
Nota
metodológica
Este estudo distingue três níveis:
(1) o que Lutero efetivamente escreveu.
(2) a interpretação católica de sua tese;
(3) a diversidade de posições entre
outras tradições cristãs. As citações de Lutero são traduções de passagens de
De servo arbitrio (1525), obra disponível em tradução inglesa no Christian
Classics Ethereal Library. Como paginação varia entre edições, as referências
são dadas por obra e seção/capítulo quando possível. Para uso acadêmico formal,
recomenda-se conferir a tradução portuguesa ou alemã escolhida.
A
expressão “livre-arbítrio” pode significar coisas diferentes. Lutero não negava
que seres humanos façam escolhas cotidianas; sua controvérsia central era se a
vontade humana, ferida pelo pecado, pode por si mesma iniciar ou cooperar
decisivamente na conversão e na salvação. A crítica católica aqui apresentada
se dirige sobretudo à negação da liberdade real no âmbito moral e salvífico,
não à afirmação de que a graça é necessária.
Resumo
executivo:
· Em
1524, Erasmo publicou De libero arbitrio, defendendo que os textos bíblicos
sobre mandamentos, advertências e juízo pressupõem uma forma real de liberdade
humana, sempre dependente da graça.
· Em
1525, Lutero respondeu com De servo arbitrio (“A vontade cativa/escravizada”),
sustentando que, após a queda, a vontade humana não pode voltar-se para Deus
para a salvação sem a ação eficaz da graça.
· Lutero
pretendia proteger a primazia absoluta da graça e combater a ideia de que o ser
humano se salva por méritos próprios. O ponto controverso é se sua formulação
torna a vontade humana incapaz de cooperação real e ameaça a responsabilidade
moral.
· A
doutrina católica afirma simultaneamente a necessidade absoluta da graça e a
realidade da liberdade: a iniciativa é de Deus, mas a pessoa pode, movida e
auxiliada pela graça, consentir, resistir ou cooperar.
· Outras
tradições protestantes não são uniformes: luteranos, reformados/calvinistas,
arminianos e metodistas formulam de modos diferentes a relação entre graça,
eleição e vontade.
Sumário
· 1.
Contexto histórico: Reforma, humanismo e controvérsia
· 2.
Quem foi Martinho Lutero
· 3.
Erasmo e De libero arbitrio (1524)
· 4.
De servo arbitrio (1525): o argumento de Lutero
· 5.
Principais afirmações de Lutero sobre o livre-arbítrio
· 6.
Textos bíblicos usados no debate
· 7.
Resposta católica: graça e liberdade
· 8.
Padres da Igreja e tradição antiga
· 9.
Concílio de Trento, Catecismo e documentos católicos
· 10.
Outras denominações cristãs
· 11.
Avaliação crítica: onde está a divergência
· 12.
Conclusão
· 13.
Bibliografia e fontes primárias
1.
Contexto histórico: Reforma, humanismo e controvérsia
A
controvérsia sobre o livre-arbítrio não começou com Lutero. Ela retoma questões
antigas: como conciliar a soberania de Deus, a realidade do pecado, a
responsabilidade humana e a necessidade da graça? No Ocidente latino, Agostinho
de Hipona (354–430) combateu o pelagianismo e insistiu que a salvação depende
da graça; ao mesmo tempo, escreveu sobre a vontade e a responsabilidade. Na
Idade Média, autores como Anselmo, Tomás de Aquino e outros discutiram a
relação entre causalidade divina e atos livres.
No
início do século XVI, a imprensa, o humanismo renascentista e as tensões
religiosas tornaram o debate mais público. Lutero, monge agostiniano e
professor de Bíblia em Wittenberg, criticou práticas e doutrinas que
considerava obscurecer a justificação pela fé e a suficiência da graça. A
Reforma não foi apenas uma disputa disciplinar: envolveu autoridade eclesial,
sacramentos, justificação, interpretação bíblica e antropologia teológica.
Erasmo
de Roterdã (c. 1466–1536), humanista cristão, desejava reformas morais e
eclesiais, mas receava que certas formulações reformadoras conduzissem ao
fatalismo ou enfraquecessem a responsabilidade humana. Sua obra De libero
arbitrio diatribe sive collatio saiu em 1524. Lutero respondeu em 1525 com De
servo arbitrio. A troca é um marco da primeira geração da Reforma.
