte maneira:

Documento

Principal contribuição

Hipona (393)

Testemunho antigo da lista de livros recebidos

Cartago (397 e 419)

Reafirmação da tradição canônica africana

Florença (1442)

Enumeração dos livros sagrados

Trento (1546)

Definição solene do cânon católico

Vaticano I (1870)

Reafirmação da inspiração divina

Providentissimus Deus (1893)

Orientação para os estudos bíblicos

Spiritus Paraclitus (1920)

Valorização da Escritura e de São Jerônimo

Divino Afflante Spiritu (1943)

Desenvolvimento dos estudos científicos e exegéticos

Dei Verbum (1965)

Doutrina fundamental sobre Revelação e Escritura

Interpretação da Bíblia na Igreja (1993)

Orientação dos métodos de interpretação

O Povo Judaico e suas Sagradas Escrituras (2001)

Relação entre Bíblia hebraica e cristianismo

Bíblia e Moral (2008)

Fundamentos bíblicos da moral cristã

Verbum Domini (2010)

Palavra de Deus na vida e missão da Igreja

Inspiração e Verdade da Sagrada Escritura (2014)

Aprofundamento da inspiração e da verdade bíblica


PARTE VII — QUAIS DOCUMENTOS ESTUDAR PRIMEIRO?

Se o objetivo é desenvolver um conhecimento aprofundado da posição católica sobre a Bíblia, recomendo esta sequência:

1. Dei Verbum (1965)
É a base doutrinária de todo o estudo.

2. Catecismo da Igreja Católica (101–141)
Apresenta uma síntese organizada e acessível da doutrina.

3. Concílio de Trento — Sessão IV (1546)
Fundamental para estudar o cânon e os deuterocanônicos.

4. Providentissimus Deus (1893)
Para conhecer a orientação de Leão XIII sobre os estudos bíblicos.

5. Divino Afflante Spiritu (1943)
Para compreender a evolução dos métodos de pesquisa bíblica.

6. A Interpretação da Bíblia na Igreja (1993)
Para estudar os métodos exegéticos e os critérios de interpretação.

7. Verbum Domini (2010)
Para compreender o lugar da Palavra de Deus na vida da Igreja.

8. Inspiração e Verdade da Sagrada Escritura (2014)
Para aprofundar academicamente a inspiração e a verdade bíblica.


Conclusão teológica

Existe uma questão fundamental que atravessa todos esses documentos:

A Igreja Católica não considera a Bíblia um livro isolado, independente da Tradição apostólica e da comunidade que a recebeu, preservou e transmitiu.

A Constituição Dei Verbum, especialmente nos números 9 e 10, ensina que Sagrada Escritura e Sagrada Tradição constituem um único depósito sagrado da Palavra de Deus, confiado à Igreja.

Isso não significa que a Igreja seja proprietária da Palavra de Deus, mas que recebeu a missão de guardá-la, transmiti-la e interpretá-la fielmente.

A própria história da formação do cânon demonstra essa realidade: antes de existir uma Bíblia cristã reunida em um único volume, já existiam comunidades que anunciavam Cristo, celebravam a Eucaristia, transmitiam os ensinamentos apostólicos e reconheciam determinados escritos como Palavra inspirada.

A Bíblia nasceu no contexto da história da Revelação e foi recebida, preservada e transmitida pela Igreja Católica Apostólica Romana e as Igrejas Católicas do Oriente (Jerusalém, Constantinopla, Armênia, Melquita, Copta, Grega, e demais Igrejas Ortodoxas).  A interpretação da Sagrada Escritura cabe Magistério da Igreja Católica. É ela que zela pelo "depósito da fé", ou seja, a Tradição Oral e a Tradição Escrita.   

Essa é uma das chaves fundamentais para compreender a doutrina católica sobre a Sagrada Escritura.

 


A SAGRADA ESCRITURA, SUA HISTÓRIA E FORMAÇÃO

  Texto de Elmando Toledo ESTUDO HISTÓRICO, BÍBLICO E TEOLÓGICO Do mundo bíblico antigo à definição dos cânones cristãos A Sagrada Escri...