A disputa
entre Lutero e Erasmo foi uma discussão teológica real, não apenas uma
divergência sobre palavras.
2.
Quem foi Martinho Lutero
Martinho
Lutero (1483–1546) foi um frade agostiniano alemão, professor de teologia e
figura central da Reforma do século XVI. Em 1517, tornou-se conhecido pela
controvérsia em torno das indulgências; nos anos seguintes, seu conflito com
autoridades eclesiásticas ampliou-se para questões de autoridade, sacramentos,
justificação e interpretação da Escritura. Em 1521, foi condenado e excomungado
após a Dieta de Worms e a bula Decet Romanum Pontificem.
A
sua doutrina da vontade cativa deve ser entendida no contexto de sua
preocupação com a certeza da salvação e com a incapacidade humana de produzir
justiça diante de Deus. Lutero considerava perigoso atribuir ao ser humano
qualquer parcela autônoma de iniciativa salvífica, pois isso poderia deslocar a
confiança da misericórdia divina para o mérito humano.
Importa
evitar duas caricaturas. Primeiro, Lutero não afirmava que as pessoas não
escolhem o que comer, trabalhar ou fazer em situações ordinárias. Segundo, não
é correto dizer que a doutrina católica ensina que o homem se salva sozinho: a
Igreja Católica também ensina que a graça é preveniente, necessária e gratuita.
A divergência está no tipo de liberdade que permanece após o pecado e na
natureza da resposta humana à graça.
3.
Erasmo e De libero arbitrio (1524)
Erasmo
não defendia uma autonomia absoluta do homem nem uma salvação sem Cristo. Seu
argumento era que a Escritura apresenta os seres humanos como destinatários de
mandamentos, promessas, advertências e juízos; esses elementos pareceriam
perder parte de seu sentido se a vontade não tivesse qualquer possibilidade
real de responder. Ele procurou uma posição moderada: a graça inicia e sustenta
o bem, mas a vontade humana não deve ser descrita como inteiramente inerte.
A
definição discutida por Lutero, conforme a tradução tradicional de Erasmo,
descreve o livre-arbítrio como a capacidade da vontade humana de se aplicar às
coisas que conduzem à salvação ou de se afastar delas. Lutero considera essa
definição inadequada porque, a seu ver, atribui à vontade caída uma capacidade
espiritual que ela não possui sem a graça.
“Considero
o livre-arbítrio, neste sentido: uma capacidade da vontade humana pela qual o
homem pode aplicar-se às coisas que conduzem à salvação eterna ou afastar-se
delas.”
— Definição de Erasmo citada e discutida por Lutero em De servo arbitrio;
tradução livre.
Erasmo
também argumentava a partir de passagens que chamam à conversão, como Ezequiel
18,30–32 e Deuteronômio 30,19. Lutero respondia que os mandamentos revelam o
que Deus exige, mas não provam que a pessoa possua, por si mesma, a capacidade
de cumprir espiritualmente o que é exigido.
4.
De servo arbitrio (1525): o argumento de Lutero
O
título latino De servo arbitrio significa aproximadamente “Sobre a vontade
cativa” ou “Sobre o arbítrio escravizado”. A obra foi uma resposta direta a
Erasmo. Lutero considerou-a um dos seus escritos teológicos mais importantes.
Seu raciocínio pode ser resumido em cinco teses:
1. A
vontade humana está profundamente afetada pelo pecado e não consegue, por sua
própria força, iniciar a reconciliação com Deus.
2. A
salvação depende da ação soberana e eficaz da graça divina, não de uma
iniciativa humana independente.
3. Os
mandamentos de Deus mostram o bem que deve ser feito, mas não demonstram que a
pessoa caída consiga realizá-lo sem a graça.
4. A
presciência e a soberania de Deus são certas; Lutero entende que a vontade
humana não pode escapar da realidade do governo divino.
5. No
que diz respeito à salvação, Lutero prefere falar de vontade cativa a falar de
livre-arbítrio, expressão que, segundo ele, pode sugerir uma capacidade
espiritual autônoma.
Lutero
faz distinção entre o governo de Deus sobre a realidade e aquilo que podemos
compreender de Deus. Em alguns trechos, distingue o Deus revelado na Palavra do
chamado “Deus oculto”, isto é, o mistério da vontade divina não revelada. Essa
distinção é importante para interpretar as passagens mais difíceis da obra, mas
não elimina a dificuldade filosófica: como manter a responsabilidade humana se
a vontade não pode agir de outro modo no campo salvífico?
5.
Principais afirmações de Lutero sobre o livre-arbítrio
As
formulações abaixo são traduções livres de passagens da versão inglesa de De
servo arbitrio. A redação exata varia conforme a edição; por isso, não devem
ser tratadas como tradução crítica única do latim.
5.1.
O livre-arbítrio em sentido salvífico pertence a Deus
“O
livre-arbítrio é um título divino e não pode caber a ninguém senão à majestade
divina.”
— Martinho Lutero, De servo arbitrio (1525), seção em que critica a definição
de Erasmo; tradução livre.
Lutero
usa uma formulação provocativa: se “livre-arbítrio” significar poder espiritual
independente para dirigir-se a Deus, tal poder pertence somente a Deus. A frase
não significa que Deus seja a única pessoa que escolhe em qualquer sentido
cotidiano; o argumento trata do domínio da salvação.
5.2.
A vontade humana é escrava do pecado
“A vontade,
depois do pecado, está tão corrompida que perdeu a liberdade e está presa como
escrava do pecado.”
— Síntese de passagem discutida por Lutero em De servo arbitrio, ao citar a
formulação de Erasmo sobre a vontade caída; tradução livre.
A
passagem requer cuidado: nesse ponto Lutero também explora uma concessão feita
por Erasmo, argumentando que a descrição erasmiana da vontade como escrava do
pecado entra em tensão com a defesa do livre-arbítrio. O sentido geral de
Lutero é que o pecado não é apenas um conjunto de atos isolados; ele afeta a
orientação interior da vontade.
5.3.
A vontade não pode aplicar-se à graça por iniciativa própria
“O que pode
essa capacidade do livre-arbítrio fazer para aplicar-se à graça?”
— Martinho Lutero, De servo arbitrio, discussão sobre a definição de Erasmo;
tradução livre.
Lutero
insiste que não basta afirmar abstratamente que a vontade tem alguma
capacidade. Ele exige que se explique qual ato humano, anterior à graça,
poderia preparar a pessoa para recebê-la. Para ele, se esse ato fosse bom e
salvífico, já dependeria da graça; se não dependesse, a glória da salvação
seria dividida com o homem.
5.4.
A certeza da soberania divina
Em
vários trechos, Lutero relaciona a vontade cativa à presciência e à soberania
de Deus. O argumento é que Deus não prevê os acontecimentos como um espectador
incerto: seu conhecimento e sua vontade não falham. Críticos católicos
respondem que a presciência divina não deve ser confundida automaticamente com
coerção causal: saber infalivelmente que alguém fará algo não é, por si só, o
mesmo que obrigá-lo a fazê-lo.
5.5.
Por que Lutero julgava a questão central
Para
Lutero, a questão não era secundária. Se a pessoa pudesse iniciar a própria
salvação, ainda que parcialmente, a confiança poderia recair no desempenho
humano. Sua intenção era proteger a glória de Deus e a gratuidade da salvação.
A crítica católica reconhece essa preocupação legítima, mas considera que a
conclusão de Lutero vai longe demais ao negar uma cooperação livre, sempre
causada e sustentada pela graça.
6.
Textos bíblicos em debate

Ilustração
didática: textos bíblicos frequentemente mobilizados na controvérsia.
6.1.
Passagens invocadas para defender a liberdade
· Deuteronômio
30,19: “Escolhe, pois, a vida”. O discurso da aliança convoca Israel a escolher
entre vida e morte, fidelidade e infidelidade.
· Eclesiástico/Sirácida
15,14–17: afirma que Deus deixou o ser humano nas mãos de sua decisão e
apresenta diante dele fogo e água, vida e morte. É um texto importante na
tradição católica; não integra o cânon de algumas tradições protestantes.
· Josué
24,15: “Escolhei hoje a quem quereis servir”. A convocação supõe uma resposta
humana responsável.
· Ezequiel
18,30–32: Deus chama o povo à conversão e afirma não ter prazer na morte do
pecador.
· Mateus
23,37: Jesus lamenta que Jerusalém não quis acolher o chamado. A linguagem
expressa resistência humana à iniciativa divina.
· 1
Coríntios 7,37: Paulo fala de alguém que decidiu firmemente em seu coração, sem
constrangimento.
6.2.
Passagens invocadas para enfatizar a necessidade da graça
· João
6,44: ninguém pode vir a Cristo se o Pai não o atrair.
· João
15,5: “Sem mim nada podeis fazer”. O contexto é a dependência dos discípulos em
relação a Cristo.
· Romanos
7,14–25: Paulo descreve a tensão entre querer o bem e experimentar o poder do
pecado; a interpretação desse texto é debatida.
· Romanos
9,16: a misericórdia não depende simplesmente de quem quer ou de quem corre,
mas de Deus que se compadece.
· Efésios
2,1–10: a salvação é dom da graça, não motivo de vanglória humana.
· Filipenses
2,12–13: os cristãos são chamados a trabalhar pela salvação porque Deus opera
neles o querer e o agir.
6.3.
Como ler o conjunto bíblico
Nenhuma
das duas séries deve ser isolada. A Bíblia afirma a incapacidade humana de
salvar-se sem Deus e, simultaneamente, chama as pessoas à conversão,
responsabiliza-as por suas escolhas e descreve a graça como transformadora. A
interpretação católica considera que a graça torna possível a resposta livre; a
interpretação luterana clássica sublinha que a resposta salvífica é
inteiramente obra da graça e não uma contribuição independente do ser humano.
Um
texto decisivo para a síntese católica é Filipenses 2,12–13: o cristão deve
agir, precisamente porque Deus age nele. A ação divina e a humana não são
necessariamente concorrentes, como se quanto mais Deus agisse menos a pessoa
pudesse agir. A graça pode capacitar a liberdade em vez de anulá-la.
7.
Resposta católica: graça e liberdade
A Igreja Católica ensina que a
liberdade humana é real, mas criada, limitada e ferida pelo pecado. Não é
autossuficiência. A pessoa não pode alcançar a salvação sem a graça de Cristo;
tampouco pode orgulhar-se de ter iniciado por conta própria a vida sobrenatural.
A graça preveniente antecede, desperta e sustenta a resposta humana.
O Catecismo da Igreja Católica (CIC)
1730 ensina que Deus criou o ser humano racional, capaz de iniciativa e domínio
sobre os próprios atos. O CIC 1731 define a liberdade como poder de agir ou não
agir e de realizar atos deliberados. O CIC 1739 reconhece que a liberdade
humana é finita e falível e que o ser humano se tornou escravo do pecado pelo
mau uso da liberdade. Já o CIC 1742 afirma que a graça de Cristo não se opõe à
liberdade quando esta se orienta para a verdade e o bem.

A síntese
católica: primazia da graça, resposta humana real.
7.1.
A Igreja não ensina uma salvação por esforço independente
É incorreto opor simplesmente “Lutero = graça” a “catolicismo = obras humanas”. A doutrina católica ensina que a justificação tem sua origem na graça de Deus, merecida por Cristo, e que ninguém pode merecer a graça inicial da conversão. As boas obras do cristão são fruto da graça e da união com Cristo; não são uma compra da salvação nem uma razão para vanglória. [A Igreja Católica não defende que o ser humano se salva sozinho por suas próprias obras, mas ensina que a salvação é um processo iniciado inteiramente pela graça de Deus, recebido pela fé e vivido concretamente por meio das obras de caridade (Tiago2, 17).]
O Concílio de Trento, Sessão VI (1547), Decreto sobre a Justificação, capítulos 5–8, ensina a necessidade da graça preveniente e a impossibilidade de iniciar a justificação sem a graça. Ao mesmo tempo, o capítulo 5 descreve a pessoa movida por Deus como não inteiramente passiva: pode acolher a inspiração ou rejeitá-la. O cânon 4 rejeita a tese de que o livre-arbítrio humano, movido por Deus, não coopera de modo algum ao consentir com Deus que o move.
7.2.
O que significa “cooperar com a graça”
Cooperação
não quer dizer que Deus faz metade e o ser humano completa a outra metade por
mérito autônomo. Significa que Deus é a causa primeira da salvação e que a
pessoa, elevada e auxiliada pela graça, responde verdadeiramente. A própria
capacidade de responder é dom de Deus. Por isso, a cooperação não compete com a
primazia divina.
7.3.
Liberdade, pecado e responsabilidade
A
doutrina católica distingue liberdade de impecabilidade. Uma pessoa pode ser
livre e, ainda assim, estar inclinada ao pecado; pode ter a liberdade
enfraquecida por hábitos, medo, ignorância ou coação. O Catecismo da Igreja Católica,
nº 1735 ensina que esses fatores podem diminuir a imputabilidade moral. A
liberdade não significa poder fazer o bem sem ajuda divina, mas capacidade real
de atos voluntários, que a graça cura e aperfeiçoa.
8.
Padres da Igreja e tradição antiga
8.1.
Santo Irineu de Lião (c. 130–202)
Irineu
combateu sistemas gnósticos que comprometiam a responsabilidade humana. Em
Contra as Heresias IV, 37, argumenta que Deus concedeu liberdade ao ser humano
e que os mandamentos seriam sem sentido se as pessoas não pudessem obedecer ou
desobedecer. O Catecismo cita Irineu em CIC 1730: o homem é racional, criado
livre e senhor de seus atos.
“O homem é
racional e, por isso, semelhante a Deus; foi criado livre em seu arbítrio e
poder.”
— Santo Irineu de Lião, Contra as Heresias IV, 4, 3; tradução tradicional.
8.2.
Santo Agostinho de Hipona (354–430)
Agostinho
é central para ambos os lados. Contra Pelágio, afirmou que a graça é
indispensável, não apenas para perdoar pecados passados, mas para curar a
vontade e possibilitar o bem salvífico. Em De gratia et libero arbítrio (A
graça e o livre-arbítrio), escrito por volta de 426–427, insiste que a
existência dos mandamentos pressupõe a vontade humana, enquanto o cumprimento
do bem depende da graça. Portanto, Agostinho não deve ser reduzido a uma tese
simples de autonomia ou de ausência de liberdade.
“Os
próprios mandamentos divinos não seriam úteis ao homem se ele não tivesse livre
escolha da vontade.”
— Santo Agostinho, De gratia et libero arbitrio, cap. 2; tradução livre.
Agostinho
ensina também que Deus opera em nós para que queiramos e coopera conosco quando
queremos. A graça não é prêmio por um mérito anterior; ela antecede e
transforma. A leitura católica considera que a formulação agostiniana permite
afirmar, ao mesmo tempo, a primazia da graça e a realidade da vontade.
8.3.
São João Crisóstomo (c. 349–407)
Nas
homilias sobre as cartas de Paulo, Crisóstomo frequentemente interpreta os
convites e exortações apostólicas como apelos à responsabilidade humana. Ao
comentar Filipenses 2,12–13, enfatiza a necessidade de agir, sem esquecer que
Deus concede a capacidade e o auxílio. A tradição patrística não oferece uma
terminologia uniforme, mas recusa tanto a autossalvação pelagiana quanto a
ideia de que os mandamentos sejam destituídos de sentido.
8.4.
São Cirilo de Jerusalém (c. 313–386)
Nas
Catequeses, Cirilo explica que o ser humano tem liberdade de escolha e é
responsável por suas ações. O mal não deve ser atribuído a Deus como autor da
maldade; a pessoa escolhe e responde por seus atos. Esse testemunho é
importante para a tradição oriental, que costuma destacar a sinergia —
cooperação entre a graça divina e a resposta humana — sem entender essa
cooperação como independência de Deus.
8.5.
Síntese patrística
Os
Padres não formam um bloco simplista em que todos respondem às controvérsias
modernas com as mesmas categorias. A tradição antiga sustenta a
responsabilidade humana e, sobretudo em Agostinho, a necessidade radical da
graça. O uso correto dos Padres exige contexto, obra e capítulo, e não apenas
frases soltas.
9.
Concílio de Trento, Catecismo e documentos católicos
9.1.
Concílio de Trento — Sessão VI, Decreto sobre a Justificação (13 de janeiro de
1547)
O
Concílio de Trento respondeu a controvérsias da Reforma sobre pecado, graça,
justificação e boas obras. O decreto não ensina que o homem se justifica sem
Deus. Pelo contrário, declara que a justificação começa pela graça preveniente
de Deus em Cristo. Sua diferença em relação à tese mais forte de Lutero está em
afirmar que a pessoa, movida pela graça, não é absolutamente inerte e pode
consentir.
· Capítulo
5: a preparação para a justificação é iniciada pela graça preveniente; a
pessoa, despertada e auxiliada, não é inteiramente passiva.
· Capítulo
6: descreve o processo de preparação, incluindo fé, temor, esperança, amor e
arrependimento.
· Capítulo
7: apresenta a justificação como não apenas remissão dos pecados, mas
santificação e renovação interior.
· Cânon
4: rejeita a afirmação de que o livre-arbítrio humano, movido e excitado por
Deus, não coopera de modo algum ao consentir com Deus que o move.
Fonte
primária: Canons and Decrees of the Council of Trent, Sessão VI, Decreto sobre
a Justificação. A versão inglesa consultada está disponível na coleção de
documentos históricos Wikisource; para citação acadêmica, confira uma edição
crítica ou tradução aprovada.
9.2.
Catecismo da Igreja Católica
· CIC
1730: dignidade humana, razão, iniciativa e domínio dos atos.
· CIC
1731–1734: definição de liberdade, possibilidade de escolher e
responsabilidade.
· CIC
1735: fatores que diminuem ou anulam a imputabilidade.
· CIC
1739–1742: liberdade ferida pelo pecado, libertação em Cristo e relação entre
graça e liberdade.
· CIC
1996–2001: a graça é favor gratuito, auxílio de Deus e iniciativa divina;
ninguém pode merecer a graça primeira.
9.3.
Concílio Vaticano II
Gaudium
et spes 17 afirma que Deus quis deixar o ser humano “nas mãos de sua própria
decisão”, para que busque livremente o Criador. O texto não descreve uma
liberdade absoluta, mas uma dignidade que exige decisões verdadeiramente
humanas.
9.4.
Encíclicas e documentos papais
A
questão do livre-arbítrio não é tratada por uma única encíclica moderna que
resolva todos os pontos da disputa com Lutero. Para evitar atribuições
imprecisas, os documentos mais diretamente úteis são o decreto tridentino, o
Catecismo e Gaudium et spes. Como enquadramento mais amplo, podem ser
consultados:
· Leão
XIII, Libertas praestantissimum (1888): sobre a liberdade humana, a lei moral e
a relação entre liberdade e verdade.
· João
Paulo II, Veritatis splendor (1993): sobre liberdade, lei moral, consciência e
responsabilidade.
· Concílio
Vaticano II, Dignitatis humanae (1965): sobre a dignidade da pessoa e a
liberdade religiosa; não deve ser confundida com uma tese específica sobre a
justificação.
Esses
documentos ajudam a explicar que liberdade não significa independência absoluta
de Deus nem licença para qualquer escolha. A liberdade é dom e
responsabilidade, ordenada à verdade e ao bem.
10.
Outras denominações cristãs
Não
existe uma única posição protestante sobre o livre-arbítrio. A própria
controvérsia histórica entre Lutero e Erasmo reaparece, com vocabulários
diferentes, em tradições luteranas, reformadas, arminianas e metodistas.
10.1.
Luteranismo confessional
As
Confissões Luteranas, especialmente a Fórmula de Concórdia (1577), afirmam a
incapacidade espiritual do ser humano caído de converter-se por suas próprias
forças e atribuem a conversão à ação do Espírito Santo. Ao mesmo tempo,
distinguem a passividade humana na conversão da atividade humana em assuntos
civis e cotidianos. Não se deve presumir que todo luterano contemporâneo
formule cada questão exatamente como Lutero em 1525.
10.2.
Tradição reformada/calvinista
Muitas
tradições reformadas ensinam a depravação total e a eleição divina, defendendo
que a graça eficaz transforma a vontade de modo que a pessoa venha livremente a
Cristo. Em certas versões, a liberdade é compatível com a determinação
providencial dos atos. Essa posição tem semelhanças com Lutero na ênfase à
soberania divina, mas não é idêntica em todos os detalhes.
10.3.
Arminianismo e metodismo
Arminianos
e metodistas, em geral, enfatizam a graça preveniente: Deus toma a iniciativa e
torna possível uma resposta humana real, que pode ser acolhida ou resistida. A
vontade caída não consegue salvar-se sem a graça, mas a graça pode restaurar a
capacidade de responder. Nessa dimensão, aproximam-se de aspectos da formulação
católica, embora existam diferenças sobre justificação, sacramentos e
perseverança.
10.4.
Cristianismo oriental
As
tradições ortodoxas orientais costumam falar de sinergia: a salvação é dom de
Deus e a pessoa coopera com a graça. A sinergia não é entendida como duas
forças iguais nem como mérito independente. O vocabulário e as ênfases diferem
do catolicismo latino, mas existe afinidade na recusa de separar a graça da
resposta humana.
11.
Avaliação crítica à luz da doutrina católica
11.1.
O que a crítica católica reconhece em Lutero
· Sua
insistência em que a salvação não é conquista autônoma do ser humano.
· Sua
crítica ao orgulho espiritual e à confiança em méritos independentes da graça.
· Sua
ênfase na gravidade do pecado e na necessidade de Cristo.
Essas
preocupações não são estranhas ao catolicismo. Agostinho, Trento e o Catecismo
também rejeitam o pelagianismo e afirmam que a graça precede, acompanha e
conduz a vida cristã.
11.2.
Onde a doutrina luterana clássica é considerada insuficiente ou errada pela
posição católica
· Se
a vontade é descrita como sem qualquer cooperação real na conversão, a
responsabilidade e os convites bíblicos à resposta tornam-se difíceis de
explicar.
· Se
a presciência e a soberania de Deus forem tratadas como necessidade que elimina
a liberdade criada, corre-se o risco de confundir conhecimento divino com
coerção.
· A
leitura católica de Filipenses 2,12–13 entende que a ação de Deus capacita a
ação humana, e não que uma exclua a outra.
· A
tradição católica interpreta Eclesiástico 15,14–17, Deuteronômio 30,19 e outras
exortações como testemunhos da liberdade real, embora ferida e dependente da
graça.
A
formulação precisa é importante: a Igreja Católica não condena a tese de que o
homem não pode salvar-se sem a graça — ela a afirma. Rejeita, porém, a negação
de toda cooperação livre da vontade movida por Deus, conforme o cânon 4 da
Sessão VI de Trento. O juízo recai sobre a proposição doutrinal, não sobre a
dignidade pessoal de Lutero ou de cristãos luteranos.
11.3.
A questão filosófica: saber, causar e permitir
Uma
das dificuldades centrais é distinguir quatro ideias: (a) Deus sabe o que
acontecerá; (b) Deus sustenta toda criatura no ser; (c) Deus causa o bem da
graça; (d) Deus força uma pessoa a agir contra sua vontade. A doutrina católica
afirma as três primeiras em sentidos cuidadosamente definidos, mas não conclui
que toda ação humana seja coercivamente imposta. A pessoa pode agir
voluntariamente, mesmo dependendo ontologicamente de Deus.
11.4.
A crítica deve ser historicamente justa
Lutero
não pode ser resumido a um slogan. Seu livro foi escrito em uma controvérsia
precisa, e os termos “liberdade”, “necessidade”, “vontade” e “graça” variam de
significado conforme o contexto. A melhor crítica é ler a obra primária,
comparar a definição de Erasmo, consultar Agostinho e verificar o que Trento
realmente condenou, sem atribuir à Igreja Católica a ideia de salvação por
esforço próprio.
12.
Conclusão
A
controvérsia entre Lutero e Erasmo revela uma pergunta central do cristianismo:
se a salvação é dom gratuito de Deus, que lugar resta à liberdade humana?
Lutero respondeu enfatizando a escravidão da vontade caída e a eficácia
soberana da graça. Erasmo sustentou que os mandamentos e os apelos à conversão
implicam uma resposta humana significativa. A doutrina católica procura
preservar os dois polos: sem a graça, nada podemos fazer para a salvação;
movidos pela graça, podemos responder verdadeiramente.
À
luz da doutrina católica, a posição de Lutero é problemática quando nega a
cooperação livre da vontade na conversão. O Catecismo ensina que a liberdade é
real, embora ferida, e que a graça não a destrói: cura-a e aperfeiçoa-a. A
salvação não é obra independente do homem, mas também não transforma a pessoa
em objeto sem resposta. Deus toma a iniciativa; a pessoa, sustentada por Ele, é
chamada a acolher livremente o dom.
“Trabalhai pela vossa salvação com temor e tremor; pois é Deus quem opera em vós o querer e o agir, segundo a sua vontade.”
— Filipenses 2,12–13; tradução litúrgica pode variar.
13.
Bibliografia e fontes primárias
Fontes
primárias
· AGOSTINHO
DE HIPONA. De gratia et libero arbitrio (A Graça e o Livre-Arbítrio),
especialmente caps. 1–5. Texto em inglês: New Advent, “On Grace and Free Will”.
Disponível em: https://www.newadvent.org/fathers/1510.htm
· ERASMO
DE ROTERDÃ. De libero arbitrio diatribe sive collatio. Basileia, 1524.
Consultar edição crítica em Erasmi Opera Omnia, seção IX-2, ed. Johannes
Clericus (Jean Le Clerc), Leiden, 1703–1706; para estudos modernos, ver Peter
Macardle e outros editores de Erasmus.
· LUTERO,
MARTINHO. De servo arbitrio (1525), resposta a Erasmo. Tradução inglesa: The
Bondage of the Will, Christian Classics Ethereal Library. Disponível em:
https://ccel.org/ccel/luther/bondage
· CONCÍLIO
DE TRENTO. Sessão VI (13 jan. 1547), Decreto sobre a Justificação, capítulos
5–8 e cânones 4–5. Tradução inglesa disponível em:
https://en.wikisource.org/wiki/Canons_and_Decrees_of_the_Council_of_Trent/Session_VI/Justification
· IGREJA
CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica, §§ 1730–1742 e 1996–2001. Texto oficial
do Vaticano: https://www.vatican.va/archive/catechism_sp/p3s1c1a3_sp.html
· CONCÍLIO
VATICANO II. Constituição pastoral Gaudium et spes, § 17.
· LEÃO
XIII. Encíclica Libertas praestantissimum, 20 jun. 1888.
· JOÃO
PAULO II. Encíclica Veritatis splendor, 6 ago. 1993.
· CONCÍLIO
VATICANO II. Declaração Dignitatis humanae, 7 dez. 1965.
Estudos
e obras de referência
· WATSON,
Philip S. “Erasmus, Luther, and Aquinas.” Concordia Theological Monthly, vol.
40, n. 1, 1969. Estudo sobre graça e livre-arbítrio no debate.
· WETZEL,
James. “The Recovery of Free Agency in the Theology of St. Augustine.” Harvard
Theological Review. Cambridge University Press, publicado on-line em 10 jun.
2011.
· VOGEL,
Andre. “Biblical-theological basis of Luther’s understanding about De Libero
and De Servo Arbitrio.” Vox Scripturae: Revista Teológica Internacional, 2016,
vol. 24, n. 2. DOI: 10.25188/2447.7443.2016v24n2.286.
· “Free
Will.” The Catholic Encyclopedia. New Advent. Verbete histórico sobre
livre-arbítrio e Reformadores: https://www.newadvent.org/cathen/06259a.htm
Referências
bíblicas principais
Gn
2–3; Dt 30,15–20; Js 24,15; Eclo 15,14–17; Ez 18,23–32; Mt 23,37; Jo 6,44; Jo
15,5; Rm 7,14–25; Rm 9,14–18; 1Cor 7,37; Ef 2,1–10; Fl 2,12–13; Gl 5,1.13.